segunda-feira, junho 01, 2026

Apagão

Sento-me numa esplanada de café à espera. Do outro lado da vidraça, no Burguer King ao lado, vejo pilhas de medicamentos sobre a mesa. Um chama-me a atenção pelo nome, "Sedoxil". Não deve ser para os diabetes seguramente. Na mesa estão mãe e filho, negros. Fez-me alguma confusão. Na minha cabeça, as pessoas de cor não precisam de ansiolíticos. Meu Deus, que observação tão preconceituosa, tão estereotipada. Por falar nisso, hoje tive um ataque cerrado de neurastenia no meio do Douro. Porquê? Não sei. Grupo porreiro, interagiam. Um casal finlandês muito simpático de uma pequena cidade costeira, "Oulo". Assumi que faziam sauna. Verdade. Mais um clichê. Quatro franceses, 1 casal da Sabóia e outro de Bordéus. Muito agradáveis também. A senhora francesa era um amor, sentou-se ao meu lado. 

"Vous savez, votre Français est très bon. Vous connaissez la France?"

O casal inglês, os mais velhos do grupo. Ele era um ex-pastor anglicano da zona de Bristol, a mulher praticamente não falava. Muito observadora, fleumática, olhar prescutador. Parece que estava à espera de um deslize, de um mau comportamento. A avozinha do grupo. O ex-pastor tinha a voz fina, caricatural, um personagem saído de uma série.

É claro que fiquei a zeros no fim. 

"Merci, thanks, thanks em suomi, thanks em português".

Li algures na net que vai haver em breve novo apagão mundial de 3 dias e 2 noites. Temos de ir forçadamente para "dentro", parece que o Covid não foi suficiente.

domingo, maio 31, 2026

Sobre Moby Dick e outras criaturas


Herman Melville. 
O autor de "Moby Dick", o famoso romance do capitão Ahab contra a gigantesca baleia. Quando um livro pode ser lido por alienígenas, adultos, adolescentes e até crianças - com diferentes leituras e percepções, é óbvio - significa que temos em mãos uma obra intemporal. Se me perguntarem (obrigado por o fazerem), acho que é a história de uma grande obsessão. Parece-me que se trata de uma grande metáfora, uma estranha imagética para o conflito mental e emocional de Ahab, a terrível baleia é o seu volumoso e temível demónio interior. Um leviatã vindo do inconsciente. Na verdade, o cetáceo é um cachalote que em inglês diz-se "sperm whale" - mais freudiano que isto é impossível. E, sim, eu sei que "Dick" também pode ser calão para o órgão sexual masculino, mas creio que no caso do título foi uma coincidência. Seja como for, não estamos perante apenas uma epopeia marítima. É muito mais do que isso, tem várias camadas, é um clássico universal. O livro foi um fracasso de vendas e, como acontece muitas das vezes, Melville só obteve reconhecimento depois de morto (1891).

Agora vamos falar um pouco de mim, se me permitem. No meu caso, não são tanto baleias, são mais peixes abissais fantasmagóricos que me fazem perder o norte. De vez em quando. Vou chamá-los de peixes-intrusivos. Acabei de baptizá-los. Com o risco de me repetir (porque é assim o seu "modus operandi"), mergulho nas minhas profundezas - sem querer, é importante frisá-lo - e, quando menos espero, aparecem-me estes peixes translúcidos, com olhos desproporcionais e dentes de serrilha que me fazem abanar um pouco. Irrompem do meu inconsciente para ficarem a gravitar na minha cabeça durante um bom pedaço, querem atenção plena. 
E o que é que eu faço? 
Deixo-os nadar no meu éter privado durante o tempo que quiserem e, eventualmente, esses peixinhos abissais acabam por ir-se embora. Não passam de pequenas sombras fantasmagóricas que só existem porque lhes dou atenção. Acho que vou usar o meu vigoroso arpão para outras práticas. Algo me diz que pode ajudar-me a dissipar estes peixinhos.

sábado, maio 23, 2026

No cais

A meu lado uma freira está sentada a olhar para o outro lado do rio. Alguém está a tocar saxofone para animar a multidão. Calor abafado. O Douro é uma passarela de rabelos. A irmã é uma pequena ilha cinza e negra no meio de uma Disneylândia de galos de Barcelos, bacalhaus, natas e outras cenas tipicas. A mão direita está a apoiar o queixo, parece o Pensador do Rodin. É a mulher mais coberta da zona. Senti uma necessidade enorme de abraçá-la, lembrei-me da Sylvia Plath, não sei bem porquê. Espero pela minha família de Providence, Massachusetts para mostrar o resto. São um pouco estranhos, têm uma dinâmica muito própria. Ofereci a minha pulseira de olho de tigre ao "pai", ele ficou sem saber o que me dizer. O sotaque de Boston parte-me todo. "Departed".

quarta-feira, maio 20, 2026

Crane, Remark, Tolstoi

 

Erich M Remarque

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Amanhã vou para Aveiro, destacaram-me com toda a força. Ovos moles, moliceiros, flor de sal, art nouveau. É isto Aveiro.

Lembrei-me agora de um velho tema do Estado Novo cujo título é "Angola É Nossa", lembro-me dos meus pais me terem falado quando era miúdo. Anos 60. É um ritmo marcial, um pouco maníaco e assustador. O meu pai esteve em Angola. Creio que não me contou três quartos das coisas que viu e sofreu. Tudo muito recalcado, e o resultado ficou à vista anos depois. A dada altura creio que os meus avós paternos acharam que ele tinha morrido ou desaparecido. Voltou quase em glória três anos depois. O vulcão chamado J B Amaral entrou em erupção anos depois, fumava como se não houvesse amanhã, às vezes bebia como se não houvesse amanhã também. Triste geração. Os que sobreviveram vieram todos fodidos de África, desculpem-me a expressão. Se não me desculparem, paciência.

Lembrei-me também agora de dois grandes livros sobre guerra que li há quase vinte anos e causaram-me forte impressão na minha cabeça jovem e impoluta: "Red Badge of Courage" do Stephen Crane que fala sobre a a terrível Guerra Civil Americana e o "A Oeste Nada de Novo" (Im Westen nichts Neues em alemão) do Erich Maria Remarque que me prendeu do princípio ao fim, falava sobre a 1º G.M. A temática anti-guerra de Remarque levou o livro a ser considerado "antipatriótico" pelo ministro da propaganda nazi, o Goebbels. Nunca consegui ler de fio a pavio "O Guerra e a Paz" do Tolstoi, achava que ainda não tinha maturidade (ou até paciência) suficiente para o ler. Dizem que é genial e eu acredito, nem seria de esperar outra coisa. Tolstoi em russo significa "espesso" ou "gordo".

 

sábado, maio 16, 2026

O malaio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje conheci um malaio que possuía aquilo que antigamente de chamava de "verve". 
Usava um chapéu panamá, camisa de linho e parecia mais jovem quando falava um inglês muito BBC.
Muito eloquente, tinha um jeito elegante, cavalheiresco, encadeava assuntos com a maior das facilidades, era um humanista agnóstico, interessava-se por tudo. Parecia saído de um romance do Lawrence Durrell.
Ele e um dinamarquês muito dinamarquês sentaram-se ao meu lado durante o almoço numa quinta perdida no Douro, o homem ia celebrar o 70º aniversário para a semana, a conversa e o vinho fluíam muito bem.

Aprendi com ele (e com a filha que também era muito rápida) que as línguas portuguesa e malaia possuem palavras muito semelhantes. Malaca, ou “Melaka” em malaio, foi uma base importante para a expansão portuguesa nas Índias Orientais no século XVI, o temível Afonso de Albuquerque tomou conta daquele importante entreposto comercial. Chineses, ingleses, holandeses, todos queriam apoderar-se daquela cidade de localização privilegiada - o estreito de Malaca (em malaio Selat Melaka) era e é a principal passagem marítima entre os oceanos Índico e Pacífico. O Trump esteve a ler História de Portugal, é por demais evidente. 
Bom, mas eis algumas das palavras:
Meja (mesa), kerusi (cadeira), lemari / almari (armário), sabun (sabão), tuala (toalha), keju (queijo), garfu (garfo), Gereja (igreja), sekolah (escola), bendera (bandeira), etc. 

Mas apanhei-o na curva, como se costuma dizer, quando comecei a falar de música com o dinamarquês que se mostrou-se surpreendido quando lhe disse que conhecia os D:A:D (sigla para Disneyland After Dark), uma respeitadíssima instituição rock na Dinamarca. É claro que o septuagenário malaio quis brilhar e quis dizer o nome de uma outra banda dinamarquesa cujo nome era "longo e impronunciável", o homem queria lembrar-se do nome mas não conseguia. Ficou claro que a tal banda não existia. Eu e o dinamarquês entreolhamo-nos e lemos os balões de pensamento um do outro:
"Finalmente apanhamos o velho".
Estava a ver que não, o Afonso de Albuquerque se fosse vivo teria tido orgulho de mim.

quinta-feira, maio 14, 2026

Trabalho


Parece que estive todo o dia em jet lag e, no entanto, não saí deste Jardim Atlântico. Sete pessoas hoje para o vale do Douro que estava lindíssimo. 1 casal jovem, 1 casal idoso e uma família japonesa. Pu-los logo em sentido de manhã principalmente ao mais velho, antigo farmacêutico, era muito parecido com o capitão von Trapp. Faziam as perguntas do costume, sempre impressionados com o meu elevado nível de Inglês. Eu culpo sempre os Westerns que via em miúdo e o rock que ainda consumo. Os japoneses viviam em Nova Iorque. Brilhei um pouco com algumas palavras básicas. Alguma neura porque não corresponderam às minhas expectativas, revelaram-se todos bastante previsíveis. Vou agora para as aulas. Gosto dos meus colegas. São boas pessoas. Quem diria que iria voltar a sentar-me numa sala de aula.

Mas, sim, mudei um pouco desde o primeiro dia de escola há quarenta anos.

quarta-feira, maio 13, 2026

Mulheres

Acredito que tal como alguns países ao longo da História, há mulheres que não podem ser conquistadas. Podem ser ocupadas, por exemplo, mas não podem ser conquistadas. Por motivos religiosos, na maioria das vezes. 

"Isto agora é meu." Aqui não resulta. 

Vou chamar-lhes "Mulheres-Índia". Saris e olhos negros profundos. Quando são muito bonitas, elas não são deste mundo. 

Por outro lado, há mulheres que podem ser tocadas, insinuar uma tentativa de conquista, haver trocas (humm), mas não podem ser conquistadas. A sua arte, a sua cosmovisão, o seu combate, são tão diferentes do homem que tal empresa se afigura como quase impossível. Diferentes motivos das primeiras, porém. Distanciamento permanente. Aparentam submissão. As "Mulheres-Japão". 

Depois há as mulheres que se permitiram a tudo isso e mais além. Miscigenação completa. Uso da força no inicio, mas depois houve uma fusão, uma aglomeração, uma sedução. A "Mulher-Brasil". Uma certa rebeldia muito sedutora, tremendamente musical.

Finalmente, a "Mulher-África". Relação muito desigual, definida logo no começo da relação. Abuso. Passividade. Mas depois dá-se um processo inverso curioso de colonização do homem. O sexo é tão natural como comer e dançar.