Pedro e o Lobo
amapedro@gmail.com | "Nunc est bibendum" - Horácio
sábado, maio 23, 2026
No cais
quarta-feira, maio 20, 2026
Crane, Remark, Tolstoi
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| Erich M Remarque |
Amanhã vou para Aveiro, destacaram-me com toda a força. Ovos moles, moliceiros, flor de sal, art nouveau. É isto Aveiro.
Lembrei-me agora de um velho tema do Estado Novo cujo título é "Angola É Nossa", lembro-me dos meus pais me terem falado quando era miúdo. Anos 60. É um ritmo marcial, um pouco maníaco e assustador. O meu pai esteve em Angola. Creio que não me contou três quartos das coisas que viu e sofreu. Tudo muito recalcado, e o resultado ficou à vista anos depois. A dada altura creio que os meus avós paternos acharam que ele tinha morrido ou desaparecido. Voltou quase em glória três anos depois. O vulcão chamado J B Amaral entrou em erupção anos depois, fumava como se não houvesse amanhã, às vezes bebia como se não houvesse amanhã também. Triste geração. Os que sobreviveram vieram todos fodidos de África, desculpem-me a expressão. Se não me desculparem, paciência.
Lembrei-me também agora de dois grandes livros sobre guerra que li há quase vinte anos e causaram-me forte impressão na minha cabeça jovem e impoluta: "Red Badge of Courage" do Stephen Crane que fala sobre a a terrível Guerra Civil Americana e o "A Oeste Nada de Novo" (Im Westen nichts Neues em alemão) do Erich Maria Remarque que me prendeu do princípio ao fim, falava sobre a 1º G.M. A temática anti-guerra de Remarque levou o livro a ser considerado "antipatriótico" pelo ministro da propaganda nazi, o Goebbels. Nunca consegui ler de fio a pavio "O Guerra e a Paz" do Tolstoi, achava que ainda não tinha maturidade (ou até paciência) suficiente para o ler. Dizem que é genial e eu acredito, nem seria de esperar outra coisa. Tolstoi em russo significa "espesso" ou "gordo".
sábado, maio 16, 2026
O malaio
Hoje conheci um malaio que possuía aquilo que antigamente de chamava de "verve".
Usava um chapéu panamá, camisa de linho e parecia mais jovem quando falava um inglês muito BBC.
Muito eloquente, tinha um jeito elegante, cavalheiresco, encadeava assuntos com a maior das facilidades, era um humanista agnóstico, interessava-se por tudo. Parecia saído de um romance do Lawrence Durrell.
Ele e um dinamarquês muito dinamarquês sentaram-se ao meu lado durante o almoço numa quinta perdida no Douro, o homem ia celebrar o 70º aniversário para a semana, a conversa e o vinho fluíam muito bem.
Aprendi com ele (e com a filha que também era muito rápida) que as línguas portuguesa e malaia possuem palavras muito semelhantes. Malaca, ou “Melaka” em malaio, foi uma base importante para a expansão portuguesa nas Índias Orientais no século XVI, o temível Afonso de Albuquerque tomou conta daquele importante entreposto comercial. Chineses, ingleses, holandeses, todos queriam apoderar-se daquela cidade de localização privilegiada - o estreito de Malaca (em malaio Selat Melaka) era e é a principal passagem marítima entre os oceanos Índico e Pacífico. O Trump esteve a ler História de Portugal, é por demais evidente.
Bom, mas eis algumas das palavras:
Meja (mesa), kerusi (cadeira), lemari / almari (armário), sabun (sabão), tuala (toalha), keju (queijo), garfu (garfo), Gereja (igreja), sekolah (escola), bendera (bandeira), etc.
Mas apanhei-o na curva, como se costuma dizer, quando comecei a falar de música com o dinamarquês que se mostrou-se surpreendido quando lhe disse que conhecia os D:A:D (sigla para Disneyland After Dark), uma respeitadíssima instituição rock na Dinamarca. É claro que o septuagenário malaio quis brilhar e quis dizer o nome de uma outra banda dinamarquesa cujo nome era "longo e impronunciável", o homem queria lembrar-se do nome mas não conseguia. Ficou claro que a tal banda não existia. Eu e o dinamarquês entreolhamo-nos e lemos os balões de pensamento um do outro:
"Finalmente apanhamos o velho".
Estava a ver que não, o Afonso de Albuquerque se fosse vivo teria tido orgulho de mim.
quinta-feira, maio 14, 2026
Trabalho
Parece que estive todo o dia em jet lag e, no entanto, não saí deste Jardim Atlântico. Sete pessoas hoje para o vale do Douro que estava lindíssimo. 1 casal jovem, 1 casal idoso e uma família japonesa. Pu-los logo em sentido de manhã principalmente ao mais velho, antigo farmacêutico, era muito parecido com o capitão von Trapp. Faziam as perguntas do costume, sempre impressionados com o meu elevado nível de Inglês. Eu culpo sempre os Westerns que via em miúdo e o rock que ainda consumo. Os japoneses viviam em Nova Iorque. Brilhei um pouco com algumas palavras básicas. Alguma neura porque não corresponderam às minhas expectativas, revelaram-se todos bastante previsíveis. Vou agora para as aulas. Gosto dos meus colegas. São boas pessoas. Quem diria que iria voltar a sentar-me numa sala de aula.
Mas, sim, mudei um pouco desde o primeiro dia de escola há quarenta anos.
quarta-feira, maio 13, 2026
Mulheres
Acredito que tal como alguns países ao longo da História, há mulheres que não podem ser conquistadas. Podem ser ocupadas, por exemplo, mas não podem ser conquistadas. Por motivos religiosos, na maioria das vezes.
"Isto agora é meu." Aqui não resulta.
Vou chamar-lhes "Mulheres-Índia". Saris e olhos negros profundos. Quando são muito bonitas, elas não são deste mundo.
Por outro lado, há mulheres que podem ser tocadas, insinuar uma tentativa de conquista, haver trocas (humm), mas não podem ser conquistadas. A sua arte, a sua cosmovisão, o seu combate, são tão diferentes do homem que tal empresa se afigura como quase impossível. Diferentes motivos das primeiras, porém. Distanciamento permanente. Aparentam submissão. As "Mulheres-Japão".
Depois há as mulheres que se permitiram a tudo isso e mais além. Miscigenação completa. Uso da força no inicio, mas depois houve uma fusão, uma aglomeração, uma sedução. A "Mulher-Brasil". Uma certa rebeldia muito sedutora, tremendamente musical.
Finalmente, a "Mulher-África". Relação muito desigual, definida logo no começo da relação. Abuso. Passividade. Mas depois dá-se um processo inverso curioso de colonização do homem. O sexo é tão natural como comer e dançar.
terça-feira, maio 12, 2026
Tango para 2
Estou convencido de que para escrever um história de fôlego, um romance, por exemplo, temos que extenuar o leitor para o depois resgatar. É uma "fórmula" que é utilizada constantemente pelos ditos grandes escritores.
Poderia escrever, por exemplo, a história de dois amantes que vivem num dos muitos subúrbios de Buenos Aires em que ele, para sobreviver, tem que dançar tango todas as noites. Não seria apenas uma necessidade psicológica, seria também uma necessidade física, visceral. Fá-lo de forma inconsciente, precisa do contacto, precisa de várias parceiras para manter uma espécie de sanidade mental. De dia, hiberna, não tem trabalho. O tango salva-o todas as noites de si mesmo. É um ciclo que deseja manter até se redimir.
"E ela, a amante, quando vais falar dela?", poderão perguntar.
"Ela espera por ele? Porque é que ela não o acompanha nessas intermináveis milongas? Ela tem outros homens, outros parceiros?"
Teria de vos cansar ainda mais, falando, caracterizando-o ad nauseum para depois finalmente começar a falar dela, do que ela pensa e sente.
E vocês? Como é que acham que a história poderá se desenvolver a partir daqui?
domingo, maio 10, 2026
Arroz de marisco
Embrenhado no que ando ainda a investigar, arquitectura religiosa de Entre-Douro e Minho, sinto que tenho de diminuir a passada mental; a minha cabeça parece que tem batentes de metal por fora que são usados de forma compulsiva. Como sou um ser espiritual (todos somos na verdade), acredito que sejam os meus mentores ou obsessores que gostam de me bater com força ou delicadeza, dependendo do lado. Isto até poderia ser uma boa imagem ou metáfora se não fosse verdade.
Uma das coisas em que estou a ficar bom nos últimos tempos é reconhecer ou prever que determinado encontro/reunião/serviço/jantar vai correr mal. Foi o que aconteceu ontem. Fui convidado para um jantar de amigos (um evento suburbano e familiar, muito entediante) e respondi à altura do meu anfitrião que é o tipo mais passivo-agressivo que conheço. Respondi com agressividade, nada passiva, creio que já estava um pouco "tocado" e o ambiente ficou chato. Tudo por causa dos miúdos que se chatearam. Não tenho paciência para adultos que ainda não cresceram. Além disso, o tipo tem uma risada que parece uma ratazana a ser atropelada. Cerrei tanto os dentes que quase ia partindo os incisivos.
Dizem que somos espelhos uns dos outros, não é? Talvez o tipo, o dono da casa, cumpra aqui uma função: talvez seja um reflexo de um espelho emocional retorcido que tenho dentro de mim e que preciso de trabalhar. Ou isso, ou é apenas um tipo irritante.
O arroz de marisco estava bom, no entanto.
