O que torna um mentiroso um bom mentiroso?
A palavra "mentira" vem do latim mentīri, que significa "enganar" ou "dizer falsidade", e está ligada à raiz de mens (mente) e menda (falha, defeito). Ou seja, há um defeito, uma falha na mente do mentiroso para seu próprio proveito.
O que eu vou contar em seguida não é uma mentira.
Durante cerca de um ano, eu e o meu pai íamos juntos para o trabalho. Ele acordava-me às 07:20, ele já estava quase pronto. "Não tinha palha na cama" como se costuma dizer. Foi o meu primeiro trabalho a sério. Era a Epson em Perafita e ele trabalhava mais abaixo na ABB perto do Cabo do Mundo, junto à antiga Petrogal. Saíamos os dois cedo para enfrentar o trânsito da Ponte de Arrábida e depois a fila para entrar no nó de Francos. Quem mora no Porto sabe do que está a falar. Já havia trânsito na altura, mas não era a loucura que é agora. Isto foi há mais de vinte anos. Durante a viagem, raramente falávamos de algo importante. Eu conduzia, ele mandava vir com os outros condutores. Eu já tinha alguma coragem, mandava-o calar, ele calava-se. Estava a ficar velho. Mas pouco depois voltava a repetir os insultos para com outro condutor. Não gostava que eu desse passagem aos outros. Ele sabia dirigir, mas não tinha carta de condução. Deixava-o primeiro no seu local de trabalho e depois "fazia horas" no carro, em frente à praia do Cabo do Mundo. Tinha ainda 20, 30 minutos antes da minha hora de entrada. O carro tinha leitor de cd's e escutava quase sempre estes dois álbuns:
"Tiny Music... Songs from the Vatican Gift Shop" dos Stone Temple Pilots
e
"White Poney" dos Deftones.
No "Tiny Music.." dos STP, depois da última faixa, "Seven Caged Tigers", há um fadeout de um tema escondido. Esse "não-tema" fazia-me sonhar e transportava-me para outra dimensão. Não estou mentir. Era um sentimento bom mas muito estranho, parecia que a minha alma queria sair do meu corpo. Não, não era dissociação ou desrealização, era uma injecção sensorio-melódica, um mini-êxtase que me fazia sentir Outro.
Non stop. O mar revolto à minha frente, o farol da Boa Nova, a "citadela" da Petrogal atrás de mim. Parecia uma cena de um livro do J. G. Ballard. Lenços usados no chão de terra batida. Rebaixava um pouco o meu assento e escutava os gritos angustiados do Chino Moreno; depois zarpava para o labor corporativo. O início auspicioso da minha tremenda carreira profissional.
Quando evoco estas memórias, o mais incrível no meio disto tudo é o modo piloto automático em que me encontrava na maior parte do tempo. Não questionava, não pensava, não sentia. Apenas executava. Aquele pedacinho de tempo entre o trabalho do meu pai e o meu era uma honrosa excepção.
No final do dia, ia buscar o seu Amaral à ABB. Às vezes, dizia-me para esperar lá dentro. Não sabia muito bem o que fazer: via-me rodeado de CNCs, de enormes tornos, de fresadoras, um cheiro intenso a óleo e a aço entrava-me pelas narinas. A "Ode Triunfal" do Álvaro de Campos ali materializada na ABB. Já desfardado, trocávamos algumas palavras e metiamo-nos no Polo. Regressávamos a casa quase sempre em silêncio.
Isto não é ficção, isto não é uma mentira.

