segunda-feira, novembro 25, 2019

The Housemartins - Build



"London 0 - Hull 4"

sexta-feira, novembro 08, 2019

Fernão de Magalhães

Os defensores da teoria da terra plana vêem Fernão de Magalhães como um anti-cristo. Ou simplesmente como um louco enganador. 
A perspectiva das coisas é uma coisa estranha. Somos seres estranhos. Como é que um tipo nascido no meio da serra mete na cabeça que tem de provar à humanidade que a Terra é redonda, derrubando as teorias ptolomaicas, "aniquilando" dragões, leviatãs e outras criaturas hediondas que povoavam o mar? 
"Não passarás as Colunas de Hércules", eis o 11.º mandamento dos pensadores do mundo antigo.
"Ai é, vou provar o contrário: eis-me quase circum-navegado", pontapeia Fernão M.

Quantas vezes fazemos circum-navegações à volta da nossa cabeça durante um dia? Não estou a plagiar Cortázar (como poderia!), mas quantas vezes o nosso ego nos prega partidas com medos e outros monstros durante um dia? Magalhães queria novas rotas de especiarias e prestígio (obviamente), mas o seu ego e o resto acabam por morrer às mãos de uma tribo local nas Filipinas. O primitivo mata o cristão. Assim reza a história. Naturalmente, o homem de Sabrosa permanece eterno.
Mas agora a pergunta que se impõe é:
O ego pode morrer depois de tantas e aturadas circum-navegações mentais para dar lugar a algo mais sublime, mais grandioso? A maya do ego pode ser rasgada?
Se me responderem que tudo isto faz parte da nossa experiência bípede e humana, digo-vos já que não irão ganhar o prémio para a resposta mais original.

segunda-feira, outubro 14, 2019

quinta-feira, outubro 03, 2019


quarta-feira, outubro 02, 2019

Mais um dia de trabalho

Tive o encanto de conhecer ontem quatro pessoas. Graças ao meu novo métier, conheço muitas pessoas todos os dias, de todos os cantos do mundo. 
Eram dois casais. Um casal jovem e outro mais velho. Muito mais velho - o senhor Eckart estava a celebrar o seu 81º aniversário. Fartou-se de receber chamadas durante todo o dia. O senhor Eckart era muito simpático, muito vigoroso, parecia ter menos vinte anos. O seu segredo? Ele e a mulher caminham cinco quilómetros todos os dias, andam muito de bicicleta e fazem sempre a saudação ao sol quando acordam. Para quem não sabe: a "saudação ao sol" é um asana/sequência de exercícios de ioga. O senhor Eckart é um apaixonado pela vida.
O casal mais jovem estava a percorrer o mundo. Ele era cozinheiro, já tinha trabalhado na Tailândia e Hong-Kong. Falava um Inglês temperado com sol e mediterrâneo. Por vezes desaparecia e surgia com uma SB ou uma Sagres na mão (estava claramente a marimbar-se para a nossa rivalidade norte-sul, para a nossa entediante guerra de secessão nas bancadas e fora delas). A companheira, uma moça franzina, sorria com os olhos e era a mais calada do grupo.

Quando perguntei de onde vinham, ocorreu-me imediatamente que iria ser um longo dia e que estavam reunidos os ingredientes para correr tudo mal.
Correria seguramente tudo mal se viajássemos setenta anos para trás e o ponto de encontro fosse algures na Alemanha. Ou simplesmente não correria
O senhor Eckart e a mulher eram de Hamburgo. 
O jovem casal vinha de Israel. Ele nasceu em Haifa e ela era russa. Ambos falavam hebraico.

De volta ao presente. Deram-se às mil maravilhas, foi um belo dia de trabalho e lazer. Os meus receios estereotipados caíram por terra. Não foram abertas feridas, a História do século XX ficou nos livros, o inconsciente colectivo não foi escavado.
Apenas um pormenor curioso: no final do dia, confessaram-se ateus. Todos os quatro (mais uma "estereotipada", na minha cabeça todos os israelitas são judeus). Abençoei-os na mesma e desejei-lhes uma vida longa e próspera.


quinta-feira, setembro 19, 2019

Purificação pelo fogo

Lembrei-me agora que se recolhêssemos todas as obras escritas para a gaveta, obteríamos uma bela e grandiosa fogueira. Ocorreu-me logo a seguir que se juntássemos todos os best-sellers do momento, tal empreitada daria uma belíssima e ainda mais grandiosa fogueira.

segunda-feira, setembro 09, 2019

O Senhor Colaço

Existe um painel de azulejos muito curioso na estação de São Bento, no Porto. 
É um painel pequeno, discreto, passa despercebido face à imponência dos outros painéis históricos.
Jorge Colaço, o grande criador dos azulejos, fez uma "espécie" de cartoon em que o engenheiro e o arquitecto da estação estão representados como duas velhas enquanto que o próprio Colaço representa-se como um músico galando as moças. 
A literatura também deveria ser assim. 
O autor não se leva muito a sério, faz pouco do politicamente correcto (fazer pouco é fazer muito, neste caso), tem uma visão irónica e bem humorada das coisas sem nunca perder a consciência do dramático. Nem sequer vou falar destas obras, porque tenho a certeza que vocês sabem quais são.
"Para triste já basta a vida", dizia-me uma senhora brasileira - brasileira, sim - que confessou não querer conhecer a Sé por dentro porque já sabia o que ia encontrar.

sábado, agosto 31, 2019

sexta-feira, agosto 09, 2019

Vida

E quando damos por ela (adoro esta expressão, quem é "ela", será a própria vida?), estamos a viver. Mal ou bem, estamos a viver. É o grande denominador comum entre um caçador do Alaska, um puto rico de Denver, CL, uma freira de Madras ou os romenos mudos que pedem no largo da Sé do Porto. Todos eles vivem.
Tento aplicar esta diversidade de vida nas minhas leituras. A louca biografia do Slash, o Novo Testamento (o Antigo deixa-me um pouco agoniado) e os "Contos Reunidos" do Felisberto Hernandez. 
A vida é também isto: fim de tarde em família, um bebé adolescente (os ingleses têm a categoria de "toddler" para este tipo de criatura) a rasgar as melhores páginas do Livro do Desassossego enquanto ri como um diabrete e vê a "Patrulha Pata". O novo a destruir o velho, a vida a regenerar-se, um sinal do universo a dizer-me que o paradigma pessoano já viveu melhores dias. Talvez seja impressão minha, nunca fui grande fã do Pessoa. Naturalmente, o grande neurótico será sempre melhor que qualquer um de nós. Urge beber absinto em vez de gin xpto ou cerveja artesanal que custa os olhos de cara. Vamos todos beber absinto dentro ou fora dos carros enquanto esperamos nas longas filas da Galp.

segunda-feira, julho 15, 2019


quinta-feira, julho 11, 2019

Cardo mariano

Este poema tem
um carácter
exclusivamente informativo:

deixei de acreditar
no "poder da poesia"
há bastante tempo.

O cardo mariano
é bom para todas
as maleitas da vesícula e do fígado:
cirrose, hepatite, etc.

Bêbedos do meu coração!
Tomai chá de cardo mariano
para curar as vossas ressacas.

Chá de alcachofra também serve
mas tem sabor a mijo
(nunca provei mijo
- uma forma de terapia -
mas deve ser parecido).

Já sabem: chá de cardo mariano*.
Garanto-vos que é melhor
do que "cholagute".


*Também é conhecido como
cardo-leiteiro,
cardo-santo ou
serralha-de-folha.

sexta-feira, julho 05, 2019

Little Nemo

Sim, o sonho foi mais ou menos assim.

terça-feira, julho 02, 2019

Sobreurbano

A tela das vistas da nova casa é preenchida por lotes com pequenos canaviais e arbustos. Alguns montes de terra escura revolvidos pelas escavadoras (muito modernas, nada retro) aguardam; camiões enormes a dizer "Transporte Excepcional" abanam a rua de meia em meia hora. Homens com coletes verdes entram e saem do novo estaleiro, mais um prédio na forja. Em segundo plano, estende-se um conhecido Pingo Doce - quando é a próxima promoção mesmo? Três nesgas de Atlântico lá ao longe completam esta provável "instalação" do Banksy. Tanto quanto sei, pode ser aquele "mano"/"filho" de boné a descer a rua de longboard ou o velho negro com as sacas cheias que pára de vez em quando para respirar.


sábado, junho 29, 2019


terça-feira, junho 25, 2019

Keith

Para atestar o post abaixo, aqui está um exemplo de um bom contador de histórias.

A propósito, "Life" é uma das melhores biografias que já li.

quarta-feira, junho 19, 2019

Contar histórias

Desceu em mim que precisamos de contar e escutar histórias. É uma necessidade básica que se encontra no fundo da pirâmide. Contar histórias é tão obrigatório quanto o sexo. Não estou a falar de "Alta Literatura", seja lá o que isso for. A pequena história que ouvimos paragem de autocarro ou no café que levamos para casa para recontar. Mais uma vez, regressamos à infância onde (é um local físico, sim) ouvíamos histórias para dormir. Contar histórias serve para unir. Os nossos antepassados que viviam em cavernas reuniam-se à volta da fogueira para contar histórias. Os laços eram reforçados, o grupo ficava mais coeso. Até o boato em ambientes corporativos serve para cimentar relações, fazer alianças.
No meu caso, conto histórias para acrescentar algo em mim e em alguém, para dar banhos de espuma ao meu Ego, para pavonear-me face ao leitor desconhecido. Talvez  funcione também para seduzir inconscientemente potenciais leitoras, para marcar território. 
Se estiver enganado, se estiver a dizer barbaridades, não me prestem atenção, mandem-me contar histórias para outro lado.
.

quarta-feira, junho 12, 2019

Os rosacrucianos e o meu gato

O "meu" gato (baptizei-o de Ozzy se querem mesmo saber) só entra no escritório quando estou a ler algo bom. E quando escrevo bom, refiro-me a Flannery O'Connor, Rabelais, Dickens (nem todos), Hrabal ou qualquer obra de Christian Rosenkreuz. Folheava ontem as "Núpcias Alquímicas de Christian Rosenkreuz" (apenas porque gosto de ler sobre rituais de iniciação) e o gato senta-se no meu colo quase a pedir-me para ler em voz alta. Os rosacrucianos acreditam na reencarnação, talvez o gato esteja muito interessado em saber mais sobre a temática. Uma outra obra que aborda a reencarnação é "A Bela Adormecida" de Perrault que, como é sabido, não escreveu as fábulas ao acaso. Nem os Grimm. Nem o La Fontaine. Muito menos o Carroll.
O Ozzy senta-se sobre a "A Bela Adormecida" e usa-o como um pequeno tapete de ritual onde parece meditar sobre a condição humana (até, naturalmente, escutar o ruído característico do saco da ração a ser aberto).

quinta-feira, junho 06, 2019

Em mudanças. Volto já.

quinta-feira, maio 23, 2019

quinta-feira, maio 02, 2019