sábado, agosto 31, 2019

sexta-feira, agosto 09, 2019

Vida

E quando damos por ela (adoro esta expressão, quem é "ela", será a própria vida?), estamos a viver. Mal ou bem, estamos a viver. É o grande denominador comum entre um caçador do Alaska, um puto rico de Denver, CL, uma freira de Madras ou os romenos mudos que pedem no largo da Sé do Porto. Todos eles vivem.
Tento aplicar esta diversidade de vida nas minhas leituras. A louca biografia do Slash, o Novo Testamento (o Antigo deixa-me um pouco agoniado) e os "Contos Reunidos" do Felisberto Hernandez. 
A vida é também isto: fim de tarde em família, um bebé adolescente (os ingleses têm a categoria de "toddler" para este tipo de criatura) a rasgar as melhores páginas do Livro do Desassossego enquanto ri como um diabrete e vê a "Patrulha Pata". O novo a destruir o velho, a vida a regenerar-se, um sinal do universo a dizer-me que o paradigma pessoano já viveu melhores dias. Talvez seja impressão minha, nunca fui grande fã do Pessoa. Naturalmente, o grande neurótico será sempre melhor que qualquer um de nós. Urge beber absinto em vez de gin xpto ou cerveja artesanal que custa os olhos de cara. Vamos todos beber absinto dentro ou fora dos carros enquanto esperamos nas longas filas da Galp.

segunda-feira, julho 15, 2019


quinta-feira, julho 11, 2019

Cardo mariano

Este poema tem
um carácter
exclusivamente informativo:

deixei de acreditar
no "poder da poesia"
há bastante tempo.

O cardo mariano
é bom para todas
as maleitas da vesícula e do fígado:
cirrose, hepatite, etc.

Bêbedos do meu coração!
Tomai chá de cardo mariano
para curar as vossas ressacas.

Chá de alcachofra também serve
mas tem sabor a mijo
(nunca provei mijo
- uma forma de terapia -
mas deve ser parecido).

Já sabem: chá de cardo mariano*.
Garanto-vos que é melhor
do que "cholagute".


*Também é conhecido como
cardo-leiteiro,
cardo-santo ou
serralha-de-folha.

sexta-feira, julho 05, 2019

Little Nemo

Sim, o sonho foi mais ou menos assim.

terça-feira, julho 02, 2019

Sobreurbano

A tela das vistas da nova casa é preenchida por lotes com pequenos canaviais e arbustos. Alguns montes de terra escura revolvidos pelas escavadoras (muito modernas, nada retro) aguardam; camiões enormes a dizer "Transporte Excepcional" abanam a rua de meia em meia hora. Homens com coletes verdes entram e saem do novo estaleiro, mais um prédio na forja. Em segundo plano, estende-se um conhecido Pingo Doce - quando é a próxima promoção mesmo? Três nesgas de Atlântico lá ao longe completam esta provável "instalação" do Banksy. Tanto quanto sei, pode ser aquele "mano"/"filho" de boné a descer a rua de longboard ou o velho negro com as sacas cheias que pára de vez em quando para respirar.


sábado, junho 29, 2019


terça-feira, junho 25, 2019

Keith

Para atestar o post abaixo, aqui está um exemplo de um bom contador de histórias.

A propósito, "Life" é uma das melhores biografias que já li.

quarta-feira, junho 19, 2019

Contar histórias

Desceu em mim que precisamos de contar e escutar histórias. É uma necessidade básica que se encontra no fundo da pirâmide. Contar histórias é tão obrigatório quanto o sexo. Não estou a falar de "Alta Literatura", seja lá o que isso for. A pequena história que ouvimos paragem de autocarro ou no café que levamos para casa para recontar. Mais uma vez, regressamos à infância onde (é um local físico, sim) ouvíamos histórias para dormir. Contar histórias serve para unir. Os nossos antepassados que viviam em cavernas reuniam-se à volta da fogueira para contar histórias. Os laços eram reforçados, o grupo ficava mais coeso. Até o boato em ambientes corporativos serve para cimentar relações, fazer alianças.
No meu caso, conto histórias para acrescentar algo em mim e em alguém, para dar banhos de espuma ao meu Ego, para pavonear-me face ao leitor desconhecido. Talvez  funcione também para seduzir inconscientemente potenciais leitoras, para marcar território. 
Se estiver enganado, se estiver a dizer barbaridades, não me prestem atenção, mandem-me contar histórias para outro lado.
.

quarta-feira, junho 12, 2019

Os rosacrucianos e o meu gato

O "meu" gato (baptizei-o de Ozzy se querem mesmo saber) só entra no escritório quando estou a ler algo bom. E quando escrevo bom, refiro-me a Flannery O'Connor, Rabelais, Dickens (nem todos), Hrabal ou qualquer obra de Christian Rosenkreuz. Folheava ontem as "Núpcias Alquímicas de Christian Rosenkreuz" (apenas porque gosto de ler sobre rituais de iniciação) e o gato senta-se no meu colo quase a pedir-me para ler em voz alta. Os rosacrucianos acreditam na reencarnação, talvez o gato esteja muito interessado em saber mais sobre a temática. Uma outra obra que aborda a reencarnação é "A Bela Adormecida" de Perrault que, como é sabido, não escreveu as fábulas ao acaso. Nem os Grimm. Nem o La Fontaine. Muito menos o Carroll.
O Ozzy senta-se sobre a "A Bela Adormecida" e usa-o como um pequeno tapete de ritual onde parece meditar sobre a condição humana (até, naturalmente, escutar o ruído característico do saco da ração a ser aberto).

quinta-feira, junho 06, 2019

Em mudanças. Volto já.

quinta-feira, maio 23, 2019

quinta-feira, maio 02, 2019

sexta-feira, abril 26, 2019

"O Dicionário Kazar"

À espera


Ontem, fui o jovem Aldo no golfo da costa de Sirtes.
Hoje, sou ainda o tenente Giovanni Drogo na fortaleza Bastiani, à entrada do deserto dos tártaros.
Amanhã, serei também o tio Pepin na cidade onde o tempo parou.

quarta-feira, abril 24, 2019

Malabarismo

Tem dias que dou por mim a fazer malabarismo com três bolas.
Já as baptizei: uma chama-se Clarisse L., a outra é a Teresa de Lisieux e a terceira é a Raquel Welch (anos 60, naturalmente). As mulheres e o que elas representam - sempre.
Quando deixo cair uma delas, a minha psique racha um pouco e apanha alguma estática, desligo-me do mundo por uns momentos. Fico paralisado.
E a minha pergunta é muito simples: que força é esta que me faz pegar nas bolas (ou nas tochas, se for menos ambíguo para alguns de vós), sabendo que, mais cedo ou mais tarde, vou deixar cair uma delas? Que fascínio é este?

terça-feira, abril 09, 2019

"Perks"

Um dos muitos prazeres que tenho no meu actual trabalho é poder ir ao wc e verter águas no lavatório "zen" estilizado enquanto recito Fernando Pessoa, o nosso genial poeta e o mais cromo dos gajos. Deixo a porta entreaberta atrás de mim para aumentar o risco de ser caço. É claro que lavo tudo com Cif e faço cho-ku-rei para limpar as baixas energias antes de sair. A minha cara de pau fica completa quando volto para o meu lugar e pergunto ao meu colega da frente se já foi ver o filme "Snu".
Giorgio Manganelli e Alda Merini

terça-feira, abril 02, 2019

sexta-feira, março 29, 2019

Do Medo

O Medo não passa de um rinoceronte que viveu durante muito tempo numa gaiola do Aki. Acreditava - apostava até o seu chifre - que estava bem onde estava, apesar de se sentir algo desconfortável de longe a longe. Um casal de periquitos, a Dúvida e a Cisma, visitaram-no pela primeira vez e - espantem-se! - reclamaram aquele espaço como seu. O rinoceronte ficou muito, muito assustado, só conseguia respirar dentro daquela gaiola pequena, impensável pôr sequer uma pata fora da sua gaiola. E depois? Depois foi o cabo dos trabalhos.