O Medo não passa de um rinoceronte que viveu durante muito tempo numa gaiola do Aki. Acreditava - apostava até o seu chifre - que estava bem onde estava, apesar de se sentir algo desconfortável de longe a longe. Um casal de periquitos, a Dúvida e a Cisma, visitaram-no pela primeira vez e - espantem-se! - reclamaram aquele espaço como seu. O rinoceronte ficou muito, muito assustado, só conseguia respirar dentro daquela gaiola pequena, impensável pôr sequer uma pata fora da sua gaiola. E depois? Depois foi o cabo dos trabalhos.
sexta-feira, março 29, 2019
segunda-feira, março 25, 2019
Jonas e eu
O AT diz que uma baleia engoliu Jonas durante uma tempestade. Jonas pediu ajuda a Deus durante os três dias que passou dentro da baleia. Acabou por ser regurgitado para as costas de Nínive, cidade assíria e inimiga dos judeus.
No meu caso, sinto que engulo uma baleia durante as tempestades e que a baleia sobe para a minha cabeça em vez de descer para a minha barriga. Digam-me: como é que eu posso regurgitar uma baleia da minha cabeça de uma vez só? Pergunto isto porque tenho-o feito aos poucos e o "grande peixe" parece não acabar.
No meu caso, sinto que engulo uma baleia durante as tempestades e que a baleia sobe para a minha cabeça em vez de descer para a minha barriga. Digam-me: como é que eu posso regurgitar uma baleia da minha cabeça de uma vez só? Pergunto isto porque tenho-o feito aos poucos e o "grande peixe" parece não acabar.
quarta-feira, março 20, 2019
domingo, março 10, 2019
Isabel
A mãe da minha amiga chama-se Isabel. O seu pai chama-se Isabel. A Isabel (nome da minha amiga) tem duas irmãs chamadas Isabel, duas primas que se chamam Isabel, dois primos que se chamam Isabel e uma tia e um tio que também se chamam Isabel.
O tio e a tia de seu nome Isabel já tiveram alguns amigos chamados Sr. e Sra. Isabel, que tinham uma menina chamada Isabel e um menino chamado Isabel. A menina tinha bonecas, três bonecas, chamadas, respectivamente, Isabel, Isabel e Isabel.
A família da minha amiga adora um Deus chamado Isabel.
O tio e a tia de seu nome Isabel já tiveram alguns amigos chamados Sr. e Sra. Isabel, que tinham uma menina chamada Isabel e um menino chamado Isabel. A menina tinha bonecas, três bonecas, chamadas, respectivamente, Isabel, Isabel e Isabel.
A família da minha amiga adora um Deus chamado Isabel.
quinta-feira, março 07, 2019
segunda-feira, fevereiro 25, 2019
A noite escura - apontamento 34
Quando despedimos o Ego e sus muchachos (ilusões, fantasmas, pensamentos, crenças, fantasias, dúvidas, etc.), eles estrebucham um pouco, fazem um pequeno escândalo, mas lá se vão embora. Fazemos isto centenas, milhares de vezes.
No entanto, eles acabam por voltar no dia seguinte para nova inserção no mercado de trabalho da Mente. Tensão, nervosismo, ansiedade, bzzzz, mau ambiente na sala. Só que, desta vez, o senhor Ego está ligeiramente mais débil por tentar demasiadas vezes assumir o controlo das operações; a verdade é que já não temos muita paciência para as suas veleidades e flutuações de humor. O grande mentiroso é exposto.
Vamos deixá-lo sentar-se naquela cadeirinha de vime, o senhor Ego está a falar sozinho novamente, não tarda nada está a ressonar.
Ou então, talvez...talvez, vamos dar-lhe toda a nossa atenção. Vamos sentarmo-nos à sua frente e escutar o que tem para dizer, sem meias doses, sem desvios, sem contemplações, por mais aterrador que isto possa parecer.
"Ok, dá o teu melhor, diz o que tens a dizer, estou aqui para ti."
O melodrama do nosso relacionamento com o Ego poderá transformar-se numa comédia.
sexta-feira, fevereiro 22, 2019
quinta-feira, fevereiro 07, 2019
terça-feira, fevereiro 05, 2019
Tratem-me por Ismael. Há alguns anos – não interessa quando – achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira e, sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas. É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação. Sempre que sinto um sabor a fel na boca; sempre que a minha alma se transforma num Novembro brumoso e húmido; sempre que dou por mim a parar diante de agências funerárias e a marchar na esteira dos funerais que cruzam o meu caminho; e, principalmente, quando a neurastia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso para não começar a arrancar os chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua – percebo então que chegou a altura de voltar para o mar, tão cedo quanto possível.(...)
"Moby Dick", Herman Melville
quinta-feira, janeiro 31, 2019
Dia
Trabalho num escritório. Introduzo dados num programa de computador durante todo o dia. Às vezes, vou ao WC. Faço duas pausas de 15 minutos, uma de manhã, outra à tarde. Assino um livro de ponto no final do dia.
É isto. Acho que não me esqueci de nada.
É isto. Acho que não me esqueci de nada.
quarta-feira, janeiro 30, 2019
Noite escura da alma - nota VII
Todas as armadilhas nos nossos caminhos, todos os grandes atrasos ou recuos, todas as deambulações fora da pista, tudo isto não é o que parece ser. Quero dizer que tudo o que parece ser um erro tremendo não é um erro tremendo, tudo o que parece erro não é erro; é, antes de mais, tudo o que tem de ser feito. O que parece ser um passo em falso não é mais do que o próximo passo.
No jardim
Sentei-me no meu banco do jardim favorito. As três árvores que estavam atrás de mim deixaram de falar. Interrompi-lhes a conversa. Fecho os olhos (não consigo fechar os ouvidos e seria ridículo tapar as orelhas). Cruzo os braços, uma motorizada desce a rua aos tropeções. O silêncio aproxima-se devagar. Não está ninguém no jardim àquela hora. Começo a escutar os primeiros murmúrios feitos pelas folhas. É quase sempre assim.
"Costas direitas" diz a mais entroncada, um velho carvalho.
"Como nós", acrescenta a bétula.
"Pés como raízes até tocares nas nossas raízes".
"Deixa cair as folhas secas".
Vejo clarões verdes com os olhos ainda fechados. Fico assim durante algum tempo.
Quando me levanto, olho para elas.
À medida que me afasto, retomam a conversa que estavam a ter antes de eu chegar. Uma conversa naturalmente séria, em tom grave, fora do meu alcance.
"Costas direitas" diz a mais entroncada, um velho carvalho.
"Como nós", acrescenta a bétula.
"Pés como raízes até tocares nas nossas raízes".
"Deixa cair as folhas secas".
Vejo clarões verdes com os olhos ainda fechados. Fico assim durante algum tempo.
Quando me levanto, olho para elas.
À medida que me afasto, retomam a conversa que estavam a ter antes de eu chegar. Uma conversa naturalmente séria, em tom grave, fora do meu alcance.
quinta-feira, janeiro 24, 2019
Ainda a noite escura da alma
Aquele que procura irá deixar de ser o barro para ser o oleiro que molda esse mesmo barro.
Se, por um mero acaso, conseguir ser barro e oleiro, algo de muito extraordinário ocorre.
Lao-Tse e Confúcio sorriem.
Se, por um mero acaso, conseguir ser barro e oleiro, algo de muito extraordinário ocorre.
Lao-Tse e Confúcio sorriem.
segunda-feira, janeiro 21, 2019
Noite escura da alma, um apontamento
Somos grãos de areia - nisto creio estarmos de acordo. Somos enrolados pelo mar, como diz a música, e depois esperamos ao sol. Esperamos que Ele, com a sua máquina de detectar metais, passe por cima de nós. Se escondermos algo precioso, Ele poderá parar e escavar. Somos então revolvidos, abanados, atirados para o ar. Ele acredita que vale a pena. Mas a praia é imensa e somos muitos.
Não há outro remédio senão aguardar um pouco.
Não há outro remédio senão aguardar um pouco.
sexta-feira, janeiro 18, 2019
sábado, janeiro 12, 2019
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