quinta-feira, novembro 01, 2018

Mamoudou, o mauritano


Ando arredado deste blogue porque estou a atafulhar a minha cabeça com números e lentes.
As minhas desculpas ao meu único e estimado leitor que me segue da Mauritânia.
Mamoudou, o mauritano, vive numa aldeia a norte do intrigante "olho de África".
Confessou-me que gosta muito de Barry White e Sade (a cantora) e que se orgulha do seu passado de Atlante. O seu sonho é conhecer o Algarve de sotavento e barlavento e passar um mês num resort de "papo para o ar". Lê avidamente J. L. Borges e dispensa Pessoa porque acha-o muito chato e "previsível".
Mamoudou, o mauritano, pediu-me para escrever este pequeno texto para o único leitor deste blogue.
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terça-feira, outubro 23, 2018

Armistício

Hoje sonhei com o Marechal Foch.
Estava na sala de espera de uma destas modernas clínicas dentárias. Foch chegou, tirou as medidas à sala e olhou para mim durante uns bons dois minutos. Depois, sentou-se a meu lado (a sala estava praticamente vazia) e perguntou-me que horas eram.
- São três e vinte, meu General, disse-lhe.
Foch ainda não tinha sido distinguido com o posto de marechal.
- Está na hora, meu rapaz.

Sim, o momento chegou. Estou pronto para assinar o Armistício com a minha mente.

sábado, outubro 13, 2018

terça-feira, outubro 09, 2018

Colóquio

Acho que foi o G. Grass que disse "eu não sou fiel mas sou dedicado".
Pois bem, eu sou dedicado aos meus humores, aos meus fígados. Durante algum tempo, abafava-os numa bacia escura, metálica, mas essa bacia começou a transbordar. Verpiss dich Freud! Arschloch! 
De qualquer maneira, quero pensar que respeito agora esse lastro de "muddy waters" e ponho-o ao sol a corar. Não, já não barro esse pastoso lastro cinzento com geleia de optimismo ou condescendência para depois se transformar numa coisa intragável e falsa. O pequeno budinha risonho (que não é o verdadeiro Buda , mas não me apetece explicar isso agora) ri-se ainda com mais vontade, mesmo à minha frente.

Outra coisa. O Marx (vou dizê-lo com todos os dentes e próteses, com quase toda a certeza do mundo) e o Lenine eram meninos de coro quando comparados com o Lutero. Pensem.



segunda-feira, outubro 01, 2018

Restos de verão

Na esplanada "Escobar" todos os clientes são especiais.
Mãe e filha estão sentadas duas mesas à minha frente. A filha tenta explicar como funciona o novo smartphone da mãe. Começa todas as explicações com um "Oh mãe" impaciente, mas a mãe tolera-a. A filha tem pernas macias, robustas de ginásio, mas não muito trabalhadas, um celulite residual baila perto das nádegas quando cruza e descruza as pernas. Viajo para longe.
A mãe cinquentona desafia-me com um olhar seco e verde. Não querendo ser vulgar, vê-se que a senhora ainda tem gasolina no depósito para gastar. Não sei se me reprova ou se tem ciúmes. O meu ego incha e vai molhar os pezinhos no mar.
A água está gelada, chega o namorado da filha. Cumprimenta-as. A mãe olha agora para mim com algum gozo enquanto parece desfrutar daquele falso ménage.
Peço mais um fino e um pratinho de tremoços. Finjo ignorá-las e volto ao que não estava a fazer.

Despedida do verão

terça-feira, setembro 25, 2018

"Ah"

Informo-vos que gostaria de estar - neste momento e no momento a seguir - na Bahia Drake, Costa Rica, a beber água de coco enquanto folheava languidamente um livro sobre cultura pré-colombiana.
À falta de melhor, comprei um Jeff Abbott usado, "Colisão", e apostei no território nacional. Dois euros e meio (o livro apenas, viagem e estadia não incluídas).
O livro tinha vários sublinhados e algumas notas na margem a classificar de "giro" e alguns "ah" em certas passagens.
O leitor/antigo dono deste livro deixou de fazer isto ao fim da terceira ou quarta página, talvez porque já não achasse "giro" ou talvez porque tornou-se absurdo sublinhar todas as passagens e avaliá-las com um "ah".
Acho que me enquadro nesse tipo de leitor, o leitor "ah".

segunda-feira, setembro 24, 2018



terça-feira, setembro 11, 2018

Pequeno "cair da ficha"

Realizei-me agora da bipolaridade dos meus últimos textos. Descansem, estou em crer que sou apenas um simples e inofensivo neurótico à procura de algo. Tenho a dizer a meu favor que sou incrivelmente bem-parecido e que funciono bem a quase todos os níveis.
Não, não me considero narcisista (se bem que um narcisista poderia dizer isto), sou antes um grande empata. Empato-me a mim mesmo na maioria das vezes e tenho isso bem presente. Acho que faz parte do meu charme.

Revista Maria

Revista Maria,

Às vezes vou à biblioteca da minha cidade e sou crivado com olhares por parte de uma funcionária quarentona que é muito voluptuosa, muito atraente. Eu devolvo-lhe o olhar mas como sou muito tímido, disfarço folheando um livro qualquer do José Maria Tallon ou "A Bíblia da Menopausa".
Ora isto está cheio de universárias muito bonitas mas que não me interessam minimamente.
Os meus amigos gozam comigo quando lhes contam, não me compreendem.
Serei normal? O que posso fazer para combater a minha timidez? Não sei mais o que fazer.

Obrigado.

sexta-feira, setembro 07, 2018

Dores de parto

Experimentamos plenas dores de parto, estamos todos a renascer, todos os dias. Uns são mais sensíveis, sentem mais do que outros, o que é normal. Mais dor, mais vale de lágrimas, mais sofrimento*.
Vivemos numa espécie de Idade Média da Mente (ofuscados ou seduzidos pela ilusão da Tecnologia) em que tudo é permitido, o logro, a ilusão, a imbecilidade, o ruído, a distracção ("tracção para diversos lados", descentrar, falta de atenção). A Verdade (Deus, se quiserem) está nas pequenas coisas como diria a indiana Arundhati Roy.
No entanto - e trago esta certeza comigo como uma segunda pele - acredito num novo Renascimento.

* Curioso que quando vamos a um médico - por qualquer motivo - ele não pergunta "Como pensa?"; pergunta antes "Como se sente?".

segunda-feira, setembro 03, 2018

Rapidinha

Ora aqui segue uma história que creio que nunca foi contada.

Um homem vem à varanda e apoia-se no seu tapete que está a arejar. Acende um cigarro e olha para um céu cinzento, triste, muito contemplativo. O que estará ele a pensar? Mora no 4ª andar e a sua varanda-cubículo é a única do prédio que não tem marquise.
A vizinha do 3º aparece na terceira passa do vizinho de cima. Começa a estender a roupa, fá-lo com uma ligeireza que irrita um pouco. Deve ter uns cinquenta anos e usa uma blusa com um decote ousado.
O homem desce o olhar a pique e vê as raízes brancas do cabelo pintado da mulher. Estou  convencido que consegue ver mais coisas.
Ela não se dá conta daquela presença superior. Suspira, acabou de estender a última peça de roupa e fecha a janela da marquise com alguma violência.
O homem fuma a última passa e vai para dentro.
O cinzento do céu prolonga-se para tarde fora.

quarta-feira, agosto 29, 2018

Paciência

O ideal seria isto:
os meus pensamentos têm sempre via verde. Todos eles. Os legais e os ilegais. Não há controlo alfandegário. Não há muros de Berlim, texmex, etc. Olho para eles, aceno, sorrio se estiver bem disposto, etc. Porque se reagir ao seu tráfego, eles criam laços, há uma identificação e eles encostam-se a mim, à minha permeabilidade e não avançam. Ficam para jantar.
Mesmo aqueles que querem voltar para trás, vindos não sei de onde, porque simplesmente gostaram da decoração, do recheio da minha linda cabeça. Não, meus amigos, têm se seguir caminho. Acabaram-se os caramelos, as caracoletas.

Paciência. Sim, muita paciência.

quinta-feira, agosto 23, 2018

O Tao Torturado de Tom Ford

Estava aqui a pensar. O que é que o Tom Ford não sabe fazer?


So who is the real Tom Ford? He's a modernist who speaks with nostalgia about the past. A radical who considers himself old-fashioned ("Loyalty is very important to me"). An insomniac who drinks multiple cups of coffee a day ("I completely rely on sleeping pills and tranquilizers to go to sleep"). A recovering alcoholic who sees a therapist once a week ("It used to be two or three times a week"). And an A-lister who critiques the very lifestyle that has made him rich (though never the people who live it, paying $200 for his sunglasses or $3,000-plus for his suits).

terça-feira, agosto 21, 2018

quarta-feira, agosto 08, 2018

Santo Inácio de Loyola

domingo, agosto 05, 2018

Três rapidinhas


1. A canícula impede-me de escrever coisas interessantes. Sou muito sensível ao calor térmico. Quase, quase que ia escrever "calor humano" mas o meu poderoso gene dostoevskiano filtrou tal coisa.
O suor generoso escorre-me de forma ininterrupta pelos braços e nascem-me membranas interdigitais feitas de suor seco. Sou um pato-homem. Tenho muita, mas mesmo muita dificuldade em escrever. Esperem aí. Um pato não, um cisne porque sou um gajo bonito. Estou a fazer este post com a ponta do meu bico-nariz. Obrigado Gogol.


2. A minha mente fervilha de obscenidades. A irmã da minha sogra é freira e anula de uma forma muito dócil, muito subtil os pensamentos daninhos. A sua candura ataca e cauteriza os meus delírios persecutórios. É uma curadora. A senhora veio passar uns dias cá a casa. Sinto-me de certa forma alivado e nem sequer me toquei ou fui tocado. Tenho um farol de Luz debaixo do meu tecto. Não, não estou a brincar.


3. Acredito piamente (tem de ser sempre piamente, senão o verbo acreditar perde força) no Karma e na Roda de Samsara. Para obter redenção,  tenho de perdoar. Custa para carago. Uma travessia no deserto. Falsos oásis, tenho de continuar. Dois anos disto. Basicamente, tenho de perdoar o mal que fiz noutras vidas e perdoar o que essa malta me está a fazer (só para terem uma ideia, não sei o que os obsessores fizeram ao meu corta-unhas e nunca tenho papel higiénico disponível quando faço o que ninguém pode fazer por mim). Sobretudo, tenho de me perdoar a mim mesmo. Vejo daqui os vossos esgares e sorrisos trocistas. Mas sei que há uma pequena parte que se sente solidária comigo porque já passou pelo mesmo. Freud, às vezes, não explica.




quinta-feira, julho 26, 2018

terça-feira, julho 24, 2018

Teorema

A minha questão do momento é esta:
Se um chimpazé pode escrever aleatoriamente toda a obra do Shakespeare por um infinito período de tempo, porque é que não hei-de conseguir?

Já não digo Shakespeare, contentava-me com um Verne, um Machado, um Millerzinho, um Forster, um Saroyan. Oh, mas, esperem, o que vem a ser isto, um esquadrão de Ninfas e Ninfetas a vir na minha direcção?
Até digo mais: dêem-me a ilha do Pessegueiro por tempo ilimitado e eu escreverei coisas melhores do que Louys, Bataille, Hilda Hilst (Sade não, é imbatível, intransponível). 

Tudo isto é ficção como é óbvio.