quarta-feira, maio 16, 2018

A mente é um cemitério. A mente é ficção científica.
Pensa naquilo que já morreu no tempo e cria algo que ainda não existe.

quinta-feira, maio 03, 2018

Ex votos mexicanos - II






















"Certa noite, marcianos aterraram na minha quinta e entraram no meu quarto pela janela. Agradeço a N. S. de  Zapopan por não terem levado nem a mim nem ao meu cão que não acordou, apenas pegaram num dos meus chinelos."

terça-feira, maio 01, 2018

Por falar no diabo





Fod@-s&, estou apaixonado outra vez. Não tenho emenda.

segunda-feira, abril 30, 2018

Ex votos mexicanos - I



















"Na maioria das vezes, o meu marido é um homem muito chato, mas agradeço à Virgem de Guadalupe porque, de vez em quando, ele transforma-se num diabo vermelho e, durante algumas horas, o tédio pára e essas horas mais do que compensam todos os dias chatos e rotineiros."

segunda-feira, abril 16, 2018

Kureha Rokuro

terça-feira, abril 10, 2018

Frases úteis em várias línguas eslavas

Ucraniano    Моє судно на повітряній подушці наповнене вуграми
(Moje sudno na povitrianij podušci napovnene vuhrami

Eslovaco     Moje vznášadlo je plné úhorov
 
Esloveno     Moje vozilo na zračni blazini je polno jegulj

Sérvio Мој ховеркрафт је пун јегуља
(Moj hoverkraft je pun jegulja)

Russo    Моё судно на воздушной подушке полно угрей
(Moë sudno na vozdušnoj poduške polno ugrej)

Croata   Moja je lebdjelica puna jegulja
 
Checo   Moje vznášedlo je plné úhořů

quinta-feira, abril 05, 2018

No fundo, no fundo, somos todos Transformers: "more than meets the eye".

terça-feira, abril 03, 2018

Descida

Desci a rua Mousinho da Silveira que não estava calcetada, ainda era em terra batida. Havia néons e leds nas fachadas e nas montras das lojas. Uma contradição tecnológica que era aceitável na minha cabeça. O meu cabelo estava do tamanho do cabelo do Carpinteiro, entrei na primeiro salão que encontrei. A dona tinha um bronze de solário, a boca era ampla e dardejava um olhar de matrona romana. Lavou-me o cabelo mas não
quis cortá-lo. Levou-me para a pequena sala de depilação nas traseiras e tirou-me as calças. Depois tirou as suas de lycra rosa. Um fio branco, arqueado, contínuo contornava-lhe a cintura. A barriga não era escandalosa, aliás despertou-me ainda mais a libido. Fez-me aquilo que tinha de fazer, senti-me bloqueado no início com o Alain Delon desbotado na parede a olhar para nós, mas depois conseguir dar andamento à coisa. A boca da senhora era um aspirador industrial e olhava constantemente para mim, de baixo para cima, como nos filmes HC. Fin.
- E o cabelo?
- Não to corto, é um crime cortar essa cabeleira à Sansão.
Despediu-se com um beijo molhado no rosto e mordeu-me a orelha.
Meti pela rua São João onde estavam velhotas em todas as portas. Eram todas amarelas como as fachadas dos prédios a caírem de podre. Umas estavam com as mãos a segurarem os grandes queixos, outras observavam simplesmente quem passava.
Não entrei no túnel da Ribeira. Algo ou alguém não me deixou entrar. não sei dizer-vos o que era. A rua dos Mercadores não existia. Descobri um caminho de lama que seguia em paralelo com a parede em abóbada do túnel. Um regato feito pela chuva dividia o caminho. Uma enorme poça mais à frente. Os grossos salpicos do salto cagaram-me as calças. A Ponte. O Douro era igual ao Douro que todos nós conhecemos.

terça-feira, março 27, 2018

segunda-feira, março 26, 2018

quarta-feira, março 14, 2018

Seiichi Hayashi, de"Gold Pollen" (1971)


quarta-feira, março 07, 2018

O Cicerone do Amor e a Bombeira



O meu Cicerone do Amor diz-me para eu me sentar aqui, no quinto degrau destas escadas apertadas e escuras que vão dar ao Caminho das Garrafas. As escadas fazem um L e cheiram a mijo neste canto, daqui eles não nos conseguem ver, estão no fundo das escadas e demasiado entretidos um com outro para se darem conta que está alguém a espiá-los.

O meu Cicerone do Amor é a minha cara chapada, tem gestos rápidos como eu, arranca as sobrancelhas quando está nervoso, mas agora parece estar muito sereno, já deve ter feito isto muitas vezes. Aconselha-me a ficar ali agachado e quietinho para aprender como se faz, aponta o dedo para o casal de namorados. Aquelas escadas apertadas e escuras são agora uma sala de aula da qual eu sou o único aluno. Chamo-o de Cicerone do Amor porque é exactamente isso que ele é, está a mostrar-me os desconhecidos territórios do amor, e não me parece que aquilo que estão a fazer seja pecado como dizia o seu padre que se foi embora, estão apenas a explorar-se um ou outro, asfixiam-se com as línguas, mas não se vêem, trocam carícias, as barrigas palpitantes tocam-se, ela trinca-lhe na orelha e calha de fixar os seus olhos negros em mim.

Fico paralisado, sinto o meu segundo coração a bater na garganta, não tenho tempo para me transformar num pardal ou num gato, mas a moça não se assusta, não se retrai, é muito melosa, continua a fazer aquilo, sorri com os olhos para mim, fecha-os devagar e continua a lamber o rapazola que está de costas para mim. Desce um degrau para lhe dar mais jeito, a cabeça da moça afunda-se aos poucos e agora só o vejo a ele. O Ccerone do Amor receia que o rapazola se vire a qualquer momento, se o marmanjo se aperceber que estamos a dar uma de mirones, faz-nos uma cruz na testa, acaba connosco.

O meu Cicerone do Amor tem um cordel atado a um dedo, a outra ponta está em casa, diz que é para não se perder no labirinto do Monte, agarra-me no braço e faz-me sinal para irmos embora, diz que por hoje já vi o suficiente, subimos as escadas de pedra. Ouço o rapazola a gemer e depois a dizer "continua, continua, és linda", ela suspira e diz "amo-te tanto", e já não ouço mais nada. 

As escadas acabaram e já estou cá em cima, na Viela dos Gatos, o meu Cicerone do Amor desaparece, une-se a mim, não tem poderes para estar ali, naquele quelho, onde ainda moram meia dúzia de velhos e um pelotão de gatos, ele só aparece quando há jovens casais por perto, a consumirem-se pela paixão, agasalhados pelo entardecer na viela e nas escadas.

A viela cheira a pessoas velhas e a mijo de gato. O meu Cicerone do Amor passa a vida a dizer-me que os velhos parecem-se todos uns com os outros. A Bombeira vive sozinha. Passo pela porta da casa dela, é conhecida como Bombeira, porque o falecido marido era bombeiro. 

Digo "boa noite", ela responde com a sua voz rouca, "olá menino", tem os braços brancos e sinaleiros apoiados numa porta pequena, está calor, ela segura com a mão esquerda um espelho oval, a moldura dourada tem uma grinalda de rosas, e na outra mão, tem um cigarro enfiado entre o indicador e o dedo do meio que têm uma cor âmbar. Ela esconde-o, mas já não vai a tempo, já o vi, acelero o passo e escondo-me mais à frente, atrás de três degraus que dão acesso à porta da cozinha da casa do Caça-Balões. A luz do candeeiro em frente à casa da Bombeira desfalece um pouco antes do fim da Viela, ela já não me consegue ver. Não há ninguém cá fora àquela hora, ouço o tinir dos talheres nos pratos e o mastigar de bocas abertas, alguém desata aos berros do outro lado do Monte, é hora do jantar, um cheiro a peixe frito que vem da cozinha da Martinha castiga-me o nariz.

A Bombeira deve ter uns sessenta e tal anos, ela suga o cigarro e solta uma enorme fumaça que quase parte o espelho, consigo ver as suas mãos azuis, as peles do antebraço esquerdo abanam-se sempre que ela dá uma passa, ela põe o espelho num ângulo que me permite ver a sua cara. Esfrego bem os olhos, dormi mal a noite passada, arregalo-os bem, tento furar a penumbra da Viela. A Bombeira parece-me agora dez anos mais nova, quer dizer, não sei como é que ela era há dez anos, eu ainda era um bebé ranhoso, mas sei que é o rosto dela que aparece naquele lindo espelho oval, com menos rugas, menos cansado e mais luminoso, e então ela chupa outra vez o cigarro e torna a apreciar-se, o espelho devolve uma mulher na casa dos quarenta, a beleza de uma mulher madura e segura espalha-se naquele espelho generoso, as pequeninas peles ao dependuro são ainda muito aceitáveis, o cabelo fica mais forte, ela sorri e olha para cima, para as estrelas como que a agradecer-lhes por aquele momento. Mais outra passa demorada, esta valeu por duas, da sua boca sai um fio de fumo que não tem fim, a dona Bombeira é agora a menina Bombeira de vinte aninhos, “um docinho”, como diriam os homens da Loja de Cima. O falecido senhor Bombeiro tinha olho, ele sabia o que estava a fazer na altura. 

Não estou sozinho. Não é que o Cicerone do Amor apeou-se de mim e está agora de cócoras ao meu lado, com cara de idiota, ainda mais excitado do que eu. O meu cicerone do Amor gosta de pensar em voz alta, mas tem de pensar baixinho para a senhora não o ouvir, e em que é que ele está a pensar? Pensa na quantidade de mulheres capazes de matar outras mulheres para terem um espelho assim, um espelho que lhes subtraísse alguns anos, ou então, à falta de melhor, um homem-espelho que lhes mentisse, que lhes dissesse todos os dias que continuam a serem tão belas como no dia em que as conheceram. O espectáculo está prestes a acabar, a dona Bombeira atira a beata para o fundo das escadas, cola o espelho ao nível dos olhos, começa a tirar pêlos das sobrancelhas com uma pinça, usa a luz do lampião, e depois afasta-o e baixa-o lentamente até à pescoço engelhado, olha-se pela última vez, o espelho treme, o rosto viajou para a frente quarenta anos, voltou a ser o que era, cheio de rugas e manchas de velhice, mas ela não deixa de sorrir, só que é um sorriso diferente. Ainda teve tempo para cortar as unhas antes de ir para dentro, tic tic tic, um belo unheiro vai nascer ali entre os grumos do chão de cimento, há vários arbustos destes espalhados pelo Monte.

Por uma razão qualquer (deve ser a minha velha paixão por barcos), a Bombeira faz-me lembrar uma velha âncora a ser puxada para dentro do casco de um navio, ouço-a a trancar a porta, ouço-a a pigarrear durante algum tempo. Encosto-me à parede enrugada da cozinha da Martinha, tinta tartaruga, apoio o braço num dos degraus, não me apetece ir já para casa, deixo-me estar sentado até que a minha mãe me chame para jantar, o olho esquerdo começa-me a tremer, esfrego-o e fico com comichão. Só nesse momento é que me dou conta que o meu Cicerone do Amor não voltou a unir-se a mim, é um tipo muito caprichoso, mas sei que ele vai voltar.

sábado, fevereiro 24, 2018

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

Síndrome da Página em Branco

Capítulo I



















                                                                                                                     .


terça-feira, fevereiro 06, 2018

domingo, fevereiro 04, 2018

O Monte Atos



























O Monte Atos. A montanha é a ponte que pode unir a Terra e o Céu. Ao contemplarmos o seu cume do sopé, desejamos subir até ele, desejamos fazer essa travessia vertical, porque achamos que iremos estar mais perto da Eternidade. E quando o homem atinge por fim o cume, a divindade revela-se ao homem. Abraão levou o seu filho Isaque ao Monte Moriá para ser sacrificado. No último momento, um anjo aparece e impede que o pai mate o filho: Abraão passou no teste de Fé. Foi também no pico do Monte Sinai que Moisés recebeu as Tábuas da Lei com os Dez Mandamentos escritos pelo dedo do próprio Deus; Jesus subiu várias vezes ao Monte das Oliveiras para orar e pregar levando consigo os apóstolos; e finalmente "carregando Ele mesmo a sua cruz, saiu para o assim chamado Lugar da Caveira, que em hebraico se diz Gólgota."; a Santíssima Trindade é representada, muitas vezes, sob a forma de triângulo equilátero que lembra a forma de uma montanha. O Monte Olimpo, ali "ao lado", trono dos titãs e dos deuses do panteão grego. O Monte Kailash nos Himalaias onde mora Shiva e onde as pedras rezam. Machu Picchu, a cidade perdida dos Incas. O Monte Atos e os seus imponentes mosteiros, os seus anacoretas que vivem isolados do mundo para estarem mais próximos de Deus.

O misterioso Monte Atos, a "Montanha Santa", ou ainda o "Jardim dos Virgens", onde está vedada a entrada a qualquer representante do sexo feminino, seja mulher, cadela, gata, égua, capivara, etc.* Esta lei é o avanton e diz que a Montanha Sagrada de terra não pode ser profanada com a presença do género feminino: "que o seu acasalamento não forneça um espectáculo bizarro para as almas que detestam todas as formas de indecência". 

* Não, leitora, não estou a espicaçá-la, o meu bolbo raquidiano é frágil, não dá para mais, apenas controla o momento em que devo mastigar e o momento em que devo chorar e agora sei que não me apetece chorar, porque não quero que me chame de misógino. Amo todas as mulheres deste mundo.

Porcos


















No "meu tempo de mortal", propus uma solução para acabar com a fome em França, chamaram-me de louco. Não quero que me chamem de louco outra vez. Nunca ninguém me chamou de louco na cara, mas eu sabia o que diziam nas minhas costas. Foi poucos anos antes de "morrer". 

A partir dos 35 anos, tive de fazer de conta que estava a envelhecer. As pessoas desconfiam se não mostrarmos sinais de velhice. As pessoas são muito desconfiadas. Para acabar com a fome em França naquela altura, sugeri a criação maciça de porcos. A solução estava no porco. O porco é um animal que tem uma enorme fecundidade, tal como os coelhos. Inspirei-me em parte no "Liber Abaci" do grande Fibonacci. Mas o coelho é um animal de pequeno porte, não resolveria os problemas de quase vinte milhões de franceses no século XVII. Quando me retirei quase à força da minha vida profissional, resolvi escrever as minhas "memórias" e estudar a res publica. Um desses estudos foi consagrado ao porco. 

O porco é um animal grande e extremamente fecundo. Uma única porca pode gerar ao longo de dez gerações — graças às porcas descendentes — mais de seis milhões de porcos. Suponhamos que uma porca no segundo ano de vida tem um parto de 6 leitões, 3 machos e 3 fêmeas. Para chegar a este número impressionante, não preciso dos machos — ficam então as 3 fêmeas. No terceiro ano que corresponde à segunda geração, a porca-mãe tem 2 partos e cada uma das 3 filhas da primeira geração têm 3 leitões. Total: 5 partos compostos cada um por três fêmeas, perfazendo um total de 15 fêmeas. No quarto ano, a porca mãe — já avó — tem 2 partos. As 3 filhas da primeira geração têm dois partos cada uma, o que vem a ser 6 por cada filha; as filhas da segunda geração têm cada uma ninhada, 15. Total: 23 partos, o que dá uma média de 3 fêmeas por cada ninhada, somando um total de 69 fêmeas. Continuando com este cálculo, vamos admitir que, no sétimo ano, a porca mãe deixa de ser fértil. No oitavo ano, vamos excluir a produção das 3 primeiras filhas da porca mãe. No nono ano, suprime-se do número das fecundas as 69 bisnetas, descendentes de 3ª geração. No décimo primeiro ano, que corresponde à 10ª geração, saem 321 tetranetas. O resultado das 10 gerações é de 1 072 473 partos que, à média de 3 fêmeas cada um, totalizam na décima geração 3 217 419 fêmeas. Não vamos considerar os machos, embora suponho que sejam tantos como as fêmeas. Todos os partos foram calculados igualmente em 6 leitões cada um (machos e fêmeas), quando, em condições normais, são mais numerosos. A produção de uma só porca ao fim de dez gerações, dar-nos-ia 6 434 838 bacorinhos, não incluindo 434 838 por doenças, acidentes e obteremos um total de 6 milhões de porcos.

sexta-feira, fevereiro 02, 2018

Amo a Maja





Tenho de fazer mais cardio:

sexta-feira, janeiro 26, 2018

quinta-feira, janeiro 25, 2018

O caminho mais seguro para chegar ao verdadeiro futuro é ir na direcção em que o nosso medo cresce. E assim regressamos a casa.