segunda-feira, outubro 10, 2016

O Caminho

Caminhámos de madrugada
por entre videiras e figueiras
Fizemos os caminhos das pedras
Peidámo-nos à sombra de tílias e castanheiros
Deixámo-nos seduzir por uma holandesa de
's-Hertogenbosch,
uma catequista ninfo da Azurara
e uma descompensada de Trancoso
Entrámos em capelas belíssimas
À noite, escutámos a consciência do
verdadeiro e violento ressonar
dos albergues
Ouvimos os ensinamentos
de um catedrático chato como a potassa
Cagámos generosamente junto a riachos de
águas cristalinas
Escutámos gaios, corvos e pegas rabudas
Vimos as mesmas nuvens descritas por Goethe
Passámos por aviários que fediam a milhas
Comemos tapas e bocadillos bons, maus e assim assim
Bebemos bidões de Estrella Galicia
Insultámos e louvámos Santiago,
a Virgem do Caminho e outros santos
Passámos ainda por um casarão
habitado por um casal de cavalos
que tinha um ar um pouco desolado
"Buenas, bo camiño"
Chegámos por fim à cidade sem pés nem joelhos
Não entrámos no nosso destino final:
Um casamento jet set patrocinado pela !Hola!
impediu a nossa entrada triunfal na Catedral
Apanhámos o autocarro para casa
a cheirar a bosta, com as mãos a abanar e
o coração cheio.

segunda-feira, outubro 03, 2016

Sono

Segundo as minhas últimas análises médicas, a minha cabeça é feita essencialmente de passiflora, valeriana e neurosesitas. O meu médico de família recomendou-me contemplar as estrelas antes de ir para a cama. Gostaria de o fazer num alpendre para dar um ar mais western, mas não tenho, tenho de me contentar com a varanda. Concentrei-me em Vega, a minha estrela favorita, que fica a pouco mais de 25,05 anos-luz (marcha rápida, vigorosa, com sticks de caminhada). Vega é uma palavra de origem árabe e que significa "águia a mergulhar" ou algo parecido. Arrasto-me até ao quarto. Sei onde fica o meu quarto porque tenho vieiras e setinhas de Santiago espalhadas no chão e na parede entre o quarto e sala. Não há que enganar. Um muro alto e grosso de pladur ergue-se entre mim e o Sono e saltamos os dois ao mesmo tempo para tentar ver a cabecita do outro, no meio da penumbra do quarto. Penso na risada recauchetada da Teresa Guilherme e tremo de pavor. Meu Deus, porquê? Vega já lá vai. Deveria ter previsto isto. Tento afundar-me no colchão, afundo-me, afundo-me com tanta força ao ponto de ficar exausto e bater no fundo; quando dou por mim estou finalmente a dormir. E é isto todos os dias. Diacho, diacho.

sexta-feira, setembro 30, 2016

12 aforismos

1. A minha mulher mandou colocar um extintor no nosso quarto. Medida de prevenção para apagar pesadelos.

2. O Zolpidem faz-me ver borboletas no nariz quando começo a ler livros de auto-ajuda: posso dizer que já sei mudar as velas do meu carro.

3. Tentei tomar Angelicalm antes, mas o meu quarto foi invadido por desconhecidos com bigodes farfalhudos. Confesso que não gostei. A sério.

4. Deus, meu parceiro da sueca, não gosta de me ver nervoso. Fica amuado porque não estou atento aos sinais e sai a meio do jogo. Tento tudo por tudo para que ele regresse à mesa. Às vezes, resulta, às vezes, nem por isso.

5. Adoro comer maracujás de manhã enquanto escuto o periquito do vizinho. Uma luzinha de felicidade.

6. Já entrei várias vezes em cabinas telefónicas para fazer chamadas de telemóvel. "Old habits..."

7. Convém lembrar que temos sempre direitos de autor sobre o nosso próprio sofrimento. Para obter mais informações, consulte as FAQs da SPA.

8. Tento fazer meditação zen (zazen) todas as manhãs ao acordar, esvaziar a mente, mas só consigo pensar na Consciência de Zeno do...do...ai como é que ele se chama?

9. Et voilá! A gravidade deixou de existir neste planeta. Toda a gente a levitar, a pairar. Toda a gente na Lua.

10. Reparei que o padre da minha paróquia rói sempre as unhas enquanto escuta passagens do Antigo Testamento.

11. Na minha igreja, ainda não aceitam cartões de crédito durante o ofertório.

12. Deixem-me uma moeda e eu irei contar-lhes mais coisas bonitas deste género.

segunda-feira, setembro 19, 2016

segunda-feira, setembro 12, 2016

Deprimido?



Segundo um artigo do Huffington Post
do passado mês de Agosto,
quando estamos deprimidos
ou com ansiedade, medo, sofrimento, etc.
(riscar o que não interessa),
a melhor coisa a fazer
é preparar bacon & ovos e 
prová-los como se fosse
a primeira vez e ignorar
o grasnar das gaivotas intrusivas
em cima dos telhados.

Milhares de consultórios psi
estão a fechar as portas por todo o mundo,
as 3 grandes farmacêuticas já abriram falência,
a economia do Liechtenstein colapsou
da noite para o dia.



terça-feira, julho 26, 2016

SAL


Para o meu pai*

Perdi uma aposta com o Jorge Tainha. Como não consegui morder os meus próprios cotovelos, fiquei frustrado e resolvi morder os cotovelos da Sílvia, ela mora mesmo à nossa frente com os pais e com o irmão. Bom, para dizer a verdade, não os mordi, trinquei um dos cotovelos ao de leve e depois lambi-o, reparei que os cotovelos dela estavam muito secos, e não é que consegui, ela estava de costas para mim. Pensava que lhe estava a fazer um favor, mas não, ela ficou danada, quase que me arrancava o nariz com as suas garras afiadas, quase fazia carne picada com a minha cara, tive de trepar o Muro num fôlego.

O Muro rodeia o Quintal do Mota que é uma espécie de condado portucalense, com o Monte de um lado e os armazéns do vinho do Porto do outro; não há mar aqui, apenas o Douro que fica lá em baixo. É a melhor vista do mundo. Uma vez, a Sílvia rachou a cabeça ao Jorge Tainha e foi bem feito, o Tainha às vezes tem a mania que é tubarão (mas não passa de uma tainha) e oferece porrada a toda a gente. Ela nem sequer o avisou, largou chispas dos olhos, olhou para o chão, pegou no primeiro calhau que viu e fshhhh e poc!, acertou-lhe mesmo no meio daquela testa cinzenta, o Tainha ficou a contorcer-se no chão e depois desmaiou. A Guidinha, mãe da Sílvia, teve de despejar um balde de tintura de iodo sobre a cabeça do Jorge Tainha que se pôs logo de pé, subiu as escadas velhas do Monte como um salmão, por entre o ranço, o cascalho e as iúcas, meteu-se em casa e ninguém lhe pôs a vista em cima durante quase um mês. E claro, aqui no Monte, quando os filhos se pegam, as mães também se pegam, e as duas mães, a Guidinha e a Maria Tainha, depois da tradicional troca de insultos, agarraram-se pelos cabelos, quase que se comiam uma à outra, trincadelas, chapadas, mas a briga não durou muito, foi coisa de dez minutos, saíram exaustas da pequena arena feita de propósito para estas desavenças, um terreiro poeirento em frente à casa da Martinha, rodeado por cardos e silvas para as mulheres não saírem à primeira chapada, a canalha e as outras mulheres a gritarem cá fora, os ânimos ficam sempre bastante exaltados. Acho que houve um empate técnico, ambas abandonam a arena com lanhos e pisaduras nas pernas, nos braços, na cara, de olhos vermelhos, quase a chorarem, ainda com tufos de cabelo da adversária nas mãos. Desinfectaram as suas feridas com uma esponja embebida em vinagre, comeram um prato de "galinha" que alguém lhes trouxe para recuperarem as forças ("galinha" não é carne de galinha, é um prato de quartos de cebola a nadarem num prato de vinho tinto, é o petisco mais apreciado por estas bandas) e mataram a sede com uma garrafa de vinho do bom, mereceram-no. As mulheres aqui também bebem e não é coisa pouca. Depois cada uma foi para sua casa, o espectáculo desse dia terminou. Não passa uma semana sem que haja um combate de mulheres na pequena arena do Monte.

Bom, ainda estou em cima do muro, e ainda por cima estou sozinho, não tenho nenhum ovo falante ao meu lado para me fazer companhia. Estou a olhar para baixo, a Sílvia ainda está lá em baixo com cara de poucos amigos. Apesar de me ter transformado num gato preto – sim, também consigo fazer isto quando tenho medo -, ela sabe que sou eu.

De um momento para o outro, levantou-se um nevoeiro cerrado, Porto e Gaia começam a desaparecer aos poucos. Uma espessa cortina cinzenta desce lentamente sobre as duas cidades, mas ainda consigo ver uma nesga do rio. Tento rasgar uma nuvem desmaiada com as patas para ver melhor para dentro do Muro, para o Quintal do Mota. Uma macieira que dá maçãs-de-adão e que os rapazes do Monte adoram comer para se tornarem homens mais depressa, uma nespereira que não dá frutos há já alguns anos, porque fartou-se de ser roubada pelos rapazes (qualquer dia o velho Mota, o dono do Quintal, prega-lhe umas machadadas), uma velha laranjeira rancorosa por os rapazes preferirem os frutos da macieira e da nespereira e que por isso só dá limões.

Encostado a um velho barracão, está o guarda-fiscal Oliveira, um dos caseiros do Quintal, em mangas de camisa. Está sentado numa albarda que, por sua vez, está sobre um banquinho de madeira. Está a ler, parece muito compenetrado, nem parece ele, o cotovelo apoiado no joelho e o punho a segurar o rosto magro, está a ler um calhamaço em voz baixa. Tal como um gato que acaba de ver outro gato rival, rastejo muito devagar pela crista do muro, olho de lado para o guarda-fiscal, depois rodo muito lentamente a cabeça para o encarar e aninho-me. Se quisesse, podia atacá-lo de surpresa. Àquela distancia e com o nevoeiro não conseguia ler o título do livro, tive de rasgar de vez a nuvem que desmaiou mesmo em cima de mim e arrancar uma lente de uma luneta que protegia o topo do muro para poder enxergar melhor. A capa dizia "A Vida Heroica do XIII Conde de Penafiel" ou algo assim. O guarda-fiscal Oliveira é de Penafiel. Ora sorria, ora punha-se muito sério, tirava o seu quepe de guarda-fiscal, coçava a linha vermelha do quepe na testa, tornava a atarraxar o quepe na cabeça pequena, pôs um rótulo a marcar a página e fecha o livro com muita convicção. Levanta-se, saca de um maço de tabaco do bolso de trás das calças, a ponta do cigarro acende-se sozinha e deixa ficar o cigarro a dançar na boca. Afasta um pequeno muro de hortênsias murchas com as mãos, caem pétalas aos seus pés. Fica a olhar muito pensativo para a Ponte D. Luís, ou melhor, para a mancha arqueada que penso ser a ponte, o nevoeiro está cada vez mais cerrado. Põe-se em bicos de pés e espreita para o socalco da parte de baixo do Quintal. Torna a olhar para a ponte e novamente para o socalco. A horta do seu vizinho e eterno arqui-inimigo, o guarda-fiscal Monteiro, ocupa todo aquele socalco e dá as melhores alfaces e os melhores feijões do Monte. Os estores da casa do Monteiro estão corridos, algumas das "réguas" estão partidas, mas isso não quer dizer que ele e a mulher não estejam em casa; os estores estão escangalhados há muito tempo, o Monteiro pode muito bem estar a espreitar cá para fora por entre os buraquinhos das "réguas". Os dois guardas-fiscais já foram grandes amigos, são os dois da mesma terra e tudo, mas agora não se podem ver um ao outro, não sei bem porquê.

Já tenho os olhos rasos em lágrimas e começo a bater os dentes, está cada vez mais frio. O Oliveira vai para dentro e regressa pouco depois com aquilo que parece ser um saco de arroz. Desce metade da escadaria de cimento junto à casa e começa a atirar grãos de arroz para a horta do outro como se estivesse num casamento, só que os noivos aqui eram as alfaces e quando acaba o arroz, atira o saco vazio lá para o meio, ajeita o quepe, sobe os degraus de cimento, o caramanchão da videira escurece-o, entra e bate a porta com força. Os dois dividem a mesma casa cor-de-rosa, só que um mora no piso de cima e o outro no de baixo. Tenho os braços gelados, já estou com pele de galinha, sabia-me pela vida agora um copito para aquecer. Estou quase a saltar do Muro para regressar também a casa. A Sílvia já se foi embora. Eis que surge na parte de baixo do Quintal uma misteriosa luz vermelha. A luz tenta furar o nevoeiro, bamboleia-se, aproxima-se da horta. Dou por mim a dar à cauda, furtivo, já consigo ver melhor. Era o guarda-fiscal Monteiro, com o seu andar desajeitado, também em mangas de camisa. Não sei como é que ele não tem frio. Vem a segurar uma lanterna como se fosse um ferroviário das Devesas a fazer sinais para um comboio que se aproxima lentamente da estação. Usa também um quepe, vem com cara de poucos amigos (ou nenhuns), pousa a lanterna no chão e agacha-se junto dos regos da horta. Leva à boca um grão de arroz e faz uma cara ainda mais feia, começa a gritar a plenos pulmões, por entre a bruma:

- Sal, cabrão, sal?! Puseste-me sal nas alfaces!? Ó meu desgraçado, eu fodisco-te, vais ver, não perdes pela demora. Sal! Sal! Sai se és homem, sai do buraco, cobarde! – gritava o Monteiro enquanto ameaçava a janela do Oliveira de punho cerrado e dava socos na própria cabeça, a cara do Monteiro ficou roxa de raiva como uma beringela, ou como, como...uma couve-roxa. 

Do outro nem uma nem duas. Era normal haver estas discussões-monólogos entre os dois. O pequeno caso do sal nas alfaces morreu ali, o Monteiro foi para dentro, com certeza foi planear a sua vingança. Estiquei as patas, já me doíam por estar tanto tempo aninhado. Desci pela parte mais baixa do muro forrado de musgo, fiquei com a cara molhada por causa da morrinha que começou a cair, pareciam confetes de água. Entrei em casa com o pingo no nariz. 

Ora bem, "sal" era também aquilo que o meu pai pedia aos berros à minha mãe na hora do jantar, eram autênticas chicotadas no ar, a comida estava outra vez insossa, mas era para o bem dele, só que o homem não entendia isso. O palato do meu pai estava avariado por uma vida de vinhaça e de comida salgada. A minha mãe chegou-lhe o saleiro, virou-lhe costas e disse "envenena-te para aí, quero lá saber" (não é bem assim, no fundo, ela preocupa-se com ele), mas o meu pai encolheu os ombros e fez uma pequena pirâmide de sal que cobriu o arroz com ervilhas e a costeleta. Continuou a comer agora já muito mais consolado. O meu pai não tem medo do que lhe possa vir acontecer, despreza os malefícios do sal. Às vezes, chego a pensar que o corpo do meu pai é como o rio Douro, manda toda a porcaria para as margens, liberta-se de tudo aquilo que não é seu, vomita todos os objectos estranhos para a praia da Cruz ou para o Cabedelo. O fundo do rio não consegue engolir todo o lixo que as pessoas atiram para a água; com o corpo do meu pai é igual; é uma espécie de rio que – até ao dia de hoje - arranja sempre maneira de se ver livre do sal. Passou o dia seguinte com a língua de fora, como se fosse um canito num dia tórrido, o sal chupa-nos a água toda do corpo. Ainda assim, mandou abaixo meio garrafão de tinto e nem uma pinga de água levou à boca para matar a sede.

E quanto aos dois guardas-fiscais? Ah querem mesmo saber? Não, não se mataram à dentada ou arrancaram o coração um ao outro. Na semana a seguir ao incidente do "sal nas alfaces", fui buscar um garrafão de vinho à Loja a mando do meu pai e lá estavam os dois agentes da autoridade agarrados um ao outro, perdidos de bêbados, todos babados, a discutirem quem é que iria pagar a vigésima primeira rodada. O vinho tem destas coisas. Ora, se isto não é um final feliz, vou ali e já venho.

*Obrigado pelos bons momentos e por todas as vezes que me fizeste rir, pai. Senti por fim o teu amor nos teus últimos anos.

quinta-feira, julho 14, 2016

Marcelo outra vez

Marcelo é um velho sedutor.
Ao beijar lentamente as atletas medalhadas (em particular, a Patrícia Mamona), vejo claramente que tenho muito a aprender. Se o presidente fosse um personagem de um jogo RPG (os gamers/nerds sabem do que estou a falar), teria estas características:

Força: 13
Destreza: 17
Persuasão: 17
Magia (ler "Fé"): 18
e, claro,
Carisma: 19

segunda-feira, julho 11, 2016

Acredito piamente que Cristiano é o D. Sebastião. A borboleta a pousar no seu esgar de dor, tudo. O adivinhar que seria Eder, o patinho feio, a dar-nos a vitória.
O tão esperado V Império começou ontem.
Não resisto à euforia colectiva, sou um patriota desde os meus 4 meses de tropa.
Viva Portugal.

sexta-feira, julho 08, 2016

'Cause the future is in the future
And the past is a big brick wall
You know I need to make you understand, now
I'm a man not a disco ball


Dick Valentine, E6


Às vezes, o humor e a aceitação são uma combinação poderosíssima.

domingo, junho 26, 2016

Kiss "Strutter"



Li algures que o Paul Stanley (o vox dos Kiss) estava a atravessar uma depressão quando escreveu a letra para este tema. "Strutter" não é sobre nenhuma mulher em particular (aliás, os Kiss, nesta matéria, faziam corar de vergonha os Led Zep, etc.); é sim a mais improvável metáfora sobre a sua própria depressão e foi uma forma que o homem encontrou para exorcizar a maleita psi da moina.*
E sim, é um (not-so) guilty pleasure, adoro os Kiss.

She wears her satins like a lady
She gets her way just like a child
You take her home and she says "Maybe, baby"
She takes you down and drives you wild


 *não, não senhor; este blogue não se irá transformar numa blogue de crítica musical.


sexta-feira, junho 24, 2016

Pequeno e inofensivo apontamento de pura crónica política

Não quero tirar o lugar ao Pacheco Pereira, mas acho que o Reino Unido já abandonou há muito tempo o barco chamado "U.E.". Por outro lado, uma nação que "anda" à base de fish & chips merece ser ostracizada.
Os gajos das ilhas são tramados, vêem-se rodeados de mar por todos os lados e querem logo ser independentes de tudo e de todos. Não se esqueçam do nosso saudoso Alberto João.

sábado, junho 18, 2016

Luther Allison, "The Little Red Rooster"




"Little Red Rooster", um blues-hino à perda da virilidade.
Ou então, talvez não seja mais do que a história de um galo muito preguiçoso.

domingo, junho 12, 2016

ATM

Ilustração de Rui Ricardo
























O MOÇO deixa-se cair pesadamente no único lugar livre e dá um longo suspiro para que os outros dois sentissem um pouquinho a sua dor. Aquele corredor era um desfile de voluntárias, auxiliares, administrativas, enfermeiros e enfermeiras, médicos e médicas. Um dos homens que estava sentado à espera de consulta de urgência acena-lhe com a cabeça como se o conhecesse e continua a conversa.

Tinha dito à minha catraia que queria ir ver os primeiros raios do sol do ano, sabe como são as mulheres, queria impressioná-la, ano novo, vida nova, não queria meter a pata na poça como fiz com as outras…ela ficou toda contente, vestiu-se à pressa, já estava com as cuequinhas novas do ano novo, as gajas são muito supersticiosas, que sonho, meu Deus, você não está bem a ver a minha catraia, um docinho. Vai daí, saímos pela garagem privada. Estes gajos dos motéis pensam em tudo. Metemo-nos no jipe e fomos até à serra de Santa Justa. Já lá foi? Tem umas vistas do Porto ao longe…É muito bonito, muito verde, aqueles ares, aquela natureza…bom, meti-me pelo corta-fogo, ala por ali acima, 145 cavalinhos a puxarem forte e feio, conheço o monte como a palma da minha mão. Mas não é que quando chego a meio, o caralh…o caraças do motor começa aos soluços e a deitar fumo por tudo quanto é lado? Saí, tava um frio de rachar, abri o capô. Que fumarada, meu Deus, e vou a ver, era a junta da colaça que tava toda queimada. Falta de água. Como é que é possível. E eu, ah put… pulha que pariu que não tenho sorte nenhuma. E a catraia dentro do carro a olhar para mim, como que a pensar, como é que fui-me meter com este tonhó. Você está a ver a minha vida? Pior ainda, qual era o reboque que me vinha buscar o jipe na madrugada do Ano Novo, ali no meio do monte?…

Texto na íntegra aqui.
 

quinta-feira, junho 09, 2016

Nosefulness

a fazer meditação
a contemplar a vela acesa
à minha frente,
conto a respiração,
fecho suavemente os olhos.
atenção plena no topo da cabeça
atenção plena na nuca
atenção plena nas têmporas
atenção plena nos olhos
atenção plena no nariz
demasiada atenção plena
no nariz
comichão no nariz
aceito e extraio catotas secas
e atiro-as
para a vela
que arde agora
com mais força.
Não importa.
Tudo o que importa
está no Agora.*


*Um poema bastante imbecil. O Budismo é a única religião-filosofia-prática que respeito. Que eu saiba, nunca ninguém matou ou foi morto em seu nome.

terça-feira, junho 07, 2016

Maus e estranhos pensamentos

Ultimamente, tenho tido maus e estranhos pensamentos que não sei de onde vêm. E o pior de tudo é que não consigo vertê-los para o papel. Macacos, chimpanzés e babuínos sob efeito de speed a lutarem entre si dentro da minha mente (não, já não fumo nada há alguns anitos). Sinto-me como um adolescente que não consegue escrever o seu diário.

Este foi o post mais honesto (e talvez o mais desinteressante) que alguma vez escrevi.

Daqui a uma semana vou rir-me disto tudo e escrever as besteiras e imposturices do costume.

quinta-feira, maio 26, 2016


sábado, maio 14, 2016

Adão & Eva

2º Frente do nº 24 do Condomínio Edén. É hora de jantar, o casal conversa.

- E então, amor, gostaste do jantar?
- Sim, o bife estava mal passado tal como eu gosto, amor.
- E o vinhinho que te comprei? Estava em promoção, mas é bom não é?
- Sim, tem uma cor muito viva. Aromas florais combinados com frutos vermelhos e silvestres. Um final de boca prolongado e complexo.
- Por falar em fruta, vais querer sobremesa? Só temos maçãs.
- Já acabou o bolo de bolacha?
- Já...
- Que desconsolo. Não quero nada, vou tirar o café.
- Mas temos de comer as maçãs senão apodrecem, amor.
- Tens razão, mas não gosto dessas maçãs, são muito farinhentas.
- Ai são? Para a próxima, compras tu as maçãs.
- Pronto. Chega-me aí uma maçã, então.
- Não tens perninhas? Levanta-te e vai tu buscá-la.
- Oh meu Deus. Está bem, eu vou buscar o raio da maçã. Obrigado.
- De nada.

terça-feira, maio 10, 2016

Bad Boy Boogie

Com o primeiro vox. Talvez o melhor de todos, parece que tinha acabado de despegar das obras. E o puto de sacola é um dos apóstolos do rock. Rock n roll é arte.

terça-feira, maio 03, 2016

Adenda ao Terceiro Segredo de Fátima

lustração: Rui Ricardo
I
 
A IRMÃ dormiu durante quase toda a viagem do convento ao aeroporto. Tinha encostado a cabeça ao vidro e adormeceu embalada pelo monocórdio do taxista. Quando respirava, deixava escapar pela boca um ruído que parecia brita a ser pisada por um adulto e por um rapazito. O taxista só parou de falar quando se apercebeu pelo retrovisor que a sua cliente ia a dormir, os óculos graduados da freira balouçavam-lhe castamente na pontinha do nariz. Mas a irmã não estava a dormir; resolveu fechar os olhos quando estavam a passar pela zona de Condeixa, o taxista não parava de falar sobre o único neto que por acaso se chamava Francisco. Era o orgulho incurável dos avós (pelo menos até atingir os dez, onze anos, depois a história seria outra), e a criança nem sequer era um vidente credenciado. O taxista mudava de tema como se estivesse a engatar velocidades, começou a falar sobre o sistema educativo, sobre a uber e depois fez uma ponte pertinente com as touradas, tópico que é quase sempre do agrado dos taxistas. Dedicou algum tempo ao assunto ou, se preferirem, cerca de uns quinze, dezasseis quilómetros. Uma Nossa Senhora de Fátima pequenina pairava no centro do tablier. Antes de “adormecer”, a irmã Lúcia pediu silenciosamente perdão à Virgem por aquilo que ia fazer.

Texto na íntegra aqui.


sexta-feira, abril 22, 2016

Caro Dr Hoffman,

O meu amigo estranha o meu silêncio. Mil e uma desculpas, arranje maneira de perdoar este seu ex-paciente. Tenho andado meio caladote porque estou a fazer uma espécie de detox e reab literárias. Um 2 em 1, vá. Ah quase que me esquecia: as minhas uretras estão a recuperar a olhos vistos, o bichinho desapareceu, o stent que me enviou por correio expresso funciona na perfeição. O funcionário da DHL confundiu-me com a Rebelo Pinto e pediu-me um autógrafo (tinha um exemplar do "Adeus Princesa" "O dia em que te esqueci" com ele). Não consegui dizer que não.

Pacientemente, um seu criado
PA

quinta-feira, abril 14, 2016

Ponto de encontro

Há um ponto de encontro (devidamente indicado com aquelas setas verdes) nesta cidade onde as pessoas podem trocar de vida ou destino como quem troca cromos ou outros artigos. O "olx" e o "coisas" já têm uma categoria específica para estes itens. Chamam-se "Vida" e "Destino".

domingo, abril 03, 2016

Rollin' and Tumblin'







Sim, adoro esta furgonete.

quarta-feira, março 23, 2016

M.A.P.A.

Imagem de Rui Ricardo
EM frente ao espelho da casa de banho, arregalo os dentes e com o indicador puxo as pálpebras para baixo. Fiapos vermelhos irrigam-me as escleras. Não há indícios de tromboses até agora. Pego na escova de dentes e movo-a para a esquerda e para a direita, e depois para cima e para baixo enquanto tento segui-la com os olhos. Toco na ponta do nariz com os indicadores e depois coloco a mão sobre o coração. Nada de sopros, nem palpitações nem taquicardias. Por enquanto. O dia ainda é uma criança. Antes de me levantar, senti apenas um pequeno polvo a apertar-me um pouquinho a mitral, nada de muito preocupante. Talvez seja ansiedade – prendo bem o M.A.P.A. à cintura, de vinte em vinte minutos, a espécie de walkman apita para me medir as tensões. A braçadeira insufla-se automaticamente esganando-me o bíceps esquerdo. Tudo isto para prevenir o conhecido “síndrome de bata branca”. Não posso tomar banho durante as 24h que iria usar o aparelhómetro. Ainda bem que está frio. Visto um pulôver à marinheiro para encobri o M.A.P.A. à cintura e um kispo vermelho (na verdade é um Umbro) que me faz lembrar sempre o Bobby Robson. “Mas é vermelho, o Bobby Robson era…”. Pois é. Não perguntem, não sei explicar. Três sacos de lixo pretos acumulam-se na marquise. Tenho de os despejar sem falta logo à noite. Vivo num apartamento no 7º andar de um prédio com quase trinta anos. Saio todos os duas por volta das 7:50 para ir trabalhar. Sou assistente administrativo num hospital e raros são os dias em que suporto o meu trabalho. 
(...)

Texto na íntegra também aqui.

segunda-feira, março 14, 2016

Livros

Na fila para a caixa de um Pingo Doce qualquer. Atrás de mim, um homem e uma criança com um cesto de compras. O petiz resolve quebrar o silêncio:

"Oh pai, o que é que estão aqui a fazer estes livros? Os livros são tão chatos."

Olhei sobre o ombro, o pai estava a deslizar o dedo sobre o ecrã do Samsung e ignorou a observação do filho que deveria ter os seus dez anitos. Estavam duas senhoras à minha frente, tinha mais do que tempo suficiente para intervir. Rodei sobre os meus calcanhares, pus as mãos nas pernas e verguei os costados para ficar ao nível do olhar da criança. Consegui a sua atenção.

"Sabes meu menino. Os livros não são chatos. São até muito interessantes. Engraçados, estás a ver? Se tivesses lido este livro que trago comigo, saberias S. Mathurin é o santo invocado para curar a epilepsia e a loucura. Tinha muitos devotos na Idade Média. Também é o santo patrono dos bobos, dos palhaços. Gostas de palhaços, não gostas, meu menino? É claro que gostas. E olha. Caso tivesses lido este livro que trago aqui comigo, ficarias a saber também que S. Mederico, o eremita, é invocado quando temos desarranjos intestinais. Aqui, aqui (apontei para os meus intestinos). E já agora, puto, sabes que Santa Zita de Luca passou a vida a trabalhar como empregada doméstica e sofreu muitas situações de austeridade...já ouviste falar em austeridade, não já? É claro que sim...., passou muitas situações de austeridade, na esperança que essa mesma austeridade a ajudasse a combater os seus problemas de alcoolismo e de turbulência nocturna. Não sabias, pois não? Pois ficas a saber. Como vês os livros estão longe de serem chatos. Bom...alguns conseguem ser muitos chatos, tens alguma razão, mas nem todos."

O pai queria tirar satisfações comigo, mas tive de sair da fila, tinha-me esquecido das filetes de pescada congeladas.

sexta-feira, março 11, 2016





Vejam bem o Muppet na janelinha direita da van. Apreciem o estilo do "Animal". Ah o gajo toca e canta bem também. E pronto acho que já posso escrever para a ipsilon.

quarta-feira, março 09, 2016

Marcelo

Só tenho uma pergunta:
o Palácio de Belém tem fontes*?

*a Marisa Matias no lugar da Anita Ekberg. Por exemplo.

sexta-feira, março 04, 2016

Divórcio

Ah o divórcio vai ser consumado, o futuro ex-casal chegou finalmente a acordo. Como é que ele sabe estas coisas, consigo ver daqui o vosso balão de pensamento. Eu sei. Ich weiss. E isso deve bastar-vos.
Ele compromeu-se a pagar as propinas das Fac. Direito da filha e as aulas de Zumba da ex-mulher que vai voltar ao mercado não tarda nada. Mas não tenham pena dele. Saiu-lhe uma raspadinha Pé-de-Meia na semana passada: vai receber 500€ todos os meses durante dois anos. O sol vai voltar a brilhar para todos. Mas isto vocês já sabem.

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

E.R.

Hoje acordei e um vazio abateu-se sobre mim. A vida é boa, pensei. Estou a ficar muito macio e indolente (já está, palavra batida, palavra não recolhida). Peguei no meu Cortina de 75 e fui para o E.R. do Santos Silva. Estacionei-o no lugar das ambulâncias do INEM à bovídeo. Walkers, dragões e argelinos com fitas amarelas e laranjas. Deram-me uma roxa e amarrei-a à cabeça a la Rambo. Entrei por lá dentro a fingir que era acompanhante de um walker. "Onde está o meu velhote, caralho*?" Assim mesmo. Desculpem o vernáculo. L'aventure commence. Esperem aí que já vos conto mais cenas.

*caraças

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

sábado, fevereiro 06, 2016

A Loja de Cima

Imagem de Rui Ricardo


























Às vezes, quando o meu pai regressa do trabalho, manda-me ir comprar tabaco à Loja de Cima quando está de bem com a minha mãe. Isto acontecia pouco antes do jantar e eu ficava chateado, pois estava sempre cheio de fome e era capaz de comer um boi. Se os meus pais discutissem na véspera ou de manhã cedo antes de saírem para trabalhar, era ele que ia comprar tabaco e só chegava a casa por volta da meia-noite. Nessas noites, eu e a minha mãe jantávamos sozinhos. Ou melhor, eu jantava, ela mal tocava na comida. Quando regressava, o meu pai não conseguia meter a chave na fechadura à primeira e demorava muito tempo a abrir a porta. O aviso estava dado: a minha mãe entrava no meu quarto, afastava o meu corpo delicadamente (eu fazia sempre de conta que estava a dormir) e enfiava-se na minha cama. Mal o meu pai entrava em casa, ela choramingava alto para o meu pai ouvir e ficar com remorsos. (...)

Texto na íntegra também aqui.

sexta-feira, janeiro 29, 2016


quinta-feira, janeiro 21, 2016

segunda-feira, janeiro 18, 2016


quarta-feira, janeiro 06, 2016

A Cheia




Durante a Cheia, os Mareantes do Rio Douro saíam em romaria dia sim, dia não, faziam-se à água debaixo daquela chuva impiedosa. Cada mareante ocupava o seu bote, quanto maior fosse o seu instrumento de percursão, maior era o bote. Batiam furiosamente nos bombos e nas tarolas, era por isso que não parava de chover. O batel maior era ocupado pela gigantesca cabeça do São Gonçalo, rapazes e homens que navegavam atrás urravam "E ele é nosso! E ele é nosso!". Dezenas de botes atravessavam o rio várias vezes por dia e exibiam-se muito vaidosos para as gentes nas margens.

Na última semana, o nível das águas subiu até meio da Calçada das Freiras (não foi bem mas quase). As pobres das freiras do Convento de Corpus Christi tiveram de trepar para os telhados do convento e aí ficaram durante esses dias. Víamo-las a passarem ruge e pó-de-arroz no rosto, uma delas aparava a barba ali mesmo, faziam chichi pelas caleiras e obravam atrás do campanário da capelinha. Coitadas…se não fossem os pombos do Brandão (que lá concordou em cedê-los, muito contrafeito) a fazer-lhes chegar comida, não sei como é que elas sobreviviam nessas duas semanas.

Os empregados dos armazéns do vinho do Porto também ficaram encurralados. O rio subiu tão rápido durante o dia que não puderam regressar a casa, para junto das suas famílias. Ao verem o sofrimento dos habitantes do Monte, tiveram pena de nós; abriram então as portas pesadas dos armazéns do Vinho do Porto e deixaram-nos entrar - estávamos para lá de desesperados - para nos abastecermos de vinho. Havia um grande senão. No meio do nosso desespero, esquecemo-nos que aquele vinho era vinho do Porto, adocicado com a famosa banha; nos primeiros dias, as pessoas estavam tão sedentas que fecharam os olhos e taparam o nariz. Lá fizeram o sacrifício, bebiam um ou dois copitos e ficavam logo bêbadas, mas depois, o que é demais é moléstia, as pessoas exigiam vinho a sério, não aquela intrujice inventada por ingleses feita por portugueses para ingleses e emigras, e então ameaçaram os empregados, já se tinham esquecido que eles estavam a fazer-lhes um favor. Exigiam que eles mostrassem onde estavam os tonéis e os barris com vinho de mesa, para pessoas normais, para pessoas de trabalho, mas os empregados encolhiam os ombros, juravam a pés juntos que não havia nada disso ali. O senhor Alberto arranjou uma solução. O senhor Alberto mora junto à Loja de Cima, é um homem muito afável e muito diplomata, com muito tacto. Usa um robe de lã tweed e um chapéu à detective, passeia o mesmo cigarro na mão direita desde que o conheço, mas juro que nunca o vi a tirar uma passa àquele cigarro:

- Já que temos água de sobra, porque não baptizamos esta zurrapa? Pode ser que assim se possa beber este vinho impróprio para diabéticos.

terça-feira, dezembro 29, 2015