sexta-feira, abril 22, 2016

Caro Dr Hoffman,

O meu amigo estranha o meu silêncio. Mil e uma desculpas, arranje maneira de perdoar este seu ex-paciente. Tenho andado meio caladote porque estou a fazer uma espécie de detox e reab literárias. Um 2 em 1, vá. Ah quase que me esquecia: as minhas uretras estão a recuperar a olhos vistos, o bichinho desapareceu, o stent que me enviou por correio expresso funciona na perfeição. O funcionário da DHL confundiu-me com a Rebelo Pinto e pediu-me um autógrafo (tinha um exemplar do "Adeus Princesa" "O dia em que te esqueci" com ele). Não consegui dizer que não.

Pacientemente, um seu criado
PA

quinta-feira, abril 14, 2016

Ponto de encontro

Há um ponto de encontro (devidamente indicado com aquelas setas verdes) nesta cidade onde as pessoas podem trocar de vida ou destino como quem troca cromos ou outros artigos. O "olx" e o "coisas" já têm uma categoria específica para estes itens. Chamam-se "Vida" e "Destino".

domingo, abril 03, 2016

Rollin' and Tumblin'







Sim, adoro esta furgonete.

quarta-feira, março 23, 2016

M.A.P.A.

Imagem de Rui Ricardo
EM frente ao espelho da casa de banho, arregalo os dentes e com o indicador puxo as pálpebras para baixo. Fiapos vermelhos irrigam-me as escleras. Não há indícios de tromboses até agora. Pego na escova de dentes e movo-a para a esquerda e para a direita, e depois para cima e para baixo enquanto tento segui-la com os olhos. Toco na ponta do nariz com os indicadores e depois coloco a mão sobre o coração. Nada de sopros, nem palpitações nem taquicardias. Por enquanto. O dia ainda é uma criança. Antes de me levantar, senti apenas um pequeno polvo a apertar-me um pouquinho a mitral, nada de muito preocupante. Talvez seja ansiedade – prendo bem o M.A.P.A. à cintura, de vinte em vinte minutos, a espécie de walkman apita para me medir as tensões. A braçadeira insufla-se automaticamente esganando-me o bíceps esquerdo. Tudo isto para prevenir o conhecido “síndrome de bata branca”. Não posso tomar banho durante as 24h que iria usar o aparelhómetro. Ainda bem que está frio. Visto um pulôver à marinheiro para encobri o M.A.P.A. à cintura e um kispo vermelho (na verdade é um Umbro) que me faz lembrar sempre o Bobby Robson. “Mas é vermelho, o Bobby Robson era…”. Pois é. Não perguntem, não sei explicar. Três sacos de lixo pretos acumulam-se na marquise. Tenho de os despejar sem falta logo à noite. Vivo num apartamento no 7º andar de um prédio com quase trinta anos. Saio todos os duas por volta das 7:50 para ir trabalhar. Sou assistente administrativo num hospital e raros são os dias em que suporto o meu trabalho. 
(...)

Texto na íntegra também aqui.

segunda-feira, março 14, 2016

Livros

Na fila para a caixa de um Pingo Doce qualquer. Atrás de mim, um homem e uma criança com um cesto de compras. O petiz resolve quebrar o silêncio:

"Oh pai, o que é que estão aqui a fazer estes livros? Os livros são tão chatos."

Olhei sobre o ombro, o pai estava a deslizar o dedo sobre o ecrã do Samsung e ignorou a observação do filho que deveria ter os seus dez anitos. Estavam duas senhoras à minha frente, tinha mais do que tempo suficiente para intervir. Rodei sobre os meus calcanhares, pus as mãos nas pernas e verguei os costados para ficar ao nível do olhar da criança. Consegui a sua atenção.

"Sabes meu menino. Os livros não são chatos. São até muito interessantes. Engraçados, estás a ver? Se tivesses lido este livro que trago comigo, saberias S. Mathurin é o santo invocado para curar a epilepsia e a loucura. Tinha muitos devotos na Idade Média. Também é o santo patrono dos bobos, dos palhaços. Gostas de palhaços, não gostas, meu menino? É claro que gostas. E olha. Caso tivesses lido este livro que trago aqui comigo, ficarias a saber também que S. Mederico, o eremita, é invocado quando temos desarranjos intestinais. Aqui, aqui (apontei para os meus intestinos). E já agora, puto, sabes que Santa Zita de Luca passou a vida a trabalhar como empregada doméstica e sofreu muitas situações de austeridade...já ouviste falar em austeridade, não já? É claro que sim...., passou muitas situações de austeridade, na esperança que essa mesma austeridade a ajudasse a combater os seus problemas de alcoolismo e de turbulência nocturna. Não sabias, pois não? Pois ficas a saber. Como vês os livros estão longe de serem chatos. Bom...alguns conseguem ser muitos chatos, tens alguma razão, mas nem todos."

O pai queria tirar satisfações comigo, mas tive de sair da fila, tinha-me esquecido das filetes de pescada congeladas.

sexta-feira, março 11, 2016





Vejam bem o Muppet na janelinha direita da van. Apreciem o estilo do "Animal". Ah o gajo toca e canta bem também. E pronto acho que já posso escrever para a ipsilon.

quarta-feira, março 09, 2016

Marcelo

Só tenho uma pergunta:
o Palácio de Belém tem fontes*?

*a Marisa Matias no lugar da Anita Ekberg. Por exemplo.

sexta-feira, março 04, 2016

Divórcio

Ah o divórcio vai ser consumado, o futuro ex-casal chegou finalmente a acordo. Como é que ele sabe estas coisas, consigo ver daqui o vosso balão de pensamento. Eu sei. Ich weiss. E isso deve bastar-vos.
Ele compromeu-se a pagar as propinas das Fac. Direito da filha e as aulas de Zumba da ex-mulher que vai voltar ao mercado não tarda nada. Mas não tenham pena dele. Saiu-lhe uma raspadinha Pé-de-Meia na semana passada: vai receber 500€ todos os meses durante dois anos. O sol vai voltar a brilhar para todos. Mas isto vocês já sabem.

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

E.R.

Hoje acordei e um vazio abateu-se sobre mim. A vida é boa, pensei. Estou a ficar muito macio e indolente (já está, palavra batida, palavra não recolhida). Peguei no meu Cortina de 75 e fui para o E.R. do Santos Silva. Estacionei-o no lugar das ambulâncias do INEM à bovídeo. Walkers, dragões e argelinos com fitas amarelas e laranjas. Deram-me uma roxa e amarrei-a à cabeça a la Rambo. Entrei por lá dentro a fingir que era acompanhante de um walker. "Onde está o meu velhote, caralho*?" Assim mesmo. Desculpem o vernáculo. L'aventure commence. Esperem aí que já vos conto mais cenas.

*caraças

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

sábado, fevereiro 06, 2016

A Loja de Cima

Imagem de Rui Ricardo


























Às vezes, quando o meu pai regressa do trabalho, manda-me ir comprar tabaco à Loja de Cima quando está de bem com a minha mãe. Isto acontecia pouco antes do jantar e eu ficava chateado, pois estava sempre cheio de fome e era capaz de comer um boi. Se os meus pais discutissem na véspera ou de manhã cedo antes de saírem para trabalhar, era ele que ia comprar tabaco e só chegava a casa por volta da meia-noite. Nessas noites, eu e a minha mãe jantávamos sozinhos. Ou melhor, eu jantava, ela mal tocava na comida. Quando regressava, o meu pai não conseguia meter a chave na fechadura à primeira e demorava muito tempo a abrir a porta. O aviso estava dado: a minha mãe entrava no meu quarto, afastava o meu corpo delicadamente (eu fazia sempre de conta que estava a dormir) e enfiava-se na minha cama. Mal o meu pai entrava em casa, ela choramingava alto para o meu pai ouvir e ficar com remorsos. (...)

Texto na íntegra também aqui.

sexta-feira, janeiro 29, 2016


quinta-feira, janeiro 21, 2016

segunda-feira, janeiro 18, 2016


quarta-feira, janeiro 06, 2016

A Cheia




Durante a Cheia, os Mareantes do Rio Douro saíam em romaria dia sim, dia não, faziam-se à água debaixo daquela chuva impiedosa. Cada mareante ocupava o seu bote, quanto maior fosse o seu instrumento de percursão, maior era o bote. Batiam furiosamente nos bombos e nas tarolas, era por isso que não parava de chover. O batel maior era ocupado pela gigantesca cabeça do São Gonçalo, rapazes e homens que navegavam atrás urravam "E ele é nosso! E ele é nosso!". Dezenas de botes atravessavam o rio várias vezes por dia e exibiam-se muito vaidosos para as gentes nas margens.

Na última semana, o nível das águas subiu até meio da Calçada das Freiras (não foi bem mas quase). As pobres das freiras do Convento de Corpus Christi tiveram de trepar para os telhados do convento e aí ficaram durante esses dias. Víamo-las a passarem ruge e pó-de-arroz no rosto, uma delas aparava a barba ali mesmo, faziam chichi pelas caleiras e obravam atrás do campanário da capelinha. Coitadas…se não fossem os pombos do Brandão (que lá concordou em cedê-los, muito contrafeito) a fazer-lhes chegar comida, não sei como é que elas sobreviviam nessas duas semanas.

Os empregados dos armazéns do vinho do Porto também ficaram encurralados. O rio subiu tão rápido durante o dia que não puderam regressar a casa, para junto das suas famílias. Ao verem o sofrimento dos habitantes do Monte, tiveram pena de nós; abriram então as portas pesadas dos armazéns do Vinho do Porto e deixaram-nos entrar - estávamos para lá de desesperados - para nos abastecermos de vinho. Havia um grande senão. No meio do nosso desespero, esquecemo-nos que aquele vinho era vinho do Porto, adocicado com a famosa banha; nos primeiros dias, as pessoas estavam tão sedentas que fecharam os olhos e taparam o nariz. Lá fizeram o sacrifício, bebiam um ou dois copitos e ficavam logo bêbadas, mas depois, o que é demais é moléstia, as pessoas exigiam vinho a sério, não aquela intrujice inventada por ingleses feita por portugueses para ingleses e emigras, e então ameaçaram os empregados, já se tinham esquecido que eles estavam a fazer-lhes um favor. Exigiam que eles mostrassem onde estavam os tonéis e os barris com vinho de mesa, para pessoas normais, para pessoas de trabalho, mas os empregados encolhiam os ombros, juravam a pés juntos que não havia nada disso ali. O senhor Alberto arranjou uma solução. O senhor Alberto mora junto à Loja de Cima, é um homem muito afável e muito diplomata, com muito tacto. Usa um robe de lã tweed e um chapéu à detective, passeia o mesmo cigarro na mão direita desde que o conheço, mas juro que nunca o vi a tirar uma passa àquele cigarro:

- Já que temos água de sobra, porque não baptizamos esta zurrapa? Pode ser que assim se possa beber este vinho impróprio para diabéticos.

terça-feira, dezembro 29, 2015

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Passeio

Encosto a cara a este sol de Inverno, que dia magnífico para dar uma volta pela paróquia. Até os homens da junta trabalhavam com mais afinco e dedicação. Estavam a arranjar o passeio de uma esquina e faziam-no com uma alegria sincera e transbordante, que profissionais. Tal e qual aquelas pinturas murais do Rivera. Que referência inteligente que eu introduzi aqui. Parei na beira do passeio e enquadrei-os com o polegar e o indicador. Que belíssimo quadro daria se eu tivesse jeito para pintar. Um casal adorável de velhinhos passa por mim. Vão os dois de braço dado. São meus vizinhos, velhos conhecidos. Idosos conhecidos, quero eu dizer. A senhora vira-se para mim. Hesitou em cumprimentar-me, desde que pusemos os olhos um num outro que vivemos os dois neste impasse, ninguém ousa dar o primeiro passo para a saudação. Aposto que foi professora de História, tem muita classe, cabelo grisalho, quase azul, casaco e calças creme, uma écharpe de motivos florais, discreta. Muito charme. O sol acaricia-me, que dia de Inverno lindo. Quem me dera ter FB para publicar estas coisas que me vão na alma. Sigo o casal, vão para o mesmo lado que eu vou. O homem não lhe fica atrás, é ele que marca o passo de nós os três. Têmporas brancas, reverentes, usa um fato azul escuro impecável, apenas alguns vestígios de caspa sobre os ombros, nada de grave. Aposto que escreve crónicas para o jornal local. Aposto que gosta de Aquilino. Faz-me lembrar o frei Bento Rodrigues O.P.. Mais uma referência inteligente, que senhor distinto. Vão demasiado devagar, tenho demasiado energia dentro de mim, vejo-me obrigado a ultrapassá-los, sinto-me envergonhado quando o faço, parece que estou a cometer uma infracção. O homem deixa de falar. Já vou uns bons cinco passos adiantado quando ouço um valente e magnífico traque. Sim, já não é a primeira vez. Da última vez que isto aconteceu, eu ia atrás. O velho cronista não tem qualquer tipo de clemência, não deixa prisioneiros.

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Eu Tenho um Sonho

Um Conselho de Estado formado por salamandras, tritões, nereidas e pelo Sá Leão. A Maria de Belém de tutu e sapatos de bailarina serve miniaturas de Jägermeister enquanto o Presidente não chega. Um retrato do Bon Scott e outro do Marcelo Caetano em molduras barrocas pendurados em paredes opostas. Marcelo R. Sousa (já presidente) entra de rompante. Vem do seu banho de mar diário, não teve tempo para mudar de roupa, ainda vem com os seus Speedo.
"Perdi alguma coisa?", pergunta enquanto seca as orelhas e arregala os seus belos e enormes olhos azuis.

Eu tenho um sonho.


sexta-feira, dezembro 04, 2015




I am smellin' like the rose
that somebody gave me on
my birthday deathbed
I am smellin' like the rose
that somebody gave me
'cause I'm dead and bloated

quinta-feira, dezembro 03, 2015

Frenologia



George era um rapaz bastante atento e aplicado: reparou que o formato quadrangular das “regiões” cerebrais de Gall tinha semelhanças irrefutáveis com a geografia dos estados que constituem os EUA; a posição e a geometria dessas faculdades, como, por exemplo, a auto-estima, a aprovatividade, a cautela, a secretividade e a destrutividade pareciam corresponder na perfeição às áreas e coordenadas latitudinais do Dakota do Norte, Dakota do Sul, Nebrasca, Kansas e Oklahoma. Teria sido por mero acaso que o infame KKK — que advogava a destruição dos filhos de Canaã, filho de Cam, filho de Noé — tenha nascido neste último estado do Sul? O episódio do Génesis é sobejamente conhecido: Cam encontrou o pai (Noé) embriagado e descoberto, e quando viu a nudez paterna, foi contar aos seus irmãos, Jafé e Sem, em vez de guardar pudor e cobrir o pai. Quando recuperou a consciência, Noé amaldiçoou o filho de Cam, Canaã, referindo-se a ele como o "servo dos servos"[1]. Canaã teve dois filhos, Sidom e Hete, cujas tribos descendentes se espalharam pelo norte de África e pela Etiópia. Este é um dos episódios bíblicos no qual o Klux se baseia para legitimar o segregacionismo. Será que a delimitação territorial dos estados daquele país teve com base os estudos frenológicos da topografia cerebral?


[1] Génesis 9:25: "…e disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos será de seus irmãos."

sexta-feira, novembro 27, 2015


quarta-feira, novembro 18, 2015

A nova vida de Patty Hearst

Patty escaldava os lábios a provar a massa. Sentado ao contrário, Wolfe tinha os braços apoiados nas costas da cadeira e o olhar encalhado na outra ponta da mesa da cozinha. O SLA já sabia que as autoridades não iam libertar Remiro e Little, algo teria de ser feito. Não podiam deixar passar uma semana. Defreeze estava a beber uma Bud enquanto olhava para a rua através das ripas de madeira.
- Já arranjaste as tintas?
Wolfe não respondeu. Patty virou-se. Arregalou-lhe os olhos e inclinou o queixo na direcção de DeFreeze. Os restantes elementos da organização tratavam-no respeitosamente por "General Field Marshal Cinque".
- Faltam-me algumas, a drogaria hoje estava fechada. Amanhã trato disso - respondeu Wolfe.
Tintas era o código para semi-automáticas que era o departamento de Wolfe mais conhecido por "General Teko". Era o segundo na linha de comando. Acrescentou que ainda não tinha comprado as tintas, porque não se decidira a respeito da cor, hesitava entre um bege que poderia tornar as paredes sombrias ou um branco que pode ter o efeito contrário da sensação à qual a maioria das pessoas associa a este tom. Paz.
- Que raio estás para aí a dizer? - perguntou Defreeze.
O "General Teko" franziu a testa e disse-lhe que as tintas estavam amanhã - sem falta - naquela casa. Defreeze abanou a cabeça e deu um último gole antes de se sentar à mesa. Patty começou a servir o esparguete.
- O que é isto? - perguntou Wolfe.
- São conquilhas - respondeu Patty.
- Não são ameijoas? - perguntou Emily enquanto enrolava o esparguete na ponta do garfo. O nom de guerre da mulher era "Yolanda".
- Não, são conquilhas - repetiu Patty.
Patty tinha sido raptada há uma semana pelo Exército Simbionês de Libertação. Patricia Campbell Hearst nasceu a 20 de Fevereiro de 1954 e era neta do magnata William Randolph Hearst. Em troca da sua libertação, o SLA exigiu à família que fossem distribuídos alimentos no valor de vários milhões de dólares pelos indigentes de São Francisco. Durante uma semana, os membros da organização mantiveram fechada num armário, de olhos vendados, saindo apenas para comer. Ao cabo de uma semana, deram-lhe a escolher: ou tornava-se membro activo da organização ou matavam-na. A decisão de Patty foi imediata: "A partir de hoje, Patricia Hearst morreu. A partir de agora, o meu nome é Tanya".
A refeição continuou calmamente.
- Temos de começar a pintar o mais depressa possível - disse por fim DeFreeze - e conto contigo, "Tanya".
Tanya sorriu.
- Já não comia um spaghetti tão bom há anos. Onde aprendeste a cozinhar assim, rapariga?

segunda-feira, novembro 16, 2015

sexta-feira, novembro 06, 2015

Equipa de sonho

Na 1ª fila: Tristan Tzara, André Breton, Salvador Dali, Max Ernst, Man Ray. Fila detrás: Paul Eluard, Hans Arp, Yves Tanguy, René Crevel. Foto de Man Ray em 1933

sábado, outubro 31, 2015

Em Γάλα Beach (um conto de Halloween)



As horas demoram mais tempo a passar quando estamos de férias, principalmente nos primeiros dias. Passei um pouco pelas brasas, deitei-me em cima do muro da praia e quase que apanhava um escaldão. Estava bastante cansado, a bebé não dormiu a noite inteira. De regresso ao hotel, lembrei-me da razão pela qual saí à rua. Comprar leite em pó para a bebé. O hotel era um "2 estrelas Superior", nem sequer me dei ao trabalho de perguntar na recepção se podiam dispensar um pouco de leite em pó. Voltei a sair, não podia regressar ao quarto de mãos a abanar, a minha mulher rachava-me o crânio. Havia um mercado mesmo no fundo do rua, não havia necessidade de tirar o carro do parque. O fim de tarde estava bonito, sereno, eu sentia-me cansado mas feliz. Havia ainda muita gente na praia. As crianças não paravam de gritar, algumas tinham um bigode branco e outras eram uns autênticos panados brancos. Os adultos limpavam-se imediatamente quando regressavam do mar, as toalhas ficavam todas brancas. Era engraçado ver alguns com a marca do leite até aos joelhos ou até meio da canela, pareciam que estavam a usar meias. Uma mulher bebia do buraco de uma rocha, punha as mãos em concha e sorria para o seu filho que tentava imitá-la. Entre duas linhas de barracas, descobri duas mulheres em topless deitadas. Tinham acabado de sair do leite, ainda tinham salpicos brancos espalhados pelos corpos bronzeados. Inspirei fundo. A brisa quente trazia um cheiro agradável a natas doces. 
Foi então que me caiu a ficha como se costuma dizer. Será que não poderia levar um pouco de leite marítimo para a Matildezinha? O leite em pó, conforme explicam os pediatras, é especialmente recomendado para bebés nascidos por cesariana como foi o caso da Matilde. Dizem que este bebés possuem menos recursos para combater agentes patogénicos. Já as crianças nascidas por parto normal têm mais contacto com bactérias da mãe quando nascem, o que estimula as suas defesas desde o início. Mas a Matildezinha já tem quase onze meses. A minha mulher iria estrebuchar, mas acho que não deveria fazer-lhe mal nenhum à bebé. O leite apenas teria de ser fervido.
O leite deste mar era conhecido por ter bastante cálcio. Está decidido. Só tinha de arranjar uma garrafa ou um recipiente limpo. Ouço uma ambulância, vem na minha direcção. Era o INEM local. Um grupo de mirones juntou-se no fim do quebra-mar, alguns esbracejavam e gritavam, os dois salva-vidas galgavam o areal ao sprint. Não consigo entender o que vai na cabeça das pessoas para arriscarem a vida delas assim. Só no ano passado, morreram 26 pessoas em Γάλα Beach por intolerância à lactose.