sábado, fevereiro 06, 2016

A Loja de Cima

Imagem de Rui Ricardo


























Às vezes, quando o meu pai regressa do trabalho, manda-me ir comprar tabaco à Loja de Cima quando está de bem com a minha mãe. Isto acontecia pouco antes do jantar e eu ficava chateado, pois estava sempre cheio de fome e era capaz de comer um boi. Se os meus pais discutissem na véspera ou de manhã cedo antes de saírem para trabalhar, era ele que ia comprar tabaco e só chegava a casa por volta da meia-noite. Nessas noites, eu e a minha mãe jantávamos sozinhos. Ou melhor, eu jantava, ela mal tocava na comida. Quando regressava, o meu pai não conseguia meter a chave na fechadura à primeira e demorava muito tempo a abrir a porta. O aviso estava dado: a minha mãe entrava no meu quarto, afastava o meu corpo delicadamente (eu fazia sempre de conta que estava a dormir) e enfiava-se na minha cama. Mal o meu pai entrava em casa, ela choramingava alto para o meu pai ouvir e ficar com remorsos. (...)

Texto na íntegra também aqui.

sexta-feira, janeiro 29, 2016


quinta-feira, janeiro 21, 2016

segunda-feira, janeiro 18, 2016


quarta-feira, janeiro 06, 2016

A Cheia




Durante a Cheia, os Mareantes do Rio Douro saíam em romaria dia sim, dia não, faziam-se à água debaixo daquela chuva impiedosa. Cada mareante ocupava o seu bote, quanto maior fosse o seu instrumento de percursão, maior era o bote. Batiam furiosamente nos bombos e nas tarolas, era por isso que não parava de chover. O batel maior era ocupado pela gigantesca cabeça do São Gonçalo, rapazes e homens que navegavam atrás urravam "E ele é nosso! E ele é nosso!". Dezenas de botes atravessavam o rio várias vezes por dia e exibiam-se muito vaidosos para as gentes nas margens.

Na última semana, o nível das águas subiu até meio da Calçada das Freiras (não foi bem mas quase). As pobres das freiras do Convento de Corpus Christi tiveram de trepar para os telhados do convento e aí ficaram durante esses dias. Víamo-las a passarem ruge e pó-de-arroz no rosto, uma delas aparava a barba ali mesmo, faziam chichi pelas caleiras e obravam atrás do campanário da capelinha. Coitadas…se não fossem os pombos do Brandão (que lá concordou em cedê-los, muito contrafeito) a fazer-lhes chegar comida, não sei como é que elas sobreviviam nessas duas semanas.

Os empregados dos armazéns do vinho do Porto também ficaram encurralados. O rio subiu tão rápido durante o dia que não puderam regressar a casa, para junto das suas famílias. Ao verem o sofrimento dos habitantes do Monte, tiveram pena de nós; abriram então as portas pesadas dos armazéns do Vinho do Porto e deixaram-nos entrar - estávamos para lá de desesperados - para nos abastecermos de vinho. Havia um grande senão. No meio do nosso desespero, esquecemo-nos que aquele vinho era vinho do Porto, adocicado com a famosa banha; nos primeiros dias, as pessoas estavam tão sedentas que fecharam os olhos e taparam o nariz. Lá fizeram o sacrifício, bebiam um ou dois copitos e ficavam logo bêbadas, mas depois, o que é demais é moléstia, as pessoas exigiam vinho a sério, não aquela intrujice inventada por ingleses feita por portugueses para ingleses e emigras, e então ameaçaram os empregados, já se tinham esquecido que eles estavam a fazer-lhes um favor. Exigiam que eles mostrassem onde estavam os tonéis e os barris com vinho de mesa, para pessoas normais, para pessoas de trabalho, mas os empregados encolhiam os ombros, juravam a pés juntos que não havia nada disso ali. O senhor Alberto arranjou uma solução. O senhor Alberto mora junto à Loja de Cima, é um homem muito afável e muito diplomata, com muito tacto. Usa um robe de lã tweed e um chapéu à detective, passeia o mesmo cigarro na mão direita desde que o conheço, mas juro que nunca o vi a tirar uma passa àquele cigarro:

- Já que temos água de sobra, porque não baptizamos esta zurrapa? Pode ser que assim se possa beber este vinho impróprio para diabéticos.

terça-feira, dezembro 29, 2015

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Passeio

Encosto a cara a este sol de Inverno, que dia magnífico para dar uma volta pela paróquia. Até os homens da junta trabalhavam com mais afinco e dedicação. Estavam a arranjar o passeio de uma esquina e faziam-no com uma alegria sincera e transbordante, que profissionais. Tal e qual aquelas pinturas murais do Rivera. Que referência inteligente que eu introduzi aqui. Parei na beira do passeio e enquadrei-os com o polegar e o indicador. Que belíssimo quadro daria se eu tivesse jeito para pintar. Um casal adorável de velhinhos passa por mim. Vão os dois de braço dado. São meus vizinhos, velhos conhecidos. Idosos conhecidos, quero eu dizer. A senhora vira-se para mim. Hesitou em cumprimentar-me, desde que pusemos os olhos um num outro que vivemos os dois neste impasse, ninguém ousa dar o primeiro passo para a saudação. Aposto que foi professora de História, tem muita classe, cabelo grisalho, quase azul, casaco e calças creme, uma écharpe de motivos florais, discreta. Muito charme. O sol acaricia-me, que dia de Inverno lindo. Quem me dera ter FB para publicar estas coisas que me vão na alma. Sigo o casal, vão para o mesmo lado que eu vou. O homem não lhe fica atrás, é ele que marca o passo de nós os três. Têmporas brancas, reverentes, usa um fato azul escuro impecável, apenas alguns vestígios de caspa sobre os ombros, nada de grave. Aposto que escreve crónicas para o jornal local. Aposto que gosta de Aquilino. Faz-me lembrar o frei Bento Rodrigues O.P.. Mais uma referência inteligente, que senhor distinto. Vão demasiado devagar, tenho demasiado energia dentro de mim, vejo-me obrigado a ultrapassá-los, sinto-me envergonhado quando o faço, parece que estou a cometer uma infracção. O homem deixa de falar. Já vou uns bons cinco passos adiantado quando ouço um valente e magnífico traque. Sim, já não é a primeira vez. Da última vez que isto aconteceu, eu ia atrás. O velho cronista não tem qualquer tipo de clemência, não deixa prisioneiros.

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Eu Tenho um Sonho

Um Conselho de Estado formado por salamandras, tritões, nereidas e pelo Sá Leão. A Maria de Belém de tutu e sapatos de bailarina serve miniaturas de Jägermeister enquanto o Presidente não chega. Um retrato do Bon Scott e outro do Marcelo Caetano em molduras barrocas pendurados em paredes opostas. Marcelo R. Sousa (já presidente) entra de rompante. Vem do seu banho de mar diário, não teve tempo para mudar de roupa, ainda vem com os seus Speedo.
"Perdi alguma coisa?", pergunta enquanto seca as orelhas e arregala os seus belos e enormes olhos azuis.

Eu tenho um sonho.


sexta-feira, dezembro 04, 2015




I am smellin' like the rose
that somebody gave me on
my birthday deathbed
I am smellin' like the rose
that somebody gave me
'cause I'm dead and bloated

quinta-feira, dezembro 03, 2015

Frenologia



George era um rapaz bastante atento e aplicado: reparou que o formato quadrangular das “regiões” cerebrais de Gall tinha semelhanças irrefutáveis com a geografia dos estados que constituem os EUA; a posição e a geometria dessas faculdades, como, por exemplo, a auto-estima, a aprovatividade, a cautela, a secretividade e a destrutividade pareciam corresponder na perfeição às áreas e coordenadas latitudinais do Dakota do Norte, Dakota do Sul, Nebrasca, Kansas e Oklahoma. Teria sido por mero acaso que o infame KKK — que advogava a destruição dos filhos de Canaã, filho de Cam, filho de Noé — tenha nascido neste último estado do Sul? O episódio do Génesis é sobejamente conhecido: Cam encontrou o pai (Noé) embriagado e descoberto, e quando viu a nudez paterna, foi contar aos seus irmãos, Jafé e Sem, em vez de guardar pudor e cobrir o pai. Quando recuperou a consciência, Noé amaldiçoou o filho de Cam, Canaã, referindo-se a ele como o "servo dos servos"[1]. Canaã teve dois filhos, Sidom e Hete, cujas tribos descendentes se espalharam pelo norte de África e pela Etiópia. Este é um dos episódios bíblicos no qual o Klux se baseia para legitimar o segregacionismo. Será que a delimitação territorial dos estados daquele país teve com base os estudos frenológicos da topografia cerebral?


[1] Génesis 9:25: "…e disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos será de seus irmãos."

sexta-feira, novembro 27, 2015


quarta-feira, novembro 18, 2015

A nova vida de Patty Hearst

Patty escaldava os lábios a provar a massa. Sentado ao contrário, Wolfe tinha os braços apoiados nas costas da cadeira e o olhar encalhado na outra ponta da mesa da cozinha. O SLA já sabia que as autoridades não iam libertar Remiro e Little, algo teria de ser feito. Não podiam deixar passar uma semana. Defreeze estava a beber uma Bud enquanto olhava para a rua através das ripas de madeira.
- Já arranjaste as tintas?
Wolfe não respondeu. Patty virou-se. Arregalou-lhe os olhos e inclinou o queixo na direcção de DeFreeze. Os restantes elementos da organização tratavam-no respeitosamente por "General Field Marshal Cinque".
- Faltam-me algumas, a drogaria hoje estava fechada. Amanhã trato disso - respondeu Wolfe.
Tintas era o código para semi-automáticas que era o departamento de Wolfe mais conhecido por "General Teko". Era o segundo na linha de comando. Acrescentou que ainda não tinha comprado as tintas, porque não se decidira a respeito da cor, hesitava entre um bege que poderia tornar as paredes sombrias ou um branco que pode ter o efeito contrário da sensação à qual a maioria das pessoas associa a este tom. Paz.
- Que raio estás para aí a dizer? - perguntou Defreeze.
O "General Teko" franziu a testa e disse-lhe que as tintas estavam amanhã - sem falta - naquela casa. Defreeze abanou a cabeça e deu um último gole antes de se sentar à mesa. Patty começou a servir o esparguete.
- O que é isto? - perguntou Wolfe.
- São conquilhas - respondeu Patty.
- Não são ameijoas? - perguntou Emily enquanto enrolava o esparguete na ponta do garfo. O nom de guerre da mulher era "Yolanda".
- Não, são conquilhas - repetiu Patty.
Patty tinha sido raptada há uma semana pelo Exército Simbionês de Libertação. Patricia Campbell Hearst nasceu a 20 de Fevereiro de 1954 e era neta do magnata William Randolph Hearst. Em troca da sua libertação, o SLA exigiu à família que fossem distribuídos alimentos no valor de vários milhões de dólares pelos indigentes de São Francisco. Durante uma semana, os membros da organização mantiveram fechada num armário, de olhos vendados, saindo apenas para comer. Ao cabo de uma semana, deram-lhe a escolher: ou tornava-se membro activo da organização ou matavam-na. A decisão de Patty foi imediata: "A partir de hoje, Patricia Hearst morreu. A partir de agora, o meu nome é Tanya".
A refeição continuou calmamente.
- Temos de começar a pintar o mais depressa possível - disse por fim DeFreeze - e conto contigo, "Tanya".
Tanya sorriu.
- Já não comia um spaghetti tão bom há anos. Onde aprendeste a cozinhar assim, rapariga?

segunda-feira, novembro 16, 2015

sexta-feira, novembro 06, 2015

Equipa de sonho

Na 1ª fila: Tristan Tzara, André Breton, Salvador Dali, Max Ernst, Man Ray. Fila detrás: Paul Eluard, Hans Arp, Yves Tanguy, René Crevel. Foto de Man Ray em 1933

sábado, outubro 31, 2015

Em Γάλα Beach (um conto de Halloween)



As horas demoram mais tempo a passar quando estamos de férias, principalmente nos primeiros dias. Passei um pouco pelas brasas, deitei-me em cima do muro da praia e quase que apanhava um escaldão. Estava bastante cansado, a bebé não dormiu a noite inteira. De regresso ao hotel, lembrei-me da razão pela qual saí à rua. Comprar leite em pó para a bebé. O hotel era um "2 estrelas Superior", nem sequer me dei ao trabalho de perguntar na recepção se podiam dispensar um pouco de leite em pó. Voltei a sair, não podia regressar ao quarto de mãos a abanar, a minha mulher rachava-me o crânio. Havia um mercado mesmo no fundo do rua, não havia necessidade de tirar o carro do parque. O fim de tarde estava bonito, sereno, eu sentia-me cansado mas feliz. Havia ainda muita gente na praia. As crianças não paravam de gritar, algumas tinham um bigode branco e outras eram uns autênticos panados brancos. Os adultos limpavam-se imediatamente quando regressavam do mar, as toalhas ficavam todas brancas. Era engraçado ver alguns com a marca do leite até aos joelhos ou até meio da canela, pareciam que estavam a usar meias. Uma mulher bebia do buraco de uma rocha, punha as mãos em concha e sorria para o seu filho que tentava imitá-la. Entre duas linhas de barracas, descobri duas mulheres em topless deitadas. Tinham acabado de sair do leite, ainda tinham salpicos brancos espalhados pelos corpos bronzeados. Inspirei fundo. A brisa quente trazia um cheiro agradável a natas doces. 
Foi então que me caiu a ficha como se costuma dizer. Será que não poderia levar um pouco de leite marítimo para a Matildezinha? O leite em pó, conforme explicam os pediatras, é especialmente recomendado para bebés nascidos por cesariana como foi o caso da Matilde. Dizem que este bebés possuem menos recursos para combater agentes patogénicos. Já as crianças nascidas por parto normal têm mais contacto com bactérias da mãe quando nascem, o que estimula as suas defesas desde o início. Mas a Matildezinha já tem quase onze meses. A minha mulher iria estrebuchar, mas acho que não deveria fazer-lhe mal nenhum à bebé. O leite apenas teria de ser fervido.
O leite deste mar era conhecido por ter bastante cálcio. Está decidido. Só tinha de arranjar uma garrafa ou um recipiente limpo. Ouço uma ambulância, vem na minha direcção. Era o INEM local. Um grupo de mirones juntou-se no fim do quebra-mar, alguns esbracejavam e gritavam, os dois salva-vidas galgavam o areal ao sprint. Não consigo entender o que vai na cabeça das pessoas para arriscarem a vida delas assim. Só no ano passado, morreram 26 pessoas em Γάλα Beach por intolerância à lactose. 


quarta-feira, outubro 28, 2015

sexta-feira, outubro 23, 2015

Porn

Ainda morava em casa dos meus pais. Uma vez estava a ver tv no quarto e deixei ficar no canal onde o Cavaco Primeiro-ministro estava a falar. Era quase meia-noite. A sua voz grave sempre teve um efeito soporífero em mim. Não estou a querer dizer nada com isto, é apenas um pormenor biológico, se assim posso caracterizar. Nessa altura, o meu pai (que é comunista) andava a fazer o turno da noite. Não o ouvi a chegar a casa. O meu pai irrompeu pelo quarto (nunca batia à porta), fiquei todo atrapalhado, o comando caiu, as pilhas saltaram, etc. Ele olhou para o televisor, o Cavaco continuava a falar e depois olhou para mim. Não chegou a acender a luz. Por fim, lá fechou a porta e não me disse nada. Não me dirigiu a palavra durante quatro dias. Quando penso nessa noite, fico sempre com a sensação que o meu pai apanhou-me a ver um filme hard core.


terça-feira, outubro 20, 2015

Uma História Enternecedora

A dona Rosa Maria era a única idosa no lar de Santa Teresinha que tinha um animal de estimação, era um lindo canário que insultava sempre Natércia mal esta punha os pés no quarto, o pequeno alado não devia gostar de lábios descaídos.
"Olhe, mas ele não se mexe, pschiuu, ó passaroco."
"Há agora, não se mexe, está mas é a dormir, é um dorminhoco, olhe que não sai à dona, já estou a pé desde as seis e meia!", responde a dona Rosa Maria com os tendões do pescoço salientes, as pregas da pele a abanar, falava sempre com aqueles olhos arregalados que quase lhe saíam das órbitas, parecia a Gloria Swanson naquela famosa cena d’“O Crepúsculo dos Deuses” em que a actriz diz a famosa deixa All right, Mr. DeMille, I'm ready for my close-up, tinha posto pestanas falsas, as bolsas azuladas sob os olhos ocupam-lhe quase o rosto todo.
"Que pivete, ai que não se pode estar aqui, tenha lá santa paciência...Vou abrir a janela."
A velhota contorna a cama e abre o armário que estava a transbordar de roupas, já não havia espaço para um lenço, tira um casaco grosso com golas felpudas e forro à la tigresse. Natércia pega na eau de toilette que não tinha a tampa, cheira o pulverizador, faz cara feia. Junta o frasco a um cacho de perfumes que ocupava quase todo o toucador.
"Dona Rosa Maria, já fui buscar a fotografia emoldurada à loja, esqueci-me foi de a trazer para cima, depois dou-lhe quando descer, está bem?"
"Que fotografia?"
"A do falecido."
"Qual falecido?"
"Ó criatura, a fotografia do seu falecido marido, o senhor Floriano!"
"Ah. Tenho dois falecidos, rapariga, sabia lá de qual é que você estava a falar. Obrigado minha filha, depois dá-me, está bem? Olhe quanto lhe devo?"
"Não foi esse que esteve num san..."
Natércia comprime os lábios, pega na pergunta da outra para disfarçar.
"Oh já não me lembro, depois fazemos contas. Vá, saia lá que eu quero dar um jeito a este quarto."
"Já lhe contei a história do dedo? O meu Floriano era dono de três talhos, um ficava ali no Carvalhido, outro em Costa Cabral, lá no fundo, quase a chegar à Circunvalação, e outro ficava no Marquês, ele também era talhante, trabalhava no talho do Marquês, gostava muito daquilo que fazia e... Um dia ao almoço bebeu mais do que era costume e estava a cortar carne do vazio e zás!, não é que corta o dedo, do indicador, metade do dedo rola pelo cepo e cai? O meu marido aos berros, as clientes aos berros, veja lá, foi um deus nos acuda. Eu quando me lembro disto, quando o homem me chega a casa sem meio dedo...Nem queira saber a minha aflição."
"Pois, imagino…"
"Espere…ora o meu Floriano era tolo por cães, não os enxotava como a maioria das pessoas que trabalham nos cafés e nas lojas, chegou a ter problemas com a vistoria e com algumas clientes por causa disso, e, claro, à porta do talho estavam sempre meia dúzia de rafeiros à espera de restos, de ossos, pobres dos bichos, e não é que um desses cães vadios entra disparado por lá dentro e leva-lhe o dedo cortado!?"
"Virgem Maria. Já, senhora, já me contou essa história."
"...Isto foi numa quarta, por mais anos que passe aqui neste mundo,…na semana a seguir, o meu Floriano já estava no talho como se nada fosse, já não se fazem homens assim...mas espere aí que a história ainda não acabou...não é que o raio do cão, o mesmo cão que lhe roubou o dedo, aparece outra vez no talho? A menina não vai acreditar quando lhe disser o que é que ele trazia na boca!"
"O pedaço de dedo cortado, não foi?"
"Mas qual dedo, qual carapuça! Era um bocado de chispe de porco, trazia-o preso nos dentes, cheio de terra, e deslarga-o aos pés do meu falecido! A menina não acredita? O cão estica-se todo no chão, rabo entre as pernas e fica a olhar para o meu Floriano com aqueles olhinhos que os cães fazem como que a pedir desculpa. A menina cuida que o Floriano se chateou? Qual quê! Começou a fazer-lhe festinhas e ainda lhe deu um osso. Ai só mesmo o meu Floriano, Deus o tenha, o homem era doido por cães. O bicho lá deve ter ficado com remorsos....Os cães são muito finos, sabe?
"Pois são, dona Rosa Maria."

sexta-feira, outubro 16, 2015

O Túnel

Vendi ontem "O Túnel" do E. Sabato. Despachei-o porque achei-o uma desilusão. Não sublinhei nada, não fiz setas, não fiz anotações nas margens, o livro estava como novo. Foi uma transacção em mãos, a senhora pareceu-me simpática. O dinheiro deu para pagar a minha parte da peladinha das quintas. Pisei na bola (lance perigoso para golo) e bati com a caixa craniana na relva sintéctica. Fiquei meio atordoado, mas continuei a jogar. Hoje levantei-me com tonturas e decidi ir às urgências. Fiz um TAC, tudo ok. Passei a manhã toda a ver pessoas a sofrer e a queixarem-se do SNS. Numa daquelas macas deixadas no corredor, reconheci a senhora à qual tinha vendido o Sabato. Não consegui perceber o que é que lhe tinha acontecido. Estava com uma das mãos debaixo da cabeça como se estivesse deitada numa espreguiçadeira. Parecia que estava a gostar da obra que lhe vendi. Apeteceu-me regressar às urgências só para lhe perguntar o que é que ela viu no livro.

O Caminho das Garrafas


O segundo caminho para a Loja de Cima é o Caminho das Garrafas. Os vinhateiros da Ramada Alta e os donos das caves resolveram ajudar as pessoas que viviam no Monte e mandaram construir um caminho com garrafas vazias. O Caminho das Garrafas tem cerca de duzentos metros e atravessa os armazéns onde o vinho do Porto envelhece até à Loja de Cima onde os trabalhadores dos armazéns terminam o dia de trabalho a beber vinho a sério. São milhares de garrafas antigas que foram empilhadas e cimentadas e é o caminho mais usado pelas pessoas que vivem aqui. Quando parte alguma garrafa, é logo substituída por uma nova pelo responsável que é escolhido antes de fim do ano. Todos os dias, essa pessoa está encarregue de ver se há garrafas partidas ao longo do caminho, pois as pessoas que escolhem o caminho das Garrafas devem percorrê-lo sempre deitadas, é uma tradição muito antiga aqui no Monte, isto é-nos ensinado quando começamos a dar os primeiros passos. No Inverno, é bastante difícil passar pelo Caminho das Garrafas, a chuva molha as garrafas que ficam escorregadias e perigosas, podemos perder o controlo e magoar-nos contra as paredes de pedra dos armazéns, mas, no Verão, é muito agradável, gostamos de sentir o vidro quente das garrafas debaixo de nós, eu e os meus amigos passamos horas a rastejar e deslizar por cima das garrafas, serpenteamos, tocamos com os nossos corpos nos dorsos e nos gargalos das garrafas que não foram tapadas, os sexos dos mais velhos incham, os manos Guerra, o Sérgio Grande, o Pica, o Cabeças, o Jorge Tainha e os primos Baios deixam-se ficar no Caminho até o sol se pôr para depois brincarem às escondidas com o sexo nos gargalos, desejam fundir-se com as garrafas, fingem que já são adultos, gemem ali ao sol, mas fazem-no com muito cuidado, com muita delicadeza, pois as garrafas podem partir e cortar-lhes as jóias da coroa.

sexta-feira, outubro 09, 2015

segunda-feira, setembro 28, 2015

Pausa


Releio o meu discurso
algumas emendas
aqui e ali.
Fungo outra vez
acabei de sacar resgatar
uma catota do meu nariz
um burrié rectangular
resgatei
um mini-portugal de
oito séculos ressequido
no interior do meu nariz
(isso faz de Espanha
o meu nariz?)
Crostinhas no interior,
uma planura mais abaixo,
um pouco de muco no litoral,
amasso-o, arredondo-o,
brinco um pouco com ele
e aí vai Portugal
a minha criação nasal
pela janela fora.
Lá em baixo
um jota de boca aberta
engole sem querer
o meu Portugal.
Alguém da distrital
bate-me à porta.