sexta-feira, julho 31, 2015

terça-feira, julho 28, 2015

Índia

Quando Deus NS estava modelar a Índia, uma vaca veio por trás e lambeu-Lhe a orelha esquerda. Deus NS tapou a orelha com o ombro, mas a vaca fez o mesmo na orelha direita; Deus NS não conseguiu evitar, contorceu-se todo com as cócegas. As mãos distraídas apertaram o barro com demasiada força: a peça acabou por ficar adelgaçada na base e muito rugosa na parte de cima. Depois da secagem, um trabalho algo atamancado mas único.
"Selfie" de 1900

Good lord!

O Martin Amis não precisa de se esforçar muito. "Assim também eu."

Melhor comentário ao vídeo:
A fiver? Fucking cheapskate.

quinta-feira, julho 23, 2015

Los tres amigos

Fecharam o gato na marquise. Na verdade, não fecharam, as janelas da marquise estava abertas, os donos do gato é que se fecharam a eles próprios. O bichano está agachado na calha das janelas da marquise, está a olhar para as estrelas. Para ser mais preciso, o gato está a contemplar Arcturus. Arcturus, ou Alpha Boötes, ou Arturo, é uma estrela gigante laranja tipo ko III e, segundo o wiki, fica relativamente perto da Terra, a apenas 36,7 anos-luz. Só para terem uma ideia, se Arcturus explodisse agora, neste momento, só daqui a 36,7 anos é que iríamos poder ver a explosão no céu nocturno. Arcturus é muito maior do que o Sol. É tipo quase trinta vezes maior do que o sol (agora com letra pequena). Só para terem uma ideia, se Deus pusesse as duas estrelas lado a lado, o sol seria uma ervilha e Arcturus seria uma abóbora. Agora pensem, sungazers.
O gato não desvia o olhar da estrela gigante. Eu também me encontro fechado na minha marquise. Chateei-me com a minha mulher, ela deu-me a escolher: ou o sofá da sala ou a marquise. E aqui estou eu, de boxers, na marquise, com uma garrafa de água na mão, a tentar seduzir um gato do prédio da frente. Mas nada, o gato está em transe, está hipnotizado pela grande estrela. Formou-se ali uma espécie de triângulo cósmico na madrugada, eu, o gato e Arcturus, e quando dei por ela, estava a trautear uma música de um tipo inglês marado chamado Squarepusher.

terça-feira, julho 21, 2015

Jacob Munkhammar


















Os nossos emigrantes estão aí. Próximo da Barragem da Falperra, V. P. Aguiar.

segunda-feira, julho 20, 2015

Já faltou mais pra ter tuíter (IV)

@pedroeoroubo: rah não é todos os anos que se tem a mesma idade do número que se calça. Ok português de c@c@, vocês entenderam.

quinta-feira, julho 16, 2015

Poor Boy Slim

Poor Boy Slim seguia pela estrada poeirenta numa passada arrastada e pesarosa (mais pesarosa do que arrastada talvez) em direcção a Norte. O sol inclemente apoia-se sob o seu ombro esquerdo, a guitarra pesava-lhe uma tonelada. Aproximava-se lentamente de uma encruzilhada, da famosa encruzilhada onde se diz que Robert Johnson vendeu a alma ao diabo há alguns anos. O pai de Poor Boy Slim era amigo de Robert Johnson e em miúdo ouviu muitas aventuras do famoso bluesman. Poor Boy Slim teve de esfregar os olhos. Pareceu-lhe ver um sapador bombeiro sentado na berma do cruzamento. Estava com ar cansado e desolado, talvez até mais desolado do que cansado. Antes de se sentar, Poor Boy Slim cumprimentou o velho bombeiro que devolveu o cumprimento tocando na pala metálica do capacete. O capacete era uma peça líndissima. Passada nem meia hora, os dois avistaram ao longe aquilo que parecia ser um chinês a pedalar uma daquelas bicicletas de gelados. O cruzamento estava uma fornalha àquela hora, os dois estavam completamente ensopados. À medida que o estranho vulto se aproximava, as suas suspeitas confirmaram-se. Era efectivamente um chinês a pedalar uma daquelas bicicletas de gelados.
- Vai um geladinho? - perguntou o chinês todo sorridente.
- Sim - responderam os dois ao mesmo tempo. - Quanto custa? - perguntaram os dois em coro.
- Não quero dinheiro - respondeu o chinês com um sorriso de orelha a orelha.

sexta-feira, julho 10, 2015

Knut

Durante a sua segunda passagem pela América, entre 1886 e 1888, trabalhou como operário não qualificado e durante nove meses foi condutor de eléctricos em Chicago. Era conhecido pelo seu hábito de ler Aristóteles e Eurípides entre as paragens. Era muito pobre e resistiu ao rigor do Inverno de Chicago usando folhas de jornal sob a roupa; os seus colegas gostavam de tocar-lhe para o amarfanhar.

quarta-feira, julho 01, 2015

Já faltou mais para ter tuiter (III)

@pedroeoroubo O lema de Tsipras é o lema dos Lannister (GoT):

"A Greek always pays his debts*

*with bailout extension."

segunda-feira, junho 29, 2015

O goulash

Hoje é dia de São Pedro e por isso decidi ir a São Pedro da Cova almoçar. Mandei vir o famoso "goulash" à moda de São Pedro da Cova de que toda a gente fala. O guisado tinha sido afogado numa espécie de molho de cor antracite. O único funcionário da Casa Macedo poderia ser irmão gémeo do R. Quaresma, não fossem os óculos e o bigode à J. Joyce. Apenas três mesas estavam ocupadas, o empregado aproveitava todas as pausas no serviço para escrevinhar numa imitação de Moleskine.

"Hoje, forasteiro de ar pretenciosamente misterioso, blusão Levi's
genuinamente gasto, goulash & verde tinto. Demasiado polido para o
padrão local. Julga que sabe tudo sobre nós, mas não sabe. Deixa ficar
metade da comida do prato. "Café curtinho", gorjeta de cinquenta cêntimos. Que
odioso, que miserável. Não pede factura com NIF, oh que magnânimo!
Despede-se como se voltasse cá amanhã. Mas quem é que
ele pensa que é, este suburbano? Aí vai ele no seu comercial branco para o
seu T1+1 em Valbom ou no cu de judas onde ele mora. Mas que miserável
tão miserável, o paladino dos miseráveis, aí vai ele."

quarta-feira, junho 24, 2015

segunda-feira, junho 22, 2015

LDS Church



Quando li a primeira vez, pensei que a sigla estava mal escrita. Tal como a maioria (pensei logo em LSD que pode significar Least Significant Differences ou Lucky Strike Devils).
Às vezes adoro o meu trabalho.

É assim que acaba

O pasteleiro aparece atrás do balcão com um belíssimo bolo branco e pergunta à dona "o que é para pôr". Ela agarra-o pela braço, encaminha-o para a parte de trás do café como que se tivesse vergonha do pasteleiro. Dou o meu primeiro gole de café para conseguir ouvir a conversa.
"O bolo tem de ser azul e com muitas estrelinhas, a miúda adora estrelinhas."
"Sim, mas quantas?"
"Doze...assim em círculo, 'tás a ver?"
Naquele momento, Tsipras enche a televisão pendurada num canto e começa a falar, parece muito sério. Não dá para ouvir nada, o som está cortado. Ainda tenho um restinho de café no fundo da chávena, agito-o e dou o meu último gole. A mulher atende o telefone e aperta a cana do nariz com o indicador e o polegar. Corre atrás do balcão, abre a porta de vai-e-vém e berra lá para dentro.
"Afinal, são onze estrelinhas."

sexta-feira, junho 19, 2015

quarta-feira, junho 17, 2015

A bicicleta

Comecei a ler "O Homem Lento" do Coetzee no dia em que comprei a bicicleta. No "Homem Lento", o protagonista perdeu uma perna num acidente de bicicleta, gosto sempre de me preparar para o pior. Coetzee quer dizer "de Kocz", Kocz é uma cidade que fica no norte da Hungria. A bicicleta é amarela, tem um autocolante a dizer Rally no quadro, tem mudanças Shimano (!), trava mal, mas custou-me apenas trinta euricos (usada). E agora, preparem-se: o Porto não é Amesterdão, nem Gaia é Haarlem. Espumo-me e suo como um cavalo, mas que coça que eu levo quando pego na minha Rally, é bem feito para mim, confiei em excesso nas minhas pernas, assoberbei a nossa topografia.

A insídia católica

A enfermeira pergunta à recém-acamada qual é a sua religião. A mulher deu entrada há coisa de quinze minutos, os olhos são de um verde indeciso, seria muito difícil acertar no pantone daquele verde, é jovem e a cair para o forte, usa um buço que lembra a pele de um pêssego maduro. Já forneceu quase todos os dados, às vezes parece que fala suomi ou uma língua eslava qualquer, como é que ela conseguiu trepar a Muralha? Já tem o tubo do soro enfiado no pulso da mão direita, a mão esquerda não larga um grande molho de chaves que devem abrir todas as portas da sua aldeia. A enfermeira, de baixa estatura mas muito solícita, repete a pergunta.
"Portuguesa."
"Não, a sua religião."
"...acho que é portuguesa."
"Posso pôr católica?"
"Sim, acho que sim."

segunda-feira, junho 15, 2015

O escritor


O escritor molha os lábios enquanto lê o rótulo da composição química colado na garrafa de plástico. A carta está pousada sobre a sua fiel Corona que comprou há muitos anos na feira da ladra. Rasga o envelope com um abre-envelopes com o brasão de armas do Egipto e começa a ler em voz alta:

"Queremos antes de mais agradecer a confiança que depositou na nossa editora ao apresentar-nos o seu original.
Após análise do mesmo, cumpre-nos informar que entendemos não proceder à sua publicação,(...), o que em nada afecta a qualidade e o mérito do seu texto
."

Era o seu terceiro romance, o mais bem conseguido até à data. O escritor torna a encher o copo e pega na garrafa para acabar de ler a composição química da água que está a beber. O escritor acende o cachimbo electrónico e diz:
Agora posso escrever. Agora posso simplesmente escrever.”

sexta-feira, junho 12, 2015

co-thinking

Ah trabalhar outra vez com seres humanos.
Pensar duas vezes
antes de enfiar lascivamente
o dedo no nariz;
pensar duas vezes
antes de tirar fios de laranja
presos entre os dentes;
pensar duas vezes
antes de remover cotão do umbigo
(ou de outra parte anatómica qualquer).

Tal como diria o infame Gary Glitter:
"Hello, hello, it's good to be back".

terça-feira, junho 09, 2015

























Mais palavras intraduzíveis (os japoneses e os alemães abusam um pouco), aqui.