segunda-feira, junho 22, 2015

É assim que acaba

O pasteleiro aparece atrás do balcão com um belíssimo bolo branco e pergunta à dona "o que é para pôr". Ela agarra-o pela braço, encaminha-o para a parte de trás do café como que se tivesse vergonha do pasteleiro. Dou o meu primeiro gole de café para conseguir ouvir a conversa.
"O bolo tem de ser azul e com muitas estrelinhas, a miúda adora estrelinhas."
"Sim, mas quantas?"
"Doze...assim em círculo, 'tás a ver?"
Naquele momento, Tsipras enche a televisão pendurada num canto e começa a falar, parece muito sério. Não dá para ouvir nada, o som está cortado. Ainda tenho um restinho de café no fundo da chávena, agito-o e dou o meu último gole. A mulher atende o telefone e aperta a cana do nariz com o indicador e o polegar. Corre atrás do balcão, abre a porta de vai-e-vém e berra lá para dentro.
"Afinal, são onze estrelinhas."

sexta-feira, junho 19, 2015

quarta-feira, junho 17, 2015

A bicicleta

Comecei a ler "O Homem Lento" do Coetzee no dia em que comprei a bicicleta. No "Homem Lento", o protagonista perdeu uma perna num acidente de bicicleta, gosto sempre de me preparar para o pior. Coetzee quer dizer "de Kocz", Kocz é uma cidade que fica no norte da Hungria. A bicicleta é amarela, tem um autocolante a dizer Rally no quadro, tem mudanças Shimano (!), trava mal, mas custou-me apenas trinta euricos (usada). E agora, preparem-se: o Porto não é Amesterdão, nem Gaia é Haarlem. Espumo-me e suo como um cavalo, mas que coça que eu levo quando pego na minha Rally, é bem feito para mim, confiei em excesso nas minhas pernas, assoberbei a nossa topografia.

A insídia católica

A enfermeira pergunta à recém-acamada qual é a sua religião. A mulher deu entrada há coisa de quinze minutos, os olhos são de um verde indeciso, seria muito difícil acertar no pantone daquele verde, é jovem e a cair para o forte, usa um buço que lembra a pele de um pêssego maduro. Já forneceu quase todos os dados, às vezes parece que fala suomi ou uma língua eslava qualquer, como é que ela conseguiu trepar a Muralha? Já tem o tubo do soro enfiado no pulso da mão direita, a mão esquerda não larga um grande molho de chaves que devem abrir todas as portas da sua aldeia. A enfermeira, de baixa estatura mas muito solícita, repete a pergunta.
"Portuguesa."
"Não, a sua religião."
"...acho que é portuguesa."
"Posso pôr católica?"
"Sim, acho que sim."

segunda-feira, junho 15, 2015

O escritor


O escritor molha os lábios enquanto lê o rótulo da composição química colado na garrafa de plástico. A carta está pousada sobre a sua fiel Corona que comprou há muitos anos na feira da ladra. Rasga o envelope com um abre-envelopes com o brasão de armas do Egipto e começa a ler em voz alta:

"Queremos antes de mais agradecer a confiança que depositou na nossa editora ao apresentar-nos o seu original.
Após análise do mesmo, cumpre-nos informar que entendemos não proceder à sua publicação,(...), o que em nada afecta a qualidade e o mérito do seu texto
."

Era o seu terceiro romance, o mais bem conseguido até à data. O escritor torna a encher o copo e pega na garrafa para acabar de ler a composição química da água que está a beber. O escritor acende o cachimbo electrónico e diz:
Agora posso escrever. Agora posso simplesmente escrever.”

sexta-feira, junho 12, 2015

co-thinking

Ah trabalhar outra vez com seres humanos.
Pensar duas vezes
antes de enfiar lascivamente
o dedo no nariz;
pensar duas vezes
antes de tirar fios de laranja
presos entre os dentes;
pensar duas vezes
antes de remover cotão do umbigo
(ou de outra parte anatómica qualquer).

Tal como diria o infame Gary Glitter:
"Hello, hello, it's good to be back".

terça-feira, junho 09, 2015

























Mais palavras intraduzíveis (os japoneses e os alemães abusam um pouco), aqui.

sexta-feira, junho 05, 2015




















You wanna be like Errol Flynn
Captain Blood was a whore
You wanna be like Gary Cooper
High on a horse
You wanna be like Lorne Chaney
Howlin´ at the moon
You wanna be like Baby Glass
Give me a kiss too soon, yeah


Timothy Taylor

quinta-feira, junho 04, 2015

Já faltou mais para ter tuiter (II)

@pedroeoroubo
Ancelotti no melhor clube do mundo, Boavista.
Mais do que confirmado.

quarta-feira, junho 03, 2015

Ah o Primavera

Ariel Pink e Electric Wizard (e talvez os Spiritualized se tiverem num dia bom).
O resto é para encher chouriços.

Joseph Blatter

Joseph Blatter é o oitavo filho de uma humilde família de Rajshahi, Bangladesh. O seu pai era um hábil tecelão que ao cabo de muitos anos de ofício conseguiu tecer fios da água no velho tear que herdara do seu pai. Vinham pessoas do locais longínquos como o Botão Butão ou Myanmar para comprar os seus belíssimos tecidos e urdiduras de água. A sua mãe chamava-se গৃহিনী que em bengali significa Doméstica. Quando Joseph fez um ano, Doméstica resolveu consultar um adivinho para saber qual seria o destino do seu filho. O adivinho era um homem de muitas posses e tinha a seu cargo um jardineiro que, no dia anterior, lançou linhas de cal sobre o jardim que era gabado e cobiçado por todos na cidade. O jardineiro já tinha alertado o seu patrão que se este não pagasse aquilo que lhe devia, iria fazer algo ruim ao seu jardim. Na verdade, o jardineiro era um homem estóico e estava a ficar cego, mas não teve coragem de confessar isto ao seu patrão com receio de perder o emprego. Quando Doméstica se sentou com o bebé Joseph Blatter à frente do adivinho, a cabeça do vidente estava pantanosa e o seu coração estava muito pesaroso, e profetizou que aquela criança iria ter uma vida longa mas cheia de dor e canseiras, com muita gente a desejar-lhe mal, como um longo rio barrento cheio de entulho e troncos rachados. O adivinho aconselhou ainda que Joseph deveria dormir sempre em beliches de pinho e, de preferência, na cama de cima.

segunda-feira, maio 25, 2015

domingo, maio 17, 2015

Riley Ben King

Quem disse que para reinar não se deve ter amigos enganou-se redondamente. Creio que é a melhor qualidade que consigo encontrar no homem. Curiosamente, sempre gostei mais do seu vozeirão do que do som da Lucille que é demasiado limpo para o meu gosto. Mas que tocava para o mundial, tocava.

terça-feira, maio 12, 2015

Duelo

Para acabar de vez com acusações, insultos e verborreias via sms, tuítes, face, he-mails, she-mails, comunicados, etc., proponho a reabilitação da melhor tradição dos séculos dezoito e dezanove: duelos ao fim do dia nos bosques para repor a honra e a taxa de mortalidade.
Vou desenhar a petição e volto já.

quarta-feira, maio 06, 2015

Já faltou mais para ter conta tuiter

@pedroeoroubo
Em função da nova ameaça da greve dos pilotos, TAP assegura a aquisição de centenas de milhares de parapentes e drones XXXL.

@pedroeoroubo
E não seria mais barato transformar a companhia "de bandeira" numa low cost? Uma única classe, sem lugares marcados, com raspadinhas e cornetas a soar a bordo? E a aterrar a horas já agora? Não, isso é tudo muito left-wing (!) (excepto a parte das raspadinhas).

terça-feira, maio 05, 2015

sexta-feira, maio 01, 2015

Bula

A Bula de Maio já está disponível nas Farmácias de Serviço
e aqui.

sábado, abril 25, 2015

Proverbial

Quatro provérbios para encerrar a acta da última reunião de condomínio que durou até às tantas:

Liberdade que rebenta em Abril
dá pouca memória para o barril.

Abril, tempo de cuco
de manhã liberto
e à tarde caduco.


Em Abril,
ingerências mil.

O MFA derrubou
a ditadura
À tarde, piscina.

sexta-feira, abril 17, 2015

Guerra

Como é possível ter sido plagiado por um autor mais velho, um escritor mais do que conceituado, um tipo ao qual não me importaria de engraxar os sapatos, um homem que trabalhou com Fellini e Antonioni? Irritado, atirei as Histórias para uma noite de calmaria para trás do sofá e fui para a cama a pensar no dinheirão que iria gastar com os meus advogados. Escusado será dizer que dormi mal e porcamente. Hoje de manhã, enquanto me calçava, ouvi um coaxar que vinha da frincha entre o sofá e a parede. Olhei para o meu odradek, ele devolveu-me aquele seu olhar imperturbável e fingimos os dois que não se passava nada. Acabei por esquecer o assunto.

segunda-feira, abril 13, 2015

Na fila

Enquanto esperava que as Finanças abrissem para pagar o IMI das minhas quatro casas, pus-me à escuta da conversa entre quatro seniores, consegui manter-me escondido atrás de um excelente camalhaço para o efeito, "Críticas e notícias - Dados Biográficos - 1927-1995". Um dos idosos vestia um fato casual, muito elegante, tinha voz de tenor, as vidraças da repartição vibravam quando punha pontos de exclamação em quase todas as frases, ainda tinha a pronúncia carregada e musical da Serra de Bornes.
- Em 1900, andei nove meses a fazer gamelas de massa, tinha de ganhar dinheiro para mim e para os meus pais, pois então, só depois é que fui para trás de volante, fui chofer durante mais de trinta anos, trabalhei muito de noite, às vezes quinze dias seguidos, mas primeiro acartei pedra para fazer quase todos os bairros de Porto, só depois é que comecei a ir lá para fora, ia e vinha da Inglaterra, França, Luxemburgo, Países Baixos, País dos Sudetas, etc, etc. Em Agosto de 1939, já estava a caminho de Portugal, vinha eu do sul da Alemanha, metade da camionete estava cheia de judeus, já estávamos no sul da França, caralho, senhores, que sorte que eles tiveram! E eu também, pois então!".
Foi a primeira vez que estive a meia dúzia de passos de um imortal, de um Struldbrug, e ainda por cima português.

segunda-feira, abril 06, 2015

Leonora Carrington


















Muitos parabéns D. Leonora.
A senhora é a minha Nossa Senhora.

sexta-feira, abril 03, 2015

segunda-feira, março 30, 2015

Novo haiku da mudança da hora


Com esta coisa de
adiantar a hora,
às nove oito ainda é dia.

sábado, março 28, 2015

sexta-feira, março 27, 2015


quarta-feira, março 25, 2015

Ainda o poeta

Ainda tenho alguma esperança que encontrem a caixa negra do H.H. para tornarem públicas as "causas da sua morte", seja feita a vontade da alguma comunicação social que o descobriu ontem. Aquela sua poesia que manda logo para as ligas distritais qualquer poesia que se fez na "segunda metade do séc. XX" - havia necessidade para este tipo de comentários nesta hora? Sim, há, poupar-se-ia muito tempo e muito papel.
Estou a ser injusto. Excepção para o Cesariny que também era bom com as duas mãos. É claro que depois tenho as minhas simpatias (sem qualquer tipo de condescendência, como se eles precisassem): António Osório, Ana Paula Inácio, Adília Lopes*.


*Sim, começam todos pela letra "A", é o meu critério infalível para estas cenas.

terça-feira, março 24, 2015

Herberto Helder

terça-feira, março 17, 2015

Palavra d'honra

Bati-me ontem em duelo e venci, a minha honra foi reposta. Arma escolhida: florete. Sofri apenas um ligeiro corte na perna, uma tentativa trapalhona de um golpe de Jarnac por parte do meu adversário, o Barão do Chão Vermelho. O motivo? Não posso dizer porque já me esqueci, o meu adversário deve ter golpeado a minha cabeça sem que eu desse conta; para piorar ainda mais as coisas, amanhã tenho de comparecer numa comissão de inquérito qualquer. Que maçada, o que é que vou para lá fazer se não me lembro de nada? Como se não bastasse, um dos membros da comissão foi minha testemunha no duelo, porque é que ele requereu a audição? Mas que maçada, que maçada.

quinta-feira, março 12, 2015

Alcaparras

Não consigo livrar-me
do hálito
a alcaparras.

Há uma semana
que falo com este
fedor verde,
a minha boca é um walker.

A minha mulher
faz cara feia
e vira a cara pró lado
quando a vou beijar,
deveria ser "na saúde,
na doença,
na pestilência,
etc.".

Já bochechei hextril
umas quarenta vezes,
bebi limonada com
água salgada,
fui à Santa Rita
a pé e nada,
nada resulta.

Esta merda é o que dá
armar-me em
masterchef.

quarta-feira, março 11, 2015

Prejuízo literário

Tento interiorizar que cada dia que passo sem escrever 300 palavras, perco quase 3000€ diários como aquele totalista do Euromilhões que ainda não reclamou o prémio. 30 mil. 300 mil. Por aí fora.

A situação política no Uzbequistão

À falta de melhor, tenho acompanhado os últimos desenvolvimentos políticos no Uzbequistão e não consigo deixar de associá-los a contínuas jogadas de Batalha Naval. Senão vejamos: o ex-PM encontra-se em "prisão preventiva" há quase meio ano; foi um porta-aviões que embora já tenha ido ao fundo há algum tempo, ainda consegue enviar mísseis/missivas do fundo do mar (não, não é um submarino, esse é representado pelo RP do Governo, é um caso de estudo de resiliência e sagacidade política). O actual PM é outro porta-aviões que se mantém à tona a todo o custo; se sofrer mais um tiro, é provável que vá ao fundo. A ministra das Finanças é uma bela fragata com uma pesada divida pública no bojo (não pode largá-la em alto-mar) que se farta de navegar por misteriosos mares interiores. O PR é um navio-almirante que conta já com inúmeras comissões no currículo, mas que agora parece navegar ao sabor das ondas. A sua manutenção sai cara. Precisa de reforma. Não consigo definir o actual líder da oposição; actuou com alguma eficácia como contra-torpedeiro no passado, foi concebido para escoltar o porta-aviões naufragado, mas pergunto-me se possui autonomia e capacidade suficientes para enfrentar os mares revoltosos do Uzbequistão.

segunda-feira, março 02, 2015

O sonho



Vou contar-vos o sonho que tive esta noite. 
Ia com a minha mãe numa daquelas velhas camionetas dos Carvalhos, da UTC, daquelas que estão a cair de podres e que encharcam o ar de fumo preto, íamos já a meio da viagem, quando resolvi confirmar com o motorista que era russo se a camioneta ia mesmo para Ecaterimburgo; ele disse que não, que só ia até Perm. A minha mãe começou a mandar vir comigo, "estás a ver, estás a ver, o que é que eu te disse? Tu nunca me ouves", começou a esbracejar a dizer que queria sair, ela bem me tinha avisado que tínhamos entrado na camioneta errada. O motorista travou a fundo, um grupo de hospedeiras de bordo que ia lá trás foi projectado para a frente, era cada uma melhor do que a outra, metiam todas a Irina, a ex do R7, no bolso, as lindas hospedeiras ficaram prensadas no vidro da frente e começaram a disparar insultos para o motorista. A minha mãe e eu estávamos mesmo atrás do lugar do motorista que se virou e olhou para os meus pulsos; muito calmamente, desapertou a bracelete do meu Rolex, enfiou-o no bolso, voltou-se e piscou-me o olho pelo retrovisor. Arrancamos. Olhei lá para fora, árvores e mais árvores que aborreciam de morte a paisagem. A minha mãe já dormia com a boca aberta, acabei por adormecer também.
Alguém me puxava pelo braço e dava tabefes meigos para me acordar. Olhei atarantado para o lado. Em vez da minha mãe, vi a minha mulher a sorrir para mim, estávamos outra vez parados. A camioneta estava vazia. O motorista russo estava lá fora a ver a pressão do pneu careca com a bota texana. À nossa frente, uma placa branca dizia "Serzedo".

domingo, março 01, 2015

Yaşar Kemal

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Efeito Borges

Um homem começa a bradar passagens do Livro de Areia em plena biblioteca. Ninguém tem coragem para fazer "schiu", um grupo de miúdos do secundário na mesa ao lado tenta abafar o riso, o homem tem um ar meio alucinado, descalçou uma das sapatilhas e apoiou o pé de gesso na cadeira da frente. A funcionária rebola os olhos, levanta-se e chama-o à atenção, pelos vistos o senhor é reincidente nestas coisas. O silêncio foi reposto. Fiquei um pouco para o desconsolado no fim.

Base das Lajes

Aproveitar a infra-estrutura e fazer um shopping. "Shopping center Victoria Beach". A pista de aterragem seria o parque de estacionamento. Rentabilizar a formação dos condutores "follow-me" e pô-los a conduzir e a arrumar carrinhos de compras abandonados pelos clientes do hiper. Ampliar a torre de controlo, futura praça da Restauração com vistas maravilhosas.
No Mac:
"Mamã, mamã, de onde vêm os big macs?", pergunta a criança de boca aberta, vê-se o bolo alimentar a ganhar forma.
"Estás a ver aquelas vaquinhas ali ao fundo?", pergunta a mãe sem olhar para as vaquinhas.
O miúdo acena com a cabeça várias vezes, com muito mimo e com os sapatinhos em cima do banco vermelho.
"Não vêm dali. Agora senta-te direito, Joe dos Santos."

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

"Kem és tu?", Galactus

Sim, acabei de atribuir números de telemóvel desconhecidos (que me ligam ou enviam sms sistematicamente) a nomes de heróis marvel ou de poetas franceses e agora não consigo apagar as mensagens. Mais faceto do que barrar esses números.

"Liga.m mal possas tou + farto desta merda"
Wolverine

"Percebo que queiras dar um tempo, mas ao menos podias dizer-me isso nos olhos"
Paul Célan

"Francesinha no Santiago amanhã? Xupa-mos lol"
Fénix

domingo, fevereiro 08, 2015

Gémeos separados à nascença (II)

Robert Walser
Carson Mccullers


sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Reencontro

Hoje de manhã, um amigo de Andrómeda, ex-organista de igreja, do tempo em que eu ia à missa, senta-se à minha mesa e faz conversa. Começa a falar sobre a mudança de instalações, do espaço maior da sua nova drogaria, de materiais de construção, de botas de biqueira de aço, fiquei a saber que os martelos-pneumáticos da Bricot não valem nada, chinesices, diz ele, e por fim convida-me para a grande inauguração com direito a vinho e sandes de leitão. O gigantesco smartphone do meu amigo toca, ele sai à pressa, despede-se com o polegar para cima. Pago-lhe o café. Uma ninharia comparado com a humanidade e o know-how que ele me deu. Aperto o meu fato espacial e regresso ao meu cárcere doméstico.

Update

O porco-preto
do meu vizinho partiu de vez
e levou quase tudo com ele.

Um vaso solitário
no meio de um
terraço feio e limpo.

terça-feira, fevereiro 03, 2015

Dicas de higiene e de beleza

Não estou a tentar lamber as botas de ninguém (já o fiz ontem à noite), mas os livros da Antígona são óptimos ao quadrado. Um velhote na biblioteca a tirar lodo das unhas desleixadas usando o vértice da capa de um Cossery como canivete. Um vale fértil de bacilos em cima da mesa.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

sexta-feira, janeiro 23, 2015

Kepler, roi-te de inveja

A prática prolongada de apneia em piscinas é um excelente método para descobrir novos exoplanetas. Super-Terras com abundância de água onde a vida é possível. Ainda hoje de manhã descobri mais dois, baptizei-os de Virgin 23a e Virgin 23b.

segunda-feira, janeiro 19, 2015

A aparição de St. Steve J.

Os i-devotos usam-nos como se fossem terços ou kombolóis. O resto (ler outras marcas de smartphones e tablets) não existe, renegam-no ou desprezam-no. Não me surpreendia se três designers vissem Steve J. a pairar em cima de uma oliveira num local ermo* e o santo lhes transmitisse incríveis revelações em vários passos super intuitivos.
Peregrinações. Promessas. A construção de uma catedral Apple. O culto da Maçã Mordida. A Grande Irmandade Safari. A Cúria Cupertina. Perseguições a nokianos, samsunguianos, etc. Fundamentalismo. Terrorismo.

*sem ligação Wifi.

- enviado a partir do meu i-phone -

segunda-feira, janeiro 12, 2015

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Café

Entro no café para tomar café e comprar a raspadinha Grande Sorte. Costumo ganhar dois ou quatro euros, compro mais raspadinhas. O empregado diz-me sempre:
- Se tivesse mais três zeritos é que era, não era, amigo?
Olho à minha volta. Em vez dos habituais velhotes a folhearem o JN ou o Jogo, estão quatro clones do cantor cigano El Chato a lerem o "O que diz Molero". Um dos El Chatos pergunta ao El Chato do lado:
- Este trinco, o Machado, deveria ter ido com os porcos antes do início da época. É que não joga a ponta de um corno.
Saio e aguardo um pouco cá fora para apanhar ar frio. O autocarro despeja pessoas na paragem mais adiante. Levo a mão ao bolso e encontro meio comprimido de Ben-u-ron. Torno a entrar no café. Em vez dos El Chatos, estão agora os quatro Ramones espalhados pelas mesas. Não estão a ler nada, limitam-se apenas a olhar para mim.

domingo, dezembro 28, 2014

domingo, dezembro 21, 2014

Acta

Vivo naquilo que os franceses chamam de chambre de bonne. Partilho uma casa de banho com uma senhora que diz ser minha esposa e, volta e meia, um odradek peludo surge debaixo da cama e reclama a minha atenção. Ficamos a olhar um para o outro durante uns bons vinte minutos até ele se cansar e desaparecer. Durmo, trabalho, faço as minhas refeições nesta divisão, não sei o que se passa nos confins do meu apartamento nem no resto do mundo. Faço sequências de abdominais e Chi-kung com os olhos presos no monitor, uma americana loura diz-me como fazer os exercícios. Quando me sinto mais só ou quando quero ter a certeza de que não sou o único sobrevivente de um holocausto silencioso que me passou ao lado, levanto-me, inspiro fundo e bato várias vezes com a palma da mão na parede; o casal vizinho começa então a discutir, trocam insultos, acusam-se mutuamente, a tua mãe, isto, o teu irmão, aquilo, só queres estar com os teus amigos, quem é esta gaja que adicionaste no face, etc, etc, e, no fim, mas nem sempre, violam-se um ao outro: estão assim a cumprir escrupulosamente o Ponto 4 da acta da última reunião de condóminos.

sexta-feira, dezembro 12, 2014

O porco

O meu vizinho que mora no R/C do prédio da frente tem um porco-preto num pátio que é relativamente grande. O porco é um agente de destruição: roupa a secar, vasos, sacos de ração, bolas de futebol, mangueira, nada lhe escapa, ele fuça tudo, conspurca, espalha tudo o que pode pelo pátio. Este porquinho é um animal solitário, os donos só chegam à noite e, para além do porco, têm um cãozito, um arraçado de maltês, que está sempre metido dentro em casa e que o porco ignora imperialmente quando o outro resolve vir para o pátio ladrar-lhe. Às vezes, parece que tenho uma siderurgia ao lado de casa, é o porco a passear um velho grelhador pelo pátio, vira-o, arrasta-o, cheira-o, faz trinta por uma linha com o grelhador. Hoje, o porco acordou tarde, tem estado um frio de rachar. Quando voltei a olhar pela janela, apanhei-o a tentar acasalar com o velho grelhador. O grelhador está meio enferrujado mas acho que por agora enche as medidas ao porco. Estiveram mais de meia hora naquilo e, quando acabaram, o grelhador ficou de pernas ao alto, exausto, e o porco espraiou-se num pufe coçado em forma de uns lábios carnudos gigantes.
Não sei o que os donos tencionam fazer com o porco, não faço ideia se o animal terá um fim comestível, mas não deixa de ser irónico ver o animal a tentar f*der aquilo que é, ao fim e ao cabo, um instrumento post-mortem para os da sua espécie.
Amanhã darei mais updates sobre o porco.

quinta-feira, dezembro 11, 2014

Na mercearia

- Tem grão-de-bico em frasco?
- Sim, tá ali na prateleira do fundo.
- E santieiros?
- Vieram ontem. Estão ao lado em baixo. E também temos WiFi agora.
- Ai sim?
- Sim.
- Qual é a pass?
- ʇMr.Picklesʇ

quarta-feira, dezembro 10, 2014

quinta-feira, novembro 27, 2014

O desenho

Desde que começou o quarto minguante que um desenho bizarro tem sido projectado no quintal pouco cuidado da minha cabeça. Eu sei de onde é que isto vem. Foi durante a minha estadia em Hakone, Japão, há cinco meses. Fiquei na altura um pouco surpreendido com o pequeno acto de vandalismo, pouco habitual entre os japoneses. Vi um desenho feito com um objecto cortante, uma faca ou um canivete, na porta da casa de banho de uma estância termal bastante popular entre a população sénior japonesa. Era um polvo sem olhos, cujos tentáculos disparavam espermatezóides gigantes (quase do tamanho do próprio polvo) que, por sua vez, gritavam em uníssono (balão aos ziguezagues) "!!!MAGICO BEANOS!!", assim mesmo, numa variante de inglês ajaponesado, antes de entrarem numa coisa gravada no canto superior da porta que tanto poderia representar uma vulva ou um lírio - creio que a leitura daquela parte de desenho depende sempre de quem a vê.

terça-feira, novembro 25, 2014

Juro que não tem nada a ver


Primeira Parte - Sócrates apresenta a sua defesa

I. O que vós, cidadãos atenienses, haveis sentido, com o manejo dos meus acusadores, não sei; certo é que eu, devido a eles, quase me esquecia de mim mesmo, tão persuasivamente falavam. Contudo, não disseram, eu o afirmo, nada de verdadeiro. Mas, entre as muitas mentiras que divulgaram, uma, acima de todas, eu admiro: aquela pela qual disseram que deveis ter cuidado para não serdes enganados por mim, como homem hábil no falar. (...)

"Apologia de Sócrates" de Platão

quinta-feira, novembro 20, 2014

sexta-feira, novembro 14, 2014

Louro quer graveto

Quando tudo acabar, isto é, quando a nação colapsar e a língua morrer - seja aqui, nesta marquise virada para o mar, seja num país minúsculo e branqueado, entalado entre a França e a Alemanha - irão restar apenas papagaios que irão reproduzir a nossa língua para linguistas e outros interessados.

quinta-feira, novembro 13, 2014

Não sabia que o Johnny Cash tinha ressuscitado.

segunda-feira, novembro 10, 2014

Tenho de cortar as meias-de-leite



Jarry começava o dia a consumir dois litros de vinho branco e, de seguida, três absintos entre as dez horas e o meio-dia; na hora de almoço, regava o peixe ou o bife com tinto e branco alternando com mais absintos. Na parte da tarde, algumas chávenas de café misturadas com conhaque ou outras espirituosas cujos nomes já não me lembro; depois, ao jantar - ao qual se seguia, naturalmente, mais aperitivos - ainda conseguia beber, pelo menos, duas garrafas de qualquer vintage, bom ou mau.
Agora, eu nunca o vi bêbado.

Alfred Jarry: A Pataphysical Life, Alastair Brotchi

quinta-feira, novembro 06, 2014

A morte difícil



Crevel: "Vá, corta-me."
Faca: "Não. És demasiado bonito, demasiado duro para te cortar. És o pior pesadelo de uma faca."
Crevel: "Não me deixas alternativas. Vou apanhar o primeiro barco para a ilha de Jerséi, há muitas facas lá à procura de trabalho."
Faca: "Estás a dizer-me adeus?"
Crevel vira-lhe as costas, a Faca hesita, mas não faz nada. Crevel bate com violência a porta.
Faca fica imóvel durante uma hora a olhar para a porta. Depois, espeta a cabeça contra um coração de boi que estava em cima da mesa da cozinha.

Os Sofrimentos do Jovem Werther



Goethe: Já não sonho mais com nuvens. Faz hoje uma semana que só sonho com mulheres. Acordo sempre muito cansado. Mas a partir de agora só quero sonhar com mulheres.
Werther: E quem são essas mulheres, Johann?
Goethe: Todas as mulheres que amei nesta vida, desejo sonhar com todas elas, de A a Z.
Werther: (pequena pausa, hesitante)
Goethe: Não te inibas, podes perguntar-me tudo, Werther.
Werther: São assim tantas?
Goethe: Creio que sim, ainda só vou na letra B.

terça-feira, novembro 04, 2014

Dats rite y'all

Às vezes, sou tão old school que até meto nojo aos cães. Mas depois isso passa-me.

segunda-feira, outubro 27, 2014

Haiku da mudança da hora


Com esta coisa de
atrasar uma hora,
às cinco já está escuro.

Avesso









"Sou avesso a mudanças, não gosto nada."
"Qual é o teu signo?"
"Capricórnio."
"Ah..."
"Porquê ah?"
"Por nada."
"Ai não, espera aí...acho que é Sagitário."
"Ó carago, isso muda tudo."

quarta-feira, outubro 22, 2014

quarta-feira, outubro 15, 2014

Leonora Carrington & Marx Ernst

quarta-feira, outubro 01, 2014

Putzgrila! Esqueci-me que ontem foi o Dia Internacional da Tradução.

terça-feira, setembro 30, 2014




















Ah...o meu eterno dilema...

quinta-feira, setembro 25, 2014

A Índia chegou a Marte

Mas Mademoiselle Hélène Smith chegou lá primeiro.

quarta-feira, setembro 24, 2014

A vida é mesmo assim

O corredor aproxima-se da linha da meta e resolve abrandar a passada, a vitória está garantida, o rosto alagado estica-se e um sorriso enche-lhe a cara toda. Ergue os braços magrinhos e faz com os dedos um V de vitória para a multidão. Ah, esperem, não há multidão, não há pessoas a assistir à corrida, é uma prova particular num pavilhão fechado ao público, é patrocinada por um daqueles magnatas excêntricos. Um outro corredor, que tudo indica irá receber prata, está a menos de dez segundos, mas não parece conformado, alarga a passada, aumenta o ritmo, abre a bocarra para engolir o máximo de ar possível, vê o adversário a cortar a meta, mas não desiste, continua a correr, a correr, parece um doido a fugir do manicómio, dir-se-ia mesmo que tem fogo no cu. Ultrapassa o "vencedor" que fica a olhar para ele muito espantado com as mãos sobre as pernas, está exausto. O outro mostra-lhe o dedo do meio. Não é possível. Claro, ainda falta fazer mais uma volta! Caramba, que azar, que estupidez. A criança afinal vai nascer com olhos azuis e vai ter o nariz do pai. Escusado será dizer que o falso vencedor ficou cá com umas trompas...

segunda-feira, setembro 22, 2014

História

Gostavas de ter começado a contar a tua história mais cedo, não gostavas? Quando a tua cabeça ainda não estava cheia de porcarias e coisas inúteis, não era? Pois mal. Tarde demais. Já não vais a tempo, não tentes recuperar o tempo perdido, uma migalhita aqui, uma fatia ressequida acolá, de nada serve. As histórias querem-se frescas como as alfaces. Não tenho paciência para velhos contadores de histórias que contam velhas fábulas que não interessam ao menino jesus. Bom, diga-se de passagem, não pareces muito preocupado. Agora fica quieto e calado enquanto eu conto a minha. Quando terminar, podes fazer com ela o que bem entenderes. Ah, queres saber o nome da história? Eu digo-te então. I am the walrus.

sexta-feira, setembro 19, 2014

As chaves

Ontem saí à pressa de casa e esqueci-me das chaves no lado de dentro da porta. Felizmente tinha o telemóvel comigo e o número das "Chaves Santo Ovídio" gravado na agenda. São um pouco careiros, mas trabalham bem e pedem logo o NIF sem perguntarem se é preciso a factura com o NIF. Como ninguém me atendia, tive de me dirigir à loja, fica a menos de dez minutos de onde eu moro. A minha mulher ia chegar com os catraios e não podia abrir a porta com as minhas chaves metidas no lado de dentro da fechadura. Bom. À minha frente estava um senhor de idade, careca, barba branca, hirsuta. Trazia uma túnica cinza e coçada e umas sandálias à pescador como agora se usa.
- Olha, diz lá quanto é que te devo - perguntou o tal senhor de idade com uma voz grave. Pesava um grande molho de chaves na mão e acenava com a cabeça, muito satisfeito.
- Vá lá à sua vida, depois fazemos contas.
- Isto não é assim, diz lá quanto é.
- Ó chefe, pel'amor de Deus. Vá lá à sua vida, já lhe disse. Eu depois passo lá e paga-me um café.
- Pronto, tá combinado. Dá cá um bacalhau.
O senhor de idade virou-se de repente e deu-me um encontrão, eu estava mesmo atrás dele.
- Ó, desculpe.
- Não tem mal.
O homem esfumou-se mal pôs o pé na rua. Eu estava meio constipado, este tempo é terrível para as constipações, mas consegui sentir um cheiro a peixe por toda a loja.

terça-feira, setembro 16, 2014

Escócia

Talvez estes quatro rapazes escoceses sejam a favor do Sim.
"Aye".

terça-feira, setembro 09, 2014

O belo António
















Já que toda a gente parece saber um pouco sobre Kafka, vou também falar sobre Kafka. Kafka passou uma temporada em Itália. Esteve na Sicília, na pedra que a "bota" chuta há milhões de anos. A pedra parece não se importar de tão dura que é. Para sobreviver, o escritor trabalhou como figurante no filme "Il bell'Antonio" rodado na Catania, apaixonou-se um pouco por Claudia Cardinalli durante as filmagens e deu dicas de representação ao próprio Mastroianni que encarnou o papel de um homem atraente, apoiante febril do Fascismo, adorado por todas as mulheres da cidade, mas que, no fundo,...ou melhor dizendo, no meio, era sexualmente impotente. Uma espécie de alegoria.

quinta-feira, agosto 28, 2014

Cláusulas

  • O nosso corpo é como uma ampulheta. Temos de fazer o pino de vez em quando para que as ideias acumuladas nos pés regressem à cabeça.
     
  • O Rei Ubu nasceu quando a mãe de A. Jarry lhe pediu para ir colher mirtilos ao bosque e ele chegou a casa com o cesto cheio de tâmaras. Em França não ha tamareiras.
     
  • A minha mulher gosta que eu durma com mitenes. Diz ela que lhe faz lembrar a sua ama quando a embalava.
     
  • Na minha aldeia usam cascas de caracóis em vez de telhas e as pessoas têm os olhos muito salientes.
     
  • O nosso primeiro faz lipoaspiração e doa a massa adiposa a fábricas de sabonetes. O povo deveria queixar-se menos.
     
  • O serviço de apoio ao cliente da Igreja deixa muito a desejar.
     
  • O meu segredo com as mulheres é este: um pouco de água salgada no pulso esquerdo e um pouco de água com açúcar no pulso direito.
     
  • Os miúdos da catequese adoram o novo padre. Em vez do fazer o sinal de cruz, ele passa a missa a desliza o anelar no ar como se estivesse a usar um smartphone.
     
  • Uma vez vi dois homens abraçados na Ponta de Sagres. Foi numa excursão da escola; era pequeno na altura, mas tenho a vaga ideia que um chamava-se Infante e o outro Henrique.
     
  • As pessoas cospem para o chão para que nasçam cuspideiras. A madeira é boa para fazer consolas e aparadores. A polpa do fruto é usada por uma conhecida marca de sumos.
     
  • Os homens-bomba auferem de bons salários. Mas se não forem pontuais, o empregador pode recusar a prestação do dia de trabalho e, se for prática recorrente, podem ser despedidos por justa causa.
  • Enquanto estofador, tenho um ódio de estimação: Soeiro Pereira Gomes.
     
  • Gosto de fazer pequenas bolinhas com o cotão que tiro do meu rego. Depois atiro aos pardais que usam-no para fazer os ninhos. Faço parte do ecossistema.
     
  • Ao contrário do que se diz por aí, Mishima nunca pôs os pés em Andorra.
  • Perdi a cabeça quando me apaixonei pela quarta vez. Nunca mais voltei a encontrá-la.
  • Quando chega o fim do mês, tenho sempre a sensação que vários príncipes e princesas vivem à minha custa.
  • O meu gato está tão grande, tão grande, que pega com os dentes pelo meu cachaço para me dar comida. 
  • A democracia em Portugal é mágica. Coelhos que saem da cartola e portas que andam por esse mundo fora.

  • Tenho amigos que cheiram a estábulos e já não é de agora.

quarta-feira, agosto 13, 2014

terça-feira, agosto 12, 2014

Rev. Alban Butler



















 

"Quando estava sozinho, ele lia; quando estava com alguém, ele lia; às refeições, ele lia; nas suas caminhadas, ele lia; quando ia numa carruagem, ele lia; quando andava a cavalo, ele lia; fosse o que fosse, ele lia."
Charles Butler (sobrinho de Alban Butler)

terça-feira, julho 29, 2014

O caso do piano violado

Este moço vai dar que falar.

sexta-feira, julho 18, 2014

Espanhóis

Porque é que os espanhóis fazem a siesta? Eu digo-vos porquê. Para se parecerem connosco, com os por.tu.gue.ses. Sim senhor, é isso mesmo, leram bem. É este vosso criado que vos diz, sem rodeios, sem paninhos quentes. Passei muito tempo a levar com eles, sei como aquela gente pensa. Quando estão acordados, falam a berrar, urram, esbrancejam como criancinhas que querem chamar à atenção dos pais. Fazem birras se nós aqui ao lado não lhes damos atenção. Temos de lhes dizer "si si carino" na língua primitiva deles, caso contrário não nos entendem. É como eu digo ou não é? E então sonham connosco quando dormitam depois do gaspacho ou rabo de touro ou lá o que eles comem. Querem roubar-nos o fado, inventaram o flamengo para se mostrarem superiores, o flamengo é uma espécie de fado mais espanhafatoso, vê-se logo que aquela jactância toda é a fingir, é só teatro. Coitadinhos, são tão teatrais os nuestros hermanos. Olhem para cima, para os galegos, querem a toda a força pertencer a este lindo rectângulo. Ouçam. Não se riam. Eles, os espanhóis, sonham ser meditabundos e introspectivos como nós, obedientes e afáveis como nós, enfim, adultos. Desejam ainda ser bem parecidos e vestirem-se bem como nós, é por isso que andam sempre engalanados todos os dias como se fossem à missa. E mais. Desejam as nossas mulheres, querem amá-las porque sabem que são fogosas na cama e ladies na mesa - já as mulheres deles são o oposto. Ai não sabem? Ah ha. Uh hu. Pois é isto, sem tirar nem por. Repito, meus amigos, sei do que falo e mais não digo porque não quero ferir susceptibilidades. Antes de mais nada, sou português, ora aqui têm o meu cartão, um criado ao vosso dispor.

sábado, julho 12, 2014

terça-feira, julho 01, 2014

O primeiro a ir foi o "Mau". Há meia dúzia de dias, foi a vez do "Vilão". Parece que o sr. Eastwood teima em contrariar a crença popular de que os Bons vão sempre primeiro.

sábado, junho 14, 2014

O pergaminho de Kaikidan Ekotoba

Homem com testículos gigantescos
























À distância de 9 fusos horários. Nem só de sushi e tempura vive o homem.


terça-feira, junho 10, 2014

10 de Junho

eu desfaleço
tu desfaleces
Ele desfalece
nós desfalecemos
vós desfaleceis
eles desfalecem

(apenas a relembrar a conjugação do Pres. Indic. de um verbo terminado em -er)

quarta-feira, junho 04, 2014

Jean Cocteau, Amedeo Modigliani, Max Jacob, André Salmon e Manuel Ortiz de Zárate na Praça da Liberdade, Porto, em 1916.
















terça-feira, maio 27, 2014

quinta-feira, maio 15, 2014

Irmãos separados à nascença

Kjell Askildsen
John Cage

terça-feira, maio 13, 2014















Tenho quase, quase a certeza de que o porreiraço do Knut Hamsun iria gostar.

segunda-feira, maio 12, 2014

Saída limpa mas com barba

Conchita Wurst deveria ter representado Portugal na Eurovisão. Aliás, vou mais longe: o tema que interpretou, "Rise like a phoenix", deveria substituir o nosso hino, é mais do que adequado para o momento de euforia económica que o país vive.

sábado, maio 10, 2014

Jack


























"(...) A minha mãe tem de mandar chamar o médico de vez em quando e eu pago. Nem te falo dos dentistas para mim e outras pessoas. Mencionarei de passagem as várias centenas de dólares que o advogado de Bessie me extorquiu. E poderia continuar por mais uma meia dúzia de páginas abençoadas a recitar o caminho que seguiu o meu dinheiro. Ontem, por exemplo, mandei um queque de 10 dólares para apoiar um novo jornal socialista que luta para se manter em Toledo, Ohio. (...)"

Cartas de Jack London, Antígona

Sim, o velho Jack piscava os dois olhos ao socialismo e gostava de beber o seu copito de vez em quando. Se calhar, foi por isso que enviou um "queque" para apoiar o tal jornal em vez de um "cheque". Vem mesmo assim na edição da Antígona (página 174). Acho que esta "gralha" arrebita bastante esta carta de London.


domingo, maio 04, 2014

Já passava da hora de jantar

Já passava da hora de jantar quando entraram numa povoação que parecia deserta. Os lampiões de carboneto da única rua digna desse nome começaram a ter espasmos, as sombras tiveram de trepar pelas paredes como baratas para se esconderem no fundo dos telhados, atrás dos beirais; se por acaso alguém andasse àquela hora na rua, as sombras rastejariam pelas paredes acima e usariam o transeunte noctívago como escudo para se protegerem da luz dos lampiões. Foi o que fizeram com os dois irmãos.
Dirigiram-se à única taberna na rua principal que parecia estar aberta. Mal desencostaram a porta levaram em cheio com uma pesada baforada de carrascão misturado com o cheiro de pêlo molhado de sabujo e de flatulências mais ou menos descaradas - seria impossível ao mais experiente dos narizes apurar qual era a fragrância dominante. Não tinham grande escolha. Deram as boas noites e sentaram-se. Pediram uma garrafa de retsina e algo para comer. É sabido que o álcool ajuda a libertar o espírito, e o irmão mais velho deixou escapar um sorriso para Teseu que não parava de tagarelar. Orestes não estava a prestar-lhe atenção, ou melhor, parecia estar a olhar para o irmão pela primeira vez. O caçula "não via nem à direita, nem à esquerda, nem mais além", mas não seria por isso que iria deixar de o amar. Para além dos dois irmãos e do taberneiro, havia apenas mais dois clientes que estavam sentados na mesa atrás. Antes dos dois irmãos entrarem, o mais novo estava a palitar os dentes com uma faca, enquanto o outro, de cinto desapertado para dar tréguas à pança, assoava-se com método: abria o lenço e olhava para a pasta húmida e reluzente para garimpar o que tinha saído de dentro de si. Apesar de tudo, observavam algumas regras básicas de etiqueta: não bocejaram à mesa nem nunca cuspiram para o chão durante o tempo que estiveram debaixo daquele tecto. Quando os dois irmãos ocuparam a mesa à frente da sua, pararam de fazer o que estavam a fazer e tomaram as medidas aos estranhos; o mais velho acabou o copo, arqueou a sobrancelha e berrou:
– Boas noites! Parecem cansados! Vêm de muito longe, os cavalheiros? – perguntou enquanto coçava o joelho gordo.

sábado, abril 26, 2014

Miklós Szentkuthy

sexta-feira, abril 25, 2014

25/04/14

Em abril,
capitães mil

(ao largo)

(do carmo).

quinta-feira, abril 24, 2014

Vinte e quatro


Aqui está o lar, já chegamos.
Os dois vieram em silêncio o caminho todo, Madalena ia já no segundo cigarro, não há nada melhor do que um cigarrinho depois de uma bem dada...Não, não, não, esperem aí. Acho que não foi nada uma bem dada, e aposto que ela também não, quem é que com dezassete, dezoite aninhos dá uma bem dada? O efebo que ia ali ao seu lado deixou de ser virgem naquele fim de tarde, mas a quarentona não sabia, talvez desconfiasse, ela não lhe perguntou, foi tudo muito rápido, há coisa de quinze minutos, ali no banco de trás de um carro, como nos tempos do liceu, só que desta vez foi num daqueles lotes para construção abandonados, parecia um cenário pós-apocalíptico. Estavam resguardados pela muralha de vegetação, pelas plumas invasoras, o outdoor mais à frente prometia vivendas de sonho, o Paraíso das Areias já estava desbotado, as pontas do papel descolavam nos cantos do cartaz. Um carro com um pneu suplente montado faz-me lembrar sempre uma pessoa a usar um sapato dois números mais abaixo do que o outro. Estacionou o Astra ao lado de um contentor cheio de entulho, havia lenços de papel usados semeados aqui e ali, as placas de betão no chão estavam emolduradas por ervas daninhas.
A ela interessava-lhe apenas esquecer o seu último caso, um refinado cabrãozito, colega de profissão, casado também, o gajo tinha língua de mel, quando estavam os dois sozinhos, contorciam-se um no outro, violavam-se mutuamente, violavam todas as leis da física, começavam num canto do quarto do motel e acabam noutro canto a suar por todos os poros do corpo, tinha que apagá-lo da cabeça, de dentro de si, as coisas ainda iam acabar mal. Ali o jovem era um sinal e teria de servir por enquanto, sentiu-lhe o fogo nas entranhas, tal como ela, mas era um fogo descontrolado, inexperiente, quase inocente.
Jura-me que aquilo que aconteceu vai ficar entre nós.
A terrível sensação de dejá vu, outra vez. Deve ser a frase mais usada pelos amantes.(...)

sábado, abril 12, 2014


quarta-feira, abril 09, 2014

Quem será?

eu maravilho-me
I wonder
Quem será
o cabeleireiro
do sr Smith?


(digam bem
alto para eu ouvir)

quarta-feira, abril 02, 2014