domingo, março 01, 2015

Yaşar Kemal

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Efeito Borges

Um homem começa a bradar passagens do Livro de Areia em plena biblioteca. Ninguém tem coragem para fazer "schiu", um grupo de miúdos do secundário na mesa ao lado tenta abafar o riso, o homem tem um ar meio alucinado, descalçou uma das sapatilhas e apoiou o pé de gesso na cadeira da frente. A funcionária rebola os olhos, levanta-se e chama-o à atenção, pelos vistos o senhor é reincidente nestas coisas. O silêncio foi reposto. Fiquei um pouco para o desconsolado no fim.

Base das Lajes

Aproveitar a infra-estrutura e fazer um shopping. "Shopping center Victoria Beach". A pista de aterragem seria o parque de estacionamento. Rentabilizar a formação dos condutores "follow-me" e pô-los a conduzir e a arrumar carrinhos de compras abandonados pelos clientes do hiper. Ampliar a torre de controlo, futura praça da Restauração com vistas maravilhosas.
No Mac:
"Mamã, mamã, de onde vêm os big macs?", pergunta a criança de boca aberta, vê-se o bolo alimentar a ganhar forma.
"Estás a ver aquelas vaquinhas ali ao fundo?", pergunta a mãe sem olhar para as vaquinhas.
O miúdo acena com a cabeça várias vezes, com muito mimo e com os sapatinhos em cima do banco vermelho.
"Não vêm dali. Agora senta-te direito, Joe dos Santos."

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

"Kem és tu?", Galactus

Sim, acabei de atribuir números de telemóvel desconhecidos (que me ligam ou enviam sms sistematicamente) a nomes de heróis marvel ou de poetas franceses e agora não consigo apagar as mensagens. Mais faceto do que barrar esses números.

"Liga.m mal possas tou + farto desta merda"
Wolverine

"Percebo que queiras dar um tempo, mas ao menos podias dizer-me isso nos olhos"
Paul Célan

"Francesinha no Santiago amanhã? Xupa-mos lol"
Fénix

domingo, fevereiro 08, 2015

Gémeos separados à nascença (II)

Robert Walser
Carson Mccullers


sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Reencontro

Hoje de manhã, um amigo de Andrómeda, ex-organista de igreja, do tempo em que eu ia à missa, senta-se à minha mesa e faz conversa. Começa a falar sobre a mudança de instalações, do espaço maior da sua nova drogaria, de materiais de construção, de botas de biqueira de aço, fiquei a saber que os martelos-pneumáticos da Bricot não valem nada, chinesices, diz ele, e por fim convida-me para a grande inauguração com direito a vinho e sandes de leitão. O gigantesco smartphone do meu amigo toca, ele sai à pressa, despede-se com o polegar para cima. Pago-lhe o café. Uma ninharia comparado com a humanidade e o know-how que ele me deu. Aperto o meu fato espacial e regresso ao meu cárcere doméstico.

Update

O porco-preto
do meu vizinho partiu de vez
e levou quase tudo com ele.

Um vaso solitário
no meio de um
terraço feio e limpo.

terça-feira, fevereiro 03, 2015

Dicas de higiene e de beleza

Não estou a tentar lamber as botas de ninguém (já o fiz ontem à noite), mas os livros da Antígona são óptimos ao quadrado. Um velhote na biblioteca a tirar lodo das unhas desleixadas usando o vértice da capa de um Cossery como canivete. Um vale fértil de bacilos em cima da mesa.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

sexta-feira, janeiro 23, 2015

Kepler, roi-te de inveja

A prática prolongada de apneia em piscinas é um excelente método para descobrir novos exoplanetas. Super-Terras com abundância de água onde a vida é possível. Ainda hoje de manhã descobri mais dois, baptizei-os de Virgin 23a e Virgin 23b.

segunda-feira, janeiro 19, 2015

A aparição de St. Steve J.

Os i-devotos usam-nos como se fossem terços ou kombolóis. O resto (ler outras marcas de smartphones e tablets) não existe, renegam-no ou desprezam-no. Não me surpreendia se três designers vissem Steve J. a pairar em cima de uma oliveira num local ermo* e o santo lhes transmitisse incríveis revelações em vários passos super intuitivos.
Peregrinações. Promessas. A construção de uma catedral Apple. O culto da Maçã Mordida. A Grande Irmandade Safari. A Cúria Cupertina. Perseguições a nokianos, samsunguianos, etc. Fundamentalismo. Terrorismo.

*sem ligação Wifi.

- enviado a partir do meu i-phone -

segunda-feira, janeiro 12, 2015

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Café

Entro no café para tomar café e comprar a raspadinha Grande Sorte. Costumo ganhar dois ou quatro euros, compro mais raspadinhas. O empregado diz-me sempre:
- Se tivesse mais três zeritos é que era, não era, amigo?
Olho à minha volta. Em vez dos habituais velhotes a folhearem o JN ou o Jogo, estão quatro clones do cantor cigano El Chato a lerem o "O que diz Molero". Um dos El Chatos pergunta ao El Chato do lado:
- Este trinco, o Machado, deveria ter ido com os porcos antes do início da época. É que não joga a ponta de um corno.
Saio e aguardo um pouco cá fora para apanhar ar frio. O autocarro despeja pessoas na paragem mais adiante. Levo a mão ao bolso e encontro meio comprimido de Ben-u-ron. Torno a entrar no café. Em vez dos El Chatos, estão agora os quatro Ramones espalhados pelas mesas. Não estão a ler nada, limitam-se apenas a olhar para mim.

domingo, dezembro 28, 2014

domingo, dezembro 21, 2014

Acta

Vivo naquilo que os franceses chamam de chambre de bonne. Partilho uma casa de banho com uma senhora que diz ser minha esposa e, volta e meia, um odradek peludo surge debaixo da cama e reclama a minha atenção. Ficamos a olhar um para o outro durante uns bons vinte minutos até ele se cansar e desaparecer. Durmo, trabalho, faço as minhas refeições nesta divisão, não sei o que se passa nos confins do meu apartamento nem no resto do mundo. Faço sequências de abdominais e Chi-kung com os olhos presos no monitor, uma americana loura diz-me como fazer os exercícios. Quando me sinto mais só ou quando quero ter a certeza de que não sou o único sobrevivente de um holocausto silencioso que me passou ao lado, levanto-me, inspiro fundo e bato várias vezes com a palma da mão na parede; o casal vizinho começa então a discutir, trocam insultos, acusam-se mutuamente, a tua mãe, isto, o teu irmão, aquilo, só queres estar com os teus amigos, quem é esta gaja que adicionaste no face, etc, etc, e, no fim, mas nem sempre, violam-se um ao outro: estão assim a cumprir escrupulosamente o Ponto 4 da acta da última reunião de condóminos.

sexta-feira, dezembro 12, 2014

O porco

O meu vizinho que mora no R/C do prédio da frente tem um porco-preto num pátio que é relativamente grande. O porco é um agente de destruição: roupa a secar, vasos, sacos de ração, bolas de futebol, mangueira, nada lhe escapa, ele fuça tudo, conspurca, espalha tudo o que pode pelo pátio. Este porquinho é um animal solitário, os donos só chegam à noite e, para além do porco, têm um cãozito, um arraçado de maltês, que está sempre metido dentro em casa e que o porco ignora imperialmente quando o outro resolve vir para o pátio ladrar-lhe. Às vezes, parece que tenho uma siderurgia ao lado de casa, é o porco a passear um velho grelhador pelo pátio, vira-o, arrasta-o, cheira-o, faz trinta por uma linha com o grelhador. Hoje, o porco acordou tarde, tem estado um frio de rachar. Quando voltei a olhar pela janela, apanhei-o a tentar acasalar com o velho grelhador. O grelhador está meio enferrujado mas acho que por agora enche as medidas ao porco. Estiveram mais de meia hora naquilo e, quando acabaram, o grelhador ficou de pernas ao alto, exausto, e o porco espraiou-se num pufe coçado em forma de uns lábios carnudos gigantes.
Não sei o que os donos tencionam fazer com o porco, não faço ideia se o animal terá um fim comestível, mas não deixa de ser irónico ver o animal a tentar f*der aquilo que é, ao fim e ao cabo, um instrumento post-mortem para os da sua espécie.
Amanhã darei mais updates sobre o porco.

quinta-feira, dezembro 11, 2014

Na mercearia

- Tem grão-de-bico em frasco?
- Sim, tá ali na prateleira do fundo.
- E santieiros?
- Vieram ontem. Estão ao lado em baixo. E também temos WiFi agora.
- Ai sim?
- Sim.
- Qual é a pass?
- ʇMr.Picklesʇ

quarta-feira, dezembro 10, 2014