terça-feira, fevereiro 25, 2014

Quinze

O auxiliar deixa-se cair pesadamente no único lugar livre do banco de plástico e dá um longo suspiro para que os outros dois sentissem um pouquinho a sua dor. Um dos homens acena-lhe com a cabeça como se o conhecesse e continua a conversa.

Tinha dito à minha catraia que queria ir ver os primeiros raios do sol do ano, sabe como são as mulheres, queria impressioná-la, ano novo, vida nova, não queria meter a pata na poça como fiz com as outras...ela ficou toda excitada, lá se vestiu à pressa, ainda estava com as cuequinhas novas do ano novo, que sonho, meu Deus, e vai daí, saímos pela garagem privada, estes gajos dos móteis pensam em tudo, metemo-nos no carro e fomos até à serra de Santa Justa. Já lá foi? É muito bonito, muito verdinho. Mas eis que quando chego a meio, não é que o caralho do motor começa a gaguejar e a deitar fumo por tudo quanto é lado? Saí, tava frio pra caralho, abri o capô. Que fumarada, meu Deus, e vou a ver, era a junta da colaça que tinha queimado, falta de água, tá a ver? E eu, ah puta que pariu que não tenho sorte nenhuma. E agora? Qual era o reboque que me vinha buscar o jeep na madrugada do primeiro dia do ano, ali no meio do monte? E...
Senhor Alfredo Ferreira?
Parreira, Parreira, emenda o homem.
Oh, Parreira, sim, desculpe. Faz favor.
Tava a ver que não. Não vou gritar como o colega que acabou de sair, pois não, seu doutora?
A médica que veio à porta era novinha, tinha um ar simpático, aponta com a mão para o interior da sala. O outro homem, mais velho, bate com o indicador na têmpora como que a dizer que o outro não jogava com o baralho todo, era maluco.
Aquele corredor era um desfile de voluntárias, auxiliares, administrativas, enfermeiros e enfermeiras, médicos e médicas. Sempre que passava uma mais jeitosa, o velhote descruzava os braços, seguia o derrière da senhora com o olhar e depois coçava o cachaço ou as narinas, ou então passava as mãos pelo tecido das calças; queria que o jovem sentado ao lado dele fosse cúmplice naquela sua avaliação, o velhote estava empenhado em fecundar com o seu olhar azul maroto as mulheres que por ali cirandavam, mas, claro, a idade não perdoa, sozinho não dava conta do recado. Mas o auxiliar nem sequer piscava os olhos, estava a olhar em frente para a porta, esperava pela sua vez, parecia uma daquelas estátuas dos faraós sentados com as mãos em cima das pernas. O velhote, ao aperceber-se que o moço não estava para ali virado, apoiou os cotovelos no joelhos e tapou a cara com as manápulas.
Ai meu deus, meu deus, gemeu ele baixinho.
Deus devia estar atento: assim que o sénior acaba de invocar o Seu nome, a porta do consultório abre-se e uma luz cor de pérola é despejada sobre aquela ovelha. O contador da história de Santa Justa sai disparado, parecia que ia tirar o pai da forca.
Sr. Avelino Correia?, alguém gritou do consultório.
O velhote pega num envelope grande e salta lá para dentro já com outro ânimo. (...)

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

terça-feira, fevereiro 11, 2014

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

segunda-feira, janeiro 27, 2014

Stiv Stiv Stiv

I'm so sick of T.V.
You know, I'm getting bored of the tube
I'm so sick of romance
And I'm gettin' real sick of you



Stiv Bators tinha definitivamente o factor X.

sábado, janeiro 25, 2014

DEZ

Empurra, mais rápido, mais rápido!
A noiva não queria que a festa acabasse, queria continuar a divertir-se, roubou então a cadeira de rodas dobrável da Transit, sentou-se nela e agora estava no meio da rua a ser empurrada por uma das amigas que era talvez a mais feia e a menos bêbada, andavam as duas a correr, isto é, a noiva sentada na cadeira de rodas que pertencia à Dona Conceição e a feia a empurrá-la em frente ao Estado Novo às cinco horas da manha. As outras quatro berravam do passeio, batiam palmas, saltavam em cima dos tacões, uma delas caíu redonda no chão molhado e desatou a rir-se. Estavam podres de bêbadas, tinha sido a despedida de solteira de amiga e ainda queriam ir não sei para onde. A prima do auxiliar tinha-lhe pedido boleia há dois dias, sabia que iam se enfrascar nessa noite, sabia também que o primo era mau condutor, mas preferia um mau condutor sóbrio que andasse continuamente em segunda a um bom condutor bêbado que se esbarrasse na primeira curva.O auxiliar teve de pedir a Transit à doutora Maria dos Anjos ao que ela acedeu desde que ele enchesse de novo o depósito. 
Entendeu bem? Atestar o depósito, não se esqueça, repetiu e depois bateu palmas duas vezes para ele sair do gabinete. A relação que a doutora Maria dos Anjos tinha com o auxiliar, seu funcionário, fazia lembrar o tipo de relação que um columbófilo tem com os seus pombos-correio, o auxiliar estava amestrado com palmas, afinal ele foi trabalhar para o lar de idosos muito novo, devia obediência à chefe, ela apiedou-se dele quando ninguém o fizera, e a criatura, para retribuir, era o leva-e-traz de tudo o que se passava no lar, só faltava fazer vénias à senhora directora. Natércia, a outra auxiliar, mulher afogueada mas muito íntegra - apesar do beiço descaído - desprezava-o ainda mais por isso.

De volta às perigosas e imprevisíveis ruas de Matosos. Um dos porteiros, um armário que impunha respeito, pediu educamente às moças para se afastarem da entrada e uma delas, que era talvez a mais atraente, tinha cara de menina travessa, madeixas vermelhas bem feitas, olhinhos verdes pequeninos, sôfregos por uma ou duas bem dadas, começou a rebolar-se em cima de um daqueles pilares de acesso à entrada, puxou a saia para cima exibindo a coxa de pequena bailarina e começou a ronronar para ele. O porteiro olhou para ela com desejo, mas conteve-se. As outras estavam encostadas à parede e tinham a mão na barriga de tanto rir, riam-se até às lágrimas, não sabiam para onde haviam de olhar, se para a amiga que parecia ter uma tocha a arder no meio das pernas, se para a noiva na cadeira de rodas que era empurrada pela amiga de um lado para outro. Naquele momento, estavam a sair dois magalas e um deles pergunta à amiga provocadora:
É hoje, filha?
Ela tirou a máscara de repente, baixou a saia, não gostou do convite, o porteiro era um homem a sério, além de ser uma espécie de Apolo de Rio Tinto (cabelo rapado, careca luzidia, sem os longos cabelos do deus), era um velho conhecido de outros carnavais, enquanto que aquele pirralho ainda cheirava a leite, não ia admitir aquela falta de respeito e então puxou a carteira atrás mas falhou o alvo, estava bêbada demais para ser certeira, o rapaz desviou-se facilmente do golpe como um gato. O magala ficou muito sério a olhar para ela, não gostou nada daquilo, mas viu pelo canto do olho o porteiro a tirar-lhe as medidas e lá foi à vida dele com o amigo, deixando um rasto de insultos atrás de si dirigidos à amiga da prima e à sua respectiva mãe. O auxiliar continuava dentro da furgoneta com as mãos no volante, já tinha ligado a ignição, estava a acelerar em ponto-morto para a velha Transit não ir abaixo, uma fumarada de todo o tamanho pairava sob a rua molhada.
A noiva e a "aia" estavam agora mais ao fundo da rua, estavam paradas no semáforo vermelho para os carros, que meninas mais marotas, quem havia de dizer, o que o álcool faz a meninas bem comportadas, a blusa da noiva descaía e via-se quase um seio inteiro, se o noivo aparecesse ali naquele momento, não sei se haveria casório, a noiva era tão dócil, tão amorosa, tão atinada... A aia, isto é, a feia, ajeitou os óculos de massa cor-de-rosa e disse à noiva que era melhor voltar para trás. Um BMW branco em sentido contrário (também estava à espera que o sinal mudasse) começou a dar-lhes máximos.
O que é que aquele gajo quer? Anda lá, empurra, empurra, Sónia!
Mas está vermelho, é melhor...
Empurra-me caralho! Vou casar-me para a semana, anda lá!, a sua voz conseguia ser pastosa e determinada ao mesmo tempo e Sónia fazia todas as vontades às amigas, era uma paz de alma como se costuma dizer. A feia olhou para trás, a prima do auxiliar estava a fazer-lhe sinais para voltarem. Sónia, porém, cumpriu o desejo da noiva, empurrou a cadeira de rodas com a nubente, o sinal ainda vermelho, e a meio do cruzamento, aparece pela direita um Ibiza preto a alta velocidade, o condutor ainda tenta travar, mas o piso estava escorregadio, e Sónia, num acto de incomensurável bravura, num gesto de pura amizade e altruísmo, empurra a cadeira de rodas para a frente para salvar a sua amiga que se ia casar para a semana e esta dá uma gargalhada e exclama "sim, sim, assim sim", estava tão bêbada que nem deu conta da aproximação lateral do carro que embate contra a sua aia, não vê a sua amiga Sónia que lhe faz todas as vontades a ser projectada pelos ares, não vê os óculos de massa cor de rosa em câmara lenta a voarem, as lentes fundo de garrafa a aumentarem a lua cheia, uma lua pesada e luminosa, enfim, a noiva bêbada não ouve os gritos das amigas lá atrás. O auxiliar, esse, não saíu da Transit, nem sequer olhou pelo retrovisor (estava virado para o mar), lá deve ter adormecido embalado pelo motor ligado. Ou então achou que era mais uma das pantominices histéricas das moças e não fez caso, ou pior, o auxiliar era mesmo uma ameba, um seguidor de Pilatos e fez de conta que não era nada com ele. Quando conto este episódio triste e lamentável, lembro-me sempre - e só Deus sabe como me penitencio por isso - do título daquele livro de Vernon Sullivan, "Morte aos Feios".

quinta-feira, janeiro 23, 2014

segunda-feira, janeiro 20, 2014

segunda-feira, dezembro 30, 2013

quinta-feira, dezembro 26, 2013

"O Mestre e Margarida", Mikhaíl Bulgakov

segunda-feira, dezembro 23, 2013

sábado, dezembro 21, 2013

Natal

UM


Está bem filha, volta quando puderes, não te chateies comigo.

Ela levantou-se, curvou-se e beijou a mãe na testa fria. A velhota quis corresponder, ergueu a mão e agarrou a filha pelo braço. Vai lá à tua vida, não te atrases, disse-lhe. Os olhos infantis da velhota acompanhavam a filha que atravessava a sala de visitas e que parou para olhar para a pequena árvore de natal enfiada num canto da sala que abrigava a cena de natividade e meia dúzia de caixas embrulhadas sem nada lá dentro, estavam ali para encher, para fazer feitio. O menino Jesus parecia um rim, a sua cabecita era tão pequenina, tão miúdinha que o rosto não tinha feições. A José faltava um braço, mas Maria continua imaculada.
Saia lá da frente, ordenou um dos velhotes que tinha a barba por fazer de há dois dias e pêlos brancos a sairem-lhe do nariz e das orelhas. Ela ficou meio minuto ali parada, parecia hipnotizada pelas luzinhas multicolores a piscarem à vez.
O auxiliar estava de braços cruzados a apreciar a partida de dominó que estava longe de ser pacífica, o sr. Clemente e o sr. Neves batiam as peças com violência como que a quererem parti-las, eles  deviam ter um acordo tácito, talvez quem partisse primeiro uma das peças ganharia o jogo. O auxiliar, dizia eu, ergueu o queixo e enlaçou Madalena com o olhar que ficou plantada no meio da sala. Os olhos começaram a ficar húmidos e sentiu uma enorme vontade de voltar para trás e levar a sua mãe consigo.
Mas é surda ou quê? Saia da frente da televisão, ó criatura, repetiu o senhor Marques enquanto coçava o quadril ossudo. A apresentadora do natal nos hospitais parece que também estava na expectativa, mas mantinha sempre a postura profissional e começa a empatar com piadas sem piada nenhuma, são os chamados imprevistos de um programa em directo, os lábios reluzentes enchiam o ecrã todo, não havia maneira do próximo artista entrar em palco. Madalena desperta do turpor, apetece-lhe olhar para trás, para a mãe, será que era o último natal dela, mas não pode, provavelmente tem medo de se transformar numa estátua de sal se o fizer, veste o casaco de pele que trazia pelo braço, compõe as golas de pêlo, puxa-o bem para baixo, dá um jeito no cabelo pela nuca e sai da sala a bater com força os tacões no linóleo. Assim que ela sai, o auxiliar segue-a e a jovem fadista na televisão começa finalmente a cantar a sua mágoa, todos os jovens fadistas de agora têm uma mágoa muito profunda como se já tivessem passado por muita coisa, se calhar até passaram. Uma das velhotas estica o pescoço como uma tartaruga para se certificar que o auxiliar saíu e tira meia dúzia pinhões do bolso da casaco de malha, mete-os à boca e sorri enquanto mastiga, o maxilar parecia que ia sair do sítio, as pregas do rosto ao mastigar eram como uma pastilha elástica em alcatrão quente que tentamos tirar da sola do sapato. O sr. Marques, que ocupava a melhor poltrona da sala, revestida a gorgorão, levanta-se e volta-se para a janela, para o sr. Clemente e o sr. Neves que estavam ainda a tentar pregar as peças de dominó à mesa, eram autênticas metralhadoras, e então o senhor Marques assobia em dois tempos, faz um punho cheio de marcas de velhice e insinua aquele gesto basculante que a maior parte das pessoas associa ao coito.

O auxiliar tinha de acabar aquilo que o marido tinha começado ontem. Madalena já estava estendida à sua espera sobre a secretária, as cuequinhas e a saia jaziam no chão. Anda lá, tenho de ir buscar a minha filha ao aeroporto, vou apanhar trânsito, já estou atrasada. O auxiliar roda a chave da salinha muito devagar, tira a bata e desaperta o cinto. Trilha a língua com os dentes para invocar a lascívia e agarra-lhe com violência pelo cabelo pintado. Passados poucos segundos, ele já estava a revirar os olhos, ela já se esquecera por completo da mãe e das luzinhas de natal e com uma mão apertava o traseiro dele contra ela e com a outra contorcia os dedos e fechava-os, agarrando a beira da secretária e teve de morder a manga do casaco para abafar os gemidos. As canetas metidas na caneca com um dragão azul que estava à sua frente bailavam todas contentes, e a América do Sul e África do mapa-mundo debaixo dela estavam a ser esmagadas pelas suas rotundas mamas brancas, ao passo que há um minuto não passava apenas de uma ameaça a pairar sobre aqueles dois continentes. Posso vir-me dentro, perguntou. Não, não, fora, respondeu ela. Então ele esguichou com vontade para cima de uma das nádegas, acertando um pouco da Antártida, coitadinhos dos pinguins-imperadores, que grande nevão, e gemeram os dois, e ela teve um riso miudinho que quase passava a choro, mas conseguiu controlar-se a tempo. Quando acabaram, ela recompôs-se com indiferença, como se nada tivesse acontecido, pousou uma nota de cinquenta sobre a América do Norte. Não quero que lhe falta nada ouviste-me bem? Os olhos dele franziram-se. Só venho agora à visita no dia 27, não... espera, 28, quarta-feira, avisou. Ela abriu devagar a porta e espreitou, ninguém no corredor e saiu de fininho. Ele ficou a olhar para a nota enquanto acariciava distraído a sua melhor qualidade. Simulou então cortar o seu membro murcho às rodelas como se a mão direita fosse um cutelo e quase que exibiu o seu sorriso que com o tempo se tornou indecente, boçal. Depois lembrou-se de olhar para o calendário da Nossa Senhora de Fátima a rezar que estava pendurado na porta e ficou muito sério.
Dia 28 é quinta-feira, aquela gaja não sabe a quantas anda, pensou.
Levantou a bata do chão, limpou-se a ela e regressou à sala do lar onde os gritos histéricos da apresentadora competiam novamente com as rajadas causadas por peças de dominó a baterem na madeira.

domingo, dezembro 08, 2013

quarta-feira, dezembro 04, 2013

Ciclo de vida de uma história

"Wonderbook: The Illustrated Guide to Creating Imaginative Fiction", Jeff  VanderMeer

quinta-feira, novembro 28, 2013

Harry Callahan, Chicago (Trees in Snow)

terça-feira, novembro 12, 2013

O Emprego

(obrigado Miguel)

quinta-feira, novembro 07, 2013

Perdi-o




















Ali entre Caminha e V. R. Santo António. Dão-se alvísseras a quem o achar.

sexta-feira, novembro 01, 2013

quinta-feira, outubro 17, 2013

terça-feira, outubro 15, 2013

Polígrafo

















Em 1957, Brother Antoninus (aka William Everson) comprou um polígrafo usado num flea market de São Francisco. De acordo com a sua biografia autorizada, o poeta de Sacramento recorria ao polígrafo antes de consolidar a versão final dos poemas. Se a máquina da verdade acusasse algo durante o seu recital inflamado, Antoninus queimava os seus versos para depois reescrever e medir novamente a veracidade do texto. Brother Antoninus, admirador confesso de Walt Whitman, viria a destruir o polígrafo quando resolveu ler "Leaves of Grass" a um grupo de beatniks. A máquina assinalou vinte e quatro irrefutáveis registos ao longo do depoimento lírico consagrado a Whitman.

domingo, outubro 13, 2013

Shandy FC vs Pickwick United

Arto Paasilinna a trinco e Lázaro Covadlo a subir pela ala esquerda. Kawabata na direita.
Pamuk a central e o criativo D. Barthelme no ataque (fortíssimo no jogo aéreo). Svevo entra no início da 2ª parte para substituir o veterano Onetti que raramente joga os 90 minutos.
Auto-golo de Tzara que comemora junto da claque dos Ultra-Ubus. Cartão amarelo do árbitro (o argentino J. L. Borges) por Tzara ter tirado a camisola durante os festejos.
Rubem Fonseca e O. Henry em exercícios de aquecimento.

segunda-feira, outubro 07, 2013

Literatura Histérica



















As mulheres estão sentadas com um livro numa mesa e são filmadas a preto e branco sob um fundo preto. Elas escolhem a roupa e a obra o que vão ler. Quando a câmara inicia a gravação, elas apresentam-se e começam a ler. Debaixo da mesa, fora do controlo da mulher que está a ler, um assistente invisível tenta distraí-la com um vibrador. As mulheres param de ler quando ficam demasiado distraídas ou cansadas para continuar; nesse momento, a leitora apresenta-se de novo e a obra que acabou de ler. A duração de cada vídeo varia em função do tempo de resposta das leitoras. 

A leitora desta 1ª sessão chama-se Stoya, é uma ex-actriz porno e lê "Necrophilia Variations" por Supervert (há autores e obras para todos os gostos, Whitman, Burgess, Brett E. Ellis, etc.).

Mais info aqui.

terça-feira, outubro 01, 2013














O mundo paralelo das línguas construídas colaborativas ("Conlangs")

segunda-feira, setembro 30, 2013


terça-feira, setembro 17, 2013


Como correu o teu dia



- (...) Conhecia-a naquela paragem de tram, estava sozinha. Era mestiça e tinha o cabelo desfrisado, é assim que se diz? Usava uma bandolete cor-de-rosa e calças de ganga deslavadas, daquelas que já vêm rasgadas. Tentei não olhar para aquelas ilhotas de pele macia, dourada, acho que disfarcei muito mal, ela deu conta. Sentei-me na ponta do banco e fingi olhar para a tabuleta da paragem. Passava um ou outro carro. A moça estava muito concentrada a olhar para o meio da rua. Tirou um maço de tabaco e pôs-se a dar aquelas pancadinhas irritantes na base do maço. Saltei do banco e resolvi ir a pé. Eram seis da manhã quando acordei, ainda estavas a dormir. Não me barbeei. Bebi um copo de água com uma daquelas pastilhas de cálcio e vitamina D. Não é que precise, mas gosto do sabor e limpa-me a barriga. Lembrei-me daquela defesa impossível do guarda-redes da squadra azzura, gosto de dizer squadra azzura, e larguei-me de satisfação no elevador para o nosso vizinho do baixo, ouvi-o do outro lado das placas metálicas do elevador a dizer "merda". O gajo chamou o elevador, mas como o elevador não é dos modernos continuou a descer. Espalhei a fragrância com a mão e depois olhei-me de perfil ao espelho e enchi as bochechas de ar como um trompetista. Faço sempre isto para acordar. (...)

O meu último conto na íntegra aqui.

sábado, setembro 14, 2013

14 de Setembro

Hoje é mais um dia especial contigo.
Até já, Pat.

quarta-feira, setembro 04, 2013

Sou tão hipster.

sábado, agosto 31, 2013

terça-feira, agosto 20, 2013

Eh voilá, apesar de ser uma adaptação, nunca pensei que fosse possível fazê-lo.

quinta-feira, agosto 08, 2013

W. Herzog


segunda-feira, agosto 05, 2013

terça-feira, julho 23, 2013


sexta-feira, julho 12, 2013





terça-feira, julho 09, 2013

Thoreau & Esculápio



Levei calmamente a minha insónia para a varanda, o calor* saía-me às golfadas do meu tronco empastado, queria devarandá-la (não existe defenestrar?...) e vi o meu vizinho de baixo a dormir na sua varanda. O homem estava nu. Não estava a contar com aquela exposição e fiquei a olhar para ele. Baixei a cabeça pesada, parecia que estava a olhar para um acidente. O homem tinha um tufo de pêlos brancos que brilhava ao luar e que lhe cobria todo o peito. Passei a mão pelo meu peito seboso com meia dúzia de pêlos. O meu olhar, pesado e desastrado, caiu mesmo em cima da testa do homem que abriu e arregalou os olhos como naqueles filmes de terror. Recuei logo e estiquei-me sobre a carpete da sala em direcção à ventoinha. As gaivotas que estavam em cima do telhado do prédio da frente começaram a rir-se de mim. O meu vizinho é católico praticante.
“Eu acredito em Deus e tento ir todos os domingos à missa, e agora diga-me uma coisa. Acha que ver filmes pornográficos é pecado? Diga-me sinceramente, o senhor acha?”
“Eu acho que não.”
O elevador parou no andar dele e ele pôs-se no meio do infravermelho que impede o elevador de fechar.
“É ou não é? Se não fosse Deus, não estavamos aqui. Matar e roubar, isso é que pecado, agora ver filmes pornográficos...É como eu digo ou não?”, pergunta novamente.
“Eu acho que sim, não tem mal nenhum”
“Continuação, meu amigo.” Despediu-se com um sorriso imposto e lá foi para o seu apartamento.
É muito provável que o meu vizinho estivesse a dar-me uma indirecta, não consigo ver o RedTube ou o YouPorn sem som, não faz muito sentido, sexo tem de ter som e bem alto.

Ns manhã seguinte, enquanto estava parado no trânsito, pus-me a contemplar a zona verde do meu ramal de entrada para a auto-estrada. Não sei se é por andar a ler Thoreau, mas senti um desejo enorme de tirar a roupa, saltar o rail e rolar na relva, acariciar o meu cone e as minhas bolas, agarrar-me a uma tília e passar ali o dia ou até o resto da minha vida. As zonas verdes das intersecções das auto-estradas são um pedaço de paraíso. Não é o campo rude, selvagem, mas também não é betão, é um compromisso harmonioso entre os dois. Não passaria fome, bebia o resto das coca-colas e comi o resto dos bigmacs, com um pouco de sorte apanhava meios copos de sundaes. Vi uma casca de banana em cima da relva aparada e senti inveja dessa casca de banana, que sorte que ela tem. Desliguei o A/C e baixei o vidro e pus-me a olhar para a casca de banana que  estava a seduzir-me com as belas manchas negras sobre a pele amarela, era o meu fruto proibido. Sou um homem bom com muitas tentações. Raramente vou até ao fim. Isto poderia ser o início de algo glorioso, de rejuvenescedor, Thoreau conseguiu viver sozinho no meio da natureza, porque é que eu não haveria de conseguir também? Senti o meu coração a bater depressa, havia Evazinhas estagiárias a cuidarem de mim, as serpentes enroscadas, conheço-as bem, não seriam problema. Fiquei ligeiramente deprimido, lembrei-me então que era casado, a minha mulher tinha de vir também, eu amo a minha mulher. E o meu piano? Ah teria o canto dos pardais e as andorinhas na Primavera, a Natureza é sábia. E as férias na Quinta do Lago? Não quero saber, não precisava de arranjar desculpas para não jogar golfe. Este green, aqui mesmo à entrada da A?? parece-me perfeito. Tocar-me-ia entre as 8 e 9h e depois ao fim da tarde, ali por volta das 6h para os meus respeitados colegas e não só, ali, todo escarrapachado, ria-me com a máscara da Comédia, fazia-lhes inveja por ser finalmente livre. Hmm, restos de patas de caranguejo, obrigado Carlos, um Adagio natural dentro do prazo, que gentileza a sua, São. Os anos não passam por si, colega. Gosto de pedir opiniões às colegas mais velhas; estão fartas de saber que eu não quero a sua opinião para nada, gosto que elas se metam comigo, sou carne nova, gostam de roçar as mamas em mim, sem querer.
- Anda lá com essa merda, pá, queres dormir, dorme em casa! - Seguiu-se um cortejo de buzinadelas, pareceu-me ser o chefe do bloco no seu BMW série 7 e o raio que o parta a passar por mim na outra faixa.
Carreguei um pouco no acelerador e avancei três, quatro metros na fila.




*Correcção de "Karol" - estaria a pensar no papa J.P. II e nas suas aparições na Praça de São Pedro e que vai ser promovido a santo?
 

quarta-feira, julho 03, 2013

Durrell


sexta-feira, junho 28, 2013

Parece que veio o calor.
As cigarras e os grilos acompanham-no lá ao fundo.

quinta-feira, junho 20, 2013

sábado, junho 15, 2013


quarta-feira, junho 12, 2013

O escaravelho

"É pena que não saibamos controlar os sonhos", pensou o escaravelho enquanto empurrava a bola de esterco pelo carreiro. A sua carapaça reluzia e era uma espécie de farol negro para todos os insectos em redor.
"Esta história tem que avançar, apesar de não passar de uma bola de esterco" , e continuou a empurrar, a empurrar.
Passou por cima de um agente da bolsa que estava a preparar o seu suicídio, estava prostrado no chão, de barriga para baixo e de braços abertos, queria sentir o pulsar da terra antes de se matar, mas não conseguia sentir absolutamente nada.
Parou ao lado de uma bola de golfe que era infinitamente mais bonita do que a sua bola de esterco, mas não caiu na tentação de trocar pela sua bola de esterco.
Viu um louva-a-deus a faiscá-lo com os seus enormes olhos verdes em cima de um ramo de cauchu. O escaravelho baixou logo o olhar como se estivesse a venerá-lo, mas não largou a sua bola de esterco. Depois ouviu o louva-a-deus a verrinar e olhou de esguelha sobre o ombro, o outro estava esbracejar como um louco.
Deteve-se quando viu duas velhas que se arrastavam na sua direcção. Teve de se afastar para que as velhas não o pisassem.
"O porta-moedas é meu, ouviste?", disse uma das velhas. Um cheiro pestilento descia-lhe pelas pernas abaixo, o escaravelho ficou um pouco excitado, mas a velha tinha uma verruga no nariz e cravos nos dedos e o escaravelho teve medo que ela fosse uma bruxa.
"Não é nada, o rapazola deu-mo a mim", respondeu a outra que trazia folhas de louro no avental surrado.
O tonto do rapaz tinha encontrado um porta-moedas e pensou que pertencia a uma das velhas que não se fizeram rogadas e nem sequer agradeceram ao rapaz. Não tenham pena do tonto do rapaz, ele mija por cima das formigas que são amigas do escaravelho.
Depois viu o mestre-escola que estava à janela a besuntar com óleo o pouco cabelo que tinha. Se não o fizesse, o cabelo encrespava-se e os alunos riam-se dele. O escaravelho desejou ter  um tufo de pelos daqueles na sua bola. O mestre-escola ajeitou os óculos em cima do nariz de pepino e sorriu para ele, mas o escaravelho não reparou - meteu-se pelos caniços que abriram alas para que ele pudesse passar com o seu lingote arredondado.

terça-feira, junho 04, 2013

quarta-feira, maio 29, 2013


segunda-feira, maio 27, 2013

Max von Oppenheim

quarta-feira, maio 22, 2013