segunda-feira, outubro 06, 2014
quarta-feira, outubro 01, 2014
terça-feira, setembro 30, 2014
quinta-feira, setembro 25, 2014
quarta-feira, setembro 24, 2014
A vida é mesmo assim
O corredor aproxima-se da linha da meta e resolve abrandar a passada, a vitória está garantida, o rosto alagado estica-se e um sorriso enche-lhe a cara toda. Ergue os braços magrinhos e faz com os dedos um V de vitória para a multidão. Ah, esperem, não há multidão, não há pessoas a assistir à corrida, é uma prova particular num pavilhão fechado ao público, é patrocinada por um daqueles magnatas excêntricos. Um outro corredor, que tudo indica irá receber prata, está a menos de dez segundos, mas não parece conformado, alarga a passada, aumenta o ritmo, abre a bocarra para engolir o máximo de ar possível, vê o adversário a cortar a meta, mas não desiste, continua a correr, a correr, parece um doido a fugir do manicómio, dir-se-ia mesmo que tem fogo no cu. Ultrapassa o "vencedor" que fica a olhar para ele muito espantado com as mãos sobre as pernas, está exausto. O outro mostra-lhe o dedo do meio. Não é possível. Claro, ainda falta fazer mais uma volta! Caramba, que azar, que estupidez. A criança afinal vai nascer com olhos azuis e vai ter o nariz do pai. Escusado será dizer que o falso vencedor ficou cá com umas trompas...
segunda-feira, setembro 22, 2014
História
Gostavas de ter começado a contar a tua história mais cedo, não gostavas? Quando a tua cabeça ainda não estava cheia de porcarias e coisas inúteis, não era? Pois mal. Tarde demais. Já não vais a tempo, não tentes recuperar o tempo perdido, uma migalhita aqui, uma fatia ressequida acolá, de nada serve. As histórias querem-se frescas como as alfaces. Não tenho paciência para velhos contadores de histórias que contam velhas fábulas que não interessam ao menino jesus. Bom, diga-se de passagem, não pareces muito preocupado. Agora fica quieto e calado enquanto eu conto a minha. Quando terminar, podes fazer com ela o que bem entenderes. Ah, queres saber o nome da história? Eu digo-te então. I am the walrus.
sexta-feira, setembro 19, 2014
As chaves
Ontem saí à pressa de casa e esqueci-me das chaves no lado de dentro da porta. Felizmente tinha o telemóvel comigo e o número das "Chaves Santo Ovídio" gravado na agenda. São um pouco careiros, mas trabalham bem e pedem logo o NIF sem perguntarem se é preciso a factura com o NIF. Como ninguém me atendia, tive de me dirigir à loja, fica a menos de dez minutos de onde eu moro. A minha mulher ia chegar com os catraios e não podia abrir a porta com as minhas chaves metidas no lado de dentro da fechadura. Bom. À minha frente estava um senhor de idade, careca, barba branca, hirsuta. Trazia uma túnica cinza e coçada e umas sandálias à pescador como agora se usa.
- Olha, diz lá quanto é que te devo - perguntou o tal senhor de idade com uma voz grave. Pesava um grande molho de chaves na mão e acenava com a cabeça, muito satisfeito.
- Vá lá à sua vida, depois fazemos contas.
- Isto não é assim, diz lá quanto é.
- Ó chefe, pel'amor de Deus. Vá lá à sua vida, já lhe disse. Eu depois passo lá e paga-me um café.
- Pronto, tá combinado. Dá cá um bacalhau.
O senhor de idade virou-se de repente e deu-me um encontrão, eu estava mesmo atrás dele.
- Ó, desculpe.
- Não tem mal.
O homem esfumou-se mal pôs o pé na rua. Eu estava meio constipado, este tempo é terrível para as constipações, mas consegui sentir um cheiro a peixe por toda a loja.
- Olha, diz lá quanto é que te devo - perguntou o tal senhor de idade com uma voz grave. Pesava um grande molho de chaves na mão e acenava com a cabeça, muito satisfeito.
- Vá lá à sua vida, depois fazemos contas.
- Isto não é assim, diz lá quanto é.
- Ó chefe, pel'amor de Deus. Vá lá à sua vida, já lhe disse. Eu depois passo lá e paga-me um café.
- Pronto, tá combinado. Dá cá um bacalhau.
O senhor de idade virou-se de repente e deu-me um encontrão, eu estava mesmo atrás dele.
- Ó, desculpe.
- Não tem mal.
O homem esfumou-se mal pôs o pé na rua. Eu estava meio constipado, este tempo é terrível para as constipações, mas consegui sentir um cheiro a peixe por toda a loja.
terça-feira, setembro 16, 2014
terça-feira, setembro 09, 2014
O belo António
Já que toda a gente parece saber um pouco sobre Kafka, vou também falar sobre Kafka. Kafka passou uma temporada em Itália. Esteve na Sicília, na pedra que a "bota" chuta há milhões de anos. A pedra parece não se importar de tão dura que é. Para sobreviver, o escritor trabalhou como figurante no filme "Il bell'Antonio" rodado na Catania, apaixonou-se um pouco por Claudia Cardinalli durante as filmagens e deu dicas de representação ao próprio Mastroianni que encarnou o papel de um homem atraente, apoiante febril do Fascismo, adorado por todas as mulheres da cidade, mas que, no fundo,...ou melhor dizendo, no meio, era sexualmente impotente. Uma espécie de alegoria.
quinta-feira, agosto 28, 2014
Cláusulas
- O nosso corpo é como uma ampulheta. Temos de fazer o pino de vez em quando para que as ideias acumuladas nos pés regressem à cabeça.
- O Rei Ubu nasceu quando a mãe de A. Jarry lhe pediu para ir colher mirtilos ao bosque e ele chegou a casa com o cesto cheio de tâmaras. Em França não ha tamareiras.
- A minha mulher gosta que eu durma com mitenes. Diz ela que lhe faz lembrar a sua ama quando a embalava.
- Na minha aldeia usam cascas de caracóis em vez de telhas e as pessoas têm os olhos muito salientes.
- O nosso primeiro faz lipoaspiração e doa a massa adiposa a fábricas de sabonetes. O povo deveria queixar-se menos.
- O serviço de apoio ao cliente da Igreja deixa muito a desejar.
- O meu segredo com as mulheres é este: um pouco de água salgada no pulso esquerdo e um pouco de água com açúcar no pulso direito.
- Os miúdos da catequese adoram o novo padre. Em vez do fazer o sinal de cruz, ele passa a missa a desliza o anelar no ar como se estivesse a usar um smartphone.
- Uma vez vi dois homens abraçados na Ponta de Sagres. Foi numa excursão da escola; era pequeno na altura, mas tenho a vaga ideia que um chamava-se Infante e o outro Henrique.
- As pessoas cospem para o chão para que nasçam cuspideiras. A madeira é boa para fazer consolas e aparadores. A polpa do fruto é usada por uma conhecida marca de sumos.
- Os homens-bomba auferem de bons salários. Mas se não forem pontuais, o empregador pode recusar a prestação do dia de trabalho e, se for prática recorrente, podem ser despedidos por justa causa.
- Enquanto estofador, tenho um ódio de estimação: Soeiro Pereira Gomes.
- Gosto de fazer pequenas bolinhas com o cotão que tiro do meu rego. Depois atiro aos pardais que usam-no para fazer os ninhos. Faço parte do ecossistema.
- Ao contrário do que se diz por aí, Mishima nunca pôs os pés em Andorra.
- Perdi a cabeça quando me apaixonei pela quarta vez. Nunca mais voltei a encontrá-la.
- Quando chega o fim do mês, tenho sempre a sensação que vários príncipes e princesas vivem à minha custa.
- O meu gato está tão grande, tão grande, que pega com os dentes pelo meu cachaço para me dar comida.
- A democracia em Portugal é mágica. Coelhos que saem da cartola e portas que andam por esse mundo fora.
- Tenho amigos que cheiram a estábulos e já não é de agora.
quarta-feira, agosto 13, 2014
terça-feira, agosto 12, 2014
![]() |
| Rev. Alban Butler |
"Quando estava sozinho, ele lia; quando estava com alguém, ele lia; às refeições, ele lia; nas suas caminhadas, ele lia; quando ia numa carruagem, ele lia; quando andava a cavalo, ele lia; fosse o que fosse, ele lia."
Charles Butler (sobrinho de Alban Butler)
terça-feira, julho 29, 2014
sexta-feira, julho 18, 2014
Espanhóis
Porque é que os espanhóis fazem a siesta? Eu digo-vos porquê. Para se parecerem connosco, com os por.tu.gue.ses. Sim senhor, é isso mesmo, leram bem. É este vosso criado que vos diz, sem rodeios, sem paninhos quentes. Passei muito tempo a levar com eles, sei como aquela gente pensa. Quando estão acordados, falam a berrar, urram, esbrancejam como criancinhas que querem chamar à atenção dos pais. Fazem birras se nós aqui ao lado não lhes damos atenção. Temos de lhes dizer "si si carino" na língua primitiva deles, caso contrário não nos entendem. É como eu digo ou não é? E então sonham connosco quando dormitam depois do gaspacho ou rabo de touro ou lá o que eles comem. Querem roubar-nos o fado, inventaram o flamengo para se mostrarem superiores, o flamengo é uma espécie de fado mais espanhafatoso, vê-se logo que aquela jactância toda é a fingir, é só teatro. Coitadinhos, são tão teatrais os nuestros hermanos. Olhem para cima, para os galegos, querem a toda a força pertencer a este lindo rectângulo. Ouçam. Não se riam. Eles, os espanhóis, sonham ser meditabundos e introspectivos como nós, obedientes e afáveis como nós, enfim, adultos. Desejam ainda ser bem parecidos e vestirem-se bem como nós, é por isso que andam sempre engalanados todos os dias como se fossem à missa. E mais. Desejam as nossas mulheres, querem amá-las porque sabem que são fogosas na cama e ladies na mesa - já as mulheres deles são o oposto. Ai não sabem? Ah ha. Uh hu. Pois é isto, sem tirar nem por. Repito, meus amigos, sei do que falo e mais não digo porque não quero ferir susceptibilidades. Antes de mais nada, sou português, ora aqui têm o meu cartão, um criado ao vosso dispor.
sábado, julho 12, 2014
sábado, junho 14, 2014
O pergaminho de Kaikidan Ekotoba
![]() |
| Homem com testículos gigantescos |
À distância de 9 fusos horários. Nem só de sushi e tempura vive o homem.
terça-feira, junho 10, 2014
10 de Junho
eu desfaleço
tu desfaleces
Ele desfalece
nós desfalecemos
vós desfaleceis
eles desfalecem
(apenas a relembrar a conjugação do Pres. Indic. de um verbo terminado em -er)
tu desfaleces
Ele desfalece
nós desfalecemos
vós desfaleceis
eles desfalecem
(apenas a relembrar a conjugação do Pres. Indic. de um verbo terminado em -er)
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