sábado, dezembro 21, 2013

Natal

UM


Está bem filha, volta quando puderes, não te chateies comigo.

Ela levantou-se, curvou-se e beijou a mãe na testa fria. A velhota quis corresponder, ergueu a mão e agarrou a filha pelo braço. Vai lá à tua vida, não te atrases, disse-lhe. Os olhos infantis da velhota acompanhavam a filha que atravessava a sala de visitas e que parou para olhar para a pequena árvore de natal enfiada num canto da sala que abrigava a cena de natividade e meia dúzia de caixas embrulhadas sem nada lá dentro, estavam ali para encher, para fazer feitio. O menino Jesus parecia um rim, a sua cabecita era tão pequenina, tão miúdinha que o rosto não tinha feições. A José faltava um braço, mas Maria continua imaculada.
Saia lá da frente, ordenou um dos velhotes que tinha a barba por fazer de há dois dias e pêlos brancos a sairem-lhe do nariz e das orelhas. Ela ficou meio minuto ali parada, parecia hipnotizada pelas luzinhas multicolores a piscarem à vez.
O auxiliar estava de braços cruzados a apreciar a partida de dominó que estava longe de ser pacífica, o sr. Clemente e o sr. Neves batiam as peças com violência como que a quererem parti-las, eles  deviam ter um acordo tácito, talvez quem partisse primeiro uma das peças ganharia o jogo. O auxiliar, dizia eu, ergueu o queixo e enlaçou Madalena com o olhar que ficou plantada no meio da sala. Os olhos começaram a ficar húmidos e sentiu uma enorme vontade de voltar para trás e levar a sua mãe consigo.
Mas é surda ou quê? Saia da frente da televisão, ó criatura, repetiu o senhor Marques enquanto coçava o quadril ossudo. A apresentadora do natal nos hospitais parece que também estava na expectativa, mas mantinha sempre a postura profissional e começa a empatar com piadas sem piada nenhuma, são os chamados imprevistos de um programa em directo, os lábios reluzentes enchiam o ecrã todo, não havia maneira do próximo artista entrar em palco. Madalena desperta do turpor, apetece-lhe olhar para trás, para a mãe, será que era o último natal dela, mas não pode, provavelmente tem medo de se transformar numa estátua de sal se o fizer, veste o casaco de pele que trazia pelo braço, compõe as golas de pêlo, puxa-o bem para baixo, dá um jeito no cabelo pela nuca e sai da sala a bater com força os tacões no linóleo. Assim que ela sai, o auxiliar segue-a e a jovem fadista na televisão começa finalmente a cantar a sua mágoa, todos os jovens fadistas de agora têm uma mágoa muito profunda como se já tivessem passado por muita coisa, se calhar até passaram. Uma das velhotas estica o pescoço como uma tartaruga para se certificar que o auxiliar saíu e tira meia dúzia pinhões do bolso da casaco de malha, mete-os à boca e sorri enquanto mastiga, o maxilar parecia que ia sair do sítio, as pregas do rosto ao mastigar eram como uma pastilha elástica em alcatrão quente que tentamos tirar da sola do sapato. O sr. Marques, que ocupava a melhor poltrona da sala, revestida a gorgorão, levanta-se e volta-se para a janela, para o sr. Clemente e o sr. Neves que estavam ainda a tentar pregar as peças de dominó à mesa, eram autênticas metralhadoras, e então o senhor Marques assobia em dois tempos, faz um punho cheio de marcas de velhice e insinua aquele gesto basculante que a maior parte das pessoas associa ao coito.

O auxiliar tinha de acabar aquilo que o marido tinha começado ontem. Madalena já estava estendida à sua espera sobre a secretária, as cuequinhas e a saia jaziam no chão. Anda lá, tenho de ir buscar a minha filha ao aeroporto, vou apanhar trânsito, já estou atrasada. O auxiliar roda a chave da salinha muito devagar, tira a bata e desaperta o cinto. Trilha a língua com os dentes para invocar a lascívia e agarra-lhe com violência pelo cabelo pintado. Passados poucos segundos, ele já estava a revirar os olhos, ela já se esquecera por completo da mãe e das luzinhas de natal e com uma mão apertava o traseiro dele contra ela e com a outra contorcia os dedos e fechava-os, agarrando a beira da secretária e teve de morder a manga do casaco para abafar os gemidos. As canetas metidas na caneca com um dragão azul que estava à sua frente bailavam todas contentes, e a América do Sul e África do mapa-mundo debaixo dela estavam a ser esmagadas pelas suas rotundas mamas brancas, ao passo que há um minuto não passava apenas de uma ameaça a pairar sobre aqueles dois continentes. Posso vir-me dentro, perguntou. Não, não, fora, respondeu ela. Então ele esguichou com vontade para cima de uma das nádegas, acertando um pouco da Antártida, coitadinhos dos pinguins-imperadores, que grande nevão, e gemeram os dois, e ela teve um riso miudinho que quase passava a choro, mas conseguiu controlar-se a tempo. Quando acabaram, ela recompôs-se com indiferença, como se nada tivesse acontecido, pousou uma nota de cinquenta sobre a América do Norte. Não quero que lhe falta nada ouviste-me bem? Os olhos dele franziram-se. Só venho agora à visita no dia 27, não... espera, 28, quarta-feira, avisou. Ela abriu devagar a porta e espreitou, ninguém no corredor e saiu de fininho. Ele ficou a olhar para a nota enquanto acariciava distraído a sua melhor qualidade. Simulou então cortar o seu membro murcho às rodelas como se a mão direita fosse um cutelo e quase que exibiu o seu sorriso que com o tempo se tornou indecente, boçal. Depois lembrou-se de olhar para o calendário da Nossa Senhora de Fátima a rezar que estava pendurado na porta e ficou muito sério.
Dia 28 é quinta-feira, aquela gaja não sabe a quantas anda, pensou.
Levantou a bata do chão, limpou-se a ela e regressou à sala do lar onde os gritos histéricos da apresentadora competiam novamente com as rajadas causadas por peças de dominó a baterem na madeira.

domingo, dezembro 08, 2013

quarta-feira, dezembro 04, 2013

Ciclo de vida de uma história

"Wonderbook: The Illustrated Guide to Creating Imaginative Fiction", Jeff  VanderMeer

quinta-feira, novembro 28, 2013

Harry Callahan, Chicago (Trees in Snow)

terça-feira, novembro 12, 2013

O Emprego

(obrigado Miguel)

quinta-feira, novembro 07, 2013

Perdi-o




















Ali entre Caminha e V. R. Santo António. Dão-se alvísseras a quem o achar.

sexta-feira, novembro 01, 2013

quinta-feira, outubro 17, 2013

terça-feira, outubro 15, 2013

Polígrafo

















Em 1957, Brother Antoninus (aka William Everson) comprou um polígrafo usado num flea market de São Francisco. De acordo com a sua biografia autorizada, o poeta de Sacramento recorria ao polígrafo antes de consolidar a versão final dos poemas. Se a máquina da verdade acusasse algo durante o seu recital inflamado, Antoninus queimava os seus versos para depois reescrever e medir novamente a veracidade do texto. Brother Antoninus, admirador confesso de Walt Whitman, viria a destruir o polígrafo quando resolveu ler "Leaves of Grass" a um grupo de beatniks. A máquina assinalou vinte e quatro irrefutáveis registos ao longo do depoimento lírico consagrado a Whitman.

domingo, outubro 13, 2013

Shandy FC vs Pickwick United

Arto Paasilinna a trinco e Lázaro Covadlo a subir pela ala esquerda. Kawabata na direita.
Pamuk a central e o criativo D. Barthelme no ataque (fortíssimo no jogo aéreo). Svevo entra no início da 2ª parte para substituir o veterano Onetti que raramente joga os 90 minutos.
Auto-golo de Tzara que comemora junto da claque dos Ultra-Ubus. Cartão amarelo do árbitro (o argentino J. L. Borges) por Tzara ter tirado a camisola durante os festejos.
Rubem Fonseca e O. Henry em exercícios de aquecimento.

segunda-feira, outubro 07, 2013

Literatura Histérica



















As mulheres estão sentadas com um livro numa mesa e são filmadas a preto e branco sob um fundo preto. Elas escolhem a roupa e a obra o que vão ler. Quando a câmara inicia a gravação, elas apresentam-se e começam a ler. Debaixo da mesa, fora do controlo da mulher que está a ler, um assistente invisível tenta distraí-la com um vibrador. As mulheres param de ler quando ficam demasiado distraídas ou cansadas para continuar; nesse momento, a leitora apresenta-se de novo e a obra que acabou de ler. A duração de cada vídeo varia em função do tempo de resposta das leitoras. 

A leitora desta 1ª sessão chama-se Stoya, é uma ex-actriz porno e lê "Necrophilia Variations" por Supervert (há autores e obras para todos os gostos, Whitman, Burgess, Brett E. Ellis, etc.).

Mais info aqui.

terça-feira, outubro 01, 2013














O mundo paralelo das línguas construídas colaborativas ("Conlangs")

segunda-feira, setembro 30, 2013


terça-feira, setembro 17, 2013


Como correu o teu dia



- (...) Conhecia-a naquela paragem de tram, estava sozinha. Era mestiça e tinha o cabelo desfrisado, é assim que se diz? Usava uma bandolete cor-de-rosa e calças de ganga deslavadas, daquelas que já vêm rasgadas. Tentei não olhar para aquelas ilhotas de pele macia, dourada, acho que disfarcei muito mal, ela deu conta. Sentei-me na ponta do banco e fingi olhar para a tabuleta da paragem. Passava um ou outro carro. A moça estava muito concentrada a olhar para o meio da rua. Tirou um maço de tabaco e pôs-se a dar aquelas pancadinhas irritantes na base do maço. Saltei do banco e resolvi ir a pé. Eram seis da manhã quando acordei, ainda estavas a dormir. Não me barbeei. Bebi um copo de água com uma daquelas pastilhas de cálcio e vitamina D. Não é que precise, mas gosto do sabor e limpa-me a barriga. Lembrei-me daquela defesa impossível do guarda-redes da squadra azzura, gosto de dizer squadra azzura, e larguei-me de satisfação no elevador para o nosso vizinho do baixo, ouvi-o do outro lado das placas metálicas do elevador a dizer "merda". O gajo chamou o elevador, mas como o elevador não é dos modernos continuou a descer. Espalhei a fragrância com a mão e depois olhei-me de perfil ao espelho e enchi as bochechas de ar como um trompetista. Faço sempre isto para acordar. (...)

O meu último conto na íntegra aqui.

sábado, setembro 14, 2013

14 de Setembro

Hoje é mais um dia especial contigo.
Até já, Pat.

quarta-feira, setembro 04, 2013

Sou tão hipster.

sábado, agosto 31, 2013

terça-feira, agosto 20, 2013

Eh voilá, apesar de ser uma adaptação, nunca pensei que fosse possível fazê-lo.

quinta-feira, agosto 08, 2013

W. Herzog


segunda-feira, agosto 05, 2013

terça-feira, julho 23, 2013


sexta-feira, julho 12, 2013





terça-feira, julho 09, 2013

Thoreau & Esculápio



Levei calmamente a minha insónia para a varanda, o calor* saía-me às golfadas do meu tronco empastado, queria devarandá-la (não existe defenestrar?...) e vi o meu vizinho de baixo a dormir na sua varanda. O homem estava nu. Não estava a contar com aquela exposição e fiquei a olhar para ele. Baixei a cabeça pesada, parecia que estava a olhar para um acidente. O homem tinha um tufo de pêlos brancos que brilhava ao luar e que lhe cobria todo o peito. Passei a mão pelo meu peito seboso com meia dúzia de pêlos. O meu olhar, pesado e desastrado, caiu mesmo em cima da testa do homem que abriu e arregalou os olhos como naqueles filmes de terror. Recuei logo e estiquei-me sobre a carpete da sala em direcção à ventoinha. As gaivotas que estavam em cima do telhado do prédio da frente começaram a rir-se de mim. O meu vizinho é católico praticante.
“Eu acredito em Deus e tento ir todos os domingos à missa, e agora diga-me uma coisa. Acha que ver filmes pornográficos é pecado? Diga-me sinceramente, o senhor acha?”
“Eu acho que não.”
O elevador parou no andar dele e ele pôs-se no meio do infravermelho que impede o elevador de fechar.
“É ou não é? Se não fosse Deus, não estavamos aqui. Matar e roubar, isso é que pecado, agora ver filmes pornográficos...É como eu digo ou não?”, pergunta novamente.
“Eu acho que sim, não tem mal nenhum”
“Continuação, meu amigo.” Despediu-se com um sorriso imposto e lá foi para o seu apartamento.
É muito provável que o meu vizinho estivesse a dar-me uma indirecta, não consigo ver o RedTube ou o YouPorn sem som, não faz muito sentido, sexo tem de ter som e bem alto.

Ns manhã seguinte, enquanto estava parado no trânsito, pus-me a contemplar a zona verde do meu ramal de entrada para a auto-estrada. Não sei se é por andar a ler Thoreau, mas senti um desejo enorme de tirar a roupa, saltar o rail e rolar na relva, acariciar o meu cone e as minhas bolas, agarrar-me a uma tília e passar ali o dia ou até o resto da minha vida. As zonas verdes das intersecções das auto-estradas são um pedaço de paraíso. Não é o campo rude, selvagem, mas também não é betão, é um compromisso harmonioso entre os dois. Não passaria fome, bebia o resto das coca-colas e comi o resto dos bigmacs, com um pouco de sorte apanhava meios copos de sundaes. Vi uma casca de banana em cima da relva aparada e senti inveja dessa casca de banana, que sorte que ela tem. Desliguei o A/C e baixei o vidro e pus-me a olhar para a casca de banana que  estava a seduzir-me com as belas manchas negras sobre a pele amarela, era o meu fruto proibido. Sou um homem bom com muitas tentações. Raramente vou até ao fim. Isto poderia ser o início de algo glorioso, de rejuvenescedor, Thoreau conseguiu viver sozinho no meio da natureza, porque é que eu não haveria de conseguir também? Senti o meu coração a bater depressa, havia Evazinhas estagiárias a cuidarem de mim, as serpentes enroscadas, conheço-as bem, não seriam problema. Fiquei ligeiramente deprimido, lembrei-me então que era casado, a minha mulher tinha de vir também, eu amo a minha mulher. E o meu piano? Ah teria o canto dos pardais e as andorinhas na Primavera, a Natureza é sábia. E as férias na Quinta do Lago? Não quero saber, não precisava de arranjar desculpas para não jogar golfe. Este green, aqui mesmo à entrada da A?? parece-me perfeito. Tocar-me-ia entre as 8 e 9h e depois ao fim da tarde, ali por volta das 6h para os meus respeitados colegas e não só, ali, todo escarrapachado, ria-me com a máscara da Comédia, fazia-lhes inveja por ser finalmente livre. Hmm, restos de patas de caranguejo, obrigado Carlos, um Adagio natural dentro do prazo, que gentileza a sua, São. Os anos não passam por si, colega. Gosto de pedir opiniões às colegas mais velhas; estão fartas de saber que eu não quero a sua opinião para nada, gosto que elas se metam comigo, sou carne nova, gostam de roçar as mamas em mim, sem querer.
- Anda lá com essa merda, pá, queres dormir, dorme em casa! - Seguiu-se um cortejo de buzinadelas, pareceu-me ser o chefe do bloco no seu BMW série 7 e o raio que o parta a passar por mim na outra faixa.
Carreguei um pouco no acelerador e avancei três, quatro metros na fila.




*Correcção de "Karol" - estaria a pensar no papa J.P. II e nas suas aparições na Praça de São Pedro e que vai ser promovido a santo?
 

quarta-feira, julho 03, 2013

Durrell


sexta-feira, junho 28, 2013

Parece que veio o calor.
As cigarras e os grilos acompanham-no lá ao fundo.

quinta-feira, junho 20, 2013

sábado, junho 15, 2013


quarta-feira, junho 12, 2013

O escaravelho

"É pena que não saibamos controlar os sonhos", pensou o escaravelho enquanto empurrava a bola de esterco pelo carreiro. A sua carapaça reluzia e era uma espécie de farol negro para todos os insectos em redor.
"Esta história tem que avançar, apesar de não passar de uma bola de esterco" , e continuou a empurrar, a empurrar.
Passou por cima de um agente da bolsa que estava a preparar o seu suicídio, estava prostrado no chão, de barriga para baixo e de braços abertos, queria sentir o pulsar da terra antes de se matar, mas não conseguia sentir absolutamente nada.
Parou ao lado de uma bola de golfe que era infinitamente mais bonita do que a sua bola de esterco, mas não caiu na tentação de trocar pela sua bola de esterco.
Viu um louva-a-deus a faiscá-lo com os seus enormes olhos verdes em cima de um ramo de cauchu. O escaravelho baixou logo o olhar como se estivesse a venerá-lo, mas não largou a sua bola de esterco. Depois ouviu o louva-a-deus a verrinar e olhou de esguelha sobre o ombro, o outro estava esbracejar como um louco.
Deteve-se quando viu duas velhas que se arrastavam na sua direcção. Teve de se afastar para que as velhas não o pisassem.
"O porta-moedas é meu, ouviste?", disse uma das velhas. Um cheiro pestilento descia-lhe pelas pernas abaixo, o escaravelho ficou um pouco excitado, mas a velha tinha uma verruga no nariz e cravos nos dedos e o escaravelho teve medo que ela fosse uma bruxa.
"Não é nada, o rapazola deu-mo a mim", respondeu a outra que trazia folhas de louro no avental surrado.
O tonto do rapaz tinha encontrado um porta-moedas e pensou que pertencia a uma das velhas que não se fizeram rogadas e nem sequer agradeceram ao rapaz. Não tenham pena do tonto do rapaz, ele mija por cima das formigas que são amigas do escaravelho.
Depois viu o mestre-escola que estava à janela a besuntar com óleo o pouco cabelo que tinha. Se não o fizesse, o cabelo encrespava-se e os alunos riam-se dele. O escaravelho desejou ter  um tufo de pelos daqueles na sua bola. O mestre-escola ajeitou os óculos em cima do nariz de pepino e sorriu para ele, mas o escaravelho não reparou - meteu-se pelos caniços que abriram alas para que ele pudesse passar com o seu lingote arredondado.

terça-feira, junho 04, 2013

quarta-feira, maio 29, 2013


segunda-feira, maio 27, 2013

Max von Oppenheim

quarta-feira, maio 22, 2013

quarta-feira, maio 15, 2013



Eu queria escrever algo realmente original, algo shandy, com alfinetadas certeiras, mas atirei-me ao chão quando li esta notícia, e agora estou engessado nos braços, estou a escrever este post com a língua e até estou a gostar. A blogosfera de pendor* político vai ferver hoje.

* Ai que drilhei a língua nesda palavra.

sexta-feira, maio 10, 2013

Proto-internet

Texas Hold'em
















Parece-me mais que evidente que no Conselho de Ministros se joga Texas Hold'em, no último jogo o Portas fez raise - tenho que usar o Inglês no poker, lamento -, apostou as reformas e o dealer (Passos) levantou no river um rei de espadas - a hand do Gaspar no showdown revelou-se um full house (K♥ K♣  K♠ 10♥ 10♣) muito, muito lento, mas muito agressivo ao mesmo tempo.
- Oohhh - ecoou pela sala.
Santos Silva levou as mãos à cabeça. O dealer manteve a sua cara impassível.
De nada serve ao Portas os anos que passou a jogar suecada com os velhotes. As olheiras de Gaspar falam por si.

sábado, abril 27, 2013

Captain Beefheart

Era a minha vez de fazer a limpeza geral nessa semana. Tinha acabado de pôr aquele verniz incolor e reluzente que evita as unhas de ficarem tristes e quebradiças, não me convinha nada fazer coisas braçais. Paciência. Quando estava a aspirar o buraco do sub-woofer que estava cheio de pó, o Captain Beefheart foi sugado e ficou todo o dia metido no saco do aspirador. Deixei-o lá ficar, não por não gostar dele - caso contrário não estaria a ouvir as suas ordens esganiçadas -, mas porque parti uma unha ao fazê-lo. O aspirador teve uma gastroenterite e agora não se mexe. O gato anda todo contente, mas ela diz que "fiz de propósito" e se calhar até tem razão.

sexta-feira, abril 26, 2013

quinta-feira, abril 25, 2013

Ideia para um cartaz publicitário para uma florista de Tancos

Uma criança loira, descalça, a pôr um cravo numa G3 segurada por mãos de militares.

segunda-feira, abril 22, 2013


sexta-feira, abril 19, 2013

Fechou os olhos. Subitamente, sentiu uma sombra a estender-se sobre si. Um calafrio percorreu-lhe a espinha; não sabia se deveria abrir os olhos para confrontar fosse o que fosse que estava diante de si ou se deveria manter-se quieto, de olhos fechados, como aqueles animais que simulam a morte perante o predador. Quando ergueu a cabeça e abriu os olhos, um pequeno vulto estava parado às suas duas horas. Levantou-se devagar e encarou aquela figura cuja cabeça era retroiluminada pelo pôr-do-sol. Parecia que estava ali há muito tempo: estava absorto a tirar pêlos do peito com uma pinça a qual guardou muito depressa no bolso das calças quando viu Orestes de pé.
Era mais para o baixo do que para o alto, era ruço no cabelo e nas sobrancelhas; a poeira na cara fazia sobressair as rugas de expressão e a cor dos olhos rasgados que mais pareciam duas fendas azuis.

quarta-feira, abril 10, 2013

sexta-feira, abril 05, 2013

quinta-feira, março 28, 2013

Henrique I, "Beauclerc"

Henrique I de Inglaterra
























Henrique I, cognominado "beauclerc" (literato, estudioso, amante de literatura) morreu na Normandia em Dezembro de 1135 de uma intoxicação alimentar provocada pela ingestão de lampreias estragadas e teve mais de 20 filhos legítimos e ilegítimos. O seu longo reinado durou trinta e cinco anos.

sexta-feira, março 22, 2013

A noite sempre soube ser paciente naquelas longitudes; deixa cair finalmente a sua cortina de estrelas sobre a terra e sobre o mar que continua a reclamar insistentemente aquela costa para fazer mais ilhas.
Os adoradores do sol, completamente revigorados pelo milagroso regresso do seu chefe festejam pela noite dentro. Orestes arrepia caminho em direcção à cidade, mas resolve, à ultima hora, ficar-se pelos arredores dos arredores, temendo o surto de malária. Entra na primeira pensão que lhe apareceu na estrada, e a dona, uma velha de boca franzida e curvada pela bílis, encaminha-o a rezingar ao longo de um corredor comprido e carunchoso que é acordado pela luz da vela da velha. O "melhor quarto aquelas horas" era um favo bafiento e mal mobilado; a cela de um monge tinha mais recheio do que aquele covil. Orestes estava tão cansado que mal tirou os sapatos, saltou logo para cima da cama que resmungou com um chio. Põs o dinheiro debaixo de travesseiro e começou a pensar na noite anterior; quis voltar novamente à Casa, desejou estar outra vez com a bela ninfeta-pele-de-seda que não parou de morder o lábio inferior durante o tempo em que esteve em cima dele e que de tanto o morder, fez ferida e duas gotas de sangue escorrerem-lhe pelo queixinho caindo no peito ossudo de Orestes.

terça-feira, março 19, 2013

quarta-feira, março 13, 2013