sábado, maio 10, 2014

Jack


























"(...) A minha mãe tem de mandar chamar o médico de vez em quando e eu pago. Nem te falo dos dentistas para mim e outras pessoas. Mencionarei de passagem as várias centenas de dólares que o advogado de Bessie me extorquiu. E poderia continuar por mais uma meia dúzia de páginas abençoadas a recitar o caminho que seguiu o meu dinheiro. Ontem, por exemplo, mandei um queque de 10 dólares para apoiar um novo jornal socialista que luta para se manter em Toledo, Ohio. (...)"

Cartas de Jack London, Antígona

Sim, o velho Jack piscava os dois olhos ao socialismo e gostava de beber o seu copito de vez em quando. Se calhar, foi por isso que enviou um "queque" para apoiar o tal jornal em vez de um "cheque". Vem mesmo assim na edição da Antígona (página 174). Acho que esta "gralha" arrebita bastante esta carta de London.


domingo, maio 04, 2014

Já passava da hora de jantar

Já passava da hora de jantar quando entraram numa povoação que parecia deserta. Os lampiões de carboneto da única rua digna desse nome começaram a ter espasmos, as sombras tiveram de trepar pelas paredes como baratas para se esconderem no fundo dos telhados, atrás dos beirais; se por acaso alguém andasse àquela hora na rua, as sombras rastejariam pelas paredes acima e usariam o transeunte noctívago como escudo para se protegerem da luz dos lampiões. Foi o que fizeram com os dois irmãos.
Dirigiram-se à única taberna na rua principal que parecia estar aberta. Mal desencostaram a porta levaram em cheio com uma pesada baforada de carrascão misturado com o cheiro de pêlo molhado de sabujo e de flatulências mais ou menos descaradas - seria impossível ao mais experiente dos narizes apurar qual era a fragrância dominante. Não tinham grande escolha. Deram as boas noites e sentaram-se. Pediram uma garrafa de retsina e algo para comer. É sabido que o álcool ajuda a libertar o espírito, e o irmão mais velho deixou escapar um sorriso para Teseu que não parava de tagarelar. Orestes não estava a prestar-lhe atenção, ou melhor, parecia estar a olhar para o irmão pela primeira vez. O caçula "não via nem à direita, nem à esquerda, nem mais além", mas não seria por isso que iria deixar de o amar. Para além dos dois irmãos e do taberneiro, havia apenas mais dois clientes que estavam sentados na mesa atrás. Antes dos dois irmãos entrarem, o mais novo estava a palitar os dentes com uma faca, enquanto o outro, de cinto desapertado para dar tréguas à pança, assoava-se com método: abria o lenço e olhava para a pasta húmida e reluzente para garimpar o que tinha saído de dentro de si. Apesar de tudo, observavam algumas regras básicas de etiqueta: não bocejaram à mesa nem nunca cuspiram para o chão durante o tempo que estiveram debaixo daquele tecto. Quando os dois irmãos ocuparam a mesa à frente da sua, pararam de fazer o que estavam a fazer e tomaram as medidas aos estranhos; o mais velho acabou o copo, arqueou a sobrancelha e berrou:
– Boas noites! Parecem cansados! Vêm de muito longe, os cavalheiros? – perguntou enquanto coçava o joelho gordo.

sábado, abril 26, 2014

Miklós Szentkuthy

sexta-feira, abril 25, 2014

25/04/14

Em abril,
capitães mil

(ao largo)

(do carmo).

quinta-feira, abril 24, 2014

Vinte e quatro


Aqui está o lar, já chegamos.
Os dois vieram em silêncio o caminho todo, Madalena ia já no segundo cigarro, não há nada melhor do que um cigarrinho depois de uma bem dada...Não, não, não, esperem aí. Acho que não foi nada uma bem dada, e aposto que ela também não, quem é que com dezassete, dezoite aninhos dá uma bem dada? O efebo que ia ali ao seu lado deixou de ser virgem naquele fim de tarde, mas a quarentona não sabia, talvez desconfiasse, ela não lhe perguntou, foi tudo muito rápido, há coisa de quinze minutos, ali no banco de trás de um carro, como nos tempos do liceu, só que desta vez foi num daqueles lotes para construção abandonados, parecia um cenário pós-apocalíptico. Estavam resguardados pela muralha de vegetação, pelas plumas invasoras, o outdoor mais à frente prometia vivendas de sonho, o Paraíso das Areias já estava desbotado, as pontas do papel descolavam nos cantos do cartaz. Um carro com um pneu suplente montado faz-me lembrar sempre uma pessoa a usar um sapato dois números mais abaixo do que o outro. Estacionou o Astra ao lado de um contentor cheio de entulho, havia lenços de papel usados semeados aqui e ali, as placas de betão no chão estavam emolduradas por ervas daninhas.
A ela interessava-lhe apenas esquecer o seu último caso, um refinado cabrãozito, colega de profissão, casado também, o gajo tinha língua de mel, quando estavam os dois sozinhos, contorciam-se um no outro, violavam-se mutuamente, violavam todas as leis da física, começavam num canto do quarto do motel e acabam noutro canto a suar por todos os poros do corpo, tinha que apagá-lo da cabeça, de dentro de si, as coisas ainda iam acabar mal. Ali o jovem era um sinal e teria de servir por enquanto, sentiu-lhe o fogo nas entranhas, tal como ela, mas era um fogo descontrolado, inexperiente, quase inocente.
Jura-me que aquilo que aconteceu vai ficar entre nós.
A terrível sensação de dejá vu, outra vez. Deve ser a frase mais usada pelos amantes.(...)

sábado, abril 12, 2014


quarta-feira, abril 09, 2014

Quem será?

eu maravilho-me
I wonder
Quem será
o cabeleireiro
do sr Smith?


(digam bem
alto para eu ouvir)

quarta-feira, abril 02, 2014

terça-feira, abril 01, 2014

(...) Havia um muro alto com cacos de vidro que protegia o terreno da casa. Contornou-o. Viu uma estrada mais à frente da qual saía um caminho para a entrada que não tinha portão. Entrou. O caminho de acesso tinha marcas de pneus e era bordejado por moitas, petúnias, rododendros e beladonas; o terreiro estava coberto de cascalho e no meio havia um poço de bordas baixas cujo guincho estava debruado por heras. Um Mercedes preto coberto de poeira estava estacionado no lado direito da casa. Aproximou-se do carro, limpou o vidro com a manga do casaco e olhou lá para dentro. Havia apenas uma pasta em cima do banco do passageiro. Depois, pôs-se à frente do capô; não resistiu e enfiou três dedos por entre os raios da famosa insígnia e sentiu um pequeno arrepio de prazer. Voltou para trás. A fachada da casa era esquadrejada por duas janelas estreitas de perfis vermelhos no piso superior e parecia mais modesta vista de perto. Em cima da porta de entrada havia uma inscrição em relevo que dizia ἑταίραι.
Orestes deu dois passos à caranguejo. Não sabia o que fazer, não estava à espera daquilo. As risadas deram lugar a gemidos que vinham do piso de cima e conseguiu distinguir ainda uma voz masculina mais grave, pausada, seguida de estertores abafados como se ele ou ela estivessem em profunda agonia.
Tocou na sineta da entrada cujo badalo tinha uma forma fálica. No vitral da porta figurava uma mulher deitada numa lit de repos em pose convidativa. Orestes sentiu vontade de passar os dedos pelo vitral, mas, nesse momento, a porta abriu-se lentamente. Sacudiu a poeira do casaco e das calças e lá entrou meio a medo. A cor cinza da sua roupa puída contrastava com os fortes tons carmins do papel de parede e do tapete vermelho do vestíbulo. Sentiu-se um pato, não, talvez um peru que fora convidado para uma festa de gala do conde pavão (...)

quarta-feira, março 26, 2014

segunda-feira, março 10, 2014

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

Rota das Letras

























Fui um dos vencedores do II Concurso de Contos Rota das Letras.
O meu conto "Diário dos últimos dias do Coronel Vicente Nicolau de Mesquita" será publicado em três línguas - Português, Chinês e Inglês.
Sendo eu tradutor de profissão (adoro pleonasmos), tenho bastante curiosidade em ver as versões traduzidas, principalmente a versão chinesa.
Estou muito feliz, obrigado.

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

terça-feira, fevereiro 25, 2014

Quinze

O auxiliar deixa-se cair pesadamente no único lugar livre do banco de plástico e dá um longo suspiro para que os outros dois sentissem um pouquinho a sua dor. Um dos homens acena-lhe com a cabeça como se o conhecesse e continua a conversa.

Tinha dito à minha catraia que queria ir ver os primeiros raios do sol do ano, sabe como são as mulheres, queria impressioná-la, ano novo, vida nova, não queria meter a pata na poça como fiz com as outras...ela ficou toda excitada, lá se vestiu à pressa, ainda estava com as cuequinhas novas do ano novo, que sonho, meu Deus, e vai daí, saímos pela garagem privada, estes gajos dos móteis pensam em tudo, metemo-nos no carro e fomos até à serra de Santa Justa. Já lá foi? É muito bonito, muito verdinho. Mas eis que quando chego a meio, não é que o caralho do motor começa a gaguejar e a deitar fumo por tudo quanto é lado? Saí, tava frio pra caralho, abri o capô. Que fumarada, meu Deus, e vou a ver, era a junta da colaça que tinha queimado, falta de água, tá a ver? E eu, ah puta que pariu que não tenho sorte nenhuma. E agora? Qual era o reboque que me vinha buscar o jeep na madrugada do primeiro dia do ano, ali no meio do monte? E...
Senhor Alfredo Ferreira?
Parreira, Parreira, emenda o homem.
Oh, Parreira, sim, desculpe. Faz favor.
Tava a ver que não. Não vou gritar como o colega que acabou de sair, pois não, seu doutora?
A médica que veio à porta era novinha, tinha um ar simpático, aponta com a mão para o interior da sala. O outro homem, mais velho, bate com o indicador na têmpora como que a dizer que o outro não jogava com o baralho todo, era maluco.
Aquele corredor era um desfile de voluntárias, auxiliares, administrativas, enfermeiros e enfermeiras, médicos e médicas. Sempre que passava uma mais jeitosa, o velhote descruzava os braços, seguia o derrière da senhora com o olhar e depois coçava o cachaço ou as narinas, ou então passava as mãos pelo tecido das calças; queria que o jovem sentado ao lado dele fosse cúmplice naquela sua avaliação, o velhote estava empenhado em fecundar com o seu olhar azul maroto as mulheres que por ali cirandavam, mas, claro, a idade não perdoa, sozinho não dava conta do recado. Mas o auxiliar nem sequer piscava os olhos, estava a olhar em frente para a porta, esperava pela sua vez, parecia uma daquelas estátuas dos faraós sentados com as mãos em cima das pernas. O velhote, ao aperceber-se que o moço não estava para ali virado, apoiou os cotovelos no joelhos e tapou a cara com as manápulas.
Ai meu deus, meu deus, gemeu ele baixinho.
Deus devia estar atento: assim que o sénior acaba de invocar o Seu nome, a porta do consultório abre-se e uma luz cor de pérola é despejada sobre aquela ovelha. O contador da história de Santa Justa sai disparado, parecia que ia tirar o pai da forca.
Sr. Avelino Correia?, alguém gritou do consultório.
O velhote pega num envelope grande e salta lá para dentro já com outro ânimo. (...)

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

terça-feira, fevereiro 11, 2014

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

quinta-feira, fevereiro 06, 2014