terça-feira, fevereiro 25, 2014

Quinze

O auxiliar deixa-se cair pesadamente no único lugar livre do banco de plástico e dá um longo suspiro para que os outros dois sentissem um pouquinho a sua dor. Um dos homens acena-lhe com a cabeça como se o conhecesse e continua a conversa.

Tinha dito à minha catraia que queria ir ver os primeiros raios do sol do ano, sabe como são as mulheres, queria impressioná-la, ano novo, vida nova, não queria meter a pata na poça como fiz com as outras...ela ficou toda excitada, lá se vestiu à pressa, ainda estava com as cuequinhas novas do ano novo, que sonho, meu Deus, e vai daí, saímos pela garagem privada, estes gajos dos móteis pensam em tudo, metemo-nos no carro e fomos até à serra de Santa Justa. Já lá foi? É muito bonito, muito verdinho. Mas eis que quando chego a meio, não é que o caralho do motor começa a gaguejar e a deitar fumo por tudo quanto é lado? Saí, tava frio pra caralho, abri o capô. Que fumarada, meu Deus, e vou a ver, era a junta da colaça que tinha queimado, falta de água, tá a ver? E eu, ah puta que pariu que não tenho sorte nenhuma. E agora? Qual era o reboque que me vinha buscar o jeep na madrugada do primeiro dia do ano, ali no meio do monte? E...
Senhor Alfredo Ferreira?
Parreira, Parreira, emenda o homem.
Oh, Parreira, sim, desculpe. Faz favor.
Tava a ver que não. Não vou gritar como o colega que acabou de sair, pois não, seu doutora?
A médica que veio à porta era novinha, tinha um ar simpático, aponta com a mão para o interior da sala. O outro homem, mais velho, bate com o indicador na têmpora como que a dizer que o outro não jogava com o baralho todo, era maluco.
Aquele corredor era um desfile de voluntárias, auxiliares, administrativas, enfermeiros e enfermeiras, médicos e médicas. Sempre que passava uma mais jeitosa, o velhote descruzava os braços, seguia o derrière da senhora com o olhar e depois coçava o cachaço ou as narinas, ou então passava as mãos pelo tecido das calças; queria que o jovem sentado ao lado dele fosse cúmplice naquela sua avaliação, o velhote estava empenhado em fecundar com o seu olhar azul maroto as mulheres que por ali cirandavam, mas, claro, a idade não perdoa, sozinho não dava conta do recado. Mas o auxiliar nem sequer piscava os olhos, estava a olhar em frente para a porta, esperava pela sua vez, parecia uma daquelas estátuas dos faraós sentados com as mãos em cima das pernas. O velhote, ao aperceber-se que o moço não estava para ali virado, apoiou os cotovelos no joelhos e tapou a cara com as manápulas.
Ai meu deus, meu deus, gemeu ele baixinho.
Deus devia estar atento: assim que o sénior acaba de invocar o Seu nome, a porta do consultório abre-se e uma luz cor de pérola é despejada sobre aquela ovelha. O contador da história de Santa Justa sai disparado, parecia que ia tirar o pai da forca.
Sr. Avelino Correia?, alguém gritou do consultório.
O velhote pega num envelope grande e salta lá para dentro já com outro ânimo. (...)

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

terça-feira, fevereiro 11, 2014

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

segunda-feira, janeiro 27, 2014

Stiv Stiv Stiv

I'm so sick of T.V.
You know, I'm getting bored of the tube
I'm so sick of romance
And I'm gettin' real sick of you



Stiv Bators tinha definitivamente o factor X.

sábado, janeiro 25, 2014

DEZ

Empurra, mais rápido, mais rápido!
A noiva não queria que a festa acabasse, queria continuar a divertir-se, roubou então a cadeira de rodas dobrável da Transit, sentou-se nela e agora estava no meio da rua a ser empurrada por uma das amigas que era talvez a mais feia e a menos bêbada, andavam as duas a correr, isto é, a noiva sentada na cadeira de rodas que pertencia à Dona Conceição e a feia a empurrá-la em frente ao Estado Novo às cinco horas da manha. As outras quatro berravam do passeio, batiam palmas, saltavam em cima dos tacões, uma delas caíu redonda no chão molhado e desatou a rir-se. Estavam podres de bêbadas, tinha sido a despedida de solteira de amiga e ainda queriam ir não sei para onde. A prima do auxiliar tinha-lhe pedido boleia há dois dias, sabia que iam se enfrascar nessa noite, sabia também que o primo era mau condutor, mas preferia um mau condutor sóbrio que andasse continuamente em segunda a um bom condutor bêbado que se esbarrasse na primeira curva.O auxiliar teve de pedir a Transit à doutora Maria dos Anjos ao que ela acedeu desde que ele enchesse de novo o depósito. 
Entendeu bem? Atestar o depósito, não se esqueça, repetiu e depois bateu palmas duas vezes para ele sair do gabinete. A relação que a doutora Maria dos Anjos tinha com o auxiliar, seu funcionário, fazia lembrar o tipo de relação que um columbófilo tem com os seus pombos-correio, o auxiliar estava amestrado com palmas, afinal ele foi trabalhar para o lar de idosos muito novo, devia obediência à chefe, ela apiedou-se dele quando ninguém o fizera, e a criatura, para retribuir, era o leva-e-traz de tudo o que se passava no lar, só faltava fazer vénias à senhora directora. Natércia, a outra auxiliar, mulher afogueada mas muito íntegra - apesar do beiço descaído - desprezava-o ainda mais por isso.

De volta às perigosas e imprevisíveis ruas de Matosos. Um dos porteiros, um armário que impunha respeito, pediu educamente às moças para se afastarem da entrada e uma delas, que era talvez a mais atraente, tinha cara de menina travessa, madeixas vermelhas bem feitas, olhinhos verdes pequeninos, sôfregos por uma ou duas bem dadas, começou a rebolar-se em cima de um daqueles pilares de acesso à entrada, puxou a saia para cima exibindo a coxa de pequena bailarina e começou a ronronar para ele. O porteiro olhou para ela com desejo, mas conteve-se. As outras estavam encostadas à parede e tinham a mão na barriga de tanto rir, riam-se até às lágrimas, não sabiam para onde haviam de olhar, se para a amiga que parecia ter uma tocha a arder no meio das pernas, se para a noiva na cadeira de rodas que era empurrada pela amiga de um lado para outro. Naquele momento, estavam a sair dois magalas e um deles pergunta à amiga provocadora:
É hoje, filha?
Ela tirou a máscara de repente, baixou a saia, não gostou do convite, o porteiro era um homem a sério, além de ser uma espécie de Apolo de Rio Tinto (cabelo rapado, careca luzidia, sem os longos cabelos do deus), era um velho conhecido de outros carnavais, enquanto que aquele pirralho ainda cheirava a leite, não ia admitir aquela falta de respeito e então puxou a carteira atrás mas falhou o alvo, estava bêbada demais para ser certeira, o rapaz desviou-se facilmente do golpe como um gato. O magala ficou muito sério a olhar para ela, não gostou nada daquilo, mas viu pelo canto do olho o porteiro a tirar-lhe as medidas e lá foi à vida dele com o amigo, deixando um rasto de insultos atrás de si dirigidos à amiga da prima e à sua respectiva mãe. O auxiliar continuava dentro da furgoneta com as mãos no volante, já tinha ligado a ignição, estava a acelerar em ponto-morto para a velha Transit não ir abaixo, uma fumarada de todo o tamanho pairava sob a rua molhada.
A noiva e a "aia" estavam agora mais ao fundo da rua, estavam paradas no semáforo vermelho para os carros, que meninas mais marotas, quem havia de dizer, o que o álcool faz a meninas bem comportadas, a blusa da noiva descaía e via-se quase um seio inteiro, se o noivo aparecesse ali naquele momento, não sei se haveria casório, a noiva era tão dócil, tão amorosa, tão atinada... A aia, isto é, a feia, ajeitou os óculos de massa cor-de-rosa e disse à noiva que era melhor voltar para trás. Um BMW branco em sentido contrário (também estava à espera que o sinal mudasse) começou a dar-lhes máximos.
O que é que aquele gajo quer? Anda lá, empurra, empurra, Sónia!
Mas está vermelho, é melhor...
Empurra-me caralho! Vou casar-me para a semana, anda lá!, a sua voz conseguia ser pastosa e determinada ao mesmo tempo e Sónia fazia todas as vontades às amigas, era uma paz de alma como se costuma dizer. A feia olhou para trás, a prima do auxiliar estava a fazer-lhe sinais para voltarem. Sónia, porém, cumpriu o desejo da noiva, empurrou a cadeira de rodas com a nubente, o sinal ainda vermelho, e a meio do cruzamento, aparece pela direita um Ibiza preto a alta velocidade, o condutor ainda tenta travar, mas o piso estava escorregadio, e Sónia, num acto de incomensurável bravura, num gesto de pura amizade e altruísmo, empurra a cadeira de rodas para a frente para salvar a sua amiga que se ia casar para a semana e esta dá uma gargalhada e exclama "sim, sim, assim sim", estava tão bêbada que nem deu conta da aproximação lateral do carro que embate contra a sua aia, não vê a sua amiga Sónia que lhe faz todas as vontades a ser projectada pelos ares, não vê os óculos de massa cor de rosa em câmara lenta a voarem, as lentes fundo de garrafa a aumentarem a lua cheia, uma lua pesada e luminosa, enfim, a noiva bêbada não ouve os gritos das amigas lá atrás. O auxiliar, esse, não saíu da Transit, nem sequer olhou pelo retrovisor (estava virado para o mar), lá deve ter adormecido embalado pelo motor ligado. Ou então achou que era mais uma das pantominices histéricas das moças e não fez caso, ou pior, o auxiliar era mesmo uma ameba, um seguidor de Pilatos e fez de conta que não era nada com ele. Quando conto este episódio triste e lamentável, lembro-me sempre - e só Deus sabe como me penitencio por isso - do título daquele livro de Vernon Sullivan, "Morte aos Feios".

quinta-feira, janeiro 23, 2014

segunda-feira, janeiro 20, 2014

segunda-feira, dezembro 30, 2013

quinta-feira, dezembro 26, 2013

"O Mestre e Margarida", Mikhaíl Bulgakov

segunda-feira, dezembro 23, 2013

sábado, dezembro 21, 2013

Natal

UM


Está bem filha, volta quando puderes, não te chateies comigo.

Ela levantou-se, curvou-se e beijou a mãe na testa fria. A velhota quis corresponder, ergueu a mão e agarrou a filha pelo braço. Vai lá à tua vida, não te atrases, disse-lhe. Os olhos infantis da velhota acompanhavam a filha que atravessava a sala de visitas e que parou para olhar para a pequena árvore de natal enfiada num canto da sala que abrigava a cena de natividade e meia dúzia de caixas embrulhadas sem nada lá dentro, estavam ali para encher, para fazer feitio. O menino Jesus parecia um rim, a sua cabecita era tão pequenina, tão miúdinha que o rosto não tinha feições. A José faltava um braço, mas Maria continua imaculada.
Saia lá da frente, ordenou um dos velhotes que tinha a barba por fazer de há dois dias e pêlos brancos a sairem-lhe do nariz e das orelhas. Ela ficou meio minuto ali parada, parecia hipnotizada pelas luzinhas multicolores a piscarem à vez.
O auxiliar estava de braços cruzados a apreciar a partida de dominó que estava longe de ser pacífica, o sr. Clemente e o sr. Neves batiam as peças com violência como que a quererem parti-las, eles  deviam ter um acordo tácito, talvez quem partisse primeiro uma das peças ganharia o jogo. O auxiliar, dizia eu, ergueu o queixo e enlaçou Madalena com o olhar que ficou plantada no meio da sala. Os olhos começaram a ficar húmidos e sentiu uma enorme vontade de voltar para trás e levar a sua mãe consigo.
Mas é surda ou quê? Saia da frente da televisão, ó criatura, repetiu o senhor Marques enquanto coçava o quadril ossudo. A apresentadora do natal nos hospitais parece que também estava na expectativa, mas mantinha sempre a postura profissional e começa a empatar com piadas sem piada nenhuma, são os chamados imprevistos de um programa em directo, os lábios reluzentes enchiam o ecrã todo, não havia maneira do próximo artista entrar em palco. Madalena desperta do turpor, apetece-lhe olhar para trás, para a mãe, será que era o último natal dela, mas não pode, provavelmente tem medo de se transformar numa estátua de sal se o fizer, veste o casaco de pele que trazia pelo braço, compõe as golas de pêlo, puxa-o bem para baixo, dá um jeito no cabelo pela nuca e sai da sala a bater com força os tacões no linóleo. Assim que ela sai, o auxiliar segue-a e a jovem fadista na televisão começa finalmente a cantar a sua mágoa, todos os jovens fadistas de agora têm uma mágoa muito profunda como se já tivessem passado por muita coisa, se calhar até passaram. Uma das velhotas estica o pescoço como uma tartaruga para se certificar que o auxiliar saíu e tira meia dúzia pinhões do bolso da casaco de malha, mete-os à boca e sorri enquanto mastiga, o maxilar parecia que ia sair do sítio, as pregas do rosto ao mastigar eram como uma pastilha elástica em alcatrão quente que tentamos tirar da sola do sapato. O sr. Marques, que ocupava a melhor poltrona da sala, revestida a gorgorão, levanta-se e volta-se para a janela, para o sr. Clemente e o sr. Neves que estavam ainda a tentar pregar as peças de dominó à mesa, eram autênticas metralhadoras, e então o senhor Marques assobia em dois tempos, faz um punho cheio de marcas de velhice e insinua aquele gesto basculante que a maior parte das pessoas associa ao coito.

O auxiliar tinha de acabar aquilo que o marido tinha começado ontem. Madalena já estava estendida à sua espera sobre a secretária, as cuequinhas e a saia jaziam no chão. Anda lá, tenho de ir buscar a minha filha ao aeroporto, vou apanhar trânsito, já estou atrasada. O auxiliar roda a chave da salinha muito devagar, tira a bata e desaperta o cinto. Trilha a língua com os dentes para invocar a lascívia e agarra-lhe com violência pelo cabelo pintado. Passados poucos segundos, ele já estava a revirar os olhos, ela já se esquecera por completo da mãe e das luzinhas de natal e com uma mão apertava o traseiro dele contra ela e com a outra contorcia os dedos e fechava-os, agarrando a beira da secretária e teve de morder a manga do casaco para abafar os gemidos. As canetas metidas na caneca com um dragão azul que estava à sua frente bailavam todas contentes, e a América do Sul e África do mapa-mundo debaixo dela estavam a ser esmagadas pelas suas rotundas mamas brancas, ao passo que há um minuto não passava apenas de uma ameaça a pairar sobre aqueles dois continentes. Posso vir-me dentro, perguntou. Não, não, fora, respondeu ela. Então ele esguichou com vontade para cima de uma das nádegas, acertando um pouco da Antártida, coitadinhos dos pinguins-imperadores, que grande nevão, e gemeram os dois, e ela teve um riso miudinho que quase passava a choro, mas conseguiu controlar-se a tempo. Quando acabaram, ela recompôs-se com indiferença, como se nada tivesse acontecido, pousou uma nota de cinquenta sobre a América do Norte. Não quero que lhe falta nada ouviste-me bem? Os olhos dele franziram-se. Só venho agora à visita no dia 27, não... espera, 28, quarta-feira, avisou. Ela abriu devagar a porta e espreitou, ninguém no corredor e saiu de fininho. Ele ficou a olhar para a nota enquanto acariciava distraído a sua melhor qualidade. Simulou então cortar o seu membro murcho às rodelas como se a mão direita fosse um cutelo e quase que exibiu o seu sorriso que com o tempo se tornou indecente, boçal. Depois lembrou-se de olhar para o calendário da Nossa Senhora de Fátima a rezar que estava pendurado na porta e ficou muito sério.
Dia 28 é quinta-feira, aquela gaja não sabe a quantas anda, pensou.
Levantou a bata do chão, limpou-se a ela e regressou à sala do lar onde os gritos histéricos da apresentadora competiam novamente com as rajadas causadas por peças de dominó a baterem na madeira.

domingo, dezembro 08, 2013

quarta-feira, dezembro 04, 2013

Ciclo de vida de uma história

"Wonderbook: The Illustrated Guide to Creating Imaginative Fiction", Jeff  VanderMeer

quinta-feira, novembro 28, 2013

Harry Callahan, Chicago (Trees in Snow)

terça-feira, novembro 12, 2013

O Emprego

(obrigado Miguel)

quinta-feira, novembro 07, 2013

Perdi-o




















Ali entre Caminha e V. R. Santo António. Dão-se alvísseras a quem o achar.

sexta-feira, novembro 01, 2013