sexta-feira, julho 12, 2013
terça-feira, julho 09, 2013
Thoreau & Esculápio
Levei calmamente a minha insónia para a varanda, o calor*
saía-me às golfadas do meu tronco empastado, queria devarandá-la (não existe
defenestrar?...) e vi o meu vizinho de baixo a dormir na sua varanda. O homem estava nu. Não
estava a contar com aquela exposição e fiquei a olhar para ele. Baixei
a cabeça pesada, parecia que estava a olhar para um acidente. O homem tinha um
tufo de pêlos brancos que brilhava ao luar e que lhe cobria todo o peito.
Passei a mão pelo meu peito seboso com meia dúzia de pêlos. O meu olhar, pesado e desastrado, caiu
mesmo em cima da testa do homem que abriu e arregalou os olhos como naqueles
filmes de terror. Recuei logo e estiquei-me sobre a carpete da sala em direcção
à ventoinha. As gaivotas que estavam em cima do telhado do prédio da frente
começaram a rir-se de mim. O meu vizinho é católico praticante.
“Eu acredito em Deus e tento ir todos os domingos à missa,
e agora diga-me uma coisa. Acha que ver filmes pornográficos é pecado? Diga-me
sinceramente, o senhor acha?”
“Eu acho que não.”
O elevador parou no andar dele e ele pôs-se no meio do
infravermelho que impede o elevador de fechar.
“É ou não é? Se não fosse Deus, não estavamos aqui. Matar e
roubar, isso é que pecado, agora ver filmes pornográficos...É como eu digo ou
não?”, pergunta novamente.
“Eu acho que sim, não tem mal nenhum”
“Continuação, meu amigo.” Despediu-se com um sorriso imposto
e lá foi para o seu apartamento.
É muito provável que o meu vizinho estivesse a dar-me uma
indirecta, não consigo ver o RedTube ou o YouPorn sem som, não faz muito
sentido, sexo tem de ter som e bem alto.
Ns manhã seguinte, enquanto estava parado no trânsito, pus-me
a contemplar a zona verde do meu ramal de entrada para a auto-estrada. Não sei
se é por andar a ler Thoreau, mas senti um desejo enorme de tirar a roupa,
saltar o rail e rolar na relva, acariciar o meu cone e as minhas bolas,
agarrar-me a uma tília e passar ali o dia ou até o resto da minha vida. As
zonas verdes das intersecções das auto-estradas são um pedaço de paraíso.
Não é o campo rude, selvagem, mas também não é betão, é um compromisso harmonioso entre os
dois. Não passaria fome, bebia o resto das coca-colas e comi o resto dos
bigmacs, com um pouco de sorte apanhava meios copos de sundaes. Vi uma casca de
banana em cima da relva aparada e senti inveja dessa casca de banana, que sorte
que ela tem. Desliguei o A/C e baixei o vidro e pus-me a olhar para a casca de
banana que estava a seduzir-me com as belas manchas negras sobre a pele amarela, era o meu fruto proibido. Sou um homem bom com muitas
tentações. Raramente vou até ao fim. Isto poderia ser o início de algo
glorioso, de rejuvenescedor, Thoreau conseguiu viver sozinho no meio da natureza, porque é que eu não haveria de
conseguir também? Senti o meu coração a bater depressa, havia Evazinhas
estagiárias a cuidarem de mim, as serpentes enroscadas, conheço-as bem, não
seriam problema. Fiquei ligeiramente deprimido, lembrei-me então que era
casado, a minha mulher tinha de vir também, eu amo a minha mulher. E o meu
piano? Ah teria o canto dos pardais e as andorinhas na Primavera, a Natureza é
sábia. E as férias na Quinta do Lago? Não quero saber, não precisava de
arranjar desculpas para não jogar golfe. Este green, aqui mesmo à entrada da A?? parece-me perfeito. Tocar-me-ia entre as 8 e 9h e depois ao fim da tarde, ali por volta das 6h para os meus
respeitados colegas e não só, ali, todo escarrapachado, ria-me com a máscara da
Comédia, fazia-lhes inveja por ser finalmente livre. Hmm, restos de patas de
caranguejo, obrigado Carlos, um Adagio natural dentro do prazo, que gentileza a
sua, São. Os anos não passam por si, colega. Gosto de pedir opiniões às colegas mais velhas; estão fartas de saber que eu não quero a sua opinião para
nada, gosto que elas se metam comigo, sou carne nova, gostam de roçar as mamas em mim, sem querer.
- Anda lá com essa merda, pá, queres dormir, dorme em casa!
- Seguiu-se um cortejo de buzinadelas, pareceu-me ser o chefe do bloco no seu
BMW série 7 e o raio que o parta a passar por mim na outra faixa.
Carreguei um pouco no acelerador e avancei três, quatro metros na
fila.
*Correcção de "Karol" - estaria a pensar no papa
J.P. II e nas suas aparições na Praça de São Pedro e que vai ser promovido a
santo?
quarta-feira, julho 03, 2013
sexta-feira, junho 28, 2013
quinta-feira, junho 20, 2013
sábado, junho 15, 2013
quarta-feira, junho 12, 2013
O escaravelho
"É pena que não saibamos controlar os sonhos", pensou o escaravelho enquanto empurrava a bola de esterco pelo carreiro. A sua carapaça reluzia e era uma espécie de farol negro para todos os insectos em redor.
"Esta história tem que avançar, apesar de não passar de uma bola de esterco" , e continuou a empurrar, a empurrar.
Passou por cima de um agente da bolsa que estava a preparar o seu suicídio, estava prostrado no chão, de barriga para baixo e de braços abertos, queria sentir o pulsar da terra antes de se matar, mas não conseguia sentir absolutamente nada.
Parou ao lado de uma bola de golfe que era infinitamente mais bonita do que a sua bola de esterco, mas não caiu na tentação de trocar pela sua bola de esterco.
Viu um louva-a-deus a faiscá-lo com os seus enormes olhos verdes em cima de um ramo de cauchu. O escaravelho baixou logo o olhar como se estivesse a venerá-lo, mas não largou a sua bola de esterco. Depois ouviu o louva-a-deus a verrinar e olhou de esguelha sobre o ombro, o outro estava esbracejar como um louco.
Deteve-se quando viu duas velhas que se arrastavam na sua direcção. Teve de se afastar para que as velhas não o pisassem.
"O porta-moedas é meu, ouviste?", disse uma das velhas. Um cheiro pestilento descia-lhe pelas pernas abaixo, o escaravelho ficou um pouco excitado, mas a velha tinha uma verruga no nariz e cravos nos dedos e o escaravelho teve medo que ela fosse uma bruxa.
"Não é nada, o rapazola deu-mo a mim", respondeu a outra que trazia folhas de louro no avental surrado.
O tonto do rapaz tinha encontrado um porta-moedas e pensou que pertencia a uma das velhas que não se fizeram rogadas e nem sequer agradeceram ao rapaz. Não tenham pena do tonto do rapaz, ele mija por cima das formigas que são amigas do escaravelho.
Depois viu o mestre-escola que estava à janela a besuntar com óleo o pouco cabelo que tinha. Se não o fizesse, o cabelo encrespava-se e os alunos riam-se dele. O escaravelho desejou ter um tufo de pelos daqueles na sua bola. O mestre-escola ajeitou os óculos em cima do nariz de pepino e sorriu para ele, mas o escaravelho não reparou - meteu-se pelos caniços que abriram alas para que ele pudesse passar com o seu lingote arredondado.
"Esta história tem que avançar, apesar de não passar de uma bola de esterco" , e continuou a empurrar, a empurrar.
Passou por cima de um agente da bolsa que estava a preparar o seu suicídio, estava prostrado no chão, de barriga para baixo e de braços abertos, queria sentir o pulsar da terra antes de se matar, mas não conseguia sentir absolutamente nada.
Parou ao lado de uma bola de golfe que era infinitamente mais bonita do que a sua bola de esterco, mas não caiu na tentação de trocar pela sua bola de esterco.
Viu um louva-a-deus a faiscá-lo com os seus enormes olhos verdes em cima de um ramo de cauchu. O escaravelho baixou logo o olhar como se estivesse a venerá-lo, mas não largou a sua bola de esterco. Depois ouviu o louva-a-deus a verrinar e olhou de esguelha sobre o ombro, o outro estava esbracejar como um louco.
Deteve-se quando viu duas velhas que se arrastavam na sua direcção. Teve de se afastar para que as velhas não o pisassem.
"O porta-moedas é meu, ouviste?", disse uma das velhas. Um cheiro pestilento descia-lhe pelas pernas abaixo, o escaravelho ficou um pouco excitado, mas a velha tinha uma verruga no nariz e cravos nos dedos e o escaravelho teve medo que ela fosse uma bruxa.
"Não é nada, o rapazola deu-mo a mim", respondeu a outra que trazia folhas de louro no avental surrado.
O tonto do rapaz tinha encontrado um porta-moedas e pensou que pertencia a uma das velhas que não se fizeram rogadas e nem sequer agradeceram ao rapaz. Não tenham pena do tonto do rapaz, ele mija por cima das formigas que são amigas do escaravelho.
Depois viu o mestre-escola que estava à janela a besuntar com óleo o pouco cabelo que tinha. Se não o fizesse, o cabelo encrespava-se e os alunos riam-se dele. O escaravelho desejou ter um tufo de pelos daqueles na sua bola. O mestre-escola ajeitou os óculos em cima do nariz de pepino e sorriu para ele, mas o escaravelho não reparou - meteu-se pelos caniços que abriram alas para que ele pudesse passar com o seu lingote arredondado.
terça-feira, junho 04, 2013
quarta-feira, maio 29, 2013
segunda-feira, maio 27, 2013
quarta-feira, maio 22, 2013
quarta-feira, maio 15, 2013
Eu queria escrever algo realmente original, algo shandy, com alfinetadas certeiras, mas atirei-me ao chão quando li esta notícia, e agora estou engessado nos braços, estou a escrever este post com a língua e até estou a gostar. A blogosfera de pendor* político vai ferver hoje.
* Ai que drilhei a língua nesda palavra.
sexta-feira, maio 10, 2013
Texas Hold'em
Parece-me mais que evidente que no Conselho de Ministros se joga Texas Hold'em, no último jogo o Portas fez raise - tenho que usar o Inglês no poker, lamento -, apostou as reformas e o dealer (Passos) levantou no river um rei de espadas - a hand do Gaspar no showdown revelou-se um full house (K♥ K♣ K♠ 10♥ 10♣) muito, muito lento, mas muito agressivo ao mesmo tempo.
- Oohhh - ecoou pela sala.
Santos Silva levou as mãos à cabeça. O dealer manteve a sua cara impassível.
De nada serve ao Portas os anos que passou a jogar suecada com os velhotes. As olheiras de Gaspar falam por si.
sábado, abril 27, 2013
Captain Beefheart
Era a minha vez de fazer a limpeza geral nessa semana. Tinha acabado de pôr aquele verniz incolor e reluzente que evita as unhas de ficarem tristes e quebradiças, não me convinha nada fazer coisas braçais. Paciência. Quando estava a aspirar o buraco do sub-woofer que estava cheio de pó, o Captain Beefheart foi sugado e ficou todo o dia metido no saco do aspirador. Deixei-o lá ficar, não por não gostar dele - caso contrário não estaria a ouvir as suas ordens esganiçadas -, mas porque parti uma unha ao fazê-lo. O aspirador teve uma gastroenterite e agora não se mexe. O gato anda todo contente, mas ela diz que "fiz de propósito" e se calhar até tem razão.
sexta-feira, abril 26, 2013
quinta-feira, abril 25, 2013
Ideia para um cartaz publicitário para uma florista de Tancos
Uma criança loira, descalça, a pôr um cravo numa G3 segurada por mãos de militares.
segunda-feira, abril 22, 2013
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