Uma criança loira, descalça, a pôr um cravo numa G3 segurada por mãos de militares.
quinta-feira, abril 25, 2013
segunda-feira, abril 22, 2013
sexta-feira, abril 19, 2013
Fechou os olhos. Subitamente, sentiu uma sombra a estender-se sobre si. Um calafrio percorreu-lhe a espinha; não sabia se deveria abrir os olhos para confrontar fosse o que fosse que estava diante de si ou se deveria manter-se quieto, de olhos fechados, como aqueles animais que simulam a morte perante o predador. Quando ergueu a cabeça e abriu os olhos, um pequeno vulto estava parado às suas duas horas. Levantou-se devagar e encarou aquela figura cuja cabeça era retroiluminada pelo pôr-do-sol. Parecia que estava ali há muito tempo: estava absorto a tirar pêlos do peito com uma pinça a qual guardou muito depressa no bolso das calças quando viu Orestes de pé.
Era mais para o baixo do que para o alto, era ruço no cabelo e nas sobrancelhas; a poeira na cara fazia sobressair as rugas de expressão e a cor dos olhos rasgados que mais pareciam duas fendas azuis.
Era mais para o baixo do que para o alto, era ruço no cabelo e nas sobrancelhas; a poeira na cara fazia sobressair as rugas de expressão e a cor dos olhos rasgados que mais pareciam duas fendas azuis.
quarta-feira, abril 10, 2013
sexta-feira, abril 05, 2013
quinta-feira, março 28, 2013
Henrique I, "Beauclerc"
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| Henrique I de Inglaterra |
Henrique I, cognominado "beauclerc" (literato, estudioso, amante de literatura) morreu na Normandia em Dezembro de 1135 de uma intoxicação alimentar provocada pela ingestão de lampreias estragadas e teve mais de 20 filhos legítimos e ilegítimos. O seu longo reinado durou trinta e cinco anos.
sexta-feira, março 22, 2013
A noite sempre soube ser paciente naquelas longitudes; deixa cair finalmente a sua cortina de estrelas sobre a terra e sobre o mar que continua a reclamar insistentemente aquela costa para fazer mais ilhas.
Os adoradores do sol, completamente revigorados pelo milagroso regresso do seu chefe festejam pela noite dentro. Orestes arrepia caminho em direcção à cidade, mas resolve, à ultima hora, ficar-se pelos arredores dos arredores, temendo o surto de malária. Entra na primeira pensão que lhe apareceu na estrada, e a dona, uma velha de boca franzida e curvada pela bílis, encaminha-o a rezingar ao longo de um corredor comprido e carunchoso que é acordado pela luz da vela da velha. O "melhor quarto aquelas horas" era um favo bafiento e mal mobilado; a cela de um monge tinha mais recheio do que aquele covil. Orestes estava tão cansado que mal tirou os sapatos, saltou logo para cima da cama que resmungou com um chio. Põs o dinheiro debaixo de travesseiro e começou a pensar na noite anterior; quis voltar novamente à Casa, desejou estar outra vez com a bela ninfeta-pele-de-seda que não parou de morder o lábio inferior durante o tempo em que esteve em cima dele e que de tanto o morder, fez ferida e duas gotas de sangue escorrerem-lhe pelo queixinho caindo no peito ossudo de Orestes.
Os adoradores do sol, completamente revigorados pelo milagroso regresso do seu chefe festejam pela noite dentro. Orestes arrepia caminho em direcção à cidade, mas resolve, à ultima hora, ficar-se pelos arredores dos arredores, temendo o surto de malária. Entra na primeira pensão que lhe apareceu na estrada, e a dona, uma velha de boca franzida e curvada pela bílis, encaminha-o a rezingar ao longo de um corredor comprido e carunchoso que é acordado pela luz da vela da velha. O "melhor quarto aquelas horas" era um favo bafiento e mal mobilado; a cela de um monge tinha mais recheio do que aquele covil. Orestes estava tão cansado que mal tirou os sapatos, saltou logo para cima da cama que resmungou com um chio. Põs o dinheiro debaixo de travesseiro e começou a pensar na noite anterior; quis voltar novamente à Casa, desejou estar outra vez com a bela ninfeta-pele-de-seda que não parou de morder o lábio inferior durante o tempo em que esteve em cima dele e que de tanto o morder, fez ferida e duas gotas de sangue escorrerem-lhe pelo queixinho caindo no peito ossudo de Orestes.
terça-feira, março 19, 2013
quarta-feira, março 13, 2013
sábado, março 09, 2013
quarta-feira, março 06, 2013
quinta-feira, fevereiro 28, 2013
A Verdade Profana
O Cisma do Extremo Ocidente
As preces do poderoso lobby dos emigrantes do Luxemburgo e da Suíça foram ouvidas. O Colégio dos Cardeais elegera finalmente um papa português.
O povo rejubilou de alegria e o governo decretou três dias de festejos. Por quem os sinos dobram? Pelo novo papa que é português. Até a sineta da mais pequena capela reboou até estalar os últimos tímpanos do último aldeão. Até a Sininho de Pedro Pah tilintou de felicidade, embora ninguém conseguisse escutá-la, nem mesmo Pedro Pah, pois já contava com uma idade avançada. Mas logo a alegria se transformou em tristeza, de imediato os sorrisos se converteram em lágrimas como se os olhos das pessoas tivessem sido espremidos em espremedores de citrinos. O recém-eleito papa, Gregório XXX, tinha um irmão gémeo que também era ministro de Deus: furioso com o orgulho e a ingratidão do seu irmão de Roma, auto-proclamou-se anti-papa do alto da torre da sua igreja matriz. Fragmentino I obteve o apoio importante dos leigos em part-time e de catequistas a recibos verdes, prometendo-lhes contratos a termo e descontos para a caixa. O mundo católico dividiu-se, a unidade cristã foi quebrada. Passaram cinquenta anos sem que nada de relevante tivesse acontecido. Por fim, os dois irmãos papas chegaram a acordo naquele que ficou conhecido como o Concílio dos Papas de Sarrabulho. (...)
O povo rejubilou de alegria e o governo decretou três dias de festejos. Por quem os sinos dobram? Pelo novo papa que é português. Até a sineta da mais pequena capela reboou até estalar os últimos tímpanos do último aldeão. Até a Sininho de Pedro Pah tilintou de felicidade, embora ninguém conseguisse escutá-la, nem mesmo Pedro Pah, pois já contava com uma idade avançada. Mas logo a alegria se transformou em tristeza, de imediato os sorrisos se converteram em lágrimas como se os olhos das pessoas tivessem sido espremidos em espremedores de citrinos. O recém-eleito papa, Gregório XXX, tinha um irmão gémeo que também era ministro de Deus: furioso com o orgulho e a ingratidão do seu irmão de Roma, auto-proclamou-se anti-papa do alto da torre da sua igreja matriz. Fragmentino I obteve o apoio importante dos leigos em part-time e de catequistas a recibos verdes, prometendo-lhes contratos a termo e descontos para a caixa. O mundo católico dividiu-se, a unidade cristã foi quebrada. Passaram cinquenta anos sem que nada de relevante tivesse acontecido. Por fim, os dois irmãos papas chegaram a acordo naquele que ficou conhecido como o Concílio dos Papas de Sarrabulho. (...)
"A Verdade Profana",
Guisa Cruel Milho
sexta-feira, fevereiro 22, 2013
De arte venandi cum avibus
Manuscrito do séc. XIII sobre aves é um dos primeiros 256, de 80 mil, que a Biblioteca do Vaticano disponibiliza na internet.
quinta-feira, fevereiro 14, 2013
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| Henri Rousseau |
Fez-se à estrada no dia seguinte cheio de boa-disposição e entusiasmo. Achou que tinha tempo para fazer o caminho a Salónica a pé, poupando assim o dinheiro que o major lhe oferecera. Os olivais cediam outra vez a vez aos campos de trigo que estranhamente se encheram de camponeses que trabalhavam desde o primeiro raio de sol até ao pôr-do-sol, vergados pela inclemência do astro-rei. Mas a verdade é que nem todos trabalhavam a terra desde o primeiro raio de sol até ao pôr-do-sol, mas todos nós gostamos de acreditar que era assim, que os camponeses tinham todos um ar muito jovial e saúdavel, que cantavam cantilenas alegres e chistosas que davam ânimo ao trabalho, que não questionavam a justiça do mundo, lamuriando-a apenas, que entregavam a sua vida e a dos seus filhos a Deus, que só comiam códeas de pão e fruta, que bebiam do caixão à cova, que guardavam reservas a tudo que fosse estranho ao seu quotidiano, que consideram um sacrilégio quebrar tradições. Realmente, se pintaram esta tela bucólica sobre o qual que a vossa mão foi habilidosamente conduzida pela mão de Watteau ou de Pater, tenha a ousadia de substituir a aristocracia ociosa por camponeses ou pastores sorridentes debaixo de um grande arvoredo, naquela hora em que o sol é impiedoso, acariciando animais, às vezes na companhia de divindades pagãs ou mitológicas como se fosse a coisa mais natural, entre ruínas de colunas jónicas perdidas algures na Arcádia*, sobre um fundo de prados melancólicos esfumados, então, urra's a si, leitor, ainda bem que o fez, porque poupa-me o trabalho de descrever com mais detalhe este ambiente rococó pastoral. Os Rousseau's mais famosos, se fossem vivos, teriam orgulho de si. Faça-se justiça, J.J. não era francês, como a maioria pensa, mas suíço, o que pode fazer toda a diferença. O outro, o Henri Julien Félix, ou o "aduaneiro" como foi conhecido em vida, gostava mais de elementos subtropicais e exóticos (cactos, paulownias, acácias, lótus, coqueiros, leões, tigres, antílopes, búfalos, Loti's, macacos, artilheiros, Appolinaire's, encantadoras de serpentes, etc.) e os seus quadros não ofereciam qualquer noção de perspectiva: era cordial e bidimensionalmente naïf.
segunda-feira, fevereiro 04, 2013
quinta-feira, janeiro 31, 2013
quarta-feira, janeiro 23, 2013
As chaves
- Deus, perdi as chaves.
Deus estava na cozinha a tirar as tripas dos camarões.
- Que chaves Pedro?
- As chaves, meu Deus.
- Ah, as chaves - disse Deus distraído - meu Eu, as chaves! - exclamou, caindo em Si.
- ...
- Vai ali ao armário do contador de luz. Tem lá umas chaves que dizem "Paradiso". Pedi a um cubano para as fazer.
- Não sei mesmo onde pus as minhas. Obrigado, meu Deus.
São Pedro sai.
Deus pára por uns instantes e limpa as mãos translúcidas. Põe a mãos na cintura e suspira, olhando para o tecto húmido da cozinha.
"Felizmente não há muita gente à espera", pensa.
E continua a tirar as tripas aos camarões.
Deus estava na cozinha a tirar as tripas dos camarões.
- Que chaves Pedro?
- As chaves, meu Deus.
- Ah, as chaves - disse Deus distraído - meu Eu, as chaves! - exclamou, caindo em Si.
- ...
- Vai ali ao armário do contador de luz. Tem lá umas chaves que dizem "Paradiso". Pedi a um cubano para as fazer.
- Não sei mesmo onde pus as minhas. Obrigado, meu Deus.
São Pedro sai.
Deus pára por uns instantes e limpa as mãos translúcidas. Põe a mãos na cintura e suspira, olhando para o tecto húmido da cozinha.
"Felizmente não há muita gente à espera", pensa.
E continua a tirar as tripas aos camarões.
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