quinta-feira, março 28, 2013

Henrique I, "Beauclerc"

Henrique I de Inglaterra
























Henrique I, cognominado "beauclerc" (literato, estudioso, amante de literatura) morreu na Normandia em Dezembro de 1135 de uma intoxicação alimentar provocada pela ingestão de lampreias estragadas e teve mais de 20 filhos legítimos e ilegítimos. O seu longo reinado durou trinta e cinco anos.

sexta-feira, março 22, 2013

A noite sempre soube ser paciente naquelas longitudes; deixa cair finalmente a sua cortina de estrelas sobre a terra e sobre o mar que continua a reclamar insistentemente aquela costa para fazer mais ilhas.
Os adoradores do sol, completamente revigorados pelo milagroso regresso do seu chefe festejam pela noite dentro. Orestes arrepia caminho em direcção à cidade, mas resolve, à ultima hora, ficar-se pelos arredores dos arredores, temendo o surto de malária. Entra na primeira pensão que lhe apareceu na estrada, e a dona, uma velha de boca franzida e curvada pela bílis, encaminha-o a rezingar ao longo de um corredor comprido e carunchoso que é acordado pela luz da vela da velha. O "melhor quarto aquelas horas" era um favo bafiento e mal mobilado; a cela de um monge tinha mais recheio do que aquele covil. Orestes estava tão cansado que mal tirou os sapatos, saltou logo para cima da cama que resmungou com um chio. Põs o dinheiro debaixo de travesseiro e começou a pensar na noite anterior; quis voltar novamente à Casa, desejou estar outra vez com a bela ninfeta-pele-de-seda que não parou de morder o lábio inferior durante o tempo em que esteve em cima dele e que de tanto o morder, fez ferida e duas gotas de sangue escorrerem-lhe pelo queixinho caindo no peito ossudo de Orestes.

terça-feira, março 19, 2013

quarta-feira, março 13, 2013























sábado, março 09, 2013

Expiração

para "Roteiros VI" do nosso Presidente-Sol.

quarta-feira, março 06, 2013

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

A Verdade Profana


O Cisma do Extremo Ocidente

As preces do poderoso lobby dos emigrantes do Luxemburgo e da Suíça foram ouvidas. O Colégio dos Cardeais elegera finalmente um papa português.
O povo rejubilou de alegria e o governo decretou três dias de festejos. Por quem os sinos dobram? Pelo novo papa que é português. Até a sineta da mais pequena capela reboou até estalar os últimos tímpanos do último aldeão. Até a Sininho de Pedro Pah tilintou de felicidade, embora ninguém conseguisse escutá-la, nem mesmo Pedro Pah, pois já contava com uma idade avançada. Mas logo a alegria se transformou em tristeza, de imediato os sorrisos se converteram em lágrimas como se os olhos das pessoas tivessem sido espremidos em espremedores de citrinos. O recém-eleito papa, Gregório XXX, tinha um irmão gémeo que também era ministro de Deus: furioso com o orgulho e a ingratidão do seu irmão de Roma, auto-proclamou-se anti-papa do alto da torre da sua igreja matriz. Fragmentino I obteve o apoio importante dos leigos em part-time e de catequistas a recibos verdes, prometendo-lhes contratos a termo e descontos para a caixa. O mundo católico dividiu-se, a unidade cristã foi quebrada. Passaram cinquenta anos sem que nada de relevante tivesse acontecido. Por fim, os dois irmãos papas chegaram a acordo naquele que ficou conhecido como o Concílio dos Papas de Sarrabulho. (...)

"A Verdade Profana",
Guisa Cruel Milho

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

De arte venandi cum avibus

























Manuscrito do séc. XIII sobre aves é um dos primeiros 256, de 80 mil, que a Biblioteca do Vaticano disponibiliza na internet.

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Alexander Vvedenskij




















I regret that I’m not a beast

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Henri Rousseau
















Fez-se à estrada no dia seguinte cheio de boa-disposição e entusiasmo. Achou que tinha tempo para fazer o caminho a Salónica a pé, poupando assim o dinheiro que o major lhe oferecera. Os olivais cediam outra vez a vez aos campos de trigo que estranhamente se encheram de camponeses que trabalhavam desde o primeiro raio de sol até ao pôr-do-sol, vergados pela inclemência do astro-rei. Mas a verdade é que nem todos trabalhavam a terra desde o primeiro raio de sol até ao pôr-do-sol, mas todos nós gostamos de acreditar que era assim, que os camponeses tinham todos um ar muito jovial e saúdavel, que cantavam cantilenas alegres e chistosas que davam ânimo ao trabalho, que não questionavam a justiça do mundo, lamuriando-a apenas, que entregavam a sua vida e a dos seus filhos a Deus, que só comiam códeas de pão e fruta, que bebiam do caixão à cova, que guardavam reservas a tudo que fosse estranho ao seu quotidiano, que consideram um sacrilégio quebrar tradições. Realmente, se pintaram esta tela bucólica sobre o qual que a vossa mão foi habilidosamente conduzida pela mão de Watteau ou de Pater, tenha a ousadia de substituir a aristocracia ociosa por camponeses ou pastores sorridentes debaixo de um grande arvoredo, naquela hora em que o sol é impiedoso, acariciando animais, às vezes na companhia de divindades pagãs ou mitológicas como se fosse a coisa mais natural, entre ruínas de colunas jónicas perdidas algures na Arcádia*, sobre um fundo de prados melancólicos esfumados, então, urra's a si, leitor, ainda bem que o fez, porque poupa-me o trabalho de descrever com mais detalhe este ambiente rococó pastoral. Os Rousseau's mais famosos, se fossem vivos, teriam orgulho de si. Faça-se justiça, J.J. não era francês, como a maioria pensa, mas suíço, o que pode fazer toda a diferença. O outro, o Henri Julien Félix, ou o "aduaneiro" como foi conhecido em vida, gostava mais de elementos subtropicais e exóticos (cactos, paulownias, acácias, lótus, coqueiros, leões, tigres, antílopes, búfalos, Loti's, macacos, artilheiros, Appolinaire's, encantadoras de serpentes, etc.) e os seus quadros não ofereciam qualquer noção de perspectiva: era cordial e bidimensionalmente naïf.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Invasão de Itália pelos Aliados, 1943

quinta-feira, janeiro 31, 2013


quarta-feira, janeiro 23, 2013

As chaves

- Deus, perdi as chaves.
Deus estava na cozinha a tirar as tripas dos camarões.
- Que chaves Pedro?
- As chaves, meu Deus.
- Ah, as chaves - disse Deus distraído - meu Eu, as chaves! - exclamou, caindo em Si.
- ...
- Vai ali ao armário do contador de luz. Tem lá umas chaves que dizem "Paradiso". Pedi a um cubano para as fazer.
- Não sei mesmo onde pus as minhas. Obrigado, meu Deus.
São Pedro sai.
Deus pára por uns instantes e limpa as mãos translúcidas. Põe a mãos na cintura e suspira, olhando para o tecto húmido da cozinha.
"Felizmente não há muita gente à espera", pensa.
E continua a tirar as tripas aos camarões.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

terça-feira, janeiro 15, 2013

Ah e convém não esquecer que









O hibisco não é um animal
O lingote não é um animal
O mascarpone não é um animal
O elymus repens não é um animal
A gangrena não é um animal
O centella asiática não é um animal
O chocalho não é um animal
O cepo não é um animal
O cepilho não é um animal
O oxímaro não é um animal
O saco não é um animal
O ossículo não é um animal
O montículo não é um animal
A agora não é um animal
O xadrez não é um animal
O násio não é um animal
O oleado não é um animal
A amanita phalloides não é um animal
O centiare não é um animal
O sabir não é um animal
O acanto não é um animal
A pelúcia não é um animal
A cambota não é um animal
O garimpeiro não é um animal
O estojo não é um animal
A sidra não é um animal
etc.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Pequeno entremez

Acordei no chão novamente. Eu precisava de algo para comer.
Então desci à rua e fui à Churrasqueira do Silva.
"O que vai ser?" perguntou o Silva, mostrando um sorriso irónico.
"O costume", disse.
O Silva coçou a cabeça e perguntou-me:
"O que é o costume?"
O costume era meio frango com piri-piri à parte com batatas fritas e uma Coca-Cola pequena.
O Silva sabia perfeitamente o que era "o costume".
Eu ia lá todos os dias, durante quatro anos.
Então comecei a perceber: o homem atrás do balcão não era o Silva, mas sim O IM-POS-TOR.

A história repete-se mais ou menos

Outubro de 1837:
- Bom, o que interessa é que daqui a dez dias sai mais um número dos Cadernos de Pickwick, graças a Deus - suspirou certo padre desconsolado, depois de prestar conforto espiritual a um enfermo.

Janeiro de 2013:
- Bom, o que interessa é que daqui a dois dias o Pedro Amaral e o Rui M. Amaral vão ler histórias de três linhas do Félix Fénéon no Gato Vadio, graças a Deus - suspira o bispo do Porto, depois de ter terminado os Cadernos Póstumos do Clube Pickwick e de ter prestado conforto espiritual a um boavisteiro.

domingo, janeiro 06, 2013

Félix Fénéon no Gato Vadio, 12/01 às 17h


Félix Fénéon, 1894














O ex-negociante Fred. Desechel (rue d'Alésia, Paris)
matou-se no bosque de Clamart. 
Motivo: doía-lhe o estômago.

Apostara beber de enfiada quinze absintos,

comendo um quilo de vaca. Ao nono, 
Téophile Papin, de Ivry, caiu redondo.

Louis Lamarre não tinha nem emprego, 

nem casa, mas alguns tostões. Comprou, num merceeiro
de Saint-Denis, um litro de petróleo, que bebeu.



No próximo sábado, o Rui Manuel Amaral e eu vamos ler estas e outras "Notícias de três linhas" de Félix Fénéon (1861/1944) no Gato Vadio, Porto. Tradução a cargo de Manuel Resende.