Determinado a dar aos filhos uma educação militarista, o pai do major, quando regressou da guerra, resolveu iniciar as crianças nos prazeres da caça que, como é certo e sabido, fortalece o carácter dos mais novos. Acima de tudo, era necessário enxertar valores no espírito dos rapazes e a caça impunha-se pelo seu furor, pela eterna luta pela sobrevivência que lima a intrepidez do homem. O jovem George achou-se cedo nos campos e nos prados, de caçadeira na mão, no meio de pesadas neblinas. Nas Midlands abundavam as mais diversas aves: pardais, faisões, pombos-bravos. perdizes, galinhas-parteiras, galos-lira. George achava as aves um pouco estúpidas e, por isso, gostava mais de caçar pequenos mamíferos. Para grande satisfação do pai, revelou ter aquilo que caçadores chamam - com muito pouca imaginação - de "instinto de caçador".
terça-feira, dezembro 18, 2012
segunda-feira, dezembro 10, 2012
segunda-feira, dezembro 03, 2012
Orestes assustou-se com a aparição e não conseguiu deixar de corar perante o encanto vicioso da mulher. Já tinha saboreado a pele embriagante das mulheres, mas nunca tinha estado na presença de uma profissional do sexo. As sarças-ardentes da ilha natal durante o Verão eram um flagelo e não davam descanso aos rapazolas que tinham de fazer trinta por uma linha para compensar a lentidão dos mais velhos.
quarta-feira, novembro 28, 2012
terça-feira, novembro 20, 2012
A prisão de Nicolas Fouquet
- Diz-me fouquet, Fouquet! - pergunta o rei.
- Perdoai-me, sua Majestarde, mas nada direi! - replica Fouquet numa tabela de antologia.
- D'Artagnan, frendei este homem! - ordenha o rei.
D'Artagnan larga o jogo de canastra - ou será blackjack? - e imediatamente prende Fouquet.
- D'Armagnac: és um sabujo, larga-me - brada Fouquet.
- Calai-vos Fouquet, a vossa imfunidade jaz aqui! - alaúda o rei.
D'Artagnan tira uma máscara de ferro que tinha aconchegada no traseiro e coloca-a na cara de Fouquet.
- Serás comutado para Fignerol.- informa o Rei.
- Aramis, Marie, acudam-me! - suplica Fouquet.
Aramis e a marquesa* choram copiosamente e não podem valer a Fouquet. O sal das lágrimas de Aramis limpa o seu herpes labial.
- "Deus, decompus corpus nus em húmus, ó céus de Emaús, ó cangurus dos Pirinéus, predispus e pressupus maniqueus nos liceus, o ônus nos Museus dos Cajus, transpus tatus para urubus, supus réus plebeus, interpus chuchus em Manaus, repus perus por bacalhaus, impus cus europeus que fizeram jus, expus Jesus a judeus com paus." Retracta-te e salva-te, Fouquet!- vocifera o Rei.
- لله أكبر, sou inocente, meu rei - ajoelha-se Fouquet.
E assim é preso Nicolas Fouquet, o nobre que ousou ombrear no fausto com Luis XIV.
* Maria de Rabutin-Chantal, marquesa de Sévigné.
- Perdoai-me, sua Majestarde, mas nada direi! - replica Fouquet numa tabela de antologia.
- D'Artagnan, frendei este homem! - ordenha o rei.
D'Artagnan larga o jogo de canastra - ou será blackjack? - e imediatamente prende Fouquet.
- D'Armagnac: és um sabujo, larga-me - brada Fouquet.
- Calai-vos Fouquet, a vossa imfunidade jaz aqui! - alaúda o rei.
D'Artagnan tira uma máscara de ferro que tinha aconchegada no traseiro e coloca-a na cara de Fouquet.
- Serás comutado para Fignerol.- informa o Rei.
- Aramis, Marie, acudam-me! - suplica Fouquet.
Aramis e a marquesa* choram copiosamente e não podem valer a Fouquet. O sal das lágrimas de Aramis limpa o seu herpes labial.
- "Deus, decompus corpus nus em húmus, ó céus de Emaús, ó cangurus dos Pirinéus, predispus e pressupus maniqueus nos liceus, o ônus nos Museus dos Cajus, transpus tatus para urubus, supus réus plebeus, interpus chuchus em Manaus, repus perus por bacalhaus, impus cus europeus que fizeram jus, expus Jesus a judeus com paus." Retracta-te e salva-te, Fouquet!- vocifera o Rei.
- لله أكبر, sou inocente, meu rei - ajoelha-se Fouquet.
E assim é preso Nicolas Fouquet, o nobre que ousou ombrear no fausto com Luis XIV.
* Maria de Rabutin-Chantal, marquesa de Sévigné.
quarta-feira, novembro 07, 2012
terça-feira, outubro 30, 2012
sábado, outubro 20, 2012
Extrema-unção
Uma breve, amável mágoa à
flor dos olhos, um distante desapontamento,
morrias como se pedisses desculpa
por nos fazeres perder tempo.
Tinhas pressa mas não o mostravas,
receavas que não estivéssemos preparados,
e, suspenso sobre nós, esperavas
que disséssemos tudo, que fizéssemos o apropriado.
Morrer não é motivo de orgulho,
mas estavas cansado de mais para te justificares.
Ainda por cima no mês de Julho,
com as férias marcadas, ausentes os familiares.
Tínhamos levado as crianças de casa,
feito os telefonemas, escolhido os dizeres.
O quarto fora arrumado, a cama mudada
com roupa lavada. Só faltava morreres.
© 2001, Manuel António Pina
Atropelamento e fuga
Asa, Porto, 2001
flor dos olhos, um distante desapontamento,
morrias como se pedisses desculpa
por nos fazeres perder tempo.
Tinhas pressa mas não o mostravas,
receavas que não estivéssemos preparados,
e, suspenso sobre nós, esperavas
que disséssemos tudo, que fizéssemos o apropriado.
Morrer não é motivo de orgulho,
mas estavas cansado de mais para te justificares.
Ainda por cima no mês de Julho,
com as férias marcadas, ausentes os familiares.
Tínhamos levado as crianças de casa,
feito os telefonemas, escolhido os dizeres.
O quarto fora arrumado, a cama mudada
com roupa lavada. Só faltava morreres.
© 2001, Manuel António Pina
Atropelamento e fuga
Asa, Porto, 2001
sexta-feira, outubro 19, 2012
Novos Talentos FNAC Literatura 2012
O livro Novos Talentos FNAC Literatura 2012 que inclui o meu conto "Shoodíaco" já está disponível nos espaços FNAC.
Convido-vos a visitarem o seguinte link:
quinta-feira, outubro 18, 2012
Sem nunca olhar para trás, Orestes chegou a um rio que conseguiu atravessar a vau. Mais a menos a meio, viu um homem a cerca de vinte metros do lado da nascente que parecia estar trajado como os antigos hoplitas. Aproximou-se lentamente de Orestes pela margem e perguntou-lhe o que fazia ali.
- Pretendo ir para Abdera. Sou um homem de paz. Apenas quero arranjar trabalho.
O homem amenizou o ar ameaçador, embainhando a espada que era de pau. Tirou o elmo de latão cuja crista parecia ser de pêlo de texugo e baixou o escudo que exibia o desenho de um grande cacho de uvas.
- Sou o guardador deste rio e das vinhas que ali vês. O vinho é o ganha-pão do meu povo. Há muitos salteadores e vagabundos por estas bandas que nos roubam as uvas e nos dão cabo das videiras. Há dias apanhei um doido a violar uma cepa e a apalpar os cachos como se fossem os seios de uma mulher. O desgraçado era roncolho, mas cortei-lhe o único que ainda tinha e plantei-o. O resto serviu de comida aos peixes e é por isso é que eles têm saído gordos do anzol.
Orestes mostrou as mãos, provando assim que não tinha nada e seguiu caminho. Quando já estava longe dali, ouviu uma risada estranha que ecoou pelo vale e que só poderia ser do terrível hoplita das vinhas.
- Pretendo ir para Abdera. Sou um homem de paz. Apenas quero arranjar trabalho.
O homem amenizou o ar ameaçador, embainhando a espada que era de pau. Tirou o elmo de latão cuja crista parecia ser de pêlo de texugo e baixou o escudo que exibia o desenho de um grande cacho de uvas.
- Sou o guardador deste rio e das vinhas que ali vês. O vinho é o ganha-pão do meu povo. Há muitos salteadores e vagabundos por estas bandas que nos roubam as uvas e nos dão cabo das videiras. Há dias apanhei um doido a violar uma cepa e a apalpar os cachos como se fossem os seios de uma mulher. O desgraçado era roncolho, mas cortei-lhe o único que ainda tinha e plantei-o. O resto serviu de comida aos peixes e é por isso é que eles têm saído gordos do anzol.
Orestes mostrou as mãos, provando assim que não tinha nada e seguiu caminho. Quando já estava longe dali, ouviu uma risada estranha que ecoou pelo vale e que só poderia ser do terrível hoplita das vinhas.
quinta-feira, outubro 04, 2012
Beast of burden
Todos os portugueses deveriam cantar esta melodia em jeito de serenata ao P.M.. Sem agressões verbais, sem apupos. Ele ficaria certamente enternecido.
quarta-feira, setembro 26, 2012
quarta-feira, setembro 19, 2012
terça-feira, setembro 18, 2012
(...) Já em terra, decidiram tentar a sorte em Abdera. Ouviram em pequenos as histórias de Hércules que vencera o cruel rei Diomedes depois deste ter matado o seu eromenos. O corpo do rei fora devorado pelos seus quatro terríveis cavalos que comiam carne humana. Sentiam-se pois bastante encorajados. Pelo caminho, passaram por um velho sentado à sombra de uma casa que parecia ter sido esventrada por um incêndio. O homem estava a fumar narguilé. Estava tão absorto que nem sequer se deu conta da presença dos dois. Com um dos dedos mindinhos tirava cera dos ouvidos para depois atirá-la com bastante perícia para cima de uma pequena vela que brilhava com mais intensidade por alguns momentos. Thiseas interpretou aquilo como um bom augúrio e adiantou-se ao irmão dando largas passadas. Evangelius cuspiu para o lado e continuou a caminhar devagar.(...)
quinta-feira, agosto 30, 2012
sexta-feira, agosto 24, 2012
(...)
Certo é que quando finalmente se deitou não conseguiu pregar olho. Sentia o corpo comprimido pelo cansaço e a sua cabeça era um novelo de pensamentos, actos e omissões. Nas raras noites de insónia, Evangelius gostava de contemplar uma pedra de cor âmbar que guardava à noitinha debaixo do travesseiro amarelecido. A pequena gema foi um dos muitos frutos indesejados de um atroz cálculo renal que Evangelius sofreu quando começou a trabalhar nas minas. Apenas a sua mãe sabia da existência destas pedras. Nesses tempos, as pessoas de Tasos tinham os cotovelos secos como casca de carvalho e eram pobres. Bastava um dos vizinhos saber que o moço expelia pequenas gemas pelo seu filão para que a notícia se espalhasse até à outra ponta da ilha. No dia seguinte, arrancar-lhe-iam sem piedade os rins incrustados de pedras preciosas para mandarem construir castelos na areia. (...)
Certo é que quando finalmente se deitou não conseguiu pregar olho. Sentia o corpo comprimido pelo cansaço e a sua cabeça era um novelo de pensamentos, actos e omissões. Nas raras noites de insónia, Evangelius gostava de contemplar uma pedra de cor âmbar que guardava à noitinha debaixo do travesseiro amarelecido. A pequena gema foi um dos muitos frutos indesejados de um atroz cálculo renal que Evangelius sofreu quando começou a trabalhar nas minas. Apenas a sua mãe sabia da existência destas pedras. Nesses tempos, as pessoas de Tasos tinham os cotovelos secos como casca de carvalho e eram pobres. Bastava um dos vizinhos saber que o moço expelia pequenas gemas pelo seu filão para que a notícia se espalhasse até à outra ponta da ilha. No dia seguinte, arrancar-lhe-iam sem piedade os rins incrustados de pedras preciosas para mandarem construir castelos na areia. (...)
segunda-feira, agosto 20, 2012
sexta-feira, agosto 03, 2012
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