sexta-feira, outubro 19, 2012

Novos Talentos FNAC Literatura 2012

O livro Novos Talentos FNAC Literatura 2012 que inclui o meu conto "Shoodíaco" já está disponível nos espaços FNAC.

Convido-vos a visitarem o seguinte link:


quinta-feira, outubro 18, 2012

Sem nunca olhar para trás, Orestes chegou a um rio que conseguiu atravessar a vau. Mais a menos a meio, viu um homem a cerca de vinte metros do lado da nascente que parecia estar trajado como os antigos hoplitas. Aproximou-se lentamente de Orestes pela margem e perguntou-lhe o que fazia ali.
- Pretendo ir para Abdera. Sou um homem de paz. Apenas quero arranjar trabalho.
O homem amenizou o ar ameaçador, embainhando a espada que era de pau. Tirou o elmo de latão cuja crista parecia ser de pêlo de texugo e baixou o escudo que exibia o desenho de um grande cacho de uvas.
- Sou o guardador deste rio e das vinhas que ali vês. O vinho é o ganha-pão do meu povo. Há muitos salteadores e vagabundos por estas bandas que nos roubam as uvas e nos dão cabo das videiras. Há dias apanhei um doido a violar uma cepa e a apalpar os cachos como se fossem os seios de uma mulher. O desgraçado era roncolho, mas cortei-lhe o único que ainda tinha e plantei-o. O resto serviu de comida aos peixes e é por isso é que eles têm saído gordos do anzol.
Orestes mostrou as mãos, provando assim que não tinha nada e seguiu caminho. Quando já estava longe dali, ouviu uma risada estranha que ecoou pelo vale e que só poderia ser do terrível hoplita das vinhas.

quinta-feira, outubro 04, 2012

Beast of burden

Todos os portugueses deveriam cantar esta melodia em jeito de serenata ao P.M.. Sem agressões verbais, sem apupos. Ele ficaria certamente enternecido.

quarta-feira, setembro 26, 2012

Mapa do Canibalismo - séc. XIX

















quarta-feira, setembro 19, 2012


terça-feira, setembro 18, 2012

(...) Já em terra, decidiram tentar a sorte em Abdera. Ouviram em pequenos as histórias de Hércules que vencera o cruel rei Diomedes depois deste ter matado o seu eromenos. O corpo do rei fora devorado pelos seus quatro terríveis cavalos que comiam carne humana. Sentiam-se pois bastante encorajados. Pelo caminho, passaram por um velho sentado à sombra de uma casa que parecia ter sido esventrada por um incêndio. O homem estava a fumar narguilé. Estava tão absorto que nem sequer se deu conta da presença dos dois. Com um dos dedos mindinhos tirava cera dos ouvidos para depois atirá-la com bastante perícia para cima de uma pequena vela que brilhava com mais intensidade por alguns momentos. Thiseas interpretou aquilo como um bom augúrio e adiantou-se ao irmão dando largas passadas. Evangelius cuspiu para o lado e continuou a caminhar devagar.(...)

quinta-feira, agosto 30, 2012

sexta-feira, agosto 24, 2012

(...)
Certo é que quando finalmente se deitou não conseguiu pregar olho. Sentia o corpo comprimido pelo cansaço e a sua cabeça era um novelo de pensamentos, actos e omissões. Nas raras noites de insónia, Evangelius gostava de contemplar uma pedra de cor âmbar que guardava à noitinha debaixo do travesseiro amarelecido. A pequena gema foi um dos muitos frutos indesejados de um atroz cálculo renal que Evangelius sofreu quando começou a trabalhar nas minas. Apenas a sua mãe sabia da existência destas pedras. Nesses tempos, as pessoas de Tasos tinham os cotovelos secos como casca de carvalho e eram pobres. Bastava um dos vizinhos saber que o moço expelia pequenas gemas pelo seu filão para que a notícia se espalhasse até à outra ponta da ilha. No dia seguinte, arrancar-lhe-iam sem piedade os rins incrustados de pedras preciosas para mandarem construir castelos na areia. (...)

segunda-feira, agosto 20, 2012

sexta-feira, agosto 03, 2012

segunda-feira, julho 30, 2012

J.J. será alinguarada com alegria

Os altifalantes na rua cantam as proezas do Querido Líder. Faz hoje um mês que morreu e o coração de Song continua pesaroso. Não quer acreditar que o Querido Líder partiu deste mundo. Vai à casa de banho, passa a cara por água e olha-se ao espelho. J.J. espera e sofre com ele. No quarto ao lado, alguém liga o televisor e ouve-se gritos e choros. Um pássaro branco, maior que uma pomba, pousa no parapeito da janela. J.J. chama Song e aponta para o pássaro. Song cai de joelhos e os seus olhos ficam húmidos de emoção. Os dois sentem uma enorme alegria e abraçam-se. É o pássaro branco, maior que uma pomba, que limpara a neve dos ombros da estátua do líder e que agora desceu dos céus para abençoar o seu amor.

terça-feira, julho 24, 2012

Velho conhecido

Tinha acabado de chegar ao aeroporto de táxi. Iria gozar as minhas primeiras férias num resort "tudo incluído" e estava ansioso por chegar ao meu destino. Desejava sol e praias de águas verdes-azuladas cristalinas. Desejava ver corpos morenos ensopados com Piz-Buin®. Desejava ser o Gauguin da era smartphone. Assim que empurrei a porta rolante, um homem estava a tentar empurrar do outro lado do vidro separador para poder sair. A cara do homem pareceu-me familiar. Dirige-me para perto do quadro das Partidas. Ainda tinha duas horas e meia antes do voo. Peguei no trólei e fui sentar-me perto da porta rolante. Olhei através da vidraça. O tal homem estava na fila dos táxis. Sim, definitivamente já me cruzei com este homem, mas quando? E onde? Estávamos em pleno Agosto, mas ele segurava firmemente um guarda-chuva e vestia um sobretudo preto que lhe estava dois tamanhos acima. Parecia sondar as pessoas que o rodeavam. As pessoas sentiam-se algo incomodadas e desviavam o olhar, tentando ignorá-lo. De vez em quando, punha-se em bicos de pés para ver melhor o cocuruto dos homens que eram quase todos mais altos do que ele. Deveria estar perto dos cinquenta anos. Estaria à espera de alguém? Provavelmente esteve fora do país durante muito tempo e estava a tentar reconhecer algum familiar que o tinha vindo buscar.

Os meus pensamentos foram interrompidos por um estupendo grito que quase me ensurdeceu. A mãe de tal criatura - que tinha uma dicção que deveria ser estudada por linguistas - recusava dar ao miúdo um chocolate ou lá o que era da máquina de vending. Nova tentativa desesperada do infante. Desta vez eu estava preparado, mas o miúdo deveria ser um mutante, pois até o pessoal da torre de controlo deve ter ouvido o seu grito endemoninhado. Encolhi os ombros à mãe e fui lá para fora. Levei em cheio com uma bofetada de calor que parecia não querer dar tréguas. Olhei na direcção dos táxis. O homem já não estava na fila. Deve ter apanhado um táxi ou alguém veio finalmente buscá-lo. Senti um estranho desalento e levei a mão ao maço de tabaco que tinha no bolso de trás das calças. No momento em que me preparava para acender o cigarro, senti uma pancada na cabeça que me fez deixar cair o cigarro e o isqueiro. Virei-me imediatamente para trás. Era ele! Reconheci-o finalmente.
O homem que tem o costume de dar com um guarda-chuva na cabeça. Atravessara o Atlântico e escolheu a minha cabeça. Que Deus me proteja e São Sorrentino me valha.

segunda-feira, julho 16, 2012

sexta-feira, julho 06, 2012

Shoodíaco





















(...) A lua está cheia. Está de tal forma cheia que parece que vai parir pequenas luazinhas. A sua missão, caso a aceite, será a de elaborar sucintamente (não queremos verborreias técnicas) os signos de um novo Zodíaco (o actual é bastante falível) para serem lidos e apreciados na próxima reunião shandy que irá ocorrer amanhã à noite.
Esta carta não se irá autodestruir – p. f. tenha a bondade de a rasgar em pequenos quadrados de 2 mm² (envio em anexo uma amostra para sua referência).

Imprescritivelmente, D.
P.S.S.T.: Não se esqueça do seu odradek. (...)


"Shoodíaco" - já podem votar.

terça-feira, junho 19, 2012

Segundo parecer

Arregacei a manga da camisa e estendi o braço. O médico, porém, levou a câmpanula do estetoscópio à minha testa e disse-me para pensar fundo. Antes de entrar, tinha-me pedido para tirar os sapatos e as meias. O chão do consultório tinha pequenas brasas espalhadas no chão que tentei não pisar. Sempre que sentia um pensamento, o médico escrevinhava num pequeno bloco e tossia para o lado. Passou-me a receita sem nunca olhar para mim e meteu-a num envelope branco juntamente com um boletim, entregando-mo de seguida. Ajeitou os óculos e olhou para mim como que a perguntar-me porque é que ainda estava ali. Calcei-me, desci a escadaria branca para o segundo andar e esperei pela minha vez. Só havia uma mulher à minha frente que tinha sobre o colo um estore enrolado. Parecia estar a sorrir, mas também poderia ser um tique de expressão. A auxiliar chamou-a. Ela não se mexeu. A auxiliar então segredou-lhe algo ao ouvido e a mulher levantou-se e seguiu-a com o estore debaixo do braço. A sala de espera cheirava a éter e no meio do chão havia um ralo. Apesar do isolamento acústico das janelas, conseguia ouvir o ruído dos carros lá fora. Senti uma enorme vontade de ler o que o médico número um tinha escrito, mas lembrei-me de que não iria servir-me de muito.

quarta-feira, junho 13, 2012

Resurrectine

Terry Fox (inspirado na obra "Locus Solus" de R. Roussel)

terça-feira, junho 05, 2012

Secreções Anima e Animus

PROGRAMA DA EXPOSIÇÃO "SECREÇÕES ANIMA & ANIMUS"


01 Julho a 31 Agosto 2012

A exposição temporária "Secreções Anima & Animus" de Leon Closset estará patente no Museu de Serralves e irá reunir uma ampla selecção de trabalhos do premiado artista plástico (Antuérpia, 1965) acompanhada por quatro performances de Closset nas duas primeiras noites de lua cheia de cada mês (vide Calendário Lunar).

A exuberância cromática dos trabalhos é produto "directo" do seu enredo onírico. Ao longo dos anos, Closset adensou a sua obra, fruto de um rigoroso método de trabalho que tem vindo a aperfeiçoar na última década. Estas manifestações não só têm servido de inspiração para outros artistas visuais, como também constituem objecto de estudo para neurologistas, psicólogos e psiquiatras, dado o perfil extremamente invulgar (talvez único) da obra. Esta exposição é a primeira oportunidade para o público português se confrontar com algumas das criações produzidas pelo artista belga nos últimos anos.

As obras estarão compartimentadas em cubículos de acrílico de 3x2x2 m. Serão colocadas pequenas amostras à frente de cada cubículo que poderão ser experimentadas pelo público. Trata-se de secreções libertadas pelos canais auditivos do artista durante o sono, resultado "físico" do seu repositório de memórias e pulsões reprimidas, veiculadas em sonhos mais ou menos complexos que se materializam em secreções que estarão organizadas por cor, textura/viscosidade e quantidade. Segundo o próprio autor, uma suas das mais famosas secreções, "Maré Negra", foi produzida aquando do último derrame no Golfo em 2010. Closset ficou "extremamente abalado" pelas imagens do desastre ecológico que viu na televisão e acordou nos dias que se seguiram quase imerso numa massa pastosa negra semelhante a crude que quase lhe custou a vida.

É conhecido o seu método de privação de sono que provoca manifestações de cerúmen de um variado espectro cromático e de curiosas texturas. "Flamingo" é uma extraordinária série com alto índice de viscosidade e densidade, de cores intensas (vermelho, rosa) produzida durante o período em que Closset viveu em Paris.

segunda-feira, junho 04, 2012

A pedido da menina Cristas que mora em Lisboa e que gostaria de dedicar a Alguém muito especial.

Rain

terça-feira, maio 22, 2012