Se me convidassem, teria todo o prazer em ser o ghost-writer das memórias do nosso Presidente de República. E não me importava de ser a última opção da editora, caso outros recusassem a proposta. Gosto muito de biografias e de fábulas.
quinta-feira, janeiro 26, 2012
terça-feira, janeiro 24, 2012
Braille e os novelos de lã
Braille, nessa altura, dedicava-se a fazer novelos de lã para fora e era realmente bom nesse ofício. Tinha uma longa fila de clientes à porta logo de manhã, e alguns vinham de muito longe. Sempre fora muito metódico e gostava de dar um toque dramático a tudo aquilo que fazia. Antes de começar a enrolar, punha bastante pó-de-arroz na cara e pintava-se ao jeito dos oonagata, os actores de kabuki. Dizia-se que a cabeleira postiça que usava tinha sido feita com cabelos de Napoleão. De Napoleão! Quem podia confirmar se isto era verdade ou não?
Ao longo da "novelada" que se desenrolava na sua sala de visitas, Braille fazia movimentos que intercalavam entre o abrupto e o gracioso para grande rejubilo do cliente e de Sklerós, seu assistente. Os clientes saiam quase sempre muito satisfeitos. Quando não gostava de determinado cliente, não o recusava: entrava em cena normalmente, mas depois permanecia imóvel durante longos minutos com uma expressão inusitada e com meio novelo na mão. O cliente mais cedo ou mais tarde acabaria por ceder. Sklerós pousava então a malha por enrolar e indicava gentilmente a saída ao infeliz.
quinta-feira, janeiro 19, 2012
Padres de choque
Os padres de choque tiveram origem na região da Apulia (Itália) nos anos 50 e foram os predecessores dos famosos carrinhos de choque que todos nós tão bem conhecemos. É apresentada em seguida uma tradução das "domande frequenti"/FAQs extraídas de um Manual do Utilizador Fiel encontrado recentemente na biblioteca de Santa Croce, em Lecce:
- Quem pode usufruir dos padres de choque?
- Toda a gente que tenha sido crismada, excepto rabinos e albaneses.
- Como é que funciona?
- A pessoa deve dirigir-se à sacristia, pedir uma hóstia, escolher o padre da sua preferência e colocar a hóstia na boca do padre. Depois basta subir às suas cavalitas. Existem padres de várias cores e de diferentes batinas.
- Os padres são seguros?
- Estes são.
- Quanto tempo posso andar nas cavalitas do padre?
- Cada hóstia dá direito a um tempo de viagem correspondente a mais ou menos três padres-nossos.
- Podemos orar em silêncio quando estamos às cavalitas dos padres de choque?
- Sim.
- Podemos cantar ao Senhor quando estamos às cavalitas dos padres de choque?
- Sim.
A falta de vocação e a escassez de leigos especializados na manutenção fizeram com que os padres de choque fossem substituídos por máquinas na década seguinte.
- Quem pode usufruir dos padres de choque?
- Toda a gente que tenha sido crismada, excepto rabinos e albaneses.
- Como é que funciona?
- A pessoa deve dirigir-se à sacristia, pedir uma hóstia, escolher o padre da sua preferência e colocar a hóstia na boca do padre. Depois basta subir às suas cavalitas. Existem padres de várias cores e de diferentes batinas.
- Os padres são seguros?
- Estes são.
- Quanto tempo posso andar nas cavalitas do padre?
- Cada hóstia dá direito a um tempo de viagem correspondente a mais ou menos três padres-nossos.
- Podemos orar em silêncio quando estamos às cavalitas dos padres de choque?
- Sim.
- Podemos cantar ao Senhor quando estamos às cavalitas dos padres de choque?
- Sim.
A falta de vocação e a escassez de leigos especializados na manutenção fizeram com que os padres de choque fossem substituídos por máquinas na década seguinte.
sexta-feira, janeiro 13, 2012
quarta-feira, janeiro 04, 2012
A maleta
Quando um homem de capachinho sai de um banco com uma maleta encostada ao peito é mau sinal. Os juros foram castigados, mas ele não quer saber. O senhor do banco sofre e ninguém nota, nem mesmo os colegas. Sofre em silêncio enquanto olha para o contador automático. O frufru das notas secam-lhe as lágrimas e ele lá se recompõe por fim.
O homem de capachinho pousa a mala no meio da praceta e senta-se no banco de jardim. Os transeuntes certificados olham para a maleta, mas ninguém pega nela. Passa a manhã. Passa a tarde. O homem de capachinho repara que o carvalho à sua frente está pintado de vermelho da cintura para baixo. Ainda assim, não sente qualquer intimidade com o carvalho. Alivia-se. Um grupo de mulheres aproxima-se e forma um círculo em torno da mala. As mulheres gesticulam e riem, e depois partem. Um miúdo omnipotente em cima de um skate pára ao pé da maleta. Tenta pegar na maleta, mas não consegue. Atira-a para os arbustos e parte para enfrentar o seu destino. O homem de capachinho levanta-se e volta a pousar a maleta no meio da praceta. Não há crepúsculo, o céu fica estrelado como uma tela de fundo que cai sobre um palco. É tempo de regressar a casa.
No dia seguinte, o homem de capachinho vai ao banco para voltar a depositar o dinheiro que tinha na maleta. O senhor do banco começa a chorar de felicidade e sente algo parecido com amor conjugal pelo homem de capachinho.
"Cada início é só continuação, e o livro das ocorrências está sempre aberto ao meio", pensa o homem de capachinho.
segunda-feira, janeiro 02, 2012
Seres Imaginários e Mitológicos da Lapónia - III parte
O ándagassii haŋŋá é um pato de rabo comprido cuja dieta alimentar inclui lentilhas e juncos, tendo por hábito evacuar flatos intestinais durante longos períodos de tempo, descrevendo grandes círculos na água. Quando termina, o pato vem a terra e abana com a cabeça como que a lamentar-se pelo seu comportamento (ándagassii: lamentar-se; pedir desculpa). Os lapões acreditam que se usarem uma pena deste pato sob a orelha ficam curados da prisão de ventre.
O biebmobárdni beskkoš é um andorilhão que vive nos beirais dos telhados. A ave gosta de pousar no ombro de crianças órfãs e de lhes limpar o cerume dos ouvidos.
O cealkit dearvvuođaid cizášfálli era utilizado antigamente para enviar agradecimentos e cumprimentos a familiares e amigos que viviam a grandes distâncias. Na maior parte das vezes, o pequeno falcão enganava-se no destinatário ou simplesmente desaparecia, e a ave deixou de ser usada na troca de mensagens. Curiosamente, é o símbolo dos correios na Lapónia.
A jos skuolfi (coruja-da-neve lacónica) emite um som parecido com "jos" ("se..." em português) quando se sente ameaçada. A ave permanece imóvel e parece mostrar uma atitude de desafio quando é avistada por caçadores, cantando sem parar "jos jos jos". A ave parece confiar absolutamente na sua penugem branca e na reputada falta de pontaria dos caçadores lapões.
quarta-feira, dezembro 28, 2011
terça-feira, dezembro 27, 2011
Let us pray to our Lord, the almighty god Miché
As casadas à frente das moças. As moças à frente dos homens. O sacerdote levanta os braços e forma um O esguio, uma elipse. Move-os ora para a esquerda, ora para a direita. As casadas primeiro, depois as moças que são imitadas pelos homens. O sacerdote alça uma perna e depois a outra. Saltita várias vezes e vocifera a prece. As casadas primeiro (...). A chuva que vem dos Montes Áureos é um bom presságio. Olham todos para cima e esticam o pescoço com as mãos na cintura. O sacerdote pega na vara sagrada e segura-a no ar com ambas as mãos. Todos baixam a cabeça em sinal de respeito. O sacerdote aponta a vara para o homem mais velho que se deita no chão com a cara na terra. Esta foi a sua última cerimónia. Será ele o sacrificado.
sexta-feira, dezembro 23, 2011
Série Xoodíaco - Porco-preto
Porco-preto -21/12
a 19/01 (corresponde ao mês Nivoso para aqueles que regem o tempo segundo o
calendário da revolução francesa)
É o primeiro signo do Xoodíaco e não é governado por nenhum
planeta, pois é completamente ingovernável. A sua cor é o preto ou preto com
algumas manchas brancas aqui e ali. Alimenta-se exclusivamente de carne de
porco quando está apaixonado(a). Consegue farejar e detectar sentimentos nobres
naqueles que o rodeiam, mesmo quando estes não passam de uns grandes bastardos
aos olhos dos outros.
Não conseguem expressar os seus sentimentos e metem os pés
pelas mãos e as mãos pela pélvis. Quando conquista a pessoa armada, o nativo
deste signo torna-se cronicamente ciumento e possessivo, não partilha o ente
querido com ninguém. No entanto, sabe ser muito encantador e com o tempo
aprende a ouvir as necessidades do seu amado, mesmo quando a cara-metade se
encontra na outra ponta da casa. O nativo do sexo masculino do último decanato
não tem maneiras à mesa e devora quase tudo o que lhe põe à frente. Não aguarda
até que mais de metade da mesa seja bobonicamente servida, pois é tão sôfrego
como uma retroescavadora. A mulher é mais requintada, podendo ser muito
sensual, gosta de usar decotes (o)usados e até poderá lamber os dedos do
acompanhante num jantar mais íntimo. Tem tendência para a obesidade e,
normalmente, tem uma ninhada de leitoezinhos.
Quando a vida lhes corre de feição, são muito generosos e
gostam de organizar festas e conviver com os amigos dos seus amigos. Regra
geral, não têm muito bom gosto na decoração da casa e qualquer pardieiro lhes
serve. Todos os seus bibelôs e cacos guardam sempre uma história “engraçada”
(pelo menos, para eles).
Não gostam de ler nem são grandes melómanos. Questionam a
qualidade de uma obra de arte contemporânea quando mais ninguém tem coragem
para o fazer. Têm muito jeito para os negócios e são muito empreendedores. Empreendem
suiniculturas ou matadouros, equipando-os com a mais recente tecnologia e não
olham às meias para contratar mão-de-obra altamente qualificada. Desprezam
imperialmente vegetarianos.
O Porco-Preto sabe desligar-se da realidade como ninguém.
Nesses momentos de aparente introspecção, nada existe, nem mesmo se sussurrarem
ao ouvido as lindas histórias da Condessa de Ségur ou do Leopold von Sacher-Masoch.
terça-feira, dezembro 20, 2011
Boas festas
"Por mais revisteira que esta observação possa parecer, Portugal é um rebordo de sanita frio para a maior parte dos Portugueses. O pior de tudo é que lavámos as mãos tal como o Pôncio. Não é esse, é o outro. Passámos muito tempo a emborcar porcarias com o consentimento dos papás e a farparmo-nos no corredor como se não houvesse amanhã." - disse o porco-preto.
"Se não nos virmos antes, boas festas." - respondi.
terça-feira, dezembro 13, 2011
Em frente ao espelho
- Instale o solenóide de bloqueio das mudanças alinhando a junta do êmbolo do solenóide de bloqueio das mudanças com a ponta do batente de bloqueio das mudanças e, em seguida, empurre o solenóide de bloqueio das mudanças para a alavanca das mudanças com segurança. Prima o interruptor D3 várias vezes e verifique-o quanto a continuidade entre o interruptor D3/solenóide de bloqueio das mudanças/interruptor da cavilha de estacionamento/terminais N.ºs 5 e 6 da ficha da luz do painel indicador da posição das mudanças da A/T. You talkin to me? Deverá alternar entre continuidade e não continuidade entre os terminais cada vez que o interruptor D3 for pressionado. O mecanismo de bloqueio da embraiagem do conversor de binário funciona na posição D (2ª, 3ª, 4ª e 5ª) e na posição D do modo de condução D3. Verifique a continuidade entre o terminal A36 da ficha ECM e o terminal nº 39 da ficha de 46P da unidade de controlo-modulador do VSA. You talkin to me? Verifique se não existem más ligações ou terminais soltos no módulo de controlo do indicador (conta-rotações), na unidade de controlo-modulador do VSA e no ECM. Retire o suporte (A) da cablagem e cubra a ficha de sensor da relação ar/combustível (A/F) e a ficha do sensor secundário do oxigénio aquecido (HO2S secundário) com fita para proteger as fichas do líquido de arrefecimento do motor e, em seguida, retire o tubo flexível inferior (B) do radiador, os tubos flexíveis (C) do bypass da água e o tubo (D) do aquecedor. You fuckin talkin to me? Aplique uniformemente junta líquida, Ref.ª de Peça 08C70-K0234M, 08C70-K0334M ou 08C70-X0331S na superfície de contacto da cabeça do motor da saída de água. Ligue o terminal N.º 1 da ficha de 36P do módulo do controlo do indicador (conta-rotações) à massa da carroçaria com um shunt. Who the hell are you talkin to? A ventoinha do condensador do A/C funciona a baixa velocidade, mas não funciona a alta velocidade quando a temperatura do líquido de arrefecimento do motor é superior a 90ºC. Rode manualmente o parafuso central no compressor de prato de pressão no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio e, em seguida, monte manualmente dois parafusos de fixação do prato de pressão para segurar o prato de pressão (B). Meça a profundidade dos rebites, a partir da superfície (A) do revestimento do disco da embraiagem até aos rebites (B), em ambos os lados. Well, I'm the only one here.
quarta-feira, dezembro 07, 2011
quarta-feira, novembro 30, 2011
quarta-feira, novembro 23, 2011
O camionista
Encostou o camião e saiu da cabina como se estivesse com o rabo a arder. Levou as duas mãos à barriga e desceu a vala que separava a via dos campos. Encheu o peito de estrume e tirou o maço de tabaco que estava no bolso da camisa. Pôs-se a olhar para as vacas e para os vitelos que de vez em quando rodavam a cabeça e agitavam a cauda. O fumo do cigarro subia a direito, não havia ponta de vento. Voltou a encher o peito de estrume. Estava no meio da Estremadura espanhola. Agachou-se como um aborígene e pegou com os dedos num tractor que rasgava a terra ao longe. Sentiu o sol do Outono a acaraciar-lhe o rosto e fechou os olhos. Pensou como seria ser enterrado ali num dia bonito como o de hoje. Atirou a beata e cuspiu em cima de um rebento.
- Não me dou com gente.
Saltou a vala e entrou no camião. Uma carrinha branca passa por ele a grande velocidade e buzina duas vezes. Agarra o volante e olha para debaixo do tablier. O cão moribundo olha para ele. Roda a chave e o arranque do motor faz tremer a cabina. O tapete está coberto de sangue.
quinta-feira, novembro 17, 2011
História dos Pedros
O que é que vocês andam a fazer Pedro I, Pedro da Silveira, Pedro Maria da Rocha Cunha e Serra, Pedro Gambôa, o que é que vocês andam a fazer Pedro Pan, Pedro Fonda, Pedro Doherty, Pedro Frampton, Pedro Illyich Tchaikovsky, o que é que vocês andam a fazer Pedro Gabriel, Pedro, O Grande, Pedro Ustinov, Pedro Paulo Rubens, Pedro Parker, Pedro Jackson, Pedro Falk, o que é que vocês andam a fazer Pedro O'Tool, Pedro Cech, Zé Pedro dos Xutos, O que é que vocês andam a fazer Pedro Álvares Cabral, São Pedro, Pedro Homem de Melo, Pedro António Correia Garção, Pedro Barbosa, Pedro Laureano Mendonça da Silveira, Pedro Lopes Martins, Pedro Miranda Albuquerque, Pedro Mexia, o que é que vocês andam a fazer Pedro Oom, Pedro Sena-Lino, Pedro Tamen, o que é que vocês andam a fazer Pedro Sellers, Pedro Clodt von Jürgensburg, Pedro Almodovar, Pedro Louÿs, hein, o que é que vocês andam a fazer?
(tradução livre qb do original de Jean-Michel Espitallier)
terça-feira, novembro 15, 2011
O homem-bala
O homem-bala, antes de ser o incrível homem-bala de que toda a gente fala, desejou ardentemente ser anjo e alguns dizem que até chorou lágrimas de sangue para que Deus Misericordioso fizesse a sua vontade. Deus Obsequioso tomou conhecimento do desejo do homem-bala, mas teve de adiar pois estava a dar formação no Colégio Superior dos Palotinos das Cabeças Exaltadas, em Doaula. Com o nervoso a trabalhar, mandibulou muitas galinhas e enfardou muito arroz de tamboril para se acalmar.
- Do que me serve andar assim? - pensou.
Assumiu a sua vocação, desceu das nuvens e resolveu ser o que os seus pais queriam que ele fosse. A sua mulher - tinha medo dela - queria que ele fosse faroleiro. O que ela realmente queria era passar mais tempo com o dono do circo que era seu amante. Nos primeiros anos de casamento, o homem-bala adorava passear de braço dado com ela, calcorreavam mil passos pelas cidades e vilas por onde passavam. Agora, nem por isso. As más-línguas dizem que o Eliseu, o dono do circo, a seduziu com dentes de ouro e a promessa de uns peitinhos maiores. Pouco a pouco, o homem-bala e a mulher deixaram de se trepar. O seu casamento não era mais do que um triste e arrastado ajoujo.
O homem-bala refugiou-se no seu trabalho, no seu velho canhão. Escorraçou Kant, o elefante que lá vivia, tirou à pá os excrementos que o paquiderme tinha deixado e começou a treinar arduamente. Em breve, estaria de volta! Em breve, iria reviver a emoção do primeiro dia, do primeiro mergulho nos ares, iria ouvir os "aahh"s, os gritos do público.
O Canhão da Morte eleva-se, todos sustêm a respiração, o bombo ensurdecedor, o Homem-Bala leva as mãos às suas bolinhas arménias e fecha os olhos.
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