quarta-feira, novembro 23, 2011
quinta-feira, novembro 17, 2011
História dos Pedros
O que é que vocês andam a fazer Pedro I, Pedro da Silveira, Pedro Maria da Rocha Cunha e Serra, Pedro Gambôa, o que é que vocês andam a fazer Pedro Pan, Pedro Fonda, Pedro Doherty, Pedro Frampton, Pedro Illyich Tchaikovsky, o que é que vocês andam a fazer Pedro Gabriel, Pedro, O Grande, Pedro Ustinov, Pedro Paulo Rubens, Pedro Parker, Pedro Jackson, Pedro Falk, o que é que vocês andam a fazer Pedro O'Tool, Pedro Cech, Zé Pedro dos Xutos, O que é que vocês andam a fazer Pedro Álvares Cabral, São Pedro, Pedro Homem de Melo, Pedro António Correia Garção, Pedro Barbosa, Pedro Laureano Mendonça da Silveira, Pedro Lopes Martins, Pedro Miranda Albuquerque, Pedro Mexia, o que é que vocês andam a fazer Pedro Oom, Pedro Sena-Lino, Pedro Tamen, o que é que vocês andam a fazer Pedro Sellers, Pedro Clodt von Jürgensburg, Pedro Almodovar, Pedro Louÿs, hein, o que é que vocês andam a fazer?
(tradução livre qb do original de Jean-Michel Espitallier)
terça-feira, novembro 15, 2011
O homem-bala
O homem-bala, antes de ser o incrível homem-bala de que toda a gente fala, desejou ardentemente ser anjo e alguns dizem que até chorou lágrimas de sangue para que Deus Misericordioso fizesse a sua vontade. Deus Obsequioso tomou conhecimento do desejo do homem-bala, mas teve de adiar pois estava a dar formação no Colégio Superior dos Palotinos das Cabeças Exaltadas, em Doaula. Com o nervoso a trabalhar, mandibulou muitas galinhas e enfardou muito arroz de tamboril para se acalmar.
- Do que me serve andar assim? - pensou.
Assumiu a sua vocação, desceu das nuvens e resolveu ser o que os seus pais queriam que ele fosse. A sua mulher - tinha medo dela - queria que ele fosse faroleiro. O que ela realmente queria era passar mais tempo com o dono do circo que era seu amante. Nos primeiros anos de casamento, o homem-bala adorava passear de braço dado com ela, calcorreavam mil passos pelas cidades e vilas por onde passavam. Agora, nem por isso. As más-línguas dizem que o Eliseu, o dono do circo, a seduziu com dentes de ouro e a promessa de uns peitinhos maiores. Pouco a pouco, o homem-bala e a mulher deixaram de se trepar. O seu casamento não era mais do que um triste e arrastado ajoujo.
O homem-bala refugiou-se no seu trabalho, no seu velho canhão. Escorraçou Kant, o elefante que lá vivia, tirou à pá os excrementos que o paquiderme tinha deixado e começou a treinar arduamente. Em breve, estaria de volta! Em breve, iria reviver a emoção do primeiro dia, do primeiro mergulho nos ares, iria ouvir os "aahh"s, os gritos do público.
O Canhão da Morte eleva-se, todos sustêm a respiração, o bombo ensurdecedor, o Homem-Bala leva as mãos às suas bolinhas arménias e fecha os olhos.
sexta-feira, novembro 11, 2011
Prole idiota
Um dos meus maiores medos é vir a ter um filho idiota ou arrogante, pelo que frequento regularmente cartomantes certificadas que me lêem a palma da mão:
- o seu filho irá ser inteligente como o pai, será belo como a mãe, terá as mãos grandes e vai ser muito forte e generoso como a Sophia Loren no auge da carreira.
- o seu filho não irá esquecer-se do nome das pessoas que conheceu e tratará condignamente os pais, pois irá detestar cogumelos. Quem come cogumelos, fungos e almiscaros tende a ignorar os pais.
- o seu filho não será ludibriado por vendedores porta a porta que se fazem passar por exterminadores de pragas.
- o seu filho poderá muito bem entreter e contar belas histórias a familiares de doentes em fase terminal em salas de esperas de hospitais públicos sem ser insensível ou inoportuno ou invasivo.
- o seu filho nunca irá cuspir ou vomitar em público, excepto se lhe contar inadvertidamente que já leu Nicholas Sparks.
- o seu filho será campeão distrital de damão em Damão.
- o seu filho não será nem imbecil nem onicófago.
- o seu filho irá ser inteligente como o pai, será belo como a mãe, terá as mãos grandes e vai ser muito forte e generoso como a Sophia Loren no auge da carreira.
- o seu filho não irá esquecer-se do nome das pessoas que conheceu e tratará condignamente os pais, pois irá detestar cogumelos. Quem come cogumelos, fungos e almiscaros tende a ignorar os pais.
- o seu filho não será ludibriado por vendedores porta a porta que se fazem passar por exterminadores de pragas.
- o seu filho poderá muito bem entreter e contar belas histórias a familiares de doentes em fase terminal em salas de esperas de hospitais públicos sem ser insensível ou inoportuno ou invasivo.
- o seu filho nunca irá cuspir ou vomitar em público, excepto se lhe contar inadvertidamente que já leu Nicholas Sparks.
- o seu filho será campeão distrital de damão em Damão.
- o seu filho não será nem imbecil nem onicófago.
quinta-feira, novembro 10, 2011
segunda-feira, outubro 31, 2011
sexta-feira, outubro 28, 2011
Série Xoodíaco - Ampulheta (02 Março-01 Abril)
Desenho de Miguel Moreira
Os nativos deste signo fazem os
possíveis para serem funcionários exemplares. Nunca se atrasam nem nunca se
adiantam e raramente pedem atestados médicos para poderem repousar uma ou duas
semanitas. As suas qualidades laborais são incomparáveis. Se as contas da sua
empresa estiverem nas mãos de um Ampulheta,
é provável que o barco ainda se aguente por mais algum tempo antes de ir completamente
ao fundo (a insolvência da empresa foi provocada por “clientes que se esqueceram
de pagar a cento e trinta dias - o conselho de administração oral fez tudo o
que estava ao seu alcance para salvar a empresa”). Nunca fazem horas
extraordinárias, porque:
1. Não foi isso o combinado quando foi contratado
2. Não precisam de o fazer, dado que são muito eficientes e proactivos.
1. Não foi isso o combinado quando foi contratado
2. Não precisam de o fazer, dado que são muito eficientes e proactivos.
Não
se deixam enganar por promessas falaciosas de aumentos no final do ano e de
pagamentos por fora. Quando a esmola
é grande, o Amp. desconfia. Têm de
ver a cor do dinheiro. O seu 11º Mandamento é:
-Não aceitarás cheques pré-datados.
Uma das características mais vincadas dos Amp. é a sua obsessão por roupa. Mudam
de camisa várias vezes ao dia e fervem de prazer quando o fazem. São capazes de
perder a pose ao ponto de abraçar ou até roubar um beijo ao patrão se este usar
um fato Armani ou Zegna. Não conseguem ver estafermos mal amanhados. Cuidado leitor!
Não faça guizos de valor precipitados, trata-se de uma maleita
hereditária. Uma boa parte da população Amp.
sofre da síndrome de Brummel: a sua visão filtra naturalmente criaturas mal
vestidas ou fora de moda.
A sua sensibilidade face à indumentária faz
pandam com a sua indiferença perante os que não estão na moda. À noite, veste
o robe de seda e fuma a sua cigarrilha blasé,
encarnando um Decadentismo algo mascavado.
O Amp. tem a
perfeição no gesto, é muito equilibrado nas suas escolhas. É enfadonhamente
previsível e tem horror a imprevistos. Se gostou da organização de certa
agência de viagens, será seu cliente até morrer, ainda que a Benidortour organize sempre pacotes
turísticos para o mesmo destino, todos os anos. Se apreciou o atendimento de um
restaurante recomendado por um amigo (que nunca mais lá voltou), é bastante
provável que leve lá a namorada ou esposa todas as semanas do ano (para grande regozijo da consorte).
Vê-se
como uma espécie de vedeta e modelo a seguir no seu pequeno mundo. É uma forma semi-inconsciente
de se desligar da sua realidade pequeno-burguesa. Selecciona cuidadosamente o
seu círculo de amigos. Categoriza-os de acordo com a sua idade, peso e estatuto
social. Gosta de ler revistas femininas que incluam amostras de perfumes e devora
best-sellers de capas lustrosas. Não
perde uma única comédia romântica e fica sempre muito admirado com a realização
de ciclos de cinema independente – “quem é que no seu perfeito juízo pode patrocinar
aquilo e, pior ainda, quem é que ainda tem paciência para ver aquilo?”.
terça-feira, outubro 25, 2011
sexta-feira, outubro 14, 2011
Um homem crescido
Um homem crescido não pode beber demais, um homem crescido não pode beber demenos. Caso contrário e, se todos os presentes concordarem, tudo isto poderá acontecer:
- na hora opressiva da siesta, o homem crescido pode abrigar-se numa cesta e adormecer. Se alguém tocar uma melodia melíflua, o homem pode muito bem sair da cesta e dançar ao som da flauta. Com os olhos semi-fechados, faz movimentos ondulantes com o torso e, de vez em quando, põe a língua de fora, sem nunca sair da cesta. A melodia chega ao fim, o homem crescido recolhe-se e continua a sua siesta.
Na verdade, o homem crescido não está a dormir, está a espreitar pelo vime e aguarda que todos regressem a casa. O homem crescido está cheio de vergonha. Mas a vergonha passa e dá lugar à solidão que é a sua fiancée.
- na hora opressiva da siesta, o homem crescido pode abrigar-se numa cesta e adormecer. Se alguém tocar uma melodia melíflua, o homem pode muito bem sair da cesta e dançar ao som da flauta. Com os olhos semi-fechados, faz movimentos ondulantes com o torso e, de vez em quando, põe a língua de fora, sem nunca sair da cesta. A melodia chega ao fim, o homem crescido recolhe-se e continua a sua siesta.
Na verdade, o homem crescido não está a dormir, está a espreitar pelo vime e aguarda que todos regressem a casa. O homem crescido está cheio de vergonha. Mas a vergonha passa e dá lugar à solidão que é a sua fiancée.
quinta-feira, outubro 13, 2011
segunda-feira, outubro 03, 2011
sexta-feira, setembro 30, 2011
terça-feira, setembro 27, 2011
O Génio da Lâmpada Eco
- Onde é que estou, meu Deus? O que me aconteceu?
Barcelo estava estendido no chão, agarrado ao lençol, ao lado da cama. À sua frente estava um homem enorme de pele azulada. O homem usava apenas um colete e calças largas. Tinha um carrapito e sobrancelhas grossas que lhe davam um ar ameaçador.
- Quem é você? O que faz no meu quarto? - perguntou Marcelo.
O estranho abanou com a cabeça, acusando sinais de desilusão ou talvez de alguma impaciência.
- Sou o Génio da Lâmpada, meu amo. Estou ao seu dispor. Concedo-lhe não um, não dois, mas três desejos. Não aceito desejos acumuláveis de outros génios, nem 3-desejos-em-1. Seja directo e preciso, e evite pedidos ambíguos. Estou às suas ordens, meu Amo.
Farcelo coçou o cocuruto e levantou-se. O Génio da Lâmpada era duas vezes maior do que ele.
- Não acredito em Génios, caro senhor. Acredito em trabalho duro, acredito no sacrífício de levantar cedo todos os dias e trabalhar até de madrugada. É nisto que acredito.
- Sou o Génio da Lâmpada Económica, meu Amo. Posso conceder-lhe três desejos, desde que não ultrapassem o plafond de três mil euros.
Tarcelo começou a fazer contas de cabeça, esboçou um sorriso na parede para o apagar logo de seguida.
- Muito bem! Vou formular o meu primeiro desejo. Quero que as vigas do meu tecto deixem de ter caruncho e quero-as envernizadas como as maçãs vermelhas do supermercado!
- Plim. Já está, meu Amo. Qual é o seu segundo desejo?
Zarcelo olhou para o tecto e sentiu um desejo enorme de trincar as vigas de madeira. Sentiu-se como daquela vez em que encontrou a sua carteira de pele que julgava perdida há muito.
- Desejo que as crianças não me atirem pedras nem berlindes no meu caminho de regresso a casa.
- Plim plim. Meu Amo. Como se trata de um desejo que não pode ser comprovado neste momento, peço ao meu Amo para acreditar na minha palavra de Génio. E qual é o seu último desejo, meu Amo?
Carcelo arrependeu-se mal acabou de pedir o desejo. Se pudesse, teria pedido ao Génio para lhe dar duas belas mulheres. A pele de uma das mulheres teria o doce aroma de cebola caramelizada e trataria da lida da casa. A outra irradiaria uma beleza pré-rafaelita e cozinharia iguarias para ele até ao fim da vida. Ambas adorariam jazz. Nem um nem outra seriam comunistas, e Sarcelo aceitaria pequenos ais, toleraria leves queixumes de emancipação, desde que cumprissem os seus deveres domésticos.
- O meu terceiro desejo...muito bem. Desejo que todos os meus livros sejam lidos por todos. E sempre que alguém sentir prazer ao ler determinada passagem, a sua cabeça deverá iluminar-se tal como um busca-polos quando é ligado a uma tomada com corrente alternada.
- Lamento Sire, mas nem eu tenho poderes para satisfazer o que me pede, nem o plafond acordado me permite concretizar esse desejo.
- Que dizes, Zoroastro? Diacho pró diacho!...Nesse caso, desejo saber qual foi o padrão que Joyce usou para escrever "Finnegans Wake".
- Plim plim plim.
O Génio elevou-se, deu duas voltas sobre si mesmo como fazem os cães antes de se deitarem e desapareceu sem deixar qualquer vestígio de pegada carbónica.
Darcelo levou as mãos à cabeça de tão pesada que estava. Sentia os olhos inchados e um prurido no nariz que lhe dava uma enorme vontade de o coçar. As mãos estavam manchadas com o sangue que escorria das orelhas. Começou a gemer e a ter convulsões horríveis. Não dizia coisa com coisa e nem Deus nem ninguém lhe puderam valer.
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sexta-feira, setembro 23, 2011
segunda-feira, setembro 19, 2011
O jogo
Sim, sou exuberante e espontâneo como um chimpazé que nunca foi baptizado nem crismado. Para celebrar o meu 49.º aniversário, resolvi comprar um apartamento num elegante e haussmaniano edifício na rua Jacques Cazotte com as poupanças de uma vida de borboleta. Convidei todos os meus amigos não declarados e todos os meus inimigos declarados. Estendi o convite à minha actual mulher que ainda se fez rogada por não a ter convidado primeiro. Tive de lhe prometer que lhe compraria um par de mitenes nos Campos Elíseos. Bom, adiante.
Impus uma única condição que todos, sem excepção, deveriam respeitar: apenas poderiam entrar na minha nova casa se usassem peúgas e calzoncillos. Deste modo, todos estariam em pé de igualdade, por assim dizer. Chegaram todos à hora prevista (+ 1h GMT) e depois de trocarmos muitos elogios e selos raros (o Bauer ofereceu-me um incalculável selo da Namíbia com a efígie do Mr. T. da A-Team de 1985; em troca, dei-lhe o que ele tanto queria - um selo soviete de 50 kopecs com um Lenine jovem, ainda com cabelo), dirigimo-nos em fila indiana para a magnífica sala de estalar. Bebemos, fumámos puros jamaicanos, eu e os meus inimigos renovámos sagradas juras de animosidade. Propus um jogo. Cada um teria de ir à casa de ranho e cortar uma porção de pêlos púbicos. Os pêlos seriam queimados depois numa pequena pira dourada no centro da sala. Aquele que conseguisse fazer uma fogueira maior poderia ficar alojado um ano e um mês no meu apartamento. Bauer praguejou e foi-se embora. Esqueci-me que ele rapa os pêlos antes da chegada do Verão. Botello, que não conhecia Bauer, foi atrás dele. A maior labareda foi atribuída ao Gerlizten que, num acto de profunda comoção, atirou as peúgas e os calzoncillos pela janela fora, tapando-se logo com uma toalha de Vôtre-Dame. O meu amigo valenciano de longa data protestou - nunca me lembro do seu nome - alegando que os seus filiformes demoraram mais tempo a serem consumidos pelo fogo, infestando a casa com um forte cheiro a patatas bravas. Coube-me a mim, enquanto anfitrião e geriatra de renome, apurar o vencedor. Peguei na pira com as cinzas, dirigi-me à varanda e espalhei-as por Paris. Voltei para dentro, subi para cima da mesa, esbugalhei os olhos e ameacei quebrar a pira. O valenciano de cujo o nome não me lembro levantou-se e tentou impedir-me que cometesse tal acto:
- Dá-lhe a ele, dá-lhe a ele, por Dios! - gritou, a chorar.
Estava assim encontrado o nobre vencedor do jogo.
Impus uma única condição que todos, sem excepção, deveriam respeitar: apenas poderiam entrar na minha nova casa se usassem peúgas e calzoncillos. Deste modo, todos estariam em pé de igualdade, por assim dizer. Chegaram todos à hora prevista (+ 1h GMT) e depois de trocarmos muitos elogios e selos raros (o Bauer ofereceu-me um incalculável selo da Namíbia com a efígie do Mr. T. da A-Team de 1985; em troca, dei-lhe o que ele tanto queria - um selo soviete de 50 kopecs com um Lenine jovem, ainda com cabelo), dirigimo-nos em fila indiana para a magnífica sala de estalar. Bebemos, fumámos puros jamaicanos, eu e os meus inimigos renovámos sagradas juras de animosidade. Propus um jogo. Cada um teria de ir à casa de ranho e cortar uma porção de pêlos púbicos. Os pêlos seriam queimados depois numa pequena pira dourada no centro da sala. Aquele que conseguisse fazer uma fogueira maior poderia ficar alojado um ano e um mês no meu apartamento. Bauer praguejou e foi-se embora. Esqueci-me que ele rapa os pêlos antes da chegada do Verão. Botello, que não conhecia Bauer, foi atrás dele. A maior labareda foi atribuída ao Gerlizten que, num acto de profunda comoção, atirou as peúgas e os calzoncillos pela janela fora, tapando-se logo com uma toalha de Vôtre-Dame. O meu amigo valenciano de longa data protestou - nunca me lembro do seu nome - alegando que os seus filiformes demoraram mais tempo a serem consumidos pelo fogo, infestando a casa com um forte cheiro a patatas bravas. Coube-me a mim, enquanto anfitrião e geriatra de renome, apurar o vencedor. Peguei na pira com as cinzas, dirigi-me à varanda e espalhei-as por Paris. Voltei para dentro, subi para cima da mesa, esbugalhei os olhos e ameacei quebrar a pira. O valenciano de cujo o nome não me lembro levantou-se e tentou impedir-me que cometesse tal acto:
- Dá-lhe a ele, dá-lhe a ele, por Dios! - gritou, a chorar.
Estava assim encontrado o nobre vencedor do jogo.
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terça-feira, setembro 13, 2011
sexta-feira, agosto 26, 2011
quarta-feira, agosto 17, 2011
Fim de uma tarde de Verão
Uma daquelas avionetas com voz grave sobrevoa a praia com a seguinte faixa:
"Mantenha os velhos fora do alcance dos adul-"
"Mantenha os velhos fora do alcance dos adul-"
Uma segunda avioneta vai no encalço da primeira e puxa a faixa seguinte:
"-tos. Resid. Geriátrica Velha Orleães. Para Grandes Males.."
"-tos. Resid. Geriátrica Velha Orleães. Para Grandes Males.."
O último ponto das reticências é o sol que se põe.
- Ah sim, só morre na praia quem quer - disse o velho Barba Azul que segurava o neto pela mão.
- Ah sim, só morre na praia quem quer - disse o velho Barba Azul que segurava o neto pela mão.
quarta-feira, agosto 03, 2011
Um aeroconto
Stairs ainda não tinha feito o pedido e já abanava com o pacote de açúcar que estava em cima do pires.
- Olhe, tire-me outro, por favor.
Stairs lembrou-se do recital de piano que a sua irmã tinha dado na véspera. Por mais que se esforçasse nem uma nota lhe vinha à cabeça. Olhou novamente para o painel das Partidas e Chegadas para confirmar o que já sabia de cor. Para além do número do voo, sabia o número do seu lugar, o ano de fabrico do Boeing no qual iria voar, o número máximo de passageiros, talvez até soubesse os nomes do piloto e do co-piloto. Bebeu o café num gole, sem saboreá-lo. Imaginou o seu avião como uma enorme borboleta tropical: bela, felpuda e inofensiva. Depois imaginou-o como um modelo gigantesco daqueles dumbos eléctricos que há nos shoppings para as crianças. Imaginou ainda pedaços da aeronave incinerados dispersos pela selva e um número de corpos já cobertos com lençóis brancos pelas equipas de socorro.
Fixou o olhar num homem que estava numa das filas de check-in. Não era gordo, mas a barriga acusava uma meia-idade desleixada. Usava uma camisa branca e tinha a testa reluzente de suor. Estava acompanhado por dois miúdos que deveriam ser seus filhos. O mais novo estava a escavar insistentemente o nariz com os dedos. O maior tinha as mãos à cintura como se fosse o super-homem. Estava claramente a usar a sua incrível visão raios-X nas malas.
- Vão morrer todos e não há nada que eu possa fazer - pensou Stairs.
O homem volta-se e olha na sua direcção como se tivesse adivinhado que estava a ser observado. Acena. Stairs fica pálido, sem saber o que fazer. Uma mulher passa a seu lado com 2 latas de Cola na mão. Stairs dedica a sua atenção aquele traseiro comedido em movimento. E, mais uma vez, não pode deixar de pensar no belo coral cheio de moreias e peixes-balão que aquele corpo maduro se vai transformar dentro de algumas horas.
sexta-feira, julho 22, 2011
segunda-feira, julho 18, 2011
Muito
Havia, não há muito tempo à frente, um homem que vivia com os seus num sopézarrão da maior colina da ilha de Réunion de Condo. O homem chamava-se Muito e era muito chamado por todos. Muito tinha muito gorgulho no seu enorme pomar de lapiseiras. Estas árvores crescem em climas quentes queridos e húmidos e dão lápis grandes e muito sucurápidos. As aparas são utilizadas no fabrico de capotas. Muito revezava ao seu santo, S. Jorge Martinica, p´ra que se abençoasse com muita força ao seu lenço de renda e p´ra que o sacudisse ainda com mais força sobre as suas árvores.
Muitas marés vazaram até que a verdade viesse à tona.
Muito tinha escravos ilegais que, todas as noites, aguçavam sem parar o fruto das lapiseiras, tornando os seus bicos afiados e luzidios, queimando grandes obras-primas afastadas para usar como fertilizante. Isto tudo, no maior e mais vil dos segregados. Lá mais para o fim, as condições em que viviam os escravos tornaram-se principescamente insuportáveis e desumanóides.
Os crimes de Muito foram revelados por um excravo que conseguira escapar e cantou lindamente toda a verdade. O excravo trabalha agora numa pequena plantação de cotão, e Muito, esse e não aquele, está a cumprir pena por tempo indeterminado num campo de trabalho forçado de peneiras.
Muitas marés vazaram até que a verdade viesse à tona.
Muito tinha escravos ilegais que, todas as noites, aguçavam sem parar o fruto das lapiseiras, tornando os seus bicos afiados e luzidios, queimando grandes obras-primas afastadas para usar como fertilizante. Isto tudo, no maior e mais vil dos segregados. Lá mais para o fim, as condições em que viviam os escravos tornaram-se principescamente insuportáveis e desumanóides.
Os crimes de Muito foram revelados por um excravo que conseguira escapar e cantou lindamente toda a verdade. O excravo trabalha agora numa pequena plantação de cotão, e Muito, esse e não aquele, está a cumprir pena por tempo indeterminado num campo de trabalho forçado de peneiras.
segunda-feira, julho 11, 2011
segunda-feira, julho 04, 2011
John Dumpling
O Chefe dos Correios era um bom homem e, contratudo e contralguns, não dispensou os serviços do seu velho colega e amigo de longa data, John Dumpling, que iria reformar-se dentro de 2 (dois) meses. John até já tinha comprado um baralho de cartas de amor para se entreter com os outros velhos debaixo da pérgula do jardim. Havia uma condição, porém! O Chefe dos Correios, quando não estava ocupado a ser um bom homem, era um pouco autista e muito jocoso, e o seu passatempo preferido era criar cláusulas enganosas ("jokers") e assim ludibriar...não, vamos usar outra palavra, e assim "fungar" as outras partes.
Dumpling não foi excepção: sempre que o velho carteiro entregasse um envelope escrito à mão, teria de dançar à frente do destinatário. O que o Chefe dos Correios não sabia é que Dumpling gostava muito da dançar e até considerou ser dançarino profissional depois de regressar da Guerra de San Marino.
Ou será que sabia? Se já como flor, agora já não há nada a fazer.
Dumpling não foi excepção: sempre que o velho carteiro entregasse um envelope escrito à mão, teria de dançar à frente do destinatário. O que o Chefe dos Correios não sabia é que Dumpling gostava muito da dançar e até considerou ser dançarino profissional depois de regressar da Guerra de San Marino.
Ou será que sabia? Se já como flor, agora já não há nada a fazer.
sexta-feira, julho 01, 2011
quarta-feira, junho 29, 2011
"Dom Quijote"
Em vez de entrar no café-hostal de cujo o nome não quero agora lembrar-me, resolvi atravessar a carretera para conhecer o lar onde estava o meu avô. O autocarro tinha parado para os passageiros comerem algo e só arrancava dentro de meia-hora. Daqui a duas horas e meia estava em Granada. Tirei a última bolacha do pacote que tinha comprado em Madrid. A bolacha sabia a plástico e eu não tinha apetite, apenas queria ter um ar descontraído enquanto me aproximava do lar. Ao lado, havia uma estação de serviço abandonada. Um homem de camisa preta estava encostado a um Renault velho e parecia estar à espera de ser atendido. O homem era muito parecido com um Steven Seagal mais novo e mais magro, talvez.
A maioria dos passageiros ainda estava no café e parecia estar a decorrer lá dentro um concurso para ver quem conseguia falar mais alto. A mulher que viajava atrás de mim também descera do autocarro e estava a seguir-me com o olhar enquanto fumava. Usava um casaco de ganga cor-de-rosa e uns tacões altos que eram desproporcionais à sua altura. As suas rugas de quase meia-idade disfarçadas com creme e os papos à volta dos olhos não se viam deste lado da estrada.
A porta de entrada do lar estava ladeada por duas grandes ânforas. A fachada era branca e tinha canteiros de gerânios e pequenos cactos. Mais abaixo, à face da estrada, uma placa enorme dizia:
Residência Geriátrica "Dom Quijote"
Mensalidades que cabem no seu bolso
Dispomos de veículo próprio e enfermaria 24h
10% de Desconto no primeiro semestre
Telf. xxxxxxxxx
Assim que entrei, o ar ficou mais fresco, mas havia um forte cheiro a naftalina em todo o hall. Aproximei-me da porta de vidro que dava acesso ao salão principal. Já não via o meu avó há cinco anos, mas acho que o reconheceria se o visse. Não abri a porta e, através do vidro, tentei localizá-lo. Sem saber bem porquê comecei a contá-los. Vinte e um. Estavam sentados em elipse e estavam a encher balões coloridos de aniversário. Um deles parou de repente e olhou para mim. Dei um passo atrás. Não consegui distinguir se era um "ele" ou uma "ela". A pele do seu rosto parecia um favo de mel seco e tinha apenas uns fios brancos de cabelo. Todos deixaram de soprar e os que estavam de costas viram-se para trás com grande dificuldade. O silêncio foi quebrado por uma estupenda escarradela.
"Olá. Deseja alguma coisa?" - perguntou uma funcionária morena que parecia ter estado atrás de mim este tempo todo. Falava com sotaque sul-americano, era baixa e não tinha pescoço. O crachá que trazia ao peito dizia Dulcineia Gutierrez.
"Sim, procuro o meu avô."
"E como se chama o seu avô?"
"Alonso Hernandez. Ele tocava guitarra. Flamengo, essas coisas..."
"Senhor Hernandez, sim. Mas ele já não tocava guitarra. Entretinha-se nos últimos tempos a tocar um daqueles órgãos de brincar que um dos netos dos senhores se esqueceu aqui."
"Nos últimos tempos?..."
"Sim."
A moça não tinha pescoço nem expressão. Ficámos assim alguns instantes, a olhar um para o outro. Até que ela entrou no salão e fechou a porta. Saí e desci até à estrada que já deitava fumo aquela hora. Do outro lado da rua, o motorista estava a ver os pneus de trás, alguns passageiros já estavam cá fora. A mulher de casaco rosa tinha posto uns enormes óculos escuros. Ainda me virei para trás para voltar ao lar. O meu avô morreu. Não éramos chegados nem distantes. A minha mãe raramente falava dele.
Acendi um cigarro e caminhei até à bomba de gasolina. O chão estava coberto por manchas negras.
"!Hei, tio, que não podes fumar aqui, hei!"
Era o Steven Seagal a esbracejar. Ignorei-o e resolvi entrar no autocarro. A mulher do casaco cor-de-rosa apagou a sua cigarrilha com a sola e subiu atrás de mim. Sentou-se ao meu lado, pôs a mão no meu braço e disse-me algo que agora não quero lembrar-me.
A maioria dos passageiros ainda estava no café e parecia estar a decorrer lá dentro um concurso para ver quem conseguia falar mais alto. A mulher que viajava atrás de mim também descera do autocarro e estava a seguir-me com o olhar enquanto fumava. Usava um casaco de ganga cor-de-rosa e uns tacões altos que eram desproporcionais à sua altura. As suas rugas de quase meia-idade disfarçadas com creme e os papos à volta dos olhos não se viam deste lado da estrada.
A porta de entrada do lar estava ladeada por duas grandes ânforas. A fachada era branca e tinha canteiros de gerânios e pequenos cactos. Mais abaixo, à face da estrada, uma placa enorme dizia:
Residência Geriátrica "Dom Quijote"
Mensalidades que cabem no seu bolso
Dispomos de veículo próprio e enfermaria 24h
10% de Desconto no primeiro semestre
Telf. xxxxxxxxx
Assim que entrei, o ar ficou mais fresco, mas havia um forte cheiro a naftalina em todo o hall. Aproximei-me da porta de vidro que dava acesso ao salão principal. Já não via o meu avó há cinco anos, mas acho que o reconheceria se o visse. Não abri a porta e, através do vidro, tentei localizá-lo. Sem saber bem porquê comecei a contá-los. Vinte e um. Estavam sentados em elipse e estavam a encher balões coloridos de aniversário. Um deles parou de repente e olhou para mim. Dei um passo atrás. Não consegui distinguir se era um "ele" ou uma "ela". A pele do seu rosto parecia um favo de mel seco e tinha apenas uns fios brancos de cabelo. Todos deixaram de soprar e os que estavam de costas viram-se para trás com grande dificuldade. O silêncio foi quebrado por uma estupenda escarradela.
"Olá. Deseja alguma coisa?" - perguntou uma funcionária morena que parecia ter estado atrás de mim este tempo todo. Falava com sotaque sul-americano, era baixa e não tinha pescoço. O crachá que trazia ao peito dizia Dulcineia Gutierrez.
"Sim, procuro o meu avô."
"E como se chama o seu avô?"
"Alonso Hernandez. Ele tocava guitarra. Flamengo, essas coisas..."
"Senhor Hernandez, sim. Mas ele já não tocava guitarra. Entretinha-se nos últimos tempos a tocar um daqueles órgãos de brincar que um dos netos dos senhores se esqueceu aqui."
"Nos últimos tempos?..."
"Sim."
A moça não tinha pescoço nem expressão. Ficámos assim alguns instantes, a olhar um para o outro. Até que ela entrou no salão e fechou a porta. Saí e desci até à estrada que já deitava fumo aquela hora. Do outro lado da rua, o motorista estava a ver os pneus de trás, alguns passageiros já estavam cá fora. A mulher de casaco rosa tinha posto uns enormes óculos escuros. Ainda me virei para trás para voltar ao lar. O meu avô morreu. Não éramos chegados nem distantes. A minha mãe raramente falava dele.
Acendi um cigarro e caminhei até à bomba de gasolina. O chão estava coberto por manchas negras.
"!Hei, tio, que não podes fumar aqui, hei!"
Era o Steven Seagal a esbracejar. Ignorei-o e resolvi entrar no autocarro. A mulher do casaco cor-de-rosa apagou a sua cigarrilha com a sola e subiu atrás de mim. Sentou-se ao meu lado, pôs a mão no meu braço e disse-me algo que agora não quero lembrar-me.
sexta-feira, junho 24, 2011
sexta-feira, junho 17, 2011
A cerca
Construí esta cerca para delimitar este pedaço de terra que não me pertence. Apropriei-me do ar, mas a terra não é minha. Comprei quarenta metros de rede em promoção com o subsídio e tinha simplesmente de a usar. Talvez venha a ser repreendido por isto, mas não me importa. Ser dono de algo é bom. Deus poderá não ter aprovado o meu acto, mas sei que sorriu às escondidas (para não dar um mau exemplo aos arcanjos, etc.). A prova é que nasceu uma planta muito exótica no meio do terreno. Parece uma avestruz com a cabeça enfiada na areia, mas o "penacho" é uma grande flor roxa-quaresma em forma de cruz latina. Deus abençoou-me por debaixo da mesa.
Uma vaca nem gorda-nem magra rumina junto à cerca todos os dias.
sábado, junho 04, 2011
A sul de nenhum norte
Já saíu o 2º número da webzine "asuldenhumenorte" que inclui alguns textos meus.
Obrigado à Maria e ao Nuno.
Obrigado à Maria e ao Nuno.
sexta-feira, junho 03, 2011
Seres Imaginários e Mitológicos da Lapónia - II parte
- O Máđoheapme Bierdna (urso-gigante) é, na verdade, um urso pardo de tamanho normal. Como os lapões têm uma média de altura inferior aos finlandeses e aos suecos, caracterizaram este ursídeo de "gigante". Não deixa, contudo, de merecer respeito.
- O Molssabiktasat Bihcebásčáihni é um pica-pau malhado que aparece amiúde quando lenhadores ou caçadores mudam de roupa na floresta. A ave lendária abre com o bico uma cavidade na árvore para lembrar e encorajar o lenhador. A ciência diz tratar-se de um comportamento mimético por parte da ave em relação ao homem. Os lenhadores gostam muito de pica-paus, e os caçadores não lhes dão caça, porque sabem que os lenhadores gostam muito de pica-paus.
- A Rismánná Jäniksen deve o seu nome por perseguir homens que irão ser pais sem o saberem ou o desejarem. Por outro lado, o rico folclore lapão também diz que qualquer casal que não consiga ter filhos deve comer esta lebre com brócolos e ovo cozido durante uma semana. A Rismánná Jäniksen simboliza para os lapões o que Fiat 600 simbolizava para os italianos nos anos 60.
- A Morašlaš Ránesskuolfi (grande-coruja-cinzenta-que-te-deixa-triste) é muito temida pelos caçadores que os hipnotiza com o seu olhar, deixando-os num estado letárgico durante dias ou mesmo semanas. Há relatos de caçadores que puseram as caçadeiras de lado para se dedicarem à preservação* de animais em vias de extinção.
- O Molssabiktasat Bihcebásčáihni é um pica-pau malhado que aparece amiúde quando lenhadores ou caçadores mudam de roupa na floresta. A ave lendária abre com o bico uma cavidade na árvore para lembrar e encorajar o lenhador. A ciência diz tratar-se de um comportamento mimético por parte da ave em relação ao homem. Os lenhadores gostam muito de pica-paus, e os caçadores não lhes dão caça, porque sabem que os lenhadores gostam muito de pica-paus.
- A Rismánná Jäniksen deve o seu nome por perseguir homens que irão ser pais sem o saberem ou o desejarem. Por outro lado, o rico folclore lapão também diz que qualquer casal que não consiga ter filhos deve comer esta lebre com brócolos e ovo cozido durante uma semana. A Rismánná Jäniksen simboliza para os lapões o que Fiat 600 simbolizava para os italianos nos anos 60.
- A Morašlaš Ránesskuolfi (grande-coruja-cinzenta-que-te-deixa-triste) é muito temida pelos caçadores que os hipnotiza com o seu olhar, deixando-os num estado letárgico durante dias ou mesmo semanas. Há relatos de caçadores que puseram as caçadeiras de lado para se dedicarem à preservação* de animais em vias de extinção.
*não confundir preservação com embalsamento que é considerada uma técnica de preservação de animais.
segunda-feira, maio 30, 2011
sexta-feira, maio 20, 2011
Seres Imaginários e Mitológicos da Lapónia - I parte
O Bahááhpecizaš (ou "alle alle diabrete") é uma pequena ave mitológica que faz o ninho na cabeça dos lenhadores que adormecem à sombra de lariços ou pinheiros. É considerado um bom agoiro, sobretudo para lenhadores casados ou comprometidos. Estes têm por hábito guardar os ramos ou tufos do ninho numa caixa de pinho para que as suas mulheres lhes sejam sempre fiéis.
Se um lenhador perdido na floresta encontrar um Lulli Vuovderuoigu, bem pode saltar de alegria. O Lulli Vuovderuoigu ("cabrito-montês virado para o sul") indica sempre o Sul, tal como um pointer aponta para a presa. Há, porém, relatos de lenhadores que nunca mais foram vistos, talvez porque confundiram o Lulli Vuovderuoigu por um vulgar cabrito-montês. O animal mitológico ostenta uma distinta mancha branca em forma de L entre os chifres, enquanto que o vulgar cabrito-montês poderá exibir outras letras do alfabeto, mas nunca um L. O índice de analfabetismo dos lenhadores é um dos mais elevados na Lapónia.
Diz-se que a Ávlu Veahttačáhceguolli é a última encarnação da alma de uma bela jovem que cantava tristes melodias. O seu amante partiu rumo às grandes florestas do norte para nunca mais voltar. Um dia, a jovem não suportou o desgosto e atirou-se ao rio. O seu corpo nunca mais fora resgatado. A Ávlu Veahttačáhceguolli ("truta castanha que canta") salta para as pedras do rio e canta melodias de caixinha de música na esperança que apareça o seu jovem amante. Esta lenda deu origem aos famosos e curiosos "singing fish", artigos de decoração populares no norte da Europa e na América do Norte.
O Beana Bearjadat tem o pêlo preto e macio, e um focinho que parece estar sempre a sorrir. Apesar de roerem as botas de trabalho, os lenhadores gostam muito deste imponente cão mitológico. Aparece sempre às sexta-feiras, pelo crepúsculo, indicando o fim de uma semana de trabalho. É acarinhado pelos lenhadores, que têm por hábito deixar-lhe carne de rena seca na véspera. Antigamente, se o fabuloso cão não aparecesse, tal significaria que o patrão iria pedir ao lenhador contratado para trabalhar durante o fim-de-semana, o que - provavelmente - irritaria o lenhador.
quarta-feira, maio 18, 2011
Post em jeito de tweet:
ando a investigar no terreno a mitologia e as fábulas dos lenhadores do norte (inclui Lapónia ou Lappi em suomi) e centro da Finlândia.
Teaser em jeito de spoiler:
"O Gulo gulo atinge a maturidade sexual ao fim de um ano e pode acossar lenhadores incautos que tenham maus hábitos higiénicos. As típicas camisas de flanela axadrezadas indicam ao felpudo Gulo gulo que o lenhador não está receptivo aos bestiais intentos da criatura."
ando a investigar no terreno a mitologia e as fábulas dos lenhadores do norte (inclui Lapónia ou Lappi em suomi) e centro da Finlândia.
Teaser em jeito de spoiler:
"O Gulo gulo atinge a maturidade sexual ao fim de um ano e pode acossar lenhadores incautos que tenham maus hábitos higiénicos. As típicas camisas de flanela axadrezadas indicam ao felpudo Gulo gulo que o lenhador não está receptivo aos bestiais intentos da criatura."
segunda-feira, maio 09, 2011
quinta-feira, maio 05, 2011
O melhor método
Schiller mantinha uma cesta de maçãs podres debaixo da secretária, pois gostava de sentir o seu cheiro quando escrevia poesia. Vítor Hugo entregava todas as suas roupas a um empregado, admoestando-o para NÃO lhe devolver a roupa até que ele (Hugo) terminasse o seu trabalho diário. Orhan Pamuk costumava despedir-se da mulher de manhã como se fosse para o emprego. Saía, caminhava alguns quarteirões e depois regressava a casa como se estivesse a chegar ao escritório. Devo dizer que tentei os métodos destes mestres e nenhum deles resultou, nem mesmo o do contramestre Raymond Queneau que, antes de se propor a escrever, tinha por hábito trincar às escondidas cebolas bravas em elevadores. "Se o elevador tiver grades corrediças, tanto melhor", dizia. "O abrir-e-bater violento das grades ajuda-me a pontuar, a arrebanhar orações (...) E se as pessoas me perguntam porque é que estou a chorar, descrevo uma novela medíocre que será o ponto de partida para a excelência que vou escrever".
segunda-feira, abril 25, 2011
25 Abril
Há uns tempos a esta parte que a celebração do 25 de Abril no Porto (e por esse país fora, decerto) tem sido para maiores de 55 anos. Os organizadores barram furiosamente a entrada a adolescentes, jovens adultos, etc. Excepto, claro, se forem pobres ressacados, palhaços a fazerem balões ou turistas acidentais que não sabem muito bem o que está a acontecer. Somente os velhos têm direito a assistir às comemorações de Abril na "praça da Liberdade". Nem sequer há MILFs, o que sempre dava um colorido à coisa. Há uns tempos a esta parte que o resto da população optar por ficar ordeiramente em casa, na praia ou nos shoppings a desfrutar do A/C e da liberdade mais do que adquirida.
Definitivamente, o 25 de Abril, não de um mas de vários capitães, já não ganha campeonatos há algum tempo. A memória do povo é muito curta e ingrata.
Definitivamente, o 25 de Abril, não de um mas de vários capitães, já não ganha campeonatos há algum tempo. A memória do povo é muito curta e ingrata.
sexta-feira, abril 22, 2011
Spock

Rauschenberg/Spock
O actor Leonard Nimoy não existe. É uma bem sucedida personagem interpretada por Spock, o vulcano. Spock é um Observador-Mor enviado há cerca de 150 anos pelo "Conselho Superior das Nações Unidas" do seu planeta. Spock já foi repreendido várias vezes pelos seus superiores por ter interferido no seu objecto de estudo ao longo da missão. Foi Spock quem segredou a palavra "sociologia" ao ouvido de Max Webber (e de Durkheim, talvez) estendendo a toalha à Perspectiva Simbólica Interaccionista ("os selfs são produtos sociais", etc.). Há ainda quem sustente que Spock não é mais do que um experiente Batedor que tem vindo a preparar terreno para uma expropriação da Terra por parte do seu povo. Nos anos 60, Spock optaria por adoptar uma imagem menos rígida, talvez influenciado pelo espírito da época. Tornou-se amigo de Rauschenberg, imiscuindo-se subtilmente em algumas produções do artista norte-americano que nunca reconheceu a sombra do vulcano no seu trabalho. No entanto, Spock viria a tornar-se conhecido pelo grande público através de uma outra arte.
segunda-feira, abril 11, 2011
sexta-feira, abril 08, 2011
A Verdade Profana
O Cisma do Extremo Ocidente
As preces do poderoso lobby dos emigrantes no Luxemburgo foram ouvidas. O Colégio dos Cardeais elegera finalmente um papa português. O povo rejubilou de alegria e o governo decretou três dias de festejos. Por quem os sinos dobram? Pelo novo papa que é português. Até a sineta da mais pequena capela reboou até estalar a última orelha do último aldeão. Até a Sininho de Pedro Pah tilintou de felicidade, embora ninguém conseguisse escutá-la, nem mesmo Pedro Pah, pois já contava com uma idade avançada. Mas logo a alegria se transformou em tristeza, de imediato os sorrisos se converteram em lágrimas como se os olhos das pessoas tivessem sido espremidos em espremedores de citrinos. O recém-eleito papa, Gregório XXX, tinha um irmão gémeo que também era ministro de Deus, o qual, furioso com o orgulho e a ingratidão do seu irmão de Roma, se auto-proclamou anti-papa do alto da torre da sua igreja matriz. Fragmentino I obteve o apoio importante dos leigos em part-time e dos catequistas a recibos verdes, prometendo-lhes contratos a termo e descontos para a caixa. O mundo católico dividiu-se, a unidade cristã foi quebrada. Passaram cinquenta anos sem que nada assim de relevante tivesse acontecido. Por fim, os dois irmãos papas chegaram a acordo naquele que ficou conhecido como o Concílio dos Papas de Sarrabulho.
(...)
"A Verdade Profana", Guisa Cruel Milho
segunda-feira, abril 04, 2011
Reflexão epistemológica
Este blogue já tem um tempinho; dura muito porque é feito em aço inox-304 e, por isso, posso meter água de vez em quando. Mas a que propósito vem este desabafo? Vejo muitas coisas feias enrebuçadas em capas e contra-capas brilhantes nos escapagates*. Portugal precisa rapidamente da intervenção do FLI - Fundo Literário Internacional. E quem me dera ser capitão-de-fragata. Volto já com um texto ofuscante.
* gosto de dizer esta palavra à moda de Setúbal.
* gosto de dizer esta palavra à moda de Setúbal.
terça-feira, março 29, 2011
Poe Poe Poe
Não gosto de guerras. Gosto de batalhas tipo Borodino ou Waterloo. Quando não tomo banho, os meus braços cheiram a caramelo. Gostaria de ver o homem a ir à Lua. Gostaria de ver o homem a combater a gravidade quando obrasse na Lua. O meu bisneto chamar-se-à Andy War Hole e será presidente dos EUA. Nunca fumei ópio. Amo Jane Austen. É um amor louco porque ela já morreu. Não gosto de gatos. Metzengerstein é o nome do um pastor alemão. Gosto de fazer amor comigo mesmo. Isso não é masturbar. Vou a consultas regulares de obstetrícia. Uma vez caí na Casa de Usher. A Casa de Usher, o melhor prostíbulo de cidade. Sonho muitas vezes com a minha mãe. Dou puns que cheiram a açafrão-das-Índias.
Este texto foi encontrado no bolso do casaco que Edgar Allan Poe trazia vestido quando o encontraram morto nas ruas de Baltimore. Como é sabido, as roupas não eram suas e a caligrafia não era a sua. No entanto, alguns estudiosos de Poe defendem que poderá tratar-se do último texto que o escritor norte-americano escreveu antes de morrer. A tradução é minha.
Este texto foi encontrado no bolso do casaco que Edgar Allan Poe trazia vestido quando o encontraram morto nas ruas de Baltimore. Como é sabido, as roupas não eram suas e a caligrafia não era a sua. No entanto, alguns estudiosos de Poe defendem que poderá tratar-se do último texto que o escritor norte-americano escreveu antes de morrer. A tradução é minha.
sábado, março 26, 2011
O arcanjo Micha'el
E, por fim, o arcanjo desceu sobre a terra. E ninguém tinha observado o jejum, nem amado a Deus sobre todas as coisas. E todos guardavam terríveis segredos e persona honrava pai e mãe.
Banqueiros e outros usuários ficaram com a cara feita em manteiga da vaca que foi coberta várias vezes. A meretriz coxa voltou a andar e chorou lágrimas de lagartixas, porque nunca tinha visto um crocodilo. Ao ver o arcanjo a avançar sobre eles, padres e paladinos de distintas prelaturas entesoaram-se sem fazer cerimónia - não sem antes olharem para trás - e assim ficaram até serem chamados por Deus. Funcionários públicos foram resgatados pelo arcanjo e encaminhados para filas sem fim para as portas do Purgatório. Excepto os das casas de banho públicas das grandes babilónias - o bom Deus reservara há muito um lugar a Seu lado para esses mártires. Os cegos voltaram a ver e os seus acordeões miseráveis foram destruídos. E os velhos mestres cátedras e os eloquentes comentadores políticos de prime-time perderam a voz para sempre ao verem que o arcanjo não usava nada debaixo da gabardina que trazia.
Banqueiros e outros usuários ficaram com a cara feita em manteiga da vaca que foi coberta várias vezes. A meretriz coxa voltou a andar e chorou lágrimas de lagartixas, porque nunca tinha visto um crocodilo. Ao ver o arcanjo a avançar sobre eles, padres e paladinos de distintas prelaturas entesoaram-se sem fazer cerimónia - não sem antes olharem para trás - e assim ficaram até serem chamados por Deus. Funcionários públicos foram resgatados pelo arcanjo e encaminhados para filas sem fim para as portas do Purgatório. Excepto os das casas de banho públicas das grandes babilónias - o bom Deus reservara há muito um lugar a Seu lado para esses mártires. Os cegos voltaram a ver e os seus acordeões miseráveis foram destruídos. E os velhos mestres cátedras e os eloquentes comentadores políticos de prime-time perderam a voz para sempre ao verem que o arcanjo não usava nada debaixo da gabardina que trazia.
quarta-feira, março 23, 2011
segunda-feira, março 21, 2011
Ici Paris
Modo de utilização: substituir "Paris" por "Porto" e assaltar a câmara dos gases e a junta de freguesia de santo ildefonso:
Marianne rebelle me disait
Qu'elle est plus jolie metissee
Ici Paris
Caravanes, vent du desert,
Mais nous n'irons plus a la guerre
a l'attaque
Ici New York, ici Moscou
Chacun pour soi, tous pour les sous
solidaires
Ici Paris
Epargne moi
Ici Paris (3)
adonis et bulldozer
s'accouplent a la volontaire
Ici Paris
Hola madonne tu m'etonnes
Enleve ce col qui te donne
l'air emprunte
a l'amour et a la vie
a syd barret et c'est fini
Ici Londres
Ici Paris
Epargne moi
Ici Paris
Noir Désir (RIP)
Marianne rebelle me disait
Qu'elle est plus jolie metissee
Ici Paris
Caravanes, vent du desert,
Mais nous n'irons plus a la guerre
a l'attaque
Ici New York, ici Moscou
Chacun pour soi, tous pour les sous
solidaires
Ici Paris
Epargne moi
Ici Paris (3)
adonis et bulldozer
s'accouplent a la volontaire
Ici Paris
Hola madonne tu m'etonnes
Enleve ce col qui te donne
l'air emprunte
a l'amour et a la vie
a syd barret et c'est fini
Ici Londres
Ici Paris
Epargne moi
Ici Paris
Noir Désir (RIP)
quinta-feira, março 17, 2011
quarta-feira, março 16, 2011
O gosto solitário do orvalho - Barugon
quarta-feira, março 09, 2011
Muito silêncio por nada
Nota introdutória:
A peça passa-se no dias de hoje e tem mais do que três actos. O cenário é uma tela com o fundo do Odeón de Paris, há seis filas de cadeiras em palco.
Acto I
Todos os personagens da peça entram em cena, um a um, e sentam-se nos respectivos lugares. Burburinho. Tosse. Risos abafados. Silêncio. Os personagens olham para o público. O público, se Deus quiser, olha para os personagens.
Acto II
Ofélia tosse. Ricardo II sai para uns instantes.
Acto III
Os Dois Nobres Parentes trocam sorrisos entre si e apontam para uma senhora espectadora da 3ª fila. Ricardo II volta ao seu lugar.
Acto IV
António (o mercador de V., não o de Cleópatra) tira um moleskine do bolso do casaco e faz algumas anotações. Gratiano, Solanio, Salarino e Salerio bocejam de forma sequencial, da esquerda para a direita. Salerio parece estar enviar uma sms no Blackberry.
Acto V
Silêncio.
Acto VI
Silêncio interrompido pela respiração asmática do Duque Frederick que faz como lhe aprouver.
Acto VII
Otelo levanta-se e vai-se embora visivelmente aborrecido. Mais trinta e um minutos de silêncio. O Green Lantern também sai e todos o imitam.
O Rei Ubu, que se encontra no meio do público, vaia e atira as calças para o palco em forma de protesto.
Fim da peça.
A peça passa-se no dias de hoje e tem mais do que três actos. O cenário é uma tela com o fundo do Odeón de Paris, há seis filas de cadeiras em palco.
Acto I
Todos os personagens da peça entram em cena, um a um, e sentam-se nos respectivos lugares. Burburinho. Tosse. Risos abafados. Silêncio. Os personagens olham para o público. O público, se Deus quiser, olha para os personagens.
Acto II
Ofélia tosse. Ricardo II sai para uns instantes.
Acto III
Os Dois Nobres Parentes trocam sorrisos entre si e apontam para uma senhora espectadora da 3ª fila. Ricardo II volta ao seu lugar.
Acto IV
António (o mercador de V., não o de Cleópatra) tira um moleskine do bolso do casaco e faz algumas anotações. Gratiano, Solanio, Salarino e Salerio bocejam de forma sequencial, da esquerda para a direita. Salerio parece estar enviar uma sms no Blackberry.
Acto V
Silêncio.
Acto VI
Silêncio interrompido pela respiração asmática do Duque Frederick que faz como lhe aprouver.
Acto VII
Otelo levanta-se e vai-se embora visivelmente aborrecido. Mais trinta e um minutos de silêncio. O Green Lantern também sai e todos o imitam.
O Rei Ubu, que se encontra no meio do público, vaia e atira as calças para o palco em forma de protesto.
Fim da peça.
terça-feira, março 08, 2011
segunda-feira, março 07, 2011
O gosto solitário do orvalho - Guiron

A característica mais proeminente de Guiron é a sua cabeça em forma de faca que é 100 vezes mais dura do que o diamante, repleta de "shuriken" que podem ser disparados a partir de um par de orifícios situado acima dos olhos. A criatura tem uma visão radar de 360 graus, tem 60 vezes mais dentes de que uma piranha, pulmões adaptados para percorrer viagens espaciais de longa distância, órgãos em forma de saco que armazenam energia e urânio, órgãos em forma de balão nas pernas que lançam jactos de líquido através dos pés, barbatanas que lhe confere estabilidade na água e ventosas magnéticas nas mãos.
sexta-feira, março 04, 2011
quinta-feira, março 03, 2011
O gosto solitário do orvalho - Gamera

(clicar para aumentar a imagem)
Gamera possui olhos de visão infravermelha e nocturna, braços que podem erguer 50 mil toneladas, um órgão que produz as chamas que a criatura dispara das mãos, espinhos eléctricos no dorso, garras venenosas, órgãos em forma de bolsa que armazenam lava, carvão, petróleo e urânio, órgãos em forma de balão que disparam jactos de ar através dos membros inferiores, e uma cauda de cartilagem elástica que disfere poderosos golpes.
terça-feira, março 01, 2011
Terapia
Enquanto espero pelo eléctrico que me vai deixar perto da capela mortuária, penso no meu amigo que faleceu recentemente. Começa a chuviscar. Toda a gente foge para debaixo do coberto da paragem, um grupo de turistas-trogloditas solta exclamações de afectada surpresa para depois desatarem às gargalhadas como verdadeiros cretinos. As semelhanças entre os turistas-trogloditas e os cretinos-pedigree são notáveis. Estamos todos zipados, encostados uns aos outros, o meu nariz encolhe e fica anestesiado. Os trogloditas cheiram a suor e o mais velho tresanda a Porto quando abre a boca. Ainda por cima é aquela zurrapa de três anos que lhes dão a provar nas caves. Verdade seja dita, até é bom demais para os trogloditas. Sei do que falo, fui aprendiz de tanoeiro, mas tive de desistir - o chamamento do palco falou mais alto. Volto a pensar no meu falecido amigo. Ele também era actor. O que faria ele nesta situação? Talvez deixasse escapar a mão para o traseiro da quarentona troglodita de olho azul ou então tentava falar aquela língua de farrapos, lamentando a chuva e desculpando-se em nome de todo o povo português. Na verdade, comecei a odiar o meu amigo de há dois anos para cá. Era um ódio mútuo, sem motivos e talvez por causa disso tornou-se cada vez mais sombrio. Qualquer incidente, qualquer pequena fatalidade que acontecesse ao outro, fazia-nos ganhar o dia. Era um ódio não declarado, um rancor saudável que me fazia continuar e dava sentido à minha vida. Contracenei com ele várias vezes e tentávamos sempre superar um ao outro. Não existia mais nada à nossa volta. O gajo era bom, mas eu era melhor. Ele sabia disso, pois dava-me sempre os parabéns nos camarins. O cabotino implodia de fel, mas dizia-me sempre que "esta tinha sido a minha actuação". Todas as noites. Por outro lado, quando saímos os dois, fazia-me confidências sobre a sua vida amorosa, apenas porque sabia que me irritava profundamente. Falava das suas façanhas sexuais, das suas conquistas durante horas a fio, roçando às vezes o obsceno. No entanto, ouvia-o como um padre num confessionário. Por uma razão que desconheço, não conseguia mandá-lo calar e lançava-lhe apenas olhares de raiva que só lhe davam mais força para continuar com mais prosápia. Bastardo. Agora tudo isto acabou, o gajo partiu, foi ceifado em cheio por um taxista embriagado quando saia do teatro. Chegou o eléctrico. Deixo subir primeiro os turistas-trogloditas que quase atropelam a senhora de idade que os manda a todos para o órgão sexual masculino. Não especificou qual. Quando cheguei à capela, já lá estava meia dúzia de amigos e familiares que se reuniam à volta do caixão. Lá estava ele. Para quem pensava que iria morrer louco (como a mãe), tiveste um fim menos glorioso, ah bastardo? Sorrio. Senti uma mão no ombro. Caio em mim e viro-me. Era um homem na casa dos trinta e muitos, fato preto Zegna, óculos de massa escuros, parecia ser meio estrábico.
- Peço desculpa, o senhor era amigo do meu irmão?
Desvio o olhar. Atrás dele está uma mulher de idade com o rosto ossudo que leva um lenço branco ao nariz e encara-me com os olhos molhados. Dirijo-me imediatamente para a porta e desço as escadas de pedra sem olhar para os degraus. Conheço-os bem. Não consegui ficar mais tempo, é pena. Tiro a maçã que tinha no bolso do casaco e trinco-a. O próximo eléctrico só chega daqui a meia hora. Não há trogloditas à vista.
Desde que fiquei desempregado há um ano que tenho por hábito frequentar funerais e missas de sétimo dia de desconhecidos. Por motivos que ainda não escavei, a dor de estranhos faz-me sentir bem.
- Peço desculpa, o senhor era amigo do meu irmão?
Desvio o olhar. Atrás dele está uma mulher de idade com o rosto ossudo que leva um lenço branco ao nariz e encara-me com os olhos molhados. Dirijo-me imediatamente para a porta e desço as escadas de pedra sem olhar para os degraus. Conheço-os bem. Não consegui ficar mais tempo, é pena. Tiro a maçã que tinha no bolso do casaco e trinco-a. O próximo eléctrico só chega daqui a meia hora. Não há trogloditas à vista.
Desde que fiquei desempregado há um ano que tenho por hábito frequentar funerais e missas de sétimo dia de desconhecidos. Por motivos que ainda não escavei, a dor de estranhos faz-me sentir bem.
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quarta-feira, fevereiro 23, 2011
terça-feira, fevereiro 22, 2011
Was lief falsch?
Gosto muito do apartamento que o meu falecido marido me deixou. É numa zona bonita da cidade, com muitas árvores, as ruas estão sempre limpas. Só não gosto de uma coisa: das reuniões de condomínio. Não tenho idade nem paciência para aturar pessoas feias. A minha única exigência como condómina era ter o espelho do elevador só para mim. Os meus vizinhos são demasiado feios para usarem um espelho daqueles, não merecem. Não me fizeram a vontade. Uma recém-viúva não pode ser contrariada e por isso tratei de avariar o espelho. Eles ficaram fulos, porque o espelho fazia-os mais bonitos e mais elegantes do que realmente são. Mas abri uma excepção.
Ele ainda não sabe, mas o espelho reflecte apenas os lindos e generosos guizos do jovem porteiro que sempre foi muito simpático e muito educado para mim. Ele merece.
Ele ainda não sabe, mas o espelho reflecte apenas os lindos e generosos guizos do jovem porteiro que sempre foi muito simpático e muito educado para mim. Ele merece.
terça-feira, fevereiro 15, 2011
Facebook - poema para uma antologia na casa da mãe e da tia
"Foi um outro lobo, o xavier, que me
disse que sempre teve um fraco
pela nogueira pinto."
in conta Facebook de "Bifidos_passivo"
Espinosa gosta disto.
Orwell gosta disto.
Bispo do Porto gosta disto.
Pacheco não gosta disto.
disse que sempre teve um fraco
pela nogueira pinto."
in conta Facebook de "Bifidos_passivo"
Espinosa gosta disto.
Orwell gosta disto.
Bispo do Porto gosta disto.
Pacheco não gosta disto.
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quarta-feira, fevereiro 09, 2011
A partida de ténis
Harpo convidou-me treze vezes para assistir a uma partida de ténis. Acedi à décima quarta, porque nunca se sabe. Eram os quartos de final da mediática taça Davy Byrnes e ele não queria perder por nada deste mundo. Lá fomos. Estava a nevar ursos polares. As bancadas estavam ocupadas pela metade. A maioria era composta pelos chamados Incondicionais que se preparavam para a partida, rodando as cabeças ora para a esquerda ora para direita. Reparei que o sub-comissionário que me seguia há três meses estava na bancada oposta. O maníaco achava que eu estava por detrás de uma rede de tráfego de mulheres mongóis. Pelos vistos, o sr. sub-comissionário tem uma costeleta mongol por parte de um avô que o fez jurar defender sempre o seu "povo". Quando entraram os jogadores, aplaudi-os de pé, esgazeando o meu olhar no dele. Ele sorriu a crédito mal parado. O jogo começa. Harpo deixava escapar risadinhas sempre que os jogadores faziam Ases, batendo-me insistentemente no joelho. Deu-me vontade de ir ao WC. Ando a beber muito chá de rooibos, alguém me disse que fazia bem ao hipotálamo. Bati um recorde qualquer, sete minutos sem gotejar, já não vertia assim desde que o nosso amado rei ganhou as últimas eleições . Quando regressei, quase todos se tinham ido embora. A partida prosseguia, mas o árbitro estava com a cara coberta de sangue. O que será que tinha acontecido? Os apanha-bolas e o sub-comissionário (não arredou pé o maníaco) estavam congelados nos respectivos lugares. Quando me virei para trás, Harpo ainda se encontrava no seu lugar e estava a tocar o seu instrumento debaixo de flocos de neve que caíam graciosamente ao som da melodia. Creio não andar muito longe da verdade quando afirmo que foi a coisa mais bonita que vi até hoje.
segunda-feira, janeiro 31, 2011
quarta-feira, janeiro 26, 2011
terça-feira, janeiro 25, 2011
O mercúrio de Van Sweetens
Caro Zerrel,
- Depois de uma canja de galinha parda ao jantar, fui aquecer os pés na salamandra da Casa Lilás que o meu amigo me recomendou na véspera de Natal. Fui muito bem recebido pela matroníssima Madame Bataille que parecia já saber quem eu era. Aposto a minha cadeira de baloiço que o meu amigo falou-lhe a meu respeito. Madame Bataille teve um ataque de tosse ao subir as escadas e à entrada do quarto que me estava reservado pôs-se a falar de um novo bronco-dilatador que o Auch lhe recomendou. Vi-me obrigado a gerar ali algo parecido com empatia na esperança que ela me desse um desconto ou um copo de Genebra no fim. A menina que me calhou tinha um ar inocente, os olhos não tinham vestígios de emoção e falava pouco. Antes de começarmos, pedi-lhe gentilmente para pôr na boca o meu termómetro especial. O mercúrio atingiu os 41ºC! Não podia dormir com alguém tão libidinoso. Acima dos 38,5ºC é a minha morte. Deitei-me a seu lado e deixei escoar o tempo. Ela disse-me o seu nome, Sophie Minuit. Antes de trabalhar ali, tinha sido auxiliar de biblioteca, mas ganhava muito mal. Começou então a libertar-se. O seu livro favorito é a "História de um Coração" e abraçava repetidamente o ar à sua volta. Meu amigo, quase que me apaixonei. Felizmente os quarenta minutos acabaram e sai daquela alcova mesmo a tempo.
O meu termómetro vai ser um sucesso.
Do sempre seu,
T. Edison
- Depois de uma canja de galinha parda ao jantar, fui aquecer os pés na salamandra da Casa Lilás que o meu amigo me recomendou na véspera de Natal. Fui muito bem recebido pela matroníssima Madame Bataille que parecia já saber quem eu era. Aposto a minha cadeira de baloiço que o meu amigo falou-lhe a meu respeito. Madame Bataille teve um ataque de tosse ao subir as escadas e à entrada do quarto que me estava reservado pôs-se a falar de um novo bronco-dilatador que o Auch lhe recomendou. Vi-me obrigado a gerar ali algo parecido com empatia na esperança que ela me desse um desconto ou um copo de Genebra no fim. A menina que me calhou tinha um ar inocente, os olhos não tinham vestígios de emoção e falava pouco. Antes de começarmos, pedi-lhe gentilmente para pôr na boca o meu termómetro especial. O mercúrio atingiu os 41ºC! Não podia dormir com alguém tão libidinoso. Acima dos 38,5ºC é a minha morte. Deitei-me a seu lado e deixei escoar o tempo. Ela disse-me o seu nome, Sophie Minuit. Antes de trabalhar ali, tinha sido auxiliar de biblioteca, mas ganhava muito mal. Começou então a libertar-se. O seu livro favorito é a "História de um Coração" e abraçava repetidamente o ar à sua volta. Meu amigo, quase que me apaixonei. Felizmente os quarenta minutos acabaram e sai daquela alcova mesmo a tempo.
O meu termómetro vai ser um sucesso.
Do sempre seu,
T. Edison
Intermission
quarta-feira, janeiro 12, 2011
sexta-feira, janeiro 07, 2011
terça-feira, janeiro 04, 2011
Faits-divers
A neta de Ingmar Bergman, Ana Bergman, foi acusada de usar num evento social um casaco que parecia ser feito a partir da pele do Alf. A neta do famoso realizador sueco defendeu-se afirmando que a peça era apenas uma imitação de pele e que nunca usaria pele genuína e muito menos do Alf. Recordo que a neta já fora acusada de ser vista a usar um chapéu de pele do Chewbacca nas ruas de Estuqueolmo.
segunda-feira, janeiro 03, 2011
sexta-feira, dezembro 31, 2010
Declaração de interesses de fim de ano
Um senhor doutor avalanche que não cura, mas aquece.
e
Doenças Excêntricas e Desacreditadas: indicado para hipocondríacos e não só.
(com a minha insuspeita e pristina colaboração)
e
Doenças Excêntricas e Desacreditadas: indicado para hipocondríacos e não só.
(com a minha insuspeita e pristina colaboração)
quarta-feira, dezembro 29, 2010
Bar de hotel
O bar do hotel era conhecido por ser um local de primeiros encontros. Não era nada de extraordinário, tinha aquilo que um bar de hotel era suposto ter. Os primeiros clientes começavam a chegar ao fim da tarde. Se a coisa corresse bem, o casal não precisava de procurar muito para passar a noite.
Reservei duas noites no hotel. Ontem foi véspera de Natal e passei-o sozinho no meu quarto Executive a ver canais para adultos. Aborreci-me de tanta carne e de tantos gemidos e comecei a fazer zapping. Parei num canal chinês e descobri que o mandarim tem um efeito relaxante em mim, principalmente quando é falado por mulheres pivot de pele reluzente. A minha mulher trabalha numa seguradora e deixou-me no último Verão. Levou o nosso filho com ela e está a viver em casa dos pais.
Hoje é a minha última noite. Para ser honesto, estou a gostar de estar sentado ao balcão deste bar, enquanto me vejo ao espelho a beber Jim Beam. O barman ainda não pegou ao serviço, quem me serviu foi um dos recepcionistas que está agora a atender um casal de idosos. O velhote parece-se um pouco com o Burt Lancaster nos últimos anos. É aquele tipo de pessoas que inclina o queixo para a frente e olha por debaixo dos óculos quando escuta alguém.
Quando cheguei, estava apenas um tipo no balcão. Andava na casa dos quarenta, usava blazer e calças de bombazine verdes e estava a beber uma água com gás. Não tenho paciência para meter conversa com estranhos, mas era Natal, estava cheio de fé e boa vontade nos homens e apetecia-me tagarelar um pouco. O sujeito pareceu-me inofensivo.
- Mais um Natal que passou, estamos quase no ano novo - disse estupidamente.
Ele virou a cabeça e sorriu.
- É verdade, o tempo voa. Quando damos por ela, já estamos ali como o casal de jovens que chegou agora.
Foi a minha vez de retribuir o sorriso.
- O importante é viver um dia de cada vez, não é assim? - eu estava verdadeiramente inspirado.
O sujeito estendeu o braço e ajeitou o banco.
- Chamo-me Orlando, muito gosto.
- Óscar C*. Os nossos nomes começam por "O". Não é muito comum.
Ele voltou a sorrir e acabou a água.
- Reparei que anda a água com gás, abusou das iguarias ontem à noite?
- Nem por isso. Estou um pouco nervoso. Estou à espera de uma pessoa.
- Ah, ok. Não...
O Blackberry que estava em cima do balcão começou a vibrar e apareceu "Julia" no ecrã azul.
- Com licença.
Ele pegou no pda e dirigiu-se para o lobby. Atendeu em voz baixa.
Comecei a tremer e bebi num trago o uísque que ainda tinha no copo. Não perdeu tempo a miserável, já anda à caça. Passei a mão pelo cabelo e corri para a casa de banho. Como é que é possível? Ela também conhece o hotel. De repente, tudo ficou vermelho, a roupa começou a fazer-me comichão. Dei o pontapé da praxe numa das portas do WC. Deveria ter subido para o meu quarto, que idiota. Olhei-me ao espelho e molhei a cara. Inspirei fundo. Isto é um sinal. É a prenda do menino Jesus, foste um bom rapaz ao longo do ano e agora aqui tens a tua recompensa. Tu mereceste. Resolvi sair e enfrentar aquilo, não podia ficar ali a vida toda, afinal até poderia ser outra Júlia, há muitas Júlias neste mundo. Abri a porta.
Ela estava de costas. O tipo desviou o olhar e acenei-lhe cordialmente com a cabeça. Dirigi-me para o elevador e premi no 5. Enquanto esperava, olhei para trás. Não era ela.
Entrei no elevador e deixei sair um traque de alívio ao som do Jingle Bells.
Reservei duas noites no hotel. Ontem foi véspera de Natal e passei-o sozinho no meu quarto Executive a ver canais para adultos. Aborreci-me de tanta carne e de tantos gemidos e comecei a fazer zapping. Parei num canal chinês e descobri que o mandarim tem um efeito relaxante em mim, principalmente quando é falado por mulheres pivot de pele reluzente. A minha mulher trabalha numa seguradora e deixou-me no último Verão. Levou o nosso filho com ela e está a viver em casa dos pais.
Hoje é a minha última noite. Para ser honesto, estou a gostar de estar sentado ao balcão deste bar, enquanto me vejo ao espelho a beber Jim Beam. O barman ainda não pegou ao serviço, quem me serviu foi um dos recepcionistas que está agora a atender um casal de idosos. O velhote parece-se um pouco com o Burt Lancaster nos últimos anos. É aquele tipo de pessoas que inclina o queixo para a frente e olha por debaixo dos óculos quando escuta alguém.
Quando cheguei, estava apenas um tipo no balcão. Andava na casa dos quarenta, usava blazer e calças de bombazine verdes e estava a beber uma água com gás. Não tenho paciência para meter conversa com estranhos, mas era Natal, estava cheio de fé e boa vontade nos homens e apetecia-me tagarelar um pouco. O sujeito pareceu-me inofensivo.
- Mais um Natal que passou, estamos quase no ano novo - disse estupidamente.
Ele virou a cabeça e sorriu.
- É verdade, o tempo voa. Quando damos por ela, já estamos ali como o casal de jovens que chegou agora.
Foi a minha vez de retribuir o sorriso.
- O importante é viver um dia de cada vez, não é assim? - eu estava verdadeiramente inspirado.
O sujeito estendeu o braço e ajeitou o banco.
- Chamo-me Orlando, muito gosto.
- Óscar C*. Os nossos nomes começam por "O". Não é muito comum.
Ele voltou a sorrir e acabou a água.
- Reparei que anda a água com gás, abusou das iguarias ontem à noite?
- Nem por isso. Estou um pouco nervoso. Estou à espera de uma pessoa.
- Ah, ok. Não...
O Blackberry que estava em cima do balcão começou a vibrar e apareceu "Julia" no ecrã azul.
- Com licença.
Ele pegou no pda e dirigiu-se para o lobby. Atendeu em voz baixa.
Comecei a tremer e bebi num trago o uísque que ainda tinha no copo. Não perdeu tempo a miserável, já anda à caça. Passei a mão pelo cabelo e corri para a casa de banho. Como é que é possível? Ela também conhece o hotel. De repente, tudo ficou vermelho, a roupa começou a fazer-me comichão. Dei o pontapé da praxe numa das portas do WC. Deveria ter subido para o meu quarto, que idiota. Olhei-me ao espelho e molhei a cara. Inspirei fundo. Isto é um sinal. É a prenda do menino Jesus, foste um bom rapaz ao longo do ano e agora aqui tens a tua recompensa. Tu mereceste. Resolvi sair e enfrentar aquilo, não podia ficar ali a vida toda, afinal até poderia ser outra Júlia, há muitas Júlias neste mundo. Abri a porta.
Ela estava de costas. O tipo desviou o olhar e acenei-lhe cordialmente com a cabeça. Dirigi-me para o elevador e premi no 5. Enquanto esperava, olhei para trás. Não era ela.
Entrei no elevador e deixei sair um traque de alívio ao som do Jingle Bells.
quinta-feira, dezembro 23, 2010
sexta-feira, dezembro 17, 2010
segunda-feira, dezembro 13, 2010
O galo e a mulher

Ilustração de Miguel Moreira
A uma certa mulher do Vale das Vadias meteu-se-lhe-me-lhan-te ideia na cabeça que nada nem ninguém (nem mesmo o Primeiro-Ministro dissuasor da vizinha Crimeia) conseguia demovê-la-tu das suas graníticas ideias. A senhora
[Cai neve. Lá fora, dois homens de mãos nos bolsos dão pontapés nos bicos das botas para aquecerem os pés.]
que já tinha uma idadezinha desejou ter mais filho. Lembrou-se então que já não podia perfilhar, mas lembrou-se logo a seguir que quando era mais nova teve uma crise aguda de amenorreia e que a sua falecida mãe que se chamava Deusatenha lhe deu
[Neve. Homens nos bolsos dão botas para aquecerem os pés.]
arroz de cabidela durante uma semana e uma hora. Graças a este regime absolutista, ficou curada e teve uma carrada de filhos. Sorriu com a lembrança e resolveu seguir o conselho da sua mãe. No sábado, levantou-se de manhãzinha cedo e foi ao mercado comprar um galo. Aproveitou e comprou também um livrinho muito usado do Ambrósio Birça para ler antes de ir para a cama. Quando chegou a casa, instalou o galo bem
[Dois homens dão pontapés nos bicos.]
instalado na velha capoeira e esfregou as mãos não-de-contente, mas porque nevava e estava um frio de rachar a julgar pelos homens de mãos nos bolsos. Todos os dias a mulher dava milho ao galo. Um dia lembrou-se que seria bom ter leite nas mamas para amamentar o filho que vinha a caminho. Antes de ler Ambrósio Birça, começou a dar leite de cabra ao galo, todas as noites. O galo cresceu, cresceu, cresceu até não caber mais na capoeira. A mulher apegou-se ao galozão e deixou de ter coragem para o matar. Encolheu os ombros e disse:
[Bicos]
- O filho terá de ficar para outra altura.
domingo, dezembro 12, 2010
quarta-feira, dezembro 08, 2010
Violante (exercícios de estilo queneanos)
Subjectivo
Recordo-me bem da sra. Violante. Ela servia o melhor café da cidade. Era muito obsequiosa e usava catogan que lhe dava um ar mais novo. Isto a propósito de quê? Na semana passada, encontrei o sr. Urso que me disse ao ouvido que a sra. Violante tinha sido miss Suíça e que fora destronada porque foi apanhada na cama com a dama de honor num quarto do Ritz. O sr. Urso toca lira e orgulha-se de ser o cliente mais antigo do café-boutique onde ainda trabalha a sra. Violante. Não sei em que hei-de acreditar. Fala-se muito dos outros nesta cidade. Como se não bastasse, os colarinhos engomados do sr. Urso não me saem da cabeça. Como é que ele consegue?
Informativo
A sra. Violante é empregada de mesa no Grand Café. O sr. Urso conhece a sra. Violante. De acordo com as últimas declarações do sr. Urso, a sra Violante foi miss Suíça em 1947. O Sr. Urso toca lira nos tempos livres e frequenta o Grand Café desde 1951, o que o torna no terceiro cliente mais antigo deste famoso estabelecimento até à data.
Em duplicado
Recordo-me e lembro-me perfeitamente bem da sra. dona Violante. O melhor e o mais saboroso café da cidade e da urbe é servido e trazido pela sra. dona Violante. Ela, a senhora, era sempre e todos os dias muito amável e obsequiosa e usava e trazia um carrapito e um catogan que lhe dava e lhe conferia um ar mais jovem, mais novo. Na anterior e passada semana, deparei-me e encontrei o sr. dom Urso que me cochichou e segredou que a sra. Violante tinha ganho e vencido o concurso de miss Suíça Helvécia e que fora destituída e exonorada por ter sido apanhada e surpreendida na cama e no leito com a dama de honor e de honra num aposento e quarto do Ritz. As golas e os colarinhos engomados e com goma do sr. dom Urso intrigam-me e atiçam-me a curiosidade.
Litote
Ainda não me esqueci da sra. Violante. O café menos mau da cidade era servido por ela de uma forma muito pouco rude. A sra. Violante não dispensa o seu catogan que lhe dá um ar menos velho. Sem ser nesta semana, na outra, não evitei dar de caras com o sr. Urso que não se fez rogado e disse-me que a sra. Violante não perdeu o concurso de Miss Suíça quando resolveu concorrer. Não se coibiu de dizer ainda que ela não chegou a terminar o seu reinado, pois não conseguiu escapar a um episódio menos feliz que se passou no Ritz. Não consigo deixar de ficar deslumbrado com os colarinhos nada displicentes do sr. Urso.
Assombro
Ah a sra. Violante! Meu Deus, o café incrível que ela fazia e servia! Que maravilha de café! Já para não falar da sua simpatia! E o que dizer daquele catogan que a fazia mais menina e moça! E adivinhem lá quem é que encontrei a passear na baixa faz hoje uma semana?! Nada mais nada menos do que o sr. Urso! Que figura é este homem! Ah vocês nem imaginam o que me contou! Disse-me ao ouvido de que sra Violante já foi miss! Miss, vejam lá isto! E sabem o que ele me disse mais? Que ela foi apanhada na cama com outra mulher que era nem mais nem mais do que...a sua dama de honor! Quem diria hein? E logo no Ritz! No Ritz, senhores! Ah com o disse-que-disse que há nesta cidade já não sei em quem acreditar! Ah mas o homem sabe aprumar-se! Aqueles colarinhos! Oh minha santa Eufémia, aqueles colarinhos!
Mots-valise
A sra. Violantada de mesa no Grandcafe. Usa catoganha simpatias. O sr Ursobretudo conhecestima a sra. Violantada de mesa. Dacordo com o sr. Ursobretudo, a sra Violantada foi missuíça quandovem. O Sr. Ursobretudo toclira e frequenta e um o Grandcafe, sendo um dos clientigos. Usa colarigomados.
Profecia
O dia em que se servirá um café mais saboroso do que aquele que a sra. Violante serve está próximo! Nesse dia, a sra. Violante deixará de usar catogan, rapará o cabelo e jamais sairá de casa. Haverá tumultos, as pessoas sairão às ruas, cabeças de inocentes irão rolar.
Não é tudo. Irás encontrar um homem que já não vês há muito, muito tempo. Esse homem irá trazer vestido um enorme sobretudo feito de pele de urso pardo e irá contar-te um segredo terrível que não poderás partilhar com ninguém, ou a mais terrível das tragédias abater-se-á sobre ti e sobre aqueles que amas.
Revista feminina
Violant tinha agora consciência do seu valor. Sentia as suas reservas de auto-estima a voltarem ao normal. Sabia que o Grand Café gravitava em torno de si e que o dono, esse chauvinista, precisava dela. De vez em quando, o seu ex vinha ao café com a conquista do mês para a provocar. Violante desprezava-o com todas as forças do seu ser. Não era tanto pela figura que ele fazia, mas por ter sido parva ao ponto de se ter casado com aquele homem. Ah Violant, Violant...
Na semana passada, encontrei o misterioso Monsieur U a deambular pelos Champs Elysées. Que flaneur me saiu este Monsieur U! Monsieur U trabalha num gabinete de arquitectura paisagística para os lados de La Défense e costumo encontrá-lo às sextas, no Grand Cafe, a beber o seu daiquiri. Cumprimentou-me efusivamente, mais do que o nosso grau de intimidade podia permitir, agarrou-me no braço e disse-me que tinha algo para me contar sobre a nossa querida Violant.
(continua no próximo número da Cosmopolitan)
Recordo-me bem da sra. Violante. Ela servia o melhor café da cidade. Era muito obsequiosa e usava catogan que lhe dava um ar mais novo. Isto a propósito de quê? Na semana passada, encontrei o sr. Urso que me disse ao ouvido que a sra. Violante tinha sido miss Suíça e que fora destronada porque foi apanhada na cama com a dama de honor num quarto do Ritz. O sr. Urso toca lira e orgulha-se de ser o cliente mais antigo do café-boutique onde ainda trabalha a sra. Violante. Não sei em que hei-de acreditar. Fala-se muito dos outros nesta cidade. Como se não bastasse, os colarinhos engomados do sr. Urso não me saem da cabeça. Como é que ele consegue?
Informativo
A sra. Violante é empregada de mesa no Grand Café. O sr. Urso conhece a sra. Violante. De acordo com as últimas declarações do sr. Urso, a sra Violante foi miss Suíça em 1947. O Sr. Urso toca lira nos tempos livres e frequenta o Grand Café desde 1951, o que o torna no terceiro cliente mais antigo deste famoso estabelecimento até à data.
Em duplicado
Recordo-me e lembro-me perfeitamente bem da sra. dona Violante. O melhor e o mais saboroso café da cidade e da urbe é servido e trazido pela sra. dona Violante. Ela, a senhora, era sempre e todos os dias muito amável e obsequiosa e usava e trazia um carrapito e um catogan que lhe dava e lhe conferia um ar mais jovem, mais novo. Na anterior e passada semana, deparei-me e encontrei o sr. dom Urso que me cochichou e segredou que a sra. Violante tinha ganho e vencido o concurso de miss Suíça Helvécia e que fora destituída e exonorada por ter sido apanhada e surpreendida na cama e no leito com a dama de honor e de honra num aposento e quarto do Ritz. As golas e os colarinhos engomados e com goma do sr. dom Urso intrigam-me e atiçam-me a curiosidade.
Litote
Ainda não me esqueci da sra. Violante. O café menos mau da cidade era servido por ela de uma forma muito pouco rude. A sra. Violante não dispensa o seu catogan que lhe dá um ar menos velho. Sem ser nesta semana, na outra, não evitei dar de caras com o sr. Urso que não se fez rogado e disse-me que a sra. Violante não perdeu o concurso de Miss Suíça quando resolveu concorrer. Não se coibiu de dizer ainda que ela não chegou a terminar o seu reinado, pois não conseguiu escapar a um episódio menos feliz que se passou no Ritz. Não consigo deixar de ficar deslumbrado com os colarinhos nada displicentes do sr. Urso.
Assombro
Ah a sra. Violante! Meu Deus, o café incrível que ela fazia e servia! Que maravilha de café! Já para não falar da sua simpatia! E o que dizer daquele catogan que a fazia mais menina e moça! E adivinhem lá quem é que encontrei a passear na baixa faz hoje uma semana?! Nada mais nada menos do que o sr. Urso! Que figura é este homem! Ah vocês nem imaginam o que me contou! Disse-me ao ouvido de que sra Violante já foi miss! Miss, vejam lá isto! E sabem o que ele me disse mais? Que ela foi apanhada na cama com outra mulher que era nem mais nem mais do que...a sua dama de honor! Quem diria hein? E logo no Ritz! No Ritz, senhores! Ah com o disse-que-disse que há nesta cidade já não sei em quem acreditar! Ah mas o homem sabe aprumar-se! Aqueles colarinhos! Oh minha santa Eufémia, aqueles colarinhos!
Mots-valise
A sra. Violantada de mesa no Grandcafe. Usa catoganha simpatias. O sr Ursobretudo conhecestima a sra. Violantada de mesa. Dacordo com o sr. Ursobretudo, a sra Violantada foi missuíça quandovem. O Sr. Ursobretudo toclira e frequenta e um o Grandcafe, sendo um dos clientigos. Usa colarigomados.
Profecia
O dia em que se servirá um café mais saboroso do que aquele que a sra. Violante serve está próximo! Nesse dia, a sra. Violante deixará de usar catogan, rapará o cabelo e jamais sairá de casa. Haverá tumultos, as pessoas sairão às ruas, cabeças de inocentes irão rolar.
Não é tudo. Irás encontrar um homem que já não vês há muito, muito tempo. Esse homem irá trazer vestido um enorme sobretudo feito de pele de urso pardo e irá contar-te um segredo terrível que não poderás partilhar com ninguém, ou a mais terrível das tragédias abater-se-á sobre ti e sobre aqueles que amas.
Revista feminina
Violant tinha agora consciência do seu valor. Sentia as suas reservas de auto-estima a voltarem ao normal. Sabia que o Grand Café gravitava em torno de si e que o dono, esse chauvinista, precisava dela. De vez em quando, o seu ex vinha ao café com a conquista do mês para a provocar. Violante desprezava-o com todas as forças do seu ser. Não era tanto pela figura que ele fazia, mas por ter sido parva ao ponto de se ter casado com aquele homem. Ah Violant, Violant...
Na semana passada, encontrei o misterioso Monsieur U a deambular pelos Champs Elysées. Que flaneur me saiu este Monsieur U! Monsieur U trabalha num gabinete de arquitectura paisagística para os lados de La Défense e costumo encontrá-lo às sextas, no Grand Cafe, a beber o seu daiquiri. Cumprimentou-me efusivamente, mais do que o nosso grau de intimidade podia permitir, agarrou-me no braço e disse-me que tinha algo para me contar sobre a nossa querida Violant.
(continua no próximo número da Cosmopolitan)
segunda-feira, dezembro 06, 2010
quinta-feira, novembro 25, 2010
A um passo do reconhecimento internacional
Conseguir inserir aqui um snippet de um fantrágico tradutor automático (ver em baixo).
Convertam qualquer texto em inglês. Já em russo parece-me bem.
Convertam qualquer texto em inglês. Já em russo parece-me bem.
quarta-feira, novembro 24, 2010

Com a participação do ilustrador do Des Petits Morts (ver acima) e subsecretário da Subcomissão para a Forma, a Graça e a Cócega do Ilustre Colégio de Patafísica do Porto, Miguel Moreira.
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