quarta-feira, novembro 23, 2011

O camionista


Encostou o camião e saiu da cabina como se estivesse com o rabo a arder. Levou as duas mãos à barriga e desceu a vala que separava a via dos campos. Encheu o peito de estrume e tirou o maço de tabaco que estava no bolso da camisa. Pôs-se a olhar para as vacas e para os vitelos que de vez em quando rodavam a cabeça e agitavam a cauda. O fumo do cigarro subia a direito, não havia ponta de vento. Voltou a encher o peito de estrume. Estava no meio da Estremadura espanhola. Agachou-se como um aborígene e pegou com os dedos num tractor que rasgava a terra ao longe. Sentiu o sol do Outono a acaraciar-lhe o rosto e fechou os olhos. Pensou como seria ser enterrado ali num dia bonito como o de hoje. Atirou a beata e cuspiu em cima de um rebento.
- Não me dou com gente.
Saltou a vala e entrou no camião. Uma carrinha branca passa por ele a grande velocidade e buzina duas vezes. Agarra o volante e olha para debaixo do tablier. O cão moribundo olha para ele. Roda a chave e o arranque do motor faz tremer a cabina. O tapete está coberto de sangue.

sexta-feira, novembro 18, 2011

quinta-feira, novembro 17, 2011

História dos Pedros



O que é que vocês andam a fazer Pedro I, Pedro da Silveira, Pedro Maria da Rocha Cunha e Serra, Pedro Gambôa, o que é que vocês andam a fazer Pedro Pan, Pedro Fonda, Pedro Doherty, Pedro Frampton, Pedro Illyich Tchaikovsky, o que é que vocês andam a fazer Pedro Gabriel, Pedro, O Grande, Pedro Ustinov, Pedro Paulo Rubens, Pedro Parker, Pedro Jackson, Pedro Falk, o que é que vocês andam a fazer Pedro O'Tool, Pedro Cech, Zé Pedro dos Xutos, O que é que vocês andam a fazer Pedro Álvares Cabral, São Pedro, Pedro Homem de Melo, Pedro António Correia Garção, Pedro Barbosa, Pedro Laureano Mendonça da Silveira, Pedro Lopes Martins, Pedro Miranda Albuquerque, Pedro Mexia, o que é que vocês andam a fazer Pedro Oom, Pedro Sena-Lino, Pedro Tamen, o que é que vocês andam a fazer Pedro Sellers, Pedro Clodt von Jürgensburg, Pedro Almodovar, Pedro Louÿs, hein, o que é que vocês andam a fazer?

(tradução livre qb do original de Jean-Michel Espitallier)

terça-feira, novembro 15, 2011

O homem-bala


O homem-bala, antes de ser o incrível homem-bala de que toda a gente fala, desejou ardentemente ser anjo e alguns dizem que até chorou lágrimas de sangue para que Deus Misericordioso fizesse a sua vontade. Deus Obsequioso tomou conhecimento do desejo do homem-bala, mas teve de adiar pois estava a dar formação no Colégio Superior dos Palotinos das Cabeças Exaltadas, em Doaula. Com o nervoso a trabalhar, mandibulou muitas galinhas e enfardou muito arroz de tamboril para se acalmar.
- Do que me serve andar assim? - pensou.
Assumiu a sua vocação, desceu das nuvens e resolveu ser o que os seus pais queriam que ele fosse. A sua mulher - tinha medo dela - queria que ele fosse faroleiro. O que ela realmente queria era passar mais tempo com o dono do circo que era seu amante. Nos primeiros anos de casamento, o homem-bala adorava passear de braço dado com ela, calcorreavam mil passos pelas cidades e vilas por onde passavam. Agora, nem por isso. As más-línguas dizem que o Eliseu, o dono do circo, a seduziu com dentes de ouro e a promessa de uns peitinhos maiores. Pouco a pouco, o homem-bala e a mulher deixaram de se trepar. O seu casamento não era mais do que um triste e arrastado ajoujo.
O homem-bala refugiou-se no seu trabalho, no seu velho canhão. Escorraçou Kant, o elefante que lá vivia, tirou à pá os excrementos que o paquiderme tinha deixado e começou a treinar arduamente. Em breve, estaria de volta! Em breve, iria reviver a emoção do primeiro dia, do primeiro mergulho nos ares, iria ouvir os "aahh"s, os gritos do público.
O Canhão da Morte eleva-se, todos sustêm a respiração, o bombo ensurdecedor, o Homem-Bala leva as mãos às suas bolinhas arménias e fecha os olhos.

Artaud, o bispo



















"Methuselah" de Jean Painlevé

sexta-feira, novembro 11, 2011

Prole idiota

Um dos meus maiores medos é vir a ter um filho idiota ou arrogante, pelo que frequento regularmente cartomantes certificadas que me lêem a palma da mão:
- o seu filho irá ser inteligente como o pai, será belo como a mãe, terá as mãos grandes e vai ser muito forte e generoso como a Sophia Loren no auge da carreira.
- o seu filho não irá esquecer-se do nome das pessoas que conheceu e tratará condignamente os pais, pois irá detestar cogumelos. Quem come cogumelos, fungos e almiscaros tende a ignorar os pais.
- o seu filho não será ludibriado por vendedores porta a porta que se fazem passar por exterminadores de pragas.
- o seu filho poderá muito bem entreter e contar belas histórias a familiares de doentes em fase terminal em salas de esperas de hospitais públicos sem ser insensível ou inoportuno ou invasivo.
- o seu filho nunca irá cuspir ou vomitar em público, excepto se lhe contar inadvertidamente que já leu Nicholas Sparks.
- o seu filho será campeão distrital de damão em Damão.
- o seu filho não será nem imbecil nem onicófago.

quinta-feira, novembro 10, 2011


segunda-feira, outubro 31, 2011

sexta-feira, outubro 28, 2011

Série Xoodíaco - Ampulheta (02 Março-01 Abril)


 Desenho de Miguel Moreira

Os nativos deste signo fazem os possíveis para serem funcionários exemplares. Nunca se atrasam nem nunca se adiantam e raramente pedem atestados médicos para poderem repousar uma ou duas semanitas. As suas qualidades laborais são incomparáveis. Se as contas da sua empresa estiverem nas mãos de um Ampulheta, é provável que o barco ainda se aguente por mais algum tempo antes de ir completamente ao fundo (a insolvência da empresa foi provocada por “clientes que se esqueceram de pagar a cento e trinta dias - o conselho de administração oral fez tudo o que estava ao seu alcance para salvar a empresa”). Nunca fazem horas extraordinárias, porque:
1. Não foi isso o combinado quando foi contratado

2. Não precisam de o fazer, dado que são muito eficientes e proactivos.
Não se deixam enganar por promessas falaciosas de aumentos no final do ano e de pagamentos por fora. Quando a esmola é grande, o Amp. desconfia. Têm de ver a cor do dinheiro. O seu 11º Mandamento é:
 -Não aceitarás cheques pré-datados.
Uma das características mais vincadas dos Amp. é a sua obsessão por roupa. Mudam de camisa várias vezes ao dia e fervem de prazer quando o fazem. São capazes de perder a pose ao ponto de abraçar ou até roubar um beijo ao patrão se este usar um fato Armani ou Zegna. Não conseguem ver estafermos mal amanhados. Cuidado leitor! Não faça guizos de valor precipitados, trata-se de uma maleita hereditária. Uma boa parte da população Amp. sofre da síndrome de Brummel: a sua visão filtra naturalmente criaturas mal vestidas ou fora de moda. A sua sensibilidade face à indumentária faz pandam com a sua indiferença perante os que não estão na moda. À noite, veste o robe de seda e fuma a sua cigarrilha blasé, encarnando um Decadentismo algo mascavado.
O Amp. tem a perfeição no gesto, é muito equilibrado nas suas escolhas. É enfadonhamente previsível e tem horror a imprevistos. Se gostou da organização de certa agência de viagens, será seu cliente até morrer, ainda que a Benidortour organize sempre pacotes turísticos para o mesmo destino, todos os anos. Se apreciou o atendimento de um restaurante recomendado por um amigo (que nunca mais lá voltou), é bastante provável que leve lá a namorada ou esposa todas as semanas do ano (para grande regozijo da consorte). 
Vê-se como uma espécie de vedeta e modelo a seguir no seu pequeno mundo. É uma forma semi-inconsciente de se desligar da sua realidade pequeno-burguesa. Selecciona cuidadosamente o seu círculo de amigos. Categoriza-os de acordo com a sua idade, peso e estatuto social. Gosta de ler revistas femininas que incluam amostras de perfumes e devora best-sellers de capas lustrosas. Não perde uma única comédia romântica e fica sempre muito admirado com a realização de ciclos de cinema independente – “quem é que no seu perfeito juízo pode patrocinar aquilo e, pior ainda, quem é que ainda tem paciência para ver aquilo?”.

terça-feira, outubro 25, 2011

Machine Gun,
The Commodores

sexta-feira, outubro 14, 2011

Um homem crescido


Um homem crescido não pode beber demais, um homem crescido não pode beber demenos. Caso contrário e, se todos os presentes concordarem, tudo isto poderá acontecer:
- na hora opressiva da siesta, o homem crescido pode abrigar-se numa cesta e adormecer. Se alguém tocar uma melodia melíflua, o homem pode muito bem sair da cesta e dançar ao som da flauta. Com os olhos semi-fechados, faz movimentos ondulantes com o torso e, de vez em quando, põe a língua de fora, sem nunca sair da cesta. A melodia chega ao fim, o homem crescido recolhe-se e continua a sua siesta.
Na verdade, o homem crescido não está a dormir, está a espreitar pelo vime e aguarda que todos regressem a casa. O homem crescido está cheio de vergonha. Mas a vergonha passa e dá lugar à solidão que é a sua fiancée.


quinta-feira, outubro 13, 2011

Money
Flaming Lips (feat. Henry Rollins)

segunda-feira, outubro 03, 2011


sexta-feira, setembro 30, 2011

30 de Setembro - Dia da Tradução


http://mox.ingenierotraductor.com/

terça-feira, setembro 27, 2011

O Génio da Lâmpada Eco

 
- Onde é que estou, meu Deus? O que me aconteceu?
Barcelo estava estendido no chão, agarrado ao lençol, ao lado da cama. À sua frente estava um homem enorme de pele azulada. O homem usava apenas um colete e calças largas. Tinha um carrapito e sobrancelhas grossas que lhe davam um ar ameaçador.
- Quem é você? O que faz no meu quarto? - perguntou Marcelo.
O estranho abanou com a cabeça, acusando sinais de desilusão ou talvez de alguma impaciência.
- Sou o Génio da Lâmpada, meu amo. Estou ao seu dispor. Concedo-lhe não um, não dois, mas três desejos. Não aceito desejos acumuláveis de outros génios, nem 3-desejos-em-1. Seja directo e preciso, e evite pedidos ambíguos. Estou às suas ordens, meu Amo.
Farcelo coçou o cocuruto e levantou-se. O Génio da Lâmpada era duas vezes maior do que ele.
- Não acredito em Génios, caro senhor. Acredito em trabalho duro, acredito no sacrífício de levantar cedo todos os dias e trabalhar até de madrugada. É nisto que acredito.
- Sou o Génio da Lâmpada Económica, meu Amo. Posso conceder-lhe três desejos, desde que não ultrapassem o plafond de três mil euros.
Tarcelo começou a fazer contas de cabeça, esboçou um sorriso na parede para o apagar logo de seguida.
- Muito bem! Vou formular o meu primeiro desejo. Quero que as vigas do meu tecto deixem de ter caruncho e quero-as envernizadas como as maçãs vermelhas do supermercado!
- Plim. Já está, meu Amo. Qual é o seu segundo desejo?
Zarcelo olhou para o tecto e sentiu um desejo enorme de trincar as vigas de madeira. Sentiu-se como daquela vez em que encontrou a sua carteira de pele que julgava perdida há muito.
- Desejo que as crianças não me atirem pedras nem berlindes no meu caminho de regresso a casa.
- Plim plim. Meu Amo. Como se trata de um desejo que não pode ser comprovado neste momento, peço ao meu Amo para acreditar na minha palavra de Génio. E qual é o seu último desejo, meu Amo?
Carcelo arrependeu-se mal acabou de pedir o desejo. Se pudesse, teria pedido ao Génio para lhe dar duas belas mulheres. A pele de uma das mulheres teria o doce aroma de cebola caramelizada e trataria da lida da casa. A outra irradiaria uma beleza pré-rafaelita e cozinharia iguarias para ele até ao fim da vida. Ambas adorariam jazz. Nem um nem outra seriam comunistas, e Sarcelo aceitaria pequenos ais, toleraria leves queixumes de emancipação, desde que cumprissem os seus deveres domésticos.
- O meu terceiro desejo...muito bem. Desejo que todos os meus livros sejam lidos por todos. E sempre que alguém sentir prazer ao ler determinada passagem, a sua cabeça deverá iluminar-se tal como um busca-polos quando é ligado a uma tomada com corrente alternada.
- Lamento Sire, mas nem eu tenho poderes para satisfazer o que me pede, nem o plafond acordado me permite concretizar esse desejo.
- Que dizes, Zoroastro? Diacho pró diacho!...Nesse caso, desejo saber qual foi o padrão que Joyce usou para escrever "Finnegans Wake".
- Plim plim plim.
O Génio elevou-se, deu duas voltas sobre si mesmo como fazem os cães antes de se deitarem e desapareceu sem deixar qualquer vestígio de pegada carbónica.

Darcelo levou as mãos à cabeça de tão pesada que estava. Sentia os olhos inchados e um prurido no nariz que lhe dava uma enorme vontade de o coçar. As mãos estavam manchadas com o sangue que escorria das orelhas. Começou a gemer e a ter convulsões horríveis. Não dizia coisa com coisa e nem Deus nem ninguém lhe puderam valer.

sexta-feira, setembro 23, 2011

Liam Brazier

Man Up

segunda-feira, setembro 19, 2011

O jogo

Sim, sou exuberante e espontâneo como um chimpazé que nunca foi baptizado nem crismado. Para celebrar o meu 49.º aniversário, resolvi comprar um apartamento num elegante e haussmaniano edifício na rua Jacques Cazotte com as poupanças de uma vida de borboleta. Convidei todos os meus amigos não declarados e todos os meus inimigos declarados. Estendi o convite à minha actual mulher que ainda se fez rogada por não a ter convidado primeiro. Tive de lhe prometer que lhe compraria um par de mitenes nos Campos Elíseos. Bom, adiante.  
Impus uma única condição que todos, sem excepção, deveriam respeitar: apenas poderiam entrar na minha nova casa se usassem peúgas e calzoncillos. Deste modo, todos estariam em pé de igualdade, por assim dizer. Chegaram todos à hora prevista (+ 1h GMT) e depois de trocarmos muitos elogios e selos raros (o Bauer ofereceu-me um incalculável selo da Namíbia com a efígie do Mr. T. da A-Team de 1985; em troca, dei-lhe o que ele tanto queria - um selo soviete de 50 kopecs com um Lenine jovem, ainda com cabelo), dirigimo-nos em fila indiana para a magnífica sala de estalar. Bebemos, fumámos puros jamaicanos, eu e os meus inimigos renovámos sagradas juras de animosidade. Propus um jogo. Cada um teria de ir à casa de ranho e cortar uma porção de pêlos púbicos. Os pêlos seriam queimados depois numa pequena pira dourada no centro da sala. Aquele que conseguisse fazer uma fogueira maior poderia ficar alojado um ano e um mês no meu apartamento. Bauer praguejou e foi-se embora. Esqueci-me que ele rapa os pêlos antes da chegada do Verão. Botello, que não conhecia Bauer, foi atrás dele. A maior labareda foi atribuída ao Gerlizten que, num acto de profunda comoção, atirou as peúgas e os calzoncillos pela janela fora, tapando-se logo com uma toalha de Vôtre-Dame. O meu amigo valenciano de longa data protestou - nunca me lembro do seu nome - alegando que os seus filiformes demoraram mais tempo a serem consumidos pelo fogo, infestando a casa com um forte cheiro a patatas bravas. Coube-me a mim, enquanto anfitrião e geriatra de renome, apurar o vencedor. Peguei na pira com as cinzas, dirigi-me à varanda e espalhei-as por Paris. Voltei para dentro, subi para cima da mesa, esbugalhei os olhos e ameacei quebrar a pira. O valenciano de cujo o nome não me lembro levantou-se e tentou impedir-me que cometesse tal acto:
- Dá-lhe a ele, dá-lhe a ele, por Dios! - gritou, a chorar.
Estava assim encontrado o nobre vencedor do jogo.

sexta-feira, agosto 26, 2011

Férias