quinta-feira, outubro 13, 2011

Money
Flaming Lips (feat. Henry Rollins)

segunda-feira, outubro 03, 2011


sexta-feira, setembro 30, 2011

30 de Setembro - Dia da Tradução


http://mox.ingenierotraductor.com/

terça-feira, setembro 27, 2011

O Génio da Lâmpada Eco

 
- Onde é que estou, meu Deus? O que me aconteceu?
Barcelo estava estendido no chão, agarrado ao lençol, ao lado da cama. À sua frente estava um homem enorme de pele azulada. O homem usava apenas um colete e calças largas. Tinha um carrapito e sobrancelhas grossas que lhe davam um ar ameaçador.
- Quem é você? O que faz no meu quarto? - perguntou Marcelo.
O estranho abanou com a cabeça, acusando sinais de desilusão ou talvez de alguma impaciência.
- Sou o Génio da Lâmpada, meu amo. Estou ao seu dispor. Concedo-lhe não um, não dois, mas três desejos. Não aceito desejos acumuláveis de outros génios, nem 3-desejos-em-1. Seja directo e preciso, e evite pedidos ambíguos. Estou às suas ordens, meu Amo.
Farcelo coçou o cocuruto e levantou-se. O Génio da Lâmpada era duas vezes maior do que ele.
- Não acredito em Génios, caro senhor. Acredito em trabalho duro, acredito no sacrífício de levantar cedo todos os dias e trabalhar até de madrugada. É nisto que acredito.
- Sou o Génio da Lâmpada Económica, meu Amo. Posso conceder-lhe três desejos, desde que não ultrapassem o plafond de três mil euros.
Tarcelo começou a fazer contas de cabeça, esboçou um sorriso na parede para o apagar logo de seguida.
- Muito bem! Vou formular o meu primeiro desejo. Quero que as vigas do meu tecto deixem de ter caruncho e quero-as envernizadas como as maçãs vermelhas do supermercado!
- Plim. Já está, meu Amo. Qual é o seu segundo desejo?
Zarcelo olhou para o tecto e sentiu um desejo enorme de trincar as vigas de madeira. Sentiu-se como daquela vez em que encontrou a sua carteira de pele que julgava perdida há muito.
- Desejo que as crianças não me atirem pedras nem berlindes no meu caminho de regresso a casa.
- Plim plim. Meu Amo. Como se trata de um desejo que não pode ser comprovado neste momento, peço ao meu Amo para acreditar na minha palavra de Génio. E qual é o seu último desejo, meu Amo?
Carcelo arrependeu-se mal acabou de pedir o desejo. Se pudesse, teria pedido ao Génio para lhe dar duas belas mulheres. A pele de uma das mulheres teria o doce aroma de cebola caramelizada e trataria da lida da casa. A outra irradiaria uma beleza pré-rafaelita e cozinharia iguarias para ele até ao fim da vida. Ambas adorariam jazz. Nem um nem outra seriam comunistas, e Sarcelo aceitaria pequenos ais, toleraria leves queixumes de emancipação, desde que cumprissem os seus deveres domésticos.
- O meu terceiro desejo...muito bem. Desejo que todos os meus livros sejam lidos por todos. E sempre que alguém sentir prazer ao ler determinada passagem, a sua cabeça deverá iluminar-se tal como um busca-polos quando é ligado a uma tomada com corrente alternada.
- Lamento Sire, mas nem eu tenho poderes para satisfazer o que me pede, nem o plafond acordado me permite concretizar esse desejo.
- Que dizes, Zoroastro? Diacho pró diacho!...Nesse caso, desejo saber qual foi o padrão que Joyce usou para escrever "Finnegans Wake".
- Plim plim plim.
O Génio elevou-se, deu duas voltas sobre si mesmo como fazem os cães antes de se deitarem e desapareceu sem deixar qualquer vestígio de pegada carbónica.

Darcelo levou as mãos à cabeça de tão pesada que estava. Sentia os olhos inchados e um prurido no nariz que lhe dava uma enorme vontade de o coçar. As mãos estavam manchadas com o sangue que escorria das orelhas. Começou a gemer e a ter convulsões horríveis. Não dizia coisa com coisa e nem Deus nem ninguém lhe puderam valer.

sexta-feira, setembro 23, 2011

Liam Brazier

Man Up

segunda-feira, setembro 19, 2011

O jogo

Sim, sou exuberante e espontâneo como um chimpazé que nunca foi baptizado nem crismado. Para celebrar o meu 49.º aniversário, resolvi comprar um apartamento num elegante e haussmaniano edifício na rua Jacques Cazotte com as poupanças de uma vida de borboleta. Convidei todos os meus amigos não declarados e todos os meus inimigos declarados. Estendi o convite à minha actual mulher que ainda se fez rogada por não a ter convidado primeiro. Tive de lhe prometer que lhe compraria um par de mitenes nos Campos Elíseos. Bom, adiante.  
Impus uma única condição que todos, sem excepção, deveriam respeitar: apenas poderiam entrar na minha nova casa se usassem peúgas e calzoncillos. Deste modo, todos estariam em pé de igualdade, por assim dizer. Chegaram todos à hora prevista (+ 1h GMT) e depois de trocarmos muitos elogios e selos raros (o Bauer ofereceu-me um incalculável selo da Namíbia com a efígie do Mr. T. da A-Team de 1985; em troca, dei-lhe o que ele tanto queria - um selo soviete de 50 kopecs com um Lenine jovem, ainda com cabelo), dirigimo-nos em fila indiana para a magnífica sala de estalar. Bebemos, fumámos puros jamaicanos, eu e os meus inimigos renovámos sagradas juras de animosidade. Propus um jogo. Cada um teria de ir à casa de ranho e cortar uma porção de pêlos púbicos. Os pêlos seriam queimados depois numa pequena pira dourada no centro da sala. Aquele que conseguisse fazer uma fogueira maior poderia ficar alojado um ano e um mês no meu apartamento. Bauer praguejou e foi-se embora. Esqueci-me que ele rapa os pêlos antes da chegada do Verão. Botello, que não conhecia Bauer, foi atrás dele. A maior labareda foi atribuída ao Gerlizten que, num acto de profunda comoção, atirou as peúgas e os calzoncillos pela janela fora, tapando-se logo com uma toalha de Vôtre-Dame. O meu amigo valenciano de longa data protestou - nunca me lembro do seu nome - alegando que os seus filiformes demoraram mais tempo a serem consumidos pelo fogo, infestando a casa com um forte cheiro a patatas bravas. Coube-me a mim, enquanto anfitrião e geriatra de renome, apurar o vencedor. Peguei na pira com as cinzas, dirigi-me à varanda e espalhei-as por Paris. Voltei para dentro, subi para cima da mesa, esbugalhei os olhos e ameacei quebrar a pira. O valenciano de cujo o nome não me lembro levantou-se e tentou impedir-me que cometesse tal acto:
- Dá-lhe a ele, dá-lhe a ele, por Dios! - gritou, a chorar.
Estava assim encontrado o nobre vencedor do jogo.

sexta-feira, agosto 26, 2011

Férias

quarta-feira, agosto 17, 2011

Fim de uma tarde de Verão


Uma daquelas avionetas com voz grave sobrevoa a praia com a seguinte faixa:

"Mantenha os velhos fora do alcance dos adul-"
 
Uma segunda avioneta vai no encalço da primeira e puxa a faixa seguinte:

"-tos. Resid. Geriátrica Velha Orleães. Para Grandes Males.."

O último ponto das reticências é o sol que se põe. 


- Ah sim, só morre na praia quem quer - disse o velho Barba Azul que segurava o neto pela mão.


quinta-feira, agosto 11, 2011



Gosto muito
daquilo que faço

Senti paixão
por todas as mulheres que
contracenaram comigo
ao longo destes anos


Tenho um pequeno grande coração
dentro do meu ganha-pão que
se apaixona à primeira vista.

Devemos mesmo de gostar
daquilo que fazemos.



Peter North,
"A North Pole Journey"

quarta-feira, agosto 03, 2011

Um aeroconto

Stairs ainda não tinha feito o pedido e já abanava com o pacote de açúcar que estava em cima do pires.
- Olhe, tire-me outro, por favor.
Stairs lembrou-se do recital de piano que a sua irmã tinha dado na véspera. Por mais que se esforçasse nem uma nota lhe vinha à cabeça. Olhou novamente para o painel das Partidas e Chegadas para confirmar o que já sabia de cor. Para além do número do voo, sabia o número do seu lugar, o ano de fabrico do Boeing no qual iria voar, o número máximo de passageiros, talvez até soubesse os nomes do piloto e do co-piloto. Bebeu o café num gole, sem saboreá-lo. Imaginou o seu avião como uma enorme borboleta tropical: bela, felpuda e inofensiva. Depois imaginou-o como um modelo gigantesco daqueles dumbos eléctricos que há nos shoppings para as crianças. Imaginou ainda pedaços da aeronave incinerados dispersos pela selva e um número de corpos já cobertos com lençóis brancos pelas equipas de socorro.
Fixou o olhar num homem que estava numa das filas de check-in. Não era gordo, mas a barriga acusava uma meia-idade desleixada. Usava uma camisa branca e tinha a testa reluzente de suor. Estava acompanhado por dois miúdos que deveriam ser seus filhos. O mais novo estava a escavar insistentemente o nariz com os dedos. O maior tinha as mãos à cintura como se fosse o super-homem. Estava claramente a usar a sua incrível visão raios-X nas malas.
- Vão morrer todos e não há nada que eu possa fazer - pensou Stairs.
O homem volta-se e olha na sua direcção como se tivesse adivinhado que estava a ser observado. Acena. Stairs fica pálido, sem saber o que fazer. Uma mulher passa a seu lado com 2 latas de Cola na mão. Stairs dedica a sua atenção aquele traseiro comedido em movimento. E, mais uma vez, não pode deixar de pensar no belo coral cheio de moreias e peixes-balão que aquele corpo maduro se vai transformar dentro de algumas horas.

sexta-feira, julho 22, 2011

Tolo

Mansun, "Fool"

segunda-feira, julho 18, 2011

Muito

Havia, não há muito tempo à frente, um homem que vivia com os seus num sopézarrão da maior colina da ilha de Réunion de Condo. O homem chamava-se Muito e era muito chamado por todos. Muito tinha muito gorgulho no seu enorme pomar de lapiseiras. Estas árvores crescem em climas quentes queridos e húmidos e dão lápis grandes e muito sucurápidos. As aparas são utilizadas no fabrico de capotas. Muito revezava ao seu santo, S. Jorge Martinica, p´ra que se abençoasse com muita força ao seu lenço de renda e p´ra que o sacudisse ainda com mais força sobre as suas árvores.
Muitas marés vazaram até que a verdade viesse à tona.
Muito tinha escravos ilegais que, todas as noites, aguçavam sem parar o fruto das lapiseiras, tornando os seus bicos afiados e luzidios, queimando grandes obras-primas afastadas para usar como fertilizante. Isto tudo, no maior e mais vil dos segregados. Lá mais para o fim, as condições em que viviam os escravos tornaram-se principescamente insuportáveis e desumanóides.
Os crimes de Muito foram revelados por um excravo que conseguira escapar e cantou lindamente toda a verdade. O excravo trabalha agora numa pequena plantação de cotão, e Muito, esse e não aquele, está a cumprir pena por tempo indeterminado num campo de trabalho forçado de peneiras.

segunda-feira, julho 11, 2011

Ossos de galinha

John Grant (feat. Midlake)

segunda-feira, julho 04, 2011

John Dumpling

O Chefe dos Correios era um bom homem e, contratudo e contralguns, não dispensou os serviços do seu velho colega e amigo de longa data, John Dumpling, que iria reformar-se dentro de 2 (dois) meses. John até já tinha comprado um baralho de cartas de amor para se entreter com os outros velhos debaixo da pérgula do jardim. Havia uma condição, porém! O Chefe dos Correios, quando não estava ocupado a ser um bom homem, era um pouco autista e muito jocoso, e o seu passatempo preferido era criar cláusulas enganosas ("jokers") e assim ludibriar...não, vamos usar outra palavra, e assim "fungar" as outras partes.
Dumpling não foi excepção: sempre que o velho carteiro entregasse um envelope escrito à mão, teria de dançar à frente do destinatário. O que o Chefe dos Correios não sabia é que Dumpling gostava muito da dançar e até considerou ser dançarino profissional depois de regressar da Guerra de San Marino.
Ou será que sabia? Se já como flor, agora já não há nada a fazer.

sexta-feira, julho 01, 2011

Monstros vitorianos

Losers "Flush"

quarta-feira, junho 29, 2011

"Dom Quijote"

Em vez de entrar no café-hostal de cujo o nome não quero agora lembrar-me, resolvi atravessar a carretera para conhecer o lar onde estava o meu avô. O autocarro tinha parado para os passageiros comerem algo e só arrancava dentro de meia-hora. Daqui a duas horas e meia estava em Granada. Tirei a última bolacha do pacote que tinha comprado em Madrid. A bolacha sabia a plástico e eu não tinha apetite, apenas queria ter um ar descontraído enquanto me aproximava do lar. Ao lado, havia uma estação de serviço abandonada. Um homem de camisa preta estava encostado a um Renault velho e parecia estar à espera de ser atendido. O homem era muito parecido com um Steven Seagal mais novo e mais magro, talvez.
A maioria dos passageiros ainda estava no café e parecia estar a decorrer lá dentro um concurso para ver quem conseguia falar mais alto. A mulher que viajava atrás de mim também descera do autocarro e estava a seguir-me com o olhar enquanto fumava. Usava um casaco de ganga cor-de-rosa e uns tacões altos que eram desproporcionais à sua altura. As suas rugas de quase meia-idade disfarçadas com creme e os papos à volta dos olhos não se viam deste lado da estrada.
A porta de entrada do lar estava ladeada por duas grandes ânforas. A fachada era branca e tinha canteiros de gerânios e pequenos cactos. Mais abaixo, à face da estrada, uma placa enorme dizia:


Residência Geriátrica "Dom Quijote"
Mensalidades que cabem no seu bolso
Dispomos de veículo próprio e enfermaria 24h
10% de Desconto no primeiro semestre
Telf. xxxxxxxxx


Assim que entrei, o ar ficou mais fresco, mas havia um forte cheiro a naftalina em todo o hall. Aproximei-me da porta de vidro que dava acesso ao salão principal. Já não via o meu avó há cinco anos, mas acho que o reconheceria se o visse. Não abri a porta e, através do vidro, tentei localizá-lo. Sem saber bem porquê comecei a contá-los. Vinte e um. Estavam sentados em elipse e estavam a encher balões coloridos de aniversário. Um deles parou de repente e olhou para mim. Dei um passo atrás. Não consegui distinguir se era um "ele" ou uma "ela". A pele do seu rosto parecia um favo de mel seco e tinha apenas uns fios brancos de cabelo. Todos deixaram de soprar e os que estavam de costas viram-se para trás com grande dificuldade. O silêncio foi quebrado por uma estupenda escarradela.
"Olá. Deseja alguma coisa?" - perguntou uma funcionária morena que parecia ter estado atrás de mim este tempo todo. Falava com sotaque sul-americano, era baixa e não tinha pescoço. O crachá que trazia ao peito dizia Dulcineia Gutierrez.
"Sim, procuro o meu avô."
"E como se chama o seu avô?"
"Alonso Hernandez. Ele tocava guitarra. Flamengo, essas coisas..."
"Senhor Hernandez, sim. Mas ele já não tocava guitarra. Entretinha-se nos últimos tempos a tocar um daqueles órgãos de brincar que um dos netos dos senhores se esqueceu aqui."
"Nos últimos tempos?..."
"Sim."
A moça não tinha pescoço nem expressão. Ficámos assim alguns instantes, a olhar um para o outro. Até que ela entrou no salão e fechou a porta. Saí e desci até à estrada que já deitava fumo aquela hora. Do outro lado da rua, o motorista estava a ver os pneus de trás, alguns passageiros já estavam cá fora. A mulher de casaco rosa tinha posto uns enormes óculos escuros. Ainda me virei para trás para voltar ao lar. O meu avô morreu. Não éramos chegados nem distantes. A minha mãe raramente falava dele.
Acendi um cigarro e caminhei até à bomba de gasolina. O chão estava coberto por manchas negras.
"!Hei, tio, que não podes fumar aqui, hei!"
Era o Steven Seagal a esbracejar. Ignorei-o e resolvi entrar no autocarro. A mulher do casaco cor-de-rosa apagou a sua cigarrilha com a sola e subiu atrás de mim. Sentou-se ao meu lado, pôs a mão no meu braço e disse-me algo que agora não quero lembrar-me.

sexta-feira, junho 24, 2011

Vida em xadrez

Mais novas jogadas xadrez aqui.

sexta-feira, junho 17, 2011

A cerca


Construí esta cerca para delimitar este pedaço de terra que não me pertence. Apropriei-me do ar, mas a terra não é minha. Comprei quarenta metros de rede em promoção com o subsídio e tinha simplesmente de a usar. Talvez venha a ser repreendido por isto, mas não me importa. Ser dono de algo é bom. Deus poderá não ter aprovado o meu acto, mas sei que sorriu às escondidas (para não dar um mau exemplo aos arcanjos, etc.). A prova é que nasceu uma planta muito exótica no meio do terreno. Parece uma avestruz com a cabeça enfiada na areia, mas o "penacho" é uma grande flor roxa-quaresma em forma de cruz latina. Deus abençoou-me por debaixo da mesa.

Uma vaca nem gorda-nem magra rumina junto à cerca todos os dias.


terça-feira, junho 07, 2011