sexta-feira, maio 20, 2011

Seres Imaginários e Mitológicos da Lapónia - I parte


O Bahááhpecizaš (ou "alle alle diabrete") é uma pequena ave mitológica que faz o ninho na cabeça dos lenhadores que adormecem à sombra de lariços ou pinheiros. É considerado um bom agoiro, sobretudo para lenhadores casados ou comprometidos. Estes têm por hábito guardar os ramos ou tufos do ninho numa caixa de pinho para que as suas mulheres lhes sejam sempre fiéis.


Se um lenhador perdido na floresta encontrar um Lulli Vuovderuoigu, bem pode saltar de alegria. O Lulli Vuovderuoigu ("cabrito-montês virado para o sul") indica sempre o Sul, tal como um pointer aponta para a presa. Há, porém, relatos de lenhadores que nunca mais foram vistos, talvez porque confundiram o Lulli Vuovderuoigu por um vulgar cabrito-montês. O animal mitológico ostenta uma distinta mancha branca em forma de L entre os chifres, enquanto que o vulgar cabrito-montês poderá exibir outras letras do alfabeto, mas nunca um L. O índice de analfabetismo dos lenhadores é um dos mais elevados na Lapónia.


Diz-se que a Ávlu Veahttačáhceguolli é a última encarnação da alma de uma bela jovem que cantava tristes melodias. O seu amante partiu rumo às grandes florestas do norte para nunca mais voltar. Um dia, a jovem não suportou o desgosto e atirou-se ao rio. O seu corpo nunca mais fora resgatado. A Ávlu Veahttačáhceguolli ("truta castanha que canta") salta para as pedras do rio e canta melodias de caixinha de música na esperança que apareça o seu jovem amante. Esta lenda deu origem aos famosos e curiosos "singing fish", artigos de decoração populares no norte da Europa e na América do Norte.


O Beana Bearjadat tem o pêlo preto e macio, e um focinho que parece estar sempre a sorrir. Apesar de roerem as botas de trabalho, os lenhadores gostam muito deste imponente cão mitológico. Aparece sempre às sexta-feiras, pelo crepúsculo, indicando o fim de uma semana de trabalho. É acarinhado pelos lenhadores, que têm por hábito deixar-lhe carne de rena seca na véspera. Antigamente, se o fabuloso cão não aparecesse, tal significaria que o patrão iria pedir ao lenhador contratado para trabalhar durante o fim-de-semana, o que - provavelmente - irritaria o lenhador.

quarta-feira, maio 18, 2011

Post em jeito de tweet:
ando a investigar no terreno a mitologia e as fábulas dos lenhadores do norte (inclui Lapónia ou Lappi em suomi) e centro da Finlândia.



Teaser em jeito de spoiler:
"O Gulo gulo atinge a maturidade sexual ao fim de um ano e pode acossar lenhadores incautos que tenham maus hábitos higiénicos. As típicas camisas de flanela axadrezadas indicam ao felpudo Gulo gulo que o lenhador não está receptivo aos bestiais intentos da criatura."

segunda-feira, maio 09, 2011

quinta-feira, maio 05, 2011

O melhor método




Schiller mantinha uma cesta de maçãs podres debaixo da secretária, pois gostava de sentir o seu cheiro quando escrevia poesia. Vítor Hugo entregava todas as suas roupas a um empregado, admoestando-o para NÃO lhe devolver a roupa até que ele (Hugo) terminasse o seu trabalho diário. Orhan Pamuk costumava despedir-se da mulher de manhã como se fosse para o emprego. Saía, caminhava alguns quarteirões e depois regressava a casa como se estivesse a chegar ao escritório. Devo dizer que tentei os métodos destes mestres e nenhum deles resultou, nem mesmo o do contramestre Raymond Queneau que, antes de se propor a escrever, tinha por hábito trincar às escondidas cebolas bravas em elevadores. "Se o elevador tiver grades corrediças, tanto melhor", dizia. "O abrir-e-bater violento das grades ajuda-me a pontuar, a arrebanhar orações (...) E se as pessoas me perguntam porque é que estou a chorar, descrevo uma novela medíocre que será o ponto de partida para a excelência que vou escrever".

segunda-feira, maio 02, 2011




Desenho do Mig para o texto "A Partida de Ténis".

terça-feira, abril 26, 2011




















Pedro e a lobotomia

segunda-feira, abril 25, 2011

25 Abril

Há uns tempos a esta parte que a celebração do 25 de Abril no Porto (e por esse país fora, decerto) tem sido para maiores de 55 anos. Os organizadores barram furiosamente a entrada a adolescentes, jovens adultos, etc. Excepto, claro, se forem pobres ressacados, palhaços a fazerem balões ou turistas acidentais que não sabem muito bem o que está a acontecer. Somente os velhos têm direito a assistir às comemorações de Abril na "praça da Liberdade". Nem sequer há MILFs, o que sempre dava um colorido à coisa. Há uns tempos a esta parte que o resto da população optar por ficar ordeiramente em casa, na praia ou nos shoppings a desfrutar do A/C e da liberdade mais do que adquirida.
Definitivamente, o 25 de Abril, não de um mas de vários capitães, já não ganha campeonatos há algum tempo. A memória do povo é muito curta e ingrata.

sexta-feira, abril 22, 2011

Spock




















Rauschenberg/Spock


O actor Leonard Nimoy não existe. É uma bem sucedida personagem interpretada por Spock, o vulcano. Spock é um Observador-Mor enviado há cerca de 150 anos pelo "Conselho Superior das Nações Unidas" do seu planeta. Spock já foi repreendido várias vezes pelos seus superiores por ter interferido no seu objecto de estudo ao longo da missão. Foi Spock quem segredou a palavra "sociologia" ao ouvido de Max Webber (e de Durkheim, talvez) estendendo a toalha à Perspectiva Simbólica Interaccionista ("os selfs são produtos sociais", etc.). Há ainda quem sustente que Spock não é mais do que um experiente Batedor que tem vindo a preparar terreno para uma expropriação da Terra por parte do seu povo. Nos anos 60, Spock optaria por adoptar uma imagem menos rígida, talvez influenciado pelo espírito da época. Tornou-se amigo de Rauschenberg, imiscuindo-se subtilmente em algumas produções do artista norte-americano que nunca reconheceu a sombra do vulcano no seu trabalho. No entanto, Spock viria a tornar-se conhecido pelo grande público através de uma outra arte.

terça-feira, abril 12, 2011

segunda-feira, abril 11, 2011



via, 2ªvia

sexta-feira, abril 08, 2011

A Verdade Profana


O Cisma do Extremo Ocidente

As preces do poderoso lobby dos emigrantes no Luxemburgo foram ouvidas. O Colégio dos Cardeais elegera finalmente um papa português. O povo rejubilou de alegria e o governo decretou três dias de festejos. Por quem os sinos dobram? Pelo novo papa que é português. Até a sineta da mais pequena capela reboou até estalar a última orelha do último aldeão. Até a Sininho de Pedro Pah tilintou de felicidade, embora ninguém conseguisse escutá-la, nem mesmo Pedro Pah, pois já contava com uma idade avançada. Mas logo a alegria se transformou em tristeza, de imediato os sorrisos se converteram em lágrimas como se os olhos das pessoas tivessem sido espremidos em espremedores de citrinos. O recém-eleito papa, Gregório XXX, tinha um irmão gémeo que também era ministro de Deus, o qual, furioso com o orgulho e a ingratidão do seu irmão de Roma, se auto-proclamou anti-papa do alto da torre da sua igreja matriz. Fragmentino I obteve o apoio importante dos leigos em part-time e dos catequistas a recibos verdes, prometendo-lhes contratos a termo e descontos para a caixa. O mundo católico dividiu-se, a unidade cristã foi quebrada. Passaram cinquenta anos sem que nada assim de relevante tivesse acontecido. Por fim, os dois irmãos papas chegaram a acordo naquele que ficou conhecido como o Concílio dos Papas de Sarrabulho.
(...)

"A Verdade Profana", Guisa Cruel Milho

segunda-feira, abril 04, 2011

Reflexão epistemológica

Este blogue já tem um tempinho; dura muito porque é feito em aço inox-304 e, por isso, posso meter água de vez em quando. Mas a que propósito vem este desabafo? Vejo muitas coisas feias enrebuçadas em capas e contra-capas brilhantes nos escapagates*. Portugal precisa rapidamente da intervenção do FLI - Fundo Literário Internacional. E quem me dera ser capitão-de-fragata. Volto já com um texto ofuscante.

* gosto de dizer esta palavra à moda de Setúbal.

terça-feira, março 29, 2011

Poe Poe Poe

Não gosto de guerras. Gosto de batalhas tipo Borodino ou Waterloo. Quando não tomo banho, os meus braços cheiram a caramelo. Gostaria de ver o homem a ir à Lua. Gostaria de ver o homem a combater a gravidade quando obrasse na Lua. O meu bisneto chamar-se-à Andy War Hole e será presidente dos EUA. Nunca fumei ópio. Amo Jane Austen. É um amor louco porque ela já morreu. Não gosto de gatos. Metzengerstein é o nome do um pastor alemão. Gosto de fazer amor comigo mesmo. Isso não é masturbar. Vou a consultas regulares de obstetrícia. Uma vez caí na Casa de Usher. A Casa de Usher, o melhor prostíbulo de cidade. Sonho muitas vezes com a minha mãe. Dou puns que cheiram a açafrão-das-Índias.

Este texto foi encontrado no bolso do casaco que Edgar Allan Poe trazia vestido quando o encontraram morto nas ruas de Baltimore. Como é sabido, as roupas não eram suas e a caligrafia não era a sua. No entanto, alguns estudiosos de Poe defendem que poderá tratar-se do último texto que o escritor norte-americano escreveu antes de morrer. A tradução é minha.

sábado, março 26, 2011

O arcanjo Micha'el

E, por fim, o arcanjo desceu sobre a terra. E ninguém tinha observado o jejum, nem amado a Deus sobre todas as coisas. E todos guardavam terríveis segredos e persona honrava pai e mãe.
Banqueiros e outros usuários ficaram com a cara feita em manteiga da vaca que foi coberta várias vezes. A meretriz coxa voltou a andar e chorou lágrimas de lagartixas, porque nunca tinha visto um crocodilo. Ao ver o arcanjo a avançar sobre eles, padres e paladinos de distintas prelaturas entesoaram-se sem fazer cerimónia - não sem antes olharem para trás - e assim ficaram até serem chamados por Deus. Funcionários públicos foram resgatados pelo arcanjo e encaminhados para filas sem fim para as portas do Purgatório. Excepto os das casas de banho públicas das grandes babilónias - o bom Deus reservara há muito um lugar a Seu lado para esses mártires. Os cegos voltaram a ver e os seus acordeões miseráveis foram destruídos. E os velhos mestres cátedras e os eloquentes comentadores políticos de prime-time perderam a voz para sempre ao verem que o arcanjo não usava nada debaixo da gabardina que trazia.

quarta-feira, março 23, 2011

segunda-feira, março 21, 2011

Ici Paris

Modo de utilização: substituir "Paris" por "Porto" e assaltar a câmara dos gases e a junta de freguesia de santo ildefonso:

Marianne rebelle me disait
Qu'elle est plus jolie metissee

Ici Paris
Caravanes, vent du desert,
Mais nous n'irons plus a la guerre

a l'attaque

Ici New York, ici Moscou
Chacun pour soi, tous pour les sous

solidaires

Ici Paris
Epargne moi
Ici Paris (3)

adonis et bulldozer
s'accouplent a la volontaire

Ici Paris

Hola madonne tu m'etonnes
Enleve ce col qui te donne

l'air emprunte

a l'amour et a la vie
a syd barret et c'est fini

Ici Londres

Ici Paris
Epargne moi
Ici Paris

Noir Désir (RIP)

quinta-feira, março 17, 2011

Perigeu

19/03. Maior lua cheia dos últimos 18 anos. Vou preparar-me.

quarta-feira, março 16, 2011

O gosto solitário do orvalho - Barugon




Barugon possui espinhos dorsais que produzem um raio multicolor mortífero, um órgão que segrega líquido congelante (-100ºC) que é disparado da sua língua de 30 m de comprimento, um estômago que pode digerir diamantes (o seu alimento favorito) e chifres-radar na cabeça.

quarta-feira, março 09, 2011

Muito silêncio por nada

Nota introdutória:
A peça passa-se no dias de hoje e tem mais do que três actos. O cenário é uma tela com o fundo do Odeón de Paris, há seis filas de cadeiras em palco.


Acto I

Todos os personagens da peça entram em cena, um a um, e sentam-se nos respectivos lugares. Burburinho. Tosse. Risos abafados. Silêncio. Os personagens olham para o público. O público, se Deus quiser, olha para os personagens.

Acto II

Ofélia tosse. Ricardo II sai para uns instantes.

Acto III

Os Dois Nobres Parentes trocam sorrisos entre si e apontam para uma senhora espectadora da 3ª fila. Ricardo II volta ao seu lugar.

Acto IV

António (o mercador de V., não o de Cleópatra) tira um moleskine do bolso do casaco e faz algumas anotações. Gratiano, Solanio, Salarino e Salerio bocejam de forma sequencial, da esquerda para a direita. Salerio parece estar enviar uma sms no Blackberry.

Acto V

Silêncio.

Acto VI

Silêncio interrompido pela respiração asmática do Duque Frederick que faz como lhe aprouver.

Acto VII

Otelo levanta-se e vai-se embora visivelmente aborrecido. Mais trinta e um minutos de silêncio. O Green Lantern também sai e todos o imitam.

O Rei Ubu, que se encontra no meio do público, vaia e atira as calças para o palco em forma de protesto.


Fim da peça.

terça-feira, março 08, 2011

segunda-feira, março 07, 2011

O gosto solitário do orvalho - Guiron



A característica mais proeminente de Guiron é a sua cabeça em forma de faca que é 100 vezes mais dura do que o diamante, repleta de "shuriken" que podem ser disparados a partir de um par de orifícios situado acima dos olhos. A criatura tem uma visão radar de 360 graus, tem 60 vezes mais dentes de que uma piranha, pulmões adaptados para percorrer viagens espaciais de longa distância, órgãos em forma de saco que armazenam energia e urânio, órgãos em forma de balão nas pernas que lançam jactos de líquido através dos pés, barbatanas que lhe confere estabilidade na água e ventosas magnéticas nas mãos.

sexta-feira, março 04, 2011

quinta-feira, março 03, 2011

O gosto solitário do orvalho - Gamera


(clicar para aumentar a imagem)

Gamera possui olhos de visão infravermelha e nocturna, braços que podem erguer 50 mil toneladas, um órgão que produz as chamas que a criatura dispara das mãos, espinhos eléctricos no dorso, garras venenosas, órgãos em forma de bolsa que armazenam lava, carvão, petróleo e urânio, órgãos em forma de balão que disparam jactos de ar através dos membros inferiores, e uma cauda de cartilagem elástica que disfere poderosos golpes.

terça-feira, março 01, 2011

Terapia

Enquanto espero pelo eléctrico que me vai deixar perto da capela mortuária, penso no meu amigo que faleceu recentemente. Começa a chuviscar. Toda a gente foge para debaixo do coberto da paragem, um grupo de turistas-trogloditas solta exclamações de afectada surpresa para depois desatarem às gargalhadas como verdadeiros cretinos. As semelhanças entre os turistas-trogloditas e os cretinos-pedigree são notáveis. Estamos todos zipados, encostados uns aos outros, o meu nariz encolhe e fica anestesiado. Os trogloditas cheiram a suor e o mais velho tresanda a Porto quando abre a boca. Ainda por cima é aquela zurrapa de três anos que lhes dão a provar nas caves. Verdade seja dita, até é bom demais para os trogloditas. Sei do que falo, fui aprendiz de tanoeiro, mas tive de desistir - o chamamento do palco falou mais alto. Volto a pensar no meu falecido amigo. Ele também era actor. O que faria ele nesta situação? Talvez deixasse escapar a mão para o traseiro da quarentona troglodita de olho azul ou então tentava falar aquela língua de farrapos, lamentando a chuva e desculpando-se em nome de todo o povo português. Na verdade, comecei a odiar o meu amigo de há dois anos para cá. Era um ódio mútuo, sem motivos e talvez por causa disso tornou-se cada vez mais sombrio. Qualquer incidente, qualquer pequena fatalidade que acontecesse ao outro, fazia-nos ganhar o dia. Era um ódio não declarado, um rancor saudável que me fazia continuar e dava sentido à minha vida. Contracenei com ele várias vezes e tentávamos sempre superar um ao outro. Não existia mais nada à nossa volta. O gajo era bom, mas eu era melhor. Ele sabia disso, pois dava-me sempre os parabéns nos camarins. O cabotino implodia de fel, mas dizia-me sempre que "esta tinha sido a minha actuação". Todas as noites. Por outro lado, quando saímos os dois, fazia-me confidências sobre a sua vida amorosa, apenas porque sabia que me irritava profundamente. Falava das suas façanhas sexuais, das suas conquistas durante horas a fio, roçando às vezes o obsceno. No entanto, ouvia-o como um padre num confessionário. Por uma razão que desconheço, não conseguia mandá-lo calar e lançava-lhe apenas olhares de raiva que só lhe davam mais força para continuar com mais prosápia. Bastardo. Agora tudo isto acabou, o gajo partiu, foi ceifado em cheio por um taxista embriagado quando saia do teatro. Chegou o eléctrico. Deixo subir primeiro os turistas-trogloditas que quase atropelam a senhora de idade que os manda a todos para o órgão sexual masculino. Não especificou qual. Quando cheguei à capela, já lá estava meia dúzia de amigos e familiares que se reuniam à volta do caixão. Lá estava ele. Para quem pensava que iria morrer louco (como a mãe), tiveste um fim menos glorioso, ah bastardo? Sorrio. Senti uma mão no ombro. Caio em mim e viro-me. Era um homem na casa dos trinta e muitos, fato preto Zegna, óculos de massa escuros, parecia ser meio estrábico.
- Peço desculpa, o senhor era amigo do meu irmão?
Desvio o olhar. Atrás dele está uma mulher de idade com o rosto ossudo que leva um lenço branco ao nariz e encara-me com os olhos molhados. Dirijo-me imediatamente para a porta e desço as escadas de pedra sem olhar para os degraus. Conheço-os bem. Não consegui ficar mais tempo, é pena. Tiro a maçã que tinha no bolso do casaco e trinco-a. O próximo eléctrico só chega daqui a meia hora. Não há trogloditas à vista.
Desde que fiquei desempregado há um ano que tenho por hábito frequentar funerais e missas de sétimo dia de desconhecidos. Por motivos que ainda não escavei, a dor de estranhos faz-me sentir bem.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011


Ruth Krauss and Crockett Johnson, 1954

strangers in da nite


terça-feira, fevereiro 22, 2011

Was lief falsch?

Gosto muito do apartamento que o meu falecido marido me deixou. É numa zona bonita da cidade, com muitas árvores, as ruas estão sempre limpas. Só não gosto de uma coisa: das reuniões de condomínio. Não tenho idade nem paciência para aturar pessoas feias. A minha única exigência como condómina era ter o espelho do elevador só para mim. Os meus vizinhos são demasiado feios para usarem um espelho daqueles, não merecem. Não me fizeram a vontade. Uma recém-viúva não pode ser contrariada e por isso tratei de avariar o espelho. Eles ficaram fulos, porque o espelho fazia-os mais bonitos e mais elegantes do que realmente são. Mas abri uma excepção.
Ele ainda não sabe, mas o espelho reflecte apenas os lindos e generosos guizos do jovem porteiro que sempre foi muito simpático e muito educado para mim. Ele merece.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Facebook - poema para uma antologia na casa da mãe e da tia

"Foi um outro lobo, o xavier, que me
disse que sempre teve um fraco
pela nogueira pinto."
in conta Facebook de "Bifidos_passivo"
Espinosa gosta disto.

Orwell gosta disto.
Bispo do Porto gosta disto.
Pacheco não gosta disto.

domingo, fevereiro 13, 2011


Andrew George Brown


Good morning Captain.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

A partida de ténis


Harpo convidou-me treze vezes para assistir a uma partida de ténis. Acedi à décima quarta, porque nunca se sabe. Eram os quartos de final da mediática taça Davy Byrnes e ele não queria perder por nada deste mundo. Lá fomos. Estava a nevar ursos polares. As bancadas estavam ocupadas pela metade. A maioria era composta pelos chamados Incondicionais que se preparavam para a partida, rodando as cabeças ora para a esquerda ora para direita. Reparei que o sub-comissionário que me seguia há três meses estava na bancada oposta. O maníaco achava que eu estava por detrás de uma rede de tráfego de mulheres mongóis. Pelos vistos, o sr. sub-comissionário tem uma costeleta mongol por parte de um avô que o fez jurar defender sempre o seu "povo". Quando entraram os jogadores, aplaudi-os de pé, esgazeando o meu olhar no dele. Ele sorriu a crédito mal parado. O jogo começa. Harpo deixava escapar risadinhas sempre que os jogadores faziam
Ases, batendo-me insistentemente no joelho. Deu-me vontade de ir ao WC. Ando a beber muito chá de rooibos, alguém me disse que fazia bem ao hipotálamo. Bati um recorde qualquer, sete minutos sem gotejar, já não vertia assim desde que o nosso amado rei ganhou as últimas eleições . Quando regressei, quase todos se tinham ido embora. A partida prosseguia, mas o árbitro estava com a cara coberta de sangue. O que será que tinha acontecido? Os apanha-bolas e o sub-comissionário (não arredou pé o maníaco) estavam congelados nos respectivos lugares. Quando me virei para trás, Harpo ainda se encontrava no seu lugar e estava a tocar o seu instrumento debaixo de flocos de neve que caíam graciosamente ao som da melodia. Creio não andar muito longe da verdade quando afirmo que foi a coisa mais bonita que vi até hoje.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Com algum delay



4 histórias minhas na última edição da 365.
A revista é gratuita
.

terça-feira, janeiro 25, 2011

O mercúrio de Van Sweetens

Caro Zerrel,

- Depois de uma canja de galinha parda ao jantar, fui aquecer os pés na salamandra da Casa Lilás que o meu amigo me recomendou na véspera de Natal. Fui muito bem recebido pela matroníssima Madame Bataille que parecia já saber quem eu era. Aposto a minha cadeira de baloiço que o meu amigo falou-lhe a meu respeito. Madame Bataille teve um ataque de tosse ao subir as escadas e à entrada do quarto que me estava reservado pôs-se a falar de um novo bronco-dilatador que o Auch lhe recomendou. Vi-me obrigado a gerar ali algo parecido com empatia na esperança que ela me desse um desconto ou um copo de Genebra no fim. A menina que me calhou tinha um ar inocente, os olhos não tinham vestígios de emoção e falava pouco. Antes de começarmos, pedi-lhe gentilmente para pôr na boca o meu termómetro especial. O mercúrio atingiu os 41ºC! Não podia dormir com alguém tão libidinoso. Acima dos 38,5ºC é a minha morte. Deitei-me a seu lado e deixei escoar o tempo. Ela disse-me o seu nome, Sophie Minuit. Antes de trabalhar ali, tinha sido auxiliar de biblioteca, mas ganhava muito mal. Começou então a libertar-se. O seu livro favorito é a "História de um Coração" e abraçava repetidamente o ar à sua volta. Meu amigo, quase que me apaixonei. Felizmente os quarenta minutos acabaram e sai daquela alcova mesmo a tempo.

O meu termómetro vai ser um sucesso.

Do sempre seu,
T. Edison

Intermission



Saudações,
este blogue ainda não entregou a alma ao Criador. A minha mãe pediu-me para ir comprar pão e fiquei na amena cavaqueira (!) com a padeira. Volto aqui ainda hoje.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Pobody's Nerfect


Vou criar uma petição para estes gajos virem tocar aqui.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

A minha cabeça em Janeiro
transforma-se na bola preta de
uma partida de snooker
entre Deus e Barbarella.
Ele embolsa-me
antes do tempo e ela
esconde-me atrás das
vermelhas.
Terá sido assim
até agora, mas
tudo me leva a crer
que Deus
vai mudar de taco.

quinta-feira, janeiro 06, 2011



Instalação de luzes Pac Man para o Festival das Árvores e da Luz
em Génova, Suíça

terça-feira, janeiro 04, 2011

Faits-divers

A neta de Ingmar Bergman, Ana Bergman, foi acusada de usar num evento social um casaco que parecia ser feito a partir da pele do Alf. A neta do famoso realizador sueco defendeu-se afirmando que a peça era apenas uma imitação de pele e que nunca usaria pele genuína e muito menos do Alf. Recordo que a neta já fora acusada de ser vista a usar um chapéu de pele do Chewbacca nas ruas de Estuqueolmo.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Bar de hotel

O bar do hotel era conhecido por ser um local de primeiros encontros. Não era nada de extraordinário, tinha aquilo que um bar de hotel era suposto ter. Os primeiros clientes começavam a chegar ao fim da tarde. Se a coisa corresse bem, o casal não precisava de procurar muito para passar a noite.
Reservei duas noites no hotel. Ontem foi véspera de Natal e passei-o sozinho no meu quarto Executive a ver canais para adultos. Aborreci-me de tanta carne e de tantos gemidos e comecei a fazer zapping. Parei num canal chinês e descobri que o mandarim tem um efeito relaxante em mim, principalmente quando é falado por mulheres pivot de pele reluzente. A minha mulher trabalha numa seguradora e deixou-me no último Verão. Levou o nosso filho com ela e está a viver em casa dos pais.

Hoje é a minha última noite. Para ser honesto, estou a gostar de estar sentado ao balcão deste bar, enquanto me vejo ao espelho a beber Jim Beam. O barman ainda não pegou ao serviço, quem me serviu foi um dos recepcionistas que está agora a atender um casal de idosos. O velhote parece-se um pouco com o Burt Lancaster nos últimos anos. É aquele tipo de pessoas que inclina o queixo para a frente e olha por debaixo dos óculos quando escuta alguém.
Quando cheguei, estava apenas um tipo no balcão. Andava na casa dos quarenta, usava blazer e calças de bombazine verdes e estava a beber uma água com gás. Não tenho paciência para meter conversa com estranhos, mas era Natal, estava cheio de fé e boa vontade nos homens e apetecia-me tagarelar um pouco. O sujeito pareceu-me inofensivo.
- Mais um Natal que passou, estamos quase no ano novo - disse estupidamente.
Ele virou a cabeça e sorriu.
- É verdade, o tempo voa. Quando damos por ela, já estamos ali como o casal de jovens que chegou agora.
Foi a minha vez de retribuir o sorriso.
- O importante é viver um dia de cada vez, não é assim? - eu estava verdadeiramente inspirado.
O sujeito estendeu o braço e ajeitou o banco.
- Chamo-me Orlando, muito gosto.
- Óscar C*. Os nossos nomes começam por "O". Não é muito comum.
Ele voltou a sorrir e acabou a água.
- Reparei que anda a água com gás, abusou das iguarias ontem à noite?
- Nem por isso. Estou um pouco nervoso. Estou à espera de uma pessoa.
- Ah, ok. Não...
O Blackberry que estava em cima do balcão começou a vibrar e apareceu "Julia" no ecrã azul.
- Com licença.
Ele pegou no pda e dirigiu-se para o lobby. Atendeu em voz baixa.
Comecei a tremer e bebi num trago o uísque que ainda tinha no copo. Não perdeu tempo a miserável, já anda à caça. Passei a mão pelo cabelo e corri para a casa de banho. Como é que é possível? Ela também conhece o hotel. De repente, tudo ficou vermelho, a roupa começou a fazer-me comichão. Dei o pontapé da praxe numa das portas do WC. Deveria ter subido para o meu quarto, que idiota. Olhei-me ao espelho e molhei a cara. Inspirei fundo. Isto é um sinal. É a prenda do menino Jesus, foste um bom rapaz ao longo do ano e agora aqui tens a tua recompensa. Tu mereceste. Resolvi sair e enfrentar aquilo, não podia ficar ali a vida toda, afinal até poderia ser outra Júlia, há muitas Júlias neste mundo. Abri a porta.

Ela estava de costas. O tipo desviou o olhar e acenei-lhe cordialmente com a cabeça. Dirigi-me para o elevador e premi no 5. Enquanto esperava, olhei para trás. Não era ela.
Entrei no elevador e deixei sair um traque de alívio ao som do Jingle Bells.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Um cântico de Natal para vocês.
(com a participação do próprio J.C., Chris Robinson, lá no meio)

sexta-feira, dezembro 17, 2010

segunda-feira, dezembro 13, 2010

O galo e a mulher


Ilustração de Miguel Moreira

A uma certa mulher do Vale das Vadias meteu-se-lhe-me-lhan-te ideia na cabeça que nada nem ninguém (nem mesmo o Primeiro-Ministro dissuasor da vizinha Crimeia) conseguia demovê-la-tu das suas graníticas ideias. A senhora

[Cai neve. Lá fora, dois homens de mãos nos bolsos dão pontapés nos bicos das botas para aquecerem os pés.]

que já tinha uma idadezinha desejou ter mais filho. Lembrou-se então que já não podia perfilhar, mas lembrou-se logo a seguir que quando era mais nova teve uma crise aguda de amenorreia e que a sua falecida mãe que se chamava Deusatenha lhe deu

[Neve. Homens nos bolsos dão botas para aquecerem os pés.]


arroz de cabidela durante uma semana e uma hora. Graças a este regime absolutista, ficou curada e teve uma carrada de filhos. Sorriu com a lembrança e resolveu seguir o conselho da sua mãe. No sábado, levantou-se de manhãzinha cedo e foi ao mercado comprar um galo. Aproveitou e comprou também um livrinho muito usado do Ambrósio Birça para ler antes de ir para a cama. Quando chegou a casa, instalou o galo bem

[Dois homens dão pontapés nos bicos.]

instalado na velha capoeira e esfregou as mãos não-de-contente, mas porque nevava e estava um frio de rachar a julgar pelos homens de mãos nos bolsos. Todos os dias a mulher dava milho ao galo. Um dia lembrou-se que seria bom ter leite nas mamas para amamentar o filho
que vinha a caminho. Antes de ler Ambrósio Birça, começou a dar leite de cabra ao galo, todas as noites. O galo cresceu, cresceu, cresceu até não caber mais na capoeira. A mulher apegou-se ao galozão e deixou de ter coragem para o matar. Encolheu os ombros e disse:

[Bicos]

- O filho terá de ficar para outra altura.

domingo, dezembro 12, 2010

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Violante (exercícios de estilo queneanos)

Subjectivo
Recordo-me bem da sra. Violante. Ela servia o melhor café da cidade. Era muito obsequiosa e usava catogan que lhe dava um ar mais novo. Isto a propósito de quê? Na semana passada, encontrei o sr. Urso que me disse ao ouvido que a sra. Violante tinha sido miss Suíça e que fora destronada porque foi apanhada na cama com a dama de honor num quarto do Ritz. O sr. Urso toca lira e orgulha-se de ser o cliente mais antigo do café-boutique onde ainda trabalha a sra. Violante. Não sei em que hei-de acreditar. Fala-se muito dos outros nesta cidade. Como se não bastasse, os colarinhos engomados do sr. Urso não me saem da cabeça. Como é que ele consegue?

Informativo
A sra. Violante é empregada de mesa no Grand Café. O sr. Urso conhece a sra. Violante. De acordo com as últimas declarações do sr. Urso, a sra Violante foi miss Suíça em 1947. O Sr. Urso toca lira nos tempos livres e frequenta o Grand Café desde 1951, o que o torna no terceiro cliente mais antigo deste famoso estabelecimento até à data.

Em duplicado
Recordo-me e lembro-me perfeitamente bem da sra. dona Violante. O melhor e o mais saboroso café da cidade e da urbe é servido e trazido pela sra. dona Violante. Ela, a senhora, era sempre e todos os dias muito amável e obsequiosa e usava e trazia um carrapito e um catogan que lhe dava e lhe conferia um ar mais jovem, mais novo. Na anterior e passada semana, deparei-me e encontrei o sr. dom Urso que me cochichou e segredou que a sra. Violante tinha ganho e vencido o concurso de miss Suíça Helvécia e que fora destituída e exonorada por ter sido apanhada e surpreendida na cama e no leito com a dama de honor e de honra num aposento e quarto do Ritz. As golas e os colarinhos engomados e com goma do sr. dom Urso intrigam-me e atiçam-me a curiosidade.

Litote
Ainda não me esqueci da sra. Violante. O café menos mau da cidade era servido por ela de uma forma muito pouco rude. A sra. Violante não dispensa o seu catogan que lhe dá um ar menos velho. Sem ser nesta semana, na outra, não evitei dar de caras com o sr. Urso que não se fez rogado e disse-me que a sra. Violante não perdeu o concurso de Miss Suíça quando resolveu concorrer. Não se coibiu de dizer ainda que ela não chegou a terminar o seu reinado, pois não conseguiu escapar a um episódio menos feliz que se passou no Ritz. Não consigo deixar de ficar deslumbrado com os colarinhos nada displicentes do sr. Urso.

Assombro
Ah a sra. Violante! Meu Deus, o café incrível que ela fazia e servia! Que maravilha de café! Já para não falar da sua simpatia! E o que dizer daquele catogan que a fazia mais menina e moça! E adivinhem lá quem é que encontrei a passear na baixa faz hoje uma semana?! Nada mais nada menos do que o sr. Urso! Que figura é este homem! Ah vocês nem imaginam o que me contou! Disse-me ao ouvido de que sra Violante já foi miss! Miss, vejam lá isto! E sabem o que ele me disse mais? Que ela foi apanhada na cama com outra mulher que era nem mais nem mais do que...a sua dama de honor! Quem diria hein? E logo no Ritz! No Ritz, senhores! Ah com o disse-que-disse que há nesta cidade já não sei em quem acreditar! Ah mas o homem sabe aprumar-se! Aqueles colarinhos! Oh minha santa Eufémia, aqueles colarinhos!

Mots-valise
A sra. Violantada de mesa no Grandcafe. Usa catoganha simpatias. O sr Ursobretudo conhecestima a sra. Violantada de mesa. Dacordo com o sr. Ursobretudo, a sra Violantada foi missuíça quandovem. O Sr. Ursobretudo toclira e frequenta e um o Grandcafe, sendo um dos clientigos. Usa colarigomados.

Profecia
O dia em que se servirá um café mais saboroso do que aquele que a sra. Violante serve está próximo! Nesse dia, a sra. Violante deixará de usar catogan, rapará o cabelo e jamais sairá de casa. Haverá tumultos, as pessoas sairão às ruas, cabeças de inocentes irão rolar.
Não é tudo. Irás encontrar um homem que já não vês há muito, muito tempo. Esse homem irá trazer vestido um enorme sobretudo feito de pele de urso pardo e irá contar-te um segredo terrível que não poderás partilhar com ninguém, ou a mais terrível das tragédias abater-se-á sobre ti e sobre aqueles que amas.

Revista feminina
Violant tinha agora consciência do seu valor. Sentia as suas reservas de auto-estima a voltarem ao normal. Sabia que o Grand Café gravitava em torno de si e que o dono, esse chauvinista, precisava dela. De vez em quando, o seu ex vinha ao café com a conquista do mês para a provocar. Violante desprezava-o com todas as forças do seu ser. Não era tanto pela figura que ele fazia, mas por ter sido parva ao ponto de se ter casado com aquele homem. Ah Violant, Violant...
Na semana passada, encontrei o misterioso Monsieur U a deambular pelos Champs Elysées. Que flaneur me saiu este Monsieur U! Monsieur U trabalha num gabinete de arquitectura paisagística para os lados de La Défense e costumo encontrá-lo às sextas, no Grand Cafe, a beber o seu daiquiri. Cumprimentou-me efusivamente, mais do que o nosso grau de intimidade podia permitir, agarrou-me no braço e disse-me que tinha algo para me contar sobre a nossa querida Violant.
(continua no próximo número da Cosmopolitan
)


segunda-feira, dezembro 06, 2010

quinta-feira, novembro 25, 2010

A um passo do reconhecimento internacional

Conseguir inserir aqui um snippet de um fantrágico tradutor automático (ver em baixo).
Convertam qualquer texto em inglês. Já em russo parece-me bem.

quarta-feira, novembro 24, 2010



Com a participação do ilustrador do Des Petits Morts (ver acima) e subsecretário da Subcomissão para a Forma, a Graça e a Cócega do Ilustre Colégio de Patafísica do Porto, Miguel Moreira.
Vasolina

segunda-feira, novembro 22, 2010

A festa de aniversário

Selawsky não era um homem muito palatável, mas ainda assim conseguiu reunir vários amigos no seu aniversário.
- Daria tudo para não ser como tu, Selawsky - disse Ymmij enquanto lambia a colher do seu cappucino.
Selwasky levantou-se e estaladou Ymmij. O lábio inferior do turco começou a tremer, mas conseguiu conter lágrimas.
- Daria tudo para não cheirar como tu,
Selawsky - disse Constantino o Bravo, amigo de infância do nosso aniversariante.
Selwasky aproximou-se de Constantino o Bravo e esbofeteou-o. Constantino começou a tremer, mas também não chorou.
- Daria tudo para não bater como tu,
Selwaskov, bates como uma menina - disse o russo a que todos chamavam de Deus-filho.
Selwasky arrastou a cadeira para junto de Deus-filho e bateu-lhe na moleirinha. Deus-filho riu-se e ofereceu-lhe a outra moleirinha.
- Daria tudo para não viver no antro em que tu vives Selawsky - disse-lhe Jewel, ex-namorada e a única mulher presente no evento.
Desta vez, o parabenizante não ergueu um dedo, mas apontou com o indicador e o anelar para o peito de Jewel que desatou a chorar. Jewel era muito sensível no que toca a/quando se toca* no seu
peito .
Um manto de silêncio sepulcral abateu-se sobre a sala, interrompido aqui e ali pelo som agnóstico de uma retro-escavadora que vinha do fundo da rua.
Subitamente, Selwasky bateu palmas duas vezes e todos os que se encontravam na sala se transformaram em Selwasky's. Depois todos lhe cantaram os Parabéns a uma só voz e tudo acabou bem.

*riscar o que não interessa.

Mo Maketh

sexta-feira, novembro 19, 2010

A Força é forte em ti, John Milton

Darth Vader resolveu fazer uma escapadinha de fim-de-semana nos Alpes, cortesia dos seus oficiais superiores.
- Está lá, recepção? Daqui quarto 877 [respiração pesada, arrastada, asmática].
- Bom dia sr. Dr... Darth Vader, em que posso ser-lhe útil?
- Solicitei hoje de manhã o serviço de pequeno-almoço no quarto e trouxeram-me o pequeno-almoço continental [respiração pesada, arrastada,
asmática].
- Estou a ver sr. Dr.. Estava tudo do seu agrado?
- Não, não estava. Pedi o pequeno-almoço universal e não o continental [respiração pesada, arrastada, asmática]. Pensava que tinha deixado isso bem claro.
- Oh, com certeza sr. Dr.. Irei tratar disso pessoalmente. Lamentamos imenso o transtorno causado.
- [respiração pesada, arrastada,
asmática] Com que estou a falar?
- Chamo-me John Milton, sr. Dr., ao seu dispor.
- [respiração pesada, arrastada,
asmática] A Força é forte em ti, John Milton.
- ...o sr. Dr. deseja mais alguma coisa?
- Não, é tudo por agora [respiração pesada, arrastada,
asmática].
Darth Vader pousou sobre a cama o "O Arranca Corações" ao lado do tabuleiro do pequeno-almoço e olhou através da janela para o eterno e majestoso Monte Branco.

quinta-feira, novembro 18, 2010

O homem do tempo

O meu colega de trabalho é de Aragão e disse-me hoje que em cada província de Espanha os homens do tempo da TV têm honras de chefe de estado. São uma espécie de gurus que pouco ou nada têm a ver com a ciência. Diz ele que uma vez, a meio da década de 80, todos os homens aragoneses saíram à rua aperaltados e a cheirar a Old Spice. O homem do tempo dessa altura (Ibón Bastrillas, creio ser o seu nome) tinha colocado uma daqueles placas aderentes com o sol mesmo em cima dos Pirenéus e previu temperaturas superiores a 30ºC nessa região. No dia seguinte, o céu ficou carregado com nuvens nas terras altas, e as temperaturas estiveram negativas. O que o boletim meteorológico de Bastrillas queria realmente dizer era que haveria boas probabilidades de conhecer mulheres bonitas nesse dia. Noutra ocasião, o homem do tempo tapou Saragoça com a placa que tinha a célebre efígie de Hitchcock. Nos dois dias que se seguiram, a cidade foi invadida por grandes bandos de corvos e gaivotas e ninguém ousou pôr os pés na rua.

terça-feira, novembro 16, 2010

quinta-feira, novembro 11, 2010

ALL OR NOTHING
OR ALL
OR NOTHING
ORAL
OR?

quarta-feira, novembro 03, 2010

quinta-feira, outubro 28, 2010

Rock n roll can rescue the world

O viúvo

Vivo sozinho e ainda sinto falta da minha mulher. Faz hoje um ano que ela morreu. Hoje vou dormir melhor, estou exausto. Consegui trazer para casa o banco de jardim onde costumávamos namorar. O filho do meu vizinho de baixo ajudou-me a trazê-lo ontem de madrugada. Apesar de todo aquele metal na cara e de cheirar mal, não é mau rapaz. Ele e o pai estão sempre aos berros um com o outro.
Foi neste banco que pedi a minha mulher em casamento. Os meus dois filhos visitam-me de longe a longe, porque não têm paciência para os meus queixumes de velho. Que surpresa, não? Sabemos que estamos velhos quando todos os meses parecem Novembro e quando não controlamos o nosso esfíncter em locais públicos.
Eu cresci para a minha mulher e a minha mulher cresceu para mim. E isso é amor, seus bastardozinhos. Pus o banco no meio da sala de estar, ao lado da cadeira de cabeleireiro onde ela passou quase um quarto da sua vida. Ela era muita vaidosa e ciumenta. É provável que se tenha queixado de mim nesta cadeira. Gostava muito dela. Dois meses depois da sua morte, comprei a cadeira ao salão que ela frequentou durante vinte e um anos. Veio com um daqueles vaporizadores de cabelo que apareceram nos anos sessenta e, apesar de eu ter a cabeça grande, consigo metê-la lá dentro enquanto vejo televisão à noite. Há noites em que adormeço sentado na cadeira e acordo de madrugada com o vidro embaciado. Às vezes, acordo com uma erecção (é verdade, seus bastardozinhos, não tenho porque mentir) e fico acordado a pensar nela até o sol nascer.

Nosferatu



Max Schreck a descansar entre "takes" e a assustar todos no estúdio de rodagem de Nosferatu, A Symphony of Horror, 1922, dir.
F.W. Murnau. (via)

Durante as filmagens de Nosferatu, Scherck nunca "saía" da pele do seu personagem, mesmo quando as câmaras não estavam a gravar, e tanto o elenco como a equipa de filmagem nunca viram o actor sem a respectiva maquilhagem e guarda-roupa. Embora esta abordagem envolvente face ao papel seja agora muito comum, não era normal na época, e a sua aparência e comportamento deram origem a rumores de que Schreck era realmente um vampiro.
Se esta foto constituir uma boa prova do comportamento de Schreck em torno de Nosferatu, a cautela da equipa de filmagem parece-nos compreensível.

domingo, outubro 24, 2010

Srilanka

Quando andava no liceu,
tive um cão a que dei
o nome de "Srilanka" -
o cão esticava as orelhas
e rodava a cabeça
sempre que o pivot do telejornal
dizia "Tigres Tamil".
Como era um cão não fazia
muito sentido chamar-lhe
"Tigretamil".

Pouco antes de morrer,
Srilanka apanhou o
meu aparelho dos dentes
em cima da borda da banheira
e pôs-se a lamber
os restos do jantar.
A minha mãe, furiosa,
gritou comigo e
perguntou depois ao meu pai
onde é que se deve pôr
um aparelho dos dentes
com restos de comida,
se no amarelo ou no lixo
orgânico.

quinta-feira, outubro 21, 2010

segunda-feira, outubro 18, 2010


sexta-feira, outubro 15, 2010

O Tio Tula

"Numa sociedade plenamente justa e orçamental, os senhores proprietários de cafés com fotos aéreas dos respectivos cafés seriam todos presos. Sentiriam consternação e arrependimento daquelas aberrações penduradas e chorariam como marias madalenas sempre que fizessem mal o troco."
Fils de Mon Pére

Antes de ser chamado para o serviço militar, trabalhei durante dois anos para o meu tio Tula que tinha um bordel no meio do monte. Sempre que chegava uma rapariga nova à sua reputada casa, o tio Tula fechava os olhos e unia as mãos como quem recebe o corpo de Deus e depois sorria ou fazia uma expressão triste. Se a moça fosse prazenteira e não vestisse mal de cara, encaminhava-a para mim. Não apreciava particulamente as folgazonas que vinham a mascar pastilha elástica. Dava-lhes guia de marcha logo ali. Como sobrinho-afilhado favorito, eu tinha algumas regalias. Gozava de uma espécie de prima nocte para dar o meu veredicto ao meu tio na manhã seguinte. Arrependo-me muito desses anos, principalmente quando faço amor com a minha mulher. Lembro-me que, no pico da toda aquela luxúria bacoca, usava um metrónomo para marcar os tempos das noviças. A maioria era allegrettos, mas houve uma eslava que tinha cara de anjo e que me deixou danos permanentes. Prestissima.
Voltando ao tio Tula. Se a rapariga fosse pouco expedita e não servisse nem para mudar os lençóis, o meu tio pagava-lhe o bilhete de volta e acompanhava a moça à estação. Depois fazia de conta que era o Humphrey Bogart e dizia:
- He's looking at you, kid.
Creio que era a única frase que ele sabia dizer em inglês.

segunda-feira, setembro 27, 2010

Congradulações

Caro Bruce,

Serve a presente para te avisar que não vou colocar os pés na tua festa.
Gostaria que as coisas corressem de outra forma. Enquanto não me deixares ter um papel mais activo na nossa dupla de combate ao crime, recuso-me a participar nestes teus eventos da socialite de Gotham.
Chega de mascaradas. O meu estágio já acabou há muito e já não sou um puto.
Deveria ter aceite a proposta do Clark.
E a partir de agora, o meu nome será The Hawk. Não quero mais ser conhecido como Robin*, é ridículo, eu sei e tu sabes disso.

Feliz aniversário e bem-aventurados aqueles que não usam máscara, pois deles...blabla.

The Hawk


*Nota do tradutor: "Pintarroxo".
Música de Elevador

quinta-feira, setembro 23, 2010

quarta-feira, setembro 22, 2010

Toc toc

Gavrilo tira o pequeno baralho do bolso do casaco e pousa-o em cima da pequena mesa retráctil. Ajeita o colarinho ao espelho e lembra-se de pôr a cabeça de fora do seu compartimento. Vê duas adolescentes a falar alto com os telemóveis nas mãos no fundo da carruagem. Uma delas faz-lhe lembrar a sua sobrinha que o escolhera para ensaiar as primeiras seduções. Fecha a porta do compartimento, senta-se e tira os sapatos. Enquanto baralha, repara que a mesa está coberta com vários riscos que rasuram uma frase. Parece-lhe russo, mas não tem a certeza. O comboio começa a andar e uma das miúdas passa pelo compartimento, olhando de lado para Gravilo que abana a cabeça e sorri para a janela, continuando a baralhar. Alguns segundos depois, a porta do compartimento é aberta por um homem que o cumprimenta:
-
Dobri den.
Gravilo calça de imediato os sapatos e diz "Hello". O homem faz sinal com a cabeça para trás e aparece uma mulher. O homem olha para o bilhete que tem na mão para confirmar os lugares. A mulher tem cabelo curto e olheiras carregadas como as actrizes dos filmes mudos. Traz umas
leggins pretas e um casaco de couro vermelho. "What a woman", pensa Gravilo.
O homem é calvo, os olhos são dois pequenos pontos azuis encovados na cara. Parece não saber o que fazer com as enormes mãos. Não trazem bagagem e sentam-se imediatamente. Gravilo recolhe as cartas sem que nenhum dos dois desvie o olhar dele por um segundo. Gravilo fica pouco à vontade e faz um sorriso amarelo. Sem desviar a cabeça, o homem olha de esguelha para a mesa riscada e arregala os dois pontinhos azuis encovados na cara. Toca no braço da mulher e aponta para as palavras gravadas. A mulher sorri por uns instantes e os dois começam a falar.
- Toc toc.
- Toc toc.
- Toc toc.
-Toc toc.

-
Toc toc to you too, you weirdos - diz Gravilo em voz baixa antes de pôr os auriculares do iPod e encostar a cabeça.
O homem levanta-se abruptamente e abandona o compartimento. A mulher fecha as cortinas e começa a bater com um maço de tabaco na palma da mão. Gravilo diz-lhe que não pode fumar ali e aponta para o pictograma. A mulher põe delicadamente a mão na perna de Gravilo e diz num inglês perfeito:
- Toc toc to me, will you baby?

sexta-feira, agosto 27, 2010

terça-feira, agosto 24, 2010

Uma História de Amor

Bongosto, Tenco, Paoli e Mina viveram sob mesmo tecto cheio de térmitas durante três meses. Eram os únicos hóspedes da segunda pensão mais antiga da cidade que pertencia a Dona Bonagura. Dona Bonagura era uma enxuta viúva perto dos cinquenta que, tal como muitas viúvas, adormecia no sofá em frente à TV. Quando chegava dos seus afazeres diários, Bongosto gostava de passar pela sala de estar e era seu hábito admirar o rosto sereno daquela mulher, como um seminarista que contempla a sua primeira óstia enquanto recalca o prazer solitário da noite anterior.

Dona Bonagura tinha queixo duplo à Kirk Douglas, e Bongusto sentia-se atraído por queixos duplos desde que viu Spartakus pela primeira vez. Wunderburg era também grande admirador de queixos duplos. Wunderburg estava em negócios na cidade, e o queixo duplo de Dona Bonagura acertou-lhe em cheio quando passeava pelo mercado à hora do almoço. Perguntou quem era aquela formidável mulher e tentou inúmeras vezes reservar um quarto na pensão, mas Bonagura não gostava de tedeschis (embora Wunderburg fosse suíço*), porque os achava muito porcos e dizia-lhe sempre que estava tudo cheio sem sequer olhar para ele.

Na última semana da sua estadia, Bongusto apressava-se para chegar à pensão mais cedo. Como seria de esperar, Dona Bonagura estava a dormir com a boca aberta em frente à soporífica televisão. Talvez por serem os seus últimos dias naquela casa, Bongusto encheu-se de coragem e deu três passos ao de leve, sentando-se numa das duas poltronas desbotadas. Pegou no telecomando e reduziu o volume, dando início à sua secreta adoração daquele queixo, belo e inviolável como uma flor de cerejeira. Mina, a estudante universária, estava no andar de cima, a arrumar e a cantarolar uma velha canção napolitana que a sua avó lhe ensinara. Ultimamente era tudo o que lhe passava pela cabeça desde que acabara com o namorado** que se apaixonara por uma mulher mais velha***.

Bongusto, esse, imaculava a figura adormecida de velha matrona e há muito que desejava tocar no queixo duplo. Sonhava acordado com passeios de mão dada com o queixo duplo e a respectiva dona, ladeados por florzinhas do campo, premiados com o chilrear das avezinhas, só os três e mais ninguém...

De repente, a porta de entrada é escancarada, e é Tenco que chega, rindo-se para Paoli que vem atrás de si. O espanta-espíritos faz acordar dona Bonagura que se desencosta como uma mola e, atarantada, deixa escapar um franco e generoso "pum" que se encontrava inocentemente preso desde a hora do almoço. Bongusto congela o gesto e fica a olhar para a mulher que, por sua vez, retribuí o olhar ainda meio sonolenta. Os dois ficam uma eternidade assim, até que Bangusto pergunta finalmente:
- A senhora dupla quer casar comigo?

* Wunderburg era tão suíço que apenas usava sabonetes de pH neutro.
** A senhora não tinha queixo duplo, mas nascera com um archote entre as pernas.
*** Primeiro e único indício do desfecho da história.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Ontem, a preto e branco
Hoje, a cores

quinta-feira, agosto 05, 2010

No tempo em que os animais falavam

- Desculpem interromper, criaturas criadas por Deus meu pai, mas...saberão dizer-me porque é que ninguém gosta de mim? - perguntou Jesus às criaturas de Deus seu pai.
- Ainda bem que me fazes essa pergunta - disse a formiga.
- Posso responder eu? - perguntou a cigarra.
- Sim, se souberes a resposta - respondeu a formiga.
- Como assim, "se souber a resposta"?! - perguntou a cigarra.
- Passas o dia a cantar, não podes saber a resposta a uma pergunta tão difícil - respondeu a formiga.
- E tu que passas o dia de um lado para o outro, já nem sequer tens tempo para pensar? - respondeu a cigarra.
A formiga não teve tempo para responder. Jesus misericordioso abre o guarda-sol que traz sempre consigo*, pisa as duas criaturas e abandona o local. Mais adiante, encontra a lebre e a tartaruga em cima de uma linha de partida.
- Criaturas de Deus meu pai, desculpem interromper, mas poderão dizer-me porque é que ninguém gosta de mim? - perguntou novamente Jesus.
- Aindabemquemefazessapergunta - disse a lebre.
- Posso...responder...eu? - perguntou a tartaruga.

* Jesus abria o guarda-sol quando não queria que Deus Pai visse algo que talvez não fosse muito do seu agrado.

Novo quadro pró gabinete


sábado, julho 24, 2010

quinta-feira, julho 22, 2010

Se, se...

- Se D. Dafoe vivesse nos dias de hoje, seria argumentista da série "Lost".
- Se Baudelaire vivesse nos dias de hoje, dedicaria as Flores do Mal aos "Bleus" e escreveria o Smog de Paris.
- Se Poe vivesse nos dias de hoje, seria argumentista de "True Blood".
- Se Proust vivesse nos dias de hoje, mandaria isolar o seu quarto em lã de rocha (e não em cortiça).
- Se Kafka vivesse nos dias de hoje, trabalharia numa seguradora na mesma, mas ganharia mais e mandaria o Max Brod dar uma curva.
- Se Louÿs vivesse nos dias de hoje, passaria o dia a descarregar filmes românticos da Internet.
- Se Pessoa vivesse nos dias de hoje, teria um heterónimo hip hop: MC PES. É provável que regressasse à África do Sul.
- Se Breton vivesse nos dias de hoje, dedicaria o "O Amor Louco" à Margarida Rebelo Pinto, musa e principal impulsionadora do Neo-Surrealismo em Portugal.
- Se todos estes escritores vivessem nos dias de hoje, teriam todos um IPod ou uma Wii.

terça-feira, julho 20, 2010


Fallen Bierstadt, Valerie Hegarty, 2007

O violador de poetas menores

Um título como este pode ser tremendamente auspicioso e despertar a curiosidade de alguns que querem cair no engodo de uma boa história. Por outro lado, também pode defraudar as expectativas desses corajosos à medida que vão progredindo (ou recuando, se a história valer realmente a pena) na sua leitura. O tombo para o autor será então maior. Declino já essa responsabilidade e desengano o leitor nesta rampa de lançamento onde quase tudo se decide. Não estou à altura (ou profundidade) de um título tão promissor. O público dispersa-se agora, restando apenas alguns resistentes conhecidos que cruzam os braços e que, à falta de melhor, resolvem ficar. Mas as coisas são como são e, como de outro modo não podem ser, devemos apreciá-las tal como nos são oferecidas:

o realizador Guido Anselmi acreditava que, após a sua morte, iria encarnar numa mulher de barriga de aluguer. Resolveu aprender tudo o que havia para aprender sobre mulheres e maternidade, e abandonou temporariamente os filmes. Apercebeu-se depois que estava enganado e que o seu inconsciente estava a dizer-lhe que deveria deixar italianíssimos descendentes neste mundo. Deixou de vez a sétima arte e, ao som de Verdi, fez furiosamente filhos até morrer, e agora toda a Itália está-lhe grata por isso. Vamos todos acreditar que foi exactamente isso o que aconteceu e afastar a ideia repleta de fel de que a musa apresentara a carta de demissão e que Guido já não poderia mais encenar paraísos e infernos como Dante(s).

domingo, julho 18, 2010


terça-feira, julho 13, 2010

Å



Vivo em Å há duas semanas. Ainda não apanhei um dia de sol desde que cheguei, tem trovejado todas as noites e adormeço quase sempre ao som do múrmurio da chuva. Durante o dia, o ar está sempre coberto por uma névoa espessa que contrasta com as casas vermelhas sobre estacas que se estendem ao longo da costa.
Vim para aqui porque conheci uma mulher pela internet. A nossa relação virtual evoluiu ao ponto de ela confessar que gostava de ser açoitada. Creio ter-lhe dito que dar-lhe-ia açoites de bom grado se isso lhe dava prazer. Como é normal neste tipo de relações, não medi as palavras. Disse-lhe ainda que estava desempregado. Nessa mesma noite, convidou-me para ir viver com ela. Não hesitei. A minha mãe deu-me a sua bênção com a lágrima da praxe, e apanhei o primeiro avião para Oslo dois dias depois.
Ela era inevitavelmente loura e possuía um olhar meigo, sereno. Quando começámos a falar através do "chat", disse-me que tinha ficado viúva há um ano e que o marido tinha trabalhado numa plataforma do Mar do Norte. Quando cheguei, lembro-me de lhe ter perguntado a causa de morte do marido. Ela esquivou-se e levou-me para o quarto. Na nossa primeira noite, pediu-me constantemente para ser insultada sempre que lhe batia com o cinto de pele de baleia. O meu léxico norueguês era muito limitado e então ofendia-a na minha língua. O efeito foi ainda melhor do que o desejado. As suas nádegas brancas ficaram zebradas de vermelho, ela dava o corpo ao manifesto.
A minha companheira trabalha num mercado local. Passei os primeiros dias a deambular pela pequena vila. Os locais não me cumprimentam. Achei que talvez fosse a minha má pronúncia ou uma questão de temperamento, ou talvez até uma demonstração contida de xenofobia paroquial. Bom, os grunhidos nocturnos da minha companheira devem chegar à Irlanda, pode ser isso também. No entanto, senti pouco depois que era "outra coisa". O olhar deles dizia-me algo diferente.

Ontem à noite, enquanto punha a mesa, ela pediu-me para pôr mais um prato.
- Convidaste alguém para jantar? - perguntei.
Não respondeu. Levou a colher de pau à minha boca e perguntou-me a sorrir se o ensopado de peixe estava a meu gosto.
Sentei-me e, enquanto abria uma garrafa de vinho tinto do Chile, a campaínha tocou.
Tirou o avental, pousou a mão em cima do meu ombro e voltou a sorrir. Apalpou o penteado e lá foi abrir a porta. Uma voz masculina. Pareceu-me ouvir a troca de um beijo, seguido de um pequeno grito. Quando me virei, a minha "mulher" estava de braço dado com um homem alto e magro, com um sorriso idiota estampado na cara vermelha.
- Ålberto, apresento-te Knut, o meu marido. Knut, este é o nosso Ålberto.

segunda-feira, julho 12, 2010

Começa-me ou eu nunca mais começo.

Após um cataclismo nuclear, apenas irão sobreviver duas coisas:
baratas e o Keith Richards

sexta-feira, julho 09, 2010

POR FAVOR TENTA NÃO FAZER FIGURA DE URSO

Na noite de 6 de Julho de 1984, The Jacksons reuniram-se e deram início a uma digressão de 55 datas pelos EUA e Canadá. Antes do primeiro espectáculo da "Victory Tour", o seguinte telegrama de "Boa Sorte" foi enviado a Michael Jackson pelo seu amigo, Marlon Brando.



Transcrição

CARO MICHAEL

PENSEI EM TI ESTA NOITE POR FAVOR TENTA NÃO FAZER FIGURA DE URSO E PELO AMOR DE DEUS NÃO CAIAS NO FOSSO DA ORQUESTRA.

MARLON

terça-feira, julho 06, 2010


domingo, julho 04, 2010

O meu país

Sou emigrante e estou casado com o meu trabalho há já alguns anos. Foi uma boda muito bonita e alegre, todos os meus amigos e família me deram apoio e desejaram-me boa sorte. O meu pai deu-me uma picareta que, por sua vez, foi-lhe oferecida pelo seu pai. A minha lua de mel foi na China, numa gigantesca fábrica de componentes eléctricos. Ah, os chineses amam verdadeiramente o seu trabalho.
Para poder casar com o meu trabalho, o amor da minha vida, tive de abandonar o meu país. De onde eu venho, apenas os mais velhos têm autorização para poder casar com o seu trabalho. Mas a maioria não cumpre os seus votos matrimoniais, e alguns até
fazem o trabalho dos outros.
Antes de chegarem a velhos, todos os adultos celibatários dedicam-se à representação. O meu país é o maior exportador de actores e cabotinos do mundo. Por outro lado, importamos um grande volume de marionetas e fantoches por ano. São muito apreciados no meu país.
Todas as crianças do meu país são deficientes mentais até aos dez anos. Servem apenas para barrar o pão com manteiga dos adultos. Algumas berram e outras querem ser engolidoras de fogo ou cavaleiros, mas ninguém lhes dá importância. Depois dessa idade, são iniciados nas artes cénicas e os melhores dos melhores podem chegar ao governo.
Deixem-me falar das casas do meu país. As casas são térreas e têm um pequeno jardim. Não temos o costume desagradável de ficar à janela e ver quem passa. Os transeuntes são cativados pelas janelas mais bonitas e olham para dentro das casas.
Um dia hei-de regressar ao meu país na minha ambulância de luxo e construir uma casa tão grande em que todos vão querer olhar para dentro dela.

terça-feira, junho 29, 2010

I kissed a grill



segunda-feira, junho 28, 2010

A Star is Porn

Nunca leias
um poema com
um título de qualidade

duvidosa em Inglês,
que tenha mais
do que 5 (cinco)
versos e que termine
em reticências.
Lembra-te! Ezra
Pound não dorme...

quarta-feira, junho 23, 2010

Totally slashed.
Agora sim, já posso ser cremado.

sexta-feira, junho 18, 2010

alien vs winnie the pooh


(recente aquisição num alfa-rabista de sci-fi e bd com A/C e MB)

quinta-feira, junho 17, 2010

Os malefícios do tabaco


Deixem-me contar uma
pequena história sobre
Duncan Macleod, o Imortal.

Sou um watcher, um olheiro,
por assim dizer, e observo
este escocês há algum tempo.

Poucos mortais saberão que
Duncan Macleod do clã Macleod,

o Imortal,
esteve em Lisboa há muitos anos.
Ontem, Duncan resolveu fazer um seguro de vida,
"Há muitas cabeças a rolar
hoje em dia, nunca se sabe", pensou.
No campo "Profissão" do formulário
escreveu "Calceteiro reformado ao
serviço de Sua Majestade El-rei D. José".
O funcionário dos seguros não aceitou
e pediu a Duncan para se retirar.
O Imortal cortou-lhe a cabeça logo ali
e todos à sua volta fugiram horrorizados.
Um fluxo incrível de energia
foi transferido do corpo decapitado
do funcionário para a boca escancarada de Duncan.
Pela primeira vez, D. não sentiu
a presença de outro Imortal.
"Estarei a perder as minhas faculdades?",
perguntou a si mesmo.

Losing Your Face


Ben Woodward

domingo, junho 06, 2010

0:50

Two Headed Cow

sábado, junho 05, 2010

Serralves non stop


Dan Monick

terça-feira, junho 01, 2010

Funambolismo

I
Prometeu roça novamente as costas num dos dois pilares de madeira. Coça a barriga da perna e olha lá para fora. Finge que vai para dentro mas volta ao balcão. Aproxima-se furtivamente do empregado e cheira-o. Bate no peito durante alguns segundos. Prometeu ainda é o macho alfa da drogaria.

II
- Queria 1300 metros de arame, por favor - disse Orestes.
Orestes não pode dizer o número 1299. Segundo o seu médico de família, o incrível registo fonético deste número pode causar uma rápida deterioração do tecto da boca e ruir. Se proferir o número a seguir ao 1300, as glândulas salivares iniciam a produção de um ácido muito corrosivo e Orestes morre.
- Para quando é que precisa do arame? - pergunta Prometeu.
- Para amanhã - responde Orestes.

III
Antes de sair, Orestes beija a mulher na testa e afaga-lhe o peito. Está a fazer isto por ela. É de madrugada. Amarra uma ponta de arame à torneira da cozinha. A tarefa poderia ser mais simples se o Trópico de Capricórnio não passasse a meio do caminho para o escritório.

IV
Prometeu enfia a chave na fechadura corroída. Depois de entrar na loja, põe o boneco insuflável de uma conhecida marca de ferramentas cá fora. Enquanto dá à manivela para abrir o toldo, olha para o fundo da rua e vê algumas pessoas a olharem para o céu. O trânsito não avança.

V
São 8:25h. Orestes sente-se cansado mas sabe que vai conseguir. As pessoas começam a bater palmas lá em baixo. Pela primeira vez nos últimos dois anos, Orestes vai chegar a horas ao emprego.

quinta-feira, maio 27, 2010

quarta-feira, maio 26, 2010

Polígrafo

Em 1957, Brother Antoninus (William Everson) comprou um polígrafo usado num flea market em São Francisco. De acordo com a sua biografia autorizada, o poeta de Sacramento recorria ao polígrafo antes de "consolidar" a versão final dos poemas. Se o detector de mentiras acusasse algo durante o seu recital inflamado, Antoninus queimava os seus versos para depois reescrever e medir novamente a veracidade do texto. Brother Antoninus, admirador confesso de Walt Whitman e da homeopatia, viria a destruir o polígrafo quando experimentou ler "Leaves of Grass" para um grupo de beatniks. A máquina assinalou vinte e quatro irrefutáveis registos ao longo do depoimento lírico dedicado a Whitman.

segunda-feira, maio 17, 2010

quarta-feira, maio 12, 2010



"Cavalo larval"


Codex Seraphinianus de Luigi Serafini

terça-feira, maio 11, 2010

E depois do adeus

Todos os ocidentais dispostos
a serem salvos sabem que
a Mulher-Maravilha
tinha um cão fraldiqueiro e
não gostava de ficar longe dele
por muito tempo.
Certa vez a Mulher-Maravilha
salvou um grupo de Obsessivos do Adeus
Anónimos de morte decerta. Quando
chegou a casa o cão fraldiqueiro
já lá não estava porque tinha
fugido com o cio (mas isto
a Mulher-Maravilha não sabia,
apesar dos seus super-poderes).

Há quem diga que a Mulher-Maravillha
se sentiu muito angustiada e
processou os O.A.A. pelo
desaparecimento do cão fraldiqueiro.
Há quem diga que foram
os próprios O.A.A. que roubaram
a mascote da Mulher-Maravilha
só para lhe dizerem adeus depois.
Há ainda quem
não diga nada, porque
amam a heroína mais do que
tudo na vida.

sexta-feira, maio 07, 2010

Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead



Publicado pela primeira vez em 1915, durante a I Grande Guerra, o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas foi durante trinta anos difundido a médicos de todo o mundo em folhas de carbono ou fotocópias. O trabalho do Dr. Lambshead inspirou génios clínicos de todo o mundo, e Portugal não foi excepção, encontrando no Dr. Anófeles Calamar Trindade e no seu Compêndio Médico de Doenças Notáveis e Invulgares uma referência incontornável.

Pela primeira vez, as descobertas de jovens médicos portugueses são apresentadas num volume único e insubstituível, onde se juntam ao trabalho de colegas norte-americanos e britânicos de grande reputação como o Dr. Alan Moore, Dr. Neil Gaiman, etc.

A antologia Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas irá ser publicada pela editora
Saída de Emergência a 21 de Maio e terá um PVP de 18.80 Euros.