mestre, o homem que se chama Carmen disse-me há tempos que podemos achar marsupoetas em pneus recauchutados onde se plantaram cactos. Faz-se um buraco no cacto e bebe-se o primeiro trago de água que sai de dentro. Cospe-se o resto e onde esse resto cair estará um marsupoeta com uma lira made in china.
Bang! Bang! Era ele. O amigo do meu amigo já me tinha alertado que ele fazia-se anunciar com dois tiros. A casa não tinha luz, não podia tocar à campainha e, em vez de nós, o homem tinha laços muito delicados nos dedos, logo não bateu à porta com medo de os estragar. Exigia sempre um tapete vermelho com pequenos raios bordados que o deveria levar sem demoras ao quadro eléctrico. Como o meu quadro fica no hall de entrada, tive de me remediar com um capacho chinês, espero que a criatura não se importe. Abri a porta. - Saia por favor - ordenou. - Com certeza. Sua Volticidade não gosta que os clientes estejam por perto quando está a trabalhar. Tem a fama e o proveito de ser o melhor técnico sindicalizado do distrito e nunca deixa os seus débitos em mãos alheias. - Deve ser apenas um fusível fundido, se quiser... - disse-lhe já cá fora. Grande slam na minha cara. O amigo do meu amigo que também é membro da poderosa Guilda dos Electrocistas avisou-me do modus operandi do sujeito. Assim, ontem à noite, coloquei a minha poltrona no jardim da frente para me sentir mais confortável. Enquanto esperava, pus-me a adivinhar as músicas que os transeuntes trauteavam de cabeça. De seis, só acertei em duas, o que não é nada mau, mas também não é nada bom. Sig Sig Sputnik e Tom Jones. Achamos que é algo que só acontece aos outros, mas, quando menos se espera, acontece também à gente. Quando dei por mim, estava agarrado a um jingle idiota que tenho vergonha de reproduzir aqui. A minha vizinha da frente parece que adivinhou, pois começou também a trauteá-lo de cabeça. Acenou-me com um ancinho na mão e disse-me algo em rodapé sobre leite derramado. - Já está, chefe. Venha cá ver isto - disse o electrocista atrás de mim. O fio fogo do fogão tinha entrado em curto-circuito com o fio água, e o fio ar estava bastante calcinado como era de prever. O fio terra foi o único que se aproveitou.
Um homem cansado de estar morto ressuscitou ao terceiro dia conforme as escrituras e decidiu visitar o parque de diversões que ficava ao lado do cemitério. Quando chegou, sentiu um irreprimível desejo de comer algodão doce. O homem lembrou-se que era diabético, mas como já tinha morrido, achou que não deveria haver grande problema. Levou as mãos aos bolsos e nem...um cêntimo! Regressou ao cemitério e vasculhou cada canto e arrumo do seu caixão em pau preto com mezzanine. Encontrou uma barra de sabão cor-de-rosa, um guarda-chuva partido e o cheque em branco que a sua querida mulher deixara sobre a sua testa. Guardou o cheque no bolso de dentro da casaca e quando já estava com um pé fora da cova, viu um belo corcel a pastar junto da sua campa. Montou e apeou-se várias vezes para ver se o corcel lhe servia e decidiu ficar com ele. A galope! Comprou algodão doce para os dois e passou o cheque em nome do senhor Barbe-à-Papa. Assim que terminou, deu umas palmadas de satisfação no dorso do corcel. De repente, ficou muito pálido e apercebeu-se que tinha cometido um erro terrível.
Depois da abençoada consoada, leia e reencaminhe o ebook gourmetDes Petits Morts aos seus familiares, estranhos, amigos e inimigos! Vai ver que não se arrependerá! (bom, mesmo que se arrependa, o e-coiso é totalmente gratuito, por isso).
Um viúvo muito rico e sem herdeiros sabe que vai morrer muito em breve. Chama de imediato o advogado que redige prontamente o seu testamento: "Deixo toda a minha fortuna nas mãos de Deus." O homem morre no dia a seguir. Duas semanas depois, entra em Cena-a-Nova um sobrinho-neto emigrante que se chama João Filho de Deus e reclama a fortuna do seu querido tio-avó. O velho advogado, crédulo e impotente, entrega a fortuna ao herdeiro que apareceu Nãosesabemuitobemd'ond, Macedónia, terra de cavaleiros. Mas Deus morre no dia a seguir, não deixando testamento, nem sequer parentes colaterais de 4º grau. Face a isto, a terrível e tentacular máquina diabólica do Estado entra em Cena-a-Nova, apropria-se da vasta herança e, naturalmente, dá graças a Deus.
No nosso terceiro encontro, Klinghoffer deu ordens ao concierge para que subisse e me acompanhasse à sua suite. O concierge indicou-me a porta, fez-me uma pequena vénia e regressou em passo firme ao elevador. A porta estava entreaberta, mas não deixei de bater. "Avanti", ordenou-me uma voz rouca. Klinghoffer era americano, mas, como ja referi, passara uma grande temporada em Itália, pelo que não deixava de falar num italiano com sotaque e esforçava-se por falar português. Leon estava junto à janela a olhar para a pequena praça. Tinha a pele macilenta, o queixo cheio de pregas e a cara estava coberta com aqueles típicos sinais de velhice. Apesar de estar entrevado numa cadeira de rodas, o velho judeu tinha um ar autoritário, napoleónico. "Como se chama esta piazza?", perguntou, parecendo não demonstrar muito interesse pela resposta. "Praça D. Filipa de Vilhena", respondi. "Ah si. Uma vez estive com uma puttana que se chamava Fillipa. Era la cosa piú bella, anche molto molto putana questa donna." Sem olhar para mim, dirigiu-se vigorosamente para o minibar e perguntou-me se queria tomar algo. "Sim, uísque com uma pedra, por favor", respondi, avançando um passo. Como estava distraído a olhar para o magnífico tecto da suite, não reparei que já estava com o meu copo erguido há algum tempo. Foi quando lançou o seu olhar sobre mim. "Antes de brindarmos, queria fazer-lhe um pedido." Apontou a mão que segurava o seu copo para uma poltrona verde. "Queria que publicasse no seu Pierino e il lupo, é assim que chama, vero? Allora, queria que publicasse que acredito que o Bom Ladrão nunca foi uno ladrone, mas sim o maior pederasta da Galileia no tempo de Cristo e que, na sua última hora, seduziu o Senhor. Quem me provar inequivocamente o contrário, ofereço a generosa quantia de cincuenta mille dollarià questa persona." Se dúvidas houvesse quanto ao avançado estado da doença de Klinghoffer, caíram completamente por terra com esta proposta irrecusável.
Hoje encontrei-me com Leon Klinghoffer no Infante Sagres. O velho judeu do Achille Lauro pediu-me para anunciar que está vivo e de boa saúde. Viveu durante os últimos onze anos na costa do Tirreno e agora anda por aí. Disseram-lhe que este blogue era "a melhor coisinha" acima de Rio Mau e que era lido por milhões. A sua morte foi um grande embuste, nunca na vida um terrorista digno desse nome iria matar um judeu de cadeira de rodas. Aliás, Klinghoffer não é paraplégico. Sofre de uma doença rara, o síndrome de Finzi-Contini sobre o qual irei discorrer na altura apropriada.
Todas as vezes que dou de caras com uma mulher feia ou mal amanhada, a minha vida prolonga-se mais meia hora. Não há uma maneira fácil de explicar isto, mas também não vou fazer qualquer espécie de esforço, porque só tenho um pulmão o que faz de mim um gastrópode. Olhei para o céu e Deus pediu-me então para vos contar esta história. De tudo aquilo que já se escreveu sobre portas, chaves, fechaduras, trincos e ferrolhos, nada se compara à história que irei contar de seguida. No sul de França, depois da segunda grande guerra, havia um vendedor ambulante que viajava muito e que vendia de tudo um pouco. O seu negócio corria de vento em popa. O vendedor alimentava duas grandes paixões: manteiga do Jura e peixes. Esqueçamos a manteiga. Sempre que ficava hospedado num hotel ou numa pensão, o vendedor enchia a banheira (ou o lavatório) e punha um ou dois peixes apenas para os contemplar. Os peixes eram a sua grande alegria e levava-os para todo o lado. Uma noite, porém, estava quase a pregar o olho quando ouviu uns gemidos abafados que pareciam vir da casa de banho. - Será o meu pobre peixe? - perguntou a si mesmo. Abriu então a porta para trás e...os gemidos pararam. Não só deixou a porta escancarada toda a noite, como tirou o trinco da casa de banho para que o hóspede seguinte não trancasse o seu próprio peixe. Mas não ficou por aqui - o nosso protagonista é vendedor ambulante, não se esqueçam. Não descansou enquanto não retirou todas as chaves, arrombou todas as fechaduras, trincos e ferrolhos de todas as casas de banho de hotéis e pensões de França (excepto Córsega, Bélgica e territórios ultramarinos franceses). Foi preso em Periguex e condenado cinco anos. Entre as várias manchetes que encheram as primeiras páginas sobre este caso, seleccionei esta para mim, mas que posso partilhar convosco: "Polícias mergulhadores apanham o larápio das fechaduras."
terça-feira, novembro 17, 2009
Em 1995, na 21ª edição da Semana do Teatro Húngaro, a organização contratou cerca de duzentas pessoas para ajudarem na realização deste evento. Entre outras tarefas, os colaboradores tinham de se colocar no interior de cadeiras especiais do Teatro Imre Madách e massajar suavemente os traseiros dos espectadores dos camarotes ao longo de peças com mais de uma hora e meia de duração. A organização fez uma pré-selecção de mais de dois mil pares de mãos e adquiriu cerca de trezentas luvas de pele para o evento. A iniciativa foi um sucesso.