
Une Semaine de Bonté, ou, Les Sept Elements Cardinaux, Max Ernest

Gambit já arrecadou mais de 10 milhões de Euros no 40º Word Series of Poker.
O velho Capitão América (na verdade, detém o posto de Brigadeiro-General aposentado) sofre de artrose e tem dois ordenanças ao seu serviço que o transportam sobre o seu escudo.
Em 2008, Ciclope destruiu quatro clínicas de oftalmologia e oito ópticas no estado de Nova Iorque. O antigo líder dos X-Men sofre de astigmatismo.
O Surfista Prateado foi eliminado na segunda bateria de long board na última prova do Campeonato Mundial de Surf. Galactus riu-se tanto do infortúnio do seu antigo arauto que provocou alguns buracos negros.
Punho de Ferro é realizador e actor veterano de filmes para adultos.
Wolverine sofre de micose profunda nas unhas. É cliente regular de esteticistas e dermatologistas.
Paulo Portas*, actual líder do grupo de mutantes CDS-PP, não gasta dinheiro em alimentação, uma vez que possui super-poderes cósmicos sobre feirantes e reformados.
* Embora Paulo Portas não seja considerado um herói Marvel, é actualmente o meu herói favorito - fica aqui a ressalva/declaração de interesses.




Gerard pousou a corneta sobre a escrivaninha, abriu a gaveta e pegou numa folha amachucada. A folha dizia para Gerard pedir educadamente à senhora nua que estava estendida no sofá do gabinete para se retirar. No verso da folha, dizia ainda para tirar da segunda gaveta um revólver, uma caneta e duas folhas. Dizia ainda para queimar a folha antes de abrir a gaveta seguinte. Gerard queimou a folha no cinzeiro e a mulher saiu. Abriu a segunda gaveta e retirou os objectos. Uma das folhas estava em branco e outra tinha uma mancha de texto. Dizia para carregar o revólver com as balas que estavam numa terceira gaveta da escrivaninha e para escrever o seguinte texto na folha que estava em branco:
"Caro _____
PF peça à senhora presente na sala para se retirar. Vire a folha e continue a ler.
(...)
Abra a segunda gaveta da escrivaninha; retire o revólver, a caneta e duas folhas; leia com atenção o que está escrito na folha escrita."
Dizia também para colocar a folha que acabara de redigir na primeira gaveta. Gerard abriu a terceira gaveta, retirou as balas e carregou o revólver. Gerard reparou que havia ainda uma factura da luz no fundo da gaveta. Gerard levou as mãos à cabeça e saiu disparado pela porta fora com o revólver na mão. Gerard era um homem terrivelmente distraído. Quem acha que percebe alguma coisa de literatura, sabe como esta história irá acabar.
- O senhor disse mesmo aquilo que eu acabei de ouvir? - perguntou o guarda.
- Disse sim. Faça o que lhe compete. Prenda-me. - respondeu o homem-cacto.
O homem-cacto trazia uma mochila e aguardava do lado de fora da portaria. Olhava à sua volta, fascinado. Ninguém estava no átrio do presídio aquela hora. Fechou os olhos e inspirou fundo. Sorriu. O guarda prisional media-o de cima a baixo enquanto marcava a extensão do director. Algumas horas antes, tinha ido à igreja mais próxima da sua casa para se confessar ao pároco. O homem-cacto vivia sozinho na rua da Escola Politécnica, no nº 89, não era de esquerda nem de direita e desdenhava o centro. Gostava de touradas de morte, embora não suportasse ver sangue. Ia almoçar com o seu velho pai uma vez por semana, a sua mãe morrera no parto. Era apreciador de cognac e não era muito bom com contas. Aliás, agora que falo nisso, começou a desenvolver um ódio de estimação pelo merceeiro da rua quando se apercebeu tardiamente que este o andava a enganar. E depois foi o senhor do banco, o seu amigo de infância, o seu sobrinho que tinha quase a sua idade, o IRS, o homem da bomba. E foi assim que tudo começou. Os jornais viriam a chamá-lo de homem-cacto, pois para além de ser intocável, raptava as suas vítimas e deixava-as morrer de sede no meio da tórrida planície. Muitas pessoas enganaram o homem-cacto desde que este ganhou o seu primeiro ordenado. Até que chegou a uma altura em que não era necessário vingar-se de mais ninguém. A sua última vítima, o garçon arrogante que o enganara anos a fio no troco, ainda estava a agoniar com a língua de fora e iria morrer em poucas horas.
Ali na prisão, não havia muitas contas a fazer.

I want to show you this kitchen. It is like those of our houses in California.
R. Nixon








S. Rimbaud assim me aconselhou
em aparição num canal codificado
em jeito de homenagem póstuma à Poesia
deixarei de escrever poemas em breve
vou gerar emprego
abrir uma firma de próteses dentárias
no Principado de Liechtenstein,
talvez uma clínica de fertilidade,
no fundo vai tudo
dar ao mesmo
à minha língua,
ao teu castor.


