sexta-feira, setembro 11, 2009

A rotina dá-te asas (mais cedo ou mais tarde)

Não é que isto tenha grande interesse para os leitores caçadores, mas acabei de ver um daqueles senhores pilotos - que tinha visivelmente o ascendente nalgum signo de Ar - a andar às voltinhas naqueles mecos da nossa Santa Catarina. Depois do último meco, fez uma "meia cubana" e aterrou numa das cadeiras da esplanada do Majestic.
Clap clap clap. Grande obação.

segunda-feira, setembro 07, 2009

sexta-feira, setembro 04, 2009

Onde está o Wally



às vezes quando sinto
o fluxo do primeiro verso a nascer
dentro de mim
- o qual baptizo de Wally -
fico tão excitado
que me dá vontade de obrar

depois não consigo
lembrar-me em que heterónimo estava
e o Wally vai pelo cano abaixo
é uma maçada

estas linhas são uma honrosa excepção

quinta-feira, agosto 27, 2009

Gerard



Gerard pousou a corneta sobre a escrivaninha, abriu a gaveta e pegou numa folha amachucada. A folha dizia para Gerard pedir educadamente à senhora nua que estava estendida no sofá do gabinete para se retirar. No verso da folha, dizia ainda para tirar da segunda gaveta um revólver, uma caneta e duas folhas. Dizia ainda para queimar a folha antes de abrir a gaveta seguinte. Gerard queimou a folha no cinzeiro e a mulher saiu. Abriu a segunda gaveta e retirou os objectos. Uma das folhas estava em branco e outra tinha uma mancha de texto. Dizia para carregar o revólver com as balas que estavam numa terceira gaveta da escrivaninha e para escrever o seguinte texto na folha que estava em branco:

"Caro _____

PF peça à senhora presente na sala para se retirar. Vire a folha e continue a ler.

(...)

Abra a segunda gaveta da escrivaninha; retire o revólver, a caneta e duas folhas; leia com atenção o que está escrito na folha escrita."

Dizia também para colocar a folha que acabara de redigir na primeira gaveta. Gerard abriu a terceira gaveta, retirou as balas e carregou o revólver. Gerard reparou que havia ainda uma factura da luz no fundo da gaveta. Gerard levou as mãos à cabeça e saiu disparado pela porta fora com o revólver na mão. Gerard era um homem terrivelmente distraído. Quem acha que percebe alguma coisa de literatura, sabe como esta história irá acabar.

quinta-feira, agosto 20, 2009

O homem-cacto

- O senhor disse mesmo aquilo que eu acabei de ouvir? - perguntou o guarda.
- Disse sim. Faça o que lhe compete. Prenda-me. - respondeu o homem-cacto.
O homem-cacto trazia uma mochila e aguardava do lado de fora da portaria. Olhava à sua volta, fascinado. Ninguém estava no átrio do presídio aquela hora. Fechou os olhos e inspirou fundo. Sorriu. O guarda prisional media-o de cima a baixo enquanto marcava a extensão do director. Algumas horas antes, tinha ido à igreja mais próxima da sua casa para se confessar ao pároco. O homem-cacto vivia sozinho na rua da Escola Politécnica, no nº 89, não era de esquerda nem de direita e desdenhava o centro. Gostava de touradas de morte, embora não suportasse ver sangue. Ia almoçar com o seu velho pai uma vez por semana, a sua mãe morrera no parto. Era apreciador de cognac e não era muito bom com contas. Aliás, agora que falo nisso, começou a desenvolver um ódio de estimação pelo merceeiro da rua quando se apercebeu tardiamente que este o andava a enganar. E depois foi o senhor do banco, o seu amigo de infância, o seu sobrinho que tinha quase a sua idade, o IRS, o homem da bomba. E foi assim que tudo começou. Os jornais viriam a chamá-lo de homem-cacto, pois para além de ser intocável, raptava as suas vítimas e deixava-as morrer de sede no meio da tórrida planície. Muitas pessoas enganaram o homem-cacto desde que este ganhou o seu primeiro ordenado. Até que chegou a uma altura em que não era necessário vingar-se de mais ninguém. A sua última vítima, o garçon arrogante que o enganara anos a fio no troco, ainda estava a agoniar com a língua de fora e iria morrer em poucas horas.
Ali na prisão, não havia muitas contas a fazer.

sexta-feira, agosto 07, 2009

A marca do camaleão

Deixaram o falecido em câmara ardente, e as portas da capela mortuária ficaram escancaradas durante toda a noite. De manhã, quando entrou o irmão mais novo do morto, o morto continuava morto, mas alguém tinha roubado o seu fato branco feito à medida! E a terrível marca da dentada do camaleão, ali nas costelas, à vista de todos. A família escandalizada tornou-o a vestir. Por volta das quatro, entra um senhor muito bem apessoado com um fato branco e senta-se à frente da viúva. O senhor trazia uma lâmina com cabo de madrepérola no bolso e não tirava os olhos da viúva. A viúva pareceu surpreendida, mas ninguém ousou abriu a boca.

quinta-feira, agosto 06, 2009

FNM

Reunited & Poker Face

O resto já é sobejamente conhecido. Se não é deveria ser.
Lady Gaga

segunda-feira, agosto 03, 2009

O prosador venenoso

Uma vez, em plena 5ª Avenida, um amigo meu que se encontrava em negócios presenciou um executivo a ser mordido na nuca por um prosador venenoso. O jovem executivo desfaleceu de imediato, morrendo poucos minutos depois. Ninguém pode fazer nada.

quinta-feira, julho 30, 2009

A ida da Lua ao Homem

Se algum dia morrer
gostava de fazer parte
das expedições do luar
semear a luz da incerteza
no Senhor Pragmático,
no alfa inabalável
e engasgar-lhe o pensamento

se algum dia morrer
gostava de fazer parte
das expedições do luar
serpentear à volta das
meninas cheias de insónia
que se tocam
sob os lençóis
depois de saborearem o
pau-de-canela do café

se algum dia morrer
gostava de fazer parte
das expedições do luar
iluminar bombas de
gasolina abandonadas,
cataventos enferrujados,
o oceano,
as algas que secam no areal ,
a Praça de S. Marcos,
o adro mais miserável

se algum dia morrer
gostava de fazer parte
das expedições do luar
descer sobre homens que
parecem pouco mais do que homens
querem subir ao palco das estrelas,
querem mais espaço.

sexta-feira, julho 24, 2009

Kitchen Debate




I want to show you this kitchen. It is like those of our houses in California.
R. Nixon

You're a lawyer of Capitalism, I'm a lawyer for Communism. Let's kiss.
N. Khrushchev


Faz hoje 50 anos que, na Exposição de Moscovo, Nixon e Khrushchev trocaram impressões inflamadas sobre electrodomésticos e a qualidade de vida dos respectivos países. A transcrição (em Inglês) pode ser lida aqui. Foi uma boa tentativa para aliviar o clima de guerra fria que se vivia então. Ficou conhecida como o Kitchen Debate. A realidade supera sempre a ficção.

quarta-feira, julho 22, 2009

O caso do falso médico

Os dois cavalheiros retiraram então os respectivos yo-yo's dos estojos e afastaram-se vinte passos e uma cauda de lobo de Alsácia. Voltaram-se. Fssshhh! O jovem tenente - a parte ultrajada é quase sempre um jovem tenente - cai sobre os joelhos com a mão ensanguentada agarrada ao peito. O médico do duelo que se chamava Christus não era um médico de verdade, mas ninguém suspeitava de nada. Como era muito raro o duelista em agonia aceitar intervenção médica por motivos de honra, Christus limitava-se a assistir a estes terríveis duelos, ao mesmo tempo que ia granjeando simpatias nos círculos mais elevados.
Até que um dia alguém lhe descobriu a careca. Mal soube do sucedido, Christus não aguentou: apontou um yo-yo à cabeça e matou-se. Mais tarde, veio a saber-se que a careca descoberta não pertencia ao médico, mas à sua bela mulher. Madame Christus nunca fora sua mulher de verdade, mas, uma vez mais, ninguém suspeitara de nada.

sexta-feira, julho 17, 2009

Eu e os meus amigos


S. Bartolozzi

quarta-feira, julho 15, 2009

You know it's tru

Deus queira que o único ainda vivo não morra agora.
Aí é que eu não aguentaria.

A Dança de Jasna Góra



Os peregrinos de Jasna Góra não se abordavam senão para falar dos quartos com ar condicionado e das réplicas da virgem negra que tinham comprado "em conta" na dia anterior. Apesar do cansaço, os rostos das mulheres eram rosados e delicados. Os homens pareciam lenhadores, muito pouco prazenteiros, se assim se pode dizer. Vinham de todas as direcções, pareciam intermináveis carreiros de formigas. Andavam sempre com muita pressa, todos queriam ir para algum lado. Alguém que viesse na direcção contrária e quisesse passar por outro alguém, ora desviava-se para a esquerda, ora desviava-se para a direita, e o seu par do momento, homem ou mulher, arremedava o mesmo movimento. Centenas, milhares de peregrinos-dançarinos realizavam os mesmos passos, todo o dia. Às vezes, o mesmo par executava esta dança horas a fio e então o santuário transformava-se num enorme salão de baile ao ar livre.

sexta-feira, julho 10, 2009

O anacoreta

"Sente-se, sente-se!", disse.
Sentei-me na poltrona de pele-vermelha e encarei o afamado anacoreta sem nunca desviar o meu olhar do seu. O meu à-vontade desconcertou-o e levantou-se de imediato. O anacoreta era dono e senhor de uma ptose abdominal invejável. Com as costas gordas voltadas para mim, ajeitou o jaquetão e começou a falar para um troféu de caça que irrompia da parede.
"A perversão das mulheres, meu caro", disse. "Você sabe o que o espera se eu o aceitar para o lugar?...O cavalheiro antes de si suicidou-se. Aposto que não sabia disto quando se candidatou ao lugar." Começou a fazer festas à barbicha castanha do alce. Era um troféu de excepção. "Chamava-se Pavel e foi o meu melhor paleontologista." Mal deixou cair a palavra quando se voltou para mim com uma rapidez surpreendente.
Então era mesmo verdade. O velho anacoreta tinha enlouquecido de vez. Chamo-me Pavel Leonov e parto amanhã para a minha segunda expedição no Gobi.

quinta-feira, julho 09, 2009

VENDO AGULHAS PARA DESENTUPIR
BICOS DE BOCAS DE FOGÕES A GÁS

Os interessados podem enviar os pedidos para o meu email.
Os desinteressados também, mas não serão tratados como correio prioritário.

Jesse Kuhn

sexta-feira, julho 03, 2009

Ebook

Des Petites Morts

Recolha de observações e desenhos realizados por Dr. Fausto em papéis de parede antes de ter invocado o senhor da contagem da água disfarçado de Mefistófeles.

Obrigado ao Arq. Miguel e ao Eng. Luís.

quinta-feira, julho 02, 2009

O Único Sobrevivente

as 2 senhoras não
chegaram a 1 consenso
foram 139 ou 140 vítimas
mortais? o porteiro aponta
imperiosamente para
o céu e de repente
pára de chover
"vamos aproveitar agora"
enterram os mortos logo ali e
largam 2 risadas verdes que
se misturam com o schlap
dos sapatos pretos nas poças
o jovem porteiro vê-las
partir e torna a ler a
manchete do desportivo:
"Único Sobrevivente do Acidente
no Real por 94 milhões"

sexta-feira, junho 26, 2009