terça-feira, abril 21, 2009

na noite de 25 de Abril de 1974



em Boise (ID), a facção
revoltosa da comunidade basca
preparava-se para um golpe
de estado no estado de Idaho,
até que o responsável
pela Informação
teve conhecimento
que em Portugal
alguém se lembrou de
fazer o mesmo durante o dia:
uma revolução à beira-rio,
com cravos e unhas amareladas

"Duas en el mismo dia!
No me jodas tio!" -
berrou o cabecilha etarra.

A revolução basca em Idaho
ficou adiada por tempo indefinido.

quarta-feira, abril 15, 2009

Minis para usar e deitar fora


- Já não vemos o cuco da irmã da minha avó há dias. Está a ficar ranzinza, diz que não aceita a mudança de hora.

- O velho soldado alemão que fugiu de Berlim para o Rio Grande do Sul e do Rio Grande do Sul para a minha vila amontoa e leva a roupa suja no side-car. Redimiu-se com o passado.

-Em São Petersburgo, os pobres roubam e queimam pernas postiças de madeira para se aquecerem. Não há térmitas nem caruncho que pegue em São Petersburgo.

- Sei de fonte segura que o homem do matadouro gosta de trabalhar dias a fio, sem parar. Chop chop. Não sei o que estou a comer, mas sabe-me bem.

- Gosto de ir ao El Corte Inglés. Sou assediado inúmeras vezes pelas meninas que pintam a cara de várias cores. Uma vez cercaram-me e não consegui fugir. Só Deus sabe o que eu passei.

- Os autocarros deveriam ter lugares reservados para poetas. Quantos belos versos não se perderam por irem de pé.

- Não sou compatível com os romances de capa & espada. Mas gosto dos bigodes do Errol Flynn e do Stewart Granger. O segredo para ter sucesso está no bigode.

terça-feira, abril 14, 2009

Deixem passar os Playboys

Sejam todos bem-vindos!
O mundo está agora pronto para a era dos Playboys! Todos liderados pelo notabilíssimo e sonâmbulo bisneto do Dr. Faustroll, não há meio tempo a perder! Com corcundas que pescam à linha e passam o tempo a olhar para a cesta do vizinho queimada pelo sol! Com fulanos que ainda vivem na I República e viajam de caleche e entopem as nossas ruas lamacentas! Vamos todos contemplar as bolhas da sopa e as forças ocultas que as impelem! Façam regressar os vice-reis da Índia e os doze velhos capitães donatários para porem cobro ao actual estado das coisas. Greve dos maquinistas do alto-mar, já! Layoff! Fora os gascões, são todos uns morcões! Deixem passar os Playboys! Tantos voluntários, podem baixar os braços, meus senhores.

domingo, abril 12, 2009


christian northeast

Marcar o compasso

Amo demasiado o seguinte texto para tê-lo só para mim.

Dois compassos rivais cruzaram-se a meio da principal rua da aldeia que delimitava as respectivas jurisdições.
- A vossa sineta foi roubada da pensão mais rasca, parece um besouro! - berrou o testa de ferro de um dos gangs pascoais.
- E o vosso crucifixo, Deus meu?! Tem um Cristo sorridente, onde já se viu? - replicou o segundo da hierarquia do outro compasso.
E logo ali teve início a troca de galhardetes. As velhas sentadas nos bancos do adro levantaram-se e começaram a benzer-se em gestos sucessivos, invocando o nome de Deus. Os rapazolas pararam de jogar à bola e correram em direcção à pequena Aljubarrota. O louco da aldeia, que este ano se vestira de coelho, trocava carícias com a filha do dono do café que tinha ar de inglesa, enquanto os homens se riam cá fora com um copo de tinto na mão.

sexta-feira, abril 10, 2009

Chuenca, Madrid




“How I do love to hear the wolves howl!”

Joseph Smith

Tratavam-se por
Irmão, Irmão Chéri
Irmão Snow (Esnô) e
eram a parelha
Mormon mais bem
sucedida fora do Utah.
Convertiam todos
aqueles que há muito
desejavam ser convertidos e
até aqueles que professavam
outra religão.
Andavam com aquele
ar de quem acabou de
acordar sobre um colchão
de água e teve
um sonho bom.




quinta-feira, abril 09, 2009

Hello Meow

quinta-feira, abril 02, 2009

Morangos



Tenho morangos com bolor a estragarem-se no frigorífico. Sr. Perez Mete Lo, a minha questão é a seguinte: os pombos e as pombinhas lá fora gostarão de morangos estragados? Não consigo deitá-los fora com esta crise a martelar-me a cabeça. Que aflição que isto tudo me mete! Ajude-me por quem lá tem sr Perez Mete Lo.

(A senhorita hermofrodita ri-se mas isto não tem piada nenhuma).


terça-feira, março 31, 2009

segunda-feira, março 30, 2009

O êxito do Senhor Rohnes

O êxito do senhor Rohnes devia-se sobretudo à sua extraordinária capacidade para fingir uma fervorosa dedicação ao trabalho. Mas o verdadeiro responsável era o ponto que estava à sua frente. As suas deixas eram sempre tão providenciais. No entanto, o senhor Rohnes tinha maus fígados e os seus ataques de fúria incendiavam a firma em cada nove anos. Era uma visão horrível, ninguém era capaz de aplacar aquela raiva! E agora estava prestes a acontecer! O ponto não aguentou viver naquela ansiedade e apresentou a sua demissão. O Senhor Rohnes ficou triste, caiu no mais profundo dos desânimos e não sabia mais como fingir. Demitiu-se também para evitar a chacota dos seus pares e fui à procura do seu velho camarada. Nunca mais foram vistos.

sábado, março 21, 2009


Escudo de Buenos Aires

Em Buenos Aires, existem homens de baixa estatura que esperam ser redescobertos. Saiem dos trabalhos antes do pôr-do-sol, atravessam e percorrem as intermináveis avenidas para chegarem ao Rio De La Plata. No cais, cumprimentam-se cordialmente sem dizer uma palavra, ocupam as pedras gastas que lhes foram passadas pelos seus pais e tentam encontrar caravelas no horizonte.

terça-feira, março 17, 2009

O Soldador de Almas

O soldador de almas não se podia queixar da falta de trabalho. No entanto, queixava-se amiúde, porque seu pai assim o educou. As pessoas queixosas parecem sempre muito preocupadas e responsáveis aos olhos dos outros. O soldador de almas queixava-se do excesso de trabalho, de que os clientes com as almas rachadas estavam sempre a bater-lhe à porta. Entre um gemido e uma lamúria, resolveu montar uma porta giratória na entrada da casa para que as pessoas pudessem entrar à vontade. Continuava o queixume mas agora era por causa das correntes de ar. Quem não achou muito piada foi o guarda-freio que morava mesmo debaixo da casa do soldador. O guarda-freio prometera à sua maezinha no seu leito de morte que não iria tolerar pessoas com alma rachada a andar para trás e para frente na casa do vizinho de cima. Ora, como toda a gente sabe, as pessoas com as almas rachadas andam apenas de eléctrico. Durante um ano o guarda-freio fez greve e durante um ano o soldador de almas não viu uma alma rachada. Farto de se queixar, mudou de cidade e juntou-se ao irmão mais novo que tinha um consultório funerário para almas penadas. Ao contrário do seu irmão mais velho, o consultor não tinha razões de queixa.

segunda-feira, março 16, 2009

Hopper


Edward Hopper

Hopper poderá ser traduzido como "tremonha" que é uma espécie de depósito afunilado. É formada por uma rosca sem-fim.

sábado, março 14, 2009

O Velho Gaiteiro - Cap. II

O Velho Gaiteiro levava aquilo a que se podia chamar uma vida desregrada. O dia de amanhã não existia para o Velho Gaiteiro que vivia cada segundo como se fosse o último. Aos seus cansados mas lindos olhos a Moral era um conceito filosófico retrógrado e mortificador. Um dia, o velho Gaiteiro apaixonou-se por uma governanta quarentona que era uma senhora com princípios morais muito rígidos. Embora pusesse pétalas de rosa no peito todos os dias, era, por outras palavras, muito pouco viciosa. O Velho Gaiteiro viu a sua vida a andar para trás e, como tinha muitos jovens seguidores chistosos que o viam como um mestre de poucas cerimónias, resolveu instaurar um processo contra a amada por fraude passional e abuso de desconfiança. A senhora incorreu nas boas graças do juiz que a declarou inocente até ao osso. O Velho Gaiteiro foi condenado a morrer de desgosto e assim o fez. O mito nasceu. A constelação do Velho Gaiteiro pode ser vista nos céus do hemisfério sul naquelas noites de lua cheia que convidam à Paixão.

O Velho Gaiteiro - Cap. I

Antes de vos contar a história do Velho Gaiteiro tim por tim, quero revelar-vos em segunda mão que irei criar uma empresa de serviços de catering para grandes manifestações públicas. Os clientes/manifestantes poderão ainda usufruir de diversos tratamentos de beleza in loco e de um aconselhamento de imagem personalizado não vá o diabo tecê-las e serem apanhados desprevenidos por algum jornalista mais indiscreto. A empresa disponibilizará modelos de textos de reivindicação que compreenderão diversos packs/níveis de indignação e descontentamento. Parece-me um nicho de mercado bastante promissor. Tranquilizem-se amigos: tenho já vários contactos de sindicalistas e outros praevaricatore habilitados.

sexta-feira, março 13, 2009

terça-feira, março 10, 2009

Síndrome de Estocolmo


Jean-Michel Folon

O meu dedo cheira mal.
As cascatas de versos fétidos que segui
com a ponta vermelha do indicador.
A verdadeira questão aqui e ali
não é a honestidade do poeta-oráculo
que acabei de cheirar, vejamos:
os gregos deram-me a

escolher entre
ser refém de alguém, ter medo
para depois criar laços e entre
ler e roubar cânones, água tépida
que não aquece nem arrefece.
Tenho algum tempo
para emendar erros,
afinal a vaidade constrói-se
com baldes de trabalho, contrabando,
paixões capitosas, observar o
outra poeta a observar, a fazer
reféns.

segunda-feira, março 09, 2009

domingo, março 01, 2009

O Tentador Mais Velho do Mundo



Regressei de umas férias tonificantes em Sealand, o país mais pequeno do mundo. Uma semana sem roupa lavada, barba de náufrago, que mais um homem pode querer? Conheci um tipo curioso chamado Papillonete que já tentou todos os meios possíveis para sair daquela ilha artificial. Papillonete gosta muito de tentar. Apelida-se de o Tentador Mais Velho do Mundo.

domingo, fevereiro 22, 2009

Temos um problema de meio-fundo

A nossa nacionalísisma crise de cultura tornou-se, em poucas semanas, numa cultura de crise. Os mais resilientes inspiram-na sem querer. Estão lançados os dados, ou talvez os dadás, para conceber um novo ismo. Lembram-se quando foi a última vez que viram/apalparam ursos pardos no debate quinzenal da nossa assembleia? Pensei inicialmente em lémures com espelhos, mas o bom deus aconselhou-me a ficar pelos ursos.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009



S. Rimbaud assim me aconselhou
em aparição num canal codificado

em jeito de homenagem póstuma à Poesia
deixarei de escrever poemas em breve

vou gerar emprego
abrir uma firma de próteses dentárias
no Principado de Liechtenstein,
talvez uma clínica de fertilidade,
no fundo vai tudo
dar ao mesmo


à minha língua,
ao teu castor.


quinta-feira, fevereiro 12, 2009

He Was A Teenage Werewolf.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Personagens




O mais galhofeiro dos meus personagens estava a lambuzar-se com um favo de mel, quando, de um jeito arrebatado, atirou-o pela janela fora, ordenando de imediato aos restantes que se levantassem das cadeiras de vime. Era claramente o líder deste escol prometedor. Fizeram-no contrafeitos, naturalmente; o mais velho, antigo campeão de tiro às pombinhas, soltou um gás e pôs a língua de fora. A seu lado estava a senhorita Gigi que me estendeu a mão azulada, enquanto puxava com a esquerda o decote de crinolina que insinuava o seio. A criancinha que puxava o vestido de Gigi fez-me notar que eu tinha lapas cravadas nas costas e avisou-me que as lapas só desgrudavam com espumante reles. Que criança tão esperta! Vamos lá, continuemos. Sarabando, meu camarada de armas, branco e maciço como um tampo de mármore. Entregou-me solenemente o seu livre-trânsito para depois desatar às gargalhadas que emprastaram o ar. Que tipo tão maravilhosamente inconsequente! E que duas palavras tão grandes! Comecei também a rir, a rir, a rir, até ter convulsões, como se tivesse perdido o emprego. E não é que perdi mesmo?! Já estou a rir há quarenta e oito horas e só vou parar quando me derem um trabalho a sério. Um Domador de Feras que regressa triunfante à arena após um longo e amargurado interregno! Um Escanção de reis e presidentes de transição (mas cheios de bom gosto!), um Assessor togado de um ex-magistrado justiceiro!

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Aviso

Silenciem PF os telemóveis no meu blogue.
Interdita a entrada a coelhos e a anões réprobos.

Obrigado.

domingo, fevereiro 01, 2009



Bruno Munari

Job, o barman

- Tens a certeza querido? - insistiu, como se ao fazê-lo pudesse eliminar o sentimento de culpa e assim ficar mais aliviada.
- Oh! Então?! Está mais do que decidido. Tantas despesas com esta crise! Vá, vamos dormir, amanhã será outro dia.
E com esta verdade scarlettiana ainda no ar, lá se foram deitar. Luzes apagadas. Ele ainda libertou um longo suspiro enquanto olhava para a penumbra do quarto. De súbito, virou-se para o lado da janela com alguma brusquidão, tapou a cabeça com o edredão e adormeceu.
Dois dias depois, Henrique chega a casa, atira o sobretudo para cima do sofá e ajeita-se na sua poltrona. O comando da televisão?
- Já chegaste querido? - pergunta Margarida enquanto rala umas cenouras na cozinha.
- Meu Deus, esta sala é um gelo! - responde-lhe inconsolado.
Levanta-se, puxa o cesto de lenha debaixo do armário e começa a acender a lareira. Pouco depois, sacode as mãos e regressa feliz ao seu trono.
- Ó Job, prepara-me aí um martinizi...
De repente, dá-se conta e cai em si. Num tenebroso e fulminante si maior. Desencosta-se e olha para o barzinho de canto. Job não estava lá. Tinham dispensado os seus serviços na noite anterior. Nove anos de casa.
Lá fora, o camião do lixo recolhia ruidosamente o lixo dos contentores daquela rua sem saída.

terça-feira, janeiro 27, 2009

os Anões e eu

Quando somos artistas e o reconhecimento nos bate à porta disfarçado de homem de fraque, devemos andar na rua com um ar tauromáquico, altivo. Como se a nossa vida dependesse disso, como se fôssemos o porta-bandeira de uma escola de samba e a nossa consorte fosse a insaciável Catarina da Rússia. Se o senhor utente deste blogue desejar ser um artista de renome regional, pinte o cabelo em tons dourados, passe mais tempo na latrina a contemplar o que ainda lhe falta fazer e dê estaladas em quadragenários quando estes dão a face. Os quadragenários são os tipos mais obstinados que conheço. Mas cuidado. Estas coisas chamam as atenções dos seus camaradas de luta, os Anões. Os Anões não suportam o sucesso alheio. Quando conhecem alguém bem sucedido, encolhem. São muito propensos a ganhar calosidades e inchaços nos pés e, como são tão insignificantes, as pessoas pisam-nos sem querer. Um destes Anões subiu ao ombro do Sr. Director da Comp.ª Lusitana de Cateteres & Esfíncteres e disse-lhe ao encerado ouvido que eu era um artista. Fui brutalmente descanonizado pelo sacerdote da companhia e obrigado a usar uma camisa de cilício. Os meus colegas juram a pés juntos que o sacerdote guarda o cérebro num frasco de formol. Por pouco não fui excomungado e despedido, a sorte sorri aos artistas! Se fosse um bastardo, seria um bastardo com sorte.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Hoje mais do que nunca

No One Knows

(versão liv(r)e)

quinta-feira, janeiro 22, 2009

- Buddy Gay, qual é o seu segredo para cantar assim os blues?
- Todos os dias, mal acordo, bochecho o novo Tantum Blue. It works just fine.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Tudo ou Nada no Dente-de-Fada


Fui um sustenido duro
de roer que achava olhos
de carneiro de mar morto,
filamentos de musgo-real
debaixo de travesseiros
era esta a minha arte
só trabalhava à meia-luz
do gardel, admirava
em sigilo gargantas
fundas, peles de bócio
que não conseguiam
fazer esgotar
o filão da palavra.
Tinham de ser lidos, sim.

Por acerado acaso
a carteira de um
veio parar aos meus pés
em vez de a devolver
ou ingressar nas Forças Armadas
Até Aos Guizos
deixei prescrever
o prazo de entrega
apostei tudo
no Dente-de-Fada:
fiquei dondo e com
um hálito de cabra,
sou um gentilhomme
em Oliveira do Arda

domingo, janeiro 18, 2009

sábado, janeiro 17, 2009

Deus

Virei-me e lá estava ele. Deus apareceu na minha janela. Não tenho cortinas, são uma afronta para os meus vizinhos. Tinha subido pelos andaimes e estava com ar de mártir, mas feliz ao mesmo tempo, não sei bem explicar. Parecia que estava ali há muito tempo. Começou a trautear uma música que aos poucos fui reconhecendo. Era o Abracadabra da Stevie Miller's Band. Que bela voz! O tema foi um êxito no ano de nascimento de alguém. Abri a janela para o cumprimentar. Ele agachou-se para pegar no balde e assustou-se. Por pouco não caia se eu não o tivesse agarrado pelos colarinhos de flanela. Ficámos a olhar um para o outro por alguns momentos. Fechei a janela delicadamente, estava a ficar com frio. Deve ter ficado aborrecido comigo. Não deveria ter salvo Deus. Ninguém faz isso. A coisa agora mudou de figura para o meu lado. Ele nunca mais apareceu a partir desse dia e deixou a obra a meio. Os andaimes ainda lá estão.
The Butcher & The Wolf

sábado, janeiro 10, 2009

A Queda do Conselheiro Morno - II

Mas o Conselheiro Morno tinha um rival temível, um rival à sua altura, talvez fosse até um pouco mais alto. Sua Proeminência, o Cardeal Burgundy, era um homem sinistro, esguio, tinha a fronte encarquilhada pelos anos de devoção delirante e de austera reclusão monástica. Os guardas e os criados viam-no à noite a assombrar pelos longos corredores do palácio, sempre rebuçado numa túnica sanguínea. No entanto, quase todos diziam que era muito virtuoso e muito entendido nas coisas divinas e, talvez por isso, todos os seus bastardos tivessem saído muito virtuosos também. Fidelíssimo ao rei, este consultava-o sempre nas matérias de Estado. Como decerto ja adivinharam, a trama do Cardeal para descredibilizar o Conselheiro estava estendida há muito, mas o Rei amava muito a sua única filhinha e não se oponha às caminhadas dos dois se isso a fazia feliz. O monarca, lá no fundo, alimentava uma admiração secreta pela inteligência iluminada do seu conselheiro e até lhe imitava a postura elevada, os seus gestos pausados e graciosos. Isto arrebatava as fúrias do cardeal em violentos monólogos quando este recolhia aos aposentos.
Numa dessas tardes idílicas, o Grande Bastonário da Confraria das Bagatelas, ser insidioso e possuidor de uma língua mais viperina do que a das cortesãs, passeava sozinho pelas veredas da ala norte do labirinto, fumando o seu rapé quando, de repente, deteve a sua marcha. Pareceu-lhe ouvir, do outro lado do ornato verde, alguém a arfar, e depois ais e suspiros cavos, roucos, de profunda agonia.
O fim do meu intricado romance histórico está iminente. Tenho de vos deixar por agora para dar prioridade a esta obra. Não deixem de aquecer os vossos bancos ou cadeiras da melhor forma que entenderem e, sobretudo, não ponham a carroça à frente dos bois, nem enfeitem os bois à frente das vacas. Num piscar de olhos, saberão o desenlace trágico desta história baseada em factos reais e clericais. É de fazer chorar as pedras da calçada.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Longa Quilometragem



Uma vez vi uma longa metragem. Oito (8) horas de filme. Era mau como as cobras. Mas fiquei estoicamente até ao fim e até vi os descréditos finais. E, na 2ª feira, vou ter de o ver outra vez. E mais uma vez no dia seguinte. Sinto-me burlado e um pouco asino (...).
E o óscar este ano vai para aquele senhor ao lado daquele senhor que está atrás daquele cavalheiro bocejador de cartola creme. Oh, finalmente foi-lhe reconhecido talento. Ele merece.

sábado, janeiro 03, 2009

Factos ocorridos entre 31 de Dezembro de 2008 e 01 de Janeiro de 2009.




O Exmo. Juíz de Fora bebeu soda caústica
em vez de champanhe. Viveu três minutos de 2009.

Na antiga Rodésia, um caçador furtivo matou
o último leão do Parque Nacional. A sua efígie
será perpetuada nas notas de Z$ 100 000 000.

Os sem-abrigo de Rimini ofereceram as
suas mantas aos banhistas de Ano Novo.

João de Lima Triste reparou que não tinha
as vacinas em dia. Como era hipocondríaco,
morreu de aflição pouco antes da meia-noite.

De repente, calaram-se todos e encostei o ouvido
à parede:
- Filomena, São Benedito está entre nós esta noite.
- Como é que ele entrou no nosso quarto, poderás dizer-me?


O dono de um café de Tróia quis aparecer
no notíciário. Contratou três sem abrigo
de Rimini para assaltar o estabelecimento.

Os worst-sellers de 2008 estão carregados
de histórias inúteis como esta. É bem feito.

O Ministro do Equipamento está feliz porque
estreou cuequinhas novas e recebeu um postal de Ano
Novo do Primeiro.

Rolou a última cabeça condenada em 2008. Se
tivesse a cabeça no sítio chegaria a 2009.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

A Queda do Conselheiro Morno - I

O calo rosado que despontava do nariz da Infanta começou a encolher, a encolher, até desaparecer por completo. Ah, as passeatas pelos jardins do palácio com o ilustre Conselheiro Morno pareciam estar a dar os seus frutos. A Infanta apreciava muito a companhia deste homem sensato que dedicara a sua vida ao reino de Sua Leviandade, o Rei. Se Deus Nosso Senhor quisesse (e o relinchar vigoroso dos alazões da Cavalariça Real se prolongassem nas madrugadas nos três primeiros quartos minguantes do ano), o seu nome iria ser invocado por gerações de conselheiros e diplomatas.

Como é frequente nestas histórias, alguns cortesãos, servum pecus de Sua Leviandade, cobiçaram até ao caixão o cargo e o favoritismo real, e até a sua amante, menstruadíssima de sangue azul, conseguia transformar a maledicência numa arte. Os seus ossos ficaram roídos pelo ciúme e quase que desmaiava quando via os dois a passearem pelos intermináveis labirintos verdes. Mas o Conselheiro Morno era um homem de tal forma insigne e magnânimo que desdenhava as "pequenas fraquezas" dos outros (e quando envergava a sua jaqueta preta desdenhava duas vezes mais).

Por hoje é tudo. Dêem-me o prazer da vossa companhia nas próximas madrugadas e contar-vos-ei como teve início da queda do Conselheiro Morno.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Caldos Knorr


vejam-no
vejam-no bem
o chef mira
à sua volta
("sua", estimado leitor)
com extrema unção
confecciona e
apura o tempero
a puxar o picante
usa coagens,
usa alavancagens
usa receitas tradicionais
portuguesas
um gourmet com

o anelar enfiado
no passevit
fez sempre
tudo às claras
até picou carne
que não era sua
("sua", estimado doutor)
os comensais
são cristos-reis
assim redentores
e nunca apresentaram
uma única queixa
até agora

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Piss Mooning


Gilbert and George

terça-feira, dezembro 16, 2008

Mikado


A memória funciona como as marés. Associei agora a tua prenda à entrevista de trabalho que tive com gestor de hotel japonês que gostava de se vestir de camareira. Um homem de uma cordialidade datada, excessiva, quase incómoda, mesmo para um oriental. Gostava de cirandar pelos longos corredores do hotel com um caniche branco e prestar serviços especiais a todos os executivos ocidentais que usufruíssem do protocolo com multinacionais. Nessa altura, a conduta do gestor já não era segredo para nenhum dos funcionários do hotel. Mas, sabes como são os japoneses, preferem enfiar um sabre na barriga a questionar os seus superiores. Os últimos pisos, os mais luxuosos, estavam sempre ocupados. Um dos serviços consistia em deixar cair um mikado que era uma pequena lembrança do hotel. Quase todos os americanos eram prestáveis e baixavam-se para ajudar o gestor-camareira. Antes que dessem conta, estavam os dois ajoelhados a tentar tirar os pauzinhos com o maior dos cuidados. Assim que o gestor-camareira abandonava o quarto, os clientes pensavam muito nas suas consortes e ligavam para casa para falarem dos filhos e de coisas banais.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Os Quatro Velhotes


Leon Kossoff

Eram quatro. Depois de encherem o bandulho com pratos postos sempre em dia, juntavam-se na praceta do município e elaboravam grandiosos espectáculos de água. Um deles chegou a cuspir um dente de ouro mas não se arreliou muito com isso. Era um pouco vagaroso mas sabia expelir pequenos jactos amarelados e intermitentes das orelhas elefantinas. O das sobrancelhas bastas e pretas arrotava ao sabor do vento e era muito teatral, sabia fazer elipses e parábolas que faziam parar as maezinhas e os meninos. O terceiro fora adido de embaixada e era todo bem falante: descrevia uma longa e ornamentada introdução e devolvia educadamente as moedas castanhas no final do espectáculo. O mais novo chamava-se Tristão e usava uma touca de carmelita mas confessava-se devoto de Sta. Valha. Jaculava até onde a vista alcançava enquanto fumava cigarrilhas de baunilha. Executava sempre o solo das águas revoltosas e era o único que verdadeiramente possuía alma de artista.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Com o cartucho encaixado
na cabeça rapada,
o fiel de armazém sai
daquela cena tremenda
coça a barba passa-piolho
do encarregado, trepa
pela escada de metal saudando
os quebra-luzes de design.
Pede inabilmente à menina
Gwendoline gaga da
secretaria para expelir um gemido
convulsivo no sentido contrário
ao dos ponteiros do relógio.

Não deixa de ser possível
que todos os funcionários
dignos dessa categoria
se sintam em dívida
quando ouvem a sirene
naquele final de Acto.

sábado, novembro 29, 2008

Theramin



por Armen Ra

segunda-feira, novembro 24, 2008

O quiosque vermelho



Os pais babados recolhiam os rebentos no guichet que tinha espaço suficiente para fazer passar um recém-nascido. A unidade de obstetrícia fora transferida de urgência para o quiosque vermelho situado no outro lado da alameda que fora milagrosamente poupado pelo bombardeamento que devastara a cidade há duas semanas. Os dementes da ala psi fizeram dois círculos concêntricos em torno do quiosque para o proteger de estilhaços e desabamentos dos blocos vizinhos. Apenas os progenitores e duas velhas parteiras podiam passar. Os dementes revezavam entre si, noite e dia, e nem o mais valente dos heróis de guerra, que procurava desesperadamente mancebos de tenríssima idade, ousava violar o perímetro vigiado.
A taxa de mortalidade infantil descera a pique nesse período.

segunda-feira, novembro 17, 2008

Doutor preciso de ajuda



Quero adelgaçar o meu bolbo raquidiano e ter a competência para lembrar ao meu superior que amanhã será terça-feira. A minha única função na multinacional é esta: lembrar das mais variadas formas aos meus colegas que amanhã será terça-feira. Se o meu desempenho satisfazer os critérios de conformidade do conselho de administração, serei promovido para as quartas-feiras (que é um cargo muito cobiçado, como poderão calcular) e dentro de alguns anos atingirei o topo da carreira.

Lama

na admirável companhia dos
meus camaradas, reptei
de farda limpa
de fim de semana
em direcção aos olhos
do nosso alferes que brilhavam
como dois pequenos escaravelhos
nesse momento,
com a boca cheia de lama
e o pêlo encharcado,
aprendi a tirar partido
da perversidade alheia
e fiz-me homem,
tal como me tinham prometido
ainda assim, preferia
ter ido para
a imaculada Armada,
tal como me tinham prometido

sexta-feira, novembro 14, 2008




quarta-feira, novembro 12, 2008

o espelho do elevador

o espelho do elevador
aprende-me aos poucos
primeiro a testa sulcada
falésia de uma intuição
bravia e à toa
depois os olhos mais

vigias do que janelas
O célebre nariz: demora-se
mais aqui, é um pedinte turco
estendido no meio da cara
que esmola cheiros.
Chega à boca devagar,
é cumpridora
mas submissa
como S. José
depois da Anunciação.
Saio de elevador:
"Que Bocage suburbano
me saíste, que pega vaidosa!"

terça-feira, novembro 11, 2008

E-planes



O técnico de 1ª nobelizado é um homem feliz outra vez.
Redescobriu o seu verve literário e não pára de fazer e-planes com as páginas dos seus revolucionários e-books. O técnico de 1ª treme de e-moção.

domingo, novembro 09, 2008

O búlgaro e sua mulher Lucrécia


Gostaria de pensar que as unhas que corto em quarto minguante servem de abrigo a minúsculos peixes-tolos e a vaidosos lagostins cor-de-rosa no fundo do mar. Uma vez conheci um búlgaro muito meticuloso que embalsamava crustáceos e expunha-os no seu vestíbulo que era uma espécie de um pequeno labirinto em espiral. Havia também exemplares impressionantes na sala de estar. Chamava a mulher de Lucrécia quando tinha visitas. O nome de família da senhora, que era muito bela mas não disfarçava o ar ensonado, era impronunciável, doloroso de se dizer. O búlgaro é daquela estirpe de pessoas que sabe exactamente o que quer e para onde vai e, como se costuma dizer, isto joga quase sempre a seu favor.

quarta-feira, novembro 05, 2008


The Sleeping Beauty Wolf,
Leon Bakst

terça-feira, novembro 04, 2008

A limpeza convencional

a limpeza convencional
origina questões sociais
sobre baldes de água suja
e elevação mecânica dos braços
da populaça:
a) verdadeiro

b) falso
c) embora não pareça, assumo-me refractário do actual regime das Caldas. Colaborei com o velho herói de um pretério mais-que-perfeito. Mas arre que me arrependi amargamente, é meu desejo ser vaiado na praceta pública, quero ser linchado à antiga, mereço encolher aquilo que semeei. Juro* pela mãezinha. Embuscadas em instituições bancárias bambas -não estou à altura,a minha paciência atingiu a red line. Não estou em condições de responder a este inquérito insidioso, sinto-me apodrecido e até tristonho.

*Onde se lê "juro", deverá ler-se "taxa de menopausa incontinente"

domingo, novembro 02, 2008

A menina Glande



A menina Glande (que já não era tão menina assim) era o orgulho da família. Tinha as faces ruborizadas e um olhar vivo, luminoso, e a sua boquinha parecia um ponto final trocista. Era muito impulsiva e prazenteira. Nas festas, punha-se sempre de perfil para as fotografias, achava-se mais bela assim. Os rapazes da região queriam todos estar em seu redor e todos a convidavam para dançar. A menina Glande fazia anos no primeiro dia de Primavera e o seu babado e abastado pai ofereceu-lhe um magnífico cavalo branco. A cauda do belo animal arrastava-se majestosamente pelo chão e todos queriam tocar no seu pêlo sedoso. A menina não cabia em si de contente e largava pequeninos jactos de saliva de tão excitada que estava. Como era muito vaidosa, quis logo montá-lo e mostrar-se a todos na aldeia.

sábado, novembro 01, 2008

"How Many More Years",
Howlin' Wolf

sexta-feira, outubro 31, 2008

Estudo para um soneto alexandrino


A vossa atenção pf. Isto é um primeiro estudo para um soneto alexandrino com tónicas a sério. Setembro de 1939. Os aduaneiros polacos deixam passar pelicanos alemães a troco de uns cobres e de umas quantas frauleins. Como poderiam adivinhar que as suas bolsas levavam Panzers e regimentos inteiros? Ah, a história repete-se. Setembro de 2008. Os aduaneiros islandeses deixam passar pelicanos ingleses a troco de uns cobres e de umas quantas frauleins. Como poderiam adivinhar que as suas bolsas levavam taxas de morte e veneno especulativo? (...)

quarta-feira, outubro 29, 2008

O lagarto embalsamado

O fiacre pára subitamente na velha rua molhada. Os arredores e as pessoas que aí vivem estão condenados a serem sujos e feios. Os cavalos relincham estorvados. O suor escorre pela fronte do cocheiro como se as águas lhe tivessem rebentado. Atrás estão duas mulheres. A do vestido de tafetá púrpura limpa os lábios com um lenço de renda enquanto lança um olhar vicioso à mais nova que puxa as meias e arranja a crinolina. A rua está deserta. De repente, o cocheiro cai fulminado para o lado. Ouve-se um choro sufocado de um bebé que parece vir das traseiras. Uma das mulheres abre lentamente a porta do fiacre e desce com um frasco debaixo do braço. O lagarto embalsamado do frasco parece sorrir.

terça-feira, outubro 28, 2008

A boca de Midwest



Não desertou.
Voltou para junto
dos seus camaradas,
lutou até que o inimigo
se entregasse.
À noite, enquanto
limpava a arma
(a areia do deserto
é impiedosa)
fitava a boca
do novo oficial
e isso parecia
bastar-lhe.

quinta-feira, outubro 23, 2008

O Capitão-de-mar-e-guerra


a noite devolveu-me aquilo
que era meu
desde nascença:
deus-filho

será para ti,
cara de pastel envergonhado,
o autor do Tratado Marítimo
da Paixão Missionária,
o Capitão-de-mar-e-guerra com
binóculos de longo alcance
e medalhas de mérito
ao peito. No dia em que se
reabastecer em terra, anjos
grumetes irão anunciá-lo
em barcaças douradas enfeitadas de
coroas de flores, com os nomes
de todas as Virgens conhecidas,
o céu e o mar ficarão tingidos
num azul Yves Klein, o grande profeta

francês do século vinte.
É por isso que olhamos
para o horizonte.

Menos Dois

- Boa tarde.
- Boa tarde, para onde vai?
- Para o - 2, por favor.
- Não vá. É desagradável nesta altura do ano.
- A sério?
- Além disso, come-se mal, já lá fui duas vezes
com a minha senhora e não gostei.
- ...e agora?
- Olhe, no domingo cedinho, pegue na sua família
e vá por aí fora até ao 4º. Ainda apanha as amendoeiras
em flor, é muito bonito, parece uma pintura.
- Ah! E come-se bem?
- Uma dose dá para três pessoas. Olhe para mim sou
um homem de sustento.
- Sim senhor. Obrigado.
- Ora essa. Já agora, é o senhor que costuma dormir
nu da cintura para baixo e não tem estores?
- Sou sim.
- Tenho aqui uma carta da gestão do condomínio, veio
por engano ter à minha caixa.
- Ah agradeço-lhe mais uma vez!
- Não tem que agradecer, temos de ser uns para os outros.
- Pois é, pois é!
- Saio aqui, continuação.
- Continuação, até logo.

segunda-feira, outubro 20, 2008


"O Enterro de Punchinello"
Giovanni Domenico Tiepolo

sábado, outubro 18, 2008

As santas amas-de-leite

Nos condados da Pequena Polónia, todas as capelinhas e igrejas têm estátuas de amas-de-leite nos nichos laterais e até nos altares-mor. Os sacerdotes consagram os seus votos perpétuos à ama-de-leite com o mesmo nome da sua mãe ou madrasta. Os mais velhos dizem que cai chuva branca durante três dias e três noites quando nasce uma santa ama-de-leite. Dizem ainda que haverá batatas em abundância nesse ano e que ninguém padecerá de doenças dos ossos.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Paranoid,
The Black Sabbath

terça-feira, outubro 14, 2008

o homem dos ralos



um homem meio truão
meio instantâneo
vendia ralos
da reputada casa "Clockwise"
junto ao museu nacional
o peito servia de bancada,
os interessados compravam
o artigo com as mãos atrás da nuca
em tom de lamúria: "o custo da vida, etc."

no fundo era um estratega
bem sucedido
as pessoas eram atraídas
pelas balaustradas
onde ficava encostado
todo o dia
"é um produto que vende
por si", dizia
com olhar macio e
enquanto ordenava os ralos
por tamanho

segunda-feira, outubro 13, 2008

Chapéus de palha



O barbeiro despachou os chapéus de palha num abrir e piscar de olhos. E ainda fez um bom dinheiro nesse Verão. Os antigos donos ficavam tão embevecidos com o novo corte que se esqueciam dos chapéus. Alguns até saíam com o penteador nos ombros e andavam assim dias a fio, muito cheios de si.

sábado, outubro 11, 2008

O Carteiro de Boulevard Rousseau

Enquanto a mulher do 22 assinava o aviso, o Carteiro penteava lentamente o bigodinho hirsuto com o dedo e o polegar, sem desviar o olhar da figura que tinha diante de si. A jovem tinha o cabelo apanhado e usava uma camisa de seda escarlate. A corrente de ar trazia do interior da casa um aroma a mel misturado com suor. Há quatro anos que entregava a correspondência naquela casa e fora sempre recebido por uma mulher diferente. Chegou a fazer vigílias à noite, durante horas a fio, no pequeno jardim de Boulevard Rousseau, mas nunca viu ninguém a entrar ou a sair daquela casa.
- Como é possível? - pensava, ajeitando o bigodinho.
Ao contrário de outros colegas mais madraceiros, o Carteiro nunca falhou uma carta e nunca trabalhava em contraluz tal como lhe recomendara o seu chefe no primeiro dia. Para evitar surpresas desagradáveis, trazia sempre uma sombrinha consigo. Conhecia cada pedra, cada janela, cada esquina do Boulevard Rousseau como a palma da sua mão e, tal como no filme da Lara Turner, fazia questão de tocar sempre duas vezes.
Dois dias antes de ser transferido para outra zona da cidade, verificou que tinha uma encomenda para o 22. Deixou-a para o fim do giro. O dia estava anormalmente quente para aquela altura do ano.
A mulher que veio à porta parecia ser mais velha do que todas as outras e teve a sensação de que já a vira em qualquer lado. Era madura como uma maçã vermelha pronta a comer.
- Não quer entrar e beber uma limonada? - perguntou, enquanto abanava lentamente um leque com uma paisagem oriental.
O coração do Carteiro saiu disparado pelo peito, mas recompôs-se de imediato.
- É muito gentil, mas não é necessário.
- Vá lá, faço questão! Não deve ser fácil trabalhar debaixo deste calor horrível! Entre.
A mulher deixou a porta escancarada e desapareceu no interior da casa. Faltava pouco mais de cinco minutos para o meio-dia e o sol não dava sinais de tréguas.

quarta-feira, outubro 08, 2008


Jean Seberg (1938-1979)
CSI no encalço de Bach e Bach

terça-feira, outubro 07, 2008

As mulheres das passagens de nível


Nos tempos do Antigo Regime, a CP empreendeu uma selecção de pessoal sem precedentes no historial da empresa. As mulheres das passagens de nível deviam ser facilmente reconhecidas pela sua feiura saudável e distinta. Terem nascido viúvas e terem uma irmã gêmea (falsa ou verdadeira) eram também dois pré-requisitos obrigatórios. As seleccionadas vivam em casebres junto à linha. Não podiam entrar em querelas com as suas irmãs gêmeas que empunhavam gloriosamente as bandeiras. Estas bandeiras foram queimadas quando as mulheres das passagens de nível partiram em debandada não se sabe muito bem para onde. Há quem afirme ter visto algumas destas mulheres empoleiradas em catenárias de linhas desabilitadas, no interior profundo.
O museu da CP apresenta uma exposição temporária de diapasões utilizados pelas mulheres das passagens de nível. Os diapasões eram colocados sobre o carril para calcular a distância do próximo comboio. A precisão destes instrumentos era notável.

quinta-feira, outubro 02, 2008

D. Quarto III, o Fazedor de Bastardos

Carrega nos ombros
metade do seu reino
a outra metade
é feita de embriões reais
que são as armas da nação
no dia a seguir
ao seu 50º aniversário
apaga a crise de meia idade
na varanda do palácio,
sonhos venezianos -
todos os gondoleiros
são seus filhos
e todas as pontes
são de marfim.
Trôpego, volta
para dentro
e põe o cozido
em lume brando.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Os encantadores de serpentes




Quando atravessaram o Bósforo, os encantadores de serpentes ficaram pasmados com a imponência e a nobreza dos templos europeus. O ancião do grupo, Boca de Áspide, ou o Grande Mestre Virtuoso, como lhe chamavam os seus pupilos, enterrou o seu funil de latão junto da catedral de S. Alexandre Nevsky, porque acreditava que iria ouvir finalmente as "sábias falas dos homens e as belas melodias da natureza". A grande diáspora dos encantadores de serpentes tinha começado. Contudo, e tal como nas histórias de alienígenas , os encantadores de serpentes ficaram contaminados com as palavras melífluas das castas mais letradas e, por mais que se esforçassem, não conseguiam compreender aquilo que os sacerdotes diziam. Estranhavam muito as suas vestes, pois, na sua terra natal, os homens sagrados andavam nus e não viviam enclausurados. Então começaram a imitar as gentes nativas até ao mais ínfimo pormenor, adoptando poses quando fumavam ou inalavam rapé, choravam nos ombros dos outros sem motivo e conspiravam entre si na troca de pequenos favores, sem nunca se cansarem destes gestos. Com os anos, estes gestos tornaram-se maneirismos; com os séculos, estes maneirismos transformaram-se em rituais que viriam a ser observados por todos. Deixaram de falar alto para falar baixinho e muito delicadamente. Quando lhes faziam perguntas para as quais não sabiam a resposta, inventavam frases evasivas, mas de um jeito muito gracioso e eloquente. Criaram uma linguagem própria e muito distinta de todas as outras. Agora, era a vez do povo de não compreender aquilo que os encantadores de serpentes diziam e, como ninguém queria ser visto como ignorante, começaram a respeitar e a louvar os encantadores. Os encantadores deixaram de vaguear de terra em terra para se estabelecerem nas capitais e engordarem até poderem rebolar sem grande esforço. Alguns, porém, ainda usam cintas de cetim para parecerem mais elegantes. Raramente suam e cheiram sempre a alfazema ou a frésias.
Naturalmente, nem todos foram bem sucedidos. Estes infelizes morreram na maior das misérias. Os cães parecem ser únicos que gostam de farejar e demarcar o sítio onde estão enterrados.

terça-feira, setembro 30, 2008

segunda-feira, setembro 29, 2008

Enfermidades da Boca


por Anne Frank





Querida Kitty,

os meus lábios romperam-se
de madrugada
e sinto uma secura
tremenda nos cantos da boca
não consigo sequer
engolir a saliva
como se não bastasse
o papá perdeu hoje
a paciência comigo
diz que passo a vida
a escrevinhar
coisas inúteis
às vezes apetece-me sair
deste buraco e entregá-lo
aos alemães
amanhã irei arrepender-me
destas palavras
eu sei querida Kitty
mas as enfermidades da boca
põem-me fora de mim

Tua Anne

domingo, setembro 28, 2008

Como matar um odioso e roçagante discípulo de Gaudí - Diário de um Peregrino de Sant Jordí

4º Dia

- Sou batedor de um novo caminho, o Caminho Redentor de Sant Jordí.

Ninguém reagiu. Um velho com as faces muito ruborizadas deu um passo em frente. Tinha as pernas mais magras do grupo. Ficou ali parado a estudar-me de cima a baixo.
- Não és homem para mentir, faltam-te ainda alguns anos para fazeres isso bem - disse-me com uma voz rouca e oracular.
O pequeno grupo lá seguiu caminho. O velho aproximou-se de mim, agarrou-me no braço direito com alguma rudeza e seguimos na direcção contrária à Via de La Plata que é o maior caminho de S. Tiago em terras de Espanha. Na última noite que acampámos juntos, disse-me que tinha sido metalúrgico durante trinta anos numa fábrica em Sheffield e que, às sextas-feiras, gostava de comer "tarts" e embebedar-se. Às portas de Cárceres, sumiu. Nesta terra enfeitada pelo sol, apressei-me a estudar os movimentos dos grandes pássaros negros que planavam tristemente sobre a cidade. Acocorou-se diante de mim um contra-regra gorducho e sorridente que me ditava baixinho como fazê-lo. Dia sim, dia não, surgiam nuvens esponjadas que se assemelhavam ao perfil do nobel galego, Camilo J. Cela, de boina e com a língua de fora.
- Um sinal auspicioso! - pensei enquanto apertava firmemente o meu bordão.

Como matar um odioso e roçagante discípulo de Gaudí - Diário de um Peregrino de Sant Jordí

9º dia

Para vos poupar de um certo suspense irritante que vulgarmente se inclui no feitio convencional dos diários picarescos, posso assegurar-vos que o matei no seu próprio gabinete. Se a vossa paciência assim o permitir, posso prová-lo de forma irrefutável. No Jardin de La Fecundidad, na parte baixa da orgulhosa cidade de Granada, é possível ainda ouvir os grunhidos que descem do topo das árvores. À noite, o efeito é ainda mais impressionante. Pode levar-vos às lágrimas e secar os vossos ossos por completo se forem do tipo sensível. Os ecos da sua morte propagaram-se por toda a península e agora todos são suficientemente corajosos para blasfemar o seu nome. A História está encharcada de homens que se tornaram heróis por acaso. Creio não estar enganado se afirmar que finalmente encontrei a minha vocação.

sexta-feira, setembro 19, 2008


Eduardo Recife

O quadro

Estava sentada na beira da cama a olhar para o campo de algodão. As cabanas dos escravos não tinham portas. Nesse final de tarde, o senhor ofereceu-lhe um quadro com uma grande planície. Lembra-se de ele ter dito que era no longínquo oeste. A partir desse dia, que era o terceiro, sempre que o seu senhor estivesse em cima dela, a escrava não desviaria o olhar do quadro antes que ele acabasse.
Passaram cinquenta anos. Já todos tinham partido. A Guerra acabara, e três dias antes da sua libertação, a velha escrava dirigiu-se à mansão com um embrulho debaixo do braço. O senhor recebeu-a algo surpreendido. A escrava entregou-lhe o embrulho com as duas mãos e foi-se embora. O senhor seguiu-a com o olhar até ela desaparecer no fundo da alameda. Cortou então o atilho grosseiro com a faca, rasgou o papel e ficou ali na soleira a olhar para um quadro em branco.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Novíssimos haikus livres (para médicos forenses de meia-idade)





uma mulher-violeta
brotou junto ao charco

entre as pernas
gotas de orvalho borrifadas

ainda por colher
estará à venda?

atrás dela

pegadas de homens-rã

recuei a medo
com a lua dentro de mim

sou o homem-camélia
que murcha uma vez

segunda-feira, setembro 15, 2008

Jogo do Bicho



No brasileiríssimo Jogo do Bicho, o número 24 está associado ao Veado que, por sua vez, é um animal associado à homossexualidade. Quando o filho nasce no dia 24, a homofóbica mãe brasileira prefere registar (ou registrar) o nascimento do seu filho no dia 23 ou 25. No entanto, pode registá-lo ou baptizá-lo com nomes extraordinários como Bambi Nascimento ou até Chifres Júnior dos Santos.

(Pouco depois da postagem do texto anterior, senti-me estranhamente envergonhado, sujo até, como se a Clarice Linspector - que irei venerar até à morte - estivesse a vigiar-me por cima do ombro. Peguei então num livro do Rubem Fonseca da estante, colei-o junto ao peito e o sentimento mau passou. Me perdoa, minha Clarice).

o Deus da Higiene Facial

o Deus da Higiene Facial
(o etéreo_____ ______ -

ou aquele cujo nome não deve ser proferido)
disponibiliza-me
uma providencial
Wilkinson for Women
no fundo da primeira gaveta

talvez porque

pus em causa
a minha idiossincrasia
enquanto bebia uma marguerita
em Lloret del Mar
talvez porque
deseje um Portugal
dos Pequeninos sem ATMs
mais seguro
talvez porque
nunca deixei de gostar
de gravatas de seda
exclusivas

mas vamos a isto.
Desfiro o primeiro golpe
com tauromática galhardia
e cai um fino fio de sangue
sobre o lavatório

a passividade estival
faz-me contemplar
o sangue enquanto
questiono novamente
os meus ideais
parapolíticos
e me ofereço
ao meu novo deus.

sexta-feira, setembro 12, 2008

Tróia



Antes de Usar
Leia com Atenção
As Instruções
Neste Verso

The Goldenteethchickjacking


Ouviu falar do flagelo no salão de estética enquanto fazia meia perna e sentiu-se imediatamente arrebatada pela ideia. Teria de lavar mais escadas, fazer o frete e sair com uns estudantes nos tempos livres, mas, no fim, valeria a pena. Com o implante da prótese dourada, iria combater a dramática solidão em que vivia e seria obscenamente famosa.
No fim, e correndo o risco de me estar a repetir, no fim, valeria a pena.

quarta-feira, setembro 10, 2008

Os macacos do velho Boris



Para o Rui M. Amaral


Boris conseguira despachar os macacos por um bom preço. Estava cansado das suas insubordinações e fúrias repentinas, e, por vezes, sentia-se ameaçado quando acordava de manhã e via-os a dormir a seu lado.
-
Como é que macacos maniqueístas conseguem escapar de jaulas de aço? - interrogava-se enquanto coçava o cocuruto rapado.
Treinou-os durante seis longos anos para o transportar num magnífico cadeirão de vime, mas os macacos demonstravam cada vez mais sinais de desmazelo e chegaram a ameaçar o búlgaro com tacos de cricket. Onde é que eles foram desenterrar o raio dos tacos?! A verdade é que as coisas tinham mudado drasticamente. Seria talvez porque Boris tinha engordado muito nos últimos anos? Ah mas a vida finalmente sorria ao velho Boris! Havia sempre ilustres admiradores entre a audiência que retribuíam generosamente o seu espectáculo de rua. Mas chegara a hora de se retirar e a macacada estava a dar mais dores de cabeça do que lucro. E assim foi. Boris ainda sentiu um aperto no peito quando os viu partir com a caravana de ciganos, mas foi melhor assim. Com esse dinheiro, Boris iria aproveitar para concretizar o sonho de uma vida: comprar um transístor AM incorporado numa mesinha de cabeceira laqueada. A peça era bastante pesada, uma vez que o tampo era feito de mármore de Carrara. Boris já se imaginava a tactear suavemente o mármore fresco enquanto ouvia os longos discursos do presidente antes de adormecer.

terça-feira, setembro 09, 2008

vê-se logo que
quem por aqui passou
gostava de dormitar
num forno de cal
tinha a crosta da cabeça
branca como os penhascos
de Dover
os álbuns com milhares
raios-X demonstram
uma vaidade
e uma necessidade de exposição
sem limites
usava braçadeiras metálicas
nos dedos para ter
a mão mais segura
quando garatujava

se algum dia alguém
conseguir provar
a sua precária existência
será por causa dos versos
pendurados no tecto
cheio de humidade -
alguns encontram-se
em adiantado estado de decomposição
como pilotos que se ejectam
e ficam presos nas árvores

sábado, setembro 06, 2008

Isso é muito aborrecido

- isso é muito aborrecido não tenha a menor dúvida
- o que me foi acontecer
- sabe acontece sempre a quem não merece
- e logo a mim que não faço mal a ninguém
- esqueça lá isso deus não dorme
- mas isto não fica por aqui ai não-não
-
-
- quer fazer amor selvaticamente?
- ah! o senhor por quem me toma?
-
- o senhor como me toma?
-
-
- já acabou?
- sim
- ora adeus cavalheiro
- adeus minha senhora

quinta-feira, setembro 04, 2008


Felix Vallotton

terça-feira, setembro 02, 2008

no dispensário


sento-me entre um engraxador
e um yorkshire
o engraxador traz um letreiro
ao pescoço que diz "Homem-Prodígio"
faz estalidos com a boca
parece-me asseado
o yorshire retrai a respiração
e quando já não aguenta mais
cospe uma polpa rosa para
uma escarradeira de esmalte com
pequenas manchas que parecem
nuvenzinhas
à minha frente uma ex-cabeleireira
com um guarda-chuva de cerejas
sobre as pernas
olha ferozmente para mim
"Quero/quero fazer-te num dossel"
parece dizer-me baixinho
enquanto faz força
no dedo picado
com o algodão hidrófilo

domingo, agosto 31, 2008

Karamba, karacho, ein Whisky

Hoje cantamos Heino, amanhã reconquistamos o mundo.

sábado, agosto 30, 2008

Pascal, o Croupier


Pascal era o croupier mais antigo do Grand Napoleon. Ipso facto era o mais experiente do casino. Era igualmente o único croupier do único casino da ilha de Sta. Helena. Ao contrário do montante e do juzante daquilo que possam pensar, Pascal não gostava das suas mãos e usava luvas pretas de seda perfumadas. Via-se obrigado a interromper o seu trabalho com bastante frequência para lavá-las com sabão de marselha, pois emitiam um intenso odor a resina. O sogro da sua ex-mulher, "o melhor ex-sogro que eu já tive" segundo a escala afectiva de Pascal, acreditava (de forma obstinada e pouco razoável como só os cinquentenários sabem acreditar) que o nosso herói sofria do Síndrome de Pilatos e que isso arruinou o casamento com a sua filha do meio. Mas, como já decerto pestanejaram, o verdadeiro motivo era outro e não está nem um fio relacionado com o Estranho Caso dos Corações Triturados em Almofarizes de Bronze.

Como é costume em Sta. Helena, o casamento do primogénito é um sacramento combinado entre os pais dos futuros noivos. Quis o inclemente Destino que o irmão de Pascal morresse de disenteria nas minas de diamantes do Baixo Zaire. Pascal, enquanto legatário imediato, deveria honrar o compromisso assumido pelos pais e asssim o fez. Casou-se. Luísa amava Pascal, mas não era correspondida no seu amor. As primeiras semanas do jovem casal foram um verdadeiro suplício para o desafortunado croupier. A infelicidade e o pó reinavam naquela casa. Mas, numa noite sem luar e enquanto lavava as mãos, Pascal celebrou um pacto
consigo mesmo que o ajudaria a suportar a sua sorte. Fechou a torneira, olhou para o espelho e disse em voz baixa:
- As lágrimas secam mais depressa quando estamos perto de uma lareira.
Abriu novamente a torneira dourada e continuou a lavar as mãos.

terça-feira, agosto 26, 2008

Insónia seca


DuBois, Gerard


debruçado
na madrugada
vejo um
homem de fato
escuro
a passear
de andas
nas escamas sujas
da rua

uma televisão
aos gemidos
desliga-se e
a noite derrama-se
cada vez mais
sobre a rua

só por uma vez
gostaria que ele
levantasse
a cabeça do chão
e olhasse para cima

sou uma página
presa noutra página
que a noite avança
com as pontas dos dedos
negros e finos.

quinta-feira, agosto 21, 2008

O Judeu Abrahim e a Casa de Licores


No remoto cantão de Bons-Ares-do-Coração, havia uma casa de licores e bebidas espirituosas que ganhou fama na época pela venda de iogurtes de cabra-vesga e de manuais de convenções e regras para aspirantes a aristocratas.
As más-línguas (sempre certa concorrência viperina) propagavam que o fundador da loja, o judeu Abrahim, enriquecera por vias travessas: os difamadores juravam a todas as orelhas que queriam ouvir que a loja servia de fachada a um negócio paralelo de troca de títulos nobiliárquicos por generosas quantias de dinheiro por parte dos burgueses das cidades do lago. Abrahim, não podendo ostentar qualquer honra ou título devido à sua circuncidada condição, obrigava os nobres desesperados a executar uma dança bizarra para seu exclusivo e perverso deleite. Os dançarinos tinham de descrever movimentos circulares em torno do judeu que assistia a tudo sentado numa cadeira; se a dançarina fosse condessa ou até marquesa tinha de segurar uma galinha parideira à altura do ventre e empinar bem a cauda do vestido; mas se fosse homem, tinha de equilibrar um capão em cima do chapéu ou da peruca cacheada, enquanto girava e cuspia fogo.
Para se precaver contra prováveis vinganças ou até arrependimentos, o velho judeu pedia melifluamente à nata falida que assinasse um documento que salvaguardasse a sua pessoa e todos os seus familiares.

"Une loge d'Actrice", Victor Giraud

quarta-feira, agosto 20, 2008

no aeroporto


a alemã com
pernas de farol e
mãos abatatadas
sentou-se junto de mim
e aportuguesou
o seu pensamento:

"este aeroporto é o sítio mais bucólico
que eu conheço"

ousei olhar para ela
como um velho
sabujo olha para o
dono quando não
apanha a presa

segunda-feira, agosto 11, 2008

O Dia da Libertação do Homem Que Amava Demais


Chegou finalmente o dia.
O guarda prisional entregou-lhe os objectos pessoais que o estabelecimento prisional confiscara e guardara no primeiro dia da sua pena:
- um fato branco;
- um abacate em forma de coração e em perfeito estado de conservação (de acordo com as declarações do homem que amava demais, era a prova cabal da sua absoluta inocência);
- um par de collants;
- uma Bíblia ilustrada para principiantes;
- a sua amada; e
- um órgão hammond;
A pena fora-lhe reduzida pelo bom comportamento demonstrado, mas a sua detenção de cinco anos ficou registada no cadastro criminal. A partir deste dia, o homem que amava demais estava terminantemente proibido de amar fosse quem fosse, incluindo a sua própria mulher.

quinta-feira, agosto 07, 2008


Autor desconhecido

Um minuete e mil passos atrás


Os olhos feros
do velho visconde
rasgavam
a nuca, as mãos,
cada gesto feliz
e infeliz
do futuro
cunhado que
se deixava levar
pela bela Abelarda
ao som ondulante
do virtuoso quarteto

"Chega!", pensou
o noivo sem que
ninguém
suspeitasse que
estaria sequer a pensar.
Despeitado
com tamanho despudor,
afasta a pobre noiva e
vocifera com os
pulmões espremidos
de tanta ira:

- Esta mulher
sabe a açafrão!
A açafrão!

Abelarda cai
fulminada no chão.

Ninguém lhe acode.
Personne.

O uso de açafrão

era muito mal-visto
naquela província.



quarta-feira, agosto 06, 2008

Stripsearch - FNM

Sempre que estou à espera num check-in ou até na fila para o pão, dou por mim a trautear distraidamente esta melodia. O senhor P. tem um casaco de fato de treino igual ao meu. Não canto tão bem, confesso.

Estes tipos têm de ser juntar outra vez para fazer estragos no mainstream.

terça-feira, agosto 05, 2008

O Bigode do Proprietário do Estabelecimento




1. O portador da aparente anomalia mental ameaça processar o proprietário do estabelecimento, pois a sua anomalia nunca foi aparente.


2. O transeunte voluntário, estimulado pela comoção no interior do estabelecimento, entra e converte-se num cliente involuntário. O actual cliente involutário exige a sua condição primária e ameaça processar igualmente o proprietário do estabelecimento.

3. Os artigos expostos para consumo da casa ameaçam processar o proprietário do estabelecimento, pois a sua privacidade é exposta diariamente a estranhos.

4. O proprietário do estabelecimento resolve chamar a autoridade competente que, por sua vez, processa e detém o proprietário do estabelecimento, pois a data da sua competência expirou no dia anterior.


segunda-feira, agosto 04, 2008

O Hakentram

O Hakentram* passava invariavelmente às 7:10 h na praça central. Desde o fim da guerra que era utilizado para transportar a carne do matadouro para o mercado, atravessando toda a cidade. Os únicos utentes que pareciam não se importar com as carcaças eram alguns velhos-hienas e antigos soldados agora reabilitados em operários metalúrgicos de turnos. A prostituta noviça é a última a descer enquanto separa o dinheiro para pagar a renda ao irmão do seu pai.

*Hakentram: Tram (eléctrico) dos ganchos