terça-feira, março 31, 2009
segunda-feira, março 30, 2009
O êxito do Senhor Rohnes
O êxito do senhor Rohnes devia-se sobretudo à sua extraordinária capacidade para fingir uma fervorosa dedicação ao trabalho. Mas o verdadeiro responsável era o ponto que estava à sua frente. As suas deixas eram sempre tão providenciais. No entanto, o senhor Rohnes tinha maus fígados e os seus ataques de fúria incendiavam a firma em cada nove anos. Era uma visão horrível, ninguém era capaz de aplacar aquela raiva! E agora estava prestes a acontecer! O ponto não aguentou viver naquela ansiedade e apresentou a sua demissão. O Senhor Rohnes ficou triste, caiu no mais profundo dos desânimos e não sabia mais como fingir. Demitiu-se também para evitar a chacota dos seus pares e fui à procura do seu velho camarada. Nunca mais foram vistos.
sábado, março 21, 2009
Escudo de Buenos Aires
Em Buenos Aires, existem homens de baixa estatura que esperam ser redescobertos. Saiem dos trabalhos antes do pôr-do-sol, atravessam e percorrem as intermináveis avenidas para chegarem ao Rio De La Plata. No cais, cumprimentam-se cordialmente sem dizer uma palavra, ocupam as pedras gastas que lhes foram passadas pelos seus pais e tentam encontrar caravelas no horizonte.
terça-feira, março 17, 2009
O Soldador de Almas
O soldador de almas não se podia queixar da falta de trabalho. No entanto, queixava-se amiúde, porque seu pai assim o educou. As pessoas queixosas parecem sempre muito preocupadas e responsáveis aos olhos dos outros. O soldador de almas queixava-se do excesso de trabalho, de que os clientes com as almas rachadas estavam sempre a bater-lhe à porta. Entre um gemido e uma lamúria, resolveu montar uma porta giratória na entrada da casa para que as pessoas pudessem entrar à vontade. Continuava o queixume mas agora era por causa das correntes de ar. Quem não achou muito piada foi o guarda-freio que morava mesmo debaixo da casa do soldador. O guarda-freio prometera à sua maezinha no seu leito de morte que não iria tolerar pessoas com alma rachada a andar para trás e para frente na casa do vizinho de cima. Ora, como toda a gente sabe, as pessoas com as almas rachadas andam apenas de eléctrico. Durante um ano o guarda-freio fez greve e durante um ano o soldador de almas não viu uma alma rachada. Farto de se queixar, mudou de cidade e juntou-se ao irmão mais novo que tinha um consultório funerário para almas penadas. Ao contrário do seu irmão mais velho, o consultor não tinha razões de queixa.
segunda-feira, março 16, 2009
Hopper
sábado, março 14, 2009
O Velho Gaiteiro - Cap. II
O Velho Gaiteiro levava aquilo a que se podia chamar uma vida desregrada. O dia de amanhã não existia para o Velho Gaiteiro que vivia cada segundo como se fosse o último. Aos seus cansados mas lindos olhos a Moral era um conceito filosófico retrógrado e mortificador. Um dia, o velho Gaiteiro apaixonou-se por uma governanta quarentona que era uma senhora com princípios morais muito rígidos. Embora pusesse pétalas de rosa no peito todos os dias, era, por outras palavras, muito pouco viciosa. O Velho Gaiteiro viu a sua vida a andar para trás e, como tinha muitos jovens seguidores chistosos que o viam como um mestre de poucas cerimónias, resolveu instaurar um processo contra a amada por fraude passional e abuso de desconfiança. A senhora incorreu nas boas graças do juiz que a declarou inocente até ao osso. O Velho Gaiteiro foi condenado a morrer de desgosto e assim o fez. O mito nasceu. A constelação do Velho Gaiteiro pode ser vista nos céus do hemisfério sul naquelas noites de lua cheia que convidam à Paixão.
O Velho Gaiteiro - Cap. I
Antes de vos contar a história do Velho Gaiteiro tim por tim, quero revelar-vos em segunda mão que irei criar uma empresa de serviços de catering para grandes manifestações públicas. Os clientes/manifestantes poderão ainda usufruir de diversos tratamentos de beleza in loco e de um aconselhamento de imagem personalizado não vá o diabo tecê-las e serem apanhados desprevenidos por algum jornalista mais indiscreto. A empresa disponibilizará modelos de textos de reivindicação que compreenderão diversos packs/níveis de indignação e descontentamento. Parece-me um nicho de mercado bastante promissor. Tranquilizem-se amigos: tenho já vários contactos de sindicalistas e outros praevaricatore habilitados.
sexta-feira, março 13, 2009
terça-feira, março 10, 2009
Síndrome de Estocolmo

Jean-Michel Folon
O meu dedo cheira mal.
As cascatas de versos fétidos que segui
com a ponta vermelha do indicador.
A verdadeira questão aqui e ali
não é a honestidade do poeta-oráculo
que acabei de cheirar, vejamos:
os gregos deram-me a
escolher entre
ser refém de alguém, ter medo
para depois criar laços e entre
ler e roubar cânones, água tépida
que não aquece nem arrefece.
Tenho algum tempo
para emendar erros,
afinal a vaidade constrói-se
com baldes de trabalho, contrabando,
paixões capitosas, observar o
outra poeta a observar, a fazer
reféns.
segunda-feira, março 09, 2009
domingo, março 01, 2009
O Tentador Mais Velho do Mundo

Regressei de umas férias tonificantes em Sealand, o país mais pequeno do mundo. Uma semana sem roupa lavada, barba de náufrago, que mais um homem pode querer? Conheci um tipo curioso chamado Papillonete que já tentou todos os meios possíveis para sair daquela ilha artificial. Papillonete gosta muito de tentar. Apelida-se de o Tentador Mais Velho do Mundo.
domingo, fevereiro 22, 2009
Temos um problema de meio-fundo
A nossa nacionalísisma crise de cultura tornou-se, em poucas semanas, numa cultura de crise. Os mais resilientes inspiram-na sem querer. Estão lançados os dados, ou talvez os dadás, para conceber um novo ismo. Lembram-se quando foi a última vez que viram/apalparam ursos pardos no debate quinzenal da nossa assembleia? Pensei inicialmente em lémures com espelhos, mas o bom deus aconselhou-me a ficar pelos ursos.
sexta-feira, fevereiro 20, 2009
S. Rimbaud assim me aconselhou
em aparição num canal codificado
em jeito de homenagem póstuma à Poesia
deixarei de escrever poemas em breve
vou gerar emprego
abrir uma firma de próteses dentárias
no Principado de Liechtenstein,
talvez uma clínica de fertilidade,
no fundo vai tudo
dar ao mesmo
à minha língua,
ao teu castor.
quinta-feira, fevereiro 12, 2009
terça-feira, fevereiro 10, 2009
Personagens

O mais galhofeiro dos meus personagens estava a lambuzar-se com um favo de mel, quando, de um jeito arrebatado, atirou-o pela janela fora, ordenando de imediato aos restantes que se levantassem das cadeiras de vime. Era claramente o líder deste escol prometedor. Fizeram-no contrafeitos, naturalmente; o mais velho, antigo campeão de tiro às pombinhas, soltou um gás e pôs a língua de fora. A seu lado estava a senhorita Gigi que me estendeu a mão azulada, enquanto puxava com a esquerda o decote de crinolina que insinuava o seio. A criancinha que puxava o vestido de Gigi fez-me notar que eu tinha lapas cravadas nas costas e avisou-me que as lapas só desgrudavam com espumante reles. Que criança tão esperta! Vamos lá, continuemos. Sarabando, meu camarada de armas, branco e maciço como um tampo de mármore. Entregou-me solenemente o seu livre-trânsito para depois desatar às gargalhadas que emprastaram o ar. Que tipo tão maravilhosamente inconsequente! E que duas palavras tão grandes! Comecei também a rir, a rir, a rir, até ter convulsões, como se tivesse perdido o emprego. E não é que perdi mesmo?! Já estou a rir há quarenta e oito horas e só vou parar quando me derem um trabalho a sério. Um Domador de Feras que regressa triunfante à arena após um longo e amargurado interregno! Um Escanção de reis e presidentes de transição (mas cheios de bom gosto!), um Assessor togado de um ex-magistrado justiceiro!
quarta-feira, fevereiro 04, 2009
Aviso
Silenciem PF os telemóveis no meu blogue.
Interdita a entrada a coelhos e a anões réprobos.
Obrigado.
Interdita a entrada a coelhos e a anões réprobos.
Obrigado.
domingo, fevereiro 01, 2009
Job, o barman
- Tens a certeza querido? - insistiu, como se ao fazê-lo pudesse eliminar o sentimento de culpa e assim ficar mais aliviada.
- Oh! Então?! Está mais do que decidido. Tantas despesas com esta crise! Vá, vamos dormir, amanhã será outro dia.
E com esta verdade scarlettiana ainda no ar, lá se foram deitar. Luzes apagadas. Ele ainda libertou um longo suspiro enquanto olhava para a penumbra do quarto. De súbito, virou-se para o lado da janela com alguma brusquidão, tapou a cabeça com o edredão e adormeceu.
Dois dias depois, Henrique chega a casa, atira o sobretudo para cima do sofá e ajeita-se na sua poltrona. O comando da televisão?
- Já chegaste querido? - pergunta Margarida enquanto rala umas cenouras na cozinha.
- Meu Deus, esta sala é um gelo! - responde-lhe inconsolado.
Levanta-se, puxa o cesto de lenha debaixo do armário e começa a acender a lareira. Pouco depois, sacode as mãos e regressa feliz ao seu trono.
- Ó Job, prepara-me aí um martinizi...
De repente, dá-se conta e cai em si. Num tenebroso e fulminante si maior. Desencosta-se e olha para o barzinho de canto. Job não estava lá. Tinham dispensado os seus serviços na noite anterior. Nove anos de casa.
Lá fora, o camião do lixo recolhia ruidosamente o lixo dos contentores daquela rua sem saída.
- Oh! Então?! Está mais do que decidido. Tantas despesas com esta crise! Vá, vamos dormir, amanhã será outro dia.
E com esta verdade scarlettiana ainda no ar, lá se foram deitar. Luzes apagadas. Ele ainda libertou um longo suspiro enquanto olhava para a penumbra do quarto. De súbito, virou-se para o lado da janela com alguma brusquidão, tapou a cabeça com o edredão e adormeceu.
Dois dias depois, Henrique chega a casa, atira o sobretudo para cima do sofá e ajeita-se na sua poltrona. O comando da televisão?
- Já chegaste querido? - pergunta Margarida enquanto rala umas cenouras na cozinha.
- Meu Deus, esta sala é um gelo! - responde-lhe inconsolado.
Levanta-se, puxa o cesto de lenha debaixo do armário e começa a acender a lareira. Pouco depois, sacode as mãos e regressa feliz ao seu trono.
- Ó Job, prepara-me aí um martinizi...
De repente, dá-se conta e cai em si. Num tenebroso e fulminante si maior. Desencosta-se e olha para o barzinho de canto. Job não estava lá. Tinham dispensado os seus serviços na noite anterior. Nove anos de casa.
Lá fora, o camião do lixo recolhia ruidosamente o lixo dos contentores daquela rua sem saída.
terça-feira, janeiro 27, 2009
os Anões e eu
Quando somos artistas e o reconhecimento nos bate à porta disfarçado de homem de fraque, devemos andar na rua com um ar tauromáquico, altivo. Como se a nossa vida dependesse disso, como se fôssemos o porta-bandeira de uma escola de samba e a nossa consorte fosse a insaciável Catarina da Rússia. Se o senhor utente deste blogue desejar ser um artista de renome regional, pinte o cabelo em tons dourados, passe mais tempo na latrina a contemplar o que ainda lhe falta fazer e dê estaladas em quadragenários quando estes dão a face. Os quadragenários são os tipos mais obstinados que conheço. Mas cuidado. Estas coisas chamam as atenções dos seus camaradas de luta, os Anões. Os Anões não suportam o sucesso alheio. Quando conhecem alguém bem sucedido, encolhem. São muito propensos a ganhar calosidades e inchaços nos pés e, como são tão insignificantes, as pessoas pisam-nos sem querer. Um destes Anões subiu ao ombro do Sr. Director da Comp.ª Lusitana de Cateteres & Esfíncteres e disse-lhe ao encerado ouvido que eu era um artista. Fui brutalmente descanonizado pelo sacerdote da companhia e obrigado a usar uma camisa de cilício. Os meus colegas juram a pés juntos que o sacerdote guarda o cérebro num frasco de formol. Por pouco não fui excomungado e despedido, a sorte sorri aos artistas! Se fosse um bastardo, seria um bastardo com sorte.
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