sábado, março 14, 2009
O Velho Gaiteiro - Cap. I
sexta-feira, março 13, 2009
terça-feira, março 10, 2009
Síndrome de Estocolmo

Jean-Michel Folon
O meu dedo cheira mal.
As cascatas de versos fétidos que segui
com a ponta vermelha do indicador.
A verdadeira questão aqui e ali
não é a honestidade do poeta-oráculo
que acabei de cheirar, vejamos:
os gregos deram-me a
escolher entre
ser refém de alguém, ter medo
para depois criar laços e entre
ler e roubar cânones, água tépida
que não aquece nem arrefece.
Tenho algum tempo
para emendar erros,
afinal a vaidade constrói-se
com baldes de trabalho, contrabando,
paixões capitosas, observar o
outra poeta a observar, a fazer
reféns.
segunda-feira, março 09, 2009
domingo, março 01, 2009
O Tentador Mais Velho do Mundo

Regressei de umas férias tonificantes em Sealand, o país mais pequeno do mundo. Uma semana sem roupa lavada, barba de náufrago, que mais um homem pode querer? Conheci um tipo curioso chamado Papillonete que já tentou todos os meios possíveis para sair daquela ilha artificial. Papillonete gosta muito de tentar. Apelida-se de o Tentador Mais Velho do Mundo.
domingo, fevereiro 22, 2009
Temos um problema de meio-fundo
sexta-feira, fevereiro 20, 2009
S. Rimbaud assim me aconselhou
em aparição num canal codificado
em jeito de homenagem póstuma à Poesia
deixarei de escrever poemas em breve
vou gerar emprego
abrir uma firma de próteses dentárias
no Principado de Liechtenstein,
talvez uma clínica de fertilidade,
no fundo vai tudo
dar ao mesmo
à minha língua,
ao teu castor.
quinta-feira, fevereiro 12, 2009
terça-feira, fevereiro 10, 2009
Personagens

O mais galhofeiro dos meus personagens estava a lambuzar-se com um favo de mel, quando, de um jeito arrebatado, atirou-o pela janela fora, ordenando de imediato aos restantes que se levantassem das cadeiras de vime. Era claramente o líder deste escol prometedor. Fizeram-no contrafeitos, naturalmente; o mais velho, antigo campeão de tiro às pombinhas, soltou um gás e pôs a língua de fora. A seu lado estava a senhorita Gigi que me estendeu a mão azulada, enquanto puxava com a esquerda o decote de crinolina que insinuava o seio. A criancinha que puxava o vestido de Gigi fez-me notar que eu tinha lapas cravadas nas costas e avisou-me que as lapas só desgrudavam com espumante reles. Que criança tão esperta! Vamos lá, continuemos. Sarabando, meu camarada de armas, branco e maciço como um tampo de mármore. Entregou-me solenemente o seu livre-trânsito para depois desatar às gargalhadas que emprastaram o ar. Que tipo tão maravilhosamente inconsequente! E que duas palavras tão grandes! Comecei também a rir, a rir, a rir, até ter convulsões, como se tivesse perdido o emprego. E não é que perdi mesmo?! Já estou a rir há quarenta e oito horas e só vou parar quando me derem um trabalho a sério. Um Domador de Feras que regressa triunfante à arena após um longo e amargurado interregno! Um Escanção de reis e presidentes de transição (mas cheios de bom gosto!), um Assessor togado de um ex-magistrado justiceiro!
quarta-feira, fevereiro 04, 2009
Aviso
Interdita a entrada a coelhos e a anões réprobos.
Obrigado.
domingo, fevereiro 01, 2009
Job, o barman
- Oh! Então?! Está mais do que decidido. Tantas despesas com esta crise! Vá, vamos dormir, amanhã será outro dia.
E com esta verdade scarlettiana ainda no ar, lá se foram deitar. Luzes apagadas. Ele ainda libertou um longo suspiro enquanto olhava para a penumbra do quarto. De súbito, virou-se para o lado da janela com alguma brusquidão, tapou a cabeça com o edredão e adormeceu.
Dois dias depois, Henrique chega a casa, atira o sobretudo para cima do sofá e ajeita-se na sua poltrona. O comando da televisão?
- Já chegaste querido? - pergunta Margarida enquanto rala umas cenouras na cozinha.
- Meu Deus, esta sala é um gelo! - responde-lhe inconsolado.
Levanta-se, puxa o cesto de lenha debaixo do armário e começa a acender a lareira. Pouco depois, sacode as mãos e regressa feliz ao seu trono.
- Ó Job, prepara-me aí um martinizi...
De repente, dá-se conta e cai em si. Num tenebroso e fulminante si maior. Desencosta-se e olha para o barzinho de canto. Job não estava lá. Tinham dispensado os seus serviços na noite anterior. Nove anos de casa.
Lá fora, o camião do lixo recolhia ruidosamente o lixo dos contentores daquela rua sem saída.
terça-feira, janeiro 27, 2009
os Anões e eu
sexta-feira, janeiro 23, 2009
quinta-feira, janeiro 22, 2009
quarta-feira, janeiro 21, 2009
Tudo ou Nada no Dente-de-Fada
Fui um sustenido duro
de roer que achava olhos
de carneiro de mar morto,
filamentos de musgo-real
debaixo de travesseiros
era esta a minha arte
só trabalhava à meia-luz
do gardel, admirava
em sigilo gargantas
fundas, peles de bócio
que não conseguiam
fazer esgotar
o filão da palavra.
Tinham de ser lidos, sim.
Por acerado acaso
a carteira de um
veio parar aos meus pés
em vez de a devolver
ou ingressar nas Forças Armadas
Até Aos Guizos
deixei prescrever
o prazo de entrega
apostei tudo
no Dente-de-Fada:
fiquei dondo e com
um hálito de cabra,
sou um gentilhomme
em Oliveira do Arda
domingo, janeiro 18, 2009
sábado, janeiro 17, 2009
Deus
sábado, janeiro 10, 2009
A Queda do Conselheiro Morno - II
Numa dessas tardes idílicas, o Grande Bastonário da Confraria das Bagatelas, ser insidioso e possuidor de uma língua mais viperina do que a das cortesãs, passeava sozinho pelas veredas da ala norte do labirinto, fumando o seu rapé quando, de repente, deteve a sua marcha. Pareceu-lhe ouvir, do outro lado do ornato verde, alguém a arfar, e depois ais e suspiros cavos, roucos, de profunda agonia.
O fim do meu intricado romance histórico está iminente. Tenho de vos deixar por agora para dar prioridade a esta obra. Não deixem de aquecer os vossos bancos ou cadeiras da melhor forma que entenderem e, sobretudo, não ponham a carroça à frente dos bois, nem enfeitem os bois à frente das vacas. Num piscar de olhos, saberão o desenlace trágico desta história baseada em factos reais e clericais. É de fazer chorar as pedras da calçada.
sexta-feira, janeiro 09, 2009
Longa Quilometragem

E o óscar este ano vai para aquele senhor ao lado daquele senhor que está atrás daquele cavalheiro bocejador de cartola creme. Oh, finalmente foi-lhe reconhecido talento. Ele merece.
sábado, janeiro 03, 2009
Factos ocorridos entre 31 de Dezembro de 2008 e 01 de Janeiro de 2009.

O Exmo. Juíz de Fora bebeu soda caústica
em vez de champanhe. Viveu três minutos de 2009.
Na antiga Rodésia, um caçador furtivo matou
o último leão do Parque Nacional. A sua efígie
será perpetuada nas notas de Z$ 100 000 000.
Os sem-abrigo de Rimini ofereceram as
suas mantas aos banhistas de Ano Novo.
João de Lima Triste reparou que não tinha
as vacinas em dia. Como era hipocondríaco,
morreu de aflição pouco antes da meia-noite.
De repente, calaram-se todos e encostei o ouvido
à parede:
- Filomena, São Benedito está entre nós esta noite.
- Como é que ele entrou no nosso quarto, poderás dizer-me?
O dono de um café de Tróia quis aparecer
no notíciário. Contratou três sem abrigo
de Rimini para assaltar o estabelecimento.
Os worst-sellers de 2008 estão carregados
de histórias inúteis como esta. É bem feito.
O Ministro do Equipamento está feliz porque
estreou cuequinhas novas e recebeu um postal de Ano
Novo do Primeiro.
Rolou a última cabeça condenada em 2008. Se
tivesse a cabeça no sítio chegaria a 2009.
quinta-feira, janeiro 01, 2009
A Queda do Conselheiro Morno - I
Como é frequente nestas histórias, alguns cortesãos, servum pecus de Sua Leviandade, cobiçaram até ao caixão o cargo e o favoritismo real, e até a sua amante, menstruadíssima de sangue azul, conseguia transformar a maledicência numa arte. Os seus ossos ficaram roídos pelo ciúme e quase que desmaiava quando via os dois a passearem pelos intermináveis labirintos verdes. Mas o Conselheiro Morno era um homem de tal forma insigne e magnânimo que desdenhava as "pequenas fraquezas" dos outros (e quando envergava a sua jaqueta preta desdenhava duas vezes mais).
Por hoje é tudo. Dêem-me o prazer da vossa companhia nas próximas madrugadas e contar-vos-ei como teve início da queda do Conselheiro Morno.
sexta-feira, dezembro 19, 2008
Caldos Knorr
vejam-no
vejam-no bem
o chef mira
à sua volta
("sua", estimado leitor)
com extrema unção
confecciona e
apura o tempero
a puxar o picante
usa coagens,
usa alavancagens
usa receitas tradicionais
portuguesas
um gourmet com
o anelar enfiado
no passevit
fez sempre
tudo às claras
até picou carne
que não era sua
("sua", estimado doutor)
os comensais
são cristos-reis
assim redentores
e nunca apresentaram
uma única queixa
até agora
quarta-feira, dezembro 17, 2008
terça-feira, dezembro 16, 2008
Mikado
A memória funciona como as marés. Associei agora a tua prenda à entrevista de trabalho que tive com gestor de hotel japonês que gostava de se vestir de camareira. Um homem de uma cordialidade datada, excessiva, quase incómoda, mesmo para um oriental. Gostava de cirandar pelos longos corredores do hotel com um caniche branco e prestar serviços especiais a todos os executivos ocidentais que usufruíssem do protocolo com multinacionais. Nessa altura, a conduta do gestor já não era segredo para nenhum dos funcionários do hotel. Mas, sabes como são os japoneses, preferem enfiar um sabre na barriga a questionar os seus superiores. Os últimos pisos, os mais luxuosos, estavam sempre ocupados. Um dos serviços consistia em deixar cair um mikado que era uma pequena lembrança do hotel. Quase todos os americanos eram prestáveis e baixavam-se para ajudar o gestor-camareira. Antes que dessem conta, estavam os dois ajoelhados a tentar tirar os pauzinhos com o maior dos cuidados. Assim que o gestor-camareira abandonava o quarto, os clientes pensavam muito nas suas consortes e ligavam para casa para falarem dos filhos e de coisas banais.
terça-feira, dezembro 09, 2008
Os Quatro Velhotes

Leon Kossoff
Eram quatro. Depois de encherem o bandulho com pratos postos sempre em dia, juntavam-se na praceta do município e elaboravam grandiosos espectáculos de água. Um deles chegou a cuspir um dente de ouro mas não se arreliou muito com isso. Era um pouco vagaroso mas sabia expelir pequenos jactos amarelados e intermitentes das orelhas elefantinas. O das sobrancelhas bastas e pretas arrotava ao sabor do vento e era muito teatral, sabia fazer elipses e parábolas que faziam parar as maezinhas e os meninos. O terceiro fora adido de embaixada e era todo bem falante: descrevia uma longa e ornamentada introdução e devolvia educadamente as moedas castanhas no final do espectáculo. O mais novo chamava-se Tristão e usava uma touca de carmelita mas confessava-se devoto de Sta. Valha. Jaculava até onde a vista alcançava enquanto fumava cigarrilhas de baunilha. Executava sempre o solo das águas revoltosas e era o único que verdadeiramente possuía alma de artista.
quarta-feira, dezembro 03, 2008
na cabeça rapada,
o fiel de armazém sai
daquela cena tremenda
coça a barba passa-piolho
do encarregado, trepa
pela escada de metal saudando
os quebra-luzes de design.
Pede inabilmente à menina
Gwendoline gaga da
secretaria para expelir um gemido
convulsivo no sentido contrário
ao dos ponteiros do relógio.
Não deixa de ser possível
que todos os funcionários
dignos dessa categoria
se sintam em dívida
quando ouvem a sirene
naquele final de Acto.
sábado, novembro 29, 2008
segunda-feira, novembro 24, 2008
O quiosque vermelho
A taxa de mortalidade infantil descera a pique nesse período.
segunda-feira, novembro 17, 2008
Doutor preciso de ajuda

Quero adelgaçar o meu bolbo raquidiano e ter a competência para lembrar ao meu superior que amanhã será terça-feira. A minha única função na multinacional é esta: lembrar das mais variadas formas aos meus colegas que amanhã será terça-feira. Se o meu desempenho satisfazer os critérios de conformidade do conselho de administração, serei promovido para as quartas-feiras (que é um cargo muito cobiçado, como poderão calcular) e dentro de alguns anos atingirei o topo da carreira.
Lama
meus camaradas, reptei
de farda limpa
de fim de semana
em direcção aos olhos
do nosso alferes que brilhavam
como dois pequenos escaravelhos
nesse momento,
com a boca cheia de lama
e o pêlo encharcado,
aprendi a tirar partido
da perversidade alheia
e fiz-me homem,
tal como me tinham prometido
ainda assim, preferia
ter ido para
a imaculada Armada,
tal como me tinham prometido
sexta-feira, novembro 14, 2008
quarta-feira, novembro 12, 2008
o espelho do elevador
aprende-me aos poucos
primeiro a testa sulcada
falésia de uma intuição
bravia e à toa
depois os olhos mais
vigias do que janelas
O célebre nariz: demora-se
mais aqui, é um pedinte turco
estendido no meio da cara
que esmola cheiros.
Chega à boca devagar,
é cumpridora
mas submissa
como S. José
depois da Anunciação.
Saio de elevador:
"Que Bocage suburbano
me saíste, que pega vaidosa!"
terça-feira, novembro 11, 2008
E-planes
domingo, novembro 09, 2008
O búlgaro e sua mulher Lucrécia
Gostaria de pensar que as unhas que corto em quarto minguante servem de abrigo a minúsculos peixes-tolos e a vaidosos lagostins cor-de-rosa no fundo do mar. Uma vez conheci um búlgaro muito meticuloso que embalsamava crustáceos e expunha-os no seu vestíbulo que era uma espécie de um pequeno labirinto em espiral. Havia também exemplares impressionantes na sala de estar. Chamava a mulher de Lucrécia quando tinha visitas. O nome de família da senhora, que era muito bela mas não disfarçava o ar ensonado, era impronunciável, doloroso de se dizer. O búlgaro é daquela estirpe de pessoas que sabe exactamente o que quer e para onde vai e, como se costuma dizer, isto joga quase sempre a seu favor.
quarta-feira, novembro 05, 2008
terça-feira, novembro 04, 2008
A limpeza convencional
origina questões sociais
sobre baldes de água suja
e elevação mecânica dos braços
da populaça:
a) verdadeiro
b) falso
c) embora não pareça, assumo-me refractário do actual regime das Caldas. Colaborei com o velho herói de um pretério mais-que-perfeito. Mas arre que me arrependi amargamente, é meu desejo ser vaiado na praceta pública, quero ser linchado à antiga, mereço encolher aquilo que semeei. Juro* pela mãezinha. Embuscadas em instituições bancárias bambas -não estou à altura,a minha paciência atingiu a red line. Não estou em condições de responder a este inquérito insidioso, sinto-me apodrecido e até tristonho.
*Onde se lê "juro", deverá ler-se "taxa de menopausa incontinente"
domingo, novembro 02, 2008
A menina Glande

A menina Glande (que já não era tão menina assim) era o orgulho da família. Tinha as faces ruborizadas e um olhar vivo, luminoso, e a sua boquinha parecia um ponto final trocista. Era muito impulsiva e prazenteira. Nas festas, punha-se sempre de perfil para as fotografias, achava-se mais bela assim. Os rapazes da região queriam todos estar em seu redor e todos a convidavam para dançar. A menina Glande fazia anos no primeiro dia de Primavera e o seu babado e abastado pai ofereceu-lhe um magnífico cavalo branco. A cauda do belo animal arrastava-se majestosamente pelo chão e todos queriam tocar no seu pêlo sedoso. A menina não cabia em si de contente e largava pequeninos jactos de saliva de tão excitada que estava. Como era muito vaidosa, quis logo montá-lo e mostrar-se a todos na aldeia.
sábado, novembro 01, 2008
sexta-feira, outubro 31, 2008
Estudo para um soneto alexandrino

A vossa atenção pf. Isto é um primeiro estudo para um soneto alexandrino com tónicas a sério. Setembro de 1939. Os aduaneiros polacos deixam passar pelicanos alemães a troco de uns cobres e de umas quantas frauleins. Como poderiam adivinhar que as suas bolsas levavam Panzers e regimentos inteiros? Ah, a história repete-se. Setembro de 2008. Os aduaneiros islandeses deixam passar pelicanos ingleses a troco de uns cobres e de umas quantas frauleins. Como poderiam adivinhar que as suas bolsas levavam taxas de morte e veneno especulativo? (...)
quarta-feira, outubro 29, 2008
O lagarto embalsamado
terça-feira, outubro 28, 2008
A boca de Midwest
quinta-feira, outubro 23, 2008
O Capitão-de-mar-e-guerra
a noite devolveu-me aquilo
que era meu
desde nascença:
deus-filho
será para ti,
cara de pastel envergonhado,
o autor do Tratado Marítimo
da Paixão Missionária,
o Capitão-de-mar-e-guerra com
binóculos de longo alcance
e medalhas de mérito
ao peito. No dia em que se
reabastecer em terra, anjos
grumetes irão anunciá-lo
em barcaças douradas enfeitadas de
coroas de flores, com os nomes
de todas as Virgens conhecidas,
o céu e o mar ficarão tingidos
num azul Yves Klein, o grande profeta
francês do século vinte.
É por isso que olhamos
para o horizonte.
Menos Dois
- Boa tarde, para onde vai?
- Para o - 2, por favor.
- Não vá. É desagradável nesta altura do ano.
- A sério?
- Além disso, come-se mal, já lá fui duas vezes
com a minha senhora e não gostei.
- ...e agora?
- Olhe, no domingo cedinho, pegue na sua família
e vá por aí fora até ao 4º. Ainda apanha as amendoeiras
em flor, é muito bonito, parece uma pintura.
- Ah! E come-se bem?
- Uma dose dá para três pessoas. Olhe para mim sou
um homem de sustento.
- Sim senhor. Obrigado.
- Ora essa. Já agora, é o senhor que costuma dormir
nu da cintura para baixo e não tem estores?
- Sou sim.
- Tenho aqui uma carta da gestão do condomínio, veio
por engano ter à minha caixa.
- Ah agradeço-lhe mais uma vez!
- Não tem que agradecer, temos de ser uns para os outros.
- Pois é, pois é!
- Saio aqui, continuação.
- Continuação, até logo.
sábado, outubro 18, 2008
As santas amas-de-leite
quinta-feira, outubro 16, 2008
terça-feira, outubro 14, 2008
o homem dos ralos
um homem meio truão
meio instantâneo
vendia ralos
da reputada casa "Clockwise"
junto ao museu nacional
o peito servia de bancada,
os interessados compravam
o artigo com as mãos atrás da nuca
em tom de lamúria: "o custo da vida, etc."
no fundo era um estratega
bem sucedido
as pessoas eram atraídas
pelas balaustradas
onde ficava encostado
todo o dia
"é um produto que vende
por si", dizia
com olhar macio e
enquanto ordenava os ralos
por tamanho
segunda-feira, outubro 13, 2008
Chapéus de palha
sábado, outubro 11, 2008
O Carteiro de Boulevard Rousseau
- Como é possível? - pensava, ajeitando o bigodinho.
Ao contrário de outros colegas mais madraceiros, o Carteiro nunca falhou uma carta e nunca trabalhava em contraluz tal como lhe recomendara o seu chefe no primeiro dia. Para evitar surpresas desagradáveis, trazia sempre uma sombrinha consigo. Conhecia cada pedra, cada janela, cada esquina do Boulevard Rousseau como a palma da sua mão e, tal como no filme da Lara Turner, fazia questão de tocar sempre duas vezes.
Dois dias antes de ser transferido para outra zona da cidade, verificou que tinha uma encomenda para o 22. Deixou-a para o fim do giro. O dia estava anormalmente quente para aquela altura do ano.
A mulher que veio à porta parecia ser mais velha do que todas as outras e teve a sensação de que já a vira em qualquer lado. Era madura como uma maçã vermelha pronta a comer.
- Não quer entrar e beber uma limonada? - perguntou, enquanto abanava lentamente um leque com uma paisagem oriental.
O coração do Carteiro saiu disparado pelo peito, mas recompôs-se de imediato.
- É muito gentil, mas não é necessário.
- Vá lá, faço questão! Não deve ser fácil trabalhar debaixo deste calor horrível! Entre.
A mulher deixou a porta escancarada e desapareceu no interior da casa. Faltava pouco mais de cinco minutos para o meio-dia e o sol não dava sinais de tréguas.
quarta-feira, outubro 08, 2008
terça-feira, outubro 07, 2008
As mulheres das passagens de nível
Nos tempos do Antigo Regime, a CP empreendeu uma selecção de pessoal sem precedentes no historial da empresa. As mulheres das passagens de nível deviam ser facilmente reconhecidas pela sua feiura saudável e distinta. Terem nascido viúvas e terem uma irmã gêmea (falsa ou verdadeira) eram também dois pré-requisitos obrigatórios. As seleccionadas vivam em casebres junto à linha. Não podiam entrar em querelas com as suas irmãs gêmeas que empunhavam gloriosamente as bandeiras. Estas bandeiras foram queimadas quando as mulheres das passagens de nível partiram em debandada não se sabe muito bem para onde. Há quem afirme ter visto algumas destas mulheres empoleiradas em catenárias de linhas desabilitadas, no interior profundo.
O museu da CP apresenta uma exposição temporária de diapasões utilizados pelas mulheres das passagens de nível. Os diapasões eram colocados sobre o carril para calcular a distância do próximo comboio. A precisão destes instrumentos era notável.
quinta-feira, outubro 02, 2008
D. Quarto III, o Fazedor de Bastardos
metade do seu reino
a outra metade
é feita de embriões reais
que são as armas da nação
no dia a seguir
ao seu 50º aniversário
apaga a crise de meia idade
na varanda do palácio,
sonhos venezianos -
todos os gondoleiros
são seus filhos
e todas as pontes
são de marfim.
Trôpego, volta
para dentro
e põe o cozido
em lume brando.
quarta-feira, outubro 01, 2008
Os encantadores de serpentes

terça-feira, setembro 30, 2008
segunda-feira, setembro 29, 2008
Enfermidades da Boca
por Anne Frank

Querida Kitty,
os meus lábios romperam-se
de madrugada
e sinto uma secura
tremenda nos cantos da boca
não consigo sequer
engolir a saliva
como se não bastasse
o papá perdeu hoje
a paciência comigo
diz que passo a vida
a escrevinhar
coisas inúteis
às vezes apetece-me sair
deste buraco e entregá-lo
aos alemães
amanhã irei arrepender-me
destas palavras
eu sei querida Kitty
mas as enfermidades da boca
põem-me fora de mim
Tua Anne
domingo, setembro 28, 2008
Como matar um odioso e roçagante discípulo de Gaudí - Diário de um Peregrino de Sant Jordí
- Sou batedor de um novo caminho, o Caminho Redentor de Sant Jordí.
Ninguém reagiu. Um velho com as faces muito ruborizadas deu um passo em frente. Tinha as pernas mais magras do grupo. Ficou ali parado a estudar-me de cima a baixo.
- Não és homem para mentir, faltam-te ainda alguns anos para fazeres isso bem - disse-me com uma voz rouca e oracular.
O pequeno grupo lá seguiu caminho. O velho aproximou-se de mim, agarrou-me no braço direito com alguma rudeza e seguimos na direcção contrária à Via de La Plata que é o maior caminho de S. Tiago em terras de Espanha. Na última noite que acampámos juntos, disse-me que tinha sido metalúrgico durante trinta anos numa fábrica em Sheffield e que, às sextas-feiras, gostava de comer "tarts" e embebedar-se. Às portas de Cárceres, sumiu. Nesta terra enfeitada pelo sol, apressei-me a estudar os movimentos dos grandes pássaros negros que planavam tristemente sobre a cidade. Acocorou-se diante de mim um contra-regra gorducho e sorridente que me ditava baixinho como fazê-lo. Dia sim, dia não, surgiam nuvens esponjadas que se assemelhavam ao perfil do nobel galego, Camilo J. Cela, de boina e com a língua de fora.
- Um sinal auspicioso! - pensei enquanto apertava firmemente o meu bordão.
Como matar um odioso e roçagante discípulo de Gaudí - Diário de um Peregrino de Sant Jordí
Para vos poupar de um certo suspense irritante que vulgarmente se inclui no feitio convencional dos diários picarescos, posso assegurar-vos que o matei no seu próprio gabinete. Se a vossa paciência assim o permitir, posso prová-lo de forma irrefutável. No Jardin de La Fecundidad, na parte baixa da orgulhosa cidade de Granada, é possível ainda ouvir os grunhidos que descem do topo das árvores. À noite, o efeito é ainda mais impressionante. Pode levar-vos às lágrimas e secar os vossos ossos por completo se forem do tipo sensível. Os ecos da sua morte propagaram-se por toda a península e agora todos são suficientemente corajosos para blasfemar o seu nome. A História está encharcada de homens que se tornaram heróis por acaso. Creio não estar enganado se afirmar que finalmente encontrei a minha vocação.
sexta-feira, setembro 19, 2008
O quadro
Passaram cinquenta anos. Já todos tinham partido. A Guerra acabara, e três dias antes da sua libertação, a velha escrava dirigiu-se à mansão com um embrulho debaixo do braço. O senhor recebeu-a algo surpreendido. A escrava entregou-lhe o embrulho com as duas mãos e foi-se embora. O senhor seguiu-a com o olhar até ela desaparecer no fundo da alameda. Cortou então o atilho grosseiro com a faca, rasgou o papel e ficou ali na soleira a olhar para um quadro em branco.
quarta-feira, setembro 17, 2008
terça-feira, setembro 16, 2008
segunda-feira, setembro 15, 2008
Jogo do Bicho

(Pouco depois da postagem do texto anterior, senti-me estranhamente envergonhado, sujo até, como se a Clarice Linspector - que irei venerar até à morte - estivesse a vigiar-me por cima do ombro. Peguei então num livro do Rubem Fonseca da estante, colei-o junto ao peito e o sentimento mau passou. Me perdoa, minha Clarice).
o Deus da Higiene Facial
(o etéreo_____ ______ -
ou aquele cujo nome não deve ser proferido)
disponibiliza-me
uma providencial
Wilkinson for Women
no fundo da primeira gaveta
talvez porque
pus em causa
a minha idiossincrasia
enquanto bebia uma marguerita
em Lloret del Mar
talvez porque
deseje um Portugal
dos Pequeninos sem ATMs
mais seguro
talvez porque
nunca deixei de gostar
de gravatas de seda
exclusivas
mas vamos a isto.
Desfiro o primeiro golpe
com tauromática galhardia
e cai um fino fio de sangue
sobre o lavatório
a passividade estival
faz-me contemplar
o sangue enquanto
questiono novamente
os meus ideais
parapolíticos
e me ofereço
ao meu novo deus.
sexta-feira, setembro 12, 2008
The Goldenteethchickjacking
Ouviu falar do flagelo no salão de estética enquanto fazia meia perna e sentiu-se imediatamente arrebatada pela ideia. Teria de lavar mais escadas, fazer o frete e sair com uns estudantes nos tempos livres, mas, no fim, valeria a pena. Com o implante da prótese dourada, iria combater a dramática solidão em que vivia e seria obscenamente famosa.
No fim, e correndo o risco de me estar a repetir, no fim, valeria a pena.
quarta-feira, setembro 10, 2008
Os macacos do velho Boris
Para o Rui M. Amaral
Boris conseguira despachar os macacos por um bom preço. Estava cansado das suas insubordinações e fúrias repentinas, e, por vezes, sentia-se ameaçado quando acordava de manhã e via-os a dormir a seu lado.
- Como é que macacos maniqueístas conseguem escapar de jaulas de aço? - interrogava-se enquanto coçava o cocuruto rapado.
Treinou-os durante seis longos anos para o transportar num magnífico cadeirão de vime, mas os macacos demonstravam cada vez mais sinais de desmazelo e chegaram a ameaçar o búlgaro com tacos de cricket. Onde é que eles foram desenterrar o raio dos tacos?! A verdade é que as coisas tinham mudado drasticamente. Seria talvez porque Boris tinha engordado muito nos últimos anos? Ah mas a vida finalmente sorria ao velho Boris! Havia sempre ilustres admiradores entre a audiência que retribuíam generosamente o seu espectáculo de rua. Mas chegara a hora de se retirar e a macacada estava a dar mais dores de cabeça do que lucro. E assim foi. Boris ainda sentiu um aperto no peito quando os viu partir com a caravana de ciganos, mas foi melhor assim. Com esse dinheiro, Boris iria aproveitar para concretizar o sonho de uma vida: comprar um transístor AM incorporado numa mesinha de cabeceira laqueada. A peça era bastante pesada, uma vez que o tampo era feito de mármore de Carrara. Boris já se imaginava a tactear suavemente o mármore fresco enquanto ouvia os longos discursos do presidente antes de adormecer.
terça-feira, setembro 09, 2008
quem por aqui passou
gostava de dormitar
num forno de cal
tinha a crosta da cabeça
branca como os penhascos
de Dover
os álbuns com milhares
raios-X demonstram
uma vaidade
e uma necessidade de exposição
sem limites
usava braçadeiras metálicas
nos dedos para ter
a mão mais segura
quando garatujava
se algum dia alguém
conseguir provar
a sua precária existência
será por causa dos versos
pendurados no tecto
cheio de humidade -
alguns encontram-se
em adiantado estado de decomposição
como pilotos que se ejectam
e ficam presos nas árvores
sábado, setembro 06, 2008
Isso é muito aborrecido
- o que me foi acontecer
- sabe acontece sempre a quem não merece
- e logo a mim que não faço mal a ninguém
- esqueça lá isso deus não dorme
- mas isto não fica por aqui ai não-não
-
-
- quer fazer amor selvaticamente?
- ah! o senhor por quem me toma?
-
- o senhor como me toma?
-
-
- já acabou?
- sim
- ora adeus cavalheiro
- adeus minha senhora
quinta-feira, setembro 04, 2008
terça-feira, setembro 02, 2008
no dispensário
sento-me entre um engraxador
e um yorkshire
o engraxador traz um letreiro
ao pescoço que diz "Homem-Prodígio"
faz estalidos com a boca
parece-me asseado
o yorshire retrai a respiração
e quando já não aguenta mais
cospe uma polpa rosa para
uma escarradeira de esmalte com
pequenas manchas que parecem
nuvenzinhas
à minha frente uma ex-cabeleireira
com um guarda-chuva de cerejas
sobre as pernas
olha ferozmente para mim
"Quero/quero fazer-te num dossel"
parece dizer-me baixinho
enquanto faz força
no dedo picado
com o algodão hidrófilo
domingo, agosto 31, 2008
sábado, agosto 30, 2008
Pascal, o Croupier
Pascal era o croupier mais antigo do Grand Napoleon. Ipso facto era o mais experiente do casino. Era igualmente o único croupier do único casino da ilha de Sta. Helena. Ao contrário do montante e do juzante daquilo que possam pensar, Pascal não gostava das suas mãos e usava luvas pretas de seda perfumadas. Via-se obrigado a interromper o seu trabalho com bastante frequência para lavá-las com sabão de marselha, pois emitiam um intenso odor a resina. O sogro da sua ex-mulher, "o melhor ex-sogro que eu já tive" segundo a escala afectiva de Pascal, acreditava (de forma obstinada e pouco razoável como só os cinquentenários sabem acreditar) que o nosso herói sofria do Síndrome de Pilatos e que isso arruinou o casamento com a sua filha do meio. Mas, como já decerto pestanejaram, o verdadeiro motivo era outro e não está nem um fio relacionado com o Estranho Caso dos Corações Triturados em Almofarizes de Bronze.
Como é costume em Sta. Helena, o casamento do primogénito é um sacramento combinado entre os pais dos futuros noivos. Quis o inclemente Destino que o irmão de Pascal morresse de disenteria nas minas de diamantes do Baixo Zaire. Pascal, enquanto legatário imediato, deveria honrar o compromisso assumido pelos pais e asssim o fez. Casou-se. Luísa amava Pascal, mas não era correspondida no seu amor. As primeiras semanas do jovem casal foram um verdadeiro suplício para o desafortunado croupier. A infelicidade e o pó reinavam naquela casa. Mas, numa noite sem luar e enquanto lavava as mãos, Pascal celebrou um pacto consigo mesmo que o ajudaria a suportar a sua sorte. Fechou a torneira, olhou para o espelho e disse em voz baixa:
- As lágrimas secam mais depressa quando estamos perto de uma lareira.
Abriu novamente a torneira dourada e continuou a lavar as mãos.
terça-feira, agosto 26, 2008
Insónia seca

na madrugada
vejo um
homem de fato
escuro
a passear
de andas
nas escamas sujas
da rua
uma televisão
aos gemidos
desliga-se e
a noite derrama-se
cada vez mais
sobre a rua
só por uma vez
gostaria que ele
levantasse
a cabeça do chão
e olhasse para cima
sou uma página
presa noutra página
que a noite avança
com as pontas dos dedos
negros e finos.
quinta-feira, agosto 21, 2008
O Judeu Abrahim e a Casa de Licores
No remoto cantão de Bons-Ares-do-Coração, havia uma casa de licores e bebidas espirituosas que ganhou fama na época pela venda de iogurtes de cabra-vesga e de manuais de convenções e regras para aspirantes a aristocratas.
As más-línguas (sempre certa concorrência viperina) propagavam que o fundador da loja, o judeu Abrahim, enriquecera por vias travessas: os difamadores juravam a todas as orelhas que queriam ouvir que a loja servia de fachada a um negócio paralelo de troca de títulos nobiliárquicos por generosas quantias de dinheiro por parte dos burgueses das cidades do lago. Abrahim, não podendo ostentar qualquer honra ou título devido à sua circuncidada condição, obrigava os nobres desesperados a executar uma dança bizarra para seu exclusivo e perverso deleite. Os dançarinos tinham de descrever movimentos circulares em torno do judeu que assistia a tudo sentado numa cadeira; se a dançarina fosse condessa ou até marquesa tinha de segurar uma galinha parideira à altura do ventre e empinar bem a cauda do vestido; mas se fosse homem, tinha de equilibrar um capão em cima do chapéu ou da peruca cacheada, enquanto girava e cuspia fogo.
Para se precaver contra prováveis vinganças ou até arrependimentos, o velho judeu pedia melifluamente à nata falida que assinasse um documento que salvaguardasse a sua pessoa e todos os seus familiares.
quarta-feira, agosto 20, 2008
no aeroporto
a alemã com
pernas de farol e
mãos abatatadas
sentou-se junto de mim
e aportuguesou
o seu pensamento:
"este aeroporto é o sítio mais bucólico
que eu conheço"
ousei olhar para ela
como um velho
sabujo olha para o
dono quando não
apanha a presa
segunda-feira, agosto 11, 2008
O Dia da Libertação do Homem Que Amava Demais
Chegou finalmente o dia.
O guarda prisional entregou-lhe os objectos pessoais que o estabelecimento prisional confiscara e guardara no primeiro dia da sua pena:
- um fato branco;
- um abacate em forma de coração e em perfeito estado de conservação (de acordo com as declarações do homem que amava demais, era a prova cabal da sua absoluta inocência);
- um par de collants;
- uma Bíblia ilustrada para principiantes;
- a sua amada; e
- um órgão hammond;
A pena fora-lhe reduzida pelo bom comportamento demonstrado, mas a sua detenção de cinco anos ficou registada no cadastro criminal. A partir deste dia, o homem que amava demais estava terminantemente proibido de amar fosse quem fosse, incluindo a sua própria mulher.
quinta-feira, agosto 07, 2008
Um minuete e mil passos atrás
Os olhos feros
do velho visconde
rasgavam
a nuca, as mãos,
cada gesto feliz
e infeliz
do futuro
cunhado que
se deixava levar
pela bela Abelarda
ao som ondulante
do virtuoso quarteto
"Chega!", pensou
o noivo sem que
ninguém
suspeitasse que
estaria sequer a pensar.
Despeitado
com tamanho despudor,
afasta a pobre noiva e
vocifera com os
pulmões espremidos
de tanta ira:
- Esta mulher
sabe a açafrão!
A açafrão!
Abelarda cai
fulminada no chão.
Ninguém lhe acode.
Personne.
O uso de açafrão
era muito mal-visto
naquela província.
quarta-feira, agosto 06, 2008
Stripsearch - FNM
Estes tipos têm de ser juntar outra vez para fazer estragos no mainstream.
terça-feira, agosto 05, 2008
O Bigode do Proprietário do Estabelecimento

1. O portador da aparente anomalia mental ameaça processar o proprietário do estabelecimento, pois a sua anomalia nunca foi aparente.
2. O transeunte voluntário, estimulado pela comoção no interior do estabelecimento, entra e converte-se num cliente involuntário. O actual cliente involutário exige a sua condição primária e ameaça processar igualmente o proprietário do estabelecimento.
3. Os artigos expostos para consumo da casa ameaçam processar o proprietário do estabelecimento, pois a sua privacidade é exposta diariamente a estranhos.
4. O proprietário do estabelecimento resolve chamar a autoridade competente que, por sua vez, processa e detém o proprietário do estabelecimento, pois a data da sua competência expirou no dia anterior.
segunda-feira, agosto 04, 2008
O Hakentram
*Hakentram: Tram (eléctrico) dos ganchos
quarta-feira, julho 30, 2008
De madrugada
o contacto visual
com agentes em operações stop
são ex-dramaturgos fardados
criaturas sem sexo
que procuram a todo o custo
a musa Ment no teu semblante
de terror
se fores um deles
ou pior ainda
um poeta assexuado
sai do carro
atravessa a rotunda
foge a quatro patas
ser-te-á dado
um avanço de
alguns metros
para depois te
abaterem com uma
shotsong de revista
pensa naquilo
que jesus superstar
faria se estivesse
no teu lugar
sábado, julho 26, 2008
O criado do rei, o rei e o espelho

O criado do rei limpava o magnífico espelho que ocupava quase uma parede dos faustosos aposentos reais. Ao longo de vinte anos e um quarto crescente, seu pai notabilizara-se neste ofício ao serviço do velho rei. Como era costume, e se o bom Deus assim o permitisse, o filho iria seguir as mesmas pisadas do pai. No momento seguinte, eis que o rei irrompe pelo quarto adentro agarrado à duquesa de Jaccuse-y, sua favorita dos dias ímpares, que se deixa agarrar com muito saber e algum prazer. O criado vê o reflexo distorcido do rei e começa a limpar de modo mais veemente a superfície acinzentada do espelho. O rei indigna-se, deixa Jaccuse-y alguns passos atrás e interpela o súbdito:
- Tu aí! Não saúdas o teu Rei?!
O criado volta-se, faz uma longa vénia e com os olhos sempre postos nos sapatos carmins do rei responde:
- Majestade! Amo tanto Vossa Majestade que humildemente me arroguei a polir ainda mais a vossa imponente e bela figura reflectida neste espelho atrás de mim. Foi a única maneira que este seu simples súbdito encontrou de vos prestar homenagem e admiração. Mil vezes perdão, Majestade.
O rei, comovido com tamanha dedicação à sua real e abundante figura, levou a mão pálida ao peito insuflado e proferiu as seguintes palavras de costas voltadas para o criado:
- Pois hoje será o último dia que limpas esse espelho, criado. Ordenamos-te que te vires e continues a limpá-lo com igual zelo enquanto o teu rei estiver no leito com sua senhoria, a duquesa. Apresenta-te amanhã no nosso gabinete. Iremos nomear-te moço de câmara.
quinta-feira, julho 24, 2008

Sergio Mora
De onde eu venho, estrangeiro, os mancebos usam um véu que é passado de pais para filhos e não há homens feios nem homens belos: todos são iguais aos olhos do nosso deus. A paixão e o tédio devem ser evitados a todo o custo e a cópula é consumada apenas para garantir descendência: o pai do mancebo deverá estar presente no acto para abençoar o casal. Ter um filho é sempre uma benção e ter um pai casto e que trate da prole é uma benção ainda maior. Em casos de adultério ou de luxúria, o véu é queimado e a genitália do adúltero é esfoliada com tojo e pedras de sal grosso pelos membros mais velhos do conselho. Os votos do matrimónio são renovados ao fim de seis meses ao longo da vida. O sémen libertado, que deverá ser sempre em grande abundância, servirá de adubo para as colheitas da aldeia.
Fala-me agora um pouco sobre teus costumes, estrangeiro.
quarta-feira, julho 23, 2008
O alce
segunda-feira, julho 21, 2008
O Vendedor de Esporas
- Quanto? Creio que não entendi bem.
- Por ser para si, minha cara senhora, leva um par de esporas por uns míseros 130 Cruéis. E não se fala mais nisso!
Slaaam! A mulher bateu a porta com tal violência que o pobre vendedor não teve tempo para esboçar sequer um gesto. Gassiot virou-se e desceu o único degrau do alpendre, pousou no sintéctico a velha maleta, companheira de milhares de quilómetros terrestres e do dobro dos insucessos, olhou para a constelação de Crânio de Vsulatte durante cerca de dez barbhas* e foi um ar que se lhe deu: desatou a correr pela alameda das Mandíbulas como um sprinter desalmado, com a língua vermelhusca de fora como os extintos coiotes, deixando cair esporas dos bolsos pelo caminho. Alguns colonos abanavam com a cabeça em sinal de reprovação, outros recolhiam as esporas do chão, enquanto outros riam trocistas. Logo atrás de Gassiot, formou-se um pelotão de crianças aos berros e de schoppencanis que largavam pequenos grânulos pastosos altamente corrosivos, muito semelhantes às caganitas de ratos-alados ou pombos sagrados.
Quando finalmente parou na orla da Grande Floresta Virginal, apoiou-se com o braço num tronco viscoso para recuperar o fôlego. A pequena multidão de ocasião tinha ficado para trás. Sentou-se, meteu a cabeça entre as pernas com as mãos enlaçadas em cima da nuca. Gassiot começou a suspirar por belas barítonas de peitos roliços que poderia receber se a Fortuna o ajudasse a descobrir novos pontos cardeais. O Grão-Pai assistiu a tudo isto (incluindo naturalmente o sonho acordado de Gassiot) através do BioMonitor e iniciou oficialmente o seu sofrimento em silêncio, impotente.
*equivalente a 14,5 segundos em unidades temporais antigas
sexta-feira, julho 18, 2008
quinta-feira, julho 17, 2008
A praia
-va-vidas
(O Pa
-pá fuma de pé
- fora do guarda
-sol e monitoriza
potenciais
estados de perigo
no extenso areal
A Ma
-mã grelha o farto peito,
bem oleado e acobreado,
ensina a criança a afastar-se
lentamente
A Cria
-nça e a bola
transformam-se numa
anénoma e num peixe-balão
lá no fundo do Mar)
hasteia a bandeira
multicolor
e beladormece.
Como Matar um Velho Bastardo por Trepanação

quinta-feira, julho 10, 2008
O embaixador das alpercatas

- O meu amigo sabe que não é preciso um grande esforço para ser um imbecil nesta encarnação. Você gatinha, tropeça, anda, corre e fornica. Ora onde está aqui a dificuldade? Você ri-se, porque o seu subconsciente lhe faz cócegas para rir. A partir da mais tenra idade, o nosso instinto de sobrevivência força-nos a agir sob o deus da mediocridade que a nossa populaça idolatra até ao caixão. Depois há vários níveis. Vai desde ao rubor das bochechas, ao peito insuflado, ao olhar bovino, são sintomas infalíveis, certeiros como a morte. Como o meu filho néscio, embotado, que ainda pede à mulher para lhe sacudir a gaita. E a sua matrona mãe, ex-carmelita, que pergunta todos os dias por ele como se estivesse nas colónias perdidas a combater. Imbecil até ao osso. Não saiu a mim! Arre que estou seco, mais uma golada (...). Hum. Você é aquele pequeno lagarto azul que trepa pela parede, está a ver? Ali, ali, homem.
Absolutamente a não perder
terça-feira, julho 08, 2008
Em Hotan, na província de Xinjiang, os rendeiros batem à porta de casas desabitadas. Acreditam que os espíritos não devem ser surpreendidos e, por isso, têm de ser avisados.
Os mais velhos ainda batem palmas antes de abandonarem a casa para que espíritos e objectos de culto tomem conhecimento da sua saída.
Igreja dos Discos Pedidos dos Últimos Dias

- Toda a minha vida andei com uma bomba ao colo como um bom penitente cristão. A minha vida era um grande meio-termo cinzento. Na manhã de uma Quinta-feira Santa, deixei cair a bomba por acidente e, em vez de chorar, comecei a cantar o "Trouble is a Man". Já não me lembro quem cantava esta música. Lágrimas de felicidade caíram-me pelo rosto e liguei a toda a gente que conhecia para apregoar a Boa Nova.
sábado, julho 05, 2008
Partilha
uma cabeça d'icterícia lança-me
um convite irrecusável
sobre o resguardo verde
de um mictório secular
resisto
ao apelo biológico
e armado em bom
sigo o meu caminho
o olhar aliviado
da cabeça
quando ouso olhar
para trás
inferniza-me
até casa



















