quarta-feira, novembro 12, 2008

o espelho do elevador

o espelho do elevador
aprende-me aos poucos
primeiro a testa sulcada
falésia de uma intuição
bravia e à toa
depois os olhos mais

vigias do que janelas
O célebre nariz: demora-se
mais aqui, é um pedinte turco
estendido no meio da cara
que esmola cheiros.
Chega à boca devagar,
é cumpridora
mas submissa
como S. José
depois da Anunciação.
Saio de elevador:
"Que Bocage suburbano
me saíste, que pega vaidosa!"

terça-feira, novembro 11, 2008

E-planes



O técnico de 1ª nobelizado é um homem feliz outra vez.
Redescobriu o seu verve literário e não pára de fazer e-planes com as páginas dos seus revolucionários e-books. O técnico de 1ª treme de e-moção.

domingo, novembro 09, 2008

O búlgaro e sua mulher Lucrécia


Gostaria de pensar que as unhas que corto em quarto minguante servem de abrigo a minúsculos peixes-tolos e a vaidosos lagostins cor-de-rosa no fundo do mar. Uma vez conheci um búlgaro muito meticuloso que embalsamava crustáceos e expunha-os no seu vestíbulo que era uma espécie de um pequeno labirinto em espiral. Havia também exemplares impressionantes na sala de estar. Chamava a mulher de Lucrécia quando tinha visitas. O nome de família da senhora, que era muito bela mas não disfarçava o ar ensonado, era impronunciável, doloroso de se dizer. O búlgaro é daquela estirpe de pessoas que sabe exactamente o que quer e para onde vai e, como se costuma dizer, isto joga quase sempre a seu favor.

quarta-feira, novembro 05, 2008


The Sleeping Beauty Wolf,
Leon Bakst

terça-feira, novembro 04, 2008

A limpeza convencional

a limpeza convencional
origina questões sociais
sobre baldes de água suja
e elevação mecânica dos braços
da populaça:
a) verdadeiro

b) falso
c) embora não pareça, assumo-me refractário do actual regime das Caldas. Colaborei com o velho herói de um pretério mais-que-perfeito. Mas arre que me arrependi amargamente, é meu desejo ser vaiado na praceta pública, quero ser linchado à antiga, mereço encolher aquilo que semeei. Juro* pela mãezinha. Embuscadas em instituições bancárias bambas -não estou à altura,a minha paciência atingiu a red line. Não estou em condições de responder a este inquérito insidioso, sinto-me apodrecido e até tristonho.

*Onde se lê "juro", deverá ler-se "taxa de menopausa incontinente"

domingo, novembro 02, 2008

A menina Glande



A menina Glande (que já não era tão menina assim) era o orgulho da família. Tinha as faces ruborizadas e um olhar vivo, luminoso, e a sua boquinha parecia um ponto final trocista. Era muito impulsiva e prazenteira. Nas festas, punha-se sempre de perfil para as fotografias, achava-se mais bela assim. Os rapazes da região queriam todos estar em seu redor e todos a convidavam para dançar. A menina Glande fazia anos no primeiro dia de Primavera e o seu babado e abastado pai ofereceu-lhe um magnífico cavalo branco. A cauda do belo animal arrastava-se majestosamente pelo chão e todos queriam tocar no seu pêlo sedoso. A menina não cabia em si de contente e largava pequeninos jactos de saliva de tão excitada que estava. Como era muito vaidosa, quis logo montá-lo e mostrar-se a todos na aldeia.

sábado, novembro 01, 2008

"How Many More Years",
Howlin' Wolf

sexta-feira, outubro 31, 2008

Estudo para um soneto alexandrino


A vossa atenção pf. Isto é um primeiro estudo para um soneto alexandrino com tónicas a sério. Setembro de 1939. Os aduaneiros polacos deixam passar pelicanos alemães a troco de uns cobres e de umas quantas frauleins. Como poderiam adivinhar que as suas bolsas levavam Panzers e regimentos inteiros? Ah, a história repete-se. Setembro de 2008. Os aduaneiros islandeses deixam passar pelicanos ingleses a troco de uns cobres e de umas quantas frauleins. Como poderiam adivinhar que as suas bolsas levavam taxas de morte e veneno especulativo? (...)

quarta-feira, outubro 29, 2008

O lagarto embalsamado

O fiacre pára subitamente na velha rua molhada. Os arredores e as pessoas que aí vivem estão condenados a serem sujos e feios. Os cavalos relincham estorvados. O suor escorre pela fronte do cocheiro como se as águas lhe tivessem rebentado. Atrás estão duas mulheres. A do vestido de tafetá púrpura limpa os lábios com um lenço de renda enquanto lança um olhar vicioso à mais nova que puxa as meias e arranja a crinolina. A rua está deserta. De repente, o cocheiro cai fulminado para o lado. Ouve-se um choro sufocado de um bebé que parece vir das traseiras. Uma das mulheres abre lentamente a porta do fiacre e desce com um frasco debaixo do braço. O lagarto embalsamado do frasco parece sorrir.

terça-feira, outubro 28, 2008

A boca de Midwest



Não desertou.
Voltou para junto
dos seus camaradas,
lutou até que o inimigo
se entregasse.
À noite, enquanto
limpava a arma
(a areia do deserto
é impiedosa)
fitava a boca
do novo oficial
e isso parecia
bastar-lhe.

quinta-feira, outubro 23, 2008

O Capitão-de-mar-e-guerra


a noite devolveu-me aquilo
que era meu
desde nascença:
deus-filho

será para ti,
cara de pastel envergonhado,
o autor do Tratado Marítimo
da Paixão Missionária,
o Capitão-de-mar-e-guerra com
binóculos de longo alcance
e medalhas de mérito
ao peito. No dia em que se
reabastecer em terra, anjos
grumetes irão anunciá-lo
em barcaças douradas enfeitadas de
coroas de flores, com os nomes
de todas as Virgens conhecidas,
o céu e o mar ficarão tingidos
num azul Yves Klein, o grande profeta

francês do século vinte.
É por isso que olhamos
para o horizonte.

Menos Dois

- Boa tarde.
- Boa tarde, para onde vai?
- Para o - 2, por favor.
- Não vá. É desagradável nesta altura do ano.
- A sério?
- Além disso, come-se mal, já lá fui duas vezes
com a minha senhora e não gostei.
- ...e agora?
- Olhe, no domingo cedinho, pegue na sua família
e vá por aí fora até ao 4º. Ainda apanha as amendoeiras
em flor, é muito bonito, parece uma pintura.
- Ah! E come-se bem?
- Uma dose dá para três pessoas. Olhe para mim sou
um homem de sustento.
- Sim senhor. Obrigado.
- Ora essa. Já agora, é o senhor que costuma dormir
nu da cintura para baixo e não tem estores?
- Sou sim.
- Tenho aqui uma carta da gestão do condomínio, veio
por engano ter à minha caixa.
- Ah agradeço-lhe mais uma vez!
- Não tem que agradecer, temos de ser uns para os outros.
- Pois é, pois é!
- Saio aqui, continuação.
- Continuação, até logo.

segunda-feira, outubro 20, 2008


"O Enterro de Punchinello"
Giovanni Domenico Tiepolo

sábado, outubro 18, 2008

As santas amas-de-leite

Nos condados da Pequena Polónia, todas as capelinhas e igrejas têm estátuas de amas-de-leite nos nichos laterais e até nos altares-mor. Os sacerdotes consagram os seus votos perpétuos à ama-de-leite com o mesmo nome da sua mãe ou madrasta. Os mais velhos dizem que cai chuva branca durante três dias e três noites quando nasce uma santa ama-de-leite. Dizem ainda que haverá batatas em abundância nesse ano e que ninguém padecerá de doenças dos ossos.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Paranoid,
The Black Sabbath

terça-feira, outubro 14, 2008

o homem dos ralos



um homem meio truão
meio instantâneo
vendia ralos
da reputada casa "Clockwise"
junto ao museu nacional
o peito servia de bancada,
os interessados compravam
o artigo com as mãos atrás da nuca
em tom de lamúria: "o custo da vida, etc."

no fundo era um estratega
bem sucedido
as pessoas eram atraídas
pelas balaustradas
onde ficava encostado
todo o dia
"é um produto que vende
por si", dizia
com olhar macio e
enquanto ordenava os ralos
por tamanho

segunda-feira, outubro 13, 2008

Chapéus de palha



O barbeiro despachou os chapéus de palha num abrir e piscar de olhos. E ainda fez um bom dinheiro nesse Verão. Os antigos donos ficavam tão embevecidos com o novo corte que se esqueciam dos chapéus. Alguns até saíam com o penteador nos ombros e andavam assim dias a fio, muito cheios de si.

sábado, outubro 11, 2008

O Carteiro de Boulevard Rousseau

Enquanto a mulher do 22 assinava o aviso, o Carteiro penteava lentamente o bigodinho hirsuto com o dedo e o polegar, sem desviar o olhar da figura que tinha diante de si. A jovem tinha o cabelo apanhado e usava uma camisa de seda escarlate. A corrente de ar trazia do interior da casa um aroma a mel misturado com suor. Há quatro anos que entregava a correspondência naquela casa e fora sempre recebido por uma mulher diferente. Chegou a fazer vigílias à noite, durante horas a fio, no pequeno jardim de Boulevard Rousseau, mas nunca viu ninguém a entrar ou a sair daquela casa.
- Como é possível? - pensava, ajeitando o bigodinho.
Ao contrário de outros colegas mais madraceiros, o Carteiro nunca falhou uma carta e nunca trabalhava em contraluz tal como lhe recomendara o seu chefe no primeiro dia. Para evitar surpresas desagradáveis, trazia sempre uma sombrinha consigo. Conhecia cada pedra, cada janela, cada esquina do Boulevard Rousseau como a palma da sua mão e, tal como no filme da Lara Turner, fazia questão de tocar sempre duas vezes.
Dois dias antes de ser transferido para outra zona da cidade, verificou que tinha uma encomenda para o 22. Deixou-a para o fim do giro. O dia estava anormalmente quente para aquela altura do ano.
A mulher que veio à porta parecia ser mais velha do que todas as outras e teve a sensação de que já a vira em qualquer lado. Era madura como uma maçã vermelha pronta a comer.
- Não quer entrar e beber uma limonada? - perguntou, enquanto abanava lentamente um leque com uma paisagem oriental.
O coração do Carteiro saiu disparado pelo peito, mas recompôs-se de imediato.
- É muito gentil, mas não é necessário.
- Vá lá, faço questão! Não deve ser fácil trabalhar debaixo deste calor horrível! Entre.
A mulher deixou a porta escancarada e desapareceu no interior da casa. Faltava pouco mais de cinco minutos para o meio-dia e o sol não dava sinais de tréguas.

quarta-feira, outubro 08, 2008


Jean Seberg (1938-1979)
CSI no encalço de Bach e Bach