sábado, outubro 18, 2008
As santas amas-de-leite
quinta-feira, outubro 16, 2008
terça-feira, outubro 14, 2008
o homem dos ralos
um homem meio truão
meio instantâneo
vendia ralos
da reputada casa "Clockwise"
junto ao museu nacional
o peito servia de bancada,
os interessados compravam
o artigo com as mãos atrás da nuca
em tom de lamúria: "o custo da vida, etc."
no fundo era um estratega
bem sucedido
as pessoas eram atraídas
pelas balaustradas
onde ficava encostado
todo o dia
"é um produto que vende
por si", dizia
com olhar macio e
enquanto ordenava os ralos
por tamanho
segunda-feira, outubro 13, 2008
Chapéus de palha
sábado, outubro 11, 2008
O Carteiro de Boulevard Rousseau
- Como é possível? - pensava, ajeitando o bigodinho.
Ao contrário de outros colegas mais madraceiros, o Carteiro nunca falhou uma carta e nunca trabalhava em contraluz tal como lhe recomendara o seu chefe no primeiro dia. Para evitar surpresas desagradáveis, trazia sempre uma sombrinha consigo. Conhecia cada pedra, cada janela, cada esquina do Boulevard Rousseau como a palma da sua mão e, tal como no filme da Lara Turner, fazia questão de tocar sempre duas vezes.
Dois dias antes de ser transferido para outra zona da cidade, verificou que tinha uma encomenda para o 22. Deixou-a para o fim do giro. O dia estava anormalmente quente para aquela altura do ano.
A mulher que veio à porta parecia ser mais velha do que todas as outras e teve a sensação de que já a vira em qualquer lado. Era madura como uma maçã vermelha pronta a comer.
- Não quer entrar e beber uma limonada? - perguntou, enquanto abanava lentamente um leque com uma paisagem oriental.
O coração do Carteiro saiu disparado pelo peito, mas recompôs-se de imediato.
- É muito gentil, mas não é necessário.
- Vá lá, faço questão! Não deve ser fácil trabalhar debaixo deste calor horrível! Entre.
A mulher deixou a porta escancarada e desapareceu no interior da casa. Faltava pouco mais de cinco minutos para o meio-dia e o sol não dava sinais de tréguas.
quarta-feira, outubro 08, 2008
terça-feira, outubro 07, 2008
As mulheres das passagens de nível
Nos tempos do Antigo Regime, a CP empreendeu uma selecção de pessoal sem precedentes no historial da empresa. As mulheres das passagens de nível deviam ser facilmente reconhecidas pela sua feiura saudável e distinta. Terem nascido viúvas e terem uma irmã gêmea (falsa ou verdadeira) eram também dois pré-requisitos obrigatórios. As seleccionadas vivam em casebres junto à linha. Não podiam entrar em querelas com as suas irmãs gêmeas que empunhavam gloriosamente as bandeiras. Estas bandeiras foram queimadas quando as mulheres das passagens de nível partiram em debandada não se sabe muito bem para onde. Há quem afirme ter visto algumas destas mulheres empoleiradas em catenárias de linhas desabilitadas, no interior profundo.
O museu da CP apresenta uma exposição temporária de diapasões utilizados pelas mulheres das passagens de nível. Os diapasões eram colocados sobre o carril para calcular a distância do próximo comboio. A precisão destes instrumentos era notável.
quinta-feira, outubro 02, 2008
D. Quarto III, o Fazedor de Bastardos
metade do seu reino
a outra metade
é feita de embriões reais
que são as armas da nação
no dia a seguir
ao seu 50º aniversário
apaga a crise de meia idade
na varanda do palácio,
sonhos venezianos -
todos os gondoleiros
são seus filhos
e todas as pontes
são de marfim.
Trôpego, volta
para dentro
e põe o cozido
em lume brando.
quarta-feira, outubro 01, 2008
Os encantadores de serpentes

terça-feira, setembro 30, 2008
segunda-feira, setembro 29, 2008
Enfermidades da Boca
por Anne Frank

Querida Kitty,
os meus lábios romperam-se
de madrugada
e sinto uma secura
tremenda nos cantos da boca
não consigo sequer
engolir a saliva
como se não bastasse
o papá perdeu hoje
a paciência comigo
diz que passo a vida
a escrevinhar
coisas inúteis
às vezes apetece-me sair
deste buraco e entregá-lo
aos alemães
amanhã irei arrepender-me
destas palavras
eu sei querida Kitty
mas as enfermidades da boca
põem-me fora de mim
Tua Anne
domingo, setembro 28, 2008
Como matar um odioso e roçagante discípulo de Gaudí - Diário de um Peregrino de Sant Jordí
- Sou batedor de um novo caminho, o Caminho Redentor de Sant Jordí.
Ninguém reagiu. Um velho com as faces muito ruborizadas deu um passo em frente. Tinha as pernas mais magras do grupo. Ficou ali parado a estudar-me de cima a baixo.
- Não és homem para mentir, faltam-te ainda alguns anos para fazeres isso bem - disse-me com uma voz rouca e oracular.
O pequeno grupo lá seguiu caminho. O velho aproximou-se de mim, agarrou-me no braço direito com alguma rudeza e seguimos na direcção contrária à Via de La Plata que é o maior caminho de S. Tiago em terras de Espanha. Na última noite que acampámos juntos, disse-me que tinha sido metalúrgico durante trinta anos numa fábrica em Sheffield e que, às sextas-feiras, gostava de comer "tarts" e embebedar-se. Às portas de Cárceres, sumiu. Nesta terra enfeitada pelo sol, apressei-me a estudar os movimentos dos grandes pássaros negros que planavam tristemente sobre a cidade. Acocorou-se diante de mim um contra-regra gorducho e sorridente que me ditava baixinho como fazê-lo. Dia sim, dia não, surgiam nuvens esponjadas que se assemelhavam ao perfil do nobel galego, Camilo J. Cela, de boina e com a língua de fora.
- Um sinal auspicioso! - pensei enquanto apertava firmemente o meu bordão.
Como matar um odioso e roçagante discípulo de Gaudí - Diário de um Peregrino de Sant Jordí
Para vos poupar de um certo suspense irritante que vulgarmente se inclui no feitio convencional dos diários picarescos, posso assegurar-vos que o matei no seu próprio gabinete. Se a vossa paciência assim o permitir, posso prová-lo de forma irrefutável. No Jardin de La Fecundidad, na parte baixa da orgulhosa cidade de Granada, é possível ainda ouvir os grunhidos que descem do topo das árvores. À noite, o efeito é ainda mais impressionante. Pode levar-vos às lágrimas e secar os vossos ossos por completo se forem do tipo sensível. Os ecos da sua morte propagaram-se por toda a península e agora todos são suficientemente corajosos para blasfemar o seu nome. A História está encharcada de homens que se tornaram heróis por acaso. Creio não estar enganado se afirmar que finalmente encontrei a minha vocação.
sexta-feira, setembro 19, 2008
O quadro
Passaram cinquenta anos. Já todos tinham partido. A Guerra acabara, e três dias antes da sua libertação, a velha escrava dirigiu-se à mansão com um embrulho debaixo do braço. O senhor recebeu-a algo surpreendido. A escrava entregou-lhe o embrulho com as duas mãos e foi-se embora. O senhor seguiu-a com o olhar até ela desaparecer no fundo da alameda. Cortou então o atilho grosseiro com a faca, rasgou o papel e ficou ali na soleira a olhar para um quadro em branco.
quarta-feira, setembro 17, 2008
terça-feira, setembro 16, 2008
segunda-feira, setembro 15, 2008
Jogo do Bicho

(Pouco depois da postagem do texto anterior, senti-me estranhamente envergonhado, sujo até, como se a Clarice Linspector - que irei venerar até à morte - estivesse a vigiar-me por cima do ombro. Peguei então num livro do Rubem Fonseca da estante, colei-o junto ao peito e o sentimento mau passou. Me perdoa, minha Clarice).
o Deus da Higiene Facial
(o etéreo_____ ______ -
ou aquele cujo nome não deve ser proferido)
disponibiliza-me
uma providencial
Wilkinson for Women
no fundo da primeira gaveta
talvez porque
pus em causa
a minha idiossincrasia
enquanto bebia uma marguerita
em Lloret del Mar
talvez porque
deseje um Portugal
dos Pequeninos sem ATMs
mais seguro
talvez porque
nunca deixei de gostar
de gravatas de seda
exclusivas
mas vamos a isto.
Desfiro o primeiro golpe
com tauromática galhardia
e cai um fino fio de sangue
sobre o lavatório
a passividade estival
faz-me contemplar
o sangue enquanto
questiono novamente
os meus ideais
parapolíticos
e me ofereço
ao meu novo deus.
sexta-feira, setembro 12, 2008
The Goldenteethchickjacking
Ouviu falar do flagelo no salão de estética enquanto fazia meia perna e sentiu-se imediatamente arrebatada pela ideia. Teria de lavar mais escadas, fazer o frete e sair com uns estudantes nos tempos livres, mas, no fim, valeria a pena. Com o implante da prótese dourada, iria combater a dramática solidão em que vivia e seria obscenamente famosa.
No fim, e correndo o risco de me estar a repetir, no fim, valeria a pena.
quarta-feira, setembro 10, 2008
Os macacos do velho Boris
Para o Rui M. Amaral
Boris conseguira despachar os macacos por um bom preço. Estava cansado das suas insubordinações e fúrias repentinas, e, por vezes, sentia-se ameaçado quando acordava de manhã e via-os a dormir a seu lado.
- Como é que macacos maniqueístas conseguem escapar de jaulas de aço? - interrogava-se enquanto coçava o cocuruto rapado.
Treinou-os durante seis longos anos para o transportar num magnífico cadeirão de vime, mas os macacos demonstravam cada vez mais sinais de desmazelo e chegaram a ameaçar o búlgaro com tacos de cricket. Onde é que eles foram desenterrar o raio dos tacos?! A verdade é que as coisas tinham mudado drasticamente. Seria talvez porque Boris tinha engordado muito nos últimos anos? Ah mas a vida finalmente sorria ao velho Boris! Havia sempre ilustres admiradores entre a audiência que retribuíam generosamente o seu espectáculo de rua. Mas chegara a hora de se retirar e a macacada estava a dar mais dores de cabeça do que lucro. E assim foi. Boris ainda sentiu um aperto no peito quando os viu partir com a caravana de ciganos, mas foi melhor assim. Com esse dinheiro, Boris iria aproveitar para concretizar o sonho de uma vida: comprar um transístor AM incorporado numa mesinha de cabeceira laqueada. A peça era bastante pesada, uma vez que o tampo era feito de mármore de Carrara. Boris já se imaginava a tactear suavemente o mármore fresco enquanto ouvia os longos discursos do presidente antes de adormecer.
terça-feira, setembro 09, 2008
quem por aqui passou
gostava de dormitar
num forno de cal
tinha a crosta da cabeça
branca como os penhascos
de Dover
os álbuns com milhares
raios-X demonstram
uma vaidade
e uma necessidade de exposição
sem limites
usava braçadeiras metálicas
nos dedos para ter
a mão mais segura
quando garatujava
se algum dia alguém
conseguir provar
a sua precária existência
será por causa dos versos
pendurados no tecto
cheio de humidade -
alguns encontram-se
em adiantado estado de decomposição
como pilotos que se ejectam
e ficam presos nas árvores
sábado, setembro 06, 2008
Isso é muito aborrecido
- o que me foi acontecer
- sabe acontece sempre a quem não merece
- e logo a mim que não faço mal a ninguém
- esqueça lá isso deus não dorme
- mas isto não fica por aqui ai não-não
-
-
- quer fazer amor selvaticamente?
- ah! o senhor por quem me toma?
-
- o senhor como me toma?
-
-
- já acabou?
- sim
- ora adeus cavalheiro
- adeus minha senhora
quinta-feira, setembro 04, 2008
terça-feira, setembro 02, 2008
no dispensário
sento-me entre um engraxador
e um yorkshire
o engraxador traz um letreiro
ao pescoço que diz "Homem-Prodígio"
faz estalidos com a boca
parece-me asseado
o yorshire retrai a respiração
e quando já não aguenta mais
cospe uma polpa rosa para
uma escarradeira de esmalte com
pequenas manchas que parecem
nuvenzinhas
à minha frente uma ex-cabeleireira
com um guarda-chuva de cerejas
sobre as pernas
olha ferozmente para mim
"Quero/quero fazer-te num dossel"
parece dizer-me baixinho
enquanto faz força
no dedo picado
com o algodão hidrófilo
domingo, agosto 31, 2008
sábado, agosto 30, 2008
Pascal, o Croupier
Pascal era o croupier mais antigo do Grand Napoleon. Ipso facto era o mais experiente do casino. Era igualmente o único croupier do único casino da ilha de Sta. Helena. Ao contrário do montante e do juzante daquilo que possam pensar, Pascal não gostava das suas mãos e usava luvas pretas de seda perfumadas. Via-se obrigado a interromper o seu trabalho com bastante frequência para lavá-las com sabão de marselha, pois emitiam um intenso odor a resina. O sogro da sua ex-mulher, "o melhor ex-sogro que eu já tive" segundo a escala afectiva de Pascal, acreditava (de forma obstinada e pouco razoável como só os cinquentenários sabem acreditar) que o nosso herói sofria do Síndrome de Pilatos e que isso arruinou o casamento com a sua filha do meio. Mas, como já decerto pestanejaram, o verdadeiro motivo era outro e não está nem um fio relacionado com o Estranho Caso dos Corações Triturados em Almofarizes de Bronze.
Como é costume em Sta. Helena, o casamento do primogénito é um sacramento combinado entre os pais dos futuros noivos. Quis o inclemente Destino que o irmão de Pascal morresse de disenteria nas minas de diamantes do Baixo Zaire. Pascal, enquanto legatário imediato, deveria honrar o compromisso assumido pelos pais e asssim o fez. Casou-se. Luísa amava Pascal, mas não era correspondida no seu amor. As primeiras semanas do jovem casal foram um verdadeiro suplício para o desafortunado croupier. A infelicidade e o pó reinavam naquela casa. Mas, numa noite sem luar e enquanto lavava as mãos, Pascal celebrou um pacto consigo mesmo que o ajudaria a suportar a sua sorte. Fechou a torneira, olhou para o espelho e disse em voz baixa:
- As lágrimas secam mais depressa quando estamos perto de uma lareira.
Abriu novamente a torneira dourada e continuou a lavar as mãos.
terça-feira, agosto 26, 2008
Insónia seca

na madrugada
vejo um
homem de fato
escuro
a passear
de andas
nas escamas sujas
da rua
uma televisão
aos gemidos
desliga-se e
a noite derrama-se
cada vez mais
sobre a rua
só por uma vez
gostaria que ele
levantasse
a cabeça do chão
e olhasse para cima
sou uma página
presa noutra página
que a noite avança
com as pontas dos dedos
negros e finos.
quinta-feira, agosto 21, 2008
O Judeu Abrahim e a Casa de Licores
No remoto cantão de Bons-Ares-do-Coração, havia uma casa de licores e bebidas espirituosas que ganhou fama na época pela venda de iogurtes de cabra-vesga e de manuais de convenções e regras para aspirantes a aristocratas.
As más-línguas (sempre certa concorrência viperina) propagavam que o fundador da loja, o judeu Abrahim, enriquecera por vias travessas: os difamadores juravam a todas as orelhas que queriam ouvir que a loja servia de fachada a um negócio paralelo de troca de títulos nobiliárquicos por generosas quantias de dinheiro por parte dos burgueses das cidades do lago. Abrahim, não podendo ostentar qualquer honra ou título devido à sua circuncidada condição, obrigava os nobres desesperados a executar uma dança bizarra para seu exclusivo e perverso deleite. Os dançarinos tinham de descrever movimentos circulares em torno do judeu que assistia a tudo sentado numa cadeira; se a dançarina fosse condessa ou até marquesa tinha de segurar uma galinha parideira à altura do ventre e empinar bem a cauda do vestido; mas se fosse homem, tinha de equilibrar um capão em cima do chapéu ou da peruca cacheada, enquanto girava e cuspia fogo.
Para se precaver contra prováveis vinganças ou até arrependimentos, o velho judeu pedia melifluamente à nata falida que assinasse um documento que salvaguardasse a sua pessoa e todos os seus familiares.
quarta-feira, agosto 20, 2008
no aeroporto
a alemã com
pernas de farol e
mãos abatatadas
sentou-se junto de mim
e aportuguesou
o seu pensamento:
"este aeroporto é o sítio mais bucólico
que eu conheço"
ousei olhar para ela
como um velho
sabujo olha para o
dono quando não
apanha a presa
segunda-feira, agosto 11, 2008
O Dia da Libertação do Homem Que Amava Demais
Chegou finalmente o dia.
O guarda prisional entregou-lhe os objectos pessoais que o estabelecimento prisional confiscara e guardara no primeiro dia da sua pena:
- um fato branco;
- um abacate em forma de coração e em perfeito estado de conservação (de acordo com as declarações do homem que amava demais, era a prova cabal da sua absoluta inocência);
- um par de collants;
- uma Bíblia ilustrada para principiantes;
- a sua amada; e
- um órgão hammond;
A pena fora-lhe reduzida pelo bom comportamento demonstrado, mas a sua detenção de cinco anos ficou registada no cadastro criminal. A partir deste dia, o homem que amava demais estava terminantemente proibido de amar fosse quem fosse, incluindo a sua própria mulher.
quinta-feira, agosto 07, 2008
Um minuete e mil passos atrás
Os olhos feros
do velho visconde
rasgavam
a nuca, as mãos,
cada gesto feliz
e infeliz
do futuro
cunhado que
se deixava levar
pela bela Abelarda
ao som ondulante
do virtuoso quarteto
"Chega!", pensou
o noivo sem que
ninguém
suspeitasse que
estaria sequer a pensar.
Despeitado
com tamanho despudor,
afasta a pobre noiva e
vocifera com os
pulmões espremidos
de tanta ira:
- Esta mulher
sabe a açafrão!
A açafrão!
Abelarda cai
fulminada no chão.
Ninguém lhe acode.
Personne.
O uso de açafrão
era muito mal-visto
naquela província.
quarta-feira, agosto 06, 2008
Stripsearch - FNM
Estes tipos têm de ser juntar outra vez para fazer estragos no mainstream.
terça-feira, agosto 05, 2008
O Bigode do Proprietário do Estabelecimento

1. O portador da aparente anomalia mental ameaça processar o proprietário do estabelecimento, pois a sua anomalia nunca foi aparente.
2. O transeunte voluntário, estimulado pela comoção no interior do estabelecimento, entra e converte-se num cliente involuntário. O actual cliente involutário exige a sua condição primária e ameaça processar igualmente o proprietário do estabelecimento.
3. Os artigos expostos para consumo da casa ameaçam processar o proprietário do estabelecimento, pois a sua privacidade é exposta diariamente a estranhos.
4. O proprietário do estabelecimento resolve chamar a autoridade competente que, por sua vez, processa e detém o proprietário do estabelecimento, pois a data da sua competência expirou no dia anterior.
segunda-feira, agosto 04, 2008
O Hakentram
*Hakentram: Tram (eléctrico) dos ganchos
quarta-feira, julho 30, 2008
De madrugada
o contacto visual
com agentes em operações stop
são ex-dramaturgos fardados
criaturas sem sexo
que procuram a todo o custo
a musa Ment no teu semblante
de terror
se fores um deles
ou pior ainda
um poeta assexuado
sai do carro
atravessa a rotunda
foge a quatro patas
ser-te-á dado
um avanço de
alguns metros
para depois te
abaterem com uma
shotsong de revista
pensa naquilo
que jesus superstar
faria se estivesse
no teu lugar
sábado, julho 26, 2008
O criado do rei, o rei e o espelho

O criado do rei limpava o magnífico espelho que ocupava quase uma parede dos faustosos aposentos reais. Ao longo de vinte anos e um quarto crescente, seu pai notabilizara-se neste ofício ao serviço do velho rei. Como era costume, e se o bom Deus assim o permitisse, o filho iria seguir as mesmas pisadas do pai. No momento seguinte, eis que o rei irrompe pelo quarto adentro agarrado à duquesa de Jaccuse-y, sua favorita dos dias ímpares, que se deixa agarrar com muito saber e algum prazer. O criado vê o reflexo distorcido do rei e começa a limpar de modo mais veemente a superfície acinzentada do espelho. O rei indigna-se, deixa Jaccuse-y alguns passos atrás e interpela o súbdito:
- Tu aí! Não saúdas o teu Rei?!
O criado volta-se, faz uma longa vénia e com os olhos sempre postos nos sapatos carmins do rei responde:
- Majestade! Amo tanto Vossa Majestade que humildemente me arroguei a polir ainda mais a vossa imponente e bela figura reflectida neste espelho atrás de mim. Foi a única maneira que este seu simples súbdito encontrou de vos prestar homenagem e admiração. Mil vezes perdão, Majestade.
O rei, comovido com tamanha dedicação à sua real e abundante figura, levou a mão pálida ao peito insuflado e proferiu as seguintes palavras de costas voltadas para o criado:
- Pois hoje será o último dia que limpas esse espelho, criado. Ordenamos-te que te vires e continues a limpá-lo com igual zelo enquanto o teu rei estiver no leito com sua senhoria, a duquesa. Apresenta-te amanhã no nosso gabinete. Iremos nomear-te moço de câmara.
quinta-feira, julho 24, 2008

Sergio Mora
De onde eu venho, estrangeiro, os mancebos usam um véu que é passado de pais para filhos e não há homens feios nem homens belos: todos são iguais aos olhos do nosso deus. A paixão e o tédio devem ser evitados a todo o custo e a cópula é consumada apenas para garantir descendência: o pai do mancebo deverá estar presente no acto para abençoar o casal. Ter um filho é sempre uma benção e ter um pai casto e que trate da prole é uma benção ainda maior. Em casos de adultério ou de luxúria, o véu é queimado e a genitália do adúltero é esfoliada com tojo e pedras de sal grosso pelos membros mais velhos do conselho. Os votos do matrimónio são renovados ao fim de seis meses ao longo da vida. O sémen libertado, que deverá ser sempre em grande abundância, servirá de adubo para as colheitas da aldeia.
Fala-me agora um pouco sobre teus costumes, estrangeiro.
quarta-feira, julho 23, 2008
O alce
segunda-feira, julho 21, 2008
O Vendedor de Esporas
- Quanto? Creio que não entendi bem.
- Por ser para si, minha cara senhora, leva um par de esporas por uns míseros 130 Cruéis. E não se fala mais nisso!
Slaaam! A mulher bateu a porta com tal violência que o pobre vendedor não teve tempo para esboçar sequer um gesto. Gassiot virou-se e desceu o único degrau do alpendre, pousou no sintéctico a velha maleta, companheira de milhares de quilómetros terrestres e do dobro dos insucessos, olhou para a constelação de Crânio de Vsulatte durante cerca de dez barbhas* e foi um ar que se lhe deu: desatou a correr pela alameda das Mandíbulas como um sprinter desalmado, com a língua vermelhusca de fora como os extintos coiotes, deixando cair esporas dos bolsos pelo caminho. Alguns colonos abanavam com a cabeça em sinal de reprovação, outros recolhiam as esporas do chão, enquanto outros riam trocistas. Logo atrás de Gassiot, formou-se um pelotão de crianças aos berros e de schoppencanis que largavam pequenos grânulos pastosos altamente corrosivos, muito semelhantes às caganitas de ratos-alados ou pombos sagrados.
Quando finalmente parou na orla da Grande Floresta Virginal, apoiou-se com o braço num tronco viscoso para recuperar o fôlego. A pequena multidão de ocasião tinha ficado para trás. Sentou-se, meteu a cabeça entre as pernas com as mãos enlaçadas em cima da nuca. Gassiot começou a suspirar por belas barítonas de peitos roliços que poderia receber se a Fortuna o ajudasse a descobrir novos pontos cardeais. O Grão-Pai assistiu a tudo isto (incluindo naturalmente o sonho acordado de Gassiot) através do BioMonitor e iniciou oficialmente o seu sofrimento em silêncio, impotente.
*equivalente a 14,5 segundos em unidades temporais antigas
sexta-feira, julho 18, 2008
quinta-feira, julho 17, 2008
A praia
-va-vidas
(O Pa
-pá fuma de pé
- fora do guarda
-sol e monitoriza
potenciais
estados de perigo
no extenso areal
A Ma
-mã grelha o farto peito,
bem oleado e acobreado,
ensina a criança a afastar-se
lentamente
A Cria
-nça e a bola
transformam-se numa
anénoma e num peixe-balão
lá no fundo do Mar)
hasteia a bandeira
multicolor
e beladormece.
Como Matar um Velho Bastardo por Trepanação

quinta-feira, julho 10, 2008
O embaixador das alpercatas

- O meu amigo sabe que não é preciso um grande esforço para ser um imbecil nesta encarnação. Você gatinha, tropeça, anda, corre e fornica. Ora onde está aqui a dificuldade? Você ri-se, porque o seu subconsciente lhe faz cócegas para rir. A partir da mais tenra idade, o nosso instinto de sobrevivência força-nos a agir sob o deus da mediocridade que a nossa populaça idolatra até ao caixão. Depois há vários níveis. Vai desde ao rubor das bochechas, ao peito insuflado, ao olhar bovino, são sintomas infalíveis, certeiros como a morte. Como o meu filho néscio, embotado, que ainda pede à mulher para lhe sacudir a gaita. E a sua matrona mãe, ex-carmelita, que pergunta todos os dias por ele como se estivesse nas colónias perdidas a combater. Imbecil até ao osso. Não saiu a mim! Arre que estou seco, mais uma golada (...). Hum. Você é aquele pequeno lagarto azul que trepa pela parede, está a ver? Ali, ali, homem.
Absolutamente a não perder
terça-feira, julho 08, 2008
Em Hotan, na província de Xinjiang, os rendeiros batem à porta de casas desabitadas. Acreditam que os espíritos não devem ser surpreendidos e, por isso, têm de ser avisados.
Os mais velhos ainda batem palmas antes de abandonarem a casa para que espíritos e objectos de culto tomem conhecimento da sua saída.
Igreja dos Discos Pedidos dos Últimos Dias

- Toda a minha vida andei com uma bomba ao colo como um bom penitente cristão. A minha vida era um grande meio-termo cinzento. Na manhã de uma Quinta-feira Santa, deixei cair a bomba por acidente e, em vez de chorar, comecei a cantar o "Trouble is a Man". Já não me lembro quem cantava esta música. Lágrimas de felicidade caíram-me pelo rosto e liguei a toda a gente que conhecia para apregoar a Boa Nova.
sábado, julho 05, 2008
Partilha
uma cabeça d'icterícia lança-me
um convite irrecusável
sobre o resguardo verde
de um mictório secular
resisto
ao apelo biológico
e armado em bom
sigo o meu caminho
o olhar aliviado
da cabeça
quando ouso olhar
para trás
inferniza-me
até casa
segunda-feira, junho 30, 2008
Génesis

trazia entre dentes
o Balde sagrado
repleto de coisas rosadas
e botões carnudos
em forma de G
que segregavam
fluidos lácteos, de
polpa quase virgem
Allegro sentou-se e
ficou a olhar
para o crucifixo
em cima da
cama de um deus
moribundo
se estivesse alguém
naquele quarto,
poderia jurar
a pés juntos
que deus esboçou
um sorriso.
Sorveu por uma
palha aquele soro
milagroso e espalhou
o resto pelo ar
ao contrário do que
videntes e
marionetas apregoam,
deus criou primeiro
a lua para se maquilhar -
"Tenho de me recompor
e criar a Terra e o resto"
ainda num estado
que suscitava algumas
reservas, levantou-se e
soprou o pó da lua.
A Terra brotou
com todo o seu vigor
paleolítico
no ar bafiento do
quarto
o balde tinha um
pequeno furo,
imperceptível ao olho
clínico de deus:
formou-se aos pés da cama
uma poça
esbranquiçada, polposa -
o berço-do-homem
ao contrário do que
abatinados e
astroiluminados afirmam
deus descansou
ao fim do primeiro dia.
sexta-feira, junho 27, 2008
Djuna
terça-feira, junho 24, 2008

quando me inclinei
para limpar a mostarda
que pingava do
bolso roto
vi na mancha amarela
uma jovem viúva que
declinou gentilmente
o convite para ir à ópera
não, o cavalheiro
não era eu mas alguém
muito parecido
comigo
um aeronauta
pouco hábil que
não pede indicações
quando está perdido
a mostarda foi criada por
Cristo na famosa fase
amarela Gourmet
segunda-feira, junho 23, 2008
As maiko mais novas
podem fazer estragos irreparáveis
nos jovens amantes que
esperam ser colhidos
da terra.
O ardor das mais viciosas
pode mesmo matar
os futuros companheiros
que as ajudarão
a ser geishas.
As mais velhas
humedecem o indicador
e o anelar na língua
das companheiras
para depois esgadanhar
a terra prenhe e escura.
Esperam pacientemente
que o sol se levante.
Sabem que
as árvores de sombra
leitosa guardam
os melhores amantes
debaixo das raízes.
Os velhos da aldeia
observam-nas
das colinas
com as lunetas telescópicas
que os nanbam-jin,
os «bárbaros do sul»,
deixaram na ilha
como prova
das suas boas intenções.
sexta-feira, junho 20, 2008
Sir Winstom Churcill

- Could you please hold my cigar for a second?
Lord Randolph, pai de Winstom Churcill, antevia um futuro brilhante para o seu filho como florista. Porém, o Destino é senhor de si e de todos aqueles que se passeiam neste mundo por sua obra e graça. Churcill não seria uma excepção. Numa daquelas tardes de domingo pardacentas, o ainda rapazola Winston ficou assombrado com as coisas que se podiam fazer com um mero ancinho e uma tesoura de poda enferrujada. Ainda com as pupilas dilatadas e a tremer de excitação (como varas verdes, será a expressão?), pôs um manto de serapilheira nas costas, pegou furiosamente no regador verde e correu para o topo de pedra mais alta do jardim. Ajeitou a capa e exclamou em viva voz para esquilos e gralhas que eram bichos pródigos em ignorar pessoas e o próprio destino:
- Sim! Como nunca antes se viu! Serei o líder dos jardineiros desta nação! Oh sua Majestade! - dizia em estado febril, enquanto girava excitado sobre o seu eixo, exibindo o "V" de vitória com os dedinhos aos animais daquele pequeno reino.
quinta-feira, junho 12, 2008
S. Bento

Apenas a boca de São Bento foi
poupada, os homens do poder
reconciliam-se beijando
a boca do santo num gesto
de luxúria parlamentar
sem precedentes. Os mais novos
espumam de prazer enquanto
solfejam decretos e projectos até
sangrarem dos dedos, até caírem os
dentes do siso, até o cabelo ficar
ralo no cocuruto.
São Bento dormia
de barriga
para baixo.
Pústulas ou afrontamento?
quarta-feira, junho 11, 2008
- O senhor é essencialmente um tolo em estado semi-gasoso. Não torne a repetir a gracinha. Ai não volta não. Compre uma palmeira e roce-se no tronco se quiser, mas nada de urros a altas horas. Vá pegue lá.
E ofereceu-me duas cerejas envernizadas que mais pareciam dois grandes melões cor de cereja envernizada. Vou guardar os caroços no bolso do casaco para me lembrar deste dia.
domingo, junho 08, 2008
sexta-feira, junho 06, 2008

Pouco ou nada há a fazer
quando se tem tantas gavetas abertas
como eu tenho
dentro da cabeça,
com os fundos forrados de
papel cornucópia velho,
o bicho ataca-me onde mais preciso -
faço-me uma vénia pela manhã,
a minha cabeça apodrece e já não
se segura enquanto me abotoo ao
espelho.
oh que desconsolo! esfrego-me
de lado e não passa! o bicho ataca
onde mais preciso - prometo que
faço luto quando não conseguir
abrir a braguilha. Sou um puro-
sangue da cintura para baixo e bisneto
da melancolia em noites de lua cheia -
quero um pouquinho de mim agora,
não espero nem mais um minuto,
doem-me as têmporas, o bicho ataca
onde mais preciso. A minha mãe
chora por mim quando descasco uma
cebola brava, por ela faço jejum. Quatro
paredes caiadas e um cheirinho a mijo
de gato, o bicho ataca-me onde mais
preciso. Estou a sangrar na cabeça,
quem é que me bateu agora?
foste tu? Ou tu? Ou até mesmo
.
.
. tu?
quinta-feira, junho 05, 2008
Mas quem é aquele? É o filho mais novo não é? E porque ri? Que família, parecem albaneses. Vamos cear que já se faz tarde. Andor, andor!
quinta-feira, maio 29, 2008
Inscrição tumular de William B. MacFarlane
(1699 - 1751)
"At the end how deep can thee get"
(este epitáfio não é de Horácio)
Meu filho, meus amigos,
Ao longo da minha vida, sempre fui perseguido pelos pequenos sorrisos dos homens. O homem, omnívora espécie como o porco ou o urso, usam e abusam da lisonja para obter os pequenos sorrisos do homem, precisam dela como um relógio de parede precisa de corda. A minha morte hepática merecia uma laje maior mas fui imprudente nos gastos quando ainda estava entre vós.
David Hume sempre foste um bastardo irritante.
quarta-feira, maio 28, 2008
Jesus Navajo
impressionar o Senhor meu pai.
Ao longe parecia uma azeitona
no meio do deserto. Sabia que
Edison iria inventar
a lâmpada eléctrica, era
absolutamente imperioso agir.
Jesus Navajo não abusava da
paciência dos seus companheiros que o
encontravam muitas vezes sozinho
a murmurar ladainhas
incompreensíveis. Bípede, perfil
esguio, aureolado, sabia esfolar búfalos
como ninguém. Seguia-o um
sabujo que lhe lambia os pés
quando não se coçava. Um dia,
Jesus Navajo afastou-se da tribo
para ir rezar a seu pai.
Viu no horizonte uma grande serpentina
de fumo negro que parecia sair
de um terrível demónio
rastejante.
- O sinal. Meu pai, põe mais um prato
na mesa, pois a minha vígilia aqui terminou.
quarta-feira, maio 21, 2008
Maio de 68
Nero vê em sonhos o advento do feminismo (Nero era um misógino assumido) no extremo ocidental da Hispânia e manda executar todas as Marias desta província romana com requintes de crueldade. Os senadores, pressionados por todas as suas amantes de nome Maria, declaram o imperador persona non grata. Sérvio Sulpício Galba, governador da Hispânia, e Vindex, governador da Gália Lugdunense, instigam contra o imperador. A fiel e temível Guarda Pretoriana é subornada pelo seu comandante e enceta a perseguição a Nero, atropelando algumas Marias e Cristianas pelo caminho.
Nero viria a suicidar-se em Junho de 68 sem nunca ter conhecido uma única Maria.
"Novas Cartas Portuguesas" - uma nova abordagem
Alguém pf crie um prémio à altura da autora deste fantástico estudo. Nunca a taxa de permilagem (ou as caixas-com-bigodes paralelas) e a pontuação ou a fraseologia estiveram tão próximas ou correlacionadas.
Sugestão para o nome do Prémio:
"Agora sim, tudo me parece mais claro agora".
sexta-feira, maio 16, 2008
Almoço

com papel,
uma lâmpada de
molho verde à espera
de um comensal tardio,
posso muito bem ser eu,
inclino-me sobre a mesa
com o joelho pousado
na cadeira indolente
pelo menos assim me
achei no momento
seguinte
esfrego a lâmpada
vuush! três geniais carapaus
rasgam o ar,
concedendo-me
três desejos
respiro fundo,
não saio daqui tão cedo
quinta-feira, maio 15, 2008
com a Política “Direitos de
Propriedade Intelectual”.
Se tiver dúvidas, consulte o Dep. Legal da
empresa onde reside e procria.
E assim fiz:
"M. Herde, ainda vá que não vá,
tem uma capa glossy, bonita,
lê-se num instante, 45 minutos
para a I parte, 45 min para a II.
Agora, Cavafy? Bzzzzz
A _________ tem a responsabilidade de
proteger a privacidade e a segurança
dos seus clientes. Isto é
absolutamente obrigatório.
A Cavafy Potros, Garranos S.A.
é um cliente-chave, esqueça esse Cavafy,
está fora de questão, intolerável.
Esperamos que você,
como funcionário da empresa,
actue com honestidade e
integridade na execução dos seus deveres."
E assim fiz.
Gosto de sapos.
quarta-feira, maio 14, 2008
Japão no Porto em Maio

segunda-feira, maio 12, 2008
O capelão e a noviça

Tamara de Lempicka
O capelão despiu o hábito carcomido para dar de beber à noviça que chegara ontem à noite de Navarra:
- Vês este tracejado no bico desta jarra?
- Sim.
- Mata a tua sede, não te faças rogada.
- Mas estou de vigília, tenho de comunicar à madre...
O capelão largou uma violenta gargalhada que ecoou pelo claustro fora.
- A madre superiora recolhe-se sempre durante três dias depois de uma galopada abençoada. Só assim se explica tantos anos de devoção e amor.
- Oh! Minha santa Madre...
- Eu sou um mero sabre de Deus, minha filha, apago as fráguas da carne com a minha velha jarra. E agora bebe.
quarta-feira, maio 07, 2008
Rabo de Palha
Subiu para o seu apartamento e não voltou a por os pés na rua nesse dia. Na manhã seguinte, João Rabo de Palha amarrou uma fita púrpura-selvagem na cabeça e dirigiu-se a pé para o aviário, como era habitual.
terça-feira, maio 06, 2008
Isto_______tenho
não_______ tenho um pulgão na orelha
é_________ (não consigo ouvir-te)
um__________tens uma grande rã esfomeada na boca
teste:::::::::::::::::::(tem dó)
de gravidez:______essa tua rã deveria
positivo:merde!!!!!!!esticar a língua e
negativo:reste-là __devorar o meu pulgão
(e lamber-me a fronte quente
para evitar afrontamentos)
Atentamente,
P.A.
segunda-feira, maio 05, 2008
Bed-glued blues haikus

sexta-feira, maio 02, 2008
Três pastorinhos
terça-feira, abril 29, 2008
Viver na média
segunda-feira, abril 28, 2008
quinta-feira, abril 24, 2008
Roberto Maldonado
Todos cediam a vez a Roberto Maldonado e recuavam sempre que aquela figura vestida de negro da cabeça aos pés se dirigia ao balcão com passos firmes. Maldonado tomava o seu café matinal na cafetaria das Urgências. Além deste seu vício ser significativamente mais barato no hospital, a sua visita permitia-lhe realizar uma prospecção de mercado, estudar a potencial mercadoria. Era bastante eficiente naquilo que fazia, os longos anos de ofício deram-lhe um olho clínico (se é que me permitem a expressão) para casos crónicos e terminais. Apresentava-se diligente aos familiares e entregava o seu cartão em papel fotográfico com o nome em letras douradas.
Funerais, Cremações, Transladações
O Seu Barqueiro neste Mundo
O olhar perscrutante de Maldonado despia a alma dos pobres diabos naquelas horas de aflição. Até os médicos, besuntados de sangue e de incúria e anestesiados com aquele sofrimento em série, punham-se em sentido na presença do cangalheiro. A sua expressão iluminava-se quando detectava pacientes com pés grandes - sintoma de morte certa. Esfregava discretamente as mãos para, em seguida, retirar um caderninho vermelho do bolso interior da jaqueta. Os que ainda não tinham recebido visitas poderiam, numa única manhã, ocupar duas páginas sem grande esforço. No rol dos condenados a médio/longo prazo, incluía as visitas das visitas que, aparentemente, mostravam preocupação, mas, que, na realidade, escondiam alguma moléstia fatal ou sofriam uma agonia silenciosa e negociavam com Deus a sua permanência neste mundo. Desprezava os teatrais, os acossados por uma súbita cegueira ou torrencial caganeira. Amaldiçoava-os ferozmente, pois sabia que iriam ter uma vida longa pela frente. Por outro lado, sempre fora solidário com órfãos de tenra idade cujos pais tinham sido vítimas mortais de terríveis acidentes, prontificando-se de imediato para oferecer os seus serviços à família que ainda lhes restava.
- Vão ser homens e mulheres inabaláveis, de têmpera! - dizia-lhes. Nada têm a perder a partir deste instante.
quarta-feira, abril 23, 2008
quinta-feira, abril 17, 2008
terça-feira, abril 15, 2008

não passarás por esta porta
envidraçada
as arestas cortantes desta porta
coçam a bainha das minhas calças,
o inevitável descasque das bainhas
8:32h ontem
8:33h hoje
33:08h amanhã
trasfega atrás de trasfega
II
e agora entram deus e
woody allen em cena,
porque não
deus ouve um transistor
do antigo testamento
com muita estática
e acena com a cabeça
a woody mas
deus não ouve woody
que falta de decoro
a omnipotência
em frequência moderada
por isso,
e apenas por isso,
é usual ver woody
a lavar as suas mãos delicadas
nas fontes de nova iorque.
sábado, abril 12, 2008
sexta-feira, abril 11, 2008
Como matar um poeta-oráculo
segunda-feira, abril 07, 2008
O velho ditador

Recebo quinzenalmente uma carta cordial do meu Saltibanco - o Banco com a melhor taxa Spread Your Love do mercado - com o extracto e os movimentos que são efectivamente da minha conta. O meu saldo "pathos" está negativo - aliás, sempre esteve desde que a conta foi concebida pelo meu competentíssimo gestor de conta. O tipo faz-me lembrar o Philip Larkin e tudo indica que simpatiza comigo, não sei dizer-vos porquê. Estou. Estou em condições de vos informar que vamos receber a curto prazo poemas monótonos em vez dos úteis recibos emitidos pelos multibancos.
Hum. Aborreço-vos. Sou o eterno candidato da Disfuncionalidade mas, se tudo correr como planeado, serei eleito na segunda volta. Vou agora dormir e sonhar com o Evel Knievel.
quinta-feira, abril 03, 2008
terça-feira, abril 01, 2008
Exercício de Hiper-Ficção

domingo, março 30, 2008
Mónaco

A grande fonte de divisas do Mónaco não é, ao contrário do que se pensa, o jogo ou o turismo. A base da economia monegasca assenta no fabrico e exportação de velas eléctricas para igrejas. A União faz vista grossa a este comércio paralelo que ilude os fiéis devotos do mundo católico desde que foi introduzido nos anos 60 por Grace Kelly, a Libidinosa. Hoje, crianças francesas e italianas (enjeitadas do "Grande" Circo de Montecarlo) montam as velas em condições desumanas em porões de iates e subcaves de prédios faustosos. Alberto já demonstrou publicamente a sua preocupação e lamenta os actos reprováveis de sua mãe:
- A sua fixação por velas e círios levou-a longe demais. Mas continuo a amá-la enquanto actriz.
quinta-feira, março 27, 2008
Como matar um cowboy-diva
Pedir a factura no fim ao Técnico.
terça-feira, março 25, 2008
Necrosyrtes monachus

há menos acidentes no cruzamento
os dois abutres empoleirados
no espelho convexo tiveram de migrar
a quercus fez queixa da autarquia
o presidente lamenta profundamente o sucedido
mandou-se chamar outra vez
a velha mas a velha morreu
chamou-se então um tóxico
algemado a um realejo
em estado terminal
(sejamos sérios -
não facilitemos).
quinta-feira, março 20, 2008
at the Starbucks
Miss Butter: Wha..?! Oh my God!
Mr Muffin: Ooh! B, is that really you?
Miss Butter: I certainly am!
Mr Muffin: No way, get out here!
Miss Butter: Yeah, the years were kind to you.
Mr Muffin: And you? You're still a doll!
Miss Butter: Oh my God.
Mr Muffin: Heya, care for a cup of coffee?!
eu tenho um sonho

eu tenho um sonho
eu tenho um sonho que esta nação jamais se levantará antes das três horas da tarde
eu tenho um sonho que, um dia, nas planícies torradas do alentejo, croupiers e jogadores se sentarão à sombra do mesmo chaparro
eu tenho um sonho que, até mesmo no vale do Douro, se falará galaico-português e o vinho escorrerá das torneiras e jorrará das fontes
eu tenho um sonho que os pequenos quatro bastardos venham a conhecer um dia o seu pai
eu tenho um sonho que, no futuro, todos os cristos, aspiradores e salazares sejam iguais
eu tenho um sonho
livre afinal, livre afinal.
segunda-feira, março 17, 2008
Michaux e o manequim
Michaux levava consigo o manequim para todo o lado. Vestia-o de sombras e punha-o no alto de uma pedra ou de um muro e escrevia-a sobre aquilo que via. O seu pai era avesso a mudanças e passou-lhe o gene sem grande esforço. Abalava de madrugada das pensões ou dos abrigos e, antes do sol nascer, já o viam montado no seu bardoto temperamental com o manequim atravessado no dorso do animal, sem destino resolvido. Interrompia invariavelmente a jornada às 13:05h. Antes de se apear, consultava maquinalmente o relógio de bolso e, de seguida, olhava em redor como que a despertar daquele torpor cambaleante. Posicionava então o manequim, afastava-se meia dúzia de passos e sentava-se para dar início à escrita. Há catorze anos que escrevia as mesmas linhas em sebentas coçadas, decalcando até à exaustão o dia em que experimentou o amor carnal, descrevendo em contornos febris o corpo mutilado que o acompanhava ao longo dos anos. Acreditava que escrevia "a quatro mãos" e que o destino das palavras não dependia de si, mas da obstinação indomável do velho manequim.
No início de uma tarde turva, Michaux ousou introduzir no seu caderno a cor estonteante, o cirandar hipnótico das sombrinhas das senhoras que passeavam coquetes no Campo de Marte em tardes melancólicas. Michaux desprezou as recomendações do taberneiro: o vinho da região era selvagem e inclemente. Ainda concebeu apagar as linhas inéditas, mas "não, hoje não!".
Aquartelou-se numa pensão de má fama frequentada por pequenos burgueses remediados e morreu em crónico détresse lírico nessa mesma noite.

















