quarta-feira, outubro 08, 2008
terça-feira, outubro 07, 2008
As mulheres das passagens de nível
Nos tempos do Antigo Regime, a CP empreendeu uma selecção de pessoal sem precedentes no historial da empresa. As mulheres das passagens de nível deviam ser facilmente reconhecidas pela sua feiura saudável e distinta. Terem nascido viúvas e terem uma irmã gêmea (falsa ou verdadeira) eram também dois pré-requisitos obrigatórios. As seleccionadas vivam em casebres junto à linha. Não podiam entrar em querelas com as suas irmãs gêmeas que empunhavam gloriosamente as bandeiras. Estas bandeiras foram queimadas quando as mulheres das passagens de nível partiram em debandada não se sabe muito bem para onde. Há quem afirme ter visto algumas destas mulheres empoleiradas em catenárias de linhas desabilitadas, no interior profundo.
O museu da CP apresenta uma exposição temporária de diapasões utilizados pelas mulheres das passagens de nível. Os diapasões eram colocados sobre o carril para calcular a distância do próximo comboio. A precisão destes instrumentos era notável.
quinta-feira, outubro 02, 2008
D. Quarto III, o Fazedor de Bastardos
metade do seu reino
a outra metade
é feita de embriões reais
que são as armas da nação
no dia a seguir
ao seu 50º aniversário
apaga a crise de meia idade
na varanda do palácio,
sonhos venezianos -
todos os gondoleiros
são seus filhos
e todas as pontes
são de marfim.
Trôpego, volta
para dentro
e põe o cozido
em lume brando.
quarta-feira, outubro 01, 2008
Os encantadores de serpentes

terça-feira, setembro 30, 2008
segunda-feira, setembro 29, 2008
Enfermidades da Boca
por Anne Frank

Querida Kitty,
os meus lábios romperam-se
de madrugada
e sinto uma secura
tremenda nos cantos da boca
não consigo sequer
engolir a saliva
como se não bastasse
o papá perdeu hoje
a paciência comigo
diz que passo a vida
a escrevinhar
coisas inúteis
às vezes apetece-me sair
deste buraco e entregá-lo
aos alemães
amanhã irei arrepender-me
destas palavras
eu sei querida Kitty
mas as enfermidades da boca
põem-me fora de mim
Tua Anne
domingo, setembro 28, 2008
Como matar um odioso e roçagante discípulo de Gaudí - Diário de um Peregrino de Sant Jordí
- Sou batedor de um novo caminho, o Caminho Redentor de Sant Jordí.
Ninguém reagiu. Um velho com as faces muito ruborizadas deu um passo em frente. Tinha as pernas mais magras do grupo. Ficou ali parado a estudar-me de cima a baixo.
- Não és homem para mentir, faltam-te ainda alguns anos para fazeres isso bem - disse-me com uma voz rouca e oracular.
O pequeno grupo lá seguiu caminho. O velho aproximou-se de mim, agarrou-me no braço direito com alguma rudeza e seguimos na direcção contrária à Via de La Plata que é o maior caminho de S. Tiago em terras de Espanha. Na última noite que acampámos juntos, disse-me que tinha sido metalúrgico durante trinta anos numa fábrica em Sheffield e que, às sextas-feiras, gostava de comer "tarts" e embebedar-se. Às portas de Cárceres, sumiu. Nesta terra enfeitada pelo sol, apressei-me a estudar os movimentos dos grandes pássaros negros que planavam tristemente sobre a cidade. Acocorou-se diante de mim um contra-regra gorducho e sorridente que me ditava baixinho como fazê-lo. Dia sim, dia não, surgiam nuvens esponjadas que se assemelhavam ao perfil do nobel galego, Camilo J. Cela, de boina e com a língua de fora.
- Um sinal auspicioso! - pensei enquanto apertava firmemente o meu bordão.
Como matar um odioso e roçagante discípulo de Gaudí - Diário de um Peregrino de Sant Jordí
Para vos poupar de um certo suspense irritante que vulgarmente se inclui no feitio convencional dos diários picarescos, posso assegurar-vos que o matei no seu próprio gabinete. Se a vossa paciência assim o permitir, posso prová-lo de forma irrefutável. No Jardin de La Fecundidad, na parte baixa da orgulhosa cidade de Granada, é possível ainda ouvir os grunhidos que descem do topo das árvores. À noite, o efeito é ainda mais impressionante. Pode levar-vos às lágrimas e secar os vossos ossos por completo se forem do tipo sensível. Os ecos da sua morte propagaram-se por toda a península e agora todos são suficientemente corajosos para blasfemar o seu nome. A História está encharcada de homens que se tornaram heróis por acaso. Creio não estar enganado se afirmar que finalmente encontrei a minha vocação.
sexta-feira, setembro 19, 2008
O quadro
Passaram cinquenta anos. Já todos tinham partido. A Guerra acabara, e três dias antes da sua libertação, a velha escrava dirigiu-se à mansão com um embrulho debaixo do braço. O senhor recebeu-a algo surpreendido. A escrava entregou-lhe o embrulho com as duas mãos e foi-se embora. O senhor seguiu-a com o olhar até ela desaparecer no fundo da alameda. Cortou então o atilho grosseiro com a faca, rasgou o papel e ficou ali na soleira a olhar para um quadro em branco.
quarta-feira, setembro 17, 2008
terça-feira, setembro 16, 2008
segunda-feira, setembro 15, 2008
Jogo do Bicho

(Pouco depois da postagem do texto anterior, senti-me estranhamente envergonhado, sujo até, como se a Clarice Linspector - que irei venerar até à morte - estivesse a vigiar-me por cima do ombro. Peguei então num livro do Rubem Fonseca da estante, colei-o junto ao peito e o sentimento mau passou. Me perdoa, minha Clarice).
o Deus da Higiene Facial
(o etéreo_____ ______ -
ou aquele cujo nome não deve ser proferido)
disponibiliza-me
uma providencial
Wilkinson for Women
no fundo da primeira gaveta
talvez porque
pus em causa
a minha idiossincrasia
enquanto bebia uma marguerita
em Lloret del Mar
talvez porque
deseje um Portugal
dos Pequeninos sem ATMs
mais seguro
talvez porque
nunca deixei de gostar
de gravatas de seda
exclusivas
mas vamos a isto.
Desfiro o primeiro golpe
com tauromática galhardia
e cai um fino fio de sangue
sobre o lavatório
a passividade estival
faz-me contemplar
o sangue enquanto
questiono novamente
os meus ideais
parapolíticos
e me ofereço
ao meu novo deus.
sexta-feira, setembro 12, 2008
The Goldenteethchickjacking
Ouviu falar do flagelo no salão de estética enquanto fazia meia perna e sentiu-se imediatamente arrebatada pela ideia. Teria de lavar mais escadas, fazer o frete e sair com uns estudantes nos tempos livres, mas, no fim, valeria a pena. Com o implante da prótese dourada, iria combater a dramática solidão em que vivia e seria obscenamente famosa.
No fim, e correndo o risco de me estar a repetir, no fim, valeria a pena.
quarta-feira, setembro 10, 2008
Os macacos do velho Boris
Para o Rui M. Amaral
Boris conseguira despachar os macacos por um bom preço. Estava cansado das suas insubordinações e fúrias repentinas, e, por vezes, sentia-se ameaçado quando acordava de manhã e via-os a dormir a seu lado.
- Como é que macacos maniqueístas conseguem escapar de jaulas de aço? - interrogava-se enquanto coçava o cocuruto rapado.
Treinou-os durante seis longos anos para o transportar num magnífico cadeirão de vime, mas os macacos demonstravam cada vez mais sinais de desmazelo e chegaram a ameaçar o búlgaro com tacos de cricket. Onde é que eles foram desenterrar o raio dos tacos?! A verdade é que as coisas tinham mudado drasticamente. Seria talvez porque Boris tinha engordado muito nos últimos anos? Ah mas a vida finalmente sorria ao velho Boris! Havia sempre ilustres admiradores entre a audiência que retribuíam generosamente o seu espectáculo de rua. Mas chegara a hora de se retirar e a macacada estava a dar mais dores de cabeça do que lucro. E assim foi. Boris ainda sentiu um aperto no peito quando os viu partir com a caravana de ciganos, mas foi melhor assim. Com esse dinheiro, Boris iria aproveitar para concretizar o sonho de uma vida: comprar um transístor AM incorporado numa mesinha de cabeceira laqueada. A peça era bastante pesada, uma vez que o tampo era feito de mármore de Carrara. Boris já se imaginava a tactear suavemente o mármore fresco enquanto ouvia os longos discursos do presidente antes de adormecer.
terça-feira, setembro 09, 2008
quem por aqui passou
gostava de dormitar
num forno de cal
tinha a crosta da cabeça
branca como os penhascos
de Dover
os álbuns com milhares
raios-X demonstram
uma vaidade
e uma necessidade de exposição
sem limites
usava braçadeiras metálicas
nos dedos para ter
a mão mais segura
quando garatujava
se algum dia alguém
conseguir provar
a sua precária existência
será por causa dos versos
pendurados no tecto
cheio de humidade -
alguns encontram-se
em adiantado estado de decomposição
como pilotos que se ejectam
e ficam presos nas árvores
sábado, setembro 06, 2008
Isso é muito aborrecido
- o que me foi acontecer
- sabe acontece sempre a quem não merece
- e logo a mim que não faço mal a ninguém
- esqueça lá isso deus não dorme
- mas isto não fica por aqui ai não-não
-
-
- quer fazer amor selvaticamente?
- ah! o senhor por quem me toma?
-
- o senhor como me toma?
-
-
- já acabou?
- sim
- ora adeus cavalheiro
- adeus minha senhora



