sexta-feira, setembro 19, 2008


Eduardo Recife

O quadro

Estava sentada na beira da cama a olhar para o campo de algodão. As cabanas dos escravos não tinham portas. Nesse final de tarde, o senhor ofereceu-lhe um quadro com uma grande planície. Lembra-se de ele ter dito que era no longínquo oeste. A partir desse dia, que era o terceiro, sempre que o seu senhor estivesse em cima dela, a escrava não desviaria o olhar do quadro antes que ele acabasse.
Passaram cinquenta anos. Já todos tinham partido. A Guerra acabara, e três dias antes da sua libertação, a velha escrava dirigiu-se à mansão com um embrulho debaixo do braço. O senhor recebeu-a algo surpreendido. A escrava entregou-lhe o embrulho com as duas mãos e foi-se embora. O senhor seguiu-a com o olhar até ela desaparecer no fundo da alameda. Cortou então o atilho grosseiro com a faca, rasgou o papel e ficou ali na soleira a olhar para um quadro em branco.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Novíssimos haikus livres (para médicos forenses de meia-idade)





uma mulher-violeta
brotou junto ao charco

entre as pernas
gotas de orvalho borrifadas

ainda por colher
estará à venda?

atrás dela

pegadas de homens-rã

recuei a medo
com a lua dentro de mim

sou o homem-camélia
que murcha uma vez

segunda-feira, setembro 15, 2008

Jogo do Bicho



No brasileiríssimo Jogo do Bicho, o número 24 está associado ao Veado que, por sua vez, é um animal associado à homossexualidade. Quando o filho nasce no dia 24, a homofóbica mãe brasileira prefere registar (ou registrar) o nascimento do seu filho no dia 23 ou 25. No entanto, pode registá-lo ou baptizá-lo com nomes extraordinários como Bambi Nascimento ou até Chifres Júnior dos Santos.

(Pouco depois da postagem do texto anterior, senti-me estranhamente envergonhado, sujo até, como se a Clarice Linspector - que irei venerar até à morte - estivesse a vigiar-me por cima do ombro. Peguei então num livro do Rubem Fonseca da estante, colei-o junto ao peito e o sentimento mau passou. Me perdoa, minha Clarice).

o Deus da Higiene Facial

o Deus da Higiene Facial
(o etéreo_____ ______ -

ou aquele cujo nome não deve ser proferido)
disponibiliza-me
uma providencial
Wilkinson for Women
no fundo da primeira gaveta

talvez porque

pus em causa
a minha idiossincrasia
enquanto bebia uma marguerita
em Lloret del Mar
talvez porque
deseje um Portugal
dos Pequeninos sem ATMs
mais seguro
talvez porque
nunca deixei de gostar
de gravatas de seda
exclusivas

mas vamos a isto.
Desfiro o primeiro golpe
com tauromática galhardia
e cai um fino fio de sangue
sobre o lavatório

a passividade estival
faz-me contemplar
o sangue enquanto
questiono novamente
os meus ideais
parapolíticos
e me ofereço
ao meu novo deus.

sexta-feira, setembro 12, 2008

Tróia



Antes de Usar
Leia com Atenção
As Instruções
Neste Verso

The Goldenteethchickjacking


Ouviu falar do flagelo no salão de estética enquanto fazia meia perna e sentiu-se imediatamente arrebatada pela ideia. Teria de lavar mais escadas, fazer o frete e sair com uns estudantes nos tempos livres, mas, no fim, valeria a pena. Com o implante da prótese dourada, iria combater a dramática solidão em que vivia e seria obscenamente famosa.
No fim, e correndo o risco de me estar a repetir, no fim, valeria a pena.

quarta-feira, setembro 10, 2008

Os macacos do velho Boris



Para o Rui M. Amaral


Boris conseguira despachar os macacos por um bom preço. Estava cansado das suas insubordinações e fúrias repentinas, e, por vezes, sentia-se ameaçado quando acordava de manhã e via-os a dormir a seu lado.
-
Como é que macacos maniqueístas conseguem escapar de jaulas de aço? - interrogava-se enquanto coçava o cocuruto rapado.
Treinou-os durante seis longos anos para o transportar num magnífico cadeirão de vime, mas os macacos demonstravam cada vez mais sinais de desmazelo e chegaram a ameaçar o búlgaro com tacos de cricket. Onde é que eles foram desenterrar o raio dos tacos?! A verdade é que as coisas tinham mudado drasticamente. Seria talvez porque Boris tinha engordado muito nos últimos anos? Ah mas a vida finalmente sorria ao velho Boris! Havia sempre ilustres admiradores entre a audiência que retribuíam generosamente o seu espectáculo de rua. Mas chegara a hora de se retirar e a macacada estava a dar mais dores de cabeça do que lucro. E assim foi. Boris ainda sentiu um aperto no peito quando os viu partir com a caravana de ciganos, mas foi melhor assim. Com esse dinheiro, Boris iria aproveitar para concretizar o sonho de uma vida: comprar um transístor AM incorporado numa mesinha de cabeceira laqueada. A peça era bastante pesada, uma vez que o tampo era feito de mármore de Carrara. Boris já se imaginava a tactear suavemente o mármore fresco enquanto ouvia os longos discursos do presidente antes de adormecer.

terça-feira, setembro 09, 2008

vê-se logo que
quem por aqui passou
gostava de dormitar
num forno de cal
tinha a crosta da cabeça
branca como os penhascos
de Dover
os álbuns com milhares
raios-X demonstram
uma vaidade
e uma necessidade de exposição
sem limites
usava braçadeiras metálicas
nos dedos para ter
a mão mais segura
quando garatujava

se algum dia alguém
conseguir provar
a sua precária existência
será por causa dos versos
pendurados no tecto
cheio de humidade -
alguns encontram-se
em adiantado estado de decomposição
como pilotos que se ejectam
e ficam presos nas árvores

sábado, setembro 06, 2008

Isso é muito aborrecido

- isso é muito aborrecido não tenha a menor dúvida
- o que me foi acontecer
- sabe acontece sempre a quem não merece
- e logo a mim que não faço mal a ninguém
- esqueça lá isso deus não dorme
- mas isto não fica por aqui ai não-não
-
-
- quer fazer amor selvaticamente?
- ah! o senhor por quem me toma?
-
- o senhor como me toma?
-
-
- já acabou?
- sim
- ora adeus cavalheiro
- adeus minha senhora

quinta-feira, setembro 04, 2008


Felix Vallotton

terça-feira, setembro 02, 2008

no dispensário


sento-me entre um engraxador
e um yorkshire
o engraxador traz um letreiro
ao pescoço que diz "Homem-Prodígio"
faz estalidos com a boca
parece-me asseado
o yorshire retrai a respiração
e quando já não aguenta mais
cospe uma polpa rosa para
uma escarradeira de esmalte com
pequenas manchas que parecem
nuvenzinhas
à minha frente uma ex-cabeleireira
com um guarda-chuva de cerejas
sobre as pernas
olha ferozmente para mim
"Quero/quero fazer-te num dossel"
parece dizer-me baixinho
enquanto faz força
no dedo picado
com o algodão hidrófilo

domingo, agosto 31, 2008

Karamba, karacho, ein Whisky

Hoje cantamos Heino, amanhã reconquistamos o mundo.

sábado, agosto 30, 2008

Pascal, o Croupier


Pascal era o croupier mais antigo do Grand Napoleon. Ipso facto era o mais experiente do casino. Era igualmente o único croupier do único casino da ilha de Sta. Helena. Ao contrário do montante e do juzante daquilo que possam pensar, Pascal não gostava das suas mãos e usava luvas pretas de seda perfumadas. Via-se obrigado a interromper o seu trabalho com bastante frequência para lavá-las com sabão de marselha, pois emitiam um intenso odor a resina. O sogro da sua ex-mulher, "o melhor ex-sogro que eu já tive" segundo a escala afectiva de Pascal, acreditava (de forma obstinada e pouco razoável como só os cinquentenários sabem acreditar) que o nosso herói sofria do Síndrome de Pilatos e que isso arruinou o casamento com a sua filha do meio. Mas, como já decerto pestanejaram, o verdadeiro motivo era outro e não está nem um fio relacionado com o Estranho Caso dos Corações Triturados em Almofarizes de Bronze.

Como é costume em Sta. Helena, o casamento do primogénito é um sacramento combinado entre os pais dos futuros noivos. Quis o inclemente Destino que o irmão de Pascal morresse de disenteria nas minas de diamantes do Baixo Zaire. Pascal, enquanto legatário imediato, deveria honrar o compromisso assumido pelos pais e asssim o fez. Casou-se. Luísa amava Pascal, mas não era correspondida no seu amor. As primeiras semanas do jovem casal foram um verdadeiro suplício para o desafortunado croupier. A infelicidade e o pó reinavam naquela casa. Mas, numa noite sem luar e enquanto lavava as mãos, Pascal celebrou um pacto
consigo mesmo que o ajudaria a suportar a sua sorte. Fechou a torneira, olhou para o espelho e disse em voz baixa:
- As lágrimas secam mais depressa quando estamos perto de uma lareira.
Abriu novamente a torneira dourada e continuou a lavar as mãos.

terça-feira, agosto 26, 2008

Insónia seca


DuBois, Gerard


debruçado
na madrugada
vejo um
homem de fato
escuro
a passear
de andas
nas escamas sujas
da rua

uma televisão
aos gemidos
desliga-se e
a noite derrama-se
cada vez mais
sobre a rua

só por uma vez
gostaria que ele
levantasse
a cabeça do chão
e olhasse para cima

sou uma página
presa noutra página
que a noite avança
com as pontas dos dedos
negros e finos.

quinta-feira, agosto 21, 2008

O Judeu Abrahim e a Casa de Licores


No remoto cantão de Bons-Ares-do-Coração, havia uma casa de licores e bebidas espirituosas que ganhou fama na época pela venda de iogurtes de cabra-vesga e de manuais de convenções e regras para aspirantes a aristocratas.
As más-línguas (sempre certa concorrência viperina) propagavam que o fundador da loja, o judeu Abrahim, enriquecera por vias travessas: os difamadores juravam a todas as orelhas que queriam ouvir que a loja servia de fachada a um negócio paralelo de troca de títulos nobiliárquicos por generosas quantias de dinheiro por parte dos burgueses das cidades do lago. Abrahim, não podendo ostentar qualquer honra ou título devido à sua circuncidada condição, obrigava os nobres desesperados a executar uma dança bizarra para seu exclusivo e perverso deleite. Os dançarinos tinham de descrever movimentos circulares em torno do judeu que assistia a tudo sentado numa cadeira; se a dançarina fosse condessa ou até marquesa tinha de segurar uma galinha parideira à altura do ventre e empinar bem a cauda do vestido; mas se fosse homem, tinha de equilibrar um capão em cima do chapéu ou da peruca cacheada, enquanto girava e cuspia fogo.
Para se precaver contra prováveis vinganças ou até arrependimentos, o velho judeu pedia melifluamente à nata falida que assinasse um documento que salvaguardasse a sua pessoa e todos os seus familiares.

"Une loge d'Actrice", Victor Giraud

quarta-feira, agosto 20, 2008

no aeroporto


a alemã com
pernas de farol e
mãos abatatadas
sentou-se junto de mim
e aportuguesou
o seu pensamento:

"este aeroporto é o sítio mais bucólico
que eu conheço"

ousei olhar para ela
como um velho
sabujo olha para o
dono quando não
apanha a presa

segunda-feira, agosto 11, 2008

O Dia da Libertação do Homem Que Amava Demais


Chegou finalmente o dia.
O guarda prisional entregou-lhe os objectos pessoais que o estabelecimento prisional confiscara e guardara no primeiro dia da sua pena:
- um fato branco;
- um abacate em forma de coração e em perfeito estado de conservação (de acordo com as declarações do homem que amava demais, era a prova cabal da sua absoluta inocência);
- um par de collants;
- uma Bíblia ilustrada para principiantes;
- a sua amada; e
- um órgão hammond;
A pena fora-lhe reduzida pelo bom comportamento demonstrado, mas a sua detenção de cinco anos ficou registada no cadastro criminal. A partir deste dia, o homem que amava demais estava terminantemente proibido de amar fosse quem fosse, incluindo a sua própria mulher.