terça-feira, julho 08, 2008

Igreja dos Discos Pedidos dos Últimos Dias



Os pré-requisitos de admissão consistem na perda gloriosa da Fé e no absoluto desprezo pelo Destino. Não sofrer de halitose é considerado um dom suplementar no momento da comunhão. A congregação foi fundada nos anos 20 por um bispo melómano. O "bispo" era o único habitante da povoação que possuia telefonia e telefone. Uma vez perguntaram-lhe o porquê da fundação da seita:

- Toda a minha vida andei com uma bomba ao colo como um bom penitente cristão. A minha vida era um grande meio-termo cinzento. Na manhã de uma Quinta-feira Santa, deixei cair a bomba por acidente e, em vez de chorar, comecei a cantar o "Trouble is a Man". Já não me lembro quem cantava esta música. Lágrimas de felicidade caíram-me pelo rosto e liguei a toda a gente que conhecia para apregoar a Boa Nova.

sábado, julho 05, 2008

Partilha



uma cabeça d'icterícia lança-me
um convite irrecusável
sobre o resguardo verde
de um mictório secular

resisto
ao apelo biológico
e armado em bom
sigo o meu caminho

o olhar aliviado
da cabeça
quando ouso olhar
para trás
inferniza-me
até casa

sexta-feira, julho 04, 2008

' We're sorry, this poem is no longer available '

segunda-feira, junho 30, 2008

Génesis



Allegro Assai
trazia entre dentes
o Balde sagrado
repleto de coisas rosadas
e botões carnudos
em forma de G
que segregavam
fluidos lácteos, de
polpa quase virgem

Allegro sentou-se e
ficou a olhar
para o crucifixo
em cima da
cama de um deus

moribundo

se estivesse alguém
naquele quarto,
poderia jurar
a pés juntos
que deus esboçou

um sorriso.
Sorveu por uma
palha aquele soro

milagroso e espalhou
o resto pelo ar

ao contrário do que
videntes e
marionetas apregoam,
deus criou primeiro
a lua para se maquilhar -
"Tenho de me recompor
e criar a Terra e o resto"

ainda num estado
que suscitava algumas
reservas, levantou-se e

soprou o pó da lua.
A Terra brotou

com todo o seu vigor
paleolítico

no ar bafiento do
quarto

o balde tinha um
pequeno furo,
imperceptível ao olho
clínico de deus:
formou-se aos pés da cama

uma poça
esbranquiçada, polposa -
o berço-do-homem

ao contrário do que
abatinados e
astroiluminados afirmam
deus descansou
ao fim do primeiro dia.

sexta-feira, junho 27, 2008

Djuna

Djuna está sentada na velha poltrona que o pai incestuoso lhe deixara. A velha biblioteca esfumaçada pela boquilha é o seu casulo durante o dia. Aguarda fatalmente pela cantora que vai saciar os apelos inúteis da carne. Ainda em jejum, vê da longa janela orelhas, torsos, melenas, dentes projectados no céu sanguíneo pelo pôr-do-sol. Vê também o seu pai a cavalgar no ar uma carpa com cara de monge, seguido em baixo por um lobo furtivo com patas de carneiro. Um grupo de camponeses ajoelha-se, vomitam notas desafinadas com flautas enterradas no cu até ao Ré. De repente, batem à porta. Dionísio põe a língua de fora enquanto sodomiza cabras e virgens florentinas de olhos azuis, perto de um pequeno precipício. Santo Antão era o seu pai.

terça-feira, junho 24, 2008




quando me inclinei
para limpar a mostarda

que pingava do
bolso roto
vi na mancha amarela
uma jovem viúva que
declinou gentilmente
o convite para ir à ópera
não, o cavalheiro
não era eu mas alguém
muito parecido
comigo

um aeronauta
pouco hábil que
não pede indicações

quando está perdido

a mostarda foi criada por
Cristo na famosa fase
amarela Gourmet

segunda-feira, junho 23, 2008


As maiko mais novas
podem fazer estragos irreparáveis
nos jovens amantes que
esperam ser colhidos
da terra.

O ardor das mais viciosas
pode mesmo matar
os futuros companheiros
que as ajudarão
a ser geishas.

As mais velhas
humedecem o indicador
e o anelar na língua
das companheiras
para depois esgadanhar
a terra prenhe e escura.
Esperam pacientemente
que o sol se levante.
Sabem que
as árvores de sombra
leitosa guardam
os melhores amantes
debaixo das raízes.

Os velhos da aldeia
observam-nas
das colinas
com as lunetas telescópicas
que os nanbam-jin,
os «bárbaros do sul»,
deixaram na ilha
como prova
das suas boas intenções.

sexta-feira, junho 20, 2008

Sir Winstom Churcill




- Could you please hold my cigar for a second?
Lord Randolph, pai de Winstom Churcill, antevia um futuro brilhante para o seu filho como florista. Porém, o Destino é senhor de si e de todos aqueles que se passeiam neste mundo por sua obra e graça.
Churcill não seria uma excepção. Numa daquelas tardes de domingo pardacentas, o ainda rapazola Winston ficou assombrado com as coisas que se podiam fazer com um mero ancinho e uma tesoura de poda enferrujada. Ainda com as pupilas dilatadas e a tremer de excitação (como varas verdes, será a expressão?), pôs um manto de serapilheira nas costas, pegou furiosamente no regador verde e correu para o topo de pedra mais alta do jardim. Ajeitou a capa e exclamou em viva voz para esquilos e gralhas que eram bichos pródigos em ignorar pessoas e o próprio destino:
- Sim! Como nunca antes se viu! Serei o líder dos jardineiros desta nação! Oh sua Majestade! -
dizia em estado febril, enquanto girava excitado sobre o seu eixo, exibindo o "V" de vitória com os dedinhos aos animais daquele pequeno reino.

quinta-feira, junho 12, 2008

S. Bento




Apenas a boca de São Bento foi
poupada, os homens do poder
reconciliam-se beijando
a boca do santo num gesto

de luxúria parlamentar
sem precedentes. Os mais novos
espumam de prazer enquanto
solfejam decretos e projectos até
sangrarem dos dedos, até caírem os
dentes do siso, até o cabelo ficar
ralo no cocuruto.

São Bento dormia
de barriga
para baixo.
Pústulas ou afrontamento?

quarta-feira, junho 11, 2008

Pequei terrivelmente e rebolei para a varanda minúscula onde a juba da lua me encorajou a grunhir como um mabeco com cio, mais ou menos como uma mãe carnuda com o seio desnudo que estala e põe a sua prole imediatamente em silêncio. O marido não vai a casa há dois dias. Por cada traição...desengane-se. Já está? Não vou narrar uma historieta diáfana de adultério: este homem recto, digno, com rugas de quase meia idade, expele fragmentos minúsculos de grão de bico acobreado pelo canto do olho quando se sente ameaçado ou quando o fazem sorrir contrafeito. Poderia conhecer também a minha vizinha de cima de pele macilenta e expressão predial muito característica das vizinhas de 4º andar. A Okinaua (não sei o seu nome, por isso baptizei-a de Okinaua, é um nome tão bom como outro qualquer) deu-me uma violenta chicotada quando nos cruzamos nas escadas, na manhã seguinte. Empinou-se três degraus acima e com o dedo indicador em riste disse:
- O senhor é essencialmente um tolo em estado semi-gasoso. Não torne a repetir a gracinha. Ai não volta não. Compre uma palmeira e roce-se no tronco se quiser, mas nada de urros a altas horas. Vá pegue lá.
E ofereceu-me duas cerejas envernizadas que mais pareciam dois grandes melões cor de cereja envernizada. Vou guardar os caroços no bolso do casaco para me lembrar deste dia.

sexta-feira, junho 06, 2008




Pouco ou nada há a fazer
quando se tem tantas gavetas abertas
como eu tenho
dentro da cabeça,
com os fundos forrados de
papel
cornucópia velho,
o bicho ataca-me onde mais preciso -
faço-me uma vénia pela manhã,
a minha cabeça apodrece e já não
se segura enquanto me abotoo ao
espelho.
oh que desconsolo! esfrego-me
de lado e não passa! o bicho ataca
onde mais preciso - prometo que
faço luto quando não conseguir
abrir a braguilha. Sou um puro-
sangue da cintura para baixo e bisneto
da melancolia em noites de lua cheia -
quero um pouquinho de mim agora,
não espero nem mais um minuto,
doem-me as têmporas, o bicho ataca
onde mais preciso. A minha mãe
chora por mim quando descasco uma
cebola brava, por ela faço jejum. Quatro
paredes caiadas e um cheirinho a mijo
de gato, o bicho ataca-me onde mais
preciso. Estou a sangrar na cabeça,
quem é que me bateu agora?
foste tu? Ou tu? Ou até mesmo
.
.
. tu?

quinta-feira, junho 05, 2008

Senhor! Madame! Para onde olham? Passem, passem, psss! Aqui não há nada de interessante. Andor. Uma costura aqui, outra costura, um pesponto feito à pressa, irra que dói. Morreu o costureiro zarolho, viva, viva! Nascido para os remendos, assoava-se com o velho lenço amarelecido do avô. Não velem por ele por favor.
Mas quem é aquele? É o filho mais novo não é? E porque ri? Que família, parecem albaneses. Vamos cear que já se faz tarde. Andor, andor!

quinta-feira, maio 29, 2008

Inscrição tumular de William B. MacFarlane


William B. MacFarlane

(1699 - 1751)


"At the end how deep can thee get"

(este epitáfio não é de Horácio)

Meu filho, meus amigos,
Ao longo da minha vida, sempre fui perseguido pelos pequenos sorrisos dos homens. O homem, omnívora espécie como o porco ou o urso, usam e abusam da lisonja para obter os pequenos sorrisos do homem, precisam dela como um relógio de parede precisa de corda. A minha morte hepática merecia uma laje maior mas fui imprudente nos gastos quando ainda estava entre vós.

David Hume sempre foste um bastardo irritante.

quarta-feira, maio 28, 2008

Jesus Navajo

- Poderia sofrer mais. Quero tanto
impressionar o Senhor meu pai.

Ao longe parecia uma azeitona
no meio do deserto. Sabia que
Edison iria inventar
a lâmpada eléctrica, era
absolutamente imperioso agir.
Jesus Navajo não abusava da
paciência dos seus companheiros que o
encontravam muitas vezes sozinho
a murmurar ladainhas
incompreensíveis. Bípede, perfil
esguio, aureolado, sabia esfolar búfalos
como ninguém. Seguia-o um
sabujo que lhe lambia os pés
quando não se coçava. Um dia,
Jesus Navajo afastou-se da tribo
para ir rezar a seu pai.
Viu no horizonte uma grande serpentina
de fumo negro que parecia sair
de um terrível demónio
rastejante.

- O sinal. Meu pai, põe mais um prato
na mesa, pois a minha vígilia aqui terminou.

quarta-feira, maio 21, 2008

Maio de 68



Nero vê em sonhos o advento do feminismo (Nero era um misógino assumido) no extremo ocidental da Hispânia e manda executar todas as Marias desta província romana com requintes de crueldade. Os senadores, pressionados por todas as suas amantes de nome Maria, declaram o imperador persona non grata. Sérvio Sulpício Galba, governador da Hispânia, e Vindex, governador da Gália Lugdunense, instigam contra o imperador. A fiel e temível Guarda Pretoriana é subornada pelo seu comandante e enceta a perseguição a Nero, atropelando algumas Marias e Cristianas pelo caminho.

Nero viria a suicidar-se em Junho de 68 sem nunca ter conhecido uma única Maria.

"Novas Cartas Portuguesas" - uma nova abordagem

Quem disse que a Matemática e a Literatura (epistolar a três mãos) têm de andar de costas voltadas?

Alguém pf crie um prémio à altura da autora deste fantástico estudo. Nunca a taxa de permilagem (ou as caixas-com-bigodes paralelas) e a pontuação ou a fraseologia estiveram tão próximas ou correlacionadas.

Sugestão para o nome do Prémio:
"Agora sim, tudo me parece mais claro agora".

segunda-feira, maio 19, 2008



Um dos três "kings" do blues:
Freddy King,
lá dentro (ainda mais dentro do que Cash) e cá fora.

(Brevemente: Camané em Sta Cruz do Bispo)

Book Arts Jargonator




sexta-feira, maio 16, 2008

Almoço




Na mesa coberta
com papel,
uma lâmpada de
molho verde à espera
de um comensal tardio,
posso muito bem ser eu,
inclino-me sobre a mesa
com o joelho pousado
na cadeira indolente
pelo menos assim me
achei no momento
seguinte

esfrego a lâmpada
vuush! três geniais carapaus
rasgam o ar,
concedendo-me
três desejos

respiro fundo,
não saio daqui tão cedo

quinta-feira, maio 15, 2008

Nails


Deve ler e estar familiarizado
com a Política “Direitos de
Propriedade Intelectual”.
Se tiver dúvidas, consulte o Dep. Legal da
empresa onde reside e procria.

E assim fiz:

"M. Herde, ainda vá que não vá,
tem uma capa glossy, bonita,
lê-se num instante, 45 minutos
para a I parte, 45 min para a II.
Agora, Cavafy? Bzzzzz
A _________ tem a responsabilidade de

proteger a privacidade e a segurança
dos seus clientes. Isto é
absolutamente obrigatório.
A Cavafy Potros, Garranos S.A.

é um cliente-chave, esqueça esse Cavafy,
está fora de questão, intolerável.
Esperamos que você,
como funcionário da empresa,
actue com honestidade e
integridade na execução dos seus deveres."


E assim fiz.
Gosto de sapos.

quarta-feira, maio 14, 2008

Japão no Porto em Maio


"Primavera Tardia" (1949), de YASUJIRO OZU
Ozu, Kurosawa e os grandes mestres japoneses da 7ª arte no Porto.

segunda-feira, maio 12, 2008

O capelão e a noviça


Tamara de Lempicka

O capelão despiu o hábito carcomido para dar de beber à noviça que chegara ontem à noite de Navarra:
- Vês este tracejado no bico desta jarra?
- Sim.
- Mata a tua sede, não te faças rogada.
- Mas estou de vigília, tenho de comunicar à madre...
O capelão largou uma violenta gargalhada que ecoou pelo claustro fora.
- A madre superiora recolhe-se sempre durante três dias depois de uma galopada abençoada. Só assim se explica tantos anos de devoção e amor.
- Oh! Minha santa Madre...
- Eu sou um mero sabre de Deus, minha filha, apago as fráguas da carne com a minha velha jarra. E agora bebe.

quarta-feira, maio 07, 2008

Rabo de Palha

João Rabo de Palha via todos os dias a sua caixa de correio. Gostava de a contemplar, era dos poucos prazeres que tinha. Ninguém (no seu perfeito juízo) sabe as surpresas ou dissabores que uma caixa de correio pode encerrar. Creio não exagerar se afirmar que Rabo de Palha era tão temerário como uma galinha e, por isso, mantinha sempre uma distância de segurança, não vá o diabo tecê-las. O diabo é um tecelão especializado de 1ª e não perde uma oportunidade para mostrar os seus galões. No Reino Unido, um galão equivale a oito pintos (pints) e usa-se para tudo, excepto para pedir um copo de café com leite. Rabo bebe sempre um copo de leite com uma colher de açúcar antes de se deitar. Como quase toda a gente sabe, o leite não carece de açúcar. Rabo também sabia isto, mas sabia-lhe melhor assim. Haverá coisas piores. Chegara finalmente o dia que iria mudar a sua vida. "A.C, antes do correio e D.C., depois do correio", como ele dizia, entre risadinhas mudas. Após um dia de trabalho, deteve-se na entrada do seu prédio. Aproximou-se da caixa com toda a cautela, fez pontaria com a pequena chave e abriu-a cheio de determinação e de sarrabulho no bandulho. Uma carta. Rabo sentiu as carótidas a pulsarem-lhe no pescoço. Ainda com a mão a tremer retirou a missiva. Era da infame Gestão do Condomínio. Cerrou os olhos e ficou logo com a boca seca. As prezadas leitoras podem agora sentar-se, pois vou revelar-vos mais uma inconfidência do nosso herói. Sempre que João Rabo de Palha experimentava algo parecido com a desolação, punha um ovo. Não podia evitá-lo, era uma particularidade involuntária que o acompanhava desde tenra idade. Tentou todas as curas, consultou vários especialistas, obteve segundos, terceiros, quartos pareceres, ingeriu as mais coloridas soluções, xaropes, beberagens, aplicou emplastros e unguentos, fez dietas e sangrias violentas e nada. Até que um dia Rabo lembrou-se de converter as suas capacidades ovíparas num ofício rentável.

Subiu para o seu apartamento e não voltou a por os pés na rua nesse dia. Na manhã seguinte, João Rabo de Palha amarrou uma fita púrpura-selvagem na cabeça e dirigiu-se a pé para o aviário, como era habitual.

terça-feira, maio 06, 2008

Escuta





Isto_______tenho
não_______ tenho um pulgão na orelha
é_________ (não consigo ouvir-te)






um__________tens uma grande rã esfomeada na boca
teste:::::::::::::::::::(tem dó)



de gravidez:______essa tua rã deveria
positivo:merde!!!!!!!esticar a língua e
negativo:reste-là __devorar o meu pulgão

(e lamber-me a fronte quente
para evitar afrontamentos)



Atentamente,
P.A.

segunda-feira, maio 05, 2008

Bed-glued blues haikus




a black ceiling
cat's drinking
lazy moisture drops

a dazzling a.m.
waiting for my turn
to get up

my fishy breath
take no prisoner
no quarter

high-heels from above
over my head
oh damned be!

a white frog
kills the flies
oh blessed be!

Sunday
I got out to pray
to the Lord

to tar-and-feather
the lady
to kill stormy Monday.

sexta-feira, maio 02, 2008

Três pastorinhos

Cansados de percorrer tantas léguas, um casal de romeiros de aljustrel concebem a concepção de não um, não dois, mas três pastorinhos divino-receptores. Maria faz os últimos preparativos: lê as didascálias, escolhe o guarda-roupa e recebe as coordenadas do lugarejo da aparição. Maria sempre gostou de dançar com o sol. O dia do evento ainda está por definir.

terça-feira, abril 29, 2008

Viver na média

Quando alguém tenta ligar uma sirene, soar o alarme, todos ignoram ou tentam abafar esse alguém - pelo menos, numa fase inicial. Tudo por causa desta valente média. Quando alguém mais resiliente, que não se deixa absorver pela média (como, por exemplo, uma mula teimosa, devoradora de cenouras, que não quer trabalhar), está, no fundo, cheio de médias, tenta refazer algo e deseja definir-se no meio desta grande média. Trocadilhos à parte, apenas um número muito restrito de mulas consegue efectivamente sair da média.

segunda-feira, abril 28, 2008

quinta-feira, abril 24, 2008


Roberto Maldonado

- O cafezinho está bom assim sr. Maldonado? Ou quer que encha mais um bocadinho?
Todos cediam a vez a Roberto Maldonado e recuavam sempre que aquela figura vestida de negro da cabeça aos pés se dirigia ao balcão com passos firmes. Maldonado tomava o seu café matinal na cafetaria das Urgências. Além deste seu vício ser significativamente mais barato no hospital, a sua visita permitia-lhe realizar uma prospecção de mercado, estudar a potencial mercadoria. Era bastante eficiente naquilo que fazia, os longos anos de ofício deram-lhe um olho clínico (se é que me permitem a expressão) para casos crónicos e terminais. Apresentava-se diligente aos familiares e entregava o seu cartão em papel fotográfico com o nome em letras douradas.


Roberto Maldonado
Funerais, Cremações, Transladações

O Seu Barqueiro neste Mundo

O olhar perscrutante de Maldonado despia a alma dos pobres diabos naquelas horas de aflição. Até os médicos, besuntados de sangue e de incúria e anestesiados com aquele sofrimento em série, punham-se em sentido na presença do cangalheiro. A sua expressão iluminava-se quando detectava pacientes com pés grandes - sintoma de morte certa. Esfregava discretamente as mãos para, em seguida, retirar um caderninho vermelho do bolso interior da jaqueta. Os que ainda não tinham recebido visitas poderiam, numa única manhã, ocupar duas páginas sem grande esforço. No rol dos condenados a médio/longo prazo, incluía as visitas das visitas que, aparentemente, mostravam preocupação, mas, que, na realidade, escondiam alguma moléstia fatal ou sofriam uma agonia silenciosa e negociavam com Deus a sua permanência neste mundo. Desprezava os teatrais, os acossados por uma súbita cegueira ou torrencial caganeira. Amaldiçoava-os ferozmente, pois sabia que iriam ter uma vida longa pela frente. Por outro lado, sempre fora solidário com órfãos de tenra idade cujos pais tinham sido vítimas mortais de terríveis acidentes, prontificando-se de imediato para oferecer os seus serviços à família que ainda lhes restava.
- Vão ser homens e mulheres inabaláveis, de têmpera! - dizia-lhes. Nada têm a perder a partir deste instante.

quarta-feira, abril 23, 2008

quinta-feira, abril 17, 2008

As informações contidas neste blogue estão sujeitas a alterações sem aviso prévio.

terça-feira, abril 15, 2008



I

não passarás por esta porta
envidraçada

as arestas cortantes desta porta
coçam a bainha das minhas calças,
o inevitável descasque das bainhas

8:32h ontem
8:33h hoje
33:08h amanhã

trasfega atrás de trasfega


II

e agora entram deus e
woody allen em cena,
porque não

deus ouve um transistor
do antigo testamento
com muita estática
e acena com a cabeça
a woody mas
deus não ouve woody

que falta de decoro
a omnipotência
em frequência moderada

por isso,
e apenas por isso,
é usual ver woody
a lavar as suas mãos delicadas
nas fontes de nova iorque.

sábado, abril 12, 2008


John Currin

sexta-feira, abril 11, 2008

Como matar um poeta-oráculo

Se honras pai e mãe e possuis um altar de Freud no teu quarto, ignora esta mensagem - não és senhor de ti nem mereces sê-lo. Se fores filho bastardo de um bastardo e fores acossado por insónias de meia estação, poderás ser um Caçador e deverás proceder do seguinte modo: recorta uma imagem recente do poeta-oráculo e guarda-a na tua carteira durante os dez dias que antecedem o solstício de Inverno. No dia do solstício, convoca um coro de meninos da casta dos Xátrias (estuda o seu histórico médico com minúcia, não poderá haver registos de nados-mortos na família). Coloca uma rola no ombro esquerdo e um corvo com uma moeda de cobre no bico no ombro direito de cada rapaz. Pede-lhes para cantar a ladainha miserável do poeta-oráculo. Compra um espelho oval Luís XIV e faz o juramento solene com uma mão em cima da Bíblia em frente ao espelho. Rasga a fotografia em pedacinhos na presença das tuas noivas. Se executares correctamente estas instruções, o poeta irá morrer na mais pura agonia. Lembra-te que o poeta-oráculo é extremamente ditoso: ainda tem tempo para exalar um soneto imortal - tudo tem o seu preço. Os seus pares caras-de-cü irão choramingar o desaparecimento de tamanho vulto, etc. Envia cartões de felicitações de papel reciclado à família e à sociedade de autores s.a.. Brinda com genebra ao lado das tuas noivas. Espalha grandes borboletas felpudas pelo teu quarto e faz amor nessa noite.

segunda-feira, abril 07, 2008

O velho ditador

O velho ditador, desgastado e moído com tanta perfídia e sede de democracia, resolveu encaixar um peacemaker no peito. Em vez de rodá-lo no sentido dos ponteiros do relógio, rodou-o no sentido inverso ao dos ponteiros do relógio. Deus cheirou-lhe o sangue à distância, extraiu-lhe habilmente a Ira e deduziu dois dias santos ao povo. O povo, encabeçado por antigos Batedores do Regime, fez a revolução e, na extinta véspera de Natal, linchou o velho ditador e todas as suas amantes. Como poderiam saber que o velho ditador já estava morto há muito tempo.



Recebo quinzenalmente uma carta cordial do meu Saltibanco - o Banco com a melhor taxa Spread Your Love do mercado - com o extracto e os movimentos que são efectivamente da minha conta. O meu saldo "pathos" está negativo - aliás, sempre esteve desde que a conta foi concebida pelo meu competentíssimo gestor de conta. O tipo faz-me lembrar o Philip Larkin e tudo indica que simpatiza comigo, não sei dizer-vos porquê. Estou. Estou em condições de vos informar que vamos receber a curto prazo poemas monótonos em vez dos úteis recibos emitidos pelos multibancos.
Hum. Aborreço-vos. Sou o eterno candidato da Disfuncionalidade mas, se tudo correr como planeado, serei eleito na segunda volta. Vou agora dormir e sonhar com o Evel Knievel
.

quinta-feira, abril 03, 2008

terça-feira, abril 01, 2008

Exercício de Hiper-Ficção


"Space Race", James Jean

2039

36 de Setoubro - Uma bula confirma a Canonização de Pinto da Costa, até então considerado protosanto popular. O corpo é transladado para a nova Basílica do antigo lugar das Antas (actual Área 61) e exposto aos fiéis em perfeito estado de conservação. Morre o ex-Presidente da Nova República, Francisco Louçã.

01 de Outovembro - S. Pinto da Costa é eleito Santo Padroeiro da cidade do Porto. Novo ataque do grupo terrorista neo-sarraceno, Atlas Alah, ao estado autónomo do Allgarve. O Código Civil reconhece o matrimónio triconjugal.

03 de Outovembro - Eliminação definitiva de todos os registos físicos e virtuais do mega-processo Apito Dourado. A Piedade é considerada um pecado mortal. Morre o último macho da espécie Canis lupus familiaris (cão doméstico).

35 de Dezembro - Início da reevangelização da Madeira. O túmulo de A. J. Jardim é profanado por jovens missionários radicais. O escritor e criador do movimento ruminista Pedro Amaral é galardoado com os prémios Nobel da Literatura e da Patafísica.
L'Urlo Negro
Mondo Cane, Michael Patonne

domingo, março 30, 2008

Mónaco



A grande fonte de divisas do Mónaco não é, ao contrário do que se pensa, o jogo ou o turismo. A base da economia monegasca assenta no fabrico e exportação de velas eléctricas para igrejas. A União faz vista grossa a este comércio paralelo que ilude os fiéis devotos do mundo católico desde que foi introduzido nos anos 60 por Grace Kelly, a Libidinosa. Hoje, crianças francesas e italianas (enjeitadas do "Grande" Circo de Montecarlo) montam as velas em condições desumanas em porões de iates e subcaves de prédios faustosos. Alberto já demonstrou publicamente a sua preocupação e lamenta os actos reprováveis de sua mãe:
- A sua fixação por velas e círios levou-a longe demais. Mas continuo a amá-la enquanto actriz.

quinta-feira, março 27, 2008

Como matar um cowboy-diva

Macerar o corpo em cima de um cadafalso isabelino e obliterá-lo solicitando a ajuda de 1 )um( Técnico de Matadouro de 1ª credenciado. A respectiva consorte deverá peneirar então todas as areias e grânulos e restantes paródias e neuroses. Certificar-se de que a operação inversa é executada adequadamente. Em caso de coincidência divina gratuita ou ataques-strob intricados_reorientados, aguardar pacientemente dez anos, não mais. Colocar sal nas entranhas. Transladar os restos mortais para Danzig e aplicar todos os passos da Ilusão Suícida de Plath: Jogos de setembros e jogos de opostos. Envenamento por Decarameron. Se necessário, afogar todos os descendentes de Sísifo, seus amigos e irmãos de sangue - não olhar a meios - não olhar. Delinear atempadamente estratégias para espantar prussianos disfarçados de corvos.
Pedir a factura no fim ao Técnico.

terça-feira, março 25, 2008

Necrosyrtes monachus




desde que recolheram a velha dos semáforos

há menos acidentes no cruzamento

os dois abutres empoleirados

no espelho convexo tiveram de migrar

a quercus fez queixa da autarquia

o presidente lamenta profundamente o sucedido

mandou-se chamar outra vez

a velha mas a velha morreu

chamou-se então um tóxico

algemado a um realejo

em estado terminal

(sejamos sérios -
não facilitemos).

quinta-feira, março 20, 2008

at the Starbucks

Mr Muffin: Oh my God, I can't believe it!
Miss Butter: Wha..?! Oh my God!
Mr Muffin: Ooh! B, is that really you?
Miss Butter: I certainly am!
Mr Muffin: No way, get out here!
Miss Butter: Yeah, the years were kind to you.
Mr Muffin: And you? You're still a doll!
Miss Butter: Oh my God.
Mr Muffin: Heya, care for a cup of coffee?!

eu tenho um sonho



eu tenho um sonho

eu tenho um sonho que esta nação jamais se levantará antes das três horas da tarde
eu tenho um sonho que, um dia, nas planícies torradas do alentejo, croupiers e jogadores se sentarão à sombra do mesmo chaparro
eu tenho um sonho que, até mesmo no vale do Douro, se falará galaico-português e o vinho escorrerá das torneiras e jorrará das fontes
eu tenho um sonho que os pequenos quatro bastardos venham a conhecer um dia o seu pai
eu tenho um sonho que, no futuro, todos os cristos, aspiradores e salazares sejam iguais

eu tenho um sonho
livre afinal, livre afinal.

segunda-feira, março 17, 2008

Michaux e o manequim

Michaux levava consigo o manequim para todo o lado. Vestia-o de sombras e punha-o no alto de uma pedra ou de um muro e escrevia-a sobre aquilo que via. O seu pai era avesso a mudanças e passou-lhe o gene sem grande esforço. Abalava de madrugada das pensões ou dos abrigos e, antes do sol nascer, já o viam montado no seu bardoto temperamental com o manequim atravessado no dorso do animal, sem destino resolvido. Interrompia invariavelmente a jornada às 13:05h. Antes de se apear, consultava maquinalmente o relógio de bolso e, de seguida, olhava em redor como que a despertar daquele torpor cambaleante. Posicionava então o manequim, afastava-se meia dúzia de passos e sentava-se para dar início à escrita. Há catorze anos que escrevia as mesmas linhas em sebentas coçadas, decalcando até à exaustão o dia em que experimentou o amor carnal, descrevendo em contornos febris o corpo mutilado que o acompanhava ao longo dos anos. Acreditava que escrevia "a quatro mãos" e que o destino das palavras não dependia de si, mas da obstinação indomável do velho manequim.
No início de uma tarde turva, Michaux ousou introduzir no seu caderno a cor estonteante, o cirandar hipnótico das sombrinhas das senhoras que passeavam coquetes no Campo de Marte em tardes melancólicas. Michaux desprezou as recomendações do taberneiro: o vinho da região era selvagem e inclemente. Ainda concebeu apagar as linhas inéditas, mas "não, hoje não!".
Aquartelou-se numa pensão de má fama frequentada por pequenos burgueses remediados e morreu em crónico détresse lírico nessa mesma noite.

In between these days, I have some Monsters In The Parasol.

sexta-feira, março 14, 2008

Poesia e Balística

Trajetória, impacto, marcas, Física, perfuração, explosão, devastação, projéctil, pólvora, fumaça, percussão, ricochete, resíduo, disparo. Poesia é Balística. O poeta é o criminoso, o leitor é a vítima, o crítico é o perito forense.

terça-feira, março 11, 2008

Na república popular do meu quarto


Rembrandt


na república popular do meu
quarto arranca o turno da noite, os
santos estivadores repõem os
dedos da minha infância que se
espalham pelo parquet riscado,
descarregam desastrados os
olhos inquiridores da
minha avó aos pés da cama,
sustêm a respiração enquanto
pegam em mim e viram o
meu corpo amarrado.


o gato observa tudo isto

incrédulo - segue-os até à
cozinha como um aligator,
como um vivace de Bach.




F. Hodler


Tenho uma, talvez duas
coisas a confessar

Tenho também
63 pessoas
à minha frente

Vou ter
de esperar.

domingo, março 09, 2008

O corredor



Era-lhe cada vez mais penoso ir do quarto à casa de banho a meio da noite. O corredor aumentara seguramente uns bons 10 metros desde o dia em que se casaram. E o regresso era sempre pior, a maçar.
Na manhã seguinte, pediu-lhe o divórcio na cama, acompanhado de café e torradas.

sábado, março 08, 2008

(...) A paisagem em nosso redor afigura-se cada vez mais estranha. E esta canícula! Há já dois dias que não tenho uma gota de água no cantil! Felizmente fomos achados por um fio de água tímido que brotava da rocha. Foi uma dádiva divina, um pleno milagre nestas paragens. Deus prolonga o nosso sofrimento para depois saciar as nossas necessidades quando já estamos no limite das nossas forças. É um truque deveras simples e muito pouco virtuoso, não concordas? Mahmud bebe como os antílopes, com os olhos sempre virados para diante, e não aparentava ter muita sede. Já o apanhei a lamber o suor das palmas das mãos e da parte interior do braços enquanto caminha - ... Consigo ouvir-te, meu amigo: tenho de subtrair alguns dos meus caprichos europeus se desejo realmente chegar ao meu destino. (...)

P.A.

terça-feira, março 04, 2008

mulheres sem sombra





sou retocável e
às vezes mulher
às vezes pavão
às vezes um torso de
Matisse
às vezes pega cubana
às vezes crisálida
um dia hei-de
reconhecer-me

borboleta do nada
sob calor de julho

o tempo é um homem
que me mendiga e
fecha a porta
na minha cara
devagar

Antologia de Micro Ficção - Exodus



Felicitações e obrigado ao Rui Costa e ao Henrique Fialho, e um agradecimento muito especial ao Rui M. Amaral.

segunda-feira, março 03, 2008

O senhor Seravat


O senhor Seravat, conceituado escritor e relatador desportivo, respeitado entre os seus pares e venerado pelo seu ímpar círculo de amigos, levou seis microcontos na testa. As causas do acidente estão ainda por apurar mas especula-se que estejam relacionadas com a queda de um regador de escrita criativa sobre Trinidad e Tobago.
O seu actual estado é reservado aos melhores entre os melhores.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

bedroom haiku

i have a messy closet
with a wasted mirror

your sleeping feathers.



três viúvas
postiças que nunca
desejaram ser v_____
foram a enterrar
com os olhos abertos

três oftalmologistas
sorridentes entregam-se
- de corpo e alma -
a prazeres cegos
surdos imundos

três argumentos
sem rimel esperam
frases muito ternas,
contendas ancestrais,
lágrimas de vinho

três sonâmbulos
cumprimentam-se
recitam "A Dama
das Camélias"
e seguem caminho:

- Notre-Dame-de-bonne-Garde et
tout aprés!


terça-feira, fevereiro 26, 2008



M. Gauguin,

Je vous en prie mon cher:
Retournez immédiatement svp. Les designers d'aujourd'hui sont très mauvais, très navrants. À ce moment, je peux payer votre ticket. Réfléchez-y bien. Salvador et ses amis sont morts.

À bientôt,
T.T.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008


(...) Chegamos por fim às terras da Capadócia. Estamos exaustos. Guardei algumas gomas de combate e estou pronto para me bater na linha da frente. Acordei com gotas da chuva que caíam pesadas sobre a tenda. Antes de metermos os pés ao caminho, Mahmud olhou para o céu e disse-me que Deus estava a lavar e bater as vestes dos monges e dos cantores sufi. A sua roupa também devia ser purificada.
- Caem então aguaceiros quentes nestas terras áridas que o dilúvio fustigou há muito, muito tempo - acrescentou sem nunca me dirigir o olhar.
Não me restam dúvidas, meu amigo: Mahmud é o turco mais estranho que já conheci. (...)


P.A.

O óscar, o pedro e o lobo

Estamos de parabéns!

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

A vendedora de cupidos


Joseph-Marie Vien

terça-feira, fevereiro 19, 2008

A Première

Todos batiam palmas na cara do espectador ao lado, Beckett passou com distinção na première. Cada um dos presentes viu a sua vida miserável a melhorar a olhos vistos, afinal era para isso que ali estavam. Contudo, e quando nada fazia prever, um dos jovens actores deu três passos à frente, pediu silêncio com as mãos no ar e bradou:
- Cavalheiros! Queria apenas dizer-vos que sois uns símios encasacados! E vós, minhas senhoras, não passam de uns camafeus! Qual de vós é que gostou realmente desta estrumeira que tive a infelicidade de representar?!
Redobrou o silêncio na sala. A seguir, virou-lhes as costas e baixou as calças, exibindo o alvo e orgulhoso traseiro. De súbito, todos se levantaram como se tivessam molas nos bancos e urraram, atirando os chapéus e os filhinhos ao ar. Num dos camarotes de primeira ordem, o cônsul, que tinha acordado em sobressalto, tentava perceber o que se passava em seu redor. O juíz desembargador, seu estimado amigo, estava atrás de si a lamber o pescoço da sua mulher que ainda estava impregnada com os restos das emoções projectadas pela peça.
-...Sua galdéria!...mas ele é meu, ouviste? Só meu! - vociferou o cônsul, meio incrédulo, meio inconsolável.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008


I truly miss Mariah. In fact, I have this Final Fantasy with her.

Willem de Kooning

é certo e sabido
que naquele Lar
doce Lar
a Morte só
vinha depois
das três

ali, porém,
sentada
à janela do quarto 12
a velha excedentária
estaria protegida -

poderia viver
em paz


sábado, fevereiro 09, 2008


Christian Schad

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

O Mestre Cremador

Antes de se levantar de manhã, o Mestre Cremador dorme a noite toda no seu pequeno quarto. Ajeita o travesseiro com umas mimosas palmadinhas e, pouco antes de adormecer, deixa cair um volumoso livro no chão num perfeito V invertido, cuja leitura arrasta penosamente durante três meses e duas semanas. Lamenta-se, desde então, por ter levado a cabo tal compra, encolhendo resignadamente os ombros caídos sempre que vira uma página. Olha-se sem resíduos de pudor ao espelho e prepara-se para aparar a barbicha grisalha. Aproxima-se da imagem reflectida e arqueia a espessa sobrancelha do olho direito com particular sobranceria. Sabe que ainda tem fortes motivos para gostar daquilo que vê. Bebe um copo de cognac enquanto afaga o dorso de Franco (Mestre gosta de pensar que Franco é seu, mas, como toda a gente sabe, os gatos não têm dono e os donos não têm donos). Às vezes, bebe dois copos. Folheia, distraído, o Diário de _.________, demorando sempre algum tempo na Necrologia, " Este tinha a pele grossa como lixa, mas arrumei-o bem". Abre a porta que o saúda com um chio, tira o velho sobretudo e sacode-o vigorosamente. Franco enrosca-se nas suas pernas. Sobe os três lanços de escadas e pára a meio para ganhar fôlego. Sente-se patético e encara o vitral em losangos coloridos do elevador. Não confia em elevadores e sempre soube que os elevadores não confiavam em ninguém.

A musa inspira o poeta


Henri Rousseau

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Gostaria de ter estômago para dirigir críticas grosseiras e censuráveis aos meus textos blogordinários, em regime de anonimato. Ou então parir comentadores heterónimos a partir da minha mater. Já tentei e simplesmente não consigo. O meu subsconsciente (ou serão as musas) emite sinais intermitentes que não sei interpretar: serão sintoma de uma lamentável rectidão ou de escassez imaginativa? Entre um sinal e outro, agarro transversalmente no inaceitável e tento explorá-lo. Nada. Nada igual a nada. Por outro lado, há a questão estética da coisa: sou aquilo a que as senhoras da idade da minha mãe chamam de "um homem bonito" e isso inibe-me dramaticamente. Vocês nem fazem ideia. No fundo, sou um vaidoso da pior espécie. Tenho espelhos em casa.

domingo, fevereiro 03, 2008


Raoul Hausmann

chegara o dia
iria ser homenageado
com alguma pompa
e circunstância:
" Guardem-no para
quem o merece, isto foi
demasiado fácil"

foi muito rude
fez esperar o júri e
os leitores e os media
que nunca deixaram de
o acariciar

(às portas da vida)
e para despesas de conversa
acabaria por confessar:
"foi muito rude
da minha parte
mas compreendam
teria de me retocar todos
os dias, embebedar-me todas
as noites para dançar
como a ginger rogers,
ser frívolo e encantador

teria

de viver
alguns
centímetros
acima dos outros
homens."


quinta-feira, janeiro 31, 2008

O teu dia útil


Anton van Dalen

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Diário de Valentina Tereshkova


_____________suponho meu pai

que em todos os cargos
e funções há altos e
baixos o comité foi bastante
generoso
este capacete
reluzente protege-me do passado e
de futuros

dissidentes

____________assumo meu pai

que queiram algo em troca porque nós
os russos não sabemos pensar de outra
forma somos nós de uma grande corda
robusta que jamais irá rebentar a Dialéctica
congela no solo da nossa pátria

___________e agora olha meu pai

o vento negro do
Báltico leva aquela frágil escuna
para Leninegrado que irá
bebê-la como um
Alka Seltzer os filhos dos teus
jovens soldados de Komi dormem
com uma rosa na boca iluminados
por candeeiros a gás até
o hálito tem
de estar
sincronizado para
a minha recepção
em glória

sábado, janeiro 26, 2008

FNM en Nulle Part Ailleurs
(
smiling with the mouth of the ocean)

David Ruhlman

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Lixo


O televisionado lixo de Nápoles catalisou uma pulsão sem precedentes no subsecretário da cultura. Largou de imediato o dossier e pediu para lhe ligarem com o sottosegretario homólogo, com a máxima urgência. De repente, baixou o auscultador: "Hum, não nos precipitemos...e as pústulas, as infecções, o mal-napolitano? Ah, que se lixe. O primeiro aprovará decerto, e amanhã, se for preciso! Um aterro cultural, é de génio, menino! De génio!".

sexta-feira, janeiro 18, 2008

quinta-feira, janeiro 17, 2008



- Muito bem. Agora a primeira linha pf.

The Gooseneck Laundry



dormem lado a lado
embalados pela
centrifugação
ou pela voz rouca
do sem-abrigo negro
que prolonga os
evangelhos
pela noite
dentro

o segredo mais
bem guardado
do Novo Mundo -

as lavandarias
chinesas
mantêm o povo
americano
cheiroso e unido.