O Hakentram* passava invariavelmente às 7:10 h na praça central. Desde o fim da guerra que era utilizado para transportar a carne do matadouro para o mercado, atravessando toda a cidade. Os únicos utentes que pareciam não se importar com as carcaças eram alguns velhos-hienas e antigos soldados agora reabilitados em operários metalúrgicos de turnos. A prostituta noviça é a última a descer enquanto separa o dinheiro para pagar a renda ao irmão do seu pai.
*Hakentram: Tram (eléctrico) dos ganchos
segunda-feira, agosto 04, 2008
quarta-feira, julho 30, 2008
De madrugada
evita
o contacto visual
com agentes em operações stop
são ex-dramaturgos fardados
criaturas sem sexo
que procuram a todo o custo
a musa Ment no teu semblante
de terror
se fores um deles
ou pior ainda
um poeta assexuado
sai do carro
atravessa a rotunda
foge a quatro patas
ser-te-á dado
um avanço de
alguns metros
para depois te
abaterem com uma
shotsong de revista
pensa naquilo
que jesus superstar
faria se estivesse
no teu lugar
o contacto visual
com agentes em operações stop
são ex-dramaturgos fardados
criaturas sem sexo
que procuram a todo o custo
a musa Ment no teu semblante
de terror
se fores um deles
ou pior ainda
um poeta assexuado
sai do carro
atravessa a rotunda
foge a quatro patas
ser-te-á dado
um avanço de
alguns metros
para depois te
abaterem com uma
shotsong de revista
pensa naquilo
que jesus superstar
faria se estivesse
no teu lugar
sábado, julho 26, 2008
O criado do rei, o rei e o espelho

O criado do rei limpava o magnífico espelho que ocupava quase uma parede dos faustosos aposentos reais. Ao longo de vinte anos e um quarto crescente, seu pai notabilizara-se neste ofício ao serviço do velho rei. Como era costume, e se o bom Deus assim o permitisse, o filho iria seguir as mesmas pisadas do pai. No momento seguinte, eis que o rei irrompe pelo quarto adentro agarrado à duquesa de Jaccuse-y, sua favorita dos dias ímpares, que se deixa agarrar com muito saber e algum prazer. O criado vê o reflexo distorcido do rei e começa a limpar de modo mais veemente a superfície acinzentada do espelho. O rei indigna-se, deixa Jaccuse-y alguns passos atrás e interpela o súbdito:
- Tu aí! Não saúdas o teu Rei?!
O criado volta-se, faz uma longa vénia e com os olhos sempre postos nos sapatos carmins do rei responde:
- Majestade! Amo tanto Vossa Majestade que humildemente me arroguei a polir ainda mais a vossa imponente e bela figura reflectida neste espelho atrás de mim. Foi a única maneira que este seu simples súbdito encontrou de vos prestar homenagem e admiração. Mil vezes perdão, Majestade.
O rei, comovido com tamanha dedicação à sua real e abundante figura, levou a mão pálida ao peito insuflado e proferiu as seguintes palavras de costas voltadas para o criado:
- Pois hoje será o último dia que limpas esse espelho, criado. Ordenamos-te que te vires e continues a limpá-lo com igual zelo enquanto o teu rei estiver no leito com sua senhoria, a duquesa. Apresenta-te amanhã no nosso gabinete. Iremos nomear-te moço de câmara.
quinta-feira, julho 24, 2008

Sergio Mora
De onde eu venho, estrangeiro, os mancebos usam um véu que é passado de pais para filhos e não há homens feios nem homens belos: todos são iguais aos olhos do nosso deus. A paixão e o tédio devem ser evitados a todo o custo e a cópula é consumada apenas para garantir descendência: o pai do mancebo deverá estar presente no acto para abençoar o casal. Ter um filho é sempre uma benção e ter um pai casto e que trate da prole é uma benção ainda maior. Em casos de adultério ou de luxúria, o véu é queimado e a genitália do adúltero é esfoliada com tojo e pedras de sal grosso pelos membros mais velhos do conselho. Os votos do matrimónio são renovados ao fim de seis meses ao longo da vida. O sémen libertado, que deverá ser sempre em grande abundância, servirá de adubo para as colheitas da aldeia.
Fala-me agora um pouco sobre teus costumes, estrangeiro.
quarta-feira, julho 23, 2008
O alce
segunda-feira, julho 21, 2008
O Vendedor de Esporas
- Quanto? Creio que não entendi bem.
- Por ser para si, minha cara senhora, leva um par de esporas por uns míseros 130 Cruéis. E não se fala mais nisso!
Slaaam! A mulher bateu a porta com tal violência que o pobre vendedor não teve tempo para esboçar sequer um gesto. Gassiot virou-se e desceu o único degrau do alpendre, pousou no sintéctico a velha maleta, companheira de milhares de quilómetros terrestres e do dobro dos insucessos, olhou para a constelação de Crânio de Vsulatte durante cerca de dez barbhas* e foi um ar que se lhe deu: desatou a correr pela alameda das Mandíbulas como um sprinter desalmado, com a língua vermelhusca de fora como os extintos coiotes, deixando cair esporas dos bolsos pelo caminho. Alguns colonos abanavam com a cabeça em sinal de reprovação, outros recolhiam as esporas do chão, enquanto outros riam trocistas. Logo atrás de Gassiot, formou-se um pelotão de crianças aos berros e de schoppencanis que largavam pequenos grânulos pastosos altamente corrosivos, muito semelhantes às caganitas de ratos-alados ou pombos sagrados.
Quando finalmente parou na orla da Grande Floresta Virginal, apoiou-se com o braço num tronco viscoso para recuperar o fôlego. A pequena multidão de ocasião tinha ficado para trás. Sentou-se, meteu a cabeça entre as pernas com as mãos enlaçadas em cima da nuca. Gassiot começou a suspirar por belas barítonas de peitos roliços que poderia receber se a Fortuna o ajudasse a descobrir novos pontos cardeais. O Grão-Pai assistiu a tudo isto (incluindo naturalmente o sonho acordado de Gassiot) através do BioMonitor e iniciou oficialmente o seu sofrimento em silêncio, impotente.
*equivalente a 14,5 segundos em unidades temporais antigas
sexta-feira, julho 18, 2008
quinta-feira, julho 17, 2008
A praia
O Sal
-va-vidas
(O Pa
-pá fuma de pé
- fora do guarda
-sol e monitoriza
potenciais
estados de perigo
no extenso areal
A Ma
-mã grelha o farto peito,
bem oleado e acobreado,
ensina a criança a afastar-se
lentamente
A Cria
-nça e a bola
transformam-se numa
anénoma e num peixe-balão
lá no fundo do Mar)
hasteia a bandeira
multicolor
e beladormece.
-va-vidas
(O Pa
-pá fuma de pé
- fora do guarda
-sol e monitoriza
potenciais
estados de perigo
no extenso areal
A Ma
-mã grelha o farto peito,
bem oleado e acobreado,
ensina a criança a afastar-se
lentamente
A Cria
-nça e a bola
transformam-se numa
anénoma e num peixe-balão
lá no fundo do Mar)
hasteia a bandeira
multicolor
e beladormece.
Como Matar um Velho Bastardo por Trepanação

Volta atrás na tuas três últimas tomadas de decisão capitais. Exibe dramaticamente o teu arrependimento se um dos visados for um campeão de luta livre mongol. Antes de terminares, mantém-te imóvel por alguns segundos e deixa-o cheirar o teu cachaço encharcado em suor. Recorrendo à linguagem gestual, pergunta-lhe delicadamente se podes lavar-lhe os pés amarelos. Guarda um quartilho dessa água no teu cantil. Apanha o transiberiano, recolhe lascas de madeira fossilizada em todos os apeadeiros. Em Omsk, seduz e copula com a filha mais velha do bastardo mais rico da cidade. Ocupa um velho quarto na cidadela durante noventa dias e aprende a língua através de manuais de Anatomia do século XIX. Deves sair durante o crepúsculo e ingerir apenas carne vermelha, sementes de abóbora e água fervida. Por fim, o velho bastardo que sofre em silêncio mandará chamar-te à sua presença através da filha. A tua intervenção providencial acabará com o seu sofrimento fétido que empasta o ar da cidadela. Não esperes ser recompensado.
quinta-feira, julho 10, 2008
O embaixador das alpercatas

O embaixador das alpercatas ergueu a taça em direcção à luz macia que a fantástica clarabóia peneirava naquele fim de tarde e expeliu num tom meio blasé:
- O meu amigo sabe que não é preciso um grande esforço para ser um imbecil nesta encarnação. Você gatinha, tropeça, anda, corre e fornica. Ora onde está aqui a dificuldade? Você ri-se, porque o seu subconsciente lhe faz cócegas para rir. A partir da mais tenra idade, o nosso instinto de sobrevivência força-nos a agir sob o deus da mediocridade que a nossa populaça idolatra até ao caixão. Depois há vários níveis. Vai desde ao rubor das bochechas, ao peito insuflado, ao olhar bovino, são sintomas infalíveis, certeiros como a morte. Como o meu filho néscio, embotado, que ainda pede à mulher para lhe sacudir a gaita. E a sua matrona mãe, ex-carmelita, que pergunta todos os dias por ele como se estivesse nas colónias perdidas a combater. Imbecil até ao osso. Não saiu a mim! Arre que estou seco, mais uma golada (...). Hum. Você é aquele pequeno lagarto azul que trepa pela parede, está a ver? Ali, ali, homem.
Absolutamente a não perder
A Caravana continua a passar (em Guimarães, desta feita), o lobo uiva e os cães continuam a ladrar.
terça-feira, julho 08, 2008
Em Hotan, na província de Xinjiang, os rendeiros batem à porta de casas desabitadas. Acreditam que os espíritos não devem ser surpreendidos e, por isso, têm de ser avisados.
Os mais velhos ainda batem palmas antes de abandonarem a casa para que espíritos e objectos de culto tomem conhecimento da sua saída.
Igreja dos Discos Pedidos dos Últimos Dias

Os pré-requisitos de admissão consistem na perda gloriosa da Fé e no absoluto desprezo pelo Destino. Não sofrer de halitose é considerado um dom suplementar no momento da comunhão. A congregação foi fundada nos anos 20 por um bispo melómano. O "bispo" era o único habitante da povoação que possuia telefonia e telefone. Uma vez perguntaram-lhe o porquê da fundação da seita:
- Toda a minha vida andei com uma bomba ao colo como um bom penitente cristão. A minha vida era um grande meio-termo cinzento. Na manhã de uma Quinta-feira Santa, deixei cair a bomba por acidente e, em vez de chorar, comecei a cantar o "Trouble is a Man". Já não me lembro quem cantava esta música. Lágrimas de felicidade caíram-me pelo rosto e liguei a toda a gente que conhecia para apregoar a Boa Nova.
- Toda a minha vida andei com uma bomba ao colo como um bom penitente cristão. A minha vida era um grande meio-termo cinzento. Na manhã de uma Quinta-feira Santa, deixei cair a bomba por acidente e, em vez de chorar, comecei a cantar o "Trouble is a Man". Já não me lembro quem cantava esta música. Lágrimas de felicidade caíram-me pelo rosto e liguei a toda a gente que conhecia para apregoar a Boa Nova.
sábado, julho 05, 2008
Partilha
uma cabeça d'icterícia lança-me
um convite irrecusável
sobre o resguardo verde
de um mictório secular
resisto
ao apelo biológico
e armado em bom
sigo o meu caminho
o olhar aliviado
da cabeça
quando ouso olhar
para trás
inferniza-me
até casa
segunda-feira, junho 30, 2008
Génesis

Allegro Assai
trazia entre dentes
o Balde sagrado
repleto de coisas rosadas
e botões carnudos
em forma de G
que segregavam
fluidos lácteos, de
polpa quase virgem
Allegro sentou-se e
ficou a olhar
para o crucifixo
em cima da
cama de um deus
moribundo
se estivesse alguém
naquele quarto,
poderia jurar
a pés juntos
que deus esboçou
um sorriso.
Sorveu por uma
palha aquele soro
milagroso e espalhou
o resto pelo ar
ao contrário do que
videntes e
marionetas apregoam,
deus criou primeiro
a lua para se maquilhar -
"Tenho de me recompor
e criar a Terra e o resto"
ainda num estado
que suscitava algumas
reservas, levantou-se e
soprou o pó da lua.
A Terra brotou
com todo o seu vigor
paleolítico
no ar bafiento do
quarto
o balde tinha um
pequeno furo,
imperceptível ao olho
clínico de deus:
formou-se aos pés da cama
uma poça
esbranquiçada, polposa -
o berço-do-homem
ao contrário do que
abatinados e
astroiluminados afirmam
deus descansou
ao fim do primeiro dia.
trazia entre dentes
o Balde sagrado
repleto de coisas rosadas
e botões carnudos
em forma de G
que segregavam
fluidos lácteos, de
polpa quase virgem
Allegro sentou-se e
ficou a olhar
para o crucifixo
em cima da
cama de um deus
moribundo
se estivesse alguém
naquele quarto,
poderia jurar
a pés juntos
que deus esboçou
um sorriso.
Sorveu por uma
palha aquele soro
milagroso e espalhou
o resto pelo ar
ao contrário do que
videntes e
marionetas apregoam,
deus criou primeiro
a lua para se maquilhar -
"Tenho de me recompor
e criar a Terra e o resto"
ainda num estado
que suscitava algumas
reservas, levantou-se e
soprou o pó da lua.
A Terra brotou
com todo o seu vigor
paleolítico
no ar bafiento do
quarto
o balde tinha um
pequeno furo,
imperceptível ao olho
clínico de deus:
formou-se aos pés da cama
uma poça
esbranquiçada, polposa -
o berço-do-homem
ao contrário do que
abatinados e
astroiluminados afirmam
deus descansou
ao fim do primeiro dia.
sexta-feira, junho 27, 2008
Djuna
Djuna está sentada na velha poltrona que o pai incestuoso lhe deixara. A velha biblioteca esfumaçada pela boquilha é o seu casulo durante o dia. Aguarda fatalmente pela cantora que vai saciar os apelos inúteis da carne. Ainda em jejum, vê da longa janela orelhas, torsos, melenas, dentes projectados no céu sanguíneo pelo pôr-do-sol. Vê também o seu pai a cavalgar no ar uma carpa com cara de monge, seguido em baixo por um lobo furtivo com patas de carneiro. Um grupo de camponeses ajoelha-se, vomitam notas desafinadas com flautas enterradas no cu até ao Ré. De repente, batem à porta. Dionísio põe a língua de fora enquanto sodomiza cabras e virgens florentinas de olhos azuis, perto de um pequeno precipício. Santo Antão era o seu pai.
terça-feira, junho 24, 2008

quando me inclinei
para limpar a mostarda
que pingava do
bolso roto
vi na mancha amarela
uma jovem viúva que
declinou gentilmente
o convite para ir à ópera
não, o cavalheiro
não era eu mas alguém
muito parecido
comigo
um aeronauta
pouco hábil que
não pede indicações
quando está perdido
a mostarda foi criada por
Cristo na famosa fase
amarela Gourmet
segunda-feira, junho 23, 2008
As maiko mais novas
podem fazer estragos irreparáveis
nos jovens amantes que
esperam ser colhidos
da terra.
O ardor das mais viciosas
pode mesmo matar
os futuros companheiros
que as ajudarão
a ser geishas.
As mais velhas
humedecem o indicador
e o anelar na língua
das companheiras
para depois esgadanhar
a terra prenhe e escura.
Esperam pacientemente
que o sol se levante.
Sabem que
as árvores de sombra
leitosa guardam
os melhores amantes
debaixo das raízes.
Os velhos da aldeia
observam-nas
das colinas
com as lunetas telescópicas
que os nanbam-jin,
os «bárbaros do sul»,
deixaram na ilha
como prova
das suas boas intenções.
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