
segunda-feira, maio 19, 2008
sexta-feira, maio 16, 2008
Almoço

com papel,
uma lâmpada de
molho verde à espera
de um comensal tardio,
posso muito bem ser eu,
inclino-me sobre a mesa
com o joelho pousado
na cadeira indolente
pelo menos assim me
achei no momento
seguinte
esfrego a lâmpada
vuush! três geniais carapaus
rasgam o ar,
concedendo-me
três desejos
respiro fundo,
não saio daqui tão cedo
quinta-feira, maio 15, 2008
com a Política “Direitos de
Propriedade Intelectual”.
Se tiver dúvidas, consulte o Dep. Legal da
empresa onde reside e procria.
E assim fiz:
"M. Herde, ainda vá que não vá,
tem uma capa glossy, bonita,
lê-se num instante, 45 minutos
para a I parte, 45 min para a II.
Agora, Cavafy? Bzzzzz
A _________ tem a responsabilidade de
proteger a privacidade e a segurança
dos seus clientes. Isto é
absolutamente obrigatório.
A Cavafy Potros, Garranos S.A.
é um cliente-chave, esqueça esse Cavafy,
está fora de questão, intolerável.
Esperamos que você,
como funcionário da empresa,
actue com honestidade e
integridade na execução dos seus deveres."
E assim fiz.
Gosto de sapos.
quarta-feira, maio 14, 2008
Japão no Porto em Maio

segunda-feira, maio 12, 2008
O capelão e a noviça

Tamara de Lempicka
O capelão despiu o hábito carcomido para dar de beber à noviça que chegara ontem à noite de Navarra:
- Vês este tracejado no bico desta jarra?
- Sim.
- Mata a tua sede, não te faças rogada.
- Mas estou de vigília, tenho de comunicar à madre...
O capelão largou uma violenta gargalhada que ecoou pelo claustro fora.
- A madre superiora recolhe-se sempre durante três dias depois de uma galopada abençoada. Só assim se explica tantos anos de devoção e amor.
- Oh! Minha santa Madre...
- Eu sou um mero sabre de Deus, minha filha, apago as fráguas da carne com a minha velha jarra. E agora bebe.
quarta-feira, maio 07, 2008
Rabo de Palha
Subiu para o seu apartamento e não voltou a por os pés na rua nesse dia. Na manhã seguinte, João Rabo de Palha amarrou uma fita púrpura-selvagem na cabeça e dirigiu-se a pé para o aviário, como era habitual.
terça-feira, maio 06, 2008
Isto_______tenho
não_______ tenho um pulgão na orelha
é_________ (não consigo ouvir-te)
um__________tens uma grande rã esfomeada na boca
teste:::::::::::::::::::(tem dó)
de gravidez:______essa tua rã deveria
positivo:merde!!!!!!!esticar a língua e
negativo:reste-là __devorar o meu pulgão
(e lamber-me a fronte quente
para evitar afrontamentos)
Atentamente,
P.A.
segunda-feira, maio 05, 2008
Bed-glued blues haikus

sexta-feira, maio 02, 2008
Três pastorinhos
terça-feira, abril 29, 2008
Viver na média
segunda-feira, abril 28, 2008
quinta-feira, abril 24, 2008
Roberto Maldonado
Todos cediam a vez a Roberto Maldonado e recuavam sempre que aquela figura vestida de negro da cabeça aos pés se dirigia ao balcão com passos firmes. Maldonado tomava o seu café matinal na cafetaria das Urgências. Além deste seu vício ser significativamente mais barato no hospital, a sua visita permitia-lhe realizar uma prospecção de mercado, estudar a potencial mercadoria. Era bastante eficiente naquilo que fazia, os longos anos de ofício deram-lhe um olho clínico (se é que me permitem a expressão) para casos crónicos e terminais. Apresentava-se diligente aos familiares e entregava o seu cartão em papel fotográfico com o nome em letras douradas.
Funerais, Cremações, Transladações
O Seu Barqueiro neste Mundo
O olhar perscrutante de Maldonado despia a alma dos pobres diabos naquelas horas de aflição. Até os médicos, besuntados de sangue e de incúria e anestesiados com aquele sofrimento em série, punham-se em sentido na presença do cangalheiro. A sua expressão iluminava-se quando detectava pacientes com pés grandes - sintoma de morte certa. Esfregava discretamente as mãos para, em seguida, retirar um caderninho vermelho do bolso interior da jaqueta. Os que ainda não tinham recebido visitas poderiam, numa única manhã, ocupar duas páginas sem grande esforço. No rol dos condenados a médio/longo prazo, incluía as visitas das visitas que, aparentemente, mostravam preocupação, mas, que, na realidade, escondiam alguma moléstia fatal ou sofriam uma agonia silenciosa e negociavam com Deus a sua permanência neste mundo. Desprezava os teatrais, os acossados por uma súbita cegueira ou torrencial caganeira. Amaldiçoava-os ferozmente, pois sabia que iriam ter uma vida longa pela frente. Por outro lado, sempre fora solidário com órfãos de tenra idade cujos pais tinham sido vítimas mortais de terríveis acidentes, prontificando-se de imediato para oferecer os seus serviços à família que ainda lhes restava.
- Vão ser homens e mulheres inabaláveis, de têmpera! - dizia-lhes. Nada têm a perder a partir deste instante.
quarta-feira, abril 23, 2008
quinta-feira, abril 17, 2008
terça-feira, abril 15, 2008

não passarás por esta porta
envidraçada
as arestas cortantes desta porta
coçam a bainha das minhas calças,
o inevitável descasque das bainhas
8:32h ontem
8:33h hoje
33:08h amanhã
trasfega atrás de trasfega
II
e agora entram deus e
woody allen em cena,
porque não
deus ouve um transistor
do antigo testamento
com muita estática
e acena com a cabeça
a woody mas
deus não ouve woody
que falta de decoro
a omnipotência
em frequência moderada
por isso,
e apenas por isso,
é usual ver woody
a lavar as suas mãos delicadas
nas fontes de nova iorque.
sábado, abril 12, 2008
sexta-feira, abril 11, 2008
Como matar um poeta-oráculo
segunda-feira, abril 07, 2008
O velho ditador

Recebo quinzenalmente uma carta cordial do meu Saltibanco - o Banco com a melhor taxa Spread Your Love do mercado - com o extracto e os movimentos que são efectivamente da minha conta. O meu saldo "pathos" está negativo - aliás, sempre esteve desde que a conta foi concebida pelo meu competentíssimo gestor de conta. O tipo faz-me lembrar o Philip Larkin e tudo indica que simpatiza comigo, não sei dizer-vos porquê. Estou. Estou em condições de vos informar que vamos receber a curto prazo poemas monótonos em vez dos úteis recibos emitidos pelos multibancos.
Hum. Aborreço-vos. Sou o eterno candidato da Disfuncionalidade mas, se tudo correr como planeado, serei eleito na segunda volta. Vou agora dormir e sonhar com o Evel Knievel.
quinta-feira, abril 03, 2008
terça-feira, abril 01, 2008
Exercício de Hiper-Ficção

domingo, março 30, 2008
Mónaco

A grande fonte de divisas do Mónaco não é, ao contrário do que se pensa, o jogo ou o turismo. A base da economia monegasca assenta no fabrico e exportação de velas eléctricas para igrejas. A União faz vista grossa a este comércio paralelo que ilude os fiéis devotos do mundo católico desde que foi introduzido nos anos 60 por Grace Kelly, a Libidinosa. Hoje, crianças francesas e italianas (enjeitadas do "Grande" Circo de Montecarlo) montam as velas em condições desumanas em porões de iates e subcaves de prédios faustosos. Alberto já demonstrou publicamente a sua preocupação e lamenta os actos reprováveis de sua mãe:
- A sua fixação por velas e círios levou-a longe demais. Mas continuo a amá-la enquanto actriz.
quinta-feira, março 27, 2008
Como matar um cowboy-diva
Pedir a factura no fim ao Técnico.
terça-feira, março 25, 2008
Necrosyrtes monachus

há menos acidentes no cruzamento
os dois abutres empoleirados
no espelho convexo tiveram de migrar
a quercus fez queixa da autarquia
o presidente lamenta profundamente o sucedido
mandou-se chamar outra vez
a velha mas a velha morreu
chamou-se então um tóxico
algemado a um realejo
em estado terminal
(sejamos sérios -
não facilitemos).
quinta-feira, março 20, 2008
at the Starbucks
Miss Butter: Wha..?! Oh my God!
Mr Muffin: Ooh! B, is that really you?
Miss Butter: I certainly am!
Mr Muffin: No way, get out here!
Miss Butter: Yeah, the years were kind to you.
Mr Muffin: And you? You're still a doll!
Miss Butter: Oh my God.
Mr Muffin: Heya, care for a cup of coffee?!
eu tenho um sonho

eu tenho um sonho
eu tenho um sonho que esta nação jamais se levantará antes das três horas da tarde
eu tenho um sonho que, um dia, nas planícies torradas do alentejo, croupiers e jogadores se sentarão à sombra do mesmo chaparro
eu tenho um sonho que, até mesmo no vale do Douro, se falará galaico-português e o vinho escorrerá das torneiras e jorrará das fontes
eu tenho um sonho que os pequenos quatro bastardos venham a conhecer um dia o seu pai
eu tenho um sonho que, no futuro, todos os cristos, aspiradores e salazares sejam iguais
eu tenho um sonho
livre afinal, livre afinal.
segunda-feira, março 17, 2008
Michaux e o manequim
Michaux levava consigo o manequim para todo o lado. Vestia-o de sombras e punha-o no alto de uma pedra ou de um muro e escrevia-a sobre aquilo que via. O seu pai era avesso a mudanças e passou-lhe o gene sem grande esforço. Abalava de madrugada das pensões ou dos abrigos e, antes do sol nascer, já o viam montado no seu bardoto temperamental com o manequim atravessado no dorso do animal, sem destino resolvido. Interrompia invariavelmente a jornada às 13:05h. Antes de se apear, consultava maquinalmente o relógio de bolso e, de seguida, olhava em redor como que a despertar daquele torpor cambaleante. Posicionava então o manequim, afastava-se meia dúzia de passos e sentava-se para dar início à escrita. Há catorze anos que escrevia as mesmas linhas em sebentas coçadas, decalcando até à exaustão o dia em que experimentou o amor carnal, descrevendo em contornos febris o corpo mutilado que o acompanhava ao longo dos anos. Acreditava que escrevia "a quatro mãos" e que o destino das palavras não dependia de si, mas da obstinação indomável do velho manequim.
No início de uma tarde turva, Michaux ousou introduzir no seu caderno a cor estonteante, o cirandar hipnótico das sombrinhas das senhoras que passeavam coquetes no Campo de Marte em tardes melancólicas. Michaux desprezou as recomendações do taberneiro: o vinho da região era selvagem e inclemente. Ainda concebeu apagar as linhas inéditas, mas "não, hoje não!".
Aquartelou-se numa pensão de má fama frequentada por pequenos burgueses remediados e morreu em crónico détresse lírico nessa mesma noite.
sexta-feira, março 14, 2008
Poesia e Balística
terça-feira, março 11, 2008
Na república popular do meu quarto

Rembrandt
na república popular do meu
quarto arranca o turno da noite, os
santos estivadores repõem os
dedos da minha infância que se
espalham pelo parquet riscado,
descarregam desastrados os
olhos inquiridores da
minha avó aos pés da cama,
sustêm a respiração enquanto
pegam em mim e viram o
meu corpo amarrado.
o gato observa tudo isto
incrédulo - segue-os até à
cozinha como um aligator,
como um vivace de Bach.
domingo, março 09, 2008
O corredor
sábado, março 08, 2008
P.A.
terça-feira, março 04, 2008
mulheres sem sombra
Antologia de Micro Ficção - Exodus

Felicitações e obrigado ao Rui Costa e ao Henrique Fialho, e um agradecimento muito especial ao Rui M. Amaral.
segunda-feira, março 03, 2008
O senhor Seravat

O senhor Seravat, conceituado escritor e relatador desportivo, respeitado entre os seus pares e venerado pelo seu ímpar círculo de amigos, levou seis microcontos na testa. As causas do acidente estão ainda por apurar mas especula-se que estejam relacionadas com a queda de um regador de escrita criativa sobre Trinidad e Tobago.
O seu actual estado é reservado aos melhores entre os melhores.
quinta-feira, fevereiro 28, 2008

três viúvas
postiças que nunca
desejaram ser v_____
foram a enterrar
com os olhos abertos
três oftalmologistas
sorridentes entregam-se
- de corpo e alma -
a prazeres cegos
surdos imundos
três argumentos
sem rimel esperam
frases muito ternas,
contendas ancestrais,
lágrimas de vinho
três sonâmbulos
cumprimentam-se
recitam "A Dama
das Camélias"
e seguem caminho:
- Notre-Dame-de-bonne-Garde et
tout aprés!
terça-feira, fevereiro 26, 2008
segunda-feira, fevereiro 25, 2008

(...) Chegamos por fim às terras da Capadócia. Estamos exaustos. Guardei algumas gomas de combate e estou pronto para me bater na linha da frente. Acordei com gotas da chuva que caíam pesadas sobre a tenda. Antes de metermos os pés ao caminho, Mahmud olhou para o céu e disse-me que Deus estava a lavar e bater as vestes dos monges e dos cantores sufi. A sua roupa também devia ser purificada.
- Caem então aguaceiros quentes nestas terras áridas que o dilúvio fustigou há muito, muito tempo - acrescentou sem nunca me dirigir o olhar.
Não me restam dúvidas, meu amigo: Mahmud é o turco mais estranho que já conheci. (...)
P.A.
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
terça-feira, fevereiro 19, 2008
A Première
- Cavalheiros! Queria apenas dizer-vos que sois uns símios encasacados! E vós, minhas senhoras, não passam de uns camafeus! Qual de vós é que gostou realmente desta estrumeira que tive a infelicidade de representar?!
Redobrou o silêncio na sala. A seguir, virou-lhes as costas e baixou as calças, exibindo o alvo e orgulhoso traseiro. De súbito, todos se levantaram como se tivessam molas nos bancos e urraram, atirando os chapéus e os filhinhos ao ar. Num dos camarotes de primeira ordem, o cônsul, que tinha acordado em sobressalto, tentava perceber o que se passava em seu redor. O juíz desembargador, seu estimado amigo, estava atrás de si a lamber o pescoço da sua mulher que ainda estava impregnada com os restos das emoções projectadas pela peça.
-...Sua galdéria!...mas ele é meu, ouviste? Só meu! - vociferou o cônsul, meio incrédulo, meio inconsolável.
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
sábado, fevereiro 09, 2008
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
O Mestre Cremador
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
domingo, fevereiro 03, 2008

Raoul Hausmann
chegara o dia
iria ser homenageado
com alguma pompa
e circunstância:
" Guardem-no para
quem o merece, isto foi
demasiado fácil"
foi muito rude
fez esperar o júri e
os leitores e os media
que nunca deixaram de
o acariciar
(às portas da vida)
e para despesas de conversa
acabaria por confessar:
"foi muito rude
da minha parte
mas compreendam
teria de me retocar todos
os dias, embebedar-me todas
as noites para dançar
como a ginger rogers,
ser frívolo e encantador
teria
de viver
alguns
centímetros
acima dos outros
homens."
quinta-feira, janeiro 31, 2008
segunda-feira, janeiro 28, 2008
Diário de Valentina Tereshkova
_____________suponho meu pai
que em todos os cargos
e funções há altos e
baixos o comité foi bastante
generoso este capacete
reluzente protege-me do passado e
de futuros
dissidentes
____________assumo meu pai
que queiram algo em troca porque nós
os russos não sabemos pensar de outra
forma somos nós de uma grande corda
robusta que jamais irá rebentar a Dialéctica
congela no solo da nossa pátria
___________e agora olha meu pai
o vento negro do
Báltico leva aquela frágil escuna
para Leninegrado que irá
bebê-la como um
Alka Seltzer os filhos dos teus
jovens soldados de Komi dormem
com uma rosa na boca iluminados
por candeeiros a gás até
o hálito tem de estar
sincronizado para
a minha recepção
em glória
sábado, janeiro 26, 2008
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Lixo

sexta-feira, janeiro 18, 2008
quinta-feira, janeiro 17, 2008
The Gooseneck Laundry
quarta-feira, janeiro 16, 2008
sexta-feira, janeiro 11, 2008
Declaração

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Há uma inexplicável aura divina em torno daqueles mineiros sujos da ex-URSS que saem ilesos após um colapso das galerias. Como se a vida, milagrosamente, lhes fosse reiniciada. Como se Ele fosse contra a prateleira das partituras dos Vivos e dos Mortos e, desastradamente, juntasse tudo no mesmo arquivo e se desculpasse: "Meu Deus, que a Morte seja cega e surda!".
terça-feira, janeiro 08, 2008
Sombras em Serralves

"Sombras - Um Filme Sonâmbulo" do realizador João Trabulo, sobre a obra do poeta Teixeira de Pascoaes vai ser exibida a 20 de Janeiro na Fundação de Serralves.
O filme será exibido pelas 19:00 no Auditório da Fundação de Serralves, no âmbito da programação de 2008.
segunda-feira, janeiro 07, 2008
Nueva Cadiz
- As you surely know, Canadians are a vicious people. It's our duty to protect our women and children.
O polémico muro visava repelir a crescente vaga de canadianos ávidos por desconhecimento enciclopédico e algum calor mediterrâneo.
sábado, janeiro 05, 2008
quinta-feira, janeiro 03, 2008
A lei foi feita para se cumprir

Lembramos ainda que os não-fumadores podem aceder a este espaço, bastando solicitar no foyer o nosso capacete-campânula de vidro (normal ou fumado para maior discrição) e a respectiva botija de oxigénio (em várias cores/vários tamanhos em função do tempo de permanência previsto).
Gratos pela vossa preferência,
os enamorados do tédio
- os mortos do ano novo têm cálculo renal, não param de mijar granizo.
- ah? o que foi que disseste?
- disse para desinstalares esse programa, tem viroses.
- ah, ok.
- ou então estão a cremar inuits ateus.

























