terça-feira, abril 15, 2008



I

não passarás por esta porta
envidraçada

as arestas cortantes desta porta
coçam a bainha das minhas calças,
o inevitável descasque das bainhas

8:32h ontem
8:33h hoje
33:08h amanhã

trasfega atrás de trasfega


II

e agora entram deus e
woody allen em cena,
porque não

deus ouve um transistor
do antigo testamento
com muita estática
e acena com a cabeça
a woody mas
deus não ouve woody

que falta de decoro
a omnipotência
em frequência moderada

por isso,
e apenas por isso,
é usual ver woody
a lavar as suas mãos delicadas
nas fontes de nova iorque.

sábado, abril 12, 2008


John Currin

sexta-feira, abril 11, 2008

Como matar um poeta-oráculo

Se honras pai e mãe e possuis um altar de Freud no teu quarto, ignora esta mensagem - não és senhor de ti nem mereces sê-lo. Se fores filho bastardo de um bastardo e fores acossado por insónias de meia estação, poderás ser um Caçador e deverás proceder do seguinte modo: recorta uma imagem recente do poeta-oráculo e guarda-a na tua carteira durante os dez dias que antecedem o solstício de Inverno. No dia do solstício, convoca um coro de meninos da casta dos Xátrias (estuda o seu histórico médico com minúcia, não poderá haver registos de nados-mortos na família). Coloca uma rola no ombro esquerdo e um corvo com uma moeda de cobre no bico no ombro direito de cada rapaz. Pede-lhes para cantar a ladainha miserável do poeta-oráculo. Compra um espelho oval Luís XIV e faz o juramento solene com uma mão em cima da Bíblia em frente ao espelho. Rasga a fotografia em pedacinhos na presença das tuas noivas. Se executares correctamente estas instruções, o poeta irá morrer na mais pura agonia. Lembra-te que o poeta-oráculo é extremamente ditoso: ainda tem tempo para exalar um soneto imortal - tudo tem o seu preço. Os seus pares caras-de-cü irão choramingar o desaparecimento de tamanho vulto, etc. Envia cartões de felicitações de papel reciclado à família e à sociedade de autores s.a.. Brinda com genebra ao lado das tuas noivas. Espalha grandes borboletas felpudas pelo teu quarto e faz amor nessa noite.

segunda-feira, abril 07, 2008

O velho ditador

O velho ditador, desgastado e moído com tanta perfídia e sede de democracia, resolveu encaixar um peacemaker no peito. Em vez de rodá-lo no sentido dos ponteiros do relógio, rodou-o no sentido inverso ao dos ponteiros do relógio. Deus cheirou-lhe o sangue à distância, extraiu-lhe habilmente a Ira e deduziu dois dias santos ao povo. O povo, encabeçado por antigos Batedores do Regime, fez a revolução e, na extinta véspera de Natal, linchou o velho ditador e todas as suas amantes. Como poderiam saber que o velho ditador já estava morto há muito tempo.



Recebo quinzenalmente uma carta cordial do meu Saltibanco - o Banco com a melhor taxa Spread Your Love do mercado - com o extracto e os movimentos que são efectivamente da minha conta. O meu saldo "pathos" está negativo - aliás, sempre esteve desde que a conta foi concebida pelo meu competentíssimo gestor de conta. O tipo faz-me lembrar o Philip Larkin e tudo indica que simpatiza comigo, não sei dizer-vos porquê. Estou. Estou em condições de vos informar que vamos receber a curto prazo poemas monótonos em vez dos úteis recibos emitidos pelos multibancos.
Hum. Aborreço-vos. Sou o eterno candidato da Disfuncionalidade mas, se tudo correr como planeado, serei eleito na segunda volta. Vou agora dormir e sonhar com o Evel Knievel
.

quinta-feira, abril 03, 2008

terça-feira, abril 01, 2008

Exercício de Hiper-Ficção


"Space Race", James Jean

2039

36 de Setoubro - Uma bula confirma a Canonização de Pinto da Costa, até então considerado protosanto popular. O corpo é transladado para a nova Basílica do antigo lugar das Antas (actual Área 61) e exposto aos fiéis em perfeito estado de conservação. Morre o ex-Presidente da Nova República, Francisco Louçã.

01 de Outovembro - S. Pinto da Costa é eleito Santo Padroeiro da cidade do Porto. Novo ataque do grupo terrorista neo-sarraceno, Atlas Alah, ao estado autónomo do Allgarve. O Código Civil reconhece o matrimónio triconjugal.

03 de Outovembro - Eliminação definitiva de todos os registos físicos e virtuais do mega-processo Apito Dourado. A Piedade é considerada um pecado mortal. Morre o último macho da espécie Canis lupus familiaris (cão doméstico).

35 de Dezembro - Início da reevangelização da Madeira. O túmulo de A. J. Jardim é profanado por jovens missionários radicais. O escritor e criador do movimento ruminista Pedro Amaral é galardoado com os prémios Nobel da Literatura e da Patafísica.
L'Urlo Negro
Mondo Cane, Michael Patonne

domingo, março 30, 2008

Mónaco



A grande fonte de divisas do Mónaco não é, ao contrário do que se pensa, o jogo ou o turismo. A base da economia monegasca assenta no fabrico e exportação de velas eléctricas para igrejas. A União faz vista grossa a este comércio paralelo que ilude os fiéis devotos do mundo católico desde que foi introduzido nos anos 60 por Grace Kelly, a Libidinosa. Hoje, crianças francesas e italianas (enjeitadas do "Grande" Circo de Montecarlo) montam as velas em condições desumanas em porões de iates e subcaves de prédios faustosos. Alberto já demonstrou publicamente a sua preocupação e lamenta os actos reprováveis de sua mãe:
- A sua fixação por velas e círios levou-a longe demais. Mas continuo a amá-la enquanto actriz.

quinta-feira, março 27, 2008

Como matar um cowboy-diva

Macerar o corpo em cima de um cadafalso isabelino e obliterá-lo solicitando a ajuda de 1 )um( Técnico de Matadouro de 1ª credenciado. A respectiva consorte deverá peneirar então todas as areias e grânulos e restantes paródias e neuroses. Certificar-se de que a operação inversa é executada adequadamente. Em caso de coincidência divina gratuita ou ataques-strob intricados_reorientados, aguardar pacientemente dez anos, não mais. Colocar sal nas entranhas. Transladar os restos mortais para Danzig e aplicar todos os passos da Ilusão Suícida de Plath: Jogos de setembros e jogos de opostos. Envenamento por Decarameron. Se necessário, afogar todos os descendentes de Sísifo, seus amigos e irmãos de sangue - não olhar a meios - não olhar. Delinear atempadamente estratégias para espantar prussianos disfarçados de corvos.
Pedir a factura no fim ao Técnico.

terça-feira, março 25, 2008

Necrosyrtes monachus




desde que recolheram a velha dos semáforos

há menos acidentes no cruzamento

os dois abutres empoleirados

no espelho convexo tiveram de migrar

a quercus fez queixa da autarquia

o presidente lamenta profundamente o sucedido

mandou-se chamar outra vez

a velha mas a velha morreu

chamou-se então um tóxico

algemado a um realejo

em estado terminal

(sejamos sérios -
não facilitemos).

quinta-feira, março 20, 2008

at the Starbucks

Mr Muffin: Oh my God, I can't believe it!
Miss Butter: Wha..?! Oh my God!
Mr Muffin: Ooh! B, is that really you?
Miss Butter: I certainly am!
Mr Muffin: No way, get out here!
Miss Butter: Yeah, the years were kind to you.
Mr Muffin: And you? You're still a doll!
Miss Butter: Oh my God.
Mr Muffin: Heya, care for a cup of coffee?!

eu tenho um sonho



eu tenho um sonho

eu tenho um sonho que esta nação jamais se levantará antes das três horas da tarde
eu tenho um sonho que, um dia, nas planícies torradas do alentejo, croupiers e jogadores se sentarão à sombra do mesmo chaparro
eu tenho um sonho que, até mesmo no vale do Douro, se falará galaico-português e o vinho escorrerá das torneiras e jorrará das fontes
eu tenho um sonho que os pequenos quatro bastardos venham a conhecer um dia o seu pai
eu tenho um sonho que, no futuro, todos os cristos, aspiradores e salazares sejam iguais

eu tenho um sonho
livre afinal, livre afinal.

segunda-feira, março 17, 2008

Michaux e o manequim

Michaux levava consigo o manequim para todo o lado. Vestia-o de sombras e punha-o no alto de uma pedra ou de um muro e escrevia-a sobre aquilo que via. O seu pai era avesso a mudanças e passou-lhe o gene sem grande esforço. Abalava de madrugada das pensões ou dos abrigos e, antes do sol nascer, já o viam montado no seu bardoto temperamental com o manequim atravessado no dorso do animal, sem destino resolvido. Interrompia invariavelmente a jornada às 13:05h. Antes de se apear, consultava maquinalmente o relógio de bolso e, de seguida, olhava em redor como que a despertar daquele torpor cambaleante. Posicionava então o manequim, afastava-se meia dúzia de passos e sentava-se para dar início à escrita. Há catorze anos que escrevia as mesmas linhas em sebentas coçadas, decalcando até à exaustão o dia em que experimentou o amor carnal, descrevendo em contornos febris o corpo mutilado que o acompanhava ao longo dos anos. Acreditava que escrevia "a quatro mãos" e que o destino das palavras não dependia de si, mas da obstinação indomável do velho manequim.
No início de uma tarde turva, Michaux ousou introduzir no seu caderno a cor estonteante, o cirandar hipnótico das sombrinhas das senhoras que passeavam coquetes no Campo de Marte em tardes melancólicas. Michaux desprezou as recomendações do taberneiro: o vinho da região era selvagem e inclemente. Ainda concebeu apagar as linhas inéditas, mas "não, hoje não!".
Aquartelou-se numa pensão de má fama frequentada por pequenos burgueses remediados e morreu em crónico détresse lírico nessa mesma noite.

In between these days, I have some Monsters In The Parasol.

sexta-feira, março 14, 2008

Poesia e Balística

Trajetória, impacto, marcas, Física, perfuração, explosão, devastação, projéctil, pólvora, fumaça, percussão, ricochete, resíduo, disparo. Poesia é Balística. O poeta é o criminoso, o leitor é a vítima, o crítico é o perito forense.

terça-feira, março 11, 2008

Na república popular do meu quarto


Rembrandt


na república popular do meu
quarto arranca o turno da noite, os
santos estivadores repõem os
dedos da minha infância que se
espalham pelo parquet riscado,
descarregam desastrados os
olhos inquiridores da
minha avó aos pés da cama,
sustêm a respiração enquanto
pegam em mim e viram o
meu corpo amarrado.


o gato observa tudo isto

incrédulo - segue-os até à
cozinha como um aligator,
como um vivace de Bach.




F. Hodler


Tenho uma, talvez duas
coisas a confessar

Tenho também
63 pessoas
à minha frente

Vou ter
de esperar.

domingo, março 09, 2008

O corredor



Era-lhe cada vez mais penoso ir do quarto à casa de banho a meio da noite. O corredor aumentara seguramente uns bons 10 metros desde o dia em que se casaram. E o regresso era sempre pior, a maçar.
Na manhã seguinte, pediu-lhe o divórcio na cama, acompanhado de café e torradas.

sábado, março 08, 2008

(...) A paisagem em nosso redor afigura-se cada vez mais estranha. E esta canícula! Há já dois dias que não tenho uma gota de água no cantil! Felizmente fomos achados por um fio de água tímido que brotava da rocha. Foi uma dádiva divina, um pleno milagre nestas paragens. Deus prolonga o nosso sofrimento para depois saciar as nossas necessidades quando já estamos no limite das nossas forças. É um truque deveras simples e muito pouco virtuoso, não concordas? Mahmud bebe como os antílopes, com os olhos sempre virados para diante, e não aparentava ter muita sede. Já o apanhei a lamber o suor das palmas das mãos e da parte interior do braços enquanto caminha - ... Consigo ouvir-te, meu amigo: tenho de subtrair alguns dos meus caprichos europeus se desejo realmente chegar ao meu destino. (...)

P.A.

terça-feira, março 04, 2008

mulheres sem sombra





sou retocável e
às vezes mulher
às vezes pavão
às vezes um torso de
Matisse
às vezes pega cubana
às vezes crisálida
um dia hei-de
reconhecer-me

borboleta do nada
sob calor de julho

o tempo é um homem
que me mendiga e
fecha a porta
na minha cara
devagar

Antologia de Micro Ficção - Exodus



Felicitações e obrigado ao Rui Costa e ao Henrique Fialho, e um agradecimento muito especial ao Rui M. Amaral.

segunda-feira, março 03, 2008

O senhor Seravat


O senhor Seravat, conceituado escritor e relatador desportivo, respeitado entre os seus pares e venerado pelo seu ímpar círculo de amigos, levou seis microcontos na testa. As causas do acidente estão ainda por apurar mas especula-se que estejam relacionadas com a queda de um regador de escrita criativa sobre Trinidad e Tobago.
O seu actual estado é reservado aos melhores entre os melhores.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

bedroom haiku

i have a messy closet
with a wasted mirror

your sleeping feathers.



três viúvas
postiças que nunca
desejaram ser v_____
foram a enterrar
com os olhos abertos

três oftalmologistas
sorridentes entregam-se
- de corpo e alma -
a prazeres cegos
surdos imundos

três argumentos
sem rimel esperam
frases muito ternas,
contendas ancestrais,
lágrimas de vinho

três sonâmbulos
cumprimentam-se
recitam "A Dama
das Camélias"
e seguem caminho:

- Notre-Dame-de-bonne-Garde et
tout aprés!


terça-feira, fevereiro 26, 2008



M. Gauguin,

Je vous en prie mon cher:
Retournez immédiatement svp. Les designers d'aujourd'hui sont très mauvais, très navrants. À ce moment, je peux payer votre ticket. Réfléchez-y bien. Salvador et ses amis sont morts.

À bientôt,
T.T.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008


(...) Chegamos por fim às terras da Capadócia. Estamos exaustos. Guardei algumas gomas de combate e estou pronto para me bater na linha da frente. Acordei com gotas da chuva que caíam pesadas sobre a tenda. Antes de metermos os pés ao caminho, Mahmud olhou para o céu e disse-me que Deus estava a lavar e bater as vestes dos monges e dos cantores sufi. A sua roupa também devia ser purificada.
- Caem então aguaceiros quentes nestas terras áridas que o dilúvio fustigou há muito, muito tempo - acrescentou sem nunca me dirigir o olhar.
Não me restam dúvidas, meu amigo: Mahmud é o turco mais estranho que já conheci. (...)


P.A.

O óscar, o pedro e o lobo

Estamos de parabéns!

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

A vendedora de cupidos


Joseph-Marie Vien

terça-feira, fevereiro 19, 2008

A Première

Todos batiam palmas na cara do espectador ao lado, Beckett passou com distinção na première. Cada um dos presentes viu a sua vida miserável a melhorar a olhos vistos, afinal era para isso que ali estavam. Contudo, e quando nada fazia prever, um dos jovens actores deu três passos à frente, pediu silêncio com as mãos no ar e bradou:
- Cavalheiros! Queria apenas dizer-vos que sois uns símios encasacados! E vós, minhas senhoras, não passam de uns camafeus! Qual de vós é que gostou realmente desta estrumeira que tive a infelicidade de representar?!
Redobrou o silêncio na sala. A seguir, virou-lhes as costas e baixou as calças, exibindo o alvo e orgulhoso traseiro. De súbito, todos se levantaram como se tivessam molas nos bancos e urraram, atirando os chapéus e os filhinhos ao ar. Num dos camarotes de primeira ordem, o cônsul, que tinha acordado em sobressalto, tentava perceber o que se passava em seu redor. O juíz desembargador, seu estimado amigo, estava atrás de si a lamber o pescoço da sua mulher que ainda estava impregnada com os restos das emoções projectadas pela peça.
-...Sua galdéria!...mas ele é meu, ouviste? Só meu! - vociferou o cônsul, meio incrédulo, meio inconsolável.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008


I truly miss Mariah. In fact, I have this Final Fantasy with her.

Willem de Kooning

é certo e sabido
que naquele Lar
doce Lar
a Morte só
vinha depois
das três

ali, porém,
sentada
à janela do quarto 12
a velha excedentária
estaria protegida -

poderia viver
em paz


sábado, fevereiro 09, 2008


Christian Schad

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

O Mestre Cremador

Antes de se levantar de manhã, o Mestre Cremador dorme a noite toda no seu pequeno quarto. Ajeita o travesseiro com umas mimosas palmadinhas e, pouco antes de adormecer, deixa cair um volumoso livro no chão num perfeito V invertido, cuja leitura arrasta penosamente durante três meses e duas semanas. Lamenta-se, desde então, por ter levado a cabo tal compra, encolhendo resignadamente os ombros caídos sempre que vira uma página. Olha-se sem resíduos de pudor ao espelho e prepara-se para aparar a barbicha grisalha. Aproxima-se da imagem reflectida e arqueia a espessa sobrancelha do olho direito com particular sobranceria. Sabe que ainda tem fortes motivos para gostar daquilo que vê. Bebe um copo de cognac enquanto afaga o dorso de Franco (Mestre gosta de pensar que Franco é seu, mas, como toda a gente sabe, os gatos não têm dono e os donos não têm donos). Às vezes, bebe dois copos. Folheia, distraído, o Diário de _.________, demorando sempre algum tempo na Necrologia, " Este tinha a pele grossa como lixa, mas arrumei-o bem". Abre a porta que o saúda com um chio, tira o velho sobretudo e sacode-o vigorosamente. Franco enrosca-se nas suas pernas. Sobe os três lanços de escadas e pára a meio para ganhar fôlego. Sente-se patético e encara o vitral em losangos coloridos do elevador. Não confia em elevadores e sempre soube que os elevadores não confiavam em ninguém.

A musa inspira o poeta


Henri Rousseau

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Gostaria de ter estômago para dirigir críticas grosseiras e censuráveis aos meus textos blogordinários, em regime de anonimato. Ou então parir comentadores heterónimos a partir da minha mater. Já tentei e simplesmente não consigo. O meu subsconsciente (ou serão as musas) emite sinais intermitentes que não sei interpretar: serão sintoma de uma lamentável rectidão ou de escassez imaginativa? Entre um sinal e outro, agarro transversalmente no inaceitável e tento explorá-lo. Nada. Nada igual a nada. Por outro lado, há a questão estética da coisa: sou aquilo a que as senhoras da idade da minha mãe chamam de "um homem bonito" e isso inibe-me dramaticamente. Vocês nem fazem ideia. No fundo, sou um vaidoso da pior espécie. Tenho espelhos em casa.

domingo, fevereiro 03, 2008


Raoul Hausmann

chegara o dia
iria ser homenageado
com alguma pompa
e circunstância:
" Guardem-no para
quem o merece, isto foi
demasiado fácil"

foi muito rude
fez esperar o júri e
os leitores e os media
que nunca deixaram de
o acariciar

(às portas da vida)
e para despesas de conversa
acabaria por confessar:
"foi muito rude
da minha parte
mas compreendam
teria de me retocar todos
os dias, embebedar-me todas
as noites para dançar
como a ginger rogers,
ser frívolo e encantador

teria

de viver
alguns
centímetros
acima dos outros
homens."


quinta-feira, janeiro 31, 2008

O teu dia útil


Anton van Dalen

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Diário de Valentina Tereshkova


_____________suponho meu pai

que em todos os cargos
e funções há altos e
baixos o comité foi bastante
generoso
este capacete
reluzente protege-me do passado e
de futuros

dissidentes

____________assumo meu pai

que queiram algo em troca porque nós
os russos não sabemos pensar de outra
forma somos nós de uma grande corda
robusta que jamais irá rebentar a Dialéctica
congela no solo da nossa pátria

___________e agora olha meu pai

o vento negro do
Báltico leva aquela frágil escuna
para Leninegrado que irá
bebê-la como um
Alka Seltzer os filhos dos teus
jovens soldados de Komi dormem
com uma rosa na boca iluminados
por candeeiros a gás até
o hálito tem
de estar
sincronizado para
a minha recepção
em glória

sábado, janeiro 26, 2008

FNM en Nulle Part Ailleurs
(
smiling with the mouth of the ocean)

David Ruhlman

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Lixo


O televisionado lixo de Nápoles catalisou uma pulsão sem precedentes no subsecretário da cultura. Largou de imediato o dossier e pediu para lhe ligarem com o sottosegretario homólogo, com a máxima urgência. De repente, baixou o auscultador: "Hum, não nos precipitemos...e as pústulas, as infecções, o mal-napolitano? Ah, que se lixe. O primeiro aprovará decerto, e amanhã, se for preciso! Um aterro cultural, é de génio, menino! De génio!".

sexta-feira, janeiro 18, 2008

quinta-feira, janeiro 17, 2008



- Muito bem. Agora a primeira linha pf.

The Gooseneck Laundry



dormem lado a lado
embalados pela
centrifugação
ou pela voz rouca
do sem-abrigo negro
que prolonga os
evangelhos
pela noite
dentro

o segredo mais
bem guardado
do Novo Mundo -

as lavandarias
chinesas
mantêm o povo
americano
cheiroso e unido.

quarta-feira, janeiro 16, 2008





Robert Bechtle

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Declaração


Callot

Eu de barba branca a tiracolo
rodeado de fumo por todos os lados vadios
menos pelo lado do mar
com um incêndio à ilharga
e dois artelhos clandestinos
eu salvo miraculosamente para te amar e curar
e esperar o teu regresso glacial e escarlate
que escrevo poemas desde que um rato
me entrou prós pulmões e só por causa disso
eu que disse: há um cancro no mapa universal
e engenheiros, geógrafos, doutores se apressaram a negá-la
eu da cintura pra cima de alcatrão e terror
e do umbigo pra baixo de quiosque chinês
eu não espero piedade obrigado


António José Forte,
Uma Faca nos Dentes
Livraria Editora, Lda.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Suplº à Viagem de Bougainville


De Diderot

Requiem Pour Un Con

N.: 19/07/1974
M.: 33/Setoutubro/2888

quarta-feira, janeiro 09, 2008



Há uma inexplicável aura divina em torno daqueles mineiros sujos da ex-URSS que saem ilesos após um colapso das galerias. Como se a vida, milagrosamente, lhes fosse reiniciada. Como se Ele fosse contra a prateleira das partituras dos Vivos e dos Mortos e, desastradamente, juntasse tudo no mesmo arquivo e se desculpasse: "Meu Deus, que a Morte seja cega e surda!".

terça-feira, janeiro 08, 2008

Sombras em Serralves



"Sombras - Um Filme Sonâmbulo" do realizador João Trabulo, sobre a obra do poeta Teixeira de Pascoaes vai ser exibida a 20 de Janeiro na Fundação de Serralves.
O filme será exibido pelas 19:00 no Auditório da Fundação de Serralves, no âmbito da programação de 2008.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Nueva Cadiz

O melhor avant-garde espanhol é importado do Alaska. Os primeiros habitantes chegaram a Nueva Cadiz (3600 hab.) por volta de 1935 e eram, na sua maioria, bandoleros, rameiras, escritores endividados e perseguidos pelos nacionalistas. A pequena cidade fronteiriça, localizada a 560 km de Juneau (capital do estado), foi recententemente notícia, devido a um enorme muro de gelo mandado erigir pelo actual mayor, Waino Alba.
- As you surely know, Canadians are a vicious people. It's our duty to protect our women and children.
O polémico muro visava repelir a crescente vaga de canadianos ávidos por desconhecimento enciclopédico e algum calor mediterrâneo.

sábado, janeiro 05, 2008



Ellen Gallagher

quinta-feira, janeiro 03, 2008

A lei foi feita para se cumprir




Informamos os nossos prezados leitores que o nosso blogue possui um espaçoso fumoir que poderá ser utilizado 24/7, 365 dias por ano.
Lembramos ainda que os não-fumadores podem aceder a este espaço, bastando solicitar no foyer o nosso capacete-campânula de vidro (normal ou fumado para maior discrição) e a respectiva botija de oxigénio (em várias cores/vários tamanhos em função do tempo de permanência previsto).

Gratos pela vossa preferência,
A Gerência

os enamorados do tédio


- os mortos do ano novo têm cálculo renal, não param de mijar granizo.
- ah? o que foi que disseste?
- disse para desinstalares esse programa, tem viroses.
- ah, ok.

- ou então estão a cremar inuits ateus.

terça-feira, janeiro 01, 2008

O enterro do velho elefante


Bernini

O pequeno grupo
de ocasião
guardava uma distância
de meia palavra
entre si. A criança de
olhar perdido
trazia um casaco
vermelho.

"Podias ter nascido
hoje, mas não!
tinhas de morrer,
porco! velho..." A matriarca
não conseguiu acabar
a frase. Deu dois passos
atrás e virou as costas
cobertas de negro.

O coveiro
era hábil,
dava golpes
certeiros, teatrais.
Um homem como este
não aceita
lições de moral de
ninguém - pensei.

Para depois parar.
Ergueu um enorme
espelho coberto de terra
preta e raízes. Ciciou
algumas palavras
e começou a
chorar
tão bem.

sábado, dezembro 29, 2007

Revolução


Van Bolten

A Revolução é feita com armas. E também com algozes, crianças famintas e colheres barrocas. Anulem-se, apaguem de vez as vossas contra-indicações, respirem fundo. (...) Não, outra vez, as vértebras têm de estalar, de estalar! Abram bem essas bocarras. O meu tio disse-me uma vez enquanto nos dirigíamos para os Montes dos Castrados: "Podes chamar-me de tio, mas tens de saber manejar uma arma e um pouco de toponímia. Saber rapar as terrinas dos anfitriões também é um dom."
Morreu pouco tempo depois. O que quererá isto dizer.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

segunda-feira, dezembro 24, 2007


quando perdes
a página do teu Manual

dos Corações Incandescentes
é deus que te faz
um favor
os que trazem o
coração suspenso
por andas
não merecem
ser confortados.
quando perguntas
"a que distância fica o horizonte?"
cai um ominoso pingo
do teu nariz
e estremeces,
é deus que te bate
ao de leve:
curva-te antes
perante o oceano,
não deves saber
coisas sem importância.
quando a tua mão gela
antes de te tocares,
é deus que afaga a
sua mão na tua.
quando te ris
do nome Eustórgio
gravado na campa ao lado,
é deus que te repreende.
traiste-te:

ainda não dominas
a dor das beatas
encurvadas

deixa-o
usar as tuas costas
para afiar
a divina espada.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Coffee (as champagne)+Mahler+La Joie de Vivre



-Say it isn't true...
-...
-Well?
-What?
-I asked you to say isn't true...
-Say what isn't true?!
-(yawn) Never-never-nevermind.

sexta-feira, dezembro 14, 2007


Cartaz para a GUM
V. Mayakovskiy, A. Rodchenko, 1923


“A todos os convidados das cidades, vilas e aldeias, não gastem mais as vossas solas – venham à GUM onde poderão encontrar tudo – rápido, impecável e barato!”

segunda-feira, dezembro 10, 2007




O
s velhos dizem que sempre
que alguém acende um cigarro com uma vela
um marinheiro morre.

Suponho que, entre marinheiros,
existe a crença de que quando se barbeiam
numa direcção estranha, um académico morre.

Então, eles tentam não se barbear.
O importante aqui é pensarmos
Uns nos outros.

Kristin Dimitrova
Trad.: a minha
- Vinte e poucos anos depois ainda estou a tentar aprender o alfabeto. A isto chama-se um erro de palmatória.

sexta-feira, dezembro 07, 2007


Boris Mihalik

quarta-feira, dezembro 05, 2007

A Caçada


O velho caçador sacudiu a gloriosa gaita com alguma violência, subiu para o camião e lá seguiram caminho. Estava visivelmente irritado. Conseguiu lobrigar algumas manadas de seres bravios e pensantes que ruminavam ao longo das encostas vermelhas viradas a sul.
"Sem mel nem rima, sempre quero ver como hei-de caçá-los!", pensou. Cuspiu algo reluzente pela janela fora e voltou-se de súbito para o anão:
- Vou precisar de ti. Trouxeste aquilo que te pedi?
- Sim. Mas tenho medo.
- Cala-te. Não podes mostrar medo aquele imbecil.
- Está bem - anuiu o anão.
Percorreram cerca de cinco tortuosas milhas que maltrataram bastante os rins do velho caçador, quando, finalmente, avistaram a placa de aproximação da fronteira.
O posto das portas do deserto era guardado por um jovem praça que gostava de rasgar lençóis velhos e tirar fotografias com uma máquina "à la minute" a todos os cidadãos e bestas pensantes que eram pesados
pela primeira vez na báscula imperial.
- Então, e a caçada? Apanhaste algo decente desta vez? - indagou o guarda que disparava pequenos jactos de saliva sempre que proferia sibilantes.
- Nada. Estão cada vez mais espertos. Já não caiem nos engodos do costume - replicou o velho.
- Ça, c'est très mauvais, très mauvais. Et maintenant? E agora, como ficamos? - O guarda falava invariavelmente a língua de Napoleão quando tentava adoptar uma postura autoritária.
- Vou deixar aqui o meu anão mongol de barbicha branca como caução, para além do saco habitual que está cheio de belos diários comoventes. Apanhei bastantes desta vez. Vou pegar num à sorte e....
-
Non, non, pas du tout! Não quero cette merde que os seres pensantes largam pelos montes!...Huum. O anão sabe ao menos cantar?
- Como um rouxinol chinês.
- Toi là! Tu aí, já cantaste alguma vez? - dirigindo-se ao anão.
- Senhor, já não canto desde a última vez que mudei uma lâmpada! - exclamou o anão que estava de pé sobre o assento - Gosto muito de mudar lâmpadas. Fico muito excitado e dá-me para cantar.
- Bon. Vamos para dentro. Este sol abrasador dá-me cabo dos miolos. Mais, dépêche-vous, allons-y!

domingo, dezembro 02, 2007

Psycho Killer

Casaste-te com ele, e agora. Sai para a rua, entra na padaria do bairro e toca no ombro do primeiro homem que está à tua frente, na fila para o pão: parece-me um bom partido, a ti não?

Ghisi


A seu lado, dormiam os javardos. Agarrou um, com um certo nojo reticente e, de braços estendidos, manteve-o assim erguido. Era cor-de-rosa, com uma boquita húmida de polvo e olhos de carne engelhada. Desviando a cabeça, destapou um dos seios e estendeu-o ao javardo. Teve que lhe enfiar o bico do seio na boca, e só então ele crispou os punhos e as bochechas ficaram chupadas. Engolia a golada fazendo um horrível barulho com a garganta. Aquilo não era lá muito agradável. Aliviava um bocado, mas também mutilava um pouco. Tendo esvaziado dois terços do seio, o javardo lá se deu por satisfeito e, largando as duas mãos, pôs-se a ressonar como um porco. Clementina pousou-o a seu lado e ele, sem parar de ressonar, fez umas manobras esquisitas com a boca, ainda a chupar mesmo a dormir. Tinha uma penugem nojenta na cabeça, a moleirinha batia de maneira inquietante, dava vontade de carregar no meio para aquilo parar.


O Arranca Corações, Boris Vian
Livro B, Editorial Estampa

quarta-feira, novembro 28, 2007

Trabalho de Sísifo



O grande rochedo de mármore que nunca deixará de rolar pela montanha abaixo. Será sempre assim. Não há qualquer tipo de heroísmo aqui. Apenas um longo caminho fatalista que julgo contornar com palavras e pequenos prazeres que actuam como sedativos ou estimulantes. Ao longo desse caminho, senhoras de preto e meninas com um ar intrigado dão-me de beber. "O caminho é só um". Uma angústia agridoce percorre-me o corpo, o prazer do recomeço, regado e fortalecido pelo tempo. No entanto, sou mais forte do que Deus e mais feliz do que os pobres coitados que se iludem com a cenoura da imortalidade.

quinta-feira, novembro 22, 2007


Asger Jorn

quarta-feira, novembro 21, 2007

Prisão



Com as cordas partidas
e a borra da lua
Paganini fazia lagartos
sem cabeça
pela noite dentro
e punha-os na janela
quando o sol nascia

passariam anos
até que os lagartos
crescessem e
voltassem a ser dedos

chegara a hora

seguido pelo medo
conseguiu fugir
nunca olhou
para trás

"Pai"
foi o único espólio
que encontraram
no seu cárcere