
quinta-feira, abril 03, 2008
terça-feira, abril 01, 2008
Exercício de Hiper-Ficção

domingo, março 30, 2008
Mónaco

A grande fonte de divisas do Mónaco não é, ao contrário do que se pensa, o jogo ou o turismo. A base da economia monegasca assenta no fabrico e exportação de velas eléctricas para igrejas. A União faz vista grossa a este comércio paralelo que ilude os fiéis devotos do mundo católico desde que foi introduzido nos anos 60 por Grace Kelly, a Libidinosa. Hoje, crianças francesas e italianas (enjeitadas do "Grande" Circo de Montecarlo) montam as velas em condições desumanas em porões de iates e subcaves de prédios faustosos. Alberto já demonstrou publicamente a sua preocupação e lamenta os actos reprováveis de sua mãe:
- A sua fixação por velas e círios levou-a longe demais. Mas continuo a amá-la enquanto actriz.
quinta-feira, março 27, 2008
Como matar um cowboy-diva
Pedir a factura no fim ao Técnico.
terça-feira, março 25, 2008
Necrosyrtes monachus

há menos acidentes no cruzamento
os dois abutres empoleirados
no espelho convexo tiveram de migrar
a quercus fez queixa da autarquia
o presidente lamenta profundamente o sucedido
mandou-se chamar outra vez
a velha mas a velha morreu
chamou-se então um tóxico
algemado a um realejo
em estado terminal
(sejamos sérios -
não facilitemos).
quinta-feira, março 20, 2008
at the Starbucks
Miss Butter: Wha..?! Oh my God!
Mr Muffin: Ooh! B, is that really you?
Miss Butter: I certainly am!
Mr Muffin: No way, get out here!
Miss Butter: Yeah, the years were kind to you.
Mr Muffin: And you? You're still a doll!
Miss Butter: Oh my God.
Mr Muffin: Heya, care for a cup of coffee?!
eu tenho um sonho

eu tenho um sonho
eu tenho um sonho que esta nação jamais se levantará antes das três horas da tarde
eu tenho um sonho que, um dia, nas planícies torradas do alentejo, croupiers e jogadores se sentarão à sombra do mesmo chaparro
eu tenho um sonho que, até mesmo no vale do Douro, se falará galaico-português e o vinho escorrerá das torneiras e jorrará das fontes
eu tenho um sonho que os pequenos quatro bastardos venham a conhecer um dia o seu pai
eu tenho um sonho que, no futuro, todos os cristos, aspiradores e salazares sejam iguais
eu tenho um sonho
livre afinal, livre afinal.
segunda-feira, março 17, 2008
Michaux e o manequim
Michaux levava consigo o manequim para todo o lado. Vestia-o de sombras e punha-o no alto de uma pedra ou de um muro e escrevia-a sobre aquilo que via. O seu pai era avesso a mudanças e passou-lhe o gene sem grande esforço. Abalava de madrugada das pensões ou dos abrigos e, antes do sol nascer, já o viam montado no seu bardoto temperamental com o manequim atravessado no dorso do animal, sem destino resolvido. Interrompia invariavelmente a jornada às 13:05h. Antes de se apear, consultava maquinalmente o relógio de bolso e, de seguida, olhava em redor como que a despertar daquele torpor cambaleante. Posicionava então o manequim, afastava-se meia dúzia de passos e sentava-se para dar início à escrita. Há catorze anos que escrevia as mesmas linhas em sebentas coçadas, decalcando até à exaustão o dia em que experimentou o amor carnal, descrevendo em contornos febris o corpo mutilado que o acompanhava ao longo dos anos. Acreditava que escrevia "a quatro mãos" e que o destino das palavras não dependia de si, mas da obstinação indomável do velho manequim.
No início de uma tarde turva, Michaux ousou introduzir no seu caderno a cor estonteante, o cirandar hipnótico das sombrinhas das senhoras que passeavam coquetes no Campo de Marte em tardes melancólicas. Michaux desprezou as recomendações do taberneiro: o vinho da região era selvagem e inclemente. Ainda concebeu apagar as linhas inéditas, mas "não, hoje não!".
Aquartelou-se numa pensão de má fama frequentada por pequenos burgueses remediados e morreu em crónico détresse lírico nessa mesma noite.
sexta-feira, março 14, 2008
Poesia e Balística
terça-feira, março 11, 2008
Na república popular do meu quarto

Rembrandt
na república popular do meu
quarto arranca o turno da noite, os
santos estivadores repõem os
dedos da minha infância que se
espalham pelo parquet riscado,
descarregam desastrados os
olhos inquiridores da
minha avó aos pés da cama,
sustêm a respiração enquanto
pegam em mim e viram o
meu corpo amarrado.
o gato observa tudo isto
incrédulo - segue-os até à
cozinha como um aligator,
como um vivace de Bach.
domingo, março 09, 2008
O corredor
sábado, março 08, 2008
P.A.
terça-feira, março 04, 2008
mulheres sem sombra
Antologia de Micro Ficção - Exodus

Felicitações e obrigado ao Rui Costa e ao Henrique Fialho, e um agradecimento muito especial ao Rui M. Amaral.
segunda-feira, março 03, 2008
O senhor Seravat

O senhor Seravat, conceituado escritor e relatador desportivo, respeitado entre os seus pares e venerado pelo seu ímpar círculo de amigos, levou seis microcontos na testa. As causas do acidente estão ainda por apurar mas especula-se que estejam relacionadas com a queda de um regador de escrita criativa sobre Trinidad e Tobago.
O seu actual estado é reservado aos melhores entre os melhores.
quinta-feira, fevereiro 28, 2008

três viúvas
postiças que nunca
desejaram ser v_____
foram a enterrar
com os olhos abertos
três oftalmologistas
sorridentes entregam-se
- de corpo e alma -
a prazeres cegos
surdos imundos
três argumentos
sem rimel esperam
frases muito ternas,
contendas ancestrais,
lágrimas de vinho
três sonâmbulos
cumprimentam-se
recitam "A Dama
das Camélias"
e seguem caminho:
- Notre-Dame-de-bonne-Garde et
tout aprés!
terça-feira, fevereiro 26, 2008
segunda-feira, fevereiro 25, 2008

(...) Chegamos por fim às terras da Capadócia. Estamos exaustos. Guardei algumas gomas de combate e estou pronto para me bater na linha da frente. Acordei com gotas da chuva que caíam pesadas sobre a tenda. Antes de metermos os pés ao caminho, Mahmud olhou para o céu e disse-me que Deus estava a lavar e bater as vestes dos monges e dos cantores sufi. A sua roupa também devia ser purificada.
- Caem então aguaceiros quentes nestas terras áridas que o dilúvio fustigou há muito, muito tempo - acrescentou sem nunca me dirigir o olhar.
Não me restam dúvidas, meu amigo: Mahmud é o turco mais estranho que já conheci. (...)
P.A.
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
terça-feira, fevereiro 19, 2008
A Première
- Cavalheiros! Queria apenas dizer-vos que sois uns símios encasacados! E vós, minhas senhoras, não passam de uns camafeus! Qual de vós é que gostou realmente desta estrumeira que tive a infelicidade de representar?!
Redobrou o silêncio na sala. A seguir, virou-lhes as costas e baixou as calças, exibindo o alvo e orgulhoso traseiro. De súbito, todos se levantaram como se tivessam molas nos bancos e urraram, atirando os chapéus e os filhinhos ao ar. Num dos camarotes de primeira ordem, o cônsul, que tinha acordado em sobressalto, tentava perceber o que se passava em seu redor. O juíz desembargador, seu estimado amigo, estava atrás de si a lamber o pescoço da sua mulher que ainda estava impregnada com os restos das emoções projectadas pela peça.
-...Sua galdéria!...mas ele é meu, ouviste? Só meu! - vociferou o cônsul, meio incrédulo, meio inconsolável.
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
sábado, fevereiro 09, 2008
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
O Mestre Cremador
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
domingo, fevereiro 03, 2008

Raoul Hausmann
chegara o dia
iria ser homenageado
com alguma pompa
e circunstância:
" Guardem-no para
quem o merece, isto foi
demasiado fácil"
foi muito rude
fez esperar o júri e
os leitores e os media
que nunca deixaram de
o acariciar
(às portas da vida)
e para despesas de conversa
acabaria por confessar:
"foi muito rude
da minha parte
mas compreendam
teria de me retocar todos
os dias, embebedar-me todas
as noites para dançar
como a ginger rogers,
ser frívolo e encantador
teria
de viver
alguns
centímetros
acima dos outros
homens."
quinta-feira, janeiro 31, 2008
segunda-feira, janeiro 28, 2008
Diário de Valentina Tereshkova
_____________suponho meu pai
que em todos os cargos
e funções há altos e
baixos o comité foi bastante
generoso este capacete
reluzente protege-me do passado e
de futuros
dissidentes
____________assumo meu pai
que queiram algo em troca porque nós
os russos não sabemos pensar de outra
forma somos nós de uma grande corda
robusta que jamais irá rebentar a Dialéctica
congela no solo da nossa pátria
___________e agora olha meu pai
o vento negro do
Báltico leva aquela frágil escuna
para Leninegrado que irá
bebê-la como um
Alka Seltzer os filhos dos teus
jovens soldados de Komi dormem
com uma rosa na boca iluminados
por candeeiros a gás até
o hálito tem de estar
sincronizado para
a minha recepção
em glória
sábado, janeiro 26, 2008
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Lixo

sexta-feira, janeiro 18, 2008
quinta-feira, janeiro 17, 2008
The Gooseneck Laundry
quarta-feira, janeiro 16, 2008
sexta-feira, janeiro 11, 2008
Declaração

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Há uma inexplicável aura divina em torno daqueles mineiros sujos da ex-URSS que saem ilesos após um colapso das galerias. Como se a vida, milagrosamente, lhes fosse reiniciada. Como se Ele fosse contra a prateleira das partituras dos Vivos e dos Mortos e, desastradamente, juntasse tudo no mesmo arquivo e se desculpasse: "Meu Deus, que a Morte seja cega e surda!".
terça-feira, janeiro 08, 2008
Sombras em Serralves

"Sombras - Um Filme Sonâmbulo" do realizador João Trabulo, sobre a obra do poeta Teixeira de Pascoaes vai ser exibida a 20 de Janeiro na Fundação de Serralves.
O filme será exibido pelas 19:00 no Auditório da Fundação de Serralves, no âmbito da programação de 2008.
segunda-feira, janeiro 07, 2008
Nueva Cadiz
- As you surely know, Canadians are a vicious people. It's our duty to protect our women and children.
O polémico muro visava repelir a crescente vaga de canadianos ávidos por desconhecimento enciclopédico e algum calor mediterrâneo.
sábado, janeiro 05, 2008
quinta-feira, janeiro 03, 2008
A lei foi feita para se cumprir

Lembramos ainda que os não-fumadores podem aceder a este espaço, bastando solicitar no foyer o nosso capacete-campânula de vidro (normal ou fumado para maior discrição) e a respectiva botija de oxigénio (em várias cores/vários tamanhos em função do tempo de permanência previsto).
Gratos pela vossa preferência,
os enamorados do tédio
- os mortos do ano novo têm cálculo renal, não param de mijar granizo.
- ah? o que foi que disseste?
- disse para desinstalares esse programa, tem viroses.
- ah, ok.
- ou então estão a cremar inuits ateus.
terça-feira, janeiro 01, 2008
O enterro do velho elefante
de ocasião
guardava uma distância
de meia palavra
entre si. A criança de
olhar perdido
trazia um casaco
vermelho.
"Podias ter nascido
hoje, mas não!
tinhas de morrer,
porco! velho..." A matriarca
não conseguiu acabar
a frase. Deu dois passos
atrás e virou as costas
cobertas de negro.
O coveiro
era hábil,
dava golpes
certeiros, teatrais.
Um homem como este
não aceita
lições de moral de
ninguém - pensei.
Para depois parar.
Ergueu um enorme
espelho coberto de terra
preta e raízes. Ciciou
algumas palavras
e começou a
chorar
sábado, dezembro 29, 2007
Revolução

Van Bolten
A Revolução é feita com armas. E também com algozes, crianças famintas e colheres barrocas. Anulem-se, apaguem de vez as vossas contra-indicações, respirem fundo. (...) Não, outra vez, as vértebras têm de estalar, de estalar! Abram bem essas bocarras. O meu tio disse-me uma vez enquanto nos dirigíamos para os Montes dos Castrados: "Podes chamar-me de tio, mas tens de saber manejar uma arma e um pouco de toponímia. Saber rapar as terrinas dos anfitriões também é um dom."
Morreu pouco tempo depois. O que quererá isto dizer.
quinta-feira, dezembro 27, 2007
segunda-feira, dezembro 24, 2007
quando perdes
a página do teu Manual
dos Corações Incandescentes
é deus que te faz
um favor
os que trazem o
coração suspenso
por andas
não merecem
ser confortados.
quando perguntas
"a que distância fica o horizonte?"
cai um ominoso pingo
do teu nariz
e estremeces,
é deus que te bate
ao de leve:
curva-te antes
perante o oceano,
não deves saber
coisas sem importância.
quando a tua mão gela
antes de te tocares,
é deus que afaga a
sua mão na tua.
quando te ris
do nome Eustórgio
gravado na campa ao lado,
é deus que te repreende.
traiste-te:
ainda não dominas
a dor das beatas
encurvadas
deixa-o
usar as tuas costas
para afiar
a divina espada.
segunda-feira, dezembro 17, 2007
Coffee (as champagne)+Mahler+La Joie de Vivre

sexta-feira, dezembro 14, 2007
segunda-feira, dezembro 10, 2007

Os velhos dizem que sempre
que alguém acende um cigarro com uma vela
um marinheiro morre.
Suponho que, entre marinheiros,
existe a crença de que quando se barbeiam
numa direcção estranha, um académico morre.
Então, eles tentam não se barbear.
O importante aqui é pensarmos
Uns nos outros.
Kristin Dimitrova
Trad.: a minha
sexta-feira, dezembro 07, 2007
quarta-feira, dezembro 05, 2007
A Caçada
O velho caçador sacudiu a gloriosa gaita com alguma violência, subiu para o camião e lá seguiram caminho. Estava visivelmente irritado. Conseguiu lobrigar algumas manadas de seres bravios e pensantes que ruminavam ao longo das encostas vermelhas viradas a sul.
"Sem mel nem rima, sempre quero ver como hei-de caçá-los!", pensou. Cuspiu algo reluzente pela janela fora e voltou-se de súbito para o anão:
- Vou precisar de ti. Trouxeste aquilo que te pedi?
- Sim. Mas tenho medo.
- Cala-te. Não podes mostrar medo aquele imbecil.
- Está bem - anuiu o anão.
Percorreram cerca de cinco tortuosas milhas que maltrataram bastante os rins do velho caçador, quando, finalmente, avistaram a placa de aproximação da fronteira.
O posto das portas do deserto era guardado por um jovem praça que gostava de rasgar lençóis velhos e tirar fotografias com uma máquina "à la minute" a todos os cidadãos e bestas pensantes que eram pesados pela primeira vez na báscula imperial.
- Então, e a caçada? Apanhaste algo decente desta vez? - indagou o guarda que disparava pequenos jactos de saliva sempre que proferia sibilantes.
- Nada. Estão cada vez mais espertos. Já não caiem nos engodos do costume - replicou o velho.
- Ça, c'est très mauvais, très mauvais. Et maintenant? E agora, como ficamos? - O guarda falava invariavelmente a língua de Napoleão quando tentava adoptar uma postura autoritária.
- Vou deixar aqui o meu anão mongol de barbicha branca como caução, para além do saco habitual que está cheio de belos diários comoventes. Apanhei bastantes desta vez. Vou pegar num à sorte e....
- Non, non, pas du tout! Não quero cette merde que os seres pensantes largam pelos montes!...Huum. O anão sabe ao menos cantar?
- Como um rouxinol chinês.
- Toi là! Tu aí, já cantaste alguma vez? - dirigindo-se ao anão.
- Senhor, já não canto desde a última vez que mudei uma lâmpada! - exclamou o anão que estava de pé sobre o assento - Gosto muito de mudar lâmpadas. Fico muito excitado e dá-me para cantar.
- Bon. Vamos para dentro. Este sol abrasador dá-me cabo dos miolos. Mais, dépêche-vous, allons-y!
domingo, dezembro 02, 2007
Psycho Killer

Ghisi
A seu lado, dormiam os javardos. Agarrou um, com um certo nojo reticente e, de braços estendidos, manteve-o assim erguido. Era cor-de-rosa, com uma boquita húmida de polvo e olhos de carne engelhada. Desviando a cabeça, destapou um dos seios e estendeu-o ao javardo. Teve que lhe enfiar o bico do seio na boca, e só então ele crispou os punhos e as bochechas ficaram chupadas. Engolia a golada fazendo um horrível barulho com a garganta. Aquilo não era lá muito agradável. Aliviava um bocado, mas também mutilava um pouco. Tendo esvaziado dois terços do seio, o javardo lá se deu por satisfeito e, largando as duas mãos, pôs-se a ressonar como um porco. Clementina pousou-o a seu lado e ele, sem parar de ressonar, fez umas manobras esquisitas com a boca, ainda a chupar mesmo a dormir. Tinha uma penugem nojenta na cabeça, a moleirinha batia de maneira inquietante, dava vontade de carregar no meio para aquilo parar.
O Arranca Corações, Boris Vian
Livro B, Editorial Estampa
quarta-feira, novembro 28, 2007
Trabalho de Sísifo

quinta-feira, novembro 22, 2007
quarta-feira, novembro 21, 2007
Prisão
Com as cordas partidas
e a borra da lua
Paganini fazia lagartos
sem cabeça
pela noite dentro
e punha-os na janela
quando o sol nascia
passariam anos
até que os lagartos
crescessem e
voltassem a ser dedos
chegara a hora
seguido pelo medo
conseguiu fugir
nunca olhou
para trás
"Pai"
foi o único espólio
que encontraram
no seu cárcere


























