segunda-feira, março 03, 2008

O senhor Seravat


O senhor Seravat, conceituado escritor e relatador desportivo, respeitado entre os seus pares e venerado pelo seu ímpar círculo de amigos, levou seis microcontos na testa. As causas do acidente estão ainda por apurar mas especula-se que estejam relacionadas com a queda de um regador de escrita criativa sobre Trinidad e Tobago.
O seu actual estado é reservado aos melhores entre os melhores.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

bedroom haiku

i have a messy closet
with a wasted mirror

your sleeping feathers.



três viúvas
postiças que nunca
desejaram ser v_____
foram a enterrar
com os olhos abertos

três oftalmologistas
sorridentes entregam-se
- de corpo e alma -
a prazeres cegos
surdos imundos

três argumentos
sem rimel esperam
frases muito ternas,
contendas ancestrais,
lágrimas de vinho

três sonâmbulos
cumprimentam-se
recitam "A Dama
das Camélias"
e seguem caminho:

- Notre-Dame-de-bonne-Garde et
tout aprés!


terça-feira, fevereiro 26, 2008



M. Gauguin,

Je vous en prie mon cher:
Retournez immédiatement svp. Les designers d'aujourd'hui sont très mauvais, très navrants. À ce moment, je peux payer votre ticket. Réfléchez-y bien. Salvador et ses amis sont morts.

À bientôt,
T.T.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008


(...) Chegamos por fim às terras da Capadócia. Estamos exaustos. Guardei algumas gomas de combate e estou pronto para me bater na linha da frente. Acordei com gotas da chuva que caíam pesadas sobre a tenda. Antes de metermos os pés ao caminho, Mahmud olhou para o céu e disse-me que Deus estava a lavar e bater as vestes dos monges e dos cantores sufi. A sua roupa também devia ser purificada.
- Caem então aguaceiros quentes nestas terras áridas que o dilúvio fustigou há muito, muito tempo - acrescentou sem nunca me dirigir o olhar.
Não me restam dúvidas, meu amigo: Mahmud é o turco mais estranho que já conheci. (...)


P.A.

O óscar, o pedro e o lobo

Estamos de parabéns!

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

A vendedora de cupidos


Joseph-Marie Vien

terça-feira, fevereiro 19, 2008

A Première

Todos batiam palmas na cara do espectador ao lado, Beckett passou com distinção na première. Cada um dos presentes viu a sua vida miserável a melhorar a olhos vistos, afinal era para isso que ali estavam. Contudo, e quando nada fazia prever, um dos jovens actores deu três passos à frente, pediu silêncio com as mãos no ar e bradou:
- Cavalheiros! Queria apenas dizer-vos que sois uns símios encasacados! E vós, minhas senhoras, não passam de uns camafeus! Qual de vós é que gostou realmente desta estrumeira que tive a infelicidade de representar?!
Redobrou o silêncio na sala. A seguir, virou-lhes as costas e baixou as calças, exibindo o alvo e orgulhoso traseiro. De súbito, todos se levantaram como se tivessam molas nos bancos e urraram, atirando os chapéus e os filhinhos ao ar. Num dos camarotes de primeira ordem, o cônsul, que tinha acordado em sobressalto, tentava perceber o que se passava em seu redor. O juíz desembargador, seu estimado amigo, estava atrás de si a lamber o pescoço da sua mulher que ainda estava impregnada com os restos das emoções projectadas pela peça.
-...Sua galdéria!...mas ele é meu, ouviste? Só meu! - vociferou o cônsul, meio incrédulo, meio inconsolável.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008


I truly miss Mariah. In fact, I have this Final Fantasy with her.

Willem de Kooning

é certo e sabido
que naquele Lar
doce Lar
a Morte só
vinha depois
das três

ali, porém,
sentada
à janela do quarto 12
a velha excedentária
estaria protegida -

poderia viver
em paz


sábado, fevereiro 09, 2008


Christian Schad

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

O Mestre Cremador

Antes de se levantar de manhã, o Mestre Cremador dorme a noite toda no seu pequeno quarto. Ajeita o travesseiro com umas mimosas palmadinhas e, pouco antes de adormecer, deixa cair um volumoso livro no chão num perfeito V invertido, cuja leitura arrasta penosamente durante três meses e duas semanas. Lamenta-se, desde então, por ter levado a cabo tal compra, encolhendo resignadamente os ombros caídos sempre que vira uma página. Olha-se sem resíduos de pudor ao espelho e prepara-se para aparar a barbicha grisalha. Aproxima-se da imagem reflectida e arqueia a espessa sobrancelha do olho direito com particular sobranceria. Sabe que ainda tem fortes motivos para gostar daquilo que vê. Bebe um copo de cognac enquanto afaga o dorso de Franco (Mestre gosta de pensar que Franco é seu, mas, como toda a gente sabe, os gatos não têm dono e os donos não têm donos). Às vezes, bebe dois copos. Folheia, distraído, o Diário de _.________, demorando sempre algum tempo na Necrologia, " Este tinha a pele grossa como lixa, mas arrumei-o bem". Abre a porta que o saúda com um chio, tira o velho sobretudo e sacode-o vigorosamente. Franco enrosca-se nas suas pernas. Sobe os três lanços de escadas e pára a meio para ganhar fôlego. Sente-se patético e encara o vitral em losangos coloridos do elevador. Não confia em elevadores e sempre soube que os elevadores não confiavam em ninguém.

A musa inspira o poeta


Henri Rousseau

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Gostaria de ter estômago para dirigir críticas grosseiras e censuráveis aos meus textos blogordinários, em regime de anonimato. Ou então parir comentadores heterónimos a partir da minha mater. Já tentei e simplesmente não consigo. O meu subsconsciente (ou serão as musas) emite sinais intermitentes que não sei interpretar: serão sintoma de uma lamentável rectidão ou de escassez imaginativa? Entre um sinal e outro, agarro transversalmente no inaceitável e tento explorá-lo. Nada. Nada igual a nada. Por outro lado, há a questão estética da coisa: sou aquilo a que as senhoras da idade da minha mãe chamam de "um homem bonito" e isso inibe-me dramaticamente. Vocês nem fazem ideia. No fundo, sou um vaidoso da pior espécie. Tenho espelhos em casa.

domingo, fevereiro 03, 2008


Raoul Hausmann

chegara o dia
iria ser homenageado
com alguma pompa
e circunstância:
" Guardem-no para
quem o merece, isto foi
demasiado fácil"

foi muito rude
fez esperar o júri e
os leitores e os media
que nunca deixaram de
o acariciar

(às portas da vida)
e para despesas de conversa
acabaria por confessar:
"foi muito rude
da minha parte
mas compreendam
teria de me retocar todos
os dias, embebedar-me todas
as noites para dançar
como a ginger rogers,
ser frívolo e encantador

teria

de viver
alguns
centímetros
acima dos outros
homens."


quinta-feira, janeiro 31, 2008

O teu dia útil


Anton van Dalen

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Diário de Valentina Tereshkova


_____________suponho meu pai

que em todos os cargos
e funções há altos e
baixos o comité foi bastante
generoso
este capacete
reluzente protege-me do passado e
de futuros

dissidentes

____________assumo meu pai

que queiram algo em troca porque nós
os russos não sabemos pensar de outra
forma somos nós de uma grande corda
robusta que jamais irá rebentar a Dialéctica
congela no solo da nossa pátria

___________e agora olha meu pai

o vento negro do
Báltico leva aquela frágil escuna
para Leninegrado que irá
bebê-la como um
Alka Seltzer os filhos dos teus
jovens soldados de Komi dormem
com uma rosa na boca iluminados
por candeeiros a gás até
o hálito tem
de estar
sincronizado para
a minha recepção
em glória

sábado, janeiro 26, 2008

FNM en Nulle Part Ailleurs
(
smiling with the mouth of the ocean)

David Ruhlman

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Lixo


O televisionado lixo de Nápoles catalisou uma pulsão sem precedentes no subsecretário da cultura. Largou de imediato o dossier e pediu para lhe ligarem com o sottosegretario homólogo, com a máxima urgência. De repente, baixou o auscultador: "Hum, não nos precipitemos...e as pústulas, as infecções, o mal-napolitano? Ah, que se lixe. O primeiro aprovará decerto, e amanhã, se for preciso! Um aterro cultural, é de génio, menino! De génio!".

sexta-feira, janeiro 18, 2008

quinta-feira, janeiro 17, 2008



- Muito bem. Agora a primeira linha pf.

The Gooseneck Laundry



dormem lado a lado
embalados pela
centrifugação
ou pela voz rouca
do sem-abrigo negro
que prolonga os
evangelhos
pela noite
dentro

o segredo mais
bem guardado
do Novo Mundo -

as lavandarias
chinesas
mantêm o povo
americano
cheiroso e unido.

quarta-feira, janeiro 16, 2008





Robert Bechtle

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Declaração


Callot

Eu de barba branca a tiracolo
rodeado de fumo por todos os lados vadios
menos pelo lado do mar
com um incêndio à ilharga
e dois artelhos clandestinos
eu salvo miraculosamente para te amar e curar
e esperar o teu regresso glacial e escarlate
que escrevo poemas desde que um rato
me entrou prós pulmões e só por causa disso
eu que disse: há um cancro no mapa universal
e engenheiros, geógrafos, doutores se apressaram a negá-la
eu da cintura pra cima de alcatrão e terror
e do umbigo pra baixo de quiosque chinês
eu não espero piedade obrigado


António José Forte,
Uma Faca nos Dentes
Livraria Editora, Lda.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Suplº à Viagem de Bougainville


De Diderot

Requiem Pour Un Con

N.: 19/07/1974
M.: 33/Setoutubro/2888

quarta-feira, janeiro 09, 2008



Há uma inexplicável aura divina em torno daqueles mineiros sujos da ex-URSS que saem ilesos após um colapso das galerias. Como se a vida, milagrosamente, lhes fosse reiniciada. Como se Ele fosse contra a prateleira das partituras dos Vivos e dos Mortos e, desastradamente, juntasse tudo no mesmo arquivo e se desculpasse: "Meu Deus, que a Morte seja cega e surda!".

terça-feira, janeiro 08, 2008

Sombras em Serralves



"Sombras - Um Filme Sonâmbulo" do realizador João Trabulo, sobre a obra do poeta Teixeira de Pascoaes vai ser exibida a 20 de Janeiro na Fundação de Serralves.
O filme será exibido pelas 19:00 no Auditório da Fundação de Serralves, no âmbito da programação de 2008.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Nueva Cadiz

O melhor avant-garde espanhol é importado do Alaska. Os primeiros habitantes chegaram a Nueva Cadiz (3600 hab.) por volta de 1935 e eram, na sua maioria, bandoleros, rameiras, escritores endividados e perseguidos pelos nacionalistas. A pequena cidade fronteiriça, localizada a 560 km de Juneau (capital do estado), foi recententemente notícia, devido a um enorme muro de gelo mandado erigir pelo actual mayor, Waino Alba.
- As you surely know, Canadians are a vicious people. It's our duty to protect our women and children.
O polémico muro visava repelir a crescente vaga de canadianos ávidos por desconhecimento enciclopédico e algum calor mediterrâneo.

sábado, janeiro 05, 2008



Ellen Gallagher

quinta-feira, janeiro 03, 2008

A lei foi feita para se cumprir




Informamos os nossos prezados leitores que o nosso blogue possui um espaçoso fumoir que poderá ser utilizado 24/7, 365 dias por ano.
Lembramos ainda que os não-fumadores podem aceder a este espaço, bastando solicitar no foyer o nosso capacete-campânula de vidro (normal ou fumado para maior discrição) e a respectiva botija de oxigénio (em várias cores/vários tamanhos em função do tempo de permanência previsto).

Gratos pela vossa preferência,
A Gerência

os enamorados do tédio


- os mortos do ano novo têm cálculo renal, não param de mijar granizo.
- ah? o que foi que disseste?
- disse para desinstalares esse programa, tem viroses.
- ah, ok.

- ou então estão a cremar inuits ateus.

terça-feira, janeiro 01, 2008

O enterro do velho elefante


Bernini

O pequeno grupo
de ocasião
guardava uma distância
de meia palavra
entre si. A criança de
olhar perdido
trazia um casaco
vermelho.

"Podias ter nascido
hoje, mas não!
tinhas de morrer,
porco! velho..." A matriarca
não conseguiu acabar
a frase. Deu dois passos
atrás e virou as costas
cobertas de negro.

O coveiro
era hábil,
dava golpes
certeiros, teatrais.
Um homem como este
não aceita
lições de moral de
ninguém - pensei.

Para depois parar.
Ergueu um enorme
espelho coberto de terra
preta e raízes. Ciciou
algumas palavras
e começou a
chorar
tão bem.

sábado, dezembro 29, 2007

Revolução


Van Bolten

A Revolução é feita com armas. E também com algozes, crianças famintas e colheres barrocas. Anulem-se, apaguem de vez as vossas contra-indicações, respirem fundo. (...) Não, outra vez, as vértebras têm de estalar, de estalar! Abram bem essas bocarras. O meu tio disse-me uma vez enquanto nos dirigíamos para os Montes dos Castrados: "Podes chamar-me de tio, mas tens de saber manejar uma arma e um pouco de toponímia. Saber rapar as terrinas dos anfitriões também é um dom."
Morreu pouco tempo depois. O que quererá isto dizer.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

segunda-feira, dezembro 24, 2007


quando perdes
a página do teu Manual

dos Corações Incandescentes
é deus que te faz
um favor
os que trazem o
coração suspenso
por andas
não merecem
ser confortados.
quando perguntas
"a que distância fica o horizonte?"
cai um ominoso pingo
do teu nariz
e estremeces,
é deus que te bate
ao de leve:
curva-te antes
perante o oceano,
não deves saber
coisas sem importância.
quando a tua mão gela
antes de te tocares,
é deus que afaga a
sua mão na tua.
quando te ris
do nome Eustórgio
gravado na campa ao lado,
é deus que te repreende.
traiste-te:

ainda não dominas
a dor das beatas
encurvadas

deixa-o
usar as tuas costas
para afiar
a divina espada.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Coffee (as champagne)+Mahler+La Joie de Vivre



-Say it isn't true...
-...
-Well?
-What?
-I asked you to say isn't true...
-Say what isn't true?!
-(yawn) Never-never-nevermind.

sexta-feira, dezembro 14, 2007


Cartaz para a GUM
V. Mayakovskiy, A. Rodchenko, 1923


“A todos os convidados das cidades, vilas e aldeias, não gastem mais as vossas solas – venham à GUM onde poderão encontrar tudo – rápido, impecável e barato!”

segunda-feira, dezembro 10, 2007




O
s velhos dizem que sempre
que alguém acende um cigarro com uma vela
um marinheiro morre.

Suponho que, entre marinheiros,
existe a crença de que quando se barbeiam
numa direcção estranha, um académico morre.

Então, eles tentam não se barbear.
O importante aqui é pensarmos
Uns nos outros.

Kristin Dimitrova
Trad.: a minha
- Vinte e poucos anos depois ainda estou a tentar aprender o alfabeto. A isto chama-se um erro de palmatória.

sexta-feira, dezembro 07, 2007


Boris Mihalik

quarta-feira, dezembro 05, 2007

A Caçada


O velho caçador sacudiu a gloriosa gaita com alguma violência, subiu para o camião e lá seguiram caminho. Estava visivelmente irritado. Conseguiu lobrigar algumas manadas de seres bravios e pensantes que ruminavam ao longo das encostas vermelhas viradas a sul.
"Sem mel nem rima, sempre quero ver como hei-de caçá-los!", pensou. Cuspiu algo reluzente pela janela fora e voltou-se de súbito para o anão:
- Vou precisar de ti. Trouxeste aquilo que te pedi?
- Sim. Mas tenho medo.
- Cala-te. Não podes mostrar medo aquele imbecil.
- Está bem - anuiu o anão.
Percorreram cerca de cinco tortuosas milhas que maltrataram bastante os rins do velho caçador, quando, finalmente, avistaram a placa de aproximação da fronteira.
O posto das portas do deserto era guardado por um jovem praça que gostava de rasgar lençóis velhos e tirar fotografias com uma máquina "à la minute" a todos os cidadãos e bestas pensantes que eram pesados
pela primeira vez na báscula imperial.
- Então, e a caçada? Apanhaste algo decente desta vez? - indagou o guarda que disparava pequenos jactos de saliva sempre que proferia sibilantes.
- Nada. Estão cada vez mais espertos. Já não caiem nos engodos do costume - replicou o velho.
- Ça, c'est très mauvais, très mauvais. Et maintenant? E agora, como ficamos? - O guarda falava invariavelmente a língua de Napoleão quando tentava adoptar uma postura autoritária.
- Vou deixar aqui o meu anão mongol de barbicha branca como caução, para além do saco habitual que está cheio de belos diários comoventes. Apanhei bastantes desta vez. Vou pegar num à sorte e....
-
Non, non, pas du tout! Não quero cette merde que os seres pensantes largam pelos montes!...Huum. O anão sabe ao menos cantar?
- Como um rouxinol chinês.
- Toi là! Tu aí, já cantaste alguma vez? - dirigindo-se ao anão.
- Senhor, já não canto desde a última vez que mudei uma lâmpada! - exclamou o anão que estava de pé sobre o assento - Gosto muito de mudar lâmpadas. Fico muito excitado e dá-me para cantar.
- Bon. Vamos para dentro. Este sol abrasador dá-me cabo dos miolos. Mais, dépêche-vous, allons-y!

domingo, dezembro 02, 2007

Psycho Killer

Casaste-te com ele, e agora. Sai para a rua, entra na padaria do bairro e toca no ombro do primeiro homem que está à tua frente, na fila para o pão: parece-me um bom partido, a ti não?

Ghisi


A seu lado, dormiam os javardos. Agarrou um, com um certo nojo reticente e, de braços estendidos, manteve-o assim erguido. Era cor-de-rosa, com uma boquita húmida de polvo e olhos de carne engelhada. Desviando a cabeça, destapou um dos seios e estendeu-o ao javardo. Teve que lhe enfiar o bico do seio na boca, e só então ele crispou os punhos e as bochechas ficaram chupadas. Engolia a golada fazendo um horrível barulho com a garganta. Aquilo não era lá muito agradável. Aliviava um bocado, mas também mutilava um pouco. Tendo esvaziado dois terços do seio, o javardo lá se deu por satisfeito e, largando as duas mãos, pôs-se a ressonar como um porco. Clementina pousou-o a seu lado e ele, sem parar de ressonar, fez umas manobras esquisitas com a boca, ainda a chupar mesmo a dormir. Tinha uma penugem nojenta na cabeça, a moleirinha batia de maneira inquietante, dava vontade de carregar no meio para aquilo parar.


O Arranca Corações, Boris Vian
Livro B, Editorial Estampa

quarta-feira, novembro 28, 2007

Trabalho de Sísifo



O grande rochedo de mármore que nunca deixará de rolar pela montanha abaixo. Será sempre assim. Não há qualquer tipo de heroísmo aqui. Apenas um longo caminho fatalista que julgo contornar com palavras e pequenos prazeres que actuam como sedativos ou estimulantes. Ao longo desse caminho, senhoras de preto e meninas com um ar intrigado dão-me de beber. "O caminho é só um". Uma angústia agridoce percorre-me o corpo, o prazer do recomeço, regado e fortalecido pelo tempo. No entanto, sou mais forte do que Deus e mais feliz do que os pobres coitados que se iludem com a cenoura da imortalidade.

quinta-feira, novembro 22, 2007


Asger Jorn

quarta-feira, novembro 21, 2007

Prisão



Com as cordas partidas
e a borra da lua
Paganini fazia lagartos
sem cabeça
pela noite dentro
e punha-os na janela
quando o sol nascia

passariam anos
até que os lagartos
crescessem e
voltassem a ser dedos

chegara a hora

seguido pelo medo
conseguiu fugir
nunca olhou
para trás

"Pai"
foi o único espólio
que encontraram
no seu cárcere

quinta-feira, novembro 15, 2007

terça-feira, novembro 13, 2007



a árvore do meu jardim
chama-se Redenção

os frutos que irão cair maduros
querem
ser Poesia
antes de caírem no solo

por força da minha gravidade

sexta-feira, novembro 09, 2007



Son House (1902-1988)

terça-feira, novembro 06, 2007

O Monsenhor



Era frequente procurarem Monsenhor apenas para verem de perto a figura que andava na boca do povo naqueles dias. Monsenhor nunca se furtava de receber essas pesssoas em sua casa, embora não se sentisse particularmente envaidecido por tal curiosidade. Naturalmente, o velho caseiro de Monsenhor não tinha mãos a medir com tantas oblatas e lembranças que se acumulavam nos corredores. Mas Monsenhor não era um clérigo comum. Alimentava a fugaz esperança de poder vir a conhecer alguém extraordinário, alguma ovelha irreverente que se destacasse daquele monótono rebanho. Quando não estava a celebrar eucaristias, Monsenhor fazia questão de empregar a sua língua mãe, o romanche, o que lhe conferia um ar ainda mais distinto e reverencial. A esmagadora maioria dos fiéis limitava-se a acenar com a cabeça a tudo aquilo que Monsenhor proferia. Porém, Monsenhor era selectivo quando se dedicava ao sagrado sacramento da Confissão. Monsenhor gostava de cheirar rapé enquanto ouvia a ladainha dos seus penitentes e de cantarolar baixinho a Tosca que brotava do velho gramofone que guardava no confessionário. Os seus amados pais ofereceram a relíquia antes de Monsenhor partir para a sua primeira missão no Congo. Em boa verdade, Monsenhor segregava devotos para a Confissão: às Terças, ouvia apenas jovens poetas cujo primeiro nome fosse Tristan ou Hans, para além de todos os outros bastardos que comprovassem a sua condição; às Quintas, sentenciava as jovens mamãs da região, cães e outros quadrúpedes que faziam fila em torno da velha igreja. Decerto compreenderão que era extremamente penoso para Monsenhor libertar-se de velhos hábitos dadaístas que carregava consigo desde os tempos atribulados da sua mocidade. Era esta a sua verdadeira vocação.

domingo, novembro 04, 2007

O Verão vai embora

O cardo adula com penugem tenra

A papoila arroja de si o vestido
como uma grávida

A macela desfia
pelos botões

A chicória fecha-se
e encanece




"Poemas", Reiner Kunze
Trad.: Luiz Videira e Renato Correia
Paisagem Editora, 1984

Minguante nº 8

quarta-feira, outubro 31, 2007

- There's something strange in the neighborhood.
- Who you ya gonna call?
- The ghostbuster.

Morte


James Ensor

Mais um pobre solitário que não resistiu ao seu convite. Os cães viram-na e desataram a ladrar, completamente desvairados. O vizinho, o Vieira, estranhou o rádio a tocar noite e dia, desde sábado, e resolveu chamar a polícia. Eu tinha acabado de jantar e regressava a casa. Os bombeiros não conseguiam passar a ambulância pela rua afunilada. Os pobres diabos teriam de trazer o corpo à força de braços durante uns penosos trezentos metros. 23:35h. Os agentes constataram a ocorrência e foram-se embora. Acompanhei o estranho cortejo dos dois voluntários com o cadáver coberto com um lençol branco em cima da padiola, os tipos não sabiam o caminho de volta e o morto não era grande ajuda. Passámos pelo café manhoso. O quarteto da sueca continuou o seu jogo de sinaléticas, desviando-se em câmara lenta das balas de Ultramar que eram disparadas da televisão. Também eles já estavam mortos há muito.

domingo, outubro 28, 2007

isto aconteceu-me
uma vez:
uma jovem magiar
entrou na minha boca
agarrou-se
ao meu coração
e dançou dançou
rodopiando
com a língua

desviei o olhar:
a minha cabeça
cortada no
ecrã do bar
escorria
pelo balcão

os homens riam alto
e as senhoras
seguravam
as suas bocas

em casa
a língua áspera,
hermética de
Celan lambia-me
as feridas
enquanto dormia

quarta-feira, outubro 24, 2007

Xkcd


terça-feira, outubro 23, 2007

O Pássaro


Marc Chagall


O pássaro
Lança-me um olhar furtivo
E em seguida
Lança-se do ramo
Desaparece
De imediato
Como que a dizer
Há muito tempo os humanos apanharam uma terrível doença
Que não lhes deixa voar

Hiroshi Kawasaki
Trad.: a minha a partir da versão inglesa

sexta-feira, outubro 19, 2007

A Vaca



uma vaca
distinta
e sagrada
passeia
hindulente
pela Rua das Flores
bebe águas furtadas
e rumina ferro forjado
das varandas
do nascer
ao pôr-do-sol

não se sente à vontade
com a líbido
dos alfarrabistas
que a desejam
mais do que a
história da tauromaquia
do ribatejo,
lombada em pele,
Gráfica Portuguesa, 1948

não me atrevo
a tocá-la
digere
ainda tísicos
e tóxicos
que regurgita
com alguma
sofreguidão

a vaca morre
com a cidade
a altas horas
e ressuscita
no dia seguinte:
o super-herói local
já na casa dos 40
sente-se impotente
e não sabe o que fazer
o super-herói local
parece uma velha duquesa
falida

mas sorridente

quarta-feira, outubro 17, 2007

Não me canso de apregoar: tenham sempre uma bíblia à mão de semear. Nunca se sabe.

terça-feira, outubro 16, 2007

Eu não sou vermelho



Todos os patrões deveriam exercer a nobre função de porteiro. Todas as manhãs, a porta da empresa deveria ser aberta pela entidade patronal que deveria desejar um genuíno e sonoro bom dia a todos os funcionários (ou trabalhadores, consoante as vossas coordenadas partidárias). Valorização profissional. Bem-estar no trabalho. Em vez de Volvos ou BMWs, os administradores deveriam ter Renaults 4Ls ou Autobianchis. Imagem vincada, estilizada, redução de custos. Em vez dos torneios de golfe aos fins-de-semana, deveriam apostar nos torneios de pokemon ou magic: the gathering. Inteligência, rapidez de raciocínio. Em vez do sub-inglês comercial corrente, deveriam falar fluentemente bosquímano ou lojban - requisito obrigatório. Também poderiam assobiar Ligeti no wc em vez de perguntarem pela evolução do último projecto enquanto urinam.
Sim. E que tal aumentos ou passar aos quadros?
Não pedia tanto.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Caçadores


Banksy

sexta-feira, outubro 12, 2007

Bastava largarmos tudo agora, neste preciso instante, um minuto de hesitação seria tarde demais, bastava largarmos os nossos postos predefinidos e abalar. É certo que alguns de nós, os mais antigos, ofereciam resistência, sentiriam dor, têm os movimentos demasiado trôpegos, maquinais, mas bastava um grito marcial, uma voz líder e determinada, para quebrá-los. Alguém que ainda não conheço sugere um sacrifício para perpetuar o momento e seduzir os deuses da Fortuna. Ou pretende então que eu reveja algum documento urgente e inútil. Concordo de imediato, não há tempo a perder.
- O estagiário, porque não? Pouco ou nada sabe, não há laços ainda.
Não consigo lembrar-me de um cenário mais dramático do que um moderno openspace abandonado, a tecnologia desactivada, o bolor dos snacks em cima das secretárias, o pó e a natureza a reconquistarem o que é seu em cada canto. Tarkovsky ressuscitará ao terceiro dia e continuará a rodar o seu filme terminal. Não pode ser assim tão difícil.

quinta-feira, outubro 11, 2007

terça-feira, outubro 09, 2007

Born Magazine

Se reencaminhar estas missivas em branco para, pelo menos, dez pessoas, algo de maravilhoso irá acontecer na sua vida.

A natureza verdadeira revela-se no género epistolar, o papel liberta, desencarcera, o papel desperta o inconsciente, a seiva reconhece o sangue, a árvore cruza-se com homem e dá fruto.

Enfim, sigam o conselho da Born Magazine, explore, regenere-se.

quarta-feira, outubro 03, 2007



A Choldra

It's pure Madness, again and again.

"(...) A palavra «portugalizar» não é uma calunia. A Inglaterra guia-nos pelo labirinto da política internacional como um cicerone da Cook; a Inglaterra zanga-se, põe-nos de castigo e dá-nos torrões de assucar, em forma de "visita de esquadra" como os tutores fazem aos pupilos, segunda as suas travessuras ou os seus juizos. A Inglaterra faz mais: a Inglaterra, atravez "o professor" que a representa em Lisboa, escreve cartas aos jornais, premiando ou reprovando as campanhas que no jornalismo se iniciem.(...)"

Excerto retirado do periódico "A Choldra #1", 1926, disponível na Hemeroteca Digital

terça-feira, outubro 02, 2007



Não é costume neste blogue anunciar este tipo de eventos, porque, simplesmente, não é prática corrente nesta cidade. Há que louvar, divulgar e continuar.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Lubok



- Por favor afaste-se de mim, nada tenho a tratar consigo. Acercou-se de mim, agarrou no meu traseiro, assim não posso cozer o meu blini*. Sou contra os jogos de apalpa-o-cu, ainda vou arder por causa dos blinis. Espere, já sei: vou partir a minha pá na sua cabeça. Poderei até sentir vergonha ou pesar, mas juro-vos que irá se arrepender. Vossa senhoria não descansa, deixe-me em paz ou estrago-lhe a jaqueta.
- Está à vontade, bate-me se é esse o teu desejo, mas deixa-me apalpar o teu cu...Parece-me tão apetecível, o teu firme e redondo traseireinho. Esperei que todos partissem, enfim sós. Podes bater-me com o bastão, não te vou impedir, não importa. Tem dó de mim, ama-me , vem para a cama comigo.

*blini: pequena panqueca russa à base de levedura e trigo-sarraceno.

Trad.: a minha, composta a partir da versão inglesa.


"Por favor, Afaste-se de Mim" é um lubok de uma cena cómica e garbosa. Ilustra o diálogo "cortês" entre duas personagens em pleno galanteio, temperado por algumas expressões grosseiras.