
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Lixo

O televisionado lixo de Nápoles catalisou uma pulsão sem precedentes no subsecretário da cultura. Largou de imediato o dossier e pediu para lhe ligarem com o sottosegretario homólogo, com a máxima urgência. De repente, baixou o auscultador: "Hum, não nos precipitemos...e as pústulas, as infecções, o mal-napolitano? Ah, que se lixe. O primeiro aprovará decerto, e amanhã, se for preciso! Um aterro cultural, é de génio, menino! De génio!".
sexta-feira, janeiro 18, 2008
quinta-feira, janeiro 17, 2008
The Gooseneck Laundry
quarta-feira, janeiro 16, 2008
sexta-feira, janeiro 11, 2008
Declaração

Callot
Eu de barba branca a tiracolo
rodeado de fumo por todos os lados vadios
menos pelo lado do mar
com um incêndio à ilharga
e dois artelhos clandestinos
eu salvo miraculosamente para te amar e curar
e esperar o teu regresso glacial e escarlate
que escrevo poemas desde que um rato
me entrou prós pulmões e só por causa disso
eu que disse: há um cancro no mapa universal
e engenheiros, geógrafos, doutores se apressaram a negá-la
eu da cintura pra cima de alcatrão e terror
e do umbigo pra baixo de quiosque chinês
eu não espero piedade obrigado
António José Forte,
Uma Faca nos Dentes
Livraria Editora, Lda.
quarta-feira, janeiro 09, 2008

Há uma inexplicável aura divina em torno daqueles mineiros sujos da ex-URSS que saem ilesos após um colapso das galerias. Como se a vida, milagrosamente, lhes fosse reiniciada. Como se Ele fosse contra a prateleira das partituras dos Vivos e dos Mortos e, desastradamente, juntasse tudo no mesmo arquivo e se desculpasse: "Meu Deus, que a Morte seja cega e surda!".
terça-feira, janeiro 08, 2008
Sombras em Serralves

"Sombras - Um Filme Sonâmbulo" do realizador João Trabulo, sobre a obra do poeta Teixeira de Pascoaes vai ser exibida a 20 de Janeiro na Fundação de Serralves.
O filme será exibido pelas 19:00 no Auditório da Fundação de Serralves, no âmbito da programação de 2008.
segunda-feira, janeiro 07, 2008
Nueva Cadiz
O melhor avant-garde espanhol é importado do Alaska. Os primeiros habitantes chegaram a Nueva Cadiz (3600 hab.) por volta de 1935 e eram, na sua maioria, bandoleros, rameiras, escritores endividados e perseguidos pelos nacionalistas. A pequena cidade fronteiriça, localizada a 560 km de Juneau (capital do estado), foi recententemente notícia, devido a um enorme muro de gelo mandado erigir pelo actual mayor, Waino Alba.
- As you surely know, Canadians are a vicious people. It's our duty to protect our women and children.
O polémico muro visava repelir a crescente vaga de canadianos ávidos por desconhecimento enciclopédico e algum calor mediterrâneo.
- As you surely know, Canadians are a vicious people. It's our duty to protect our women and children.
O polémico muro visava repelir a crescente vaga de canadianos ávidos por desconhecimento enciclopédico e algum calor mediterrâneo.
sábado, janeiro 05, 2008
quinta-feira, janeiro 03, 2008
A lei foi feita para se cumprir

Informamos os nossos prezados leitores que o nosso blogue possui um espaçoso fumoir que poderá ser utilizado 24/7, 365 dias por ano.
Lembramos ainda que os não-fumadores podem aceder a este espaço, bastando solicitar no foyer o nosso capacete-campânula de vidro (normal ou fumado para maior discrição) e a respectiva botija de oxigénio (em várias cores/vários tamanhos em função do tempo de permanência previsto).
Lembramos ainda que os não-fumadores podem aceder a este espaço, bastando solicitar no foyer o nosso capacete-campânula de vidro (normal ou fumado para maior discrição) e a respectiva botija de oxigénio (em várias cores/vários tamanhos em função do tempo de permanência previsto).
Gratos pela vossa preferência,
A Gerência
os enamorados do tédio
- os mortos do ano novo têm cálculo renal, não param de mijar granizo.
- ah? o que foi que disseste?
- disse para desinstalares esse programa, tem viroses.
- ah, ok.
- ou então estão a cremar inuits ateus.
terça-feira, janeiro 01, 2008
O enterro do velho elefante
Bernini
O pequeno grupo
de ocasião
guardava uma distância
de meia palavra
entre si. A criança de
olhar perdido
trazia um casaco
vermelho.
"Podias ter nascido
hoje, mas não!
tinhas de morrer,
porco! velho..." A matriarca
não conseguiu acabar
a frase. Deu dois passos
atrás e virou as costas
cobertas de negro.
O coveiro
era hábil,
dava golpes
certeiros, teatrais.
Um homem como este
não aceita
lições de moral de
ninguém - pensei.
Para depois parar.
Ergueu um enorme
espelho coberto de terra
preta e raízes. Ciciou
algumas palavras
e começou a
chorar
de ocasião
guardava uma distância
de meia palavra
entre si. A criança de
olhar perdido
trazia um casaco
vermelho.
"Podias ter nascido
hoje, mas não!
tinhas de morrer,
porco! velho..." A matriarca
não conseguiu acabar
a frase. Deu dois passos
atrás e virou as costas
cobertas de negro.
O coveiro
era hábil,
dava golpes
certeiros, teatrais.
Um homem como este
não aceita
lições de moral de
ninguém - pensei.
Para depois parar.
Ergueu um enorme
espelho coberto de terra
preta e raízes. Ciciou
algumas palavras
e começou a
chorar
tão bem.
sábado, dezembro 29, 2007
Revolução

Van Bolten
A Revolução é feita com armas. E também com algozes, crianças famintas e colheres barrocas. Anulem-se, apaguem de vez as vossas contra-indicações, respirem fundo. (...) Não, outra vez, as vértebras têm de estalar, de estalar! Abram bem essas bocarras. O meu tio disse-me uma vez enquanto nos dirigíamos para os Montes dos Castrados: "Podes chamar-me de tio, mas tens de saber manejar uma arma e um pouco de toponímia. Saber rapar as terrinas dos anfitriões também é um dom."
Morreu pouco tempo depois. O que quererá isto dizer.
quinta-feira, dezembro 27, 2007
segunda-feira, dezembro 24, 2007
quando perdes
a página do teu Manual
dos Corações Incandescentes
é deus que te faz
um favor
os que trazem o
coração suspenso
por andas
não merecem
ser confortados.
quando perguntas
"a que distância fica o horizonte?"
cai um ominoso pingo
do teu nariz
e estremeces,
é deus que te bate
ao de leve:
curva-te antes
perante o oceano,
não deves saber
coisas sem importância.
quando a tua mão gela
antes de te tocares,
é deus que afaga a
sua mão na tua.
quando te ris
do nome Eustórgio
gravado na campa ao lado,
é deus que te repreende.
traiste-te:
ainda não dominas
a dor das beatas
encurvadas
deixa-o
usar as tuas costas
para afiar
a divina espada.
segunda-feira, dezembro 17, 2007
Coffee (as champagne)+Mahler+La Joie de Vivre

-Say it isn't true...
-...
-Well?
-What?
-I asked you to say isn't true...
-Say what isn't true?!
-(yawn) Never-never-nevermind.
sexta-feira, dezembro 14, 2007
segunda-feira, dezembro 10, 2007

Os velhos dizem que sempre
que alguém acende um cigarro com uma vela
um marinheiro morre.
Suponho que, entre marinheiros,
existe a crença de que quando se barbeiam
numa direcção estranha, um académico morre.
Então, eles tentam não se barbear.
O importante aqui é pensarmos
Uns nos outros.
Kristin Dimitrova
Trad.: a minha
sexta-feira, dezembro 07, 2007
quarta-feira, dezembro 05, 2007
A Caçada
O velho caçador sacudiu a gloriosa gaita com alguma violência, subiu para o camião e lá seguiram caminho. Estava visivelmente irritado. Conseguiu lobrigar algumas manadas de seres bravios e pensantes que ruminavam ao longo das encostas vermelhas viradas a sul.
"Sem mel nem rima, sempre quero ver como hei-de caçá-los!", pensou. Cuspiu algo reluzente pela janela fora e voltou-se de súbito para o anão:
- Vou precisar de ti. Trouxeste aquilo que te pedi?
- Sim. Mas tenho medo.
- Cala-te. Não podes mostrar medo aquele imbecil.
- Está bem - anuiu o anão.
Percorreram cerca de cinco tortuosas milhas que maltrataram bastante os rins do velho caçador, quando, finalmente, avistaram a placa de aproximação da fronteira.
O posto das portas do deserto era guardado por um jovem praça que gostava de rasgar lençóis velhos e tirar fotografias com uma máquina "à la minute" a todos os cidadãos e bestas pensantes que eram pesados pela primeira vez na báscula imperial.
- Então, e a caçada? Apanhaste algo decente desta vez? - indagou o guarda que disparava pequenos jactos de saliva sempre que proferia sibilantes.
- Nada. Estão cada vez mais espertos. Já não caiem nos engodos do costume - replicou o velho.
- Ça, c'est très mauvais, très mauvais. Et maintenant? E agora, como ficamos? - O guarda falava invariavelmente a língua de Napoleão quando tentava adoptar uma postura autoritária.
- Vou deixar aqui o meu anão mongol de barbicha branca como caução, para além do saco habitual que está cheio de belos diários comoventes. Apanhei bastantes desta vez. Vou pegar num à sorte e....
- Non, non, pas du tout! Não quero cette merde que os seres pensantes largam pelos montes!...Huum. O anão sabe ao menos cantar?
- Como um rouxinol chinês.
- Toi là! Tu aí, já cantaste alguma vez? - dirigindo-se ao anão.
- Senhor, já não canto desde a última vez que mudei uma lâmpada! - exclamou o anão que estava de pé sobre o assento - Gosto muito de mudar lâmpadas. Fico muito excitado e dá-me para cantar.
- Bon. Vamos para dentro. Este sol abrasador dá-me cabo dos miolos. Mais, dépêche-vous, allons-y!
domingo, dezembro 02, 2007
Psycho Killer
Casaste-te com ele, e agora. Sai para a rua, entra na padaria do bairro e toca no ombro do primeiro homem que está à tua frente, na fila para o pão: parece-me um bom partido, a ti não?

Ghisi
A seu lado, dormiam os javardos. Agarrou um, com um certo nojo reticente e, de braços estendidos, manteve-o assim erguido. Era cor-de-rosa, com uma boquita húmida de polvo e olhos de carne engelhada. Desviando a cabeça, destapou um dos seios e estendeu-o ao javardo. Teve que lhe enfiar o bico do seio na boca, e só então ele crispou os punhos e as bochechas ficaram chupadas. Engolia a golada fazendo um horrível barulho com a garganta. Aquilo não era lá muito agradável. Aliviava um bocado, mas também mutilava um pouco. Tendo esvaziado dois terços do seio, o javardo lá se deu por satisfeito e, largando as duas mãos, pôs-se a ressonar como um porco. Clementina pousou-o a seu lado e ele, sem parar de ressonar, fez umas manobras esquisitas com a boca, ainda a chupar mesmo a dormir. Tinha uma penugem nojenta na cabeça, a moleirinha batia de maneira inquietante, dava vontade de carregar no meio para aquilo parar.
O Arranca Corações, Boris Vian
Livro B, Editorial Estampa
quarta-feira, novembro 28, 2007
Trabalho de Sísifo

O grande rochedo de mármore que nunca deixará de rolar pela montanha abaixo. Será sempre assim. Não há qualquer tipo de heroísmo aqui. Apenas um longo caminho fatalista que julgo contornar com palavras e pequenos prazeres que actuam como sedativos ou estimulantes. Ao longo desse caminho, senhoras de preto e meninas com um ar intrigado dão-me de beber. "O caminho é só um". Uma angústia agridoce percorre-me o corpo, o prazer do recomeço, regado e fortalecido pelo tempo. No entanto, sou mais forte do que Deus e mais feliz do que os pobres coitados que se iludem com a cenoura da imortalidade.
quinta-feira, novembro 22, 2007
quarta-feira, novembro 21, 2007
Prisão
Com as cordas partidas
e a borra da lua
Paganini fazia lagartos
sem cabeça
pela noite dentro
e punha-os na janela
quando o sol nascia
passariam anos
até que os lagartos
crescessem e
voltassem a ser dedos
chegara a hora
seguido pelo medo
conseguiu fugir
nunca olhou
para trás
"Pai"
foi o único espólio
que encontraram
no seu cárcere
quinta-feira, novembro 15, 2007
terça-feira, novembro 13, 2007
sexta-feira, novembro 09, 2007
terça-feira, novembro 06, 2007
O Monsenhor

Era frequente procurarem Monsenhor apenas para verem de perto a figura que andava na boca do povo naqueles dias. Monsenhor nunca se furtava de receber essas pesssoas em sua casa, embora não se sentisse particularmente envaidecido por tal curiosidade. Naturalmente, o velho caseiro de Monsenhor não tinha mãos a medir com tantas oblatas e lembranças que se acumulavam nos corredores. Mas Monsenhor não era um clérigo comum. Alimentava a fugaz esperança de poder vir a conhecer alguém extraordinário, alguma ovelha irreverente que se destacasse daquele monótono rebanho. Quando não estava a celebrar eucaristias, Monsenhor fazia questão de empregar a sua língua mãe, o romanche, o que lhe conferia um ar ainda mais distinto e reverencial. A esmagadora maioria dos fiéis limitava-se a acenar com a cabeça a tudo aquilo que Monsenhor proferia. Porém, Monsenhor era selectivo quando se dedicava ao sagrado sacramento da Confissão. Monsenhor gostava de cheirar rapé enquanto ouvia a ladainha dos seus penitentes e de cantarolar baixinho a Tosca que brotava do velho gramofone que guardava no confessionário. Os seus amados pais ofereceram a relíquia antes de Monsenhor partir para a sua primeira missão no Congo. Em boa verdade, Monsenhor segregava devotos para a Confissão: às Terças, ouvia apenas jovens poetas cujo primeiro nome fosse Tristan ou Hans, para além de todos os outros bastardos que comprovassem a sua condição; às Quintas, sentenciava as jovens mamãs da região, cães e outros quadrúpedes que faziam fila em torno da velha igreja. Decerto compreenderão que era extremamente penoso para Monsenhor libertar-se de velhos hábitos dadaístas que carregava consigo desde os tempos atribulados da sua mocidade. Era esta a sua verdadeira vocação.
domingo, novembro 04, 2007
O Verão vai embora
quarta-feira, outubro 31, 2007
Morte

James Ensor
Mais um pobre solitário que não resistiu ao seu convite. Os cães viram-na e desataram a ladrar, completamente desvairados. O vizinho, o Vieira, estranhou o rádio a tocar noite e dia, desde sábado, e resolveu chamar a polícia. Eu tinha acabado de jantar e regressava a casa. Os bombeiros não conseguiam passar a ambulância pela rua afunilada. Os pobres diabos teriam de trazer o corpo à força de braços durante uns penosos trezentos metros. 23:35h. Os agentes constataram a ocorrência e foram-se embora. Acompanhei o estranho cortejo dos dois voluntários com o cadáver coberto com um lençol branco em cima da padiola, os tipos não sabiam o caminho de volta e o morto não era grande ajuda. Passámos pelo café manhoso. O quarteto da sueca continuou o seu jogo de sinaléticas, desviando-se em câmara lenta das balas de Ultramar que eram disparadas da televisão. Também eles já estavam mortos há muito.
domingo, outubro 28, 2007
isto aconteceu-me
uma vez:
uma jovem magiar
entrou na minha boca
agarrou-se
ao meu coração
e dançou dançou
rodopiando
com a língua
desviei o olhar:
a minha cabeça
cortada no
ecrã do bar
escorria
pelo balcão
os homens riam alto
e as senhoras
seguravam
as suas bocas
em casa
a língua áspera,
hermética de
Celan lambia-me
as feridas
enquanto dormia
uma vez:
uma jovem magiar
entrou na minha boca
agarrou-se
ao meu coração
e dançou dançou
rodopiando
com a língua
desviei o olhar:
a minha cabeça
cortada no
ecrã do bar
escorria
pelo balcão
os homens riam alto
e as senhoras
seguravam
as suas bocas
em casa
a língua áspera,
hermética de
Celan lambia-me
as feridas
enquanto dormia
quarta-feira, outubro 24, 2007
terça-feira, outubro 23, 2007
O Pássaro
sexta-feira, outubro 19, 2007
A Vaca

uma vaca
distinta
distinta
e sagrada
passeia
hindulente
pela Rua das Flores
bebe águas furtadas
e rumina ferro forjado
das varandas
do nascer
passeia
hindulente
pela Rua das Flores
bebe águas furtadas
e rumina ferro forjado
das varandas
do nascer
ao pôr-do-sol
não se sente à vontade
com a líbido
dos alfarrabistas
que a desejam
mais do que a
história da tauromaquia
do ribatejo,
lombada em pele,
Gráfica Portuguesa, 1948
não me atrevo
não se sente à vontade
com a líbido
dos alfarrabistas
que a desejam
mais do que a
história da tauromaquia
do ribatejo,
lombada em pele,
Gráfica Portuguesa, 1948
não me atrevo
a tocá-la
digere
ainda tísicos
e tóxicos
e tóxicos
que regurgita
com alguma
com alguma
sofreguidão
a vaca morre
com a cidade
a altas horas
e ressuscita
no dia seguinte:
o super-herói local
já na casa dos 40
sente-se impotente
e não sabe o que fazer
a vaca morre
com a cidade
a altas horas
e ressuscita
no dia seguinte:
o super-herói local
já na casa dos 40
sente-se impotente
e não sabe o que fazer
o super-herói local
parece uma velha duquesa
falida
mas sorridente
falida
mas sorridente
quarta-feira, outubro 17, 2007
terça-feira, outubro 16, 2007
Eu não sou vermelho

Todos os patrões deveriam exercer a nobre função de porteiro. Todas as manhãs, a porta da empresa deveria ser aberta pela entidade patronal que deveria desejar um genuíno e sonoro bom dia a todos os funcionários (ou trabalhadores, consoante as vossas coordenadas partidárias). Valorização profissional. Bem-estar no trabalho. Em vez de Volvos ou BMWs, os administradores deveriam ter Renaults 4Ls ou Autobianchis. Imagem vincada, estilizada, redução de custos. Em vez dos torneios de golfe aos fins-de-semana, deveriam apostar nos torneios de pokemon ou magic: the gathering. Inteligência, rapidez de raciocínio. Em vez do sub-inglês comercial corrente, deveriam falar fluentemente bosquímano ou lojban - requisito obrigatório. Também poderiam assobiar Ligeti no wc em vez de perguntarem pela evolução do último projecto enquanto urinam.
Sim. E que tal aumentos ou passar aos quadros?
Não pedia tanto.
Sim. E que tal aumentos ou passar aos quadros?
Não pedia tanto.
segunda-feira, outubro 15, 2007
sexta-feira, outubro 12, 2007
Bastava largarmos tudo agora, neste preciso instante, um minuto de hesitação seria tarde demais, bastava largarmos os nossos postos predefinidos e abalar. É certo que alguns de nós, os mais antigos, ofereciam resistência, sentiriam dor, têm os movimentos demasiado trôpegos, maquinais, mas bastava um grito marcial, uma voz líder e determinada, para quebrá-los. Alguém que ainda não conheço sugere um sacrifício para perpetuar o momento e seduzir os deuses da Fortuna. Ou pretende então que eu reveja algum documento urgente e inútil. Concordo de imediato, não há tempo a perder.
- O estagiário, porque não? Pouco ou nada sabe, não há laços ainda.
Não consigo lembrar-me de um cenário mais dramático do que um moderno openspace abandonado, a tecnologia desactivada, o bolor dos snacks em cima das secretárias, o pó e a natureza a reconquistarem o que é seu em cada canto. Tarkovsky ressuscitará ao terceiro dia e continuará a rodar o seu filme terminal. Não pode ser assim tão difícil.
- O estagiário, porque não? Pouco ou nada sabe, não há laços ainda.
Não consigo lembrar-me de um cenário mais dramático do que um moderno openspace abandonado, a tecnologia desactivada, o bolor dos snacks em cima das secretárias, o pó e a natureza a reconquistarem o que é seu em cada canto. Tarkovsky ressuscitará ao terceiro dia e continuará a rodar o seu filme terminal. Não pode ser assim tão difícil.
quinta-feira, outubro 11, 2007
terça-feira, outubro 09, 2007
Born Magazine
Se reencaminhar estas missivas em branco para, pelo menos, dez pessoas, algo de maravilhoso irá acontecer na sua vida.
A natureza verdadeira revela-se no género epistolar, o papel liberta, desencarcera, o papel desperta o inconsciente, a seiva reconhece o sangue, a árvore cruza-se com homem e dá fruto.
Enfim, sigam o conselho da Born Magazine, explore, regenere-se.
A natureza verdadeira revela-se no género epistolar, o papel liberta, desencarcera, o papel desperta o inconsciente, a seiva reconhece o sangue, a árvore cruza-se com homem e dá fruto.
Enfim, sigam o conselho da Born Magazine, explore, regenere-se.
quarta-feira, outubro 03, 2007

A Choldra
It's pure Madness, again and again.
"(...) A palavra «portugalizar» não é uma calunia. A Inglaterra guia-nos pelo labirinto da política internacional como um cicerone da Cook; a Inglaterra zanga-se, põe-nos de castigo e dá-nos torrões de assucar, em forma de "visita de esquadra" como os tutores fazem aos pupilos, segunda as suas travessuras ou os seus juizos. A Inglaterra faz mais: a Inglaterra, atravez "o professor" que a representa em Lisboa, escreve cartas aos jornais, premiando ou reprovando as campanhas que no jornalismo se iniciem.(...)"Excerto retirado do periódico "A Choldra #1", 1926, disponível na Hemeroteca Digital
terça-feira, outubro 02, 2007
sexta-feira, setembro 28, 2007
Lubok

- Por favor afaste-se de mim, nada tenho a tratar consigo. Acercou-se de mim, agarrou no meu traseiro, assim não posso cozer o meu blini*. Sou contra os jogos de apalpa-o-cu, ainda vou arder por causa dos blinis. Espere, já sei: vou partir a minha pá na sua cabeça. Poderei até sentir vergonha ou pesar, mas juro-vos que irá se arrepender. Vossa senhoria não descansa, deixe-me em paz ou estrago-lhe a jaqueta.
- Está à vontade, bate-me se é esse o teu desejo, mas deixa-me apalpar o teu cu...Parece-me tão apetecível, o teu firme e redondo traseireinho. Esperei que todos partissem, enfim sós. Podes bater-me com o bastão, não te vou impedir, não importa. Tem dó de mim, ama-me , vem para a cama comigo.
*blini: pequena panqueca russa à base de levedura e trigo-sarraceno.
Trad.: a minha, composta a partir da versão inglesa.
"Por favor, Afaste-se de Mim" é um lubok de uma cena cómica e garbosa. Ilustra o diálogo "cortês" entre duas personagens em pleno galanteio, temperado por algumas expressões grosseiras.
quarta-feira, setembro 26, 2007
Iluminismo electrónico

Leatherette: imitation leather, especially one that is made with paper and cloth, or from plastic. Leatherette bound books and cameras are good examples of leatherette. Leatherette clothing, including pants and lingeries also exist.
O Jardim

Adolf Wölfli
Cheirava a febre
não havia jardim
alguns estranhos casais caminhavam
traziam os sapatos calçados nas mãos
os pés descalços eram brancos, enormes
cabeças como luas selvagens, epilépticas
e rosas vermelhas que de súbito
brotavam
meses a fio
eram cuidadas e esmagadas
por cães-borboleta
Miltos Sachtouris
Trad.: a minha
segunda-feira, setembro 24, 2007
sexta-feira, setembro 21, 2007
sábado, setembro 15, 2007
Alentejo
vem para dentro
foge do sol forcado
dos compadres secos
bestas da canícula
peles de chaparro
e rabos-de-porco
dos olhos que disparam
rápido
montarias de línguas
torcidas de javali
homens de verde
galhardos
bebem
cospem bocados
de ensopado
cães cães
e mais cães
faz como eu
sacude as moscas
com a cauda
não te esqueças
tentaste plantar
bromélias e roseirais
para marcar a tua presença
o calor abafou-as
nesta paisagem do nada
a noite
é escrita
aos poucos
adormeces de mãos
abertas azuis
ao som hipnótico
das cigarras
que o luar esfaqueia
ao longe
um portão chia
e deixa entrar um
pedaço de paz
nesta despida noite
de setembro
foge do sol forcado
dos compadres secos
bestas da canícula
peles de chaparro
e rabos-de-porco
dos olhos que disparam
rápido
montarias de línguas
torcidas de javali
homens de verde
galhardos
bebem
cospem bocados
de ensopado
cães cães
e mais cães
faz como eu
sacude as moscas
com a cauda
não te esqueças
tentaste plantar
bromélias e roseirais
para marcar a tua presença
o calor abafou-as
nesta paisagem do nada
a noite
é escrita
aos poucos
adormeces de mãos
abertas azuis
ao som hipnótico
das cigarras
que o luar esfaqueia
ao longe
um portão chia
e deixa entrar um
pedaço de paz
nesta despida noite
de setembro
sexta-feira, setembro 07, 2007
Dependência
a abelha-rainha
sempre embriagante
sempre ubíqua
realizou o voo nupcial
dentro de mim
(sempre sempre)
o mel acumulou-se
nos alvéolos da cama,
na minha barriga
ah! devorou-me uma asa
ainda assim
não deixei de
voar entre
as flores.
sempre embriagante
sempre ubíqua
realizou o voo nupcial
dentro de mim
(sempre sempre)
o mel acumulou-se
nos alvéolos da cama,
na minha barriga
ah! devorou-me uma asa
ainda assim
não deixei de
voar entre
as flores.
quinta-feira, setembro 06, 2007

Georgia O'Keefe
A aridez implacável do deserto obriga as pessoas a cometerem actos desesperados. Não é o caso deste projecto, au contraire. Também aqui o acto de criação é uma questão de sobrevivência, dentro ou fora do deserto.
E, se pensarem outra vez, este dueto romântico não é assim tão improvável quanto possa parecer à primeira vista.
quarta-feira, setembro 05, 2007
- Nenhum destes sintomas são realmente novos, seu doutora, mas não sinto dor. Eu sei que não tinha hora marcada, seu doutora. Desculpe, seu doutora. É quase como um formigueiro que se sente quando se apoia todo o peso do corpo num determinado membro durante muito tempo, sabe? Essa parte do corpo é a minha cabeça. Passa-me então o P1 para a "raspagem" da cabeça, seu doutora? Quero ver se durmo esta noite, seu doutora. Muito obrigado, seu doutora. Não, não volta a acontecer, eu falo com a menina do atendimento. Com licença, seu doutora.
terça-feira, setembro 04, 2007

Milton Avery
Se souberes recortar cuidadosamente as parcelas douradas do Tempo, não envelheces nem esmoreces tão rapidamente. Terás de fazer esta operação delicada antes de te deitares. O Sono devora o Tempo e baralha as moléculas do consciente e do inconsciente. O teu Sono é como um mar convulso, encrespado, mas não tormentoso, que carrega finos vícios, pequenas ânsias de baixios, velhos sudários e uma espécie de Grande Obra que nunca virá à tona.
quinta-feira, agosto 30, 2007
Lições de Trevas
Que limites existem para a luz? Veio alguém acender esta candeia. À nossa volta, uma pequena chama principia a erguer-se, mas em vão é que ela se conserva perto de nós, quando abrimos devagar as leves páginas cujo sentido se ignora e as fechamos depoissem esperança, como se fosse este o seu destino no interior da noite. Estamos ali adormecidos e havemos de encontrar uma outra luz, maior, que as permita ler.
"Lições de Trevas", Fernando Guimarães
Quasi Edições, 2002
"Lições de Trevas", Fernando Guimarães
Quasi Edições, 2002

Otto Dix
Uma mulher é poderosa segundo o grau de desgraça com que pode castigar o seu amante; por esta causa, quando não se tem mais que vaidade, qualquer mulher é útil e nenhuma é necessária; o êxito lisonjeiro fixa-se na conquista e não em conservar. Quando só se sentem desejos físicos procuram-se prostitutas; eis porque as prostitutas de França são encantadoras e as de Espanha não. Em França as prostitutas podem proporcionar a muitos homens tanto prazer como as mulheres honradas, isto é, prazer sem amor, mas há sempre uma coisa que um francês respeita mais que a sua querida, é a sua vaidade.
"Do Amor", Stendhal
Trad.: Adriano Valle
Portugal Press
segunda-feira, agosto 27, 2007
Conheci um Génio
hoje conheci um génio no
comboio
tinha 6 anos,
estava sentado ao meu lado
e enquanto o comboio
seguia ao longo da costa
chegámos ao oceano
e depois ele olhou para mim
e disse
não é bonito
foi a primeira vez que me
apercebi
disso.
Charles Bukowski
Versão de Manuel A. Domingos
hoje conheci um génio no
comboio
tinha 6 anos,
estava sentado ao meu lado
e enquanto o comboio
seguia ao longo da costa
chegámos ao oceano
e depois ele olhou para mim
e disse
não é bonito
foi a primeira vez que me
apercebi
disso.
Charles Bukowski
Versão de Manuel A. Domingos
sexta-feira, agosto 24, 2007
quinta-feira, agosto 23, 2007
Prelúdio para um Poema Técnico

Wu Guanzhong
Revisão periód.:__________Data:__/__/___
1. Leia com atenção
__este poema de
__segurança
__antes de
__iniciar
__iniciar
_____________________
__qualquer operaçãozinha.
________________________________
________________________________
________________________________
2. Verifique se existem___________fugas
__a) e drene todos
__b) os versos.
________________________________
________________________________
3. Para mais informações, contacte o seu(?) representante local:
___________________________________
__________________________________
____________________
____________________
Modelo:__________________ N.º Série: ______
Revisão periód.:__________Data:__/__/___
terça-feira, agosto 21, 2007
Gansos
domingo, agosto 19, 2007

Georges Braque
confirmei
agora mesmo:
aos pés da minha cama
jaz um pássaro de campanário
esse mesmo pássaro
nesse instante fatal
não me encontrava
na Praça de S. Marcos
nem em Jaipur
nem no quarto dos meus pais
posso prová-lo
mas só a si
nesse instante fatal,
a morte (um luxo)
senti a lassidão da morte
a fumegar na minha face
soltei um riso idiota
como poderia saber?
cantou os seus lábios
gretados de caju e o
fim de Deus
em noites quebradas por
borrascas diluvianas
amava mulheres
como quase todos
os pássaros
gostava de pendurar-se
em mastros vermelhos
de madeira norueguesa
e de maçãs muito maduras
o finado pássaro
alugava outros
pássaros para voar
(gaivotas não, por princípio)
vibrava com homicídios
involuntários em dias santos
chilreava por todo o bairro
fez-me jurar que
não iria imortalizá-lo
em versos sem casca
improváveis
afinal não passava
de um pássaro
e eu não passo
cartão a pássaros
quarta-feira, agosto 15, 2007
Os meninos de olhos escuros
Os meninos de olhos escuros penteiam delicadamente os brâmanes antes de afogarem a Paixão no Ganges. Os meninos crescem e tornaram-se jogadores, aprendem a cruzar as pernas e a venderem a nudez exótica. As amadas mães envergonham-se e lavam a vida toda no Ganges. Os mais orgulhosos roubam as chaves do cárcere e fogem para os grandes subúrbios de terracota, tornam-se jogadores de topo. Queres ser meu parceiro? Este bêbado é o joker, foi valete de copas mal amado, mas agora vale mais do que o ás.
segunda-feira, agosto 13, 2007

Nicolas De Staël
Não olhem para trás, meus filhos.
Um mar viscoso e ardente fica lá em baixo.
O ar áspero fere como se fosse areia
e aqui, por estes pilares salgados,
estão os que não perdoam. Segurem-se
ao rebordo da montanha, mesmo que
se desfaça em pó. Caminhem ou rastejam,
deixem que as rochas firam os pés sem piedade.
E esqueçam a cidade fumegante. Deus castiga os que se arrependem.
in Médium e outros poemas, Elaine Feinstein
Trad. colectiva, 1994
Poetas em Mateus, Quetzal Editores
sexta-feira, agosto 10, 2007
Ava

A ava (Piper methysticum) é uma planta pimenteira arbustiva, originária da Ásia e da Oceânia. Da sua raíz triturada pode preparar-se uma bebida intoxicante. As raízes secas e os rizomas revelaram-se eficazes contra a cistite, gota e doenças consumptivas. Sou o figurante que está a olhar-se ao espelho em 1:33.
Nunca consegui bater palmas ao contrário e as camas de dossel barrocas sempre me deixaram apreensivo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)





















