Antes de se levantar de manhã, o Mestre Cremador dorme a noite toda no seu pequeno quarto. Ajeita o travesseiro com umas mimosas palmadinhas e, pouco antes de adormecer, deixa cair um volumoso livro no chão num perfeito V invertido, cuja leitura arrasta penosamente durante três meses e duas semanas. Lamenta-se, desde então, por ter levado a cabo tal compra, encolhendo resignadamente os ombros caídos sempre que vira uma página. Olha-se sem resíduos de pudor ao espelho e prepara-se para aparar a barbicha grisalha. Aproxima-se da imagem reflectida e arqueia a espessa sobrancelha do olho direito com particular sobranceria. Sabe que ainda tem fortes motivos para gostar daquilo que vê. Bebe um copo de cognac enquanto afaga o dorso de Franco (Mestre gosta de pensar que Franco é seu, mas, como toda a gente sabe, os gatos não têm dono e os donos não têm donos). Às vezes, bebe dois copos. Folheia, distraído, o Diário de _.________, demorando sempre algum tempo na Necrologia, " Este tinha a pele grossa como lixa, mas arrumei-o bem". Abre a porta que o saúda com um chio, tira o velho sobretudo e sacode-o vigorosamente. Franco enrosca-se nas suas pernas. Sobe os três lanços de escadas e pára a meio para ganhar fôlego. Sente-se patético e encara o vitral em losangos coloridos do elevador. Não confia em elevadores e sempre soube que os elevadores não confiavam em ninguém.
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
Gostaria de ter estômago para dirigir críticas grosseiras e censuráveis aos meus textos blogordinários, em regime de anonimato. Ou então parir comentadores heterónimos a partir da minha mater. Já tentei e simplesmente não consigo. O meu subsconsciente (ou serão as musas) emite sinais intermitentes que não sei interpretar: serão sintoma de uma lamentável rectidão ou de escassez imaginativa? Entre um sinal e outro, agarro transversalmente no inaceitável e tento explorá-lo. Nada. Nada igual a nada. Por outro lado, há a questão estética da coisa: sou aquilo a que as senhoras da idade da minha mãe chamam de "um homem bonito" e isso inibe-me dramaticamente. Vocês nem fazem ideia. No fundo, sou um vaidoso da pior espécie. Tenho espelhos em casa.
domingo, fevereiro 03, 2008

Raoul Hausmann
chegara o dia
iria ser homenageado
com alguma pompa
e circunstância:
" Guardem-no para
quem o merece, isto foi
demasiado fácil"
foi muito rude
fez esperar o júri e
os leitores e os media
que nunca deixaram de
o acariciar
(às portas da vida)
e para despesas de conversa
acabaria por confessar:
"foi muito rude
da minha parte
mas compreendam
teria de me retocar todos
os dias, embebedar-me todas
as noites para dançar
como a ginger rogers,
ser frívolo e encantador
teria
de viver
alguns
centímetros
acima dos outros
homens."
quinta-feira, janeiro 31, 2008
segunda-feira, janeiro 28, 2008
Diário de Valentina Tereshkova
_____________suponho meu pai
que em todos os cargos
e funções há altos e
baixos o comité foi bastante
generoso este capacete
reluzente protege-me do passado e
de futuros
dissidentes
____________assumo meu pai
que queiram algo em troca porque nós
os russos não sabemos pensar de outra
forma somos nós de uma grande corda
robusta que jamais irá rebentar a Dialéctica
congela no solo da nossa pátria
___________e agora olha meu pai
o vento negro do
Báltico leva aquela frágil escuna
para Leninegrado que irá
bebê-la como um
Alka Seltzer os filhos dos teus
jovens soldados de Komi dormem
com uma rosa na boca iluminados
por candeeiros a gás até
o hálito tem de estar
sincronizado para
a minha recepção
em glória
sábado, janeiro 26, 2008
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Lixo

O televisionado lixo de Nápoles catalisou uma pulsão sem precedentes no subsecretário da cultura. Largou de imediato o dossier e pediu para lhe ligarem com o sottosegretario homólogo, com a máxima urgência. De repente, baixou o auscultador: "Hum, não nos precipitemos...e as pústulas, as infecções, o mal-napolitano? Ah, que se lixe. O primeiro aprovará decerto, e amanhã, se for preciso! Um aterro cultural, é de génio, menino! De génio!".
sexta-feira, janeiro 18, 2008
quinta-feira, janeiro 17, 2008
The Gooseneck Laundry
quarta-feira, janeiro 16, 2008
sexta-feira, janeiro 11, 2008
Declaração

Callot
Eu de barba branca a tiracolo
rodeado de fumo por todos os lados vadios
menos pelo lado do mar
com um incêndio à ilharga
e dois artelhos clandestinos
eu salvo miraculosamente para te amar e curar
e esperar o teu regresso glacial e escarlate
que escrevo poemas desde que um rato
me entrou prós pulmões e só por causa disso
eu que disse: há um cancro no mapa universal
e engenheiros, geógrafos, doutores se apressaram a negá-la
eu da cintura pra cima de alcatrão e terror
e do umbigo pra baixo de quiosque chinês
eu não espero piedade obrigado
António José Forte,
Uma Faca nos Dentes
Livraria Editora, Lda.
quarta-feira, janeiro 09, 2008

Há uma inexplicável aura divina em torno daqueles mineiros sujos da ex-URSS que saem ilesos após um colapso das galerias. Como se a vida, milagrosamente, lhes fosse reiniciada. Como se Ele fosse contra a prateleira das partituras dos Vivos e dos Mortos e, desastradamente, juntasse tudo no mesmo arquivo e se desculpasse: "Meu Deus, que a Morte seja cega e surda!".
terça-feira, janeiro 08, 2008
Sombras em Serralves

"Sombras - Um Filme Sonâmbulo" do realizador João Trabulo, sobre a obra do poeta Teixeira de Pascoaes vai ser exibida a 20 de Janeiro na Fundação de Serralves.
O filme será exibido pelas 19:00 no Auditório da Fundação de Serralves, no âmbito da programação de 2008.
segunda-feira, janeiro 07, 2008
Nueva Cadiz
O melhor avant-garde espanhol é importado do Alaska. Os primeiros habitantes chegaram a Nueva Cadiz (3600 hab.) por volta de 1935 e eram, na sua maioria, bandoleros, rameiras, escritores endividados e perseguidos pelos nacionalistas. A pequena cidade fronteiriça, localizada a 560 km de Juneau (capital do estado), foi recententemente notícia, devido a um enorme muro de gelo mandado erigir pelo actual mayor, Waino Alba.
- As you surely know, Canadians are a vicious people. It's our duty to protect our women and children.
O polémico muro visava repelir a crescente vaga de canadianos ávidos por desconhecimento enciclopédico e algum calor mediterrâneo.
- As you surely know, Canadians are a vicious people. It's our duty to protect our women and children.
O polémico muro visava repelir a crescente vaga de canadianos ávidos por desconhecimento enciclopédico e algum calor mediterrâneo.
sábado, janeiro 05, 2008
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