
quinta-feira, outubro 11, 2007
terça-feira, outubro 09, 2007
Born Magazine
Se reencaminhar estas missivas em branco para, pelo menos, dez pessoas, algo de maravilhoso irá acontecer na sua vida.
A natureza verdadeira revela-se no género epistolar, o papel liberta, desencarcera, o papel desperta o inconsciente, a seiva reconhece o sangue, a árvore cruza-se com homem e dá fruto.
Enfim, sigam o conselho da Born Magazine, explore, regenere-se.
A natureza verdadeira revela-se no género epistolar, o papel liberta, desencarcera, o papel desperta o inconsciente, a seiva reconhece o sangue, a árvore cruza-se com homem e dá fruto.
Enfim, sigam o conselho da Born Magazine, explore, regenere-se.
quarta-feira, outubro 03, 2007

A Choldra
It's pure Madness, again and again.
"(...) A palavra «portugalizar» não é uma calunia. A Inglaterra guia-nos pelo labirinto da política internacional como um cicerone da Cook; a Inglaterra zanga-se, põe-nos de castigo e dá-nos torrões de assucar, em forma de "visita de esquadra" como os tutores fazem aos pupilos, segunda as suas travessuras ou os seus juizos. A Inglaterra faz mais: a Inglaterra, atravez "o professor" que a representa em Lisboa, escreve cartas aos jornais, premiando ou reprovando as campanhas que no jornalismo se iniciem.(...)"Excerto retirado do periódico "A Choldra #1", 1926, disponível na Hemeroteca Digital
terça-feira, outubro 02, 2007
sexta-feira, setembro 28, 2007
Lubok

- Por favor afaste-se de mim, nada tenho a tratar consigo. Acercou-se de mim, agarrou no meu traseiro, assim não posso cozer o meu blini*. Sou contra os jogos de apalpa-o-cu, ainda vou arder por causa dos blinis. Espere, já sei: vou partir a minha pá na sua cabeça. Poderei até sentir vergonha ou pesar, mas juro-vos que irá se arrepender. Vossa senhoria não descansa, deixe-me em paz ou estrago-lhe a jaqueta.
- Está à vontade, bate-me se é esse o teu desejo, mas deixa-me apalpar o teu cu...Parece-me tão apetecível, o teu firme e redondo traseireinho. Esperei que todos partissem, enfim sós. Podes bater-me com o bastão, não te vou impedir, não importa. Tem dó de mim, ama-me , vem para a cama comigo.
*blini: pequena panqueca russa à base de levedura e trigo-sarraceno.
Trad.: a minha, composta a partir da versão inglesa.
"Por favor, Afaste-se de Mim" é um lubok de uma cena cómica e garbosa. Ilustra o diálogo "cortês" entre duas personagens em pleno galanteio, temperado por algumas expressões grosseiras.
quarta-feira, setembro 26, 2007
Iluminismo electrónico

Leatherette: imitation leather, especially one that is made with paper and cloth, or from plastic. Leatherette bound books and cameras are good examples of leatherette. Leatherette clothing, including pants and lingeries also exist.
O Jardim

Adolf Wölfli
Cheirava a febre
não havia jardim
alguns estranhos casais caminhavam
traziam os sapatos calçados nas mãos
os pés descalços eram brancos, enormes
cabeças como luas selvagens, epilépticas
e rosas vermelhas que de súbito
brotavam
meses a fio
eram cuidadas e esmagadas
por cães-borboleta
Miltos Sachtouris
Trad.: a minha
segunda-feira, setembro 24, 2007
sexta-feira, setembro 21, 2007
sábado, setembro 15, 2007
Alentejo
vem para dentro
foge do sol forcado
dos compadres secos
bestas da canícula
peles de chaparro
e rabos-de-porco
dos olhos que disparam
rápido
montarias de línguas
torcidas de javali
homens de verde
galhardos
bebem
cospem bocados
de ensopado
cães cães
e mais cães
faz como eu
sacude as moscas
com a cauda
não te esqueças
tentaste plantar
bromélias e roseirais
para marcar a tua presença
o calor abafou-as
nesta paisagem do nada
a noite
é escrita
aos poucos
adormeces de mãos
abertas azuis
ao som hipnótico
das cigarras
que o luar esfaqueia
ao longe
um portão chia
e deixa entrar um
pedaço de paz
nesta despida noite
de setembro
foge do sol forcado
dos compadres secos
bestas da canícula
peles de chaparro
e rabos-de-porco
dos olhos que disparam
rápido
montarias de línguas
torcidas de javali
homens de verde
galhardos
bebem
cospem bocados
de ensopado
cães cães
e mais cães
faz como eu
sacude as moscas
com a cauda
não te esqueças
tentaste plantar
bromélias e roseirais
para marcar a tua presença
o calor abafou-as
nesta paisagem do nada
a noite
é escrita
aos poucos
adormeces de mãos
abertas azuis
ao som hipnótico
das cigarras
que o luar esfaqueia
ao longe
um portão chia
e deixa entrar um
pedaço de paz
nesta despida noite
de setembro
sexta-feira, setembro 07, 2007
Dependência
a abelha-rainha
sempre embriagante
sempre ubíqua
realizou o voo nupcial
dentro de mim
(sempre sempre)
o mel acumulou-se
nos alvéolos da cama,
na minha barriga
ah! devorou-me uma asa
ainda assim
não deixei de
voar entre
as flores.
sempre embriagante
sempre ubíqua
realizou o voo nupcial
dentro de mim
(sempre sempre)
o mel acumulou-se
nos alvéolos da cama,
na minha barriga
ah! devorou-me uma asa
ainda assim
não deixei de
voar entre
as flores.
quinta-feira, setembro 06, 2007

Georgia O'Keefe
A aridez implacável do deserto obriga as pessoas a cometerem actos desesperados. Não é o caso deste projecto, au contraire. Também aqui o acto de criação é uma questão de sobrevivência, dentro ou fora do deserto.
E, se pensarem outra vez, este dueto romântico não é assim tão improvável quanto possa parecer à primeira vista.
quarta-feira, setembro 05, 2007
- Nenhum destes sintomas são realmente novos, seu doutora, mas não sinto dor. Eu sei que não tinha hora marcada, seu doutora. Desculpe, seu doutora. É quase como um formigueiro que se sente quando se apoia todo o peso do corpo num determinado membro durante muito tempo, sabe? Essa parte do corpo é a minha cabeça. Passa-me então o P1 para a "raspagem" da cabeça, seu doutora? Quero ver se durmo esta noite, seu doutora. Muito obrigado, seu doutora. Não, não volta a acontecer, eu falo com a menina do atendimento. Com licença, seu doutora.
terça-feira, setembro 04, 2007

Milton Avery
Se souberes recortar cuidadosamente as parcelas douradas do Tempo, não envelheces nem esmoreces tão rapidamente. Terás de fazer esta operação delicada antes de te deitares. O Sono devora o Tempo e baralha as moléculas do consciente e do inconsciente. O teu Sono é como um mar convulso, encrespado, mas não tormentoso, que carrega finos vícios, pequenas ânsias de baixios, velhos sudários e uma espécie de Grande Obra que nunca virá à tona.
quinta-feira, agosto 30, 2007
Lições de Trevas
Que limites existem para a luz? Veio alguém acender esta candeia. À nossa volta, uma pequena chama principia a erguer-se, mas em vão é que ela se conserva perto de nós, quando abrimos devagar as leves páginas cujo sentido se ignora e as fechamos depoissem esperança, como se fosse este o seu destino no interior da noite. Estamos ali adormecidos e havemos de encontrar uma outra luz, maior, que as permita ler.
"Lições de Trevas", Fernando Guimarães
Quasi Edições, 2002
"Lições de Trevas", Fernando Guimarães
Quasi Edições, 2002

Otto Dix
Uma mulher é poderosa segundo o grau de desgraça com que pode castigar o seu amante; por esta causa, quando não se tem mais que vaidade, qualquer mulher é útil e nenhuma é necessária; o êxito lisonjeiro fixa-se na conquista e não em conservar. Quando só se sentem desejos físicos procuram-se prostitutas; eis porque as prostitutas de França são encantadoras e as de Espanha não. Em França as prostitutas podem proporcionar a muitos homens tanto prazer como as mulheres honradas, isto é, prazer sem amor, mas há sempre uma coisa que um francês respeita mais que a sua querida, é a sua vaidade.
"Do Amor", Stendhal
Trad.: Adriano Valle
Portugal Press
segunda-feira, agosto 27, 2007
Conheci um Génio
hoje conheci um génio no
comboio
tinha 6 anos,
estava sentado ao meu lado
e enquanto o comboio
seguia ao longo da costa
chegámos ao oceano
e depois ele olhou para mim
e disse
não é bonito
foi a primeira vez que me
apercebi
disso.
Charles Bukowski
Versão de Manuel A. Domingos
hoje conheci um génio no
comboio
tinha 6 anos,
estava sentado ao meu lado
e enquanto o comboio
seguia ao longo da costa
chegámos ao oceano
e depois ele olhou para mim
e disse
não é bonito
foi a primeira vez que me
apercebi
disso.
Charles Bukowski
Versão de Manuel A. Domingos
sexta-feira, agosto 24, 2007
quinta-feira, agosto 23, 2007
Prelúdio para um Poema Técnico

Wu Guanzhong
Revisão periód.:__________Data:__/__/___
1. Leia com atenção
__este poema de
__segurança
__antes de
__iniciar
__iniciar
_____________________
__qualquer operaçãozinha.
________________________________
________________________________
________________________________
2. Verifique se existem___________fugas
__a) e drene todos
__b) os versos.
________________________________
________________________________
3. Para mais informações, contacte o seu(?) representante local:
___________________________________
__________________________________
____________________
____________________
Modelo:__________________ N.º Série: ______
Revisão periód.:__________Data:__/__/___
terça-feira, agosto 21, 2007
Gansos
domingo, agosto 19, 2007

Georges Braque
confirmei
agora mesmo:
aos pés da minha cama
jaz um pássaro de campanário
esse mesmo pássaro
nesse instante fatal
não me encontrava
na Praça de S. Marcos
nem em Jaipur
nem no quarto dos meus pais
posso prová-lo
mas só a si
nesse instante fatal,
a morte (um luxo)
senti a lassidão da morte
a fumegar na minha face
soltei um riso idiota
como poderia saber?
cantou os seus lábios
gretados de caju e o
fim de Deus
em noites quebradas por
borrascas diluvianas
amava mulheres
como quase todos
os pássaros
gostava de pendurar-se
em mastros vermelhos
de madeira norueguesa
e de maçãs muito maduras
o finado pássaro
alugava outros
pássaros para voar
(gaivotas não, por princípio)
vibrava com homicídios
involuntários em dias santos
chilreava por todo o bairro
fez-me jurar que
não iria imortalizá-lo
em versos sem casca
improváveis
afinal não passava
de um pássaro
e eu não passo
cartão a pássaros
quarta-feira, agosto 15, 2007
Os meninos de olhos escuros
Os meninos de olhos escuros penteiam delicadamente os brâmanes antes de afogarem a Paixão no Ganges. Os meninos crescem e tornaram-se jogadores, aprendem a cruzar as pernas e a venderem a nudez exótica. As amadas mães envergonham-se e lavam a vida toda no Ganges. Os mais orgulhosos roubam as chaves do cárcere e fogem para os grandes subúrbios de terracota, tornam-se jogadores de topo. Queres ser meu parceiro? Este bêbado é o joker, foi valete de copas mal amado, mas agora vale mais do que o ás.
segunda-feira, agosto 13, 2007

Nicolas De Staël
Não olhem para trás, meus filhos.
Um mar viscoso e ardente fica lá em baixo.
O ar áspero fere como se fosse areia
e aqui, por estes pilares salgados,
estão os que não perdoam. Segurem-se
ao rebordo da montanha, mesmo que
se desfaça em pó. Caminhem ou rastejam,
deixem que as rochas firam os pés sem piedade.
E esqueçam a cidade fumegante. Deus castiga os que se arrependem.
in Médium e outros poemas, Elaine Feinstein
Trad. colectiva, 1994
Poetas em Mateus, Quetzal Editores
sexta-feira, agosto 10, 2007
Ava

A ava (Piper methysticum) é uma planta pimenteira arbustiva, originária da Ásia e da Oceânia. Da sua raíz triturada pode preparar-se uma bebida intoxicante. As raízes secas e os rizomas revelaram-se eficazes contra a cistite, gota e doenças consumptivas. Sou o figurante que está a olhar-se ao espelho em 1:33.
Nunca consegui bater palmas ao contrário e as camas de dossel barrocas sempre me deixaram apreensivo.
quinta-feira, agosto 09, 2007
Vasco Fernandes (Grão Vasco)
A seguir, perguntou-lhe pelos assuntos do seu comando. A produção baixara dramaticamente nas últimas semanas e exigia-me um relatório completo.
- Às vezes, sim.
O ar estava coalhado, a janela deixava entrar uma brisa fétida que trazia o cheiro forte a alcatrão quente e a lixo que transbordava dos contentores. Existia-se no pico do Verão.
- Ao menos, abra-me esse olhos enquanto falo consigo, homem!
O jovem inclinou-se para trás e bocejou. Respondeu-lhe então que tinha passado a noite toda em vigília pelos Sete Gozos da Nossa Senhora, mas que, nesse preciso momento, se sentia elevado pelas iluminuras e réplicas de pinturas maneiristas que cobriam as paredes da firma. O trabalho tornara-se num local violento e havia que pacificar as almas.
- Aqui, têm de responder perante mim e Deus.
Pouco a pouco, o jovem abandonava os velhos hábitos de gentio, os scherzos e andantes do Reicha, que saíam das velhas colunas de madeira instaladas em todos os comandos, convertiam bestas e sarracenos. Hoje de manhã, porém, estava no limiar do seu cansaço e o inconsciente apoderou-se dele:
- Tem um cigarro que me arranje. Quero viver devagar e beber leite de cabra. Construa o seu cerco do outro lado da sua cupidez, meu suserano, não deite todos estes anos de sacrifício a perder. Eu ainda consigo sonhar e você?
segunda-feira, agosto 06, 2007
"Infância"
quarta-feira, agosto 01, 2007
Os pronomes clíticos
O pobre tombava meio morto na cama de ferro, mas depois era assolado por berrantes pesadelos com pronomes clíticos, e românicas ênclises e próclises, não havia maneira de voltar a pregar olho (a insónia era agravada pelo brutal luar que importou de um país qualquer do hemisfério sul, maldita a hora!). Valia-lhe, porém, as grandiosas audiências semanais com o magnânimo Rei Ubu. Somente os seus versados arrazoados iluminavam e amaciavam a sua pobre alma perseguida.
Tudo (se) passa nesta vida.
Tudo (se) passa nesta vida.
segunda-feira, julho 30, 2007
Syrinx, Ficção Pastoral (I)

Sophie Calle
Vou pôr um anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
Que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro de água.
Vou querer que me ame e abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos.
in "Quatro caprichos", António Franco Alexandre
Assírio & Alvim, 1999
domingo, julho 29, 2007
Gabrielle d'Annunzio

Arthur Dove
Em 1898, Vitoria Bini, filha mais nova de um velho casal de condição humilde, encontrou uma pequena peça de tapeçaria enquanto brincava numa solitária praia da região de Abruzzo. Apesar do mau estado de conservação do tecido, a menina identificou de imediato o cocuruto de Gabrielle d'Annunzio. A peça remonta ao séc. II a.c. e tudo indica que três mastins negros tentaram dilacerá-la para evitar o advento do nacionalismo italiano nos anos 20. D'Annunzio emerge do mar em pose messiânica e aponta com os indicadores para os dois pedaços de terra separados pela água. O(a) autor(a) emprega habilmente o sfumato (técnica normalmente associada à pintura), tirando partido das características do tecido. Em último plano, são ainda representados negros que dançam na terra queimada por um sol carmim, de dimensões desproporcionadas, enquanto que, na margem esquerda, figuram vários artíficies que sustentam uma enorme e intrigante ratazana cinzenta que parece estar a saudar o poeta.
quinta-feira, julho 26, 2007
Do Amor

Nancy Spero
Um homem sensível e franco, um antigo cavalheiro fazia-me esta noite uma confidência (no fundo do nosso barco batido pela tempestade no lago de Grade) da história dos seus amores, história cuja confidência não porei a público, mas da qual me creio com direito a extrair a conclusão de que o momento da intimidade é como os belos dias do mês de maio, um momento que pode ser fatal e manchar num instante as mais lisonjeiras esperanças.
in "Do Amor", Stendhal,
Trad.: Adriano Vale
Portugal Press
terça-feira, julho 24, 2007
Palavras II
Outra das causas possíveis do excesso ou falta de ideias - que tem vindo a assumir contornos preocupantes e irreversíveis no meu caso - está relacionada com a substituição da velha lâmpada azul-cobalto situada no fundo da língua. A lâmpada é uma peça essencial. As palavras podem sair com visíveis deficiências ou podem se apresentar difusas e redundantes. Não há um controlo rigoroso, os novos símbolos não são repostos quando apresentam indícios de desgaste intenso. O trabalho árido não é um motivo válido para o cumprimento desta instrução.
O facto dos anjos e demónios andarem arredados das suas obrigações também não ajuda muito. É da sua exclusiva responsabilidade aplicarem a pressão devida quando untam massa lubrificante na fronte e no coração em 10 ciclos sucessivos para, no fim do processo, se incorporarem no paciente ou criador.
Assim, o contrato que celebramos à nascença com Deus e representantes acima referidos não é respeitado, assiste-nos o direito de exigir uma rescisão.
- Fim?
O facto dos anjos e demónios andarem arredados das suas obrigações também não ajuda muito. É da sua exclusiva responsabilidade aplicarem a pressão devida quando untam massa lubrificante na fronte e no coração em 10 ciclos sucessivos para, no fim do processo, se incorporarem no paciente ou criador.
Assim, o contrato que celebramos à nascença com Deus e representantes acima referidos não é respeitado, assiste-nos o direito de exigir uma rescisão.
- Fim?
segunda-feira, julho 23, 2007
Palavras
As palavras são nómadas, ciganas, têm de vir e partir. Não podemos aprisioná-las durante muito tempo no mesmo sítio. Não gosto do conceito de eternidade, de perenidade absoluta neste universo, tudo está em constante movimento. Parece-me que, neste momento, elas estão de partida e sei que tenho de aguardar pela próxima vaga, não adianta procurá-las. Pode ser a espera de uma vida e posso muito bem enganar-me com amostras para satisfazer apenas a minha vaidade ou obter prazer imediato.
quinta-feira, julho 19, 2007
Ética
Edgar Degas
Chego em frente do mar, das suas ondas,
das marés que setembro enfurece, dos cinzentos
e azuis que alternam com verdes estranhos;
uma voz trata da loucura, ou do olhar vazio
dos peixes, ou de um tema ressequido como as algas
da maré baixa; um vento percorreu a praia,
no silêncio da tarde, devolvendo ao corpo das águas
uma unidade antiga. O mar, no entanto, supõe
que o esqueçam. Nos seus fundos dormem as imagens
que o sonho já não guarda; braços que se agarram
aos mastros do naufrágio. Um barco abstracto
passou devagar pelo horizonte que a manhã não viu,
entrando no outro lado da terra, esquecido
por instantes da música dos portos. O poema, disseram-me,
ignorou essa distracção: atravessou
o limite da eternidade, vestiu-se com as palavras
nocturnas, deixou que a morte o contaminasse.
À beira-mar, não dou por isso; e digo-o,
devagar, repetindo em voz baixa
todas as suas contradições.
das marés que setembro enfurece, dos cinzentos
e azuis que alternam com verdes estranhos;
uma voz trata da loucura, ou do olhar vazio
dos peixes, ou de um tema ressequido como as algas
da maré baixa; um vento percorreu a praia,
no silêncio da tarde, devolvendo ao corpo das águas
uma unidade antiga. O mar, no entanto, supõe
que o esqueçam. Nos seus fundos dormem as imagens
que o sonho já não guarda; braços que se agarram
aos mastros do naufrágio. Um barco abstracto
passou devagar pelo horizonte que a manhã não viu,
entrando no outro lado da terra, esquecido
por instantes da música dos portos. O poema, disseram-me,
ignorou essa distracção: atravessou
o limite da eternidade, vestiu-se com as palavras
nocturnas, deixou que a morte o contaminasse.
À beira-mar, não dou por isso; e digo-o,
devagar, repetindo em voz baixa
todas as suas contradições.
Nuno Júdice in "Um canto na espessura do tempo"
Quetzal, 1992
segunda-feira, julho 16, 2007
Que grande medo temos, tu e eu

Franz Kline
Que grande medo temos, tu e eu,
Seu boquinha de raia, amigo meu!
Oh, como se esfarela este tabaco,
Quebra-nozes compincha, meu velhaco!
E eu podia ter assobiado a vida,
A bolinho de noz acompanhada,
Pois, mas não pode ser nada...
Ossip Mandelstam, "Guarda Minha Fala Para Sempre"
Trad.: Nina Guerra, Filipe Guerra
Assírio & Alvim
Cúmplice
Todos os dias são cometidos assassínios morais e éticos no local de trabalho. Acenas com cabeça. Aconteceu a Beltrano, ao noviço que entrou há duas semanas e não fizeste nada. Mereces então o pouco salário que ganhas, pois é bem mais grave ficar na sombra a assistir impavidamente, a encolher os ombros e deixar esses criminosos incólumes. Não te cabe a ti, não queres aborrecimentos para o teu lado ou expor-te de alguma maneira, porque podes ser alvo de retaliação? Acreditas que, mais cedo ou mais tarde, tudo será resolvido, confias na sapiência do teu chefe ou na justiça divina. Acreditas em Deus que não dorme nos dias úteis e só descansa aos domingos, e confias nos chefes e supervisores que têm os olhos vendados, tal como a Justiça?
Naturalmente, se, amanhã, acontecer o mesmo a ti, nada terás a recear.
Naturalmente, se, amanhã, acontecer o mesmo a ti, nada terás a recear.
domingo, julho 15, 2007
Everyday

Claude Cahun
This is the coastal town
That they forgot to close down
Armageddon - come armageddon
Everyday is like sunday
Mosu - No Reino das Mulheres
A minoria étnica Mosu é um subgrupo dos Naxi (uma das 55 etnias chinesas), um povo de pastores nómadas originário do Tibete que vive nas margens do belo lago Lugu, na remota província de Yunnan.
O casamento é um "sacramento" inexistente entre os Mosu. As azhu (uniões livres) podem durar uma vida inteira e até ser monogâmicas, mas estão abertas a vários relacionamentos, livres de qualquer compromisso marital ou financeiro. Os homens vivem na casa materna durante o dia e passam a noite na casa das amantes ou namoradas (axia). A relação termina quando ele deixa de a procurar ou ela se recusa a dar-lhe abrigo nocturno. Esta liberdade sexual, praticada ao longo de séculos, foi banida durante a Revolução Cultural. Os Mosu foram obrigados a constituir famílias "normais". Quando as coisas acalmaram, os casais separaram-se, voltando aos velhos hábitos. Todas as crianças estão sob a custódia das mulheres e herdam o seu apelido de família. As mulheres supervisionam todos os assuntos domésticos, desde as finanças à produção agrícola. No entanto, tudo é partilhado. Não há registo de crimes.
Os Mosu possuem um velho idioma pictográfico com cerca 1000 anos. Não existe um termo para "guerra". As designações adquirem mais força quando a palavra "mulher" é acrescentada, fortalecendo o significado: por exemplo, "pedra" mais "mulher" significa "rochedo" ou "penedo", enquanto que "pedra" associada a "homem" significa "calhau", "seixo".
O casamento é um "sacramento" inexistente entre os Mosu. As azhu (uniões livres) podem durar uma vida inteira e até ser monogâmicas, mas estão abertas a vários relacionamentos, livres de qualquer compromisso marital ou financeiro. Os homens vivem na casa materna durante o dia e passam a noite na casa das amantes ou namoradas (axia). A relação termina quando ele deixa de a procurar ou ela se recusa a dar-lhe abrigo nocturno. Esta liberdade sexual, praticada ao longo de séculos, foi banida durante a Revolução Cultural. Os Mosu foram obrigados a constituir famílias "normais". Quando as coisas acalmaram, os casais separaram-se, voltando aos velhos hábitos. Todas as crianças estão sob a custódia das mulheres e herdam o seu apelido de família. As mulheres supervisionam todos os assuntos domésticos, desde as finanças à produção agrícola. No entanto, tudo é partilhado. Não há registo de crimes.
Os Mosu possuem um velho idioma pictográfico com cerca 1000 anos. Não existe um termo para "guerra". As designações adquirem mais força quando a palavra "mulher" é acrescentada, fortalecendo o significado: por exemplo, "pedra" mais "mulher" significa "rochedo" ou "penedo", enquanto que "pedra" associada a "homem" significa "calhau", "seixo".
sexta-feira, julho 13, 2007
Proofreading DAV-X10/YIT_M643-38S-B
Antes de ligar o cabo de alimentação CA deste aparelho a uma tomada de parede, ligue todas as colunas ao aparelho quando se trabalha há muitos anos com os mesmos colegas na mesma empresa , acabamos por assimilar tiques singulares, certos trejeitos do colega do lado, a halitose do M. que morde clips a toda a hora já não nos causa repulsa, a F. da logística vai entrar entre hoje e amanhã na red zone e não nos traz o chãzinho de menta do costume, o departamento inteiro boceja em coro às 10.27h, já não pedimos desculpa pelo pequeno arroto involuntário, partilhamos o mesmo bioritmo, só falta darmos as mãos para ir ao WC ao mesmo tempo, homens e senhoras, em procissão mariana, acho que estou a ficar com o lábio leporino do A., perguntamos ao fumador compulsivo porque não foi soltar hoje uma fumaça lá fora, a mulher pediu divórcio, logo divorciamo-nos todos e oferecemos, solidários, aquilo o que não temos e aquilo que eles nunca tiveram, Patrão em viagem de negócios, dia santo na loja, produtividade desce para metade, somos cruéis com o elemento mais fraco, mas já não há paciência para o seu mau gosto musical, arranjamos o colarinho e esticamos as gravatas dos trezentos que compramos ontem depois do expediente, que coincidência, por aqui, para obter os melhores resultados, observe o seguinte:
– Coloque ambas as colunas com uma distância entre si igual à distância em relação à posição de audição (de modo a formar um triângulo isósceles).
– As colunas frontais devem ser colocadas com uma distância entre si de 0,6 m.
- Não deixe um espaço em frente às colunas frontais quando colocadas numa mesa ou estante, etc., por causa do reflexo.
– Coloque ambas as colunas com uma distância entre si igual à distância em relação à posição de audição (de modo a formar um triângulo isósceles).
– As colunas frontais devem ser colocadas com uma distância entre si de 0,6 m.
- Não deixe um espaço em frente às colunas frontais quando colocadas numa mesa ou estante, etc., por causa do reflexo.
Greve patafísica

Cildo Meireles
As senhoritas trouxeram as sombrinhas, perfeito. Podiam esperar cá fora. Estava determinado nessa manhã, mãos à obra, não havia tempo a perder. Chega finalmente o patrão.
- Posso saber o que está a fazer?
- Estou a assentar tijolos na entrada, não é bom de ver?
- Mas você está doido?! Assim ninguém pode trabalhar!
- Oiça bem. Antes de vir para aqui, besuntei manteiga nos cantos da boca e na ponta da língua para que as palavras deslizassem melhor. Estavam presas dentro de mim. Agora, basta. Aconselho-o a estar calado. Quer ser útil? Chegue-me esse saco de cimento de 10 Kg que diz Pascal Pia.
- Este? O Pasc.. O quê?! Vou chamar a minha mãe e ela vai chamar o meu advogado.
- Pois vá.
- Palerma! O homem ensandeceu de vez. Isto não fica assim, ouviu?
As estagiárias não sabiam o que fazer, estavam horrorizadas. Tudo isto era inédito. O chefe de produção foi buscar uma cadeira de baloiço à carroça e começou a fazer tricot. Ia ser pai daqui a uns meses, mas a mulher ainda não sabia.
Pouco tempo depois aparece a mãe. Advogado nem vê-lo:
- Mãe, és tu? - interroguei-lhe, enquanto limpava a fronte com um lenço.
- Sr. P! Já lhe disse que eu não sou sua mãe!
- Então nada feito. Retire-se, por favor.
A mulher ficou ensimesmada durante alguns instantes, voltou-se para trás e pregou um sonoro tabefe no filho verdadeiro. Deu um pontapé no balde, virou costas e começou a caminhar em passos curtos e ligeiros, muito senhora de si. O meu patrão ficou incrédulo e paralisado com a mão na face. Antes de entrar no carro, a pobre escorregou e caiu em cima de uma poça esverdeada.
- Que campesina, alguém disse baixinho.
Levantou-se um forte rajada de vento vinda do mar. O céu estava coberto de gaivotas que não paravam de grasnar.
- As gaivotas grasnam, sr. P?
- Chega-me esse tijolo fúcsia que diz "The End".
- Tenho de lhe confessar uma coisa, chefe.
- Sim?
quarta-feira, julho 11, 2007
Em Busca do Tempo Perdido

Ontem foi o 66º aniversário da minha querida tia Adelaide, irmã da minha mãe. Marcel Proust nasceu também a 10 de Julho. São ambos nativos de Caranguejo, primeiro decanato. São um poço sem fundo de emoções e não perdem uma oportunidade para verter a lágrima. A minha tia é catequista e recusa-se terminantemente a celebrar o seu aniversário com Marcel, pois desaprova por completo a sua tradução d' A Bíblia de Amiens de J. Ruskin.
Continuo a gostar muito dos dois.
terça-feira, julho 10, 2007
Os Doidos de Vila Nova
N'A Doida do Candal, Camilo descreve Vila Nova, o sítio onde cresci, como a maior taberna do mundo, asquerosa, cheia de becos imundos, que dá vinho a todo o mundo. Entre uma e outra cheia, inalei, em miúdo, quantidades bastante elevadas de gases libertados pelo vinho do Porto que escorria abundantemente em tintos regatos pela Calçada das Freiras (ou R. Serpa Pinto) abaixo. Mais tarde, turistas gordos americanos exclamariam, fascinados:
- Gee, it's amazing, the wine just grows up in the streets here!
A mãe e a avó falavam-me com alguma nostalgia dos carros de bois que transportavam as enormes pipas de carvalho cheias de vinho. Os pobres dos animais eram brutalmente vergastados enquanto galgavam a íngreme calçada até chegarem aos velhos armazéns. Depois vieram os ruidosos camiões com as cubas metálicas, os Leyland e os Mercedes, provenientes da Régua, largando fumos mortais e inúmeras moedas de chumbo. A avó mandava-me então recolher esses cunhos para vender à Gracindinha, a farrapeira da R. das Sete Passadas. Creio que hoje poderíamos designá-la de técnica do ambiente ou algo parecido. A senhora aparecia sempre sorridente por entre colunas empilhadas de cartão bafiento. É provável que também inalasse acidentalmente vapores de vinho. As paredes esburacadas da loja estavam revestidas aqui e ali por velhas embalagens de fertilizantes agrícolas e cartazes vintage sedutores de várias companhias vinícolas. Os cantos no tecto estavam remendados com teias de aranha centenárias das quais não conseguia desviar o olhar enquanto esperava pela Gracindinha. A Rua das Sete Passadas tem cerca de setenta, oitenta metros de extensão, nem a cavalo seria possível percorrê-la em apenas sete passadas. Toponímia feita por gigantes. Ou por bêbedos, sim.
De tanto snifar vinho, por volta dos meus dez, onze anos, já distinguia as subtis nuances entre o bouquet frutado e prometedor de um vintage e o aroma aveludado, corpulento de um velho tawny. Não estou a exagerar. Posso apresentar-vos aos meus amigos de infância que não me deixam mentir. Alguns ainda estão vivos, outros simplesmente não quiseram seguir a nobre pisada dos pais, enólogos de tasca, e prefiram a poeira ao vinho. Muito antes da febre dos desportos radicais, já faziam bungee jumping do tabuleiro superior da ponte sem cordão. Infelizmente, a ressaca era tão pesada que muitos batiam no fundo e só vinham à tona várias horas depois, nas margens da Afurada ou da Cantareira. De facto, há duas décadas atrás, as únicas riquezas dos lugares de Vila Nova e Sta. Marinha que rivalizavam com o vinho do Porto eram a heroína e a coca que se consumia desenfreadamente nos becos imundos de que falava Camilo. Os garrotes e as rolhas.
N'A Doida do Candal, Camilo descreve Vila Nova, o sítio onde cresci, como a maior taberna do mundo, asquerosa, cheia de becos imundos, que dá vinho a todo o mundo. Entre uma e outra cheia, inalei, em miúdo, quantidades bastante elevadas de gases libertados pelo vinho do Porto que escorria abundantemente em tintos regatos pela Calçada das Freiras (ou R. Serpa Pinto) abaixo. Mais tarde, turistas gordos americanos exclamariam, fascinados:
- Gee, it's amazing, the wine just grows up in the streets here!
A mãe e a avó falavam-me com alguma nostalgia dos carros de bois que transportavam as enormes pipas de carvalho cheias de vinho. Os pobres dos animais eram brutalmente vergastados enquanto galgavam a íngreme calçada até chegarem aos velhos armazéns. Depois vieram os ruidosos camiões com as cubas metálicas, os Leyland e os Mercedes, provenientes da Régua, largando fumos mortais e inúmeras moedas de chumbo. A avó mandava-me então recolher esses cunhos para vender à Gracindinha, a farrapeira da R. das Sete Passadas. Creio que hoje poderíamos designá-la de técnica do ambiente ou algo parecido. A senhora aparecia sempre sorridente por entre colunas empilhadas de cartão bafiento. É provável que também inalasse acidentalmente vapores de vinho. As paredes esburacadas da loja estavam revestidas aqui e ali por velhas embalagens de fertilizantes agrícolas e cartazes vintage sedutores de várias companhias vinícolas. Os cantos no tecto estavam remendados com teias de aranha centenárias das quais não conseguia desviar o olhar enquanto esperava pela Gracindinha. A Rua das Sete Passadas tem cerca de setenta, oitenta metros de extensão, nem a cavalo seria possível percorrê-la em apenas sete passadas. Toponímia feita por gigantes. Ou por bêbedos, sim.
De tanto snifar vinho, por volta dos meus dez, onze anos, já distinguia as subtis nuances entre o bouquet frutado e prometedor de um vintage e o aroma aveludado, corpulento de um velho tawny. Não estou a exagerar. Posso apresentar-vos aos meus amigos de infância que não me deixam mentir. Alguns ainda estão vivos, outros simplesmente não quiseram seguir a nobre pisada dos pais, enólogos de tasca, e prefiram a poeira ao vinho. Muito antes da febre dos desportos radicais, já faziam bungee jumping do tabuleiro superior da ponte sem cordão. Infelizmente, a ressaca era tão pesada que muitos batiam no fundo e só vinham à tona várias horas depois, nas margens da Afurada ou da Cantareira. De facto, há duas décadas atrás, as únicas riquezas dos lugares de Vila Nova e Sta. Marinha que rivalizavam com o vinho do Porto eram a heroína e a coca que se consumia desenfreadamente nos becos imundos de que falava Camilo. Os garrotes e as rolhas.
segunda-feira, julho 09, 2007
A Revolução n"Os Doze"

Capa do livro "Teatro" de A. Blok (1909)
(...)
V
Tens uma cicatriz no pescoço,
Kátia, a cicatriz de uma facada.
No peito, Kátia,
tens uma unhada fresca!
Eh, eh, dança!
Que pernas tão bonitas!
Levavas roupas de rendas;
por que não agora?
Fodias com oficiais,
por que não agora?
Fode, fode!
O coração salta-me no peito!
Recordas, Kátia, aquele oficial,
Que não se salvou da navalha…
Não te lembras dele?
Ou não tens a memória fresca?
Eh, eh, refresca-a,
mete-me na cama contigo!
Polainas cinzentas levavas,
e tomavas chocolate,
ias p’rà cama com cadetes…
Agora vais com soldados?
Eh, eh, peca, peca!
Vais sentir a alma mais leve!
Tens uma cicatriz no pescoço,
Kátia, a cicatriz de uma facada.
No peito, Kátia,
tens uma unhada fresca!
Eh, eh, dança!
Que pernas tão bonitas!
Levavas roupas de rendas;
por que não agora?
Fodias com oficiais,
por que não agora?
Fode, fode!
O coração salta-me no peito!
Recordas, Kátia, aquele oficial,
Que não se salvou da navalha…
Não te lembras dele?
Ou não tens a memória fresca?
Eh, eh, refresca-a,
mete-me na cama contigo!
Polainas cinzentas levavas,
e tomavas chocolate,
ias p’rà cama com cadetes…
Agora vais com soldados?
Eh, eh, peca, peca!
Vais sentir a alma mais leve!
(...)
Aleksandr Blok, Os Doze, in "Poetas Russos"
Trad.: Manuel de Seabra
Relógio d'Água
Relógio d'Água
sábado, julho 07, 2007
Agora a ordem quebrou-se
sexta-feira, julho 06, 2007
Outro Despertar
Tenho o triste hábito de cheirar a ponta das minhas trombas mal acordo de manhã. As minhas trombas são relativamente sensíveis e lacrimejam com alguma abundância durante a noite. Creio não exagerar se afirmar que são como os olhos das focas ou leões marinhos que vemos na tv. É um acto irreflectido e concedo que poderá ser visto como algo sórdido ou causar algum assombro aos mais susceptíveis ou a meninas em idade casadoira. Segue-se então o exercício matinal com o meu companheiro de garras: fazer o pino na parede âmbar e esperar pelo segundo toque do despertador. Ao pequeno-almoço, lemos as passagens de bíblia que vêm no verso das embalagens de cereais. A minha formação religiosa é católica, ele é presbiteriano, mas somos ambos tolerantes e gostamos de estar em comunhão um com o outro.
Lemos os textos sagrados em voz sólida e colocada para começar bem o dia.
Lemos os textos sagrados em voz sólida e colocada para começar bem o dia.
segunda-feira, julho 02, 2007

Nicolas de Staël
Ainda procuro palavras para me entregar. Sinto a boca apertada por um torno, sou de poucas falas e quando falo, avanço com peões sem importância. Levanto a mão e peço licença à menina para pedir cerejas e subir a alça descaída, onde já se viu? Gostaria de ordenar os meus sentimentos por ordem alfabética, assim o Amor viria em primeiro lugar.
Lisboa até já.
domingo, julho 01, 2007
Domingo de manhã

Com a vozinha velada, o gato miou-me ao ouvido, meio a medo:
- Tens de tapar a melena grisalha dessa tua cigana com uma mitra dourada, gasta, a cheirar a incenso. O safado do bispo está no compartimento que serve de quarto da rulote e a porta não pode ser trancada, deixaram-na entreaberta. Sua Eminência esconde-se debaixo dos velhos lençóis de linho que faz questão em abençoar todas as semanas. Ainda não o descobriste, mas está cagado de medo e faz promessas ao Patrão que nunca irá cumprir. Ela olha para dentro dos teus olhos e age, imperturbável, cerimoniosa, como se estivessem só os dois. Pede-te a mão direita para iniciar a leitura. Miau, escreve isso, vá, és um homem ou um rato?
O bichano deu-me uma trinca na orelha, e antes que eu pudesse esboçar qualquer reacção, saltou do meu ombro para cima da colcha com a agilidade de um acrobata chinês e correu em direcção à cozinha para terminar o resto da ração. Anda meio doido, gosta muito do Miró, o gatarrão do último andar do velho prédio da frente. Já me mijou no chã por duas ou três vezes.
sexta-feira, junho 29, 2007
É a lançadeira dos versos
É a lançadeira dos versos
o tear do mal
o zigzag sorridente
dos pontos de sutura.
Se o mundo é um pano encharcado
embebido em morte
cose-o docemente
não o apertes
não deixes fugir a substância
que o mantém unido
sustém a respiração
faz passar o fio
liga se puderes aquela água
ao remendo visível
que me estraga o casaco.
In "A Espinha do P", Valerio Magrelli
Trad. Colectiva, Poetas em Mateus
Quetzal
o tear do mal
o zigzag sorridente
dos pontos de sutura.
Se o mundo é um pano encharcado
embebido em morte
cose-o docemente
não o apertes
não deixes fugir a substância
que o mantém unido
sustém a respiração
faz passar o fio
liga se puderes aquela água
ao remendo visível
que me estraga o casaco.
In "A Espinha do P", Valerio Magrelli
Trad. Colectiva, Poetas em Mateus
Quetzal
quinta-feira, junho 28, 2007
Rebellion (Lies)

Fernand Léger
Everytime you close your eyes: lies-lies!
Everytime you close your eyes: lies-lies!
Não sentem já o cheiro da rebelião no ar?
Gostava de ser o violinista de camisa e calças brancas, lá atrás. Não só pela roupa, como também pela visão privilegiada da actuação do senhor do timbalão.
terça-feira, junho 26, 2007
Os bichinhos

Walton Ford
Bem, se quer saber a verdade, tenho sérias reservas sobre essa sua divisão patranheira e simplista da cigarra e da formiga que se aventuram nos mangues luxuriantes da literatura. O meu venturoso amigo não me levará a mal, pois não? A sua formiga não teme os papa-formigas, não se desvia do seu trilho por nada deste mundo. E não sabe parar, trabalha fustigada pelo seu próprio chicote, trabalha miseravelmente para se precaver contra dias de maior penúria. Já a cigarra, cheia de talento e cheia de si, deslumbra os outros bichinhos com a sua novíssima poesia...mas a maior parte destas cigarras tem uma esperança de vida muito reduzida. Eu consigo vislumbrar mais bichinhos no nosso ecossistema literário, sabe? Há pântanos com velhos crocodilos que passam o tempo a chorar crónicas e que não já comem há anos. E depois temos macacos de imitação e flamingos cor-de-rosa que fazem e vendem best-sellers à velocidade da luz. Que diz? Não sei o que digo? Hum. Desde pequeno que gosto muito de escaravelhos, os meus versos rolam ao sabor daquela matéria quente que é trabalhada pelos escaravelhos. Confesso-lhe que tenho noites em que chego a sentir alguma repugnância por aquilo que faço, mas só vejo um caminho a seguir.
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Cavalheiro adopta poeta em bom estado.
Sou meigo e culto. Bom status.
Compromisso sério. Ternura dos 40.
Sou meigo e culto. Bom status.
Compromisso sério. Ternura dos 40.
sábado, junho 23, 2007
Cartão de Natal

Antoni Tápies
Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:
que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.
in Obra Completa, João Cabral de Melo Neto
Editora Nova Aguilar, 1994
sexta-feira, junho 22, 2007
Avaria no sistema
Diacho. Entraram partículas de areia na engrenagem primária deste blogue que, pelos vistos, estão a afectar o depósito de comentários e a edição de posts. O actual é um refugo, um dummie, não liguem. Vou ter de chamar o técnico. Nunca fui muito hábil com máquinas.
Bem, fiquem por aí e leiam umas revistinhas enquanto esperam. São do mês passado, mas têm fotos de gente bonita e receitas de culinária.
Bem, fiquem por aí e leiam umas revistinhas enquanto esperam. São do mês passado, mas têm fotos de gente bonita e receitas de culinária.
quinta-feira, junho 21, 2007
Cair
Todos nós acabamos por cair e perder a graça. Tropeçamos em fantasmas que não conseguimos ver. A questão aqui é saber como cair. Temos de aprender a cair.
terça-feira, junho 19, 2007
O Tempo Que Faz Agora (para os petizes e não só)

O Sr. Matias, o velho operador da máquina do tempo e das estações, está prestes a entrar na pré-reforma e está a marimbar-se imperialmente para o serviço. Não muda o filtro do óleo das nuvens há alguns meses e já foi apanhado várias vezes a dormir durante o horário de expediente.
Pedro, o jovem aprendiz, acha-lhe piada e não perde a oportunidade para experimentar os muitos botões e alavancas do aparelhómetro sempre que o velho mestre passa pelas brasas.
O tempo do sr. Matias já era.
Nota:
Na mais remota hipótese de vir a encalhar neste blogue, agradeço-lhe por esta bela imagem. Roubei-a indecentemente do seu blogue (não me recordo do nome, sou desprezível, eu sei), espero que me perdoe.
sexta-feira, junho 15, 2007
Poema-pássaro (rev.)

Marc Burckhardt
jesus chamou-te uma vez
e tu não escutaste
chamou-te uma segunda vez
e pela janela aberta
tu fugiste
não mentirás desta vez
porque jesus tudo vê,
tudo escuta.
meio dia a meio da noite.
os cisnes presos em elipses
repetidas até ao infinito
no papel de parede
olham para mim
só com um olho amarelo
estão proibidos de
grasnar seja o que for
abateram-me este tempo todo
e agora estou deitado
de camisa azul desbotada
e peúgas ásperas de suor seco
confiei no teu Deus
mas libertei-me desse teu pavor
e agora tenho fome.
quarta-feira, junho 13, 2007
A história do pastor

Ian Hamilton Finlay
A seguir a história do pastor.
O pastor vivia em Goinge, floresta normanda.
Era filho dos senhores da Escânia
hoje conhecedores de ciências.
Aos vinte anos sabia já
distinguir as ervas
curava com esmero os golpes do gado.
Entretinha-se com o queixo.
E todos os arroios
o conheciam de sol a sol.
Aos vinte e seis anos
casou com Dourada, a rapariga débil.
Aos trinta
viu realizar-se um sonho antigo:
receber os primos no pátio.
Abriu então cervejas
fritou amêndoas
falou pela primeira vez de nostalgia.
in "O Afastamento Está Ali Sentado"
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Quasi
terça-feira, junho 12, 2007
teddy
sexta-feira, junho 08, 2007
Trabalho IV
- dei-me conta agora mesmo que se algum dia precisar de escrever para comer, vou passar muita fome. mais grave ainda, não sei se tenho tendência para ser barregão das editoras e escrever coisas a metro (que porco pretensioso).
- estou hoje exilado no meu escritório com quase 30 almas à minha volta. estão visivelmente contentes por não terem feito "ponte". parecem japoneses.
- vou ao WC fazer caretas em frente ao espelho e depois cortar as unhas.
- quero ser escanção para poder cuspir vinho caro a toda a hora. sempre me pareceu um gesto que transmite alguma luxúria romana, todas aquelas bacantes. preferível a cuspir palavras azedas e impulsivas como estas que me fazem azia. as gavetas são os tonéis dos escritores, servem para amadurecer as palavras.
- depois de amanhã, se tudo correr bem, é domingo. não trabalharás.
quarta-feira, junho 06, 2007
Maypole dancing
quais são os sintomas? ora bem, são pequenas palavras pretas e cor-de-rosa a dançar de mãos dadas em cima da minha cabeça. bailam e saltam à volta de um post, com fitas transparentes e flores de maio. uma delas tropeçou e fez doi doi em cima do meu olho esquerdo.
e agora tenho o olho um pouco inchado.
e agora tenho o olho um pouco inchado.
prémio "melhor post"
preciso tanto de certos posts como de um cu no cotovelo (onde será que ouvi isto?).
bem, fiquem mais um pouquinho.
isto promete.
bem, fiquem mais um pouquinho.
isto promete.
segunda-feira, junho 04, 2007
Erik Satie

Erik Satie por Igor Stravinsky
- Se o meu caro amigo quiser conduzir esta tépida conversa para as áreas minadas do fundamentalismo - prosseguiu o velho ayatollah, visivelmente crispado e curvando as fartas sobrancelhas pretas - então teremos de falar necessariamente do infiel Erik Satie. Quero que compreenda duas coisas: não preciso de sermões inflamados para me fazer respeitar perante o meu povo, o Livro Sagrado é o diário do profeta, devemos a nossa vida ao profeta e a deus, nem tampouco preciso dos ocidentais, sempre foram apêndices ridículos da nossa grande Civilização. A História prova isso mesmo. Porém, olho para os actos do Nazareno da mesma forma que olho para os de um mártir. Presto-Lhe a devida reverência, nada mais. Mas a tafularia dos vossos pregadores diverte-me. Um homem da minha posição não deveria dizer isto, mas Alá sussurra-me ao ouvido e diz-me que posso confiar no meu amigo - o velho inspirou profundamente durante alguns segundos e continuou - reconheço um paladino quando vejo um, de coração puro, ainda que seja infiel e ignore muitos factos. Ora bem, Erik Satie fundou o seu próprio culto, a Igreja Metropolitana de Arte de Jesus Condutor. Satie era músico, como decerto será do seu conhecimento, mas não gostava de ser tratado como tal. Via-se antes como um fonólogo, um cientista do som e da voz, chegando a pesar e a limpar as notas musicais! Exconjurou ateus, ímpios, livres-pensadores simoníacos, judeus e hereges anglicanos apenas por questionarem o seu trabalho. Não olhe para mim assim. Qualquer criança sabe isto. Quer que continue? Foi o único membro da sua Igreja, autoelegendo-se como Papa para emitir encíclicas inflamadas contra os críticos da sua música. E porquê? Pois bem, o francês orquestrava música para motores de aeroplanos, tômbolas de lotaria e máquinas de escrever. Chegava a oferecer as suas composições aos amigos na forma de aviões de papel! E agora pergunto-lhe a si, meu caro amigo: até onde pode ir a loucura de um homem?
sexta-feira, junho 01, 2007
quinta-feira, maio 31, 2007
Golden Brown
Há alguns anos atrás, Golden Brown marcou-me e levou-me consigo. É o soluçar e o beijo dos amantes, a canícula e a água escassa do oásis. As legiões de exploradores. O Mar Vermelho. Vamos todos em direcção ao nosso Deus, só que ainda não o sabemos. Não podemos saber.
Ouçam a melodia ondulante deste cravo, ele diz tudo.
Caros ouvintes, a Rádio Cairo termina a sua emissão por hoje.
Boa noite.
Ouçam a melodia ondulante deste cravo, ele diz tudo.
Caros ouvintes, a Rádio Cairo termina a sua emissão por hoje.
Boa noite.
terça-feira, maio 29, 2007
Jack & Corto

Entre 1905 e 1909, Corto Maltese cruzou-se por diversas vezes com Jack London:
- A lua está a minguar, Corto.
- Sim, zarpo antes do nascer do sol.
- Corto, Corto! Como vês, tornei-me num hedonista. Deus é prazer e não castigo. Pró diabo com o monge e as suas ladaínhas! Sou mais velho do que deus e riu-me do demónio.
- Sim... e tresandas a rum, Jack. A tua imaginação é um pássaro fora da gaiola que vai picar-te a cabeça quando acordares amanhã, meu velho.
- Hum. Vês aquele peixe ali a flutuar morto? Traz um pêssego na boca, morreu envenenado. Saltou para terra e o pêssego foi tudo o que encontrou. Aahahahah!
- Estás a tremer e nem te dás conta, pobre imbecil. Nem o álcool te aquece, este vento do norte é um chicote.
- Sabes o que queria agora, Corto Maltese?
- Não tenho mais rum, meu velho.
- Queria pentear os cabelos pretos de uma índia. Passar os meus dedos...
- Sim...cobre-te com o meu casaco, Jack.
- Tens um sorriso trocista, mas preocupaste demasiado com os outros. Vais morrer com esse sorriso idiota estampado na cara.
- Talvez. Morgana disse-me uma vez que eu iria morrer no mar.
- Não podemos ficar muito tempo em terra, Corto, senão acontece-nos como o peixe. É a intoxicação divina, como alguém disse.
- Passa a garrafa, Jack.
segunda-feira, maio 28, 2007
quinta-feira, maio 24, 2007
Cartas de Sangue para Jesper Svenbro
"Aqui estou eu, um velho, a ser cortado por uma freira"
seria uma forma de começar este poema,
mas iria soar muito a citação.
Mas nisto um poema, ou um livro, ou uma parábola
da seta, é um só: não interessa muito
como começa, é o fim, ainda que
previsível, que está em jogo, a construção
do mosteiro, a caçada ao cervo,
o soprar da corneta, e todas as farsas heroícas.
E no local onde a seta cai há uma
inscrição "Todos nós temos o direito a
um puzzle, se formos
sucientemente arrogantes. "A flebotomia
foi durante muito tempo a única
prática dos pharmakoi:
bodes espiatórios estocásticos nos seus desportos de tabuleiro.
A História tem tantas pistas engenhosas.
Em mais nenhum lado a sintaxe está tão perto
das silabas furiosas do rasto,
modelando a neve com inúmeros baralhos
de cartas, primeiro as pretas, depois as vermelhas.
Isto é a paciência, o verdadeiro jogo da paciência
dos lobos...
Göran Printz-Pählson
Trad. : a minha
Shooting stars
não sei o que o outro lobo, o antunes, e outros decanos da nossa praceta têm contra as shooting stars? é necessário escrever sempre da mesma forma, recorrer sempre à mesma fórmula, baralhar e tornar a dar títulos diferentes, prolongar a actividade durante décadas para ser um bom autor, para secar a argamassa, para ganhar alguma credibilidade?
Eu não acho.
- Mas quem sou eu?
- Ninguém! - gritou o velhote do fundo do sala, levantando-se num impulso e deixando cair as calças cinza de fazenda.
- Cheiras a leite!
E agora, trabalha.
Eu não acho.
- Mas quem sou eu?
- Ninguém! - gritou o velhote do fundo do sala, levantando-se num impulso e deixando cair as calças cinza de fazenda.
- Cheiras a leite!
E agora, trabalha.
segunda-feira, maio 21, 2007
Eu sei
Antonio Puccio Pisano
Queres ir embora
Porque mataram todos os coelhos aqui.
Mas tu não és um coelho.
Tenta explicar-lhes isso.
São os coelhos que tornam isso impossível.
Não, és tu.
Porquê eu.
Porquê os coelhos.
Quando atacado por um coelho selvagem.
Finge que estás morto.
Eu sei isso, tu sabes isso.
Mas será que os coelhos sabem isso.
E então o sol pára de brilhar.
Durante quanto tempo.
Durante quatro dias.
Obrigado, por um momento pensei que tivesses dito três dias.
Foi isso ou escureceu?
O que achavas que eu queria.
Sempre a mesma história.
Não quero ninguém no teu lugar.
Nachoem M. Wijnberg
Trad: a minha
sábado, maio 19, 2007
A patroa

Otto Dix
"Jantei no Rendez-vous dos Ferroviários. Como a patroa lá estava, tive de ir para a cama com ela, mas fi-lo por delicadeza. Sinto uma certa repugnância por ela: é branca de mais e, além disso, deita um cheiro de recém-nascido. Apertava-me a cabeça contra o seu peito num transporte de paixão: julgava que era assim que devia ser. Eu, por meu lado, dedilhava-lhe o sexo debaixo da roupa; depois o meu braço entorpeceu. Estava a pensar no Sr. de Rollebon: afinal, porque hei-de escrever um romance sobre a sua vida? Deixei deslizar o meu braço pelo quadril da patroa e vi de súbito um jardinzinho com árvores baixas e largas das quais pendiam imensas folhas cobertas de pêlos. (...)"
in "A Náusea", Jean Paul Sartre
Trad. António Coimbra Martins
Europa-América
"Jantei no Rendez-vous dos Ferroviários. Como a patroa lá estava, tive de ir para a cama com ela, mas fi-lo por delicadeza. Sinto uma certa repugnância por ela: é branca de mais e, além disso, deita um cheiro de recém-nascido. Apertava-me a cabeça contra o seu peito num transporte de paixão: julgava que era assim que devia ser. Eu, por meu lado, dedilhava-lhe o sexo debaixo da roupa; depois o meu braço entorpeceu. Estava a pensar no Sr. de Rollebon: afinal, porque hei-de escrever um romance sobre a sua vida? Deixei deslizar o meu braço pelo quadril da patroa e vi de súbito um jardinzinho com árvores baixas e largas das quais pendiam imensas folhas cobertas de pêlos. (...)"
in "A Náusea", Jean Paul Sartre
Trad. António Coimbra Martins
Europa-América
quarta-feira, maio 16, 2007
Pedro, o Lobo e o Camaleão
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