a abelha-rainha
sempre embriagante
sempre ubíqua
realizou o voo nupcial
dentro de mim
(sempre sempre)
o mel acumulou-se
nos alvéolos da cama,
na minha barriga
ah! devorou-me uma asa
ainda assim
não deixei de
voar entre
as flores.
sexta-feira, setembro 07, 2007
quinta-feira, setembro 06, 2007

Georgia O'Keefe
A aridez implacável do deserto obriga as pessoas a cometerem actos desesperados. Não é o caso deste projecto, au contraire. Também aqui o acto de criação é uma questão de sobrevivência, dentro ou fora do deserto.
E, se pensarem outra vez, este dueto romântico não é assim tão improvável quanto possa parecer à primeira vista.
quarta-feira, setembro 05, 2007
- Nenhum destes sintomas são realmente novos, seu doutora, mas não sinto dor. Eu sei que não tinha hora marcada, seu doutora. Desculpe, seu doutora. É quase como um formigueiro que se sente quando se apoia todo o peso do corpo num determinado membro durante muito tempo, sabe? Essa parte do corpo é a minha cabeça. Passa-me então o P1 para a "raspagem" da cabeça, seu doutora? Quero ver se durmo esta noite, seu doutora. Muito obrigado, seu doutora. Não, não volta a acontecer, eu falo com a menina do atendimento. Com licença, seu doutora.
terça-feira, setembro 04, 2007

Milton Avery
Se souberes recortar cuidadosamente as parcelas douradas do Tempo, não envelheces nem esmoreces tão rapidamente. Terás de fazer esta operação delicada antes de te deitares. O Sono devora o Tempo e baralha as moléculas do consciente e do inconsciente. O teu Sono é como um mar convulso, encrespado, mas não tormentoso, que carrega finos vícios, pequenas ânsias de baixios, velhos sudários e uma espécie de Grande Obra que nunca virá à tona.
quinta-feira, agosto 30, 2007
Lições de Trevas
Que limites existem para a luz? Veio alguém acender esta candeia. À nossa volta, uma pequena chama principia a erguer-se, mas em vão é que ela se conserva perto de nós, quando abrimos devagar as leves páginas cujo sentido se ignora e as fechamos depoissem esperança, como se fosse este o seu destino no interior da noite. Estamos ali adormecidos e havemos de encontrar uma outra luz, maior, que as permita ler.
"Lições de Trevas", Fernando Guimarães
Quasi Edições, 2002
"Lições de Trevas", Fernando Guimarães
Quasi Edições, 2002

Otto Dix
Uma mulher é poderosa segundo o grau de desgraça com que pode castigar o seu amante; por esta causa, quando não se tem mais que vaidade, qualquer mulher é útil e nenhuma é necessária; o êxito lisonjeiro fixa-se na conquista e não em conservar. Quando só se sentem desejos físicos procuram-se prostitutas; eis porque as prostitutas de França são encantadoras e as de Espanha não. Em França as prostitutas podem proporcionar a muitos homens tanto prazer como as mulheres honradas, isto é, prazer sem amor, mas há sempre uma coisa que um francês respeita mais que a sua querida, é a sua vaidade.
"Do Amor", Stendhal
Trad.: Adriano Valle
Portugal Press
segunda-feira, agosto 27, 2007
Conheci um Génio
hoje conheci um génio no
comboio
tinha 6 anos,
estava sentado ao meu lado
e enquanto o comboio
seguia ao longo da costa
chegámos ao oceano
e depois ele olhou para mim
e disse
não é bonito
foi a primeira vez que me
apercebi
disso.
Charles Bukowski
Versão de Manuel A. Domingos
hoje conheci um génio no
comboio
tinha 6 anos,
estava sentado ao meu lado
e enquanto o comboio
seguia ao longo da costa
chegámos ao oceano
e depois ele olhou para mim
e disse
não é bonito
foi a primeira vez que me
apercebi
disso.
Charles Bukowski
Versão de Manuel A. Domingos
sexta-feira, agosto 24, 2007
quinta-feira, agosto 23, 2007
Prelúdio para um Poema Técnico

Wu Guanzhong
Revisão periód.:__________Data:__/__/___
1. Leia com atenção
__este poema de
__segurança
__antes de
__iniciar
__iniciar
_____________________
__qualquer operaçãozinha.
________________________________
________________________________
________________________________
2. Verifique se existem___________fugas
__a) e drene todos
__b) os versos.
________________________________
________________________________
3. Para mais informações, contacte o seu(?) representante local:
___________________________________
__________________________________
____________________
____________________
Modelo:__________________ N.º Série: ______
Revisão periód.:__________Data:__/__/___
terça-feira, agosto 21, 2007
Gansos
domingo, agosto 19, 2007

Georges Braque
confirmei
agora mesmo:
aos pés da minha cama
jaz um pássaro de campanário
esse mesmo pássaro
nesse instante fatal
não me encontrava
na Praça de S. Marcos
nem em Jaipur
nem no quarto dos meus pais
posso prová-lo
mas só a si
nesse instante fatal,
a morte (um luxo)
senti a lassidão da morte
a fumegar na minha face
soltei um riso idiota
como poderia saber?
cantou os seus lábios
gretados de caju e o
fim de Deus
em noites quebradas por
borrascas diluvianas
amava mulheres
como quase todos
os pássaros
gostava de pendurar-se
em mastros vermelhos
de madeira norueguesa
e de maçãs muito maduras
o finado pássaro
alugava outros
pássaros para voar
(gaivotas não, por princípio)
vibrava com homicídios
involuntários em dias santos
chilreava por todo o bairro
fez-me jurar que
não iria imortalizá-lo
em versos sem casca
improváveis
afinal não passava
de um pássaro
e eu não passo
cartão a pássaros
quarta-feira, agosto 15, 2007
Os meninos de olhos escuros
Os meninos de olhos escuros penteiam delicadamente os brâmanes antes de afogarem a Paixão no Ganges. Os meninos crescem e tornaram-se jogadores, aprendem a cruzar as pernas e a venderem a nudez exótica. As amadas mães envergonham-se e lavam a vida toda no Ganges. Os mais orgulhosos roubam as chaves do cárcere e fogem para os grandes subúrbios de terracota, tornam-se jogadores de topo. Queres ser meu parceiro? Este bêbado é o joker, foi valete de copas mal amado, mas agora vale mais do que o ás.
segunda-feira, agosto 13, 2007

Nicolas De Staël
Não olhem para trás, meus filhos.
Um mar viscoso e ardente fica lá em baixo.
O ar áspero fere como se fosse areia
e aqui, por estes pilares salgados,
estão os que não perdoam. Segurem-se
ao rebordo da montanha, mesmo que
se desfaça em pó. Caminhem ou rastejam,
deixem que as rochas firam os pés sem piedade.
E esqueçam a cidade fumegante. Deus castiga os que se arrependem.
in Médium e outros poemas, Elaine Feinstein
Trad. colectiva, 1994
Poetas em Mateus, Quetzal Editores
sexta-feira, agosto 10, 2007
Ava

A ava (Piper methysticum) é uma planta pimenteira arbustiva, originária da Ásia e da Oceânia. Da sua raíz triturada pode preparar-se uma bebida intoxicante. As raízes secas e os rizomas revelaram-se eficazes contra a cistite, gota e doenças consumptivas. Sou o figurante que está a olhar-se ao espelho em 1:33.
Nunca consegui bater palmas ao contrário e as camas de dossel barrocas sempre me deixaram apreensivo.
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