sexta-feira, agosto 10, 2007

quinta-feira, agosto 09, 2007

- Está aqui o meu amigo que não me deixa mentir.
- Sofro dos nervos.

Vasco Fernandes (Grão Vasco)

A seguir, perguntou-lhe pelos assuntos do seu comando. A produção baixara dramaticamente nas últimas semanas e exigia-me um relatório completo.
-
Às vezes, sim.
O ar estava coalhado, a janela deixava entrar uma brisa fétida que trazia o cheiro forte a alcatrão quente e a lixo que transbordava dos contentores. Existia-se no pico do Verão.
- Ao menos, abra-me esse olhos enquanto falo consigo, homem!
O jovem inclinou-se para trás e bocejou. Respondeu-lhe então que tinha passado a noite toda em vigília pelos Sete Gozos da Nossa Senhora, mas que, nesse preciso momento, se sentia elevado pelas iluminuras e réplicas de pinturas maneiristas que cobriam as paredes da firma. O trabalho tornara-se num local violento e havia que pacificar as almas.
- Aqui, têm de responder perante mim e Deus.
Pouco a pouco, o jovem abandonava os velhos hábitos de gentio, os scherzos e andantes
do Reicha, que saíam das velhas colunas de madeira instaladas em todos os comandos, convertiam bestas e sarracenos. Hoje de manhã, porém, estava no limiar do seu cansaço e o inconsciente apoderou-se dele:
- Tem um cigarro que me arranje. Quero viver devagar e beber leite de cabra. Construa o seu cerco do outro lado da sua cupidez, meu suserano, não deite todos estes anos de sacrifício a perder.
Eu ainda consigo sonhar e você?

segunda-feira, agosto 06, 2007

"Infância"


Kazimir Malevich


A recordação de um copo de
leite derramado
numa longínqua tarde de infância
iluminou____ com a sua brancura
a tristeza
de uma longa noite de Inverno.

Sergio Badilla Castillo
Trad.: a minha

quarta-feira, agosto 01, 2007

Os pronomes clíticos

O pobre tombava meio morto na cama de ferro, mas depois era assolado por berrantes pesadelos com pronomes clíticos, e românicas ênclises e próclises, não havia maneira de voltar a pregar olho (a insónia era agravada pelo brutal luar que importou de um país qualquer do hemisfério sul, maldita a hora!). Valia-lhe, porém, as grandiosas audiências semanais com o magnânimo Rei Ubu. Somente os seus versados arrazoados iluminavam e amaciavam a sua pobre alma perseguida.

Tudo (se) passa nesta vida.

segunda-feira, julho 30, 2007

Syrinx, Ficção Pastoral (I)


Sophie Calle

Vou pôr um anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
Que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro de água.
Vou querer que me ame e abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos.


in "Quatro caprichos", António Franco Alexandre
Assírio & Alvim, 1999

domingo, julho 29, 2007

Gabrielle d'Annunzio


Arthur Dove

Em 1898, Vitoria Bini, filha mais nova de um velho casal de condição humilde, encontrou uma pequena peça de tapeçaria enquanto brincava numa solitária praia da região de
Abruzzo. Apesar do mau estado de conservação do tecido, a menina identificou de imediato o cocuruto de Gabrielle d'Annunzio. A peça remonta ao séc. II a.c. e tudo indica que três mastins negros tentaram dilacerá-la para evitar o advento do nacionalismo italiano nos anos 20. D'Annunzio emerge do mar em pose messiânica e aponta com os indicadores para os dois pedaços de terra separados pela água. O(a) autor(a) emprega habilmente o sfumato (técnica normalmente associada à pintura), tirando partido das características do tecido. Em último plano, são ainda representados negros que dançam na terra queimada por um sol carmim, de dimensões desproporcionadas, enquanto que, na margem esquerda, figuram vários artíficies que sustentam uma enorme e intrigante ratazana cinzenta que parece estar a saudar o poeta.

quinta-feira, julho 26, 2007

Do Amor


Nancy Spero

Um homem sensível e franco, um antigo cavalheiro fazia-me esta noite uma confidência (no fundo do nosso barco batido pela tempestade no lago de Grade) da história dos seus amores, história cuja confidência não porei a público, mas da qual me creio com direito a extrair a conclusão de que o momento da intimidade é como os belos dias do mês de maio, um momento que pode ser fatal e manchar num instante as mais lisonjeiras esperanças.

in "Do Amor", Stendhal,
Trad.: Adriano Vale
Portugal Press

terça-feira, julho 24, 2007

Palavras II

Outra das causas possíveis do excesso ou falta de ideias - que tem vindo a assumir contornos preocupantes e irreversíveis no meu caso - está relacionada com a substituição da velha lâmpada azul-cobalto situada no fundo da língua. A lâmpada é uma peça essencial. As palavras podem sair com visíveis deficiências ou podem se apresentar difusas e redundantes. Não há um controlo rigoroso, os novos símbolos não são repostos quando apresentam indícios de desgaste intenso. O trabalho árido não é um motivo válido para o cumprimento desta instrução.

O facto dos anjos e demónios andarem arredados das suas obrigações também não ajuda muito. É da sua exclusiva responsabilidade aplicarem a pressão devida quando untam massa lubrificante na fronte e no coração em 10 ciclos sucessivos para, no fim do processo, se incorporarem no paciente ou criador.
Assim, o contrato que celebramos à nascença com Deus e representantes acima referidos não é respeitado, assiste-nos o direito de exigir uma rescisão.

- Fim?

segunda-feira, julho 23, 2007

Palavras

As palavras são nómadas, ciganas, têm de vir e partir. Não podemos aprisioná-las durante muito tempo no mesmo sítio. Não gosto do conceito de eternidade, de perenidade absoluta neste universo, tudo está em constante movimento. Parece-me que, neste momento, elas estão de partida e sei que tenho de aguardar pela próxima vaga, não adianta procurá-las. Pode ser a espera de uma vida e posso muito bem enganar-me com amostras para satisfazer apenas a minha vaidade ou obter prazer imediato.

Super ova pendenti gradu incidere



E assim avanço nos meus dias.

quinta-feira, julho 19, 2007

Ética


Edgar Degas

Chego em frente do mar, das suas ondas,
das marés que setembro enfurece, dos cinzentos
e azuis que alternam com verdes estranhos;
uma voz trata da loucura, ou do olhar vazio
dos peixes, ou de um tema ressequido como as algas
da maré baixa; um vento percorreu a praia,
no silêncio da tarde, devolvendo ao corpo das águas
uma unidade antiga. O mar, no entanto, supõe
que o esqueçam. Nos seus fundos dormem as imagens
que o sonho já não guarda; braços que se agarram
aos mastros do naufrágio. Um barco abstracto
passou devagar pelo horizonte que a manhã não viu,
entrando no outro lado da terra, esquecido
por instantes da música dos portos. O poema, disseram-me,
ignorou essa distracção: atravessou
o limite da eternidade, vestiu-se com as palavras
nocturnas, deixou que a morte o contaminasse.
À beira-mar, não dou por isso; e digo-o,
devagar, repetindo em voz baixa
todas as suas contradições.

Nuno Júdice in "Um canto na espessura do tempo"
Quetzal, 1992

segunda-feira, julho 16, 2007

Que grande medo temos, tu e eu


Franz Kline

Que grande medo temos, tu e eu,
Seu boquinha de raia, amigo meu!

Oh, como se esfarela este tabaco,
Quebra-nozes compincha, meu velhaco!

E eu podia ter assobiado a vida,
A bolinho de noz acompanhada,

Pois, mas não pode ser nada...

Ossip Mandelstam, "Guarda Minha Fala Para Sempre"
Trad.: Nina Guerra, Filipe Guerra
Assírio & Alvim

Cúmplice

Todos os dias são cometidos assassínios morais e éticos no local de trabalho. Acenas com cabeça. Aconteceu a Beltrano, ao noviço que entrou há duas semanas e não fizeste nada. Mereces então o pouco salário que ganhas, pois é bem mais grave ficar na sombra a assistir impavidamente, a encolher os ombros e deixar esses criminosos incólumes. Não te cabe a ti, não queres aborrecimentos para o teu lado ou expor-te de alguma maneira, porque podes ser alvo de retaliação? Acreditas que, mais cedo ou mais tarde, tudo será resolvido, confias na sapiência do teu chefe ou na justiça divina. Acreditas em Deus que não dorme nos dias úteis e só descansa aos domingos, e confias nos chefes e supervisores que têm os olhos vendados, tal como a Justiça?
Naturalmente, se,
amanhã, acontecer o mesmo a ti, nada terás a recear.

domingo, julho 15, 2007

Everyday


Claude Cahun

This is the coastal town
That they forgot to close down
Armageddon - come armageddon
Everyday is like sunday

Mosu - No Reino das Mulheres

A minoria étnica Mosu é um subgrupo dos Naxi (uma das 55 etnias chinesas), um povo de pastores nómadas originário do Tibete que vive nas margens do belo lago Lugu, na remota província de Yunnan.
O casamento é um "sacramento" inexistente entre os Mosu. As azhu (uniões livres) podem durar uma vida inteira e até ser monogâmicas, mas estão abertas a vários relacionamentos, livres de qualquer compromisso marital ou financeiro. Os homens vivem na casa materna durante o dia e passam a noite na casa das amantes ou namoradas (axia). A relação termina quando ele deixa de a procurar ou ela se recusa a dar-lhe abrigo nocturno. Esta liberdade sexual, praticada ao longo de séculos, foi banida durante a Revolução Cultural. Os Mosu foram obrigados a constituir famílias "normais". Quando as coisas acalmaram, os casais separaram-se, voltando aos velhos hábitos. Todas as crianças estão sob a custódia das mulheres e herdam o seu apelido de família. As mulheres supervisionam todos os assuntos domésticos, desde as finanças à produção agrícola. No entanto, tudo é partilhado. Não há registo de crimes.
Os Mosu possuem um velho idioma pictográfico com cerca 1000 anos. Não existe um termo para "guerra". As designações adquirem mais força quando a palavra "mulher" é acrescentada, fortalecendo o significado: por exemplo, "pedra" mais "mulher" significa "rochedo" ou "penedo", enquanto que "pedra" associada a "homem" significa "calhau", "seixo".

sexta-feira, julho 13, 2007

Proofreading DAV-X10/YIT_M643-38S-B

Antes de ligar o cabo de alimentação CA deste aparelho a uma tomada de parede, ligue todas as colunas ao aparelho quando se trabalha há muitos anos com os mesmos colegas na mesma empresa , acabamos por assimilar tiques singulares, certos trejeitos do colega do lado, a halitose do M. que morde clips a toda a hora já não nos causa repulsa, a F. da logística vai entrar entre hoje e amanhã na red zone e não nos traz o chãzinho de menta do costume, o departamento inteiro boceja em coro às 10.27h, já não pedimos desculpa pelo pequeno arroto involuntário, partilhamos o mesmo bioritmo, só falta darmos as mãos para ir ao WC ao mesmo tempo, homens e senhoras, em procissão mariana, acho que estou a ficar com o lábio leporino do A., perguntamos ao fumador compulsivo porque não foi soltar hoje uma fumaça lá fora, a mulher pediu divórcio, logo divorciamo-nos todos e oferecemos, solidários, aquilo o que não temos e aquilo que eles nunca tiveram, Patrão em viagem de negócios, dia santo na loja, produtividade desce para metade, somos cruéis com o elemento mais fraco, mas já não há paciência para o seu mau gosto musical, arranjamos o colarinho e esticamos as gravatas dos trezentos que compramos ontem depois do expediente, que coincidência, por aqui, para obter os melhores resultados, observe o seguinte:
– Coloque ambas as colunas com uma distância entre si igual à distância em relação à posição de audição (de modo a formar um triângulo isósceles).
– As colunas frontais devem ser colocadas com uma distância entre si de 0,6 m.
- Não deixe um espaço em frente às colunas frontais quando colocadas numa mesa ou estante, etc., por causa do reflexo.

Greve patafísica


Cildo Meireles

As senhoritas trouxeram as sombrinhas, perfeito. Podiam esperar cá fora. Estava determinado nessa manhã, mãos à obra, não havia tempo a perder. Chega finalmente o patrão.
- Posso saber o que está a fazer?
- Estou a assentar tijolos na entrada, não é bom de ver?
- Mas você está doido?! Assim ninguém pode trabalhar!
- Oiça bem. Antes de vir para aqui, besuntei manteiga nos cantos da boca e na ponta da língua para que as palavras deslizassem melhor. Estavam presas dentro de mim. Agora, basta. Aconselho-o a estar calado. Quer ser útil? Chegue-me esse saco de cimento de 10 Kg que diz Pascal Pia.
- Este? O Pasc.. O quê?! Vou chamar a minha mãe e ela vai chamar o meu advogado.
- Pois vá.
- Palerma! O homem ensandeceu de vez. Isto não fica assim, ouviu?
As estagiárias não sabiam o que fazer, estavam horrorizadas. Tudo isto era inédito. O chefe de produção foi buscar uma cadeira de baloiço à carroça e começou a fazer tricot. Ia ser pai daqui a uns meses, mas a mulher ainda não sabia.
Pouco tempo depois aparece a mãe. Advogado nem vê-lo:
- Mãe, és tu? - interroguei-lhe, enquanto limpava a fronte com um lenço.
- Sr. P! Já lhe disse que eu não sou sua mãe!
- Então nada feito. Retire-se, por favor.
A mulher ficou ensimesmada durante alguns instantes, voltou-se para trás e pregou um sonoro tabefe no filho verdadeiro. Deu um pontapé no balde, virou costas e começou a caminhar em passos curtos e ligeiros, muito senhora de si. O meu patrão ficou incrédulo e paralisado com a mão na face. Antes de entrar no carro, a pobre escorregou e caiu em cima de uma poça esverdeada.
- Que campesina, alguém disse baixinho.
Levantou-se um forte rajada de vento vinda do mar. O céu estava coberto de gaivotas que não paravam de grasnar.
- As gaivotas grasnam, sr. P?
- Chega-me esse tijolo fúcsia que diz "The End".
- Tenho de lhe confessar uma coisa, chefe.
- Sim?

quarta-feira, julho 11, 2007

Em Busca do Tempo Perdido



Ontem foi o 66º aniversário da minha querida tia Adelaide, irmã da minha mãe. Marcel Proust nasceu também a 10 de Julho. São ambos nativos de Caranguejo, primeiro decanato. São um poço sem fundo de emoções e não perdem uma oportunidade para verter a lágrima. A minha tia é catequista e recusa-se terminantemente a celebrar o seu aniversário com Marcel, pois desaprova por completo a sua tradução d' A Bíblia de Amiens de J. Ruskin.
Continuo a gostar muito dos dois.

terça-feira, julho 10, 2007

Os Doidos de Vila Nova

N'A Doida do Candal, Camilo descreve Vila Nova, o sítio onde cresci, como a maior taberna do mundo, asquerosa, cheia de becos imundos, que dá vinho a todo o mundo. Entre uma e outra cheia, inalei, em miúdo, quantidades bastante elevadas de gases libertados pelo vinho do Porto que escorria abundantemente em tintos regatos pela Calçada das Freiras (ou R. Serpa Pinto) abaixo. Mais tarde, turistas gordos americanos exclamariam, fascinados:
- Gee, it's amazing, the wine just grows up in the streets here!
A mãe e a avó falavam-me com alguma nostalgia dos carros de bois que transportavam as enormes pipas de carvalho cheias de vinho. Os pobres dos animais eram brutalmente vergastados enquanto galgavam a íngreme calçada até chegarem aos velhos armazéns. Depois vieram os ruidosos camiões com as cubas metálicas, os Leyland e os Mercedes, provenientes da Régua, largando fumos mortais e inúmeras moedas de chumbo. A avó mandava-me então recolher esses cunhos para vender à Gracindinha, a farrapeira da R. das Sete Passadas. Creio que hoje poderíamos designá-la de técnica do ambiente ou algo parecido. A senhora aparecia sempre sorridente por entre colunas empilhadas de cartão bafiento. É provável que também inalasse acidentalmente vapores de vinho. As paredes esburacadas da loja estavam revestidas aqui e ali por velhas embalagens de fertilizantes agrícolas e cartazes vintage sedutores de várias companhias vinícolas. Os cantos no tecto estavam remendados com teias de aranha centenárias das quais não conseguia desviar o olhar enquanto esperava pela Gracindinha. A Rua das Sete Passadas tem cerca de setenta, oitenta metros de extensão, nem a cavalo seria possível percorrê-la em apenas sete passadas. Toponímia feita por gigantes. Ou por bêbedos, sim.

De tanto snifar vinho, por volta dos meus dez, onze anos, já distinguia as subtis nuances entre o bouquet frutado e prometedor de um vintage e o aroma aveludado, corpulento de um velho tawny. Não estou a exagerar. Posso apresentar-vos aos meus amigos de infância que não me deixam mentir. Alguns ainda estão vivos, outros simplesmente não quiseram seguir a nobre pisada dos pais, enólogos de tasca, e prefiram a poeira ao vinho. Muito antes da febre dos desportos radicais, já faziam bungee jumping do tabuleiro superior da ponte sem cordão. Infelizmente, a ressaca era tão pesada que muitos batiam no fundo e só vinham à tona várias horas depois, nas margens da Afurada ou da Cantareira. De facto, há duas décadas atrás, as únicas riquezas dos lugares de Vila Nova e Sta. Marinha que rivalizavam com o vinho do Porto eram a heroína e a coca que se consumia desenfreadamente nos becos imundos de que falava Camilo. Os garrotes e as rolhas.

segunda-feira, julho 09, 2007

A Revolução n"Os Doze"


Capa do livro "Teatro" de A. Blok (1909)


(...)
V

Tens uma cicatriz no pescoço,
Kátia, a cicatriz de uma facada.
No peito, Kátia,
tens uma unhada fresca!

Eh, eh, dança!

Que pernas tão bonitas!

Levavas roupas de rendas;
por que não agora?
Fodias com oficiais,
por que não agora?

Fode, fode!
O coração salta-me no peito!

Recordas, Kátia, aquele oficial,
Que não se salvou da navalha…
Não te lembras dele?
Ou não tens a memória fresca?

Eh, eh, refresca-a,
mete-me na cama contigo!

Polainas cinzentas levavas,
e tomavas chocolate,
ias p’rà cama com cadetes…
Agora vais com soldados?

Eh, eh, peca, peca!
Vais sentir a alma mais leve!
(...)
Aleksandr Blok, Os Doze, in "Poetas Russos"
Trad.: Manuel de Seabra
Relógio d'Água

sábado, julho 07, 2007

Agora a ordem quebrou-se


Modigliani


Agora a ordem quebrou-se, agora
aproximas-te do quarto e permaneces
nua todo o Verão, com a tua mão
a girar o manípulo até ao infinito


Milo de Angelis (Itália, n. 1951)
Trad.: A minha
I Love You But I've Chosen Darkness, The Owl
Realizado por Emmanuel Ho

sexta-feira, julho 06, 2007

Outro Despertar

Tenho o triste hábito de cheirar a ponta das minhas trombas mal acordo de manhã. As minhas trombas são relativamente sensíveis e lacrimejam com alguma abundância durante a noite. Creio não exagerar se afirmar que são como os olhos das focas ou leões marinhos que vemos na tv. É um acto irreflectido e concedo que poderá ser visto como algo sórdido ou causar algum assombro aos mais susceptíveis ou a meninas em idade casadoira. Segue-se então o exercício matinal com o meu companheiro de garras: fazer o pino na parede âmbar e esperar pelo segundo toque do despertador. Ao pequeno-almoço, lemos as passagens de bíblia que vêm no verso das embalagens de cereais. A minha formação religiosa é católica, ele é presbiteriano, mas somos ambos tolerantes e gostamos de estar em comunhão um com o outro.
Lemos os textos sagrados em voz sólida e colocada para começar bem o dia.

segunda-feira, julho 02, 2007


Nicolas de Staël

Ainda procuro palavras para me entregar. Sinto a boca apertada por um torno, sou de poucas falas e quando falo, avanço com peões sem importância. Levanto a mão e peço licença à menina para pedir cerejas e subir a alça descaída, onde já se viu? Gostaria de ordenar os meus sentimentos por ordem alfabética, assim o Amor viria em primeiro lugar.
Lisboa até já.

domingo, julho 01, 2007

Domingo de manhã


Com a vozinha velada, o gato miou-me ao ouvido, meio a medo:
- Tens de tapar a melena grisalha dessa tua cigana com uma mitra dourada, gasta, a cheirar a incenso. O safado do bispo está no compartimento que serve de quarto da rulote e a porta não pode ser trancada, deixaram-na entreaberta. Sua Eminência esconde-se debaixo dos velhos lençóis de linho que faz questão em abençoar todas as semanas. Ainda não o descobriste, mas está cagado de medo e faz promessas ao Patrão que nunca irá cumprir. Ela olha para dentro dos teus olhos e age, imperturbável, cerimoniosa, como se estivessem só os dois. Pede-te a mão direita para iniciar a leitura. Miau, escreve isso, vá, és um homem ou um rato?

O bichano deu-me uma trinca na orelha, e antes que eu pudesse esboçar qualquer reacção, saltou do meu ombro para cima da colcha com a agilidade de um acrobata chinês e correu em direcção à cozinha para terminar o resto da ração. Anda meio doido, gosta muito do Miró, o gatarrão do último andar do velho prédio da frente. Já me mijou no chã por duas ou três vezes.

sexta-feira, junho 29, 2007

É a lançadeira dos versos

É a lançadeira dos versos
o tear do mal
o zigzag sorridente
dos pontos de sutura.
Se o mundo é um pano encharcado
embebido em morte
cose-o docemente
não o apertes
não deixes fugir a substância
que o mantém unido
sustém a respiração
faz passar o fio
liga se puderes aquela água
ao remendo visível
que me estraga o casaco.

In "A Espinha do P", Valerio Magrelli
Trad. Colectiva, Poetas em Mateus
Quetzal

quinta-feira, junho 28, 2007

Rebellion (Lies)


Fernand Léger

Everytime you close your eyes: lies-lies!

Everytime you close your eyes: lies-lies!


Não sentem já o cheiro da rebelião no ar?
Gostava de ser o violinista de camisa e calças brancas, lá atrás. Não só pela roupa, como também pela visão privilegiada da actuação do senhor do timbalão.

terça-feira, junho 26, 2007

Os bichinhos


Walton Ford

Bem, se quer saber a verdade, tenho sérias reservas sobre essa sua divisão patranheira e simplista da cigarra e da formiga que se aventuram nos mangues luxuriantes da literatura. O meu venturoso amigo não me levará a mal, pois não? A sua formiga não teme os papa-formigas, não se desvia do seu trilho por nada deste mundo. E não sabe parar, trabalha
fustigada pelo seu próprio chicote, trabalha miseravelmente para se precaver contra dias de maior penúria. Já a cigarra, cheia de talento e cheia de si, deslumbra os outros bichinhos com a sua novíssima poesia...mas a maior parte destas cigarras tem uma esperança de vida muito reduzida. Eu consigo vislumbrar mais bichinhos no nosso ecossistema literário, sabe? Há pântanos com velhos crocodilos que passam o tempo a chorar crónicas e que não já comem há anos. E depois temos macacos de imitação e flamingos cor-de-rosa que fazem e vendem best-sellers à velocidade da luz. Que diz? Não sei o que digo? Hum. Desde pequeno que gosto muito de escaravelhos, os meus versos rolam ao sabor daquela matéria quente que é trabalhada pelos escaravelhos. Confesso-lhe que tenho noites em que chego a sentir alguma repugnância por aquilo que faço, mas só vejo um caminho a seguir.

anúncio

Cavalheiro adopta poeta em bom estado.
Sou meigo e culto. Bom status.
Compromisso sério. Ternura dos 40.

Hey Joe

(...)
- Hey Joe, where you goin' with that gun in your hand?
- I'm goin down to shoot the old Mega, you know I caught him messin' round (...).

sábado, junho 23, 2007

Cartão de Natal


Antoni Tápies

Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.

in Obra Completa, João Cabral de Melo Neto
Editora Nova Aguilar, 1994


sexta-feira, junho 22, 2007

Avaria no sistema

Diacho. Entraram partículas de areia na engrenagem primária deste blogue que, pelos vistos, estão a afectar o depósito de comentários e a edição de posts. O actual é um refugo, um dummie, não liguem. Vou ter de chamar o técnico. Nunca fui muito hábil com máquinas.
Bem, fiquem por aí e leiam umas revistinhas enquanto esperam. São do mês passado, mas têm fotos de gente bonita e receitas de culinária.

quinta-feira, junho 21, 2007

Cair

Todos nós acabamos por cair e perder a graça. Tropeçamos em fantasmas que não conseguimos ver. A questão aqui é saber como cair. Temos de aprender a cair.

terça-feira, junho 19, 2007

O Tempo Que Faz Agora (para os petizes e não só)



O Sr. Matias, o velho operador da máquina do tempo e das estações, está prestes a entrar na pré-reforma e está a marimbar-se imperialmente para o serviço. Não muda o filtro do óleo das nuvens há alguns meses e já foi apanhado várias vezes a dormir durante o horário de expediente.
Pedro, o jovem aprendiz, acha-lhe piada e não perde a oportunidade para experimentar os muitos botões e alavancas do aparelhómetro sempre que o velho mestre passa pelas brasas.
O tempo do sr. Matias já era.


Nota:
Na mais remota hipótese de vir a encalhar neste blogue, agradeço-lhe por esta bela imagem. Roubei-a indecentemente do seu blogue (não me recordo do nome, sou desprezível, eu sei), espero que me perdoe.

sexta-feira, junho 15, 2007

Poema-pássaro (rev.)


Marc Burckhardt


jesus chamou-te uma vez
e tu não escutaste


chamou-te uma segunda vez
e pela janela aberta
tu fugiste


não mentirás desta vez
porque jesus tudo vê,
tudo escuta.


meio dia a meio da noite.
os cisnes presos em elipses
repetidas até ao infinito
no papel de parede
olham para mim
só com um olho amarelo
estão proibidos de
grasnar seja o que for
abateram-me este tempo todo
e agora estou deitado
de camisa azul desbotada
e peúgas ásperas de suor seco
confiei no teu Deus
mas libertei-me desse teu pavor
e agora tenho fome.

quarta-feira, junho 13, 2007

A história do pastor


Ian Hamilton Finlay

A seguir a história do pastor.
O pastor vivia em Goinge, floresta normanda.
Era filho dos senhores da Escânia
hoje conhecedores de ciências.
Aos vinte anos sabia já
distinguir as ervas
curava com esmero os golpes do gado.

Entretinha-se com o queixo.
E todos os arroios
o conheciam de sol a sol.

Aos vinte e seis anos
casou com Dourada, a rapariga débil.
Aos trinta
viu realizar-se um sonho antigo:
receber os primos no pátio.
Abriu então cervejas
fritou amêndoas
falou pela primeira vez de nostalgia.


in "O Afastamento Está Ali Sentado"
Daniel Maia-Pinto Rodrigues

Quasi

terça-feira, junho 12, 2007

teddy


tenho a dizer que o ted hughes era o stewart granger dos poetas. acham que estou a ser redutor e algo oco, estão no vosso direito. mas ele era mesmo bom. a plath é que não aguentou a pedalada. mas ela era melhor ainda.

sexta-feira, junho 08, 2007

Coffee break


Phyllis Bramson

Trabalho IV

  • dei-me conta agora mesmo que se algum dia precisar de escrever para comer, vou passar muita fome. mais grave ainda, não sei se tenho tendência para ser barregão das editoras e escrever coisas a metro (que porco pretensioso).
  • estou hoje exilado no meu escritório com quase 30 almas à minha volta. estão visivelmente contentes por não terem feito "ponte". parecem japoneses.
  • vou ao WC fazer caretas em frente ao espelho e depois cortar as unhas.
  • quero ser escanção para poder cuspir vinho caro a toda a hora. sempre me pareceu um gesto que transmite alguma luxúria romana, todas aquelas bacantes. preferível a cuspir palavras azedas e impulsivas como estas que me fazem azia. as gavetas são os tonéis dos escritores, servem para amadurecer as palavras.
  • depois de amanhã, se tudo correr bem, é domingo. não trabalharás.

quarta-feira, junho 06, 2007

Maypole dancing

quais são os sintomas? ora bem, são pequenas palavras pretas e cor-de-rosa a dançar de mãos dadas em cima da minha cabeça. bailam e saltam à volta de um post, com fitas transparentes e flores de maio. uma delas tropeçou e fez doi doi em cima do meu olho esquerdo.
e agora tenho o olho um pouco inchado.

prémio "melhor post"

preciso tanto de certos posts como de um cu no cotovelo (onde será que ouvi isto?).
bem, fiquem mais um pouquinho.
isto promete.

Phyllis Bramson

segunda-feira, junho 04, 2007

Erik Satie


Erik Satie por Igor Stravinsky

- Se o meu caro amigo quiser conduzir esta tépida conversa para as áreas minadas do fundamentalismo - prosseguiu o velho ayatollah, visivelmente crispado e curvando as fartas sobrancelhas pretas - então teremos de falar necessariamente do infiel Erik Satie. Quero que compreenda duas coisas: não preciso de sermões inflamados para me fazer respeitar perante o meu povo, o Livro Sagrado é o diário do profeta, devemos a nossa vida ao profeta e a deus, nem tampouco preciso dos ocidentais, sempre foram apêndices ridículos da nossa grande Civilização. A História prova isso mesmo. Porém, olho para os actos do Nazareno da mesma forma que olho para os de um mártir. Presto-Lhe a devida reverência, nada mais. Mas a tafularia dos vossos pregadores diverte-me. Um homem da minha posição não deveria dizer isto, mas Alá sussurra-me ao ouvido e diz-me que posso confiar no meu amigo - o velho inspirou profundamente durante alguns segundos e continuou - reconheço um paladino quando vejo um, de coração puro, ainda que seja infiel e ignore muitos factos. Ora bem, Erik Satie fundou o seu próprio culto, a Igreja Metropolitana de Arte de Jesus Condutor. Satie era músico, como decerto será do seu conhecimento, mas não gostava de ser tratado como tal. Via-se antes como um fonólogo, um cientista do som e da voz, chegando a pesar e a limpar as notas musicais! Exconjurou ateus, ímpios, livres-pensadores simoníacos, judeus e hereges anglicanos apenas por questionarem o seu trabalho. Não olhe para mim assim. Qualquer criança sabe isto. Quer que continue? Foi o único membro da sua Igreja, autoelegendo-se como Papa para emitir encíclicas inflamadas contra os críticos da sua música. E porquê? Pois bem, o francês orquestrava música para motores de aeroplanos, tômbolas de lotaria e máquinas de escrever. Chegava a oferecer as suas composições aos amigos na forma de aviões de papel! E agora pergunto-lhe a si, meu caro amigo: até onde pode ir a loucura de um homem?

sexta-feira, junho 01, 2007

quinta-feira, maio 31, 2007

Golden Brown

Há alguns anos atrás, Golden Brown marcou-me e levou-me consigo. É o soluçar e o beijo dos amantes, a canícula e a água escassa do oásis. As legiões de exploradores. O Mar Vermelho. Vamos todos em direcção ao nosso Deus, só que ainda não o sabemos. Não podemos saber.
Ouçam a melodia ondulante deste cravo, ele diz tudo.


Caros ouvintes, a Rádio Cairo termina a sua emissão por hoje.
Boa noite.

terça-feira, maio 29, 2007

Jack & Corto


Entre 1905 e 1909, Corto Maltese cruzou-se por diversas vezes com Jack London:

- A lua está a minguar, Corto.
- Sim, zarpo antes do nascer do sol.
- Corto, Corto! Como vês, tornei-me num hedonista. Deus é prazer e não castigo. Pró diabo com o monge e as suas ladaínhas! Sou mais velho do que deus e riu-me do demónio.
- Sim... e tresandas a rum, Jack. A tua imaginação é um pássaro fora da gaiola que vai picar-te a cabeça quando acordares amanhã, meu velho.
- Hum. Vês aquele peixe ali a flutuar morto? Traz um pêssego na boca, morreu envenenado. Saltou para terra e o pêssego foi tudo o que encontrou. Aahahahah!
- Estás a tremer e nem te dás conta, pobre imbecil. Nem o álcool te aquece, este vento do norte é um chicote.
- Sabes o que queria agora, Corto Maltese?
- Não tenho mais rum, meu velho.
- Queria pentear os cabelos pretos de uma índia. Passar os meus dedos...
- Sim...cobre-te com o meu casaco, Jack.
- Tens um sorriso trocista, mas preocupaste demasiado com os outros. Vais morrer com esse sorriso idiota estampado na cara.
- Talvez. Morgana disse-me uma vez que eu iria morrer no mar.
- Não podemos ficar muito tempo em terra, Corto, senão acontece-nos como o peixe. É a intoxicação divina, como alguém disse.
- Passa a garrafa, Jack.

segunda-feira, maio 28, 2007

ubiquidade


Será que consigo convencer o meu patrão de que possuo o dom da ubiquidade?

quinta-feira, maio 24, 2007

Cartas de Sangue para Jesper Svenbro

"Aqui estou eu, um velho, a ser cortado por uma freira"
seria uma forma de começar este poema,
mas iria soar muito a citação.
Mas nisto um poema, ou um livro, ou uma parábola
da seta, é um só: não interessa muito
como começa, é o fim, ainda que
previsível, que está em jogo, a construção
do mosteiro, a caçada ao cervo,
o soprar da corneta, e todas as farsas heroícas.
E no local onde a seta cai há uma
inscrição "Todos nós temos o direito a
um puzzle, se formos
sucientemente arrogantes. "A flebotomia
foi durante muito tempo a única
prática dos pharmakoi:
bodes espiatórios estocásticos nos seus desportos de tabuleiro.
A História tem tantas pistas engenhosas.
Em mais nenhum lado a sintaxe está tão perto
das silabas furiosas do rasto,
modelando a neve com inúmeros baralhos
de cartas, primeiro as pretas, depois as vermelhas.
Isto é a paciência, o verdadeiro jogo da paciência
dos lobos...
Göran Printz-Pählson
Trad. : a minha

Shooting stars

não sei o que o outro lobo, o antunes, e outros decanos da nossa praceta têm contra as shooting stars? é necessário escrever sempre da mesma forma, recorrer sempre à mesma fórmula, baralhar e tornar a dar títulos diferentes, prolongar a actividade durante décadas para ser um bom autor, para secar a argamassa, para ganhar alguma credibilidade?

Eu não acho.

- Mas quem sou eu?
- Ninguém! - gritou o velhote do fundo do sala, levantando-se num impulso e deixando cair as calças cinza de fazenda.
- Cheiras a leite!

E agora, trabalha.

segunda-feira, maio 21, 2007

Eu sei


Antonio Puccio Pisano

Queres ir embora
Porque mataram todos os coelhos aqui.
Mas tu não és um coelho.
Tenta explicar-lhes isso.

São os coelhos que tornam isso impossível.
Não, és tu.
Porquê eu.
Porquê os coelhos.

Quando atacado por um coelho selvagem.
Finge que estás morto.
Eu sei isso, tu sabes isso.
Mas será que os coelhos sabem isso.

E então o sol pára de brilhar.
Durante quanto tempo.
Durante quatro dias.
Obrigado, por um momento pensei que tivesses dito três dias.

Foi isso ou escureceu?
O que achavas que eu queria.
Sempre a mesma história.
Não quero ninguém no teu lugar.

Nachoem M. Wijnberg
Trad: a minha

sábado, maio 19, 2007

A patroa


Otto Dix

"Jantei no Rendez-vous dos Ferroviários. Como a patroa lá estava, tive de ir para a cama com ela, mas fi-lo por delicadeza. Sinto uma certa repugnância por ela: é branca de mais e, além disso, deita um cheiro de recém-nascido. Apertava-me a cabeça contra o seu peito num transporte de paixão: julgava que era assim que devia ser. Eu, por meu lado, dedilhava-lhe o sexo debaixo da roupa; depois o meu braço entorpeceu. Estava a pensar no Sr. de Rollebon: afinal, porque hei-de escrever um romance sobre a sua vida? Deixei deslizar o meu braço pelo quadril da patroa e vi de súbito um jardinzinho com árvores baixas e largas das quais pendiam imensas folhas cobertas de pêlos. (...)"

in "A Náusea", Jean Paul Sartre
Trad. António Coimbra Martins
Europa-América

quarta-feira, maio 16, 2007

Pedro, o Lobo e o Camaleão


David B. narra "pedro e o lobo".
O homem que vendeu o mundo subiu mais uns patamares na minha consideração.

terça-feira, maio 15, 2007

Recordando Brecht


Vieira da Silva


Nesse Abril, apesar de as árvores estarem cinzentas
com algo mais do que o Inverno, quando
ouvi a tua voz e senti o primeiro tremor
do ânimo recuperado, a minha alegria iludiu-se.

o que não significa que viver encerrada no terror
ofereça protecção. Outras surpresas
aguardam novas lágrimas. Seja o que for
que imaginemos, tudo pode ser ainda pior.

Não chores. Muitas vezes é assim.


Elaine Feinstein, "Médium e outros Poemas",
Trad. colectiva, Poetas em Mateus
Quetzal Editores

A criança e o velho pastor



Um velho pastor do Cáucaso (Georgia) deu à luz um belo rapaz no passado dia 13 de Maio. Os habitantes de aldeia mais próxima afirmam ter visto o ancião numa velha ermida a baptizar a criança com leite de cabra enquanto entoava cânticos estranhos a Philip Larkin.

Em Tblisi, não se fala de outra coisa. Todos cospem caroços de cerejas para a rua para desejar sorte à criança e longa vida ao velho pastor.

sexta-feira, maio 11, 2007

Record


Kurt Schwitters

Estou imparável, acabei de bater algum record pessoal.
Dois posts de qualidade duvidosa em apenas 02:15 seg.
Com direito a imagem e tudo.

Grizzly Bear

Cuidado!
Animais selvagens à solta. São peludos e dão pelo nome.

E eis o vídeo oficialmente desconcertante.

quinta-feira, maio 10, 2007

Profetas

Os grandes profetas do Antigo Testamento eram escolhidos a dedo antes de serem nomeados RPs de Deus. Naturalmente, houve uns quantos que se destacaram e apostaram na especialização: Noé, o primeiro operador logista e construtor naval. Moisés, por sua vez, foi o percursor do sindicalismo organizado que esclareceu um vasto operariado oprimido. Os ímpios (egípcios) desvalorizaram claramente o perfil de liderança de Maomé. Depois temos Jonas, que significa "Pomba" em hebraico. Jonas teve um estágio duríssimo no interior de um "grande peixe". Ele achava que Deus era demasiado brando com os terríveis assírios e virou costas à sua comissão em Nínive. Durante a fuga, foi engolido, em alto mar, pelo tal "grande peixe" (não está provado se era, de facto, um cetáceo), arrependeu-se, tendo sido regorgitado três dias depois numa praia. Um lutador nato. Depois há os chamados "profetas menores" que receberam esta designação por não terem empreendido grandes feitos/angariações. A verdade é que os seus nomes não eram apelativos ( Miquéias, Obadias, Habacuque, etc). Já os árabes rejeitaram esta profusão de invidualidades e depositaram todo o seu capital político-religioso em al-Qasim Muhammad ibn 'Abd Allah ibn 'Abd al-Muttalib ibn Hashim, mais conhecido por Maomé.

quarta-feira, maio 09, 2007

Apneia

vivo numa espécie de apneia espiritual, ainda não sei muito bem quando é que vou subir à tona.

terça-feira, maio 08, 2007

Werther



- Posso fechar a janela Carlotinha? Estou com dores de cabeça, acho que apanhei uma pontada de ar frio.
- Diga logo de uma vez, meu caro Werther. Sei perfeitamente que toco mal. Mas esquece-se que só sei tocar nas pretas.
- Oh minha ave do paraíso! Como ousa pensar assim! Sabe muito bem que adoro mortalmente as rapsódias tocadas por esses dedos maravilhosos.
- Oh!
- Então vossa senhoria não sabe que a sua voz embriaga-me? Não sou digno! Thelxiepia ficaria ruborizada de vergonha.
- Quem?
- Minha ave do paraíso!
- Oh!...pequena Josefina, vá brincar com o seu mano que está no pavillon de chasse, vá.

segunda-feira, maio 07, 2007

Limericks

There was an Old Man in a tree,
Who was horribly bored by a Bee;
When they said, "Does it buzz?"
He replied, "Yes, it does!"
It's a regular brute of a Bee!"

There was a Young lady of Portugal,
Whose ideas were excessively nautical;
She climbed up a tree,
To examine the sea,
But declared she would never leave Portugal.

There was an Old Person of Buda,
Whose conduct grew ruder and ruder;
Till at last, with a hammer,
They silenced his clamour,
By smashing that Person of Buda.


in Book of Nonsense, Edward Lear

quarta-feira, maio 02, 2007

Colégio do Sagrado Coração das Cadeiras Perpétuas


Enrico Baj

Soube de fonte seguríssima (ou seja, li num blog de grande audiência, acima de qualquer suspeita e salomonicamente isento, que busca somente a verdade dos factos e não a auto-promoção) que existem filiais e subcomissões portuguesas do famoso Colégio Patafisico de Paris, criado em 11 de Maio de 1948 (22 Palotin de 76, segundo o calendário patafísico), em homenagem ao Doctor Faustroll, protaganista do romance de Alfred Jerry, "Gestos e Opiniões do Dr Faustroll, patafísico". De acordo com a mesma fonte, vários maçons e alguns rosacrucianos tentaram impedir a fundação destas subdivisões na década de 80, pois acreditavam que iriam retirar ou, pelo menos, desviar o protagonismo e o fascínio destas sociedades ultra-secretas. O Colégio encarrega-se de perpetuar a pataciência criada por Jarry (que contou com distintos membros ao longo do séc. XX, como Boris Vian, Marcel Duchamp, Enrico Baj, Umberto Eco, etc), maquinar estudos eruditos sobre as ciências do Inculto e do Inútil e elaborar curricula altamente especializados e provocatórios (Liricopatologia e Clínica dos Retoriconosos, Cocodrilologia, Pedologia e Adelfismo, Cinematografia e Onirocrítica, Aliética e Ictibalística, Tonosofía Africana, Alcoolismo Estético, Infantilização Voluntária e Involuntária, etc). Lembro ainda que uma destas subcomissões portuguesas - a Universidade Independente de Lisboa - ganhou recentemente bastante mediatismo graças à averiguação febril e mobilizadora da autenticidade da licenciatura de um dos patafísicos mais proeminentes do nosso país.

segunda-feira, abril 30, 2007

Lição de cinema

Lição de cinema (e não só) do mestre antes do exame final em salas escuras.

sexta-feira, abril 27, 2007

Franco-atirador

Digo-te isto a ti, e só a ti, porque sei que me entendes. Estou na mira de um franco-atirador omnipresente, bem colocado. Tenho as mãos suadas e tremo das pernas só de pensar. Aguardo pelo momento seguinte, pelo único tiro que me vai prostar sobre terra. Mas essa bala nunca é disparada, ele regozija-se ao ver-me a agonizar assim. Tu sabes, não sabes? Olho para cima, para os lados, e nada, ninguém. E vou me dobrando, aos poucos. Mais ou menos quando um homem, tu e eu, não os poetas, esses não sei quem são, nunca vi nenhum, quando um homem, dizia eu, escava, esgadanha e não encontra nada. Não há linha seguinte. Não há vasilha dourada para depositar as cinzas das palavras que traz consigo desde o dia em que nasceu. Sorte madrasta, soluçamos a vida e depois deixamos de respirar. E é tudo. Nada a alegar em nossa defesa. Sei que me entendes. Falhámos redondamente a nossa missão e depois, tarde demais. O nosso apelido torna-se inominável e todos nos viram a cara.

segunda-feira, abril 23, 2007

Tocata Patafísica Para Dois


José Damasceno

- É tudo?
- Tudo?
- Já terminaste?
- Ainda não.
- Sabes que é difícil encontrares trapézios oblíquos em bom estado, nesta altura do ano.
- Amanhã saio cedo da fábrica, ainda posso encontrá-los no mercado.
- Enfim, não podes deixar de existir até amanhã?
- Sim.
- Na tua condição de dandy dotado não te importas de fechar essa torneira dourada?
- Sim.

Farpa

Porque é que os handicaps morais têm acesso a quase tudo? A vulgaridade é cantada e exarcebada em cada canto, louva-se os fracos, queremos beber todos do mesmo bebedouro e empaturramo-nos da mesma meda de feno. O fenómeno, quase hereditário, assume proporções bem mais graves do que a neurose nacionalista, facilmente previsível em clima de recessão económica. A descultura dos ruminantes veio para ficar: confiscamos o sublime e tentamos escravizar o belo.
Tem de haver espaço para tudo, dizem alguns.
Ah pois tem, naturalmente.

quarta-feira, abril 18, 2007

171196


Ángeles Ortiz

1

Nunca morei numa rua chamada Vidro. Chutei uma vez paralelepípedos. Cada dia passava como se num espelho - de ecos. Telefones, fios. Uma vez andei de barco num lago. Nunca me vi em meu próprio reflexo. Falas, conversas-uma só figura e pessoa. Alto-falante mudo. Também morei num apartamento minúsculo. Gosto do nome das ruas de alguns amigos. Amherst, Mílvia, Sírius. Não tenho tempo para nada. Meus cabelos caíram. Talvez isto seja tudo.

2

Meus antepassados vieram da Itália. Sicília. Nápoles. Veneza. Alessandro Bonvicino - Il Moretto. Também de Ponte Vedra, na Galícia. Meus antepassados, de mãe, vieram de minas. Meu nome: meu pai tirou de um cartão de visita.


"Céu-eclipse - Poemas Selecionados", Régis Bonvicino

terça-feira, abril 17, 2007

Elevador

Mastigo ainda os flocos de cereais biológicos que surrupiei da loja onde trabalha a minha irmã. Já estou atrasado. Sou um bom ladrão. O patrão não lhe paga, logo esvazio-lhe o stock. Primo o botão do elevador. Vermelho, ocupado. Vou mesmo chegar atrasado. Desaperto a braguilha e arranjo-me. Tlin! Os dois mormons que moram no 2º Traseiras. Bom dia. Ripostei e encaixei-me num canto.
- Para onde vai?
- Menos dois, garagem.
O elevador começa a descer como só ele sabe fazer. Encontrei um ponto de fixação visual na placa de manutenção. Silêncio, afinal de contas estamos num elevador. De repente, um deles desvia o olhar e encara o outro, começando a falar em inglês. Não parece nada satisfeito. O outro mantém a postura solene e vai anuindo com a cabeça. Tlin! Zero. Saem os dois e o mais americanado diz até logo. Continuo a minha descida.

Até que ponto o uso indevido de tinta para cabelos loiros pode abalar uma equipa religiosa predestinada a existir até aos Últimos Dias?

quinta-feira, abril 12, 2007

Com quantos paus se faz um curral?



A reconsiderar seriamente o meu ganha-pão.

quarta-feira, abril 11, 2007

Conversor


Philip Evergood

Simplesmente não sei se me considere tradutor técnico ou um mero conversor. Transformo palavras aparafusadas e rebitadas em Euros. Operação tão maquinal e trituradora como a tradução do manual de uma retroescavadora coreana que tenho em mãos.
Digam-me lá o nome de um tradutor técnico* famoso.

*Não é requisito obrigatório ter formação superior.

terça-feira, abril 10, 2007

C'era una volta il West

Poi, Bronson ha detto:
- Mio corpo è una prigione!!

(Não é oficial, mas os meninos da Arcádia voltaram a fazer das suas: dessacralizaram il grand finale de Leone).

segunda-feira, abril 09, 2007

Aguardo

Aguardo pacientemente a crise de meia-estação. Tão certa como a Ressureição. Como uma colónia de ácaros que se instalou na velha carpete vermelha da avó e que não quero de modo algum desparasitar. Não sou funcional.
De olhos postos no céu azul (os anjos usam GPS?), estou na margem à espera do incansável barqueiro que traz grinaldas na barcaça em vez de bóias laranja. A brisa quente orquestra negros tambores que ribombam ao longe. Alguém puxa pelo meu casaco. A criança ao meu lado diz-me ao ouvido que este rio não tem nome e que os afluentes são lágrimas de mulheres abandonadas. A corrente é forte.

sexta-feira, abril 06, 2007

quarta-feira, abril 04, 2007

Trabalho

são deuses invejosos e irados que se escondem debaixo das nossas secretárias, das bancadas de trabalho, que nos amaldiçoam, sabotando e maculando o nosso trabalho. Medem forças entre si em batalhas de corredores e departamentos. E como se isto não bastasse, o chefe sacrifica o mais fraco, a ignomínia pública, à frente de todos, o cheiro a carne queimada. Cada um defende-se como pode: o sensual seduz, a assexuado espalha a vulgaridade e conspira, o monoteísta esconde-se e reza na casa de banho, várias vezes ao dia.

segunda-feira, abril 02, 2007

Eu sou aquilo que falta


Hieronymus Bosch

Eu sou aquilo que falta
ao mundo em que vivo,
aquele que entre todos
jamais encontrarei.
Rodando sobre mim mesmo agora coincido
com o que me foi tirado.
Eu sou o meu eclipse
a revelia, o desconsolo
o objecto geométrico
a que para sempre deverei renunciar.


Valerio Magrelli, "A Espinha do P"
Trad. colectiva (Mateus, 1992)
Quetzal Editores

quinta-feira, março 29, 2007

Efeito borboleta

Dar uma trinca no chocolate da generosa colega e levantar-se um violento furacão no Golfo do México.

quarta-feira, março 28, 2007

Super Flumina Babylonis


Alex Nowik

Remexendo nela, tirou de um canto umas folhas de papel, o tinteirinho, com a pena enfiada no anel, que se habituara, desde o primeiro embarque, a guardar assim. De joelhos, com as dores neles e nas partes aumentando muito agudas e em picadas de que cerrava os dentes, veio até à mesa, pousou nela o que trazia, e levantou-se. Ficou um momento, de olhos fechados, arquejando. Já as palavras tumultuavam nele, confundidas com as outras, inúteis e mortas, da tradução que tentara. Eram como uma tremura que o percorria todo de arrepios, com hesitações leves, concentrando-se em pequenas zonas da pele. Debruçando-se da mesa a que se apoiava, puxou para o seu lado a cadeira, e caiu sentado nela. Sentia um suor frio escorrer-lhe pela testa, e, ao abrir o tinteiro, viu que as costas das mãos brilhavam perladas. Uma onda de alegria o inundou, em sacões ansiosos. Os olhos ardiam-lhe e era de lágrimas. Tudo falhara, tudo, e a própria poesia o abandonara, receosa dos seus olhos penetrantes que viam o fundo das coisas. Era o poço com as formas flutuando. Mas era um grande poeta, transformava em poesia tudo o que tocava, mesmo a miséria, mesmo a amargura, mesmo o abandono da poesia. Tremendo todo, mas com a mão muito firme, começou a escrever... Sobre os rios que vão de Babilónia a Sião assentado me achei... Riscou, desesperado. Recomeçou. Sobre os rios que vão por Babilónia me achei onde sentado chorei as lembranças de Sião e quanto nela passei...
E ficou escrevendo pela noite adiante.

Jorge de Sena, "Antigas e novas andanças do demónio"
Edições 70

segunda-feira, março 26, 2007

Acto I

Estava muito calor nessa tarde. A governanta encaminhou o seu doutor para o quarto da menina Laura. O seu doutor já era amigo do papá deste os tempos de Coimbra. Tirou o estetoscópio da maleta e pediu-lhe para abrir a blusa. A menina Laura faz sempre o que lhe pedem. Escorriam lágrimas de suor do seu peito que cheirava a leite de coco. O seu doutor limpa a fronte e tenta a sua sorte:
- não gosto deste tipo que está a falar.
- porquê?
- não gosto de grandes actores. São uns pretenciosos, fingem que são humildes. Representam até quando morrem.
A menina não tirou os olhos da televisão.
- mas a Laurinha gosta de teatro?
- não...isto é, gosto de ver revista na televisão. Sou alérgica ao pó do palco e já tive ataques de epilepsia por causa das luzes.
- ah..é pena, sabe. Tenho aqui dois bilhetes que me arranjaram para uma peçazinha no Maria II.
- eu vou falar com o papá logo, talvez ele queira ir.
- não se incomode menina, eu próprio falo com ele. Vá, respire fundo agora.

Acto II

- Já chegaram as meninas Didascálias? Atrasam-se sempre, é que não já há pachorra. Mais cinco minutos e palavra de honra que me vou embora!

Acto III

Macintosh ama Macbeth perdidamente. Mas Macbeth ama MacDonald. Macintosh rasga Macbeth e formata-se logo em seguida.
MacDonald entra em estado vegetativo e fecha as portas.

verniz

este blog está a precisar de ser lixado e envernizado, cheira um pouco a caruncho nos cantos e está a perder cor. talvez entre em mudanças brevemente.

sexta-feira, março 23, 2007

Sakuntalam


Georgia O'Keeffe

Qualquer amante está amaldiçoado
a esquecer, por um só momento,
a sua mulher: como o rio de
amnésia que devora o seu amor.

Qualquer amada está amaldiçoada
a ser esquecida até que o seu segredo
fique preso na rede da memória.

Qualquer criança está amaldiçoada
a crescer orfã de pai
com a sua mão na boca do leão.

K. Satchidanandan

quinta-feira, março 22, 2007

o dia seguinte


J.H.W. Tischbein

ontem, o dia da poesia, fui acometido pelo meu velho desejo de roubar carteiras e não dar o dinheiro aos pobres, gastá-lo estupidamente em revistas cor-de-rosa e dropes.
algo revelador aconteceu depois: a minha mãe disse-me, à noite, que fui um parto difícil e que eu tinha sido "fada-do-lar" na casa do Goethe, numa outra encarnação. fiquei surpreendidíssimo com estas afirmações, não sabia que a minha mãe conhecia Goethe. já admiti publicamente que gosto de limpar e aproveitar palavras que os outros deitam fora para depois reescrevê-las ao contrário, fora do sítio, sem qualquer tipo de ordem ou lógica. nada mais do que isto.

antidesparasitante

já experimentaram lavar os vossos belos dentes com antidesparasitante para felinos?
o sacana do gato que não perde pela demora! é guerra aberta: logo vou por piña colada no pratinho em vez do leitinho do dia.

quarta-feira, março 21, 2007

Águas Furtadas nº 10

O número 10 da revista águas Furtadas vai ser apresentado no dia 24 de Março, nos Espaços JUP (Rua Miguel Bombarda, n.º 187, no Porto), às 16 horas, inserida na comemoração dos 20 anos do Núcleo de Jornalismo Académico do Porto/Jornal Universitário.

segunda-feira, março 19, 2007

baralho os primeiros Sinais deste ano


R B Kitaj

baralho os primeiros Sinais deste ano
enterro-os no jardim interior do prédio
(todos nós deveríamos ter um pequeno quintal
com anões e ânforas partidas)
a minha generosa vizinha
acolheu o sol
meteu-o dentro de si
cantando e celebrando
afinal é menino e
está tudo bem
do meu lado da parede
monto outra vez a cama de ferro
a tua pele traz de volta
a minha infância
quando ainda tinha dentes
e lágrimas
do outro lado da estrada
Pedro e Inês abraçam-se
no velho jardim e
negoceiam a eternidade
com as estrelas.

sexta-feira, março 16, 2007

Despedida

- Vou mostrar-te apenas a metade esquerda do meu corpo. Vais ter de imaginar a outra metade e não poderás tocá-la. Se o fizeres, nunca mais me tocas. Estamos entendidos? Agora, vira-te!
Desta vez não houve sangue, suor e muito menos lágrimas. Fitei-a por breves instantes. Procurei os meus sapatos e calcei-me, mesmo ali, de pé. Terminei o meu copo de whisky que, apesar dos antibióticos, tomava teimosamente todas as noites. Dirigi-me à cozinha, peguei na torradeira eléctrica e vim-me embora. Não me lembro de ter batido violentamente com a porta.
O porteiro, que não estava no seu local de trabalho quando entrei no prédio, não me cumprimentou como de costume, nem sequer desviou o olhar do pequeno televisor.
Começou a chuviscar quando finalmente saí.