
sexta-feira, agosto 10, 2007
quinta-feira, agosto 09, 2007
Vasco Fernandes (Grão Vasco)
A seguir, perguntou-lhe pelos assuntos do seu comando. A produção baixara dramaticamente nas últimas semanas e exigia-me um relatório completo.
- Às vezes, sim.
O ar estava coalhado, a janela deixava entrar uma brisa fétida que trazia o cheiro forte a alcatrão quente e a lixo que transbordava dos contentores. Existia-se no pico do Verão.
- Ao menos, abra-me esse olhos enquanto falo consigo, homem!
O jovem inclinou-se para trás e bocejou. Respondeu-lhe então que tinha passado a noite toda em vigília pelos Sete Gozos da Nossa Senhora, mas que, nesse preciso momento, se sentia elevado pelas iluminuras e réplicas de pinturas maneiristas que cobriam as paredes da firma. O trabalho tornara-se num local violento e havia que pacificar as almas.
- Aqui, têm de responder perante mim e Deus.
Pouco a pouco, o jovem abandonava os velhos hábitos de gentio, os scherzos e andantes do Reicha, que saíam das velhas colunas de madeira instaladas em todos os comandos, convertiam bestas e sarracenos. Hoje de manhã, porém, estava no limiar do seu cansaço e o inconsciente apoderou-se dele:
- Tem um cigarro que me arranje. Quero viver devagar e beber leite de cabra. Construa o seu cerco do outro lado da sua cupidez, meu suserano, não deite todos estes anos de sacrifício a perder. Eu ainda consigo sonhar e você?
segunda-feira, agosto 06, 2007
"Infância"
quarta-feira, agosto 01, 2007
Os pronomes clíticos
Tudo (se) passa nesta vida.
segunda-feira, julho 30, 2007
Syrinx, Ficção Pastoral (I)

Sophie Calle
Vou pôr um anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
Que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro de água.
Vou querer que me ame e abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos.
in "Quatro caprichos", António Franco Alexandre
Assírio & Alvim, 1999
domingo, julho 29, 2007
Gabrielle d'Annunzio

Arthur Dove
Em 1898, Vitoria Bini, filha mais nova de um velho casal de condição humilde, encontrou uma pequena peça de tapeçaria enquanto brincava numa solitária praia da região de Abruzzo. Apesar do mau estado de conservação do tecido, a menina identificou de imediato o cocuruto de Gabrielle d'Annunzio. A peça remonta ao séc. II a.c. e tudo indica que três mastins negros tentaram dilacerá-la para evitar o advento do nacionalismo italiano nos anos 20. D'Annunzio emerge do mar em pose messiânica e aponta com os indicadores para os dois pedaços de terra separados pela água. O(a) autor(a) emprega habilmente o sfumato (técnica normalmente associada à pintura), tirando partido das características do tecido. Em último plano, são ainda representados negros que dançam na terra queimada por um sol carmim, de dimensões desproporcionadas, enquanto que, na margem esquerda, figuram vários artíficies que sustentam uma enorme e intrigante ratazana cinzenta que parece estar a saudar o poeta.
quinta-feira, julho 26, 2007
Do Amor

Nancy Spero
Um homem sensível e franco, um antigo cavalheiro fazia-me esta noite uma confidência (no fundo do nosso barco batido pela tempestade no lago de Grade) da história dos seus amores, história cuja confidência não porei a público, mas da qual me creio com direito a extrair a conclusão de que o momento da intimidade é como os belos dias do mês de maio, um momento que pode ser fatal e manchar num instante as mais lisonjeiras esperanças.
in "Do Amor", Stendhal,
Trad.: Adriano Vale
Portugal Press
terça-feira, julho 24, 2007
Palavras II
O facto dos anjos e demónios andarem arredados das suas obrigações também não ajuda muito. É da sua exclusiva responsabilidade aplicarem a pressão devida quando untam massa lubrificante na fronte e no coração em 10 ciclos sucessivos para, no fim do processo, se incorporarem no paciente ou criador.
Assim, o contrato que celebramos à nascença com Deus e representantes acima referidos não é respeitado, assiste-nos o direito de exigir uma rescisão.
- Fim?
segunda-feira, julho 23, 2007
Palavras
quinta-feira, julho 19, 2007
Ética
das marés que setembro enfurece, dos cinzentos
e azuis que alternam com verdes estranhos;
uma voz trata da loucura, ou do olhar vazio
dos peixes, ou de um tema ressequido como as algas
da maré baixa; um vento percorreu a praia,
no silêncio da tarde, devolvendo ao corpo das águas
uma unidade antiga. O mar, no entanto, supõe
que o esqueçam. Nos seus fundos dormem as imagens
que o sonho já não guarda; braços que se agarram
aos mastros do naufrágio. Um barco abstracto
passou devagar pelo horizonte que a manhã não viu,
entrando no outro lado da terra, esquecido
por instantes da música dos portos. O poema, disseram-me,
ignorou essa distracção: atravessou
o limite da eternidade, vestiu-se com as palavras
nocturnas, deixou que a morte o contaminasse.
À beira-mar, não dou por isso; e digo-o,
devagar, repetindo em voz baixa
todas as suas contradições.
segunda-feira, julho 16, 2007
Que grande medo temos, tu e eu

Franz Kline
Que grande medo temos, tu e eu,
Seu boquinha de raia, amigo meu!
Oh, como se esfarela este tabaco,
Quebra-nozes compincha, meu velhaco!
E eu podia ter assobiado a vida,
A bolinho de noz acompanhada,
Pois, mas não pode ser nada...
Ossip Mandelstam, "Guarda Minha Fala Para Sempre"
Trad.: Nina Guerra, Filipe Guerra
Assírio & Alvim
Cúmplice
Naturalmente, se, amanhã, acontecer o mesmo a ti, nada terás a recear.
domingo, julho 15, 2007
Everyday

Claude Cahun
This is the coastal town
That they forgot to close down
Armageddon - come armageddon
Everyday is like sunday
Mosu - No Reino das Mulheres
O casamento é um "sacramento" inexistente entre os Mosu. As azhu (uniões livres) podem durar uma vida inteira e até ser monogâmicas, mas estão abertas a vários relacionamentos, livres de qualquer compromisso marital ou financeiro. Os homens vivem na casa materna durante o dia e passam a noite na casa das amantes ou namoradas (axia). A relação termina quando ele deixa de a procurar ou ela se recusa a dar-lhe abrigo nocturno. Esta liberdade sexual, praticada ao longo de séculos, foi banida durante a Revolução Cultural. Os Mosu foram obrigados a constituir famílias "normais". Quando as coisas acalmaram, os casais separaram-se, voltando aos velhos hábitos. Todas as crianças estão sob a custódia das mulheres e herdam o seu apelido de família. As mulheres supervisionam todos os assuntos domésticos, desde as finanças à produção agrícola. No entanto, tudo é partilhado. Não há registo de crimes.
Os Mosu possuem um velho idioma pictográfico com cerca 1000 anos. Não existe um termo para "guerra". As designações adquirem mais força quando a palavra "mulher" é acrescentada, fortalecendo o significado: por exemplo, "pedra" mais "mulher" significa "rochedo" ou "penedo", enquanto que "pedra" associada a "homem" significa "calhau", "seixo".
sexta-feira, julho 13, 2007
Proofreading DAV-X10/YIT_M643-38S-B
– Coloque ambas as colunas com uma distância entre si igual à distância em relação à posição de audição (de modo a formar um triângulo isósceles).
– As colunas frontais devem ser colocadas com uma distância entre si de 0,6 m.
- Não deixe um espaço em frente às colunas frontais quando colocadas numa mesa ou estante, etc., por causa do reflexo.
Greve patafísica

Cildo Meireles
As senhoritas trouxeram as sombrinhas, perfeito. Podiam esperar cá fora. Estava determinado nessa manhã, mãos à obra, não havia tempo a perder. Chega finalmente o patrão.
- Posso saber o que está a fazer?
- Estou a assentar tijolos na entrada, não é bom de ver?
- Mas você está doido?! Assim ninguém pode trabalhar!
- Oiça bem. Antes de vir para aqui, besuntei manteiga nos cantos da boca e na ponta da língua para que as palavras deslizassem melhor. Estavam presas dentro de mim. Agora, basta. Aconselho-o a estar calado. Quer ser útil? Chegue-me esse saco de cimento de 10 Kg que diz Pascal Pia.
- Este? O Pasc.. O quê?! Vou chamar a minha mãe e ela vai chamar o meu advogado.
- Pois vá.
- Palerma! O homem ensandeceu de vez. Isto não fica assim, ouviu?
As estagiárias não sabiam o que fazer, estavam horrorizadas. Tudo isto era inédito. O chefe de produção foi buscar uma cadeira de baloiço à carroça e começou a fazer tricot. Ia ser pai daqui a uns meses, mas a mulher ainda não sabia.
Pouco tempo depois aparece a mãe. Advogado nem vê-lo:
- Mãe, és tu? - interroguei-lhe, enquanto limpava a fronte com um lenço.
- Sr. P! Já lhe disse que eu não sou sua mãe!
- Então nada feito. Retire-se, por favor.
A mulher ficou ensimesmada durante alguns instantes, voltou-se para trás e pregou um sonoro tabefe no filho verdadeiro. Deu um pontapé no balde, virou costas e começou a caminhar em passos curtos e ligeiros, muito senhora de si. O meu patrão ficou incrédulo e paralisado com a mão na face. Antes de entrar no carro, a pobre escorregou e caiu em cima de uma poça esverdeada.
- Que campesina, alguém disse baixinho.
Levantou-se um forte rajada de vento vinda do mar. O céu estava coberto de gaivotas que não paravam de grasnar.
- As gaivotas grasnam, sr. P?
- Chega-me esse tijolo fúcsia que diz "The End".
- Tenho de lhe confessar uma coisa, chefe.
- Sim?
quarta-feira, julho 11, 2007
Em Busca do Tempo Perdido

terça-feira, julho 10, 2007
N'A Doida do Candal, Camilo descreve Vila Nova, o sítio onde cresci, como a maior taberna do mundo, asquerosa, cheia de becos imundos, que dá vinho a todo o mundo. Entre uma e outra cheia, inalei, em miúdo, quantidades bastante elevadas de gases libertados pelo vinho do Porto que escorria abundantemente em tintos regatos pela Calçada das Freiras (ou R. Serpa Pinto) abaixo. Mais tarde, turistas gordos americanos exclamariam, fascinados:
- Gee, it's amazing, the wine just grows up in the streets here!
A mãe e a avó falavam-me com alguma nostalgia dos carros de bois que transportavam as enormes pipas de carvalho cheias de vinho. Os pobres dos animais eram brutalmente vergastados enquanto galgavam a íngreme calçada até chegarem aos velhos armazéns. Depois vieram os ruidosos camiões com as cubas metálicas, os Leyland e os Mercedes, provenientes da Régua, largando fumos mortais e inúmeras moedas de chumbo. A avó mandava-me então recolher esses cunhos para vender à Gracindinha, a farrapeira da R. das Sete Passadas. Creio que hoje poderíamos designá-la de técnica do ambiente ou algo parecido. A senhora aparecia sempre sorridente por entre colunas empilhadas de cartão bafiento. É provável que também inalasse acidentalmente vapores de vinho. As paredes esburacadas da loja estavam revestidas aqui e ali por velhas embalagens de fertilizantes agrícolas e cartazes vintage sedutores de várias companhias vinícolas. Os cantos no tecto estavam remendados com teias de aranha centenárias das quais não conseguia desviar o olhar enquanto esperava pela Gracindinha. A Rua das Sete Passadas tem cerca de setenta, oitenta metros de extensão, nem a cavalo seria possível percorrê-la em apenas sete passadas. Toponímia feita por gigantes. Ou por bêbedos, sim.
De tanto snifar vinho, por volta dos meus dez, onze anos, já distinguia as subtis nuances entre o bouquet frutado e prometedor de um vintage e o aroma aveludado, corpulento de um velho tawny. Não estou a exagerar. Posso apresentar-vos aos meus amigos de infância que não me deixam mentir. Alguns ainda estão vivos, outros simplesmente não quiseram seguir a nobre pisada dos pais, enólogos de tasca, e prefiram a poeira ao vinho. Muito antes da febre dos desportos radicais, já faziam bungee jumping do tabuleiro superior da ponte sem cordão. Infelizmente, a ressaca era tão pesada que muitos batiam no fundo e só vinham à tona várias horas depois, nas margens da Afurada ou da Cantareira. De facto, há duas décadas atrás, as únicas riquezas dos lugares de Vila Nova e Sta. Marinha que rivalizavam com o vinho do Porto eram a heroína e a coca que se consumia desenfreadamente nos becos imundos de que falava Camilo. Os garrotes e as rolhas.
segunda-feira, julho 09, 2007
A Revolução n"Os Doze"

Tens uma cicatriz no pescoço,
Kátia, a cicatriz de uma facada.
No peito, Kátia,
tens uma unhada fresca!
Eh, eh, dança!
Que pernas tão bonitas!
Levavas roupas de rendas;
por que não agora?
Fodias com oficiais,
por que não agora?
Fode, fode!
O coração salta-me no peito!
Recordas, Kátia, aquele oficial,
Que não se salvou da navalha…
Não te lembras dele?
Ou não tens a memória fresca?
Eh, eh, refresca-a,
mete-me na cama contigo!
Polainas cinzentas levavas,
e tomavas chocolate,
ias p’rà cama com cadetes…
Agora vais com soldados?
Eh, eh, peca, peca!
Vais sentir a alma mais leve!
Relógio d'Água
sábado, julho 07, 2007
Agora a ordem quebrou-se
sexta-feira, julho 06, 2007
Outro Despertar
Lemos os textos sagrados em voz sólida e colocada para começar bem o dia.
segunda-feira, julho 02, 2007

Nicolas de Staël
Ainda procuro palavras para me entregar. Sinto a boca apertada por um torno, sou de poucas falas e quando falo, avanço com peões sem importância. Levanto a mão e peço licença à menina para pedir cerejas e subir a alça descaída, onde já se viu? Gostaria de ordenar os meus sentimentos por ordem alfabética, assim o Amor viria em primeiro lugar.
Lisboa até já.
domingo, julho 01, 2007
Domingo de manhã

Com a vozinha velada, o gato miou-me ao ouvido, meio a medo:
- Tens de tapar a melena grisalha dessa tua cigana com uma mitra dourada, gasta, a cheirar a incenso. O safado do bispo está no compartimento que serve de quarto da rulote e a porta não pode ser trancada, deixaram-na entreaberta. Sua Eminência esconde-se debaixo dos velhos lençóis de linho que faz questão em abençoar todas as semanas. Ainda não o descobriste, mas está cagado de medo e faz promessas ao Patrão que nunca irá cumprir. Ela olha para dentro dos teus olhos e age, imperturbável, cerimoniosa, como se estivessem só os dois. Pede-te a mão direita para iniciar a leitura. Miau, escreve isso, vá, és um homem ou um rato?
O bichano deu-me uma trinca na orelha, e antes que eu pudesse esboçar qualquer reacção, saltou do meu ombro para cima da colcha com a agilidade de um acrobata chinês e correu em direcção à cozinha para terminar o resto da ração. Anda meio doido, gosta muito do Miró, o gatarrão do último andar do velho prédio da frente. Já me mijou no chã por duas ou três vezes.
sexta-feira, junho 29, 2007
É a lançadeira dos versos
o tear do mal
o zigzag sorridente
dos pontos de sutura.
Se o mundo é um pano encharcado
embebido em morte
cose-o docemente
não o apertes
não deixes fugir a substância
que o mantém unido
sustém a respiração
faz passar o fio
liga se puderes aquela água
ao remendo visível
que me estraga o casaco.
In "A Espinha do P", Valerio Magrelli
Trad. Colectiva, Poetas em Mateus
Quetzal
quinta-feira, junho 28, 2007
Rebellion (Lies)

Fernand Léger
Everytime you close your eyes: lies-lies!
Everytime you close your eyes: lies-lies!
Não sentem já o cheiro da rebelião no ar?
Gostava de ser o violinista de camisa e calças brancas, lá atrás. Não só pela roupa, como também pela visão privilegiada da actuação do senhor do timbalão.
terça-feira, junho 26, 2007
Os bichinhos

Walton Ford
Bem, se quer saber a verdade, tenho sérias reservas sobre essa sua divisão patranheira e simplista da cigarra e da formiga que se aventuram nos mangues luxuriantes da literatura. O meu venturoso amigo não me levará a mal, pois não? A sua formiga não teme os papa-formigas, não se desvia do seu trilho por nada deste mundo. E não sabe parar, trabalha fustigada pelo seu próprio chicote, trabalha miseravelmente para se precaver contra dias de maior penúria. Já a cigarra, cheia de talento e cheia de si, deslumbra os outros bichinhos com a sua novíssima poesia...mas a maior parte destas cigarras tem uma esperança de vida muito reduzida. Eu consigo vislumbrar mais bichinhos no nosso ecossistema literário, sabe? Há pântanos com velhos crocodilos que passam o tempo a chorar crónicas e que não já comem há anos. E depois temos macacos de imitação e flamingos cor-de-rosa que fazem e vendem best-sellers à velocidade da luz. Que diz? Não sei o que digo? Hum. Desde pequeno que gosto muito de escaravelhos, os meus versos rolam ao sabor daquela matéria quente que é trabalhada pelos escaravelhos. Confesso-lhe que tenho noites em que chego a sentir alguma repugnância por aquilo que faço, mas só vejo um caminho a seguir.
anúncio
Sou meigo e culto. Bom status.
Compromisso sério. Ternura dos 40.
sábado, junho 23, 2007
Cartão de Natal

Antoni Tápies
Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:
que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.
in Obra Completa, João Cabral de Melo Neto
Editora Nova Aguilar, 1994
sexta-feira, junho 22, 2007
Avaria no sistema
Bem, fiquem por aí e leiam umas revistinhas enquanto esperam. São do mês passado, mas têm fotos de gente bonita e receitas de culinária.
quinta-feira, junho 21, 2007
Cair
terça-feira, junho 19, 2007
O Tempo Que Faz Agora (para os petizes e não só)

O Sr. Matias, o velho operador da máquina do tempo e das estações, está prestes a entrar na pré-reforma e está a marimbar-se imperialmente para o serviço. Não muda o filtro do óleo das nuvens há alguns meses e já foi apanhado várias vezes a dormir durante o horário de expediente.
Pedro, o jovem aprendiz, acha-lhe piada e não perde a oportunidade para experimentar os muitos botões e alavancas do aparelhómetro sempre que o velho mestre passa pelas brasas.
O tempo do sr. Matias já era.
Nota:
Na mais remota hipótese de vir a encalhar neste blogue, agradeço-lhe por esta bela imagem. Roubei-a indecentemente do seu blogue (não me recordo do nome, sou desprezível, eu sei), espero que me perdoe.
sexta-feira, junho 15, 2007
Poema-pássaro (rev.)

Marc Burckhardt
jesus chamou-te uma vez
e tu não escutaste
chamou-te uma segunda vez
e pela janela aberta
tu fugiste
não mentirás desta vez
porque jesus tudo vê,
tudo escuta.
meio dia a meio da noite.
os cisnes presos em elipses
repetidas até ao infinito
no papel de parede
olham para mim
só com um olho amarelo
estão proibidos de
grasnar seja o que for
abateram-me este tempo todo
e agora estou deitado
de camisa azul desbotada
e peúgas ásperas de suor seco
confiei no teu Deus
mas libertei-me desse teu pavor
e agora tenho fome.
quarta-feira, junho 13, 2007
A história do pastor

Ian Hamilton Finlay
A seguir a história do pastor.
O pastor vivia em Goinge, floresta normanda.
Era filho dos senhores da Escânia
hoje conhecedores de ciências.
Aos vinte anos sabia já
distinguir as ervas
curava com esmero os golpes do gado.
Entretinha-se com o queixo.
E todos os arroios
o conheciam de sol a sol.
Aos vinte e seis anos
casou com Dourada, a rapariga débil.
Aos trinta
viu realizar-se um sonho antigo:
receber os primos no pátio.
Abriu então cervejas
fritou amêndoas
falou pela primeira vez de nostalgia.
in "O Afastamento Está Ali Sentado"
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Quasi
terça-feira, junho 12, 2007
teddy
sexta-feira, junho 08, 2007
Trabalho IV
- dei-me conta agora mesmo que se algum dia precisar de escrever para comer, vou passar muita fome. mais grave ainda, não sei se tenho tendência para ser barregão das editoras e escrever coisas a metro (que porco pretensioso).
- estou hoje exilado no meu escritório com quase 30 almas à minha volta. estão visivelmente contentes por não terem feito "ponte". parecem japoneses.
- vou ao WC fazer caretas em frente ao espelho e depois cortar as unhas.
- quero ser escanção para poder cuspir vinho caro a toda a hora. sempre me pareceu um gesto que transmite alguma luxúria romana, todas aquelas bacantes. preferível a cuspir palavras azedas e impulsivas como estas que me fazem azia. as gavetas são os tonéis dos escritores, servem para amadurecer as palavras.
- depois de amanhã, se tudo correr bem, é domingo. não trabalharás.
quarta-feira, junho 06, 2007
Maypole dancing
e agora tenho o olho um pouco inchado.
prémio "melhor post"
bem, fiquem mais um pouquinho.
isto promete.
segunda-feira, junho 04, 2007
Erik Satie

sexta-feira, junho 01, 2007
quinta-feira, maio 31, 2007
Golden Brown
Ouçam a melodia ondulante deste cravo, ele diz tudo.
Caros ouvintes, a Rádio Cairo termina a sua emissão por hoje.
Boa noite.
terça-feira, maio 29, 2007
Jack & Corto

- A lua está a minguar, Corto.
segunda-feira, maio 28, 2007
quinta-feira, maio 24, 2007
Cartas de Sangue para Jesper Svenbro
Shooting stars
Eu não acho.
- Mas quem sou eu?
- Ninguém! - gritou o velhote do fundo do sala, levantando-se num impulso e deixando cair as calças cinza de fazenda.
- Cheiras a leite!
E agora, trabalha.
segunda-feira, maio 21, 2007
Eu sei
Antonio Puccio Pisano
sábado, maio 19, 2007
A patroa

"Jantei no Rendez-vous dos Ferroviários. Como a patroa lá estava, tive de ir para a cama com ela, mas fi-lo por delicadeza. Sinto uma certa repugnância por ela: é branca de mais e, além disso, deita um cheiro de recém-nascido. Apertava-me a cabeça contra o seu peito num transporte de paixão: julgava que era assim que devia ser. Eu, por meu lado, dedilhava-lhe o sexo debaixo da roupa; depois o meu braço entorpeceu. Estava a pensar no Sr. de Rollebon: afinal, porque hei-de escrever um romance sobre a sua vida? Deixei deslizar o meu braço pelo quadril da patroa e vi de súbito um jardinzinho com árvores baixas e largas das quais pendiam imensas folhas cobertas de pêlos. (...)"
in "A Náusea", Jean Paul Sartre
Trad. António Coimbra Martins
Europa-América
quarta-feira, maio 16, 2007
Pedro, o Lobo e o Camaleão
terça-feira, maio 15, 2007
Recordando Brecht
Vieira da Silva
Nesse Abril, apesar de as árvores estarem cinzentas
com algo mais do que o Inverno, quando
ouvi a tua voz e senti o primeiro tremor
do ânimo recuperado, a minha alegria iludiu-se.
o que não significa que viver encerrada no terror
ofereça protecção. Outras surpresas
aguardam novas lágrimas. Seja o que for
que imaginemos, tudo pode ser ainda pior.
Não chores. Muitas vezes é assim.
Elaine Feinstein, "Médium e outros Poemas",
Trad. colectiva, Poetas em Mateus
Quetzal Editores
A criança e o velho pastor

sexta-feira, maio 11, 2007
Record
Grizzly Bear
Animais selvagens à solta. São peludos e dão pelo nome.
E eis o vídeo oficialmente desconcertante.
quinta-feira, maio 10, 2007
Profetas
quarta-feira, maio 09, 2007
Apneia
terça-feira, maio 08, 2007
Werther

- Posso fechar a janela Carlotinha? Estou com dores de cabeça, acho que apanhei uma pontada de ar frio.
- Oh minha ave do paraíso! Como ousa pensar assim! Sabe muito bem que adoro mortalmente as rapsódias tocadas por esses dedos maravilhosos.
segunda-feira, maio 07, 2007
Limericks
Who was horribly bored by a Bee;
When they said, "Does it buzz?"
He replied, "Yes, it does!"
It's a regular brute of a Bee!"
There was a Young lady of Portugal,
Whose ideas were excessively nautical;
She climbed up a tree,
To examine the sea,
But declared she would never leave Portugal.
There was an Old Person of Buda,
Whose conduct grew ruder and ruder;
Till at last, with a hammer,
They silenced his clamour,
By smashing that Person of Buda.
in Book of Nonsense, Edward Lear
quarta-feira, maio 02, 2007
Colégio do Sagrado Coração das Cadeiras Perpétuas

segunda-feira, abril 30, 2007
sexta-feira, abril 27, 2007
Franco-atirador
quarta-feira, abril 25, 2007
segunda-feira, abril 23, 2007
Tocata Patafísica Para Dois

José Damasceno
- É tudo?
- Tudo?
- Já terminaste?
- Ainda não.
- Sabes que é difícil encontrares trapézios oblíquos em bom estado, nesta altura do ano.
- Amanhã saio cedo da fábrica, ainda posso encontrá-los no mercado.
- Enfim, não podes deixar de existir até amanhã?
- Sim.
- Na tua condição de dandy dotado não te importas de fechar essa torneira dourada?
- Sim.
Farpa
Tem de haver espaço para tudo, dizem alguns.
Ah pois tem, naturalmente.
quarta-feira, abril 18, 2007
171196
Nunca morei numa rua chamada Vidro. Chutei uma vez paralelepípedos. Cada dia passava como se num espelho - de ecos. Telefones, fios. Uma vez andei de barco num lago. Nunca me vi em meu próprio reflexo. Falas, conversas-uma só figura e pessoa. Alto-falante mudo. Também morei num apartamento minúsculo. Gosto do nome das ruas de alguns amigos. Amherst, Mílvia, Sírius. Não tenho tempo para nada. Meus cabelos caíram. Talvez isto seja tudo.
2
Meus antepassados vieram da Itália. Sicília. Nápoles. Veneza. Alessandro Bonvicino - Il Moretto. Também de Ponte Vedra, na Galícia. Meus antepassados, de mãe, vieram de minas. Meu nome: meu pai tirou de um cartão de visita.
terça-feira, abril 17, 2007
Elevador
- Para onde vai?
- Menos dois, garagem.
O elevador começa a descer como só ele sabe fazer. Encontrei um ponto de fixação visual na placa de manutenção. Silêncio, afinal de contas estamos num elevador. De repente, um deles desvia o olhar e encara o outro, começando a falar em inglês. Não parece nada satisfeito. O outro mantém a postura solene e vai anuindo com a cabeça. Tlin! Zero. Saem os dois e o mais americanado diz até logo. Continuo a minha descida.
Até que ponto o uso indevido de tinta para cabelos loiros pode abalar uma equipa religiosa predestinada a existir até aos Últimos Dias?
quinta-feira, abril 12, 2007
quarta-feira, abril 11, 2007
Conversor

Simplesmente não sei se me considere tradutor técnico ou um mero conversor. Transformo palavras aparafusadas e rebitadas em Euros. Operação tão maquinal e trituradora como a tradução do manual de uma retroescavadora coreana que tenho em mãos.
*Não é requisito obrigatório ter formação superior.
terça-feira, abril 10, 2007
C'era una volta il West
- Mio corpo è una prigione!!
(Não é oficial, mas os meninos da Arcádia voltaram a fazer das suas: dessacralizaram il grand finale de Leone).
segunda-feira, abril 09, 2007
Aguardo
De olhos postos no céu azul (os anjos usam GPS?), estou na margem à espera do incansável barqueiro que traz grinaldas na barcaça em vez de bóias laranja. A brisa quente orquestra negros tambores que ribombam ao longe. Alguém puxa pelo meu casaco. A criança ao meu lado diz-me ao ouvido que este rio não tem nome e que os afluentes são lágrimas de mulheres abandonadas. A corrente é forte.
sexta-feira, abril 06, 2007
quarta-feira, abril 04, 2007
Trabalho
segunda-feira, abril 02, 2007
Eu sou aquilo que falta

Hieronymus Bosch
Eu sou aquilo que falta
ao mundo em que vivo,
aquele que entre todos
jamais encontrarei.
Rodando sobre mim mesmo agora coincido
com o que me foi tirado.
Eu sou o meu eclipse
a revelia, o desconsolo
o objecto geométrico
a que para sempre deverei renunciar.
Valerio Magrelli, "A Espinha do P"
Trad. colectiva (Mateus, 1992)
Quetzal Editores
quinta-feira, março 29, 2007
Efeito borboleta
quarta-feira, março 28, 2007
Super Flumina Babylonis

E ficou escrevendo pela noite adiante.
segunda-feira, março 26, 2007
Estava muito calor nessa tarde. A governanta encaminhou o seu doutor para o quarto da menina Laura. O seu doutor já era amigo do papá deste os tempos de Coimbra. Tirou o estetoscópio da maleta e pediu-lhe para abrir a blusa. A menina Laura faz sempre o que lhe pedem. Escorriam lágrimas de suor do seu peito que cheirava a leite de coco. O seu doutor limpa a fronte e tenta a sua sorte:
- não gosto deste tipo que está a falar.
- porquê?
- não gosto de grandes actores. São uns pretenciosos, fingem que são humildes. Representam até quando morrem.
A menina não tirou os olhos da televisão.
- mas a Laurinha gosta de teatro?
- não...isto é, gosto de ver revista na televisão. Sou alérgica ao pó do palco e já tive ataques de epilepsia por causa das luzes.
- ah..é pena, sabe. Tenho aqui dois bilhetes que me arranjaram para uma peçazinha no Maria II.
- eu vou falar com o papá logo, talvez ele queira ir.
- não se incomode menina, eu próprio falo com ele. Vá, respire fundo agora.
Acto II
- Já chegaram as meninas Didascálias? Atrasam-se sempre, é que não já há pachorra. Mais cinco minutos e palavra de honra que me vou embora!
Acto III
Macintosh ama Macbeth perdidamente. Mas Macbeth ama MacDonald. Macintosh rasga Macbeth e formata-se logo em seguida.
MacDonald entra em estado vegetativo e fecha as portas.
verniz
sexta-feira, março 23, 2007
Sakuntalam

Georgia O'Keeffe
Qualquer amante está amaldiçoado
a esquecer, por um só momento,
a sua mulher: como o rio de
amnésia que devora o seu amor.
Qualquer amada está amaldiçoada
a ser esquecida até que o seu segredo
fique preso na rede da memória.
Qualquer criança está amaldiçoada
a crescer orfã de pai
com a sua mão na boca do leão.
K. Satchidanandan
quinta-feira, março 22, 2007
o dia seguinte

J.H.W. Tischbein
ontem, o dia da poesia, fui acometido pelo meu velho desejo de roubar carteiras e não dar o dinheiro aos pobres, gastá-lo estupidamente em revistas cor-de-rosa e dropes.
algo revelador aconteceu depois: a minha mãe disse-me, à noite, que fui um parto difícil e que eu tinha sido "fada-do-lar" na casa do Goethe, numa outra encarnação. fiquei surpreendidíssimo com estas afirmações, não sabia que a minha mãe conhecia Goethe. já admiti publicamente que gosto de limpar e aproveitar palavras que os outros deitam fora para depois reescrevê-las ao contrário, fora do sítio, sem qualquer tipo de ordem ou lógica. nada mais do que isto.
antidesparasitante
o sacana do gato que não perde pela demora! é guerra aberta: logo vou por piña colada no pratinho em vez do leitinho do dia.
quarta-feira, março 21, 2007
Águas Furtadas nº 10
segunda-feira, março 19, 2007
baralho os primeiros Sinais deste ano

R B Kitaj
enterro-os no jardim interior do prédio
(todos nós deveríamos ter um pequeno quintal
a minha generosa vizinha
acolheu o sol
meteu-o dentro de si
cantando e celebrando
afinal é menino e
está tudo bem
do meu lado da parede
monto outra vez a cama de ferro
a tua pele traz de volta
a minha infância
quando ainda tinha dentes
e lágrimas
do outro lado da estrada
Pedro e Inês abraçam-se
no velho jardim e
negoceiam a eternidade
sexta-feira, março 16, 2007
Despedida
Desta vez não houve sangue, suor e muito menos lágrimas. Fitei-a por breves instantes. Procurei os meus sapatos e calcei-me, mesmo ali, de pé. Terminei o meu copo de whisky que, apesar dos antibióticos, tomava teimosamente todas as noites. Dirigi-me à cozinha, peguei na torradeira eléctrica e vim-me embora. Não me lembro de ter batido violentamente com a porta.
O porteiro, que não estava no seu local de trabalho quando entrei no prédio, não me cumprimentou como de costume, nem sequer desviou o olhar do pequeno televisor.
Começou a chuviscar quando finalmente saí.













