sábado, julho 07, 2007

Agora a ordem quebrou-se


Modigliani


Agora a ordem quebrou-se, agora
aproximas-te do quarto e permaneces
nua todo o Verão, com a tua mão
a girar o manípulo até ao infinito


Milo de Angelis (Itália, n. 1951)
Trad.: A minha
I Love You But I've Chosen Darkness, The Owl
Realizado por Emmanuel Ho

sexta-feira, julho 06, 2007

Outro Despertar

Tenho o triste hábito de cheirar a ponta das minhas trombas mal acordo de manhã. As minhas trombas são relativamente sensíveis e lacrimejam com alguma abundância durante a noite. Creio não exagerar se afirmar que são como os olhos das focas ou leões marinhos que vemos na tv. É um acto irreflectido e concedo que poderá ser visto como algo sórdido ou causar algum assombro aos mais susceptíveis ou a meninas em idade casadoira. Segue-se então o exercício matinal com o meu companheiro de garras: fazer o pino na parede âmbar e esperar pelo segundo toque do despertador. Ao pequeno-almoço, lemos as passagens de bíblia que vêm no verso das embalagens de cereais. A minha formação religiosa é católica, ele é presbiteriano, mas somos ambos tolerantes e gostamos de estar em comunhão um com o outro.
Lemos os textos sagrados em voz sólida e colocada para começar bem o dia.

segunda-feira, julho 02, 2007


Nicolas de Staël

Ainda procuro palavras para me entregar. Sinto a boca apertada por um torno, sou de poucas falas e quando falo, avanço com peões sem importância. Levanto a mão e peço licença à menina para pedir cerejas e subir a alça descaída, onde já se viu? Gostaria de ordenar os meus sentimentos por ordem alfabética, assim o Amor viria em primeiro lugar.
Lisboa até já.

domingo, julho 01, 2007

Domingo de manhã


Com a vozinha velada, o gato miou-me ao ouvido, meio a medo:
- Tens de tapar a melena grisalha dessa tua cigana com uma mitra dourada, gasta, a cheirar a incenso. O safado do bispo está no compartimento que serve de quarto da rulote e a porta não pode ser trancada, deixaram-na entreaberta. Sua Eminência esconde-se debaixo dos velhos lençóis de linho que faz questão em abençoar todas as semanas. Ainda não o descobriste, mas está cagado de medo e faz promessas ao Patrão que nunca irá cumprir. Ela olha para dentro dos teus olhos e age, imperturbável, cerimoniosa, como se estivessem só os dois. Pede-te a mão direita para iniciar a leitura. Miau, escreve isso, vá, és um homem ou um rato?

O bichano deu-me uma trinca na orelha, e antes que eu pudesse esboçar qualquer reacção, saltou do meu ombro para cima da colcha com a agilidade de um acrobata chinês e correu em direcção à cozinha para terminar o resto da ração. Anda meio doido, gosta muito do Miró, o gatarrão do último andar do velho prédio da frente. Já me mijou no chã por duas ou três vezes.

sexta-feira, junho 29, 2007

É a lançadeira dos versos

É a lançadeira dos versos
o tear do mal
o zigzag sorridente
dos pontos de sutura.
Se o mundo é um pano encharcado
embebido em morte
cose-o docemente
não o apertes
não deixes fugir a substância
que o mantém unido
sustém a respiração
faz passar o fio
liga se puderes aquela água
ao remendo visível
que me estraga o casaco.

In "A Espinha do P", Valerio Magrelli
Trad. Colectiva, Poetas em Mateus
Quetzal

quinta-feira, junho 28, 2007

Rebellion (Lies)


Fernand Léger

Everytime you close your eyes: lies-lies!

Everytime you close your eyes: lies-lies!


Não sentem já o cheiro da rebelião no ar?
Gostava de ser o violinista de camisa e calças brancas, lá atrás. Não só pela roupa, como também pela visão privilegiada da actuação do senhor do timbalão.

terça-feira, junho 26, 2007

Os bichinhos


Walton Ford

Bem, se quer saber a verdade, tenho sérias reservas sobre essa sua divisão patranheira e simplista da cigarra e da formiga que se aventuram nos mangues luxuriantes da literatura. O meu venturoso amigo não me levará a mal, pois não? A sua formiga não teme os papa-formigas, não se desvia do seu trilho por nada deste mundo. E não sabe parar, trabalha
fustigada pelo seu próprio chicote, trabalha miseravelmente para se precaver contra dias de maior penúria. Já a cigarra, cheia de talento e cheia de si, deslumbra os outros bichinhos com a sua novíssima poesia...mas a maior parte destas cigarras tem uma esperança de vida muito reduzida. Eu consigo vislumbrar mais bichinhos no nosso ecossistema literário, sabe? Há pântanos com velhos crocodilos que passam o tempo a chorar crónicas e que não já comem há anos. E depois temos macacos de imitação e flamingos cor-de-rosa que fazem e vendem best-sellers à velocidade da luz. Que diz? Não sei o que digo? Hum. Desde pequeno que gosto muito de escaravelhos, os meus versos rolam ao sabor daquela matéria quente que é trabalhada pelos escaravelhos. Confesso-lhe que tenho noites em que chego a sentir alguma repugnância por aquilo que faço, mas só vejo um caminho a seguir.

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Cavalheiro adopta poeta em bom estado.
Sou meigo e culto. Bom status.
Compromisso sério. Ternura dos 40.

Hey Joe

(...)
- Hey Joe, where you goin' with that gun in your hand?
- I'm goin down to shoot the old Mega, you know I caught him messin' round (...).

sábado, junho 23, 2007

Cartão de Natal


Antoni Tápies

Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.

in Obra Completa, João Cabral de Melo Neto
Editora Nova Aguilar, 1994


sexta-feira, junho 22, 2007

Avaria no sistema

Diacho. Entraram partículas de areia na engrenagem primária deste blogue que, pelos vistos, estão a afectar o depósito de comentários e a edição de posts. O actual é um refugo, um dummie, não liguem. Vou ter de chamar o técnico. Nunca fui muito hábil com máquinas.
Bem, fiquem por aí e leiam umas revistinhas enquanto esperam. São do mês passado, mas têm fotos de gente bonita e receitas de culinária.

quinta-feira, junho 21, 2007

Cair

Todos nós acabamos por cair e perder a graça. Tropeçamos em fantasmas que não conseguimos ver. A questão aqui é saber como cair. Temos de aprender a cair.

terça-feira, junho 19, 2007

O Tempo Que Faz Agora (para os petizes e não só)



O Sr. Matias, o velho operador da máquina do tempo e das estações, está prestes a entrar na pré-reforma e está a marimbar-se imperialmente para o serviço. Não muda o filtro do óleo das nuvens há alguns meses e já foi apanhado várias vezes a dormir durante o horário de expediente.
Pedro, o jovem aprendiz, acha-lhe piada e não perde a oportunidade para experimentar os muitos botões e alavancas do aparelhómetro sempre que o velho mestre passa pelas brasas.
O tempo do sr. Matias já era.


Nota:
Na mais remota hipótese de vir a encalhar neste blogue, agradeço-lhe por esta bela imagem. Roubei-a indecentemente do seu blogue (não me recordo do nome, sou desprezível, eu sei), espero que me perdoe.

sexta-feira, junho 15, 2007

Poema-pássaro (rev.)


Marc Burckhardt


jesus chamou-te uma vez
e tu não escutaste


chamou-te uma segunda vez
e pela janela aberta
tu fugiste


não mentirás desta vez
porque jesus tudo vê,
tudo escuta.


meio dia a meio da noite.
os cisnes presos em elipses
repetidas até ao infinito
no papel de parede
olham para mim
só com um olho amarelo
estão proibidos de
grasnar seja o que for
abateram-me este tempo todo
e agora estou deitado
de camisa azul desbotada
e peúgas ásperas de suor seco
confiei no teu Deus
mas libertei-me desse teu pavor
e agora tenho fome.

quarta-feira, junho 13, 2007

A história do pastor


Ian Hamilton Finlay

A seguir a história do pastor.
O pastor vivia em Goinge, floresta normanda.
Era filho dos senhores da Escânia
hoje conhecedores de ciências.
Aos vinte anos sabia já
distinguir as ervas
curava com esmero os golpes do gado.

Entretinha-se com o queixo.
E todos os arroios
o conheciam de sol a sol.

Aos vinte e seis anos
casou com Dourada, a rapariga débil.
Aos trinta
viu realizar-se um sonho antigo:
receber os primos no pátio.
Abriu então cervejas
fritou amêndoas
falou pela primeira vez de nostalgia.


in "O Afastamento Está Ali Sentado"
Daniel Maia-Pinto Rodrigues

Quasi

terça-feira, junho 12, 2007

teddy


tenho a dizer que o ted hughes era o stewart granger dos poetas. acham que estou a ser redutor e algo oco, estão no vosso direito. mas ele era mesmo bom. a plath é que não aguentou a pedalada. mas ela era melhor ainda.

sexta-feira, junho 08, 2007

Coffee break


Phyllis Bramson

Trabalho IV

  • dei-me conta agora mesmo que se algum dia precisar de escrever para comer, vou passar muita fome. mais grave ainda, não sei se tenho tendência para ser barregão das editoras e escrever coisas a metro (que porco pretensioso).
  • estou hoje exilado no meu escritório com quase 30 almas à minha volta. estão visivelmente contentes por não terem feito "ponte". parecem japoneses.
  • vou ao WC fazer caretas em frente ao espelho e depois cortar as unhas.
  • quero ser escanção para poder cuspir vinho caro a toda a hora. sempre me pareceu um gesto que transmite alguma luxúria romana, todas aquelas bacantes. preferível a cuspir palavras azedas e impulsivas como estas que me fazem azia. as gavetas são os tonéis dos escritores, servem para amadurecer as palavras.
  • depois de amanhã, se tudo correr bem, é domingo. não trabalharás.