segunda-feira, maio 07, 2007

Limericks

There was an Old Man in a tree,
Who was horribly bored by a Bee;
When they said, "Does it buzz?"
He replied, "Yes, it does!"
It's a regular brute of a Bee!"

There was a Young lady of Portugal,
Whose ideas were excessively nautical;
She climbed up a tree,
To examine the sea,
But declared she would never leave Portugal.

There was an Old Person of Buda,
Whose conduct grew ruder and ruder;
Till at last, with a hammer,
They silenced his clamour,
By smashing that Person of Buda.


in Book of Nonsense, Edward Lear

quarta-feira, maio 02, 2007

Colégio do Sagrado Coração das Cadeiras Perpétuas


Enrico Baj

Soube de fonte seguríssima (ou seja, li num blog de grande audiência, acima de qualquer suspeita e salomonicamente isento, que busca somente a verdade dos factos e não a auto-promoção) que existem filiais e subcomissões portuguesas do famoso Colégio Patafisico de Paris, criado em 11 de Maio de 1948 (22 Palotin de 76, segundo o calendário patafísico), em homenagem ao Doctor Faustroll, protaganista do romance de Alfred Jerry, "Gestos e Opiniões do Dr Faustroll, patafísico". De acordo com a mesma fonte, vários maçons e alguns rosacrucianos tentaram impedir a fundação destas subdivisões na década de 80, pois acreditavam que iriam retirar ou, pelo menos, desviar o protagonismo e o fascínio destas sociedades ultra-secretas. O Colégio encarrega-se de perpetuar a pataciência criada por Jarry (que contou com distintos membros ao longo do séc. XX, como Boris Vian, Marcel Duchamp, Enrico Baj, Umberto Eco, etc), maquinar estudos eruditos sobre as ciências do Inculto e do Inútil e elaborar curricula altamente especializados e provocatórios (Liricopatologia e Clínica dos Retoriconosos, Cocodrilologia, Pedologia e Adelfismo, Cinematografia e Onirocrítica, Aliética e Ictibalística, Tonosofía Africana, Alcoolismo Estético, Infantilização Voluntária e Involuntária, etc). Lembro ainda que uma destas subcomissões portuguesas - a Universidade Independente de Lisboa - ganhou recentemente bastante mediatismo graças à averiguação febril e mobilizadora da autenticidade da licenciatura de um dos patafísicos mais proeminentes do nosso país.

segunda-feira, abril 30, 2007

Lição de cinema

Lição de cinema (e não só) do mestre antes do exame final em salas escuras.

sexta-feira, abril 27, 2007

Franco-atirador

Digo-te isto a ti, e só a ti, porque sei que me entendes. Estou na mira de um franco-atirador omnipresente, bem colocado. Tenho as mãos suadas e tremo das pernas só de pensar. Aguardo pelo momento seguinte, pelo único tiro que me vai prostar sobre terra. Mas essa bala nunca é disparada, ele regozija-se ao ver-me a agonizar assim. Tu sabes, não sabes? Olho para cima, para os lados, e nada, ninguém. E vou me dobrando, aos poucos. Mais ou menos quando um homem, tu e eu, não os poetas, esses não sei quem são, nunca vi nenhum, quando um homem, dizia eu, escava, esgadanha e não encontra nada. Não há linha seguinte. Não há vasilha dourada para depositar as cinzas das palavras que traz consigo desde o dia em que nasceu. Sorte madrasta, soluçamos a vida e depois deixamos de respirar. E é tudo. Nada a alegar em nossa defesa. Sei que me entendes. Falhámos redondamente a nossa missão e depois, tarde demais. O nosso apelido torna-se inominável e todos nos viram a cara.

segunda-feira, abril 23, 2007

Tocata Patafísica Para Dois


José Damasceno

- É tudo?
- Tudo?
- Já terminaste?
- Ainda não.
- Sabes que é difícil encontrares trapézios oblíquos em bom estado, nesta altura do ano.
- Amanhã saio cedo da fábrica, ainda posso encontrá-los no mercado.
- Enfim, não podes deixar de existir até amanhã?
- Sim.
- Na tua condição de dandy dotado não te importas de fechar essa torneira dourada?
- Sim.

Farpa

Porque é que os handicaps morais têm acesso a quase tudo? A vulgaridade é cantada e exarcebada em cada canto, louva-se os fracos, queremos beber todos do mesmo bebedouro e empaturramo-nos da mesma meda de feno. O fenómeno, quase hereditário, assume proporções bem mais graves do que a neurose nacionalista, facilmente previsível em clima de recessão económica. A descultura dos ruminantes veio para ficar: confiscamos o sublime e tentamos escravizar o belo.
Tem de haver espaço para tudo, dizem alguns.
Ah pois tem, naturalmente.

quarta-feira, abril 18, 2007

171196


Ángeles Ortiz

1

Nunca morei numa rua chamada Vidro. Chutei uma vez paralelepípedos. Cada dia passava como se num espelho - de ecos. Telefones, fios. Uma vez andei de barco num lago. Nunca me vi em meu próprio reflexo. Falas, conversas-uma só figura e pessoa. Alto-falante mudo. Também morei num apartamento minúsculo. Gosto do nome das ruas de alguns amigos. Amherst, Mílvia, Sírius. Não tenho tempo para nada. Meus cabelos caíram. Talvez isto seja tudo.

2

Meus antepassados vieram da Itália. Sicília. Nápoles. Veneza. Alessandro Bonvicino - Il Moretto. Também de Ponte Vedra, na Galícia. Meus antepassados, de mãe, vieram de minas. Meu nome: meu pai tirou de um cartão de visita.


"Céu-eclipse - Poemas Selecionados", Régis Bonvicino

terça-feira, abril 17, 2007

Elevador

Mastigo ainda os flocos de cereais biológicos que surrupiei da loja onde trabalha a minha irmã. Já estou atrasado. Sou um bom ladrão. O patrão não lhe paga, logo esvazio-lhe o stock. Primo o botão do elevador. Vermelho, ocupado. Vou mesmo chegar atrasado. Desaperto a braguilha e arranjo-me. Tlin! Os dois mormons que moram no 2º Traseiras. Bom dia. Ripostei e encaixei-me num canto.
- Para onde vai?
- Menos dois, garagem.
O elevador começa a descer como só ele sabe fazer. Encontrei um ponto de fixação visual na placa de manutenção. Silêncio, afinal de contas estamos num elevador. De repente, um deles desvia o olhar e encara o outro, começando a falar em inglês. Não parece nada satisfeito. O outro mantém a postura solene e vai anuindo com a cabeça. Tlin! Zero. Saem os dois e o mais americanado diz até logo. Continuo a minha descida.

Até que ponto o uso indevido de tinta para cabelos loiros pode abalar uma equipa religiosa predestinada a existir até aos Últimos Dias?

quinta-feira, abril 12, 2007

Com quantos paus se faz um curral?



A reconsiderar seriamente o meu ganha-pão.

quarta-feira, abril 11, 2007

Conversor


Philip Evergood

Simplesmente não sei se me considere tradutor técnico ou um mero conversor. Transformo palavras aparafusadas e rebitadas em Euros. Operação tão maquinal e trituradora como a tradução do manual de uma retroescavadora coreana que tenho em mãos.
Digam-me lá o nome de um tradutor técnico* famoso.

*Não é requisito obrigatório ter formação superior.

terça-feira, abril 10, 2007

C'era una volta il West

Poi, Bronson ha detto:
- Mio corpo è una prigione!!

(Não é oficial, mas os meninos da Arcádia voltaram a fazer das suas: dessacralizaram il grand finale de Leone).

segunda-feira, abril 09, 2007

Aguardo

Aguardo pacientemente a crise de meia-estação. Tão certa como a Ressureição. Como uma colónia de ácaros que se instalou na velha carpete vermelha da avó e que não quero de modo algum desparasitar. Não sou funcional.
De olhos postos no céu azul (os anjos usam GPS?), estou na margem à espera do incansável barqueiro que traz grinaldas na barcaça em vez de bóias laranja. A brisa quente orquestra negros tambores que ribombam ao longe. Alguém puxa pelo meu casaco. A criança ao meu lado diz-me ao ouvido que este rio não tem nome e que os afluentes são lágrimas de mulheres abandonadas. A corrente é forte.

sexta-feira, abril 06, 2007

quarta-feira, abril 04, 2007

Trabalho

são deuses invejosos e irados que se escondem debaixo das nossas secretárias, das bancadas de trabalho, que nos amaldiçoam, sabotando e maculando o nosso trabalho. Medem forças entre si em batalhas de corredores e departamentos. E como se isto não bastasse, o chefe sacrifica o mais fraco, a ignomínia pública, à frente de todos, o cheiro a carne queimada. Cada um defende-se como pode: o sensual seduz, a assexuado espalha a vulgaridade e conspira, o monoteísta esconde-se e reza na casa de banho, várias vezes ao dia.

segunda-feira, abril 02, 2007

Eu sou aquilo que falta


Hieronymus Bosch

Eu sou aquilo que falta
ao mundo em que vivo,
aquele que entre todos
jamais encontrarei.
Rodando sobre mim mesmo agora coincido
com o que me foi tirado.
Eu sou o meu eclipse
a revelia, o desconsolo
o objecto geométrico
a que para sempre deverei renunciar.


Valerio Magrelli, "A Espinha do P"
Trad. colectiva (Mateus, 1992)
Quetzal Editores

quinta-feira, março 29, 2007

Efeito borboleta

Dar uma trinca no chocolate da generosa colega e levantar-se um violento furacão no Golfo do México.

quarta-feira, março 28, 2007

Super Flumina Babylonis


Alex Nowik

Remexendo nela, tirou de um canto umas folhas de papel, o tinteirinho, com a pena enfiada no anel, que se habituara, desde o primeiro embarque, a guardar assim. De joelhos, com as dores neles e nas partes aumentando muito agudas e em picadas de que cerrava os dentes, veio até à mesa, pousou nela o que trazia, e levantou-se. Ficou um momento, de olhos fechados, arquejando. Já as palavras tumultuavam nele, confundidas com as outras, inúteis e mortas, da tradução que tentara. Eram como uma tremura que o percorria todo de arrepios, com hesitações leves, concentrando-se em pequenas zonas da pele. Debruçando-se da mesa a que se apoiava, puxou para o seu lado a cadeira, e caiu sentado nela. Sentia um suor frio escorrer-lhe pela testa, e, ao abrir o tinteiro, viu que as costas das mãos brilhavam perladas. Uma onda de alegria o inundou, em sacões ansiosos. Os olhos ardiam-lhe e era de lágrimas. Tudo falhara, tudo, e a própria poesia o abandonara, receosa dos seus olhos penetrantes que viam o fundo das coisas. Era o poço com as formas flutuando. Mas era um grande poeta, transformava em poesia tudo o que tocava, mesmo a miséria, mesmo a amargura, mesmo o abandono da poesia. Tremendo todo, mas com a mão muito firme, começou a escrever... Sobre os rios que vão de Babilónia a Sião assentado me achei... Riscou, desesperado. Recomeçou. Sobre os rios que vão por Babilónia me achei onde sentado chorei as lembranças de Sião e quanto nela passei...
E ficou escrevendo pela noite adiante.

Jorge de Sena, "Antigas e novas andanças do demónio"
Edições 70

segunda-feira, março 26, 2007

Acto I

Estava muito calor nessa tarde. A governanta encaminhou o seu doutor para o quarto da menina Laura. O seu doutor já era amigo do papá deste os tempos de Coimbra. Tirou o estetoscópio da maleta e pediu-lhe para abrir a blusa. A menina Laura faz sempre o que lhe pedem. Escorriam lágrimas de suor do seu peito que cheirava a leite de coco. O seu doutor limpa a fronte e tenta a sua sorte:
- não gosto deste tipo que está a falar.
- porquê?
- não gosto de grandes actores. São uns pretenciosos, fingem que são humildes. Representam até quando morrem.
A menina não tirou os olhos da televisão.
- mas a Laurinha gosta de teatro?
- não...isto é, gosto de ver revista na televisão. Sou alérgica ao pó do palco e já tive ataques de epilepsia por causa das luzes.
- ah..é pena, sabe. Tenho aqui dois bilhetes que me arranjaram para uma peçazinha no Maria II.
- eu vou falar com o papá logo, talvez ele queira ir.
- não se incomode menina, eu próprio falo com ele. Vá, respire fundo agora.

Acto II

- Já chegaram as meninas Didascálias? Atrasam-se sempre, é que não já há pachorra. Mais cinco minutos e palavra de honra que me vou embora!

Acto III

Macintosh ama Macbeth perdidamente. Mas Macbeth ama MacDonald. Macintosh rasga Macbeth e formata-se logo em seguida.
MacDonald entra em estado vegetativo e fecha as portas.

verniz

este blog está a precisar de ser lixado e envernizado, cheira um pouco a caruncho nos cantos e está a perder cor. talvez entre em mudanças brevemente.